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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

10
Jan19

Viver por uma ideia


Pedro Azevedo

Os últimos dias permitiram-me questionar quão débeis são as convicções dos sportinguistas. Na verdade, em essência, elas são como aquelas casas de madeira com telhados de colmo: abanam com o vento e são altamente inflamáveis. Talvez tal se possa atribuir à falta de títulos ou, simplesmente, seja uma forma singular de se ser português - e o Sporting, dos três "grandes", é o único que tem Portugal na sua denominação -, mas é relativamente comum observar os nossos adeptos dizerem uma coisa e o seu simétrico em menos tempo do que aquele que o Usain Bolt levava a percorrer o hectómetro.  

 

A felicidade para um sportinguista é comparável a estar de boa saúde: um estado transitório que não augura nada de bom. Por isso, nunca vivemos o momento - menos "carpe diem" e mais carpir o dia - e as vitórias são vividas com a angústia de quem percepciona que só se está a adiar o inevitável. Enquanto os outros comemoram esfuziantemente os seus triunfos, nós mostramos aquele recato de quem já se está a prevenir para uma futura desilusão. No fundo, temos medo de ser felizes.

 

No presente, isto nota-se no sentimento para com Marcel Keizer. O treinador holandês chegou e em tempo record, praticamente sem treinos, montou um esquema táctico assente em ideias de um futebol positivo. As vitórias vieram em catarse. Os golos também. Disputámos sete partidas, vencemo-las todos, marcámos trinta golos e consentimos oito. Qualquer adepto de aquém e além mar ficaria transbordante de alegria. Os sportinguistas não. Históricamente, e como disse em cima, é muito fácil abanar a convicção de um sportinguista, seja ele adepto, jogador, treinador ou presidente, e os nossos adversários, rapidamente, puseram em marcha um plano destinado a, primeiro, criar a dúvida, depois a discórdia. A coisa começou com a apresentação de um fragmento da realidade, os golos sofridos pela nossa equipa na era Keizer. Este chavão, muitas vezes repetido, começou a fazer mossa, porque muitos sportinguistas morderam o anzol e desataram a dar-lhe eco. Acontece que o contido Keizer às tantas acrescentou um pouco de cor às suas conferências de imprensa e declarou preferir ganhar por 3-2 do que por 1-0. Caiu o Carmo e a Trindade. Logo os jornalistas encostaram o microfone a Sérgio Conceição - sempre pronto a dar uma bicada a um treinador rival como o episódio com Rui Vitória abundantemente demonstra - e este não se fez rogado e perorou sobre as vantagens do 1-0 e da solidez defensiva, a base de um conjunto de preconceitos na qual o treinador português se protege e, simultaneamente, se ancora para afirmar a sua pretensa superioridade perante o mundo, e que ganha outra expressão pelo feito de termos ganho um Campeonato da Europa, mesmo que com apenas uma vitória (em sete jogos) no tempo regulamentar e com uma equipa onde se destacava o melhor jogador do Mundo (Cristiano Ronaldo). 

 

Assim, um simples "spin" comunicacional deixou-nos a duvidar de nós próprios. O Leitor consegue imaginar que um ladrão se vá preocupar com o desgaste da broca do berbequim que usou para arrombar o canhão de uma fechadura depois de assaltar uma residência de luxo e daí extrair um valioso recheio? É provável que sim, se o ladrão for sportinguista. Em vez de não nos deixarmos enganar e valorizarmos os bons espectáculos de futebol que Keizer nos servia, logo nos deixámos contaminar pela opinião pública. Acredito que estas coisas se propagam como os incêndios nos telhados de colmo e que chegam a jogadores, técnicos e restante Estrutura. E a verdade é que, a partir de Guimarães, foram introduzidas algumas nuances no nosso jogo que lhe retiraram espontaneidade ofensiva, tudo em nome de uma suposta melhor solidez defensiva. E estou em crer que essa procura de equilíbrio está na origem do desequilíbrio que nos conduziu às derrotas na cidade-berço e em Tondela. Como?

