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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

20
Out21

Tudo ao molho e fé em Deus

Coates alargou o outrora Estreito


Pedro Azevedo

O Bósforo é um estreito que divide os continentes europeu e asiático. Segundo reza a mitologia grega, o seu nome significa "passagem da vaca", em alusão a Io, sacerdotisa de Hera, que o atravessou a nado depois de Zeus, que por si se enamorou, a ter transformado numa novilha a fim de esconder a sua forma humana de Hera. Talvez o primeiro golo do Sporting possa ser atribuído à "vaca", dado ter contrariado a forte corrente até aí dominante, mas creio que nesta coisa de mitologias para a história prevalecerá a Sportinguista, que sempre associará esta passagem pelo Bósforo ao capitão Coates, o deus cujos super-poderes alargaram o Estreito e permitiram à comitiva leonina concluir com sucesso a sua expedição por terras turcas. (Doravante, chamar Estreito de Coates ao Bósforo seria uma bonita homenagem Sportinguista a este seu feito heróico, se estreito não constituísse uma contradição nos termos face ao a todos os títulos gigante uruguaio.)

 

Sendo certo que na alvorada do jogo o Paulinho até poderia ter adiantado o Sporting no marcador, a verdade é que os leões passaram um mau bocado nos primeiros 15 minutos. Durante algum tempo foi otomanos contra "oito manos", dado que os dois Matheus e Palhinha estiveram nesse período completamente fora do jogo. Depois, o golo de Coates acalmou um pouco a equipa, e mesmo o tento irregular dos turcos não a disturbou o suficiente porque El Patrón logo se encarregou de bisar como se de uma fotocópia se tratasse. E seria uma vez mais o uruguaio a cavar diferenças quando, novamente de bola parada, assinou uma sentença de morte para o keeper turco, pena temporariamente comutada pela mão de quem quis dar Vida aos otomanos. Desta vez sem remelas nos olhos, o tribunal videoarbitral presente em Istambul decidiu pelo castigo máximo. Em sequência, Sarabia executou a decisão de forma competente. Até ao intervalo haveria um novo susto, mas o fio da vida com que o deus Coates exemplarmente conduziu durante todo o jogo a linha de fora de jogo fez com que a brilhante execução do brasileiro Alex Teixeira de nada valesse ao Besiktas. Íamos assim para o intervalo com a sorte do jogo, que é como quem diz com a importância de ter Coates. 

 

O segundo tempo foi completamente diferente. Não fora as dificuldades de comunicação entre os 3 homens da frente e as más decisões no momento da finalização dir-se-ia até que o marcador final poderia ter assumido proporções bíblicas para uns turcos certamente nada interessados em ficar ligados a algo de cariz religioso que não tivesse a ver com o Corão. O nosso domínio assentou então na entrada em jogo de Palhinha e de Matheus Nunes, que acertaram as marcações e conseguiram finalmente minorar os efeitos da inferioridade numérica no meio campo, uma realidade já anteriormente vista nesta Champions e que ontem só não produziu resultados mais nocivos por o adversário ter a dinâmica mas não ter a qualidade de um Ajax. E quando o treinador turco tirou o médio Alex Teixeira e substituiu-o por mais um avançado (Karaman), então o mar negro ficou definitivamente para trás e os leões puderam enfim chegar a bom porto. Ainda houve tempo para o Paulinho fazer uma gracinha, ele que ameaça especializar-se em marcar os golos mais difíceis e em falhar os mais fáceis. Sobre esse tema, estou convencido que o que está errado na avaliação deste jogador é vê-lo como um goleador. Quem assim pensa vai cumprir várias etapas de frustração, lance após lance vendo o transporte da bola até Paulinho condenado a um provável trabalho de Sísifo. Porém, se olharmos para o que labora dentro do campo e a forma inteligente como liga o jogo da equipa, então o nosso sentimento de afeição crescerá bastante em relação a ele. Pensem nisso! (Alternativamente, podem pedir ao Vosso médico de família para Vos receitar o Prozac, que a discussão entre prosaicos e "prozaques" não ficará por aqui.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Coates (who else?). Adán esteve excelente na mancha e Palhinha enorme na recuperação de bola no segundo tempo. Porro mostrou a garra de leão do costume. 

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16
Out21

Tudo ao molho e fé em Deus

Regresso ao passado


Pedro Azevedo

Já não sou do tempo das Salésias, do Matateu, Vicente, Yaúca, ou, ainda mais remotamente, do Serafim, Vasco, Feliciano, Capela, Amaro, Jose Pedro Basaliza, Rafael, Scopelli, Tellechea, Di Pace ou Quaresma. Não, eu sou é contemporâneo do Restelo e do seu lindo recorte para o rio e o Cristo Rei, um estádio de uma beleza singular e onde ainda vi jogar uma bela equipa do Belém em que pontificavam o canhoto Paco Gonzalez, o meia Godinho e o ala Vasques, entre outras gerações de bons jogadores onde se incluíam o atacante Djão, o médio Gonçalves e o central goleador Luis Horta. Hoje, esse Belenenses ainda existe porque houve alguém que escolheu viver em vez de simplesmente sobreviver, por muito que isso tenha significado a queda nas profundezas das competições nacionais. Só que não caminha sozinho, como ontem abundantemente se pôde observar nas bancadas bem compostas do Restelo, ao contrário da homónima entidade (it's SAD, como diria um amigo meu inglês) que em tempos lhe usurpou o nome mas nunca a identidade. Por isso, o momento do jogo ocorreu singularmente já após este acabar, quando o speaker de serviço fez lembrar a importância de ter memória e da resistência em tempos de crise, marcando assim um grande golo em direcção a um futuro que se espera um dia poder ser de reconciliação com o passado glorioso de uma grande instituição centenária. A comunhão que em sequência se gerou um pouco por todo o estádio, unindo Belenenses e Sportinguistas, foi comovente e demonstrativa de que o ser humano é capaz do seu melhor quando (bem) orientado para causas justas e nobres. 


O jogo? O Sporting tinha tudo a perder, o Belenenses já tinha ganho antes mesmo do jogo começar porque a mole humana que se deslocou ao Restelo assim o obrigava, dirigindo cada um dos seus resilientes adeptos para um alegre e não nostálgico regresso ao passado e fornecendo alento para a perseverança necessária para o reencontro com esse passado num futuro que se deseja o menos longínquo possível. Talvez por terem tudo a perder, os leões entraram de garras bem afiadas e marcaram  logo na alvorada do jogo: o regressado Pote rasgou a régua e esquadro a defesa azul, Vinagre centrou para a área e TT encostou serenamente ao segundo poste. Uma jogada geometricamente perfeita. Em perfeita sintonia com os de Belém, os leões mostravam também esta ser uma noite de reencontros: de Pote com os relvados, de Vinagre com a boa forma, de TT com os golos. Acordando cedo para o jogo, os pupilos de Amorim tardaram no entanto a matá-lo. Para tal muito contribuíram os inúmeros falhanços na cara do guarda-redes do clube da Cruz de Cristo, com Pote e TT em particular evidência. Assim, o intervalo chegou com o jogo ainda em aberto. 

O segundo tempo manteve a incerteza no marcador durante muito tempo. Não propriamente porque Os Belenenses incomodassem, mas porque o Sporting jogava francamente pior e complicava o que não parecia difícil. Com o jogo assim, temia-se que uma bola parada pudesse equilibrar a contenda, mas curiosamente acabaria por ser através desse quinto momento do jogo que o Sporting viria a ampliar o resultado. E por três vezes!  

No Sporting gostei particularmente de Gonçalo Esteves, um lateral/ala que não se limita a dar profundidade e vai à bolina (diagonais de 45 graus) procurar o jogo interior, e de Ugarte, um patrão que veste a pele de operário quando é preciso, aliando visão, técnica e disponibilidade física. Daniel Bragança mostrou a qualidade de passe a que nos habituou e Matheus Nunes, mesmo improvisado a ala, encantou pelas acelerações nos arranques que deixaram os azuis agarrados ao chão. Uma nota dissonantemente negativa para a lesão de Porro, ferido na região da tíbio-társica devido a uma tesourada aplicada por um amolador azul que ficou a assobiar para o lado perante a inércia do homem do apito. 

Tenor "Tudo ao molho...": Manuel Ugarte

 

03
Out21

Tudo ao molho e fé em Deus

De Arouca até Bragança


Pedro Azevedo

Os jogos com o Arouca não se disputam só no relvado e são sempre muito aguardados pelos adeptos. A coisa geralmente envolve animados encontros em túneis e casas de banho, experiências performativas com cigarros electrónicos e dissertações semânticas que pretendem evocar o melhor da literatura  de Bocage. Associados estão também mulrifacetados números de circo, desde as palhaçadas a cargo do Lito das cambalhotas até ao contorcionismo protagonizado por toda a dinastia dos Pinhos. Tudo isto é já um clássico destes embates, e sem isto o jogo em si tende a ser sensaborão independentemente dos golos que se marcarem no campo. Da sua ausência todos nos ressentimos (ou será que não?) ontem, consequência provável da pandemia e do lento desconfinar que ainda recomenda o uso de máscara e algum afastamento social. 

O centralão que governa o país há anos parece também ter contagiado o Ruben Amorim e este começou a aproximar gente dos extremos para posições centrais. Assim, o Coates, nosso Ministro da Defesa. viu-se subitamente assessorado por dois novos secretários de estado. Um deles, o Esgaio, ou não fosse nazareno, ficou com a pasta do mar. Não se pode dizer que não tenha cumprido com as suas obrigações protocolares, nomeadamente quando andou à pesca atrás de um arenque arouquense tão rápido que nem cheirou o isco.  

Por falar em ministérios, o do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social voltou a estar na berlinda. O seu titular, João Paulo ou Paulinho, é sem dúvida trabalhador, mas na hora da verdade puxa mais para a solidariedade e quem se ressente é a segurança dos sócios Sportinguistas. 

De Arouca até Bragança os beirões lá foram pondo o pé em ramo verde, mas a partir de Bragança (inclusivé) as coisas já não lhes correram tão bem. Depois apareceram as invasões francesas lideradas pelo general Sarabia e a capitulação foi quase total. Perto de Bragança, da casa de Matheus, também veio contribuição valiosa, com Nunes e Reis a destacarem-se em simultâneo. E o agitador Nuno Santos não lhes quis ficar atrás e deu a estocada final nas aspirações do desalentado Evangelista de Arouca, que já havia visto o evangelho começar a ser narrado pelo Matheus. 

Tenor "Tudo ao molho...": Sarabia 

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29
Set21

Tudo ao molho e fé em Deus

Universidade Europeia


Pedro Azevedo

Leio que os nossos jogadores ingressaram na Universidade. Europeia, ao que parece. Uns, como Inácio, Bragança, Porro, Matheus Nunes ou TT, vieram directamente do décimo segundo ano, outros (Neto ou Feddal) são trabalhadores-estudantes que retomam agora os estudos e pretendem completar algumas cadeiras depois de anos de especialização como operários, todos juntos são inexperientes (ou pouco experientes) neste nível educativo. Ao que parece o intercâmbio com outros alunos europeus vem mostrando essas lacunas. Mais adiantados, os holandeses beneficiam de anos do programa Erasmus. E os alemães da Renânia de Norte-Vestfália crescem diariamente com a concorrência interna dos bem preparados alunos bávaros. Um dos nossos maiores problemas reside na falta de compreensão da álgebra elementar. Imagine-se uma zona nevrálgica do terreno que todos povoam pelo menos a três. Se nós só tivermos 2 homens, então precisaremos de um X que adicionado garanta os 3. Posto em equação matemática, teríamos X+2=3, em que X seria igual a 1. A questão é que o Sôtor Amorim insiste que X=0, como se quisesse provar que 2=3. Assim sendo, das duas uma: ou Amorim, através das demonstrações com os seus alunos, ganha o prémio nóbel da matemática, ou então o chumbo é certo. Outra dificuldade com que se deparam os nossos alunos é o da escassez de recursos. É que quem está de fora parece não compreender que não se podem ter desejos humanos quase infinitos num mundo de recursos limitados. Há por isso que continuar a investir na produção própria pois ela tem um baixo custo. Todavia, algumas críticas até podem ser justas, nomeadamente quando havendo poucos recursos se investe fortemente em algo ou alguém que não está sintonizado com o objectivo de uma função. Assim, mais do que cumprir-se com a função de obedecer ao desejo humano de grandeza, está a matar-se simplesmente o desejo. Porém, nem tudo é negativo. Por exemplo, os alunos Matheus Nunes e Pedro Porro vêm mostrando um nível internacional. As suas notas têm sido muito boas e isso prova que que em Portugal também há talento para trabalhar. O Palhinha é outro que tal, porém desatenções como a de ontem poderão revelar-se-lhe fatais. É que a expressão "Watch your Back!" será sempre um ensinamento a recolher, se não quisermos estar na vida de uma forma bizantina. E, por falar em Bizâncio, os turcos (de Istambul) estão já aí ao virar da esquina. Uma boa oportunidade para os nossos alunos mostrarem que não andam na Europa a passear os livros. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Matheus Nunes ("Mustang")

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27
Set21

Tudo ao molho e fé em Deus

De canário a leão


Pedro Azevedo

Na antecâmara do jogo de Sexta-feira, o Nostradamus que há em A Bola profetizava que o mundo iria acabar em 2000 e que o Ugarte jogaria contra o Marítimo em 24 de Setembro de 2021. À hora marcada, desejoso de ver em acção o uruguaio, sentei-me à frente do televisor. Que boa surpresa eu tive! Realmente, não esperava um jogador tão maduro, tão seguro das suas qualidades e senhor dos terrenos onde pisa. O único inconveniente foi o senhor da SportTV passar o tempo a chamá-lo de João Palhinha. É que, depois de tanto canto de sereia a reclamar poupanças, nem de fora o Palhinha escapou a ser usado até à exaustão! O meu maior pavor é que agora o Nostradamus de A Bola indique que futuramente o Porro também irá ser poupado. Sinceramente, espero que essa previsão se estenda para além de 2035, período em que o espanhol já deverá estar a jogar com a segurança social do país vizinho. Até lá, eu quero é que o canário (Las Palmas) Porro agite a nossa ala direita e seja a segurança dos sócios do Sporting pelos golos que não poupa na baliza dos adversários. 

 

Para se ser jogador do Sporting é preciso ter um dom. O dom favorito dos nossos jogadores é a esmerada arte de perdoar em frente à baliza. Por isso, o nosso coração fica assim como uma feira popular, oscilando numa montanha russa de emoções. Bom, se calhar a metáfora não é muito apropriada, desde logo porque quem diz Feira Popular diz farturas, e fartura de golos é coisa que não nos assiste. Ainda assim, vencemos da mesma forma que tantas vezes no passado, o que só pode ser um bom presságio (esta equipa nunca se rende). Ganhando tempo para que o Nuno Santos afine o pé esquerdo e o Paulinho encomende um direito ou então marque de letra. Esta última (a letra) seria uma boa alternativa para quem não tem números. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pedro Porro

 

P.S. Desconheço a existência de uma Paulinha, mas talvez a Mariana Cabral nos pudesse emprestar uma Brenda Perez ou, mais apropriadamente pela posição no terreno, uma Diana Silva. É que as miúdas marcam golos que se fartam e esmeram-se particularmente quando do outro lado estão equipas de vestem de encarnado. 

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20
Set21

Tudo ao molho e fé em Deus

Levante e ria


Pedro Azevedo

Depois do contacto com uns neerlandeses com nome de desinfectante, os jogadores do Sporting rumaram até à Amoreira com o corpo cheio de tintura de iodo e de mercurocromo. E pensos. Penso, logo desisto (como o Mamede)? Nada disso, ou não fosse um jogo a contar para a Liga Betadine (famosa casa de apostas anti-sépticas), e os nossos valentes rapazes dispuseram-se a trazer ainda mais 3 pontos no corpo para garantir a vitória. 

 

Um jogo no Vale da Amoreira é sempre uma boa promoção do futebol das energias renováveis. Em particular, do vento (eólica), que habitualmente faz-se sentir com inusitada intensidade. Por isso, tanto podemos assistir a golos de baliza a baliza e de canto directo como a testes de aerodinâmica da Ferrari e de outras equipas de competição automóvel. Ferraris não se viram, desde logo porque o JJ nunca foi fã dos ares do Estoril e ainda anda a lidar com o excesso de peças em MaraSeixalnello, pelo que o Rúben Amorim aproveitou para vir experimentar os seus domesticamente vitoriosos minis. E o teste nem correu mal. Bom, se o Adán não tivesse oito braços como um polvo a coisa poderia ter dado para o torto, mas assim deu tempo para que tudo se compusesse. E levou tempo, ai se levou! Por exemplo, foram precisos um cabeçudo, uma rodinha e uma paulada até um corridinho do Paulinho ser interrompido por um estorilista com o pé pesado e fora do ritmo e a dança da sorte nos sorrir. Chegou então o tempo para o reencontro do Xico Geraldes com os Sportinguistas, acto que se proporcionou através do insistente contacto com as canelas dos mesmos. Houve logo quem lhe chamasse um ensaio sobre a cegueira...  

 

Por muito que soprasse o vento foi como se não mexesse um(a) Palhinha. E isso é o melhor que se pode dizer do João, que a seu lado teve o Porro, que marcou um golo, e o Paulinho, que se mexeu muito. O Adán também foi importante, decisivo num momento que poderia ter sido chave do jogo. Regressado, o capitão Coates devolveu serenidade ao trio defensivo. Todos juntos, formaram um quinteto largamente responsável pela nossa importante vitória de ontem.

 

Pois é, parece que estamos de volta. Ou, como diria Mark Twain, as notícias da nossa morte foram manifestamente exageradas. Caímos, é certo, mas ontem o vento indicou levante.

 

Tenor "Tudo ao molho...": João Palhinha

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16
Set21

Tudo ao molho e fé em Deus

Antony and the “Johnsons”


Pedro Azevedo

Quando aos 20 minutos Rúben Amorim olhou para o relvado e viu Inácio pedir a substituição sentiu que algo de apocalíptico podia acontecer. Vai daí, pensou no Nazareno como salvador. Mas Jesus Cristo, diga-se de passagem que compreensivelmente, andava por essa altura absorto com outros flagelos de igual dimensão no mundo (a fome, o desemprego, os refugiados, a pandemia...), pelo que totalmente indisponível, razão que levou Amorim a ter de improvisar com o nazareno do (António) Salvador, o Esgaio. A opção de Esgaio para central não deixou de surpreender. É que, tendo em conta o que se vem ouvindo com alguma compaixão ou comiseração por parte dos adeptos leoninos, as exuberantes qualidades defensivas do avançado Paulinho recomendá-lo-iam prioritariamente para a posição. Acontece porém que o nosso treinador manteve a fé no Paulinho goleador (o Coates estava impedido de jogar) e viria a ser premiado pouco depois quando o guarda-redes do Ajax permitiu que a raposa (epíteto comum aos pontas de lança) entrasse na capoeira e visasse o frango. Por aí tudo bem, e o povo voltou a acreditar. Só que não é com Vinagre que se apanham moscas e o Antony, com ou sem os Johnsons, foi zumbindo e zumbindo sobre a nossa ala esquerda, sem que o Nuno Santos se preocupasse em evitar os sucessivos 1x1 que a sua musiquinha ia entoando. Haller que se faz tarde, o ponta de lança dos lanceiros, na sua época de estreia na liga dourada, agradeceu para praticamente sentenciar o título de melhor marcador desta edição da Champions. 

 

Por essa altura, do nosso lado apenas o Matheus Nunes e o Porro mostravam competência para este nível de competição. Ainda procuraram dar-se como bóia de salvação ao resto da equipa, mas o Neto, o Esgaio e o Feddal metiam água por todos os lados, o Vinagre já era cadáver e a Pamela Anderson, o Hasselhoff e a restante patrulha do Baywatch há muito tempo que havia metido os papéis para a reforma. Adicionalmente, incapaz de se segurar fosse ao que fosse, baralhado nas sinapses pelas sucessivas e rápidas variações do centro de jogo impostas por Ryan Gravenberch, o motor do jogo neerlandês, o Palhinha andava completamente à deriva. Porém, com o Ajax a jogar o jogo pelo jogo e a não baixar linhas, a ingenuidade neerlandesa ainda fez acalentar a esperança e a ilusão dos adeptos. Assim, Palhinha e Feddal desperdiçaram boas oportunidades de reduzir diferenças antes do intervalo. 

 

No regresso dos balneários, o Amorim tirou o Vinagre e o Jovane e meteu o Matheus Reis (esquerda) e o Sarabia (direita). Mudou o bartender, mas o nosso flanco esquerdo continuou a ser um bar aberto para o Ajax saciar a sede de golos, com Antony e Mazraoui a criarem mais oportunidades para o Haller facturar. É certo que o Paulinho ainda marcou o que poderia ter sido o momentâneo 2-3 (e seu segundo golo na partida) e o Porro chutou ao poste, mas por essa altura já vigorava a Lei de Murphy, que fez inchar o pé do nosso ponta de lança para além dos limites regulamentares e impediu um grande golo, ou produziu um estranho efeito no ferro que o fez fundir mais a bola com as mãos do guarda-redes. 

 

Onde vai um, vão todos (ontem dizia alguém jocosamente que foram 5...) deve e vai continuar a ser o mote aglutinador. Mas o Sporting não pode abordar a grande montra onde tem a oportunidade de exibir os seus jogadores (e o clube) da forma que ontem se viu. Que começou na falta de uma estratégia que condicionasse o Antony sem que isso significasse abdicarmos dos nossos princípios de jogo, ou na não-transformação do sistema de 3-4-3 para 3-5-2 com a entrada de Daniel Bragança para o miolo (algo já testado no passado) e consequente fortalecimento do nosso meio campo (e respirar com bola, coisa que ontem não se viu). Adicionalmente, a ausência do capitão Coates foi por demais sentida, assim como a baixa de Pote, um jogador cuja inteligência teria certamente tirado partido do espaço entre-linhas que os neerlandeses permitiram durante a maior parte do tempo e não foi aproveitado por falta de discernimento dos nossos. Sendo que muitas vezes é nas derrotas que aprendemos as grandes lições da nossa vida que nos permitem evoluir, acreditemos na resposta dos nossos. O Rúben tem créditos. Lembram-se do pós-Lask Linz? Aí, leões!!!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Matheus Nunes

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12
Set21

Tudo ao molho e fé em Deus

O Dress-Code foi amarelo


Pedro Azevedo

Ontem em Alvalade houve jogo grande. Dia de festa pede "dress-code" e Nuno Almeida não hesitou em eleger o amarelo no relvado, obrigando leões e dragões a paritariamente se distribuírem com essa cor. Não se sabe se a ideia foi promover a solidariedade, mas no fim os Sportinguistas que assistiram ao jogo também ficaram um pouco amarelados. E porquê? Desde logo porque tiveram a confirmação de que nas recepções ao Porto vale tudo menos tirar olhos dentro da área portista. Já sabíamos que no passado um empurrão de Zaidu a Pote não havia dado grande penalidade, ontem ficámos a saber que um murro nos queixos também não dá. (Ou como um murro desferido por Pepe nos queixos de Coates se transforma num soco no estômago dos adeptos leoninos.) Bem sei, o Porto de Pinto da Costa e de Reinaldo Teles, mas também do guarda Abel e de Pepe, leva-nos muitos anos de avanço em experiência com a secção de boxe, não havia necessidade era de o VAR dar um "(upper)cut" nas imagens e um "knock-out" às regras do jogo. E depois ainda há quem fale no Fontelas e nos queira ver beneficiados pelas arbitragens... Eu estou a perceber o racional: o árbitro pinta abundantemente de amarelo, o VAR mistura com muito azul e o produto só pode ser verde, não é? 

 

O jogo? Há um bocadinho fui à janela e juro que vi o Porro ainda a correr. O homem é incansável e faz várias séries de 110 metros barreiras por jogo. Só que, no futebol, barreiras estáticas só aquelas da publicidade, da Betano ou lá o que é, as outras são dinâmicas e até investem contra as pernas. Mas ao Porro tanto se lhe dá. Venha fulano, beltrano, sicrano, Betano ou Marcano, é sempre para superar. Já o Nuno Santos é um hiperactivo, não consegue estar parado nem calado. Barafusta com os colegas, mói o juízo aos adversários, sua as estopinhas - é um agitador. Não peçam é a um espalha-brasas para depois ter frieza na hora da finalização. Para completar o trio mais proeminente de ontem à noite falta o Matheus. O Menino do Rio não se viu naqueles raides de área a área tão característicos seus. Não, em face da inferioridade numérica no meio campo, Matheus preocupou-se em garantir os equilíbrios defensivos e optou por ofensivamente sobrevoar os adversários. Num desses momentos avistou Porro a 40 metros de distância. Deu golo. Pouco depois, recuperou a bola e isolou imediatamente Nuno Santos para um lance que terminaria com a defesa da noite por parte de Diogo Costa. No fim, tocarem-lhe num gémeo. Bem sei, não se faz. Mas aquela coisa de aparentar que jogava por dois cheirava a esturro... 

 

O Sporting adiantou-se no marcador e podia ter chegado ao intervalo a vencer por 3-0 ou 3-1. As nossas oportunidades racaíram todas no pé esquerdo de Nuno Santos, Corona teve na cabeça a melhor hipótese portista. No entanto, o Porto viria a empatar numa jogada de inspiração de Luis Diaz, num lance que começou no nosso lado esquerdo entretanto todo mudado e continuou até ao lado oposto onde já não havia Jovane a ajudar Porro na contenção. Menor eficácia de um lado, maior qualidade individual do outro, no final os pontos dividir-se-iam. Na flash, o Conceição apareceu calminho e sem azia. Parecia um menino do coro, ou então era mesmo um menino do coro. Daí o colinho, claro.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Porro

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29
Ago21

Tudo ao molho e fé em Deus

Quarentas, quarentenas e um borrego por matar


Pedro Azevedo

Para gáudio dos "haters" do costume, que escolhem sempre ignorar as suas fulgurantes exibições, e daqueles que olham para a erva de uma forma recreativa e não veem um boi à frente dos olhos, o Matheus ontem foi uma nulidade. É verdade, com a cabeça dividida entre quarentas e quarentenas, que é como quem diz entre a "Equipa de todos nós" e a "Canarinha", o Menino do Rio apresentou um futebol digno da Selecção do Inatel. Assim, em vez de Escrete, esteve discreto. Mas não foi só por ele que a coisa correu mal. Ala que se faz tarde, nas laterais não houve qualquer magia, e Palhinha viu-se desde cedo condicionado por um cartão icterícia cortesia do velho amigo Veríssimo. Quanto ao Paulinho, deu muitos apoios frontais e mostrou um associativismo com a equipa tão digno de registo que convidaria até a que se formasse um clube de futebol na variante sem balizas. 

 

A coisa até poderia ter começado bem, não fora o Jovane ter mostrado uma técnica de recepção digna dos melhores campeonatos amadores. Vindo do mesmo homem que em Braga adestrou na perfeição (golo de Pote) uma bola bem mais difícil de dominar, dir-se-á que o desacerto se deverá atribuir mais a questões de (falta de) concentração do que de perícia. Seja como for, aos 2 minutos de jogo, o Sporting desperdiçou uma soberana oportunidade de golo. Com o Famalicão a pressionar muito os nossos médios centro, faltou paciência e assertividade ao nosso jogo. Prova disso, a quantidade de más decisões e de passes falhados que se verificaram ao longo da partida. Muito ajudaria que um dos centrais avançasse no terreno e ajudasse a libertar os médios centro e alas, e essa não observância foi provavelmente o maior defeito do nosso jogo. Assim, as nossas sucessivas perdas de bola convidaram os minhotos a contra-atacarem com perigo, resultando as suas oportunidades de bolas por nós entregues e não de sábio planeamento na construção de jogo. Valeu aí a presença de Adán, excelente em todas as suas acções, que só não conseguiu lidar com uma jogada de bilhar às 3 tabelas que poderia ter sido desenhada pelo nosso Jorge Theriaga. Do mal o menos, Palhinha ainda conseguiu empatar o prélio, um golo ainda assim insuficiente para que o Sporting conseguisse matar o borrego e finalmente vencer a besta negra famalicense, invicta face aos leões desde que regressou ao convívio com os grandes do futebol português. Que o mercado feche depressa! 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Adán

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22
Ago21

Tudo ao molho e fé em Deus

“Marvel(ous)”;


Pedro Azevedo

Caro Leitor, com o Homem Aranha (Palhinha) a estender a sua teia aos adversários e o Senhor Fantástico (Matheus Nunes) a esticar-se pelo relvado todo não há meio-campo opositor que resista. É verdade, o Sporting tem no centro do campo um dueto da Marvel, uma parelha "marvelous" (maravilhosa) que nenhum adepto quer que seja para (livro de cheques de) inglês ver, literal e metaforicamente falando, que cresce todos os dias sem que para nossa felicidade se perspective onde estará o seu limite. Ontem, voltaram a ser os melhores em campo, bem secundados pelo Rúben Vinagre e Gonçalo Inácio. Dir-se-ia que, a continuarem com o actual raio de acção, vão remeter a análise comparativa aos jogadores que lhes antecederam para o plano das quadras de futsal.  

 

Se a B SAD é, como diria o O' Neill, uma coisa em forma de assim no que diz respeito a um clube de futebol, o Petit podia perfeitamente trabalhar nas Chaves do Areeiro, tal é a inclinação que revela para fechaduras e cadeados - é caso para se dizer que só se estraga uma casa (às costas), desde que o Palhinha e afins consigam sobreviver com os tendões e os ossos intactos ou não se afoguem no pântano do Jamor. Vai daí, dessa ideia de futebol resultou um zero em remates enquadrados à baliza do Adán, até porque das poucas vezes que a dupla da Marvel foi ultrapassada logo Neto, Coates e Inácio chegaram e sobejaram para as encomendas. 

 

O Sporting marcou cedo na partida e na alvorada do segundo tempo ampliou a vantagem, pelo que o restante tempo de jogo foi utilizado pelos leões para desperdiçarem ingloriamente uma goleada. Uma esmerada arte de perdoar que não há maneira de erradicar de Alvalade, mais de um quarto de século após Bobby Robson ter denunciado a falta de killer instinct dos leões. Talvez Rúben Amorim o venha a conseguir, afinal nenhum desafio para ele parece impossível de concretizar: quem diria que de Palhinha veríamos constantes variações do centro do jogo como as que pudemos observar ontem, ou de Matheus Nunes assistiríamos a passes de ruptura como aquele que deixou Paulinho na cara do golo? Enfim, o céu é o limite, mas por Toutatis esperamos que não nos caia em cima da cabeça nesta janela de mercado. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": João Palhinha

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15
Ago21

Tudo ao molho e fé em Deus

O melhor e o pior na Casa de Matheus


Pedro Azevedo

Caro Leitor, Rúben Amorim aproveitou a Pedreira para esculpir o Colosso de Rodas. Ainda não o conhecem? O homem desliza velozmente no campo, roda para qualquer um dos lados como se não tivesse anca e protege a bola em condução como se desse arrebatamento dependesse a sua própria vida - é uma das 11 maravilhas do mundo leonino que Amorim construiu sobre a rocha, uma garantia de que as nossas investidas chegarão a bom porto. Querem uma pista? (Cuidado que ele acelera por aí fora.) Falo-vos do Menino do Rio. Não, não é um daqueles cariocas bons de bola e habituados a gramado alto, baixa intensidade, bola no pé e chopinho no fim do jogo que quando aterram em Portugal logo se queixam do frio e da mania dos treinadores que lhes pedem para correr atrás dos adversários. Não, este menino está cá desde os 13 anos. E comeu, e cozeu, o pão que o diabo amassou (numa padaria e pastelaria na Ericeira). Até que o Alexandre Santos veio do Estoril para o Sporting B e trouxe-o com ele. Cá chegado, esteve quase a entrar na nossa equipa principal. E ainda estaria quase, povavelmente até à idade de pôr os papéis para a reforma, se Amorim não tivesse dado conta dele (antes já o Bruno, o Fernandes, o tinha realçado, mas esse destaque esbarrara na ilusão daqueles que acham sempre que um jogador não está pronto ainda que na bancada seja difícil para qualquer um mostrar qualquer grau de prontidão). Já adivinharam quem é? Sim, é o Matheus Nunes, o homem que ontem encheu o campo na Pedreira, não perdendo uma bola (recepções imaculadas), saindo da teia que Musrati e Fransérgio lhe entretanto haviam urdido com inusitada facilidade e ainda descobrindo tempo e espaço para patentear talento em passes de trivela como o que deixou Nuno Santos na cara do golo. 

 

Não foi nada fácil o jogo de ontem na Pedreira. A primeira parte foi mesmo muito dividida, valendo a inspiração de Jovane Cabral, o patinho feio que, dizem alguns, deveria sempre partir do banco. Proponho então que se imponha ao cabo-verdiano o ritual de passar pelo banco de cada vez que sair do balneário. Se o banco estiver em resolução pode ser mesmo um novo banco, o fundamental é todos estarmos de acordo quanto à melhor utilização de Jovane. Na Pedreira, o Jovane esticou-se até ao limite que a sua massa muscular lhe permitiu e, chegando à bola, ainda conseguiu direccioná-la com precisão fora do alcance do Matheus, o do Braga, um rapaz cujo nome provavelmente deriva da premonição que os seus pais tiveram de que perante o verde-e-branco passaria provações de proporções bíblicas. Como não há dois sem três, outro Matheus viria ainda a passar pelo relvado. Mas foi breve, tipo visita de médico, acabando expulso da contenda após diagnóstico errado produzido a um tornozelo. A coisa teria dado para o torto se entretanto o Sporting não houvesse conseguido dilatar a vantagem. Numa jogada linda de morrer, começada em Matheus Nunes que amassou e fez farinha com os médios do Braga, continuada na variação do centro do jogo que descompensou a defesa braguista e na consequente recepção extraordinária de Jovane, e finalizada no proverbial passe à baliza que já é uma imagem de marca de Pedro Gonçalves. Esse golo acabaria por se revelar fundamental, como essencial foram as 4 magníficas defesas que Adán realizou durante o jogo: primeiro salvando com o pé, com o corpo todo balançado na direcção oposta; depois, correspondendo a um remate de letra de Fábio Martins com uma parada de nota A; ainda, indo aos pés de Ruíz; finalmente, voando a um remate venenoso de Iuri. Foi tão bom que aquela saída de olhos fechados a um cruzamento em que socou a atmosfera assim como quem sente o ambiente, pressão e temperatura, não aquece nem arrefece o seu desempenho. 

 

Quinto jogo consecutivo contra o Braga, quinta vitória do Sporting. Pode haver quem acredite no acaso, mas eu creio que não há coincidências. E nem se pode culpar o grande Mestre Carvalhal, sempre disposto a criar algo de novo capaz de colocar areia na engrenagem do motor que Rúben Amorim construiu em Alvalade. Simplesmente, este Sporting vende saúde, tem jogadores que fazem a diferença e mostra uma solidariedade em campo difícil de superar. Venha o próximo!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Matheus Nunes

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08
Ago21

Tudo ao molho e fé em Deus

Bem-aventurado o génio de Pedro no evangelho segundo Matheus


Pedro Azevedo

Foi muito agradável para o adepto voltar ao José Alvalade após lhe ter sido aplicada durante 17 meses uma medida de coação que envolveu prisão domiciliária com obrigatória utilização da box electrónica da SportTV. Carpe Diem, quem lá foi desfrutou como pôde, sem saber o que acontecerá amanhã. Também aí vamos jogo a jogo como o senhor (o Mister) nos ensinou, ainda que o novo-normal imposto pelas autoridades sanitárias implique que a assistência nos estádios não possa ultrapassar um terço da sua capacidade máxima (antes da pandemia era de três terços, mas isso são contas, literal e metaforicamente, de um outro rosário).  

 

E, já que falamos de terços e de rosários, na primeira parte seguimos o evangelho segundo Matheus. Através dele os nossos jogadores foram aconselhados a bem aventurarem-se no terreno, o que fez felizes os adeptos com fome e sede de bola que assim começaram a ser saciados. É certo que alguma inquietação nas bancadas emergiu do facto de o Jovane ter tentado novamente colocar um penálti no ângulo superior de uma baliza, obsessão trignométrica que se tornou secante para o adepto, e que o Harry Pote nesse período andou escondido e sem apresentar os seus habituais números de magia assentes numa Art Deco extraordinária. Todavia, folgadinho após um longo período de descanso que incluiu um mês de férias no centro da Europa, o Pedro estava só à espera do momento certo para abrir o livro de truques.

 

Após o intervalo, logo o Pedro e o Paulinho mostraram que não estavam ali para brincadeiras. Assim, após uma rápida combinação entre ambos, o Pedro passou a bola à baliza com aquela infalibilidade própria dos génios. O Charles seguiu a sua trajectória com a certeza de que nada haveria a fazer. Pouco depois, o Pedro fez lembrar um outro Pedro, o Barbosa (bem lembrado, José da Xã), e nas palavras atribuíveis ao Quinito pintou um Rembrandt. E por falar neste, a ronda da noite só terminou quando o Paulinho molhou o pincél, depois do Vinagre e do Nuno Santos terem combinado na perfeição para que a coisa não se ficasse pelas meias tintas. 

 

Sem bifanas nem roulottes lá saímos de Alvalade. E se o corpo foi deixado à mingua, a alma estava cheia. Tão cheia quanto a lotação máxima que o orgulho nos pode dar após vermos 11 briosos e solidários jogadores vestidos de verde-e-branco evoluirem no campo. Isto, sim, é o Sporting: esforço, dedicação, devoção e glória. Obrigado!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pedro Gonçalves

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01
Ago21

Tudo ao molho e fé em Deus

O leão voltou a rugir


Pedro Azevedo

O Carvalhal já não pode ver o Sporting pela frente. Vai daí, é natural que comece a procurar outras opções que não o Braga para a sua carreira. Ontem, por exemplo, estreou uma indumentária que o candidata a próximo treinador português da selecção de futebol da Venezuela, a célebre Vinotinto. Estou aliás convencido de que nesta altura da sua carreira até pode ser palhete, o Carlos já só quer é que o tirem dali e lhe acabem com o sofrimento. (Cada vez que defronta o Amorim é como se o Comissário Dreyfus avistasse o Inspector Clouseau.)

 

Na verdade, o homem pouco mais pode fazer na Pedreira: estuda bem o adversário, condiciona-o uma boa parte do tempo, joga com critério, mas no final o resultado é sempre o mesmo. É coisa para deixar qualquer um sem norte... Em Aveiro, durante 20/25 minutos o Braga não deixou o Sporting sair do seu meio-campo. O segredo esteve na pressão que Al Musrati e Fransergio exerceram sobre Palhinha e Matheus Nunes, não os deixando receber a bola e virarem-se para o jogo. Só que o Sporting tem outros recursos e um passe de meia distância de Nuno Mendes a corresponder à desmarcação de Jovane acabou por matar os braguistas e a estratégia do seu treinador. Como se não bastasse, pouco depois o Pote marcou um golo do outro mundo. Um golo que poderia ter sido marcado à Bélgica, se o Engenheiro não o tivesse condenado a umas férias ainda assim bem remuneradas no centro da Europa. É o que dá ter uma lâmpada mágica ali bem ao pé, no banco, e nunca passar-lhe a mão para deixar sair o génio...

 

O segundo tempo teria sido um deleite para a nossa vista caso não existisse no futebol o objectivo de meter a bola dentro de uma baliza. Tivemos por isso nota artística, mas faltou a nota técnica de remate para uma exibição muito conseguida. O Pote, o Nuno Mendes e o Matheus Nunes estiveram muito bem e durante 35 minutos o Braga nem cheirou a bola. Só nos últimos 10 minutos é que os braguistas puseram a cabeça de fora, mais por consequência da troca do trio da frente Sportinguista do que por outra coisa. Substituindo quem segurava a bola por jogadores com características de exploração do espaço para transição, Rúben Amorim deixou de ter bola no meio campo do Braga e expôs-se de alguma forma a uma última investida dos minhotos. Mas o nosso meio-campo, mesmo amarelado, e a nossa defesa estiveram impecáveis, e tudo não passaria de umas tímidas tentativas de criação de perigo através da bolas paradas sacadas por competentes mergulhadores braguistas. Uma nota para o labor e inteligência do duo central do nosso meio-campo, muito cedo condicionado com admoestação por João Pinheiro, o mesmo árbitro que olimpicamente ignorou uma biqueirada por trás de Paulo Oliveira nos gémeos de um atacante Sportinguista que se procurava isolar. Mas esqueçamos o Pinheiro e olhemos, sim, para a floresta: este Sporting deixa água na boca. Ontem, duas ou três combinações colectivas de altíssimo nível fizeram-nos sonhar. Assim haja eficácia! 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pote 

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26
Jul21

Tudo ao molho e fé em Deus

Esplendor na relva


Pedro Azevedo

Do Olimpo do mundo da bola onde só os grandes vivem, Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano deverão ter escutado  embevecidos a musica que os jovens Leões de Portugal executaram no relvado do José Alvalade. Do outro lado estava só o semi-finalista da edição de 19/20 da Champions (que nessa caminhada eliminou a Juventus e o Manchester City), o Lyon, os Leões de França, mas o Sporting foi sempre francamente superior e na savana de Alvalade ficou até aquém de expressar no resultado final o avanço no seu processo de jogo. 

 

As coisas nem começaram especialmente bem: Paulinho fez-me evocar saudosamente o Mário Jardel (no ar era um médico legista, cada sua cabeçada cumprida com a formalidade de uma certidão de óbito) - actualmente de férias no nosso país - quando não conseguiu que um seu cabeceamento (excelente centro de Esgaio) se enquadrasse com a baliza, e na resposta o Lyon marcou em jogada que Feddal não acompanhou devidamente. Mas os nossos leões não desistiram e logo voltaram a ficar por cima. Tudo começou na arte e magia contida nos pés de Jovane Cabral, a tal suposta arma secreta que é na verdade o segredo menos bem escondido do futebol nacional. O homem é um craque, e quando com confiança pinta a manta. Na ocasião fez-se notar pela primeira vez no encontro através de um soberbo passe de trivela a isolar Pote na meia direita. Este, altruísta, quis dar a Paulinho, mas o passe saiu sem chama. O que se sucedeu foi um momento digno dos apanhados, com um defesa francês a chocar contra o seu próprio guarda-redes e a bola a ficar ao alcance de Paulinho para uma finalização fácil. O mesmo ponta de lança poderia ter voltado a marcar depois de uma assistência açucarada do pasteleiro Matheus Nunes, mas Anthony Lopes e o poste congeminaram para negar o golo ao avançado natural de Barcelos. Foi galo!

 

Não tardaria a vantagem leonina no desafio: o nosso jovem Beckenbauer (Gonçalo Inácio) meteu o GPS e encontrou o Pote de Ouro ainda antes do arco-iris que se formou à entrada do meio campo gaulês. Isolado, o Pote só teve de correr na direcção do guarda-redes, finalizando com um daqueles passes à baliza que tanto convocam a arte de Deco (Art Deco) ao seu jogo. Com o reatamento veio o massacre. O Sporting investia com tudo e só a deficiente pontaria leonina ou a inspiração de Lopes iam evitando a goleada. Fulgurante, Jovane teve uma brilhante arrancada na esquerda finalizada com um não menos cintilante passe para o segundo poste que foi ingloriamente desperdiçado. E depois veio o golo da tranquilidade, uma jogada tantas vezes repetida na época passada que continua a resultar: Nuno Mendes, sobre a esquerda, variou o centro de jogo para a direita, Pote reendereçou a bola para o centro e Paulinho desviou para as redes desertas. Aturdidos, os gauleses só queriam que o jogo acabasse e o quarto golo apenas não chegou por uma questão de uns poucos centímetros a mais no tamanho da bota de Tiago Tomás. 

 

Com as substituições e a saida do gigante Adamastor (Palhinha) do terreno de jogo, a partida perdeu algum ritmo e o Lyon conseguiu finalmente jogar no nosso meio campo. Tempo então para o reencontro do nosso velho conhecido Slimani com o golo em Alvalade. Comme il faut(!), ainda que na baliza errada. Foi o último suspiro de um jogo que merecia ter tido público. Os nossos leões e o Slimani certamente não teriam enjeitado os justos aplausos provenientes das bancadas. Agora segue-se a Supertaça. É já a 31, em Aveiro (depois de um confronto de leões, teremos uma disputa entre Sportings). Aí leões!!! (Lá em cima, no Olimpo, os Violinos sorriem.)

 

Rugido de Leão: Pote. Jovane e Paulinho seriam excelentes opções. Este trio promete...

 

P.S. Uma curiosidade: 10 dos 17 jogadores utilizados ontem à noite são canhotos. Com tanta predominância da esquerda é caso para se dizer que o marxismo-leoninismo do futebol do Sporting segue a todo o vapor. Agora é só esperar que não seja ninguém apagado da fotografia oficial (o que não será fácil dada a conjuntura económico-financeira). 

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28
Jun21

Tudo ao molho e fé no Euro21 (ou 20)

Sorte e Hazard...


Pedro Azevedo

A sorte e o azar fazem parte do jogo, mas quando a preparação encontra a oportunidade certa estamos mais perto de ser felizes. Há 5 anos atrás, no prolongamento do jogo dos oitavos-de-final contra a Croácia, Rui Patrício viu a bola beijar o poste direito da sua baliza. No contra-ataque que lhe sucedeu, Ricardo Quaresma marcou o golo que nos qualificou para o mata-mata seguinte. Ninguém acentuou a tónica na sorte lusa ou no azar croata, a imprensa essencialmente assinalou que Portugal ia em crescendo, sendo que a aposta de Fernando Santos em Adrien (secou Modric) para acompanhar William e João Mário - criando-se assim uma coluna vertebral com centro nevrálgico no Sporting - foi dada como determinante para a difícil vitória obtida. A mesma sensação de progressão de Portugal como equipa, já sentida anteriormente aquando do jogo com a França, ficou bem patente ontem em Sevilha. É por isso duro aceitar que tenhamos ficado pelo caminho nestas circunstâncias. Todavia, olhando mais friamente para o processo, é seguro dizer-se que ficámos a meio caminho de uma renovação que nos poderia ter levado ao triunfo. Não deixando de realçar aqui e dar crédito ao facto de a nível do meio-campo ter havido um atempado ajuste - nenhum dos 3 jogadores ontem titulares havia entrado de início nos dois primeiros jogos deste Europeu - , parece-me que a insistência de Fernando Santos num Bernardo Silva em má forma em detrimento de Pote (melhor marcador do nosso campeonato e jogador com passe, golo e inteligência na exploração do espaço entrelinhas) ou mesmo André Silva (circustância em que Ronaldo partiria marcadamente a partir de uma ala, o que defensivamente nos colocaria adicionais problemas perante uma selecção com alas todo-o-terreno) tirou acutilância ao nosso ataque e nem sequer deu uma protecção defensiva adicional à nossa Selecção (Bernardo chegou visivelmente atrasado ao encontro com Thorgan Hazard aquando do golo belga). Assim, não se pode dizer que a vitória belga tenha acontecido por acaso. Pelo contrário, se um jogo é feito de pequenos erros, o atraso de Bernardo na abordagem ao lance provocou o desequilíbrio que na sua origem vir-se-ia a revelar fatal para as nossas aspirações. Não se trata de crucificar Bernardo, até porque a abordagem de Patrício ao lance foi defeituosa (teria bastado um passo em frente ou para a sua esquerda para defender uma bola que entrou sensivelmente a meio da baliza), mas vistas à lupa as coisas são como são. 

 

O principal problema das fases finais das grandes competições mundiais de selecções é o cansaço acumulado que se verifica por saturação de jogos nos melhores jogadores. Por isso, o histórico destes campeonatos é marcado pelo aparecimento de revelações e não tanto pela afirmação dos grandes craques. A frescura torna-se um elemento essencial e não será despeciendo pensar que um dos últimos grandes jogadores que brilharam numa fase final de uma grande competição, Van Basten, beneficiou de ter vindo de uma lesão que lhe poupou grande parte do desgaste da época no AC Milan. Como tal, torna-se fundamental aproveitar o momento de forma de cada jogador e não valorizar excessivamente o seu estatuto. Nesse sentido, Fernando Santos foi procurando adaptar-se progressivamente a esse contexto, mas fica a sensação de que poderia ter feito mais alguma coisa. Ainda assim, a Equipa de Todos Nós perde um jogo que poderia facilmente ter ganho, assim a eficácia tivesse sido razoável. Diogo Jota, por duas vezes, Raphael Guerreiro, Rúben Dias ou André Silva desperdiçaram 5 boas oportunidades e Courtois negou-nos o golo em 3 ocasiões, pelo que Portugal sai do Euro deixando uma boa imagem. Simplesmente, ontem Nª Senhora de Fátima meteu folga. Concomitantemente, Ronaldo, que até fez um muito bom Europeu, não teve oportunidades para marcar, as bolas para golo caíram nos pés e cabeça de outrém, sendo que esse até foi provavelmente o nosso grande azar. Ou Hazard, se quiserem.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Renato Sanches. Criou a primeira grande oportunidade do jogo logo aos 6 minutos, após arrancada perpendicular aos centrais belgas que permitiu a Jota uma situação privilegiada para alvejar a baliza de Courtois. Noutra ocasião, passou De Bruyne e Witsel num misto de força e velocidade e abriu exemplarmente na direita, criando um desequilíbrio a que faltou a continuidade dos outros jogadores. No segundo tempo voltaria a levar Portugal para a frente. Já muito cansado, acabaria rendido a pouco mais de 10 minutos do fim. Deu tudo o que tinha.

 

P.S. Optei por um "Tudo ao molho..." mais analítico. O meu sentido de humor ainda não se reencontrou após as "moules" com batata frita que me custaram a engolir ontem.

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24
Jun21

Tudo ao molho e fé no Euro21 (ou 20)

Olimpíadas da Matemática


Pedro Azevedo

Entrámos em campo no terceiro lugar do grupo. Entretanto, paralelamente, disputava-se o Alemanha-Hungria, de cujo resultado, em caso de derrota nossa, dependeria a qualificação lusa. À meia-hora estávamos em primeiro, ao intervalo em segundo. Quarenta e sete minutos de jogo e éramos quarto, logo eliminados, mas à hora de jogo voltávamos a ser o segundo. Para trás ficavam 13 angustiantes minutos em que já nos víamos a observar o Euro dos outros. Por 1 minuto (entre os 66 e os 67 minutos) descemos a terceiro, para depois regressarmos a segundo. Até que a partir dos 84 minutos nos fixámos no terceiro, assim regressando à casa de partida e carimbando o passaporte para Sevilha, cidade que o nosso Ferro Rodrigues pretende ver invadida de portugueses, quiçá nas suas variantes alpha, delta e quejandos. Ufa, estou exausto(!), foram tantas as contas que fiz durante o jogo que estou desconfiado que este grande certame internacional afinal é a Olimpíada da Matemática, torneio em que os portugueses são sempre à partida os grandes favoritos. 

 

A verdade é que depois do Euro 2016 a nossa Selecção desenvolveu uma imunidade de grupo às críticas. O seu líder, Fernando Santos, vai gozando com o que a malta diz até ao momento das grandes decisões, instante a partir do qual põe a teimosia de lado e lança os melhores para dentro do campo. A coisa produz efeito imediato, podendo dizer-se que é remédio Santo(s), desatando a Selecção a jogar futebol e a ultrapassar os incautos adversários como se não houvesse amanhã. Os próximos que nos sairão na rifa serão uns belgas, os primeiros no ranking dos profissionais chocolateiros. E da FIFA, dizem-me. Têm o gigante Courtois e o duende Hazard, o colosso Lukaku e o genial De Bruyne. Mas não têm o Cristiano Ronaldo, o Velho, que alguns dizem estar acabado. Acabado de igualar o recorde mundial de mais golos marcados ao serviço de uma selecção. Acabado de ultrapassar o recorde de mais golos marcados em fases finais de europeus. Acabado de bater o recorde de mais golos marcados no somatório das fases finais de europeus e mundiais. Acabado de terminar a fase de grupos deste Europeu como o melhor marcador destacado (5 golos) da competição. Enfim, acabadíssimo. E depois há um veloz Pepe a viver a jovialidade dos seus 38 anos, um Patrício que realizou a melhor defesa deste Euro, um Renato que é um touro e um ousado Palhinha que até se estreou neste Euro num túnel onde arrancou a crista ao galaroz do Pogba. E ainda resiste o Moutinho, mestre na arte de esconder a bola e de a passar a um só toque, um dos melhores do mundo na modalidade do futebol sem balizas, variante que foi rei no Portugal dos anos 70. Sem me esquecer do Bruno do Sporting e do Manchester que ainda não apareceu na Selecção, dos milhões do Felix que sebastianicamente um dia ainda se capitalizarão dentro do campo, ou do André Silva da Bundesliga, entre outros.

 

Dizem-me que o problema é a Bélgica jogar num 3-4-3. É que a amostra contra a Alemanha não foi nada auspiciosa e teme-se que a coisa se repita. Se calhar, o melhor será o Fernando Santos inspirar-se no Rúben Amorim e aproveitar o cochecimento que os jogadores do Sporting têm desse sistema. Por exemplo, recuar o Palhinha para a linha dos centrais, entregar ao Nuno Mendes a ala esquerda e estrear o Pote com o Jota como enganches do Ronaldo. A verdade é que a defesa dos belgas não me parece por aí além, pelo que saber explorar o espaço entrelinhas compreendido entre médios e centrais poderá ser a chave para a vitória lusa. 

 

Enfim, no Domingo logo saberemos. Para já fica o registo de um empate com sabor a vitória contra o campeão do mundo, tónico certamente motivador. Esperança também no nosso Ronaldo, tão fresquinho que desafia os controladores aéreos e continua a invadir o espaço onde é suposto só circularem os aviões, e no progressivo desenvolvimento da equipa em competição tão típico de Fernando Santos. Definitivamente, há que contar connosco. Num torneio de nómadas, disputado em 11 cidades europeias, o nosso treinador até já anunciou a intenção