 

Se observarmos bem, alguns princípios introduzidos por Keizer não estiveram tão presentes nesses jogos. A saber: a saída de bola deixou de ser feita exclusivamente pelo centro, os centrais foram muitas vezes rendidos pelo trinco ou pelos laterais no início de construção, o trinco deixou de estar na sua posição para recuar uma linha e pegar na bola - alargando o fosso para os outros dois homens do meio campo -, os laterais deixaram de fazer movimentos de profundidade que mais não eram do que um engodo para a bola voltar ao centro, os alas esticaram em largura em detrimento dos movimentos interiores de outrora - ficando assim desposicionados para a transição adversária -, finalmente o banco de suplentes só tinha um jogador atacante, como que demonstrando que a preocupação era a de preparar a equipa para o combate do meio-campo. Se isto não é adaptação e estudo do adversário e, em certa medida, aculturação ao meio envolvente, então não sei o que diga.  

 

Eu quero que Keizer volte a ser Keizer, com o seu futebol avassalador feito de vertigem atacante, mesmo que isso nos cause alguns contratempos. Se tudo estiver destinado no sentido de este período ser o Inverno do nosso descontentamento, então prefirirei sempre ter vivido o sonho de uma(s) noite(s) de Outono com Keizer do que a crónica de uma morte anunciada, que era o que nos estava destinado com Peseiro (com o devido respeito pela pessoa). Até porque é sempre bom vivermos e morrermos pelas nossas convicções, em detrimento de o fazermos pelas convicções de outros, os quais muitas vezes estão só à espera de uma escorregadela para iniciarem as hostilidades, naquilo que configura uma estranha forma de vida sportinguista.

 

Não é de hoje a permeabilidade dos sportinguistas. Vem de trás e não se prende só com as análises que são feitas sobre os treinadores. Analisemos o caso de Acuña: no outro dia, ouvi um comentador do nosso clube queixar-se de falta de atitude dos jogadores, na mesma frase criticando também o argentino por motivos disciplinares. Ora, na minha opinião, o esquerdino é daqueles jogadores raçudos, de antes quebrar que torcer, que dá tudo pela equipa. Se jogasse no Benfica seria incensado, elevado ao olimpo dos deuses. Provavelmente, com um currículo disciplinar mais benigno, do tipo de um Ruben Dias ou de um Fejsa, qualquer um deles bem mais faltoso do que o nosso jogador. Mas, como joga no Sporting, o seu cadastro é o que é. No outro dia, em Alvalade, assisti a um jogo onde a equipa adversária durante 30 minutos bateu em tudo o que mexeu equipado de verde-e-branco, conseguindo assim intimidar a nossa equipa. A coisa só parou quando Acuña "mostrou os dentes". Reacção do público: "lá está o Acuña outra vez a fazer das suas". É difícil conviver com isto e imagino que seja complicado para o jogador aceitar isto dos seus adeptos, também. 

 

O texto já vai longo, mas gostaria para terminar de lembrar algumas das nossas célebres indecisões (ou perda de convicções) que poderão estar na origem dos insucessos presentes: após a caminhada triunfante de 1999/2000, em que o italiano DiFranceschi muito se destacou, deixámos sair o ala para Itália. Alegadamente, porque não quisemos pagar uma cláusula de opção de 1,5 milhões de euros. Espalhou-se o boato de que o jogador andava na noite, talvez para justificar a decisão, mas se andava disfarçava bem, até porque de dia, naquelas segundas partes em que defendiamos sempre o resultado, era ele quem nos levava para a frente com as suas imparáveis cavalgadas. Resultado: o italiano saiu e chegaram Alan Delon, perdão, Mahon e um tal de Tello, que custou uns módicos 6 milhões de euros conforme na altura foi anunciado. Depois, despedimos o treinador campeão (Augusto Inácio), que nos tinha resgatado de 18 anos de jejum. Mourinho esteve para ser apresentado, mas meia-dúzia de energúmenos que invadiram a sala de conferência de imprensa foram determinantes para inviabilizar a sua contratação, não obstante os rumores da época indicarem que tivemos de indemnizar o treinador setubalense por quebra contratual. Resultado: nem demos tempo (ou mostrámos apreço) a um treinador campeão e sportinguista nem contratámos o emergente "Special One". Enfim, muitos anos, muitos casos - podia falar aqui da aposta mais ou menos envergonhada na Formação -, mas sempre com uma matriz comum, a falta de convicção. Por isso, pela nossa felicidade, por uma vez, deixem Keizer ser Keizer, o nosso Dr. Feel Good. E, já agora, deem-lhe alguma matéria-prima de qualidade, a fim de que pelo menos no "onze" base não se notem insuficiências.

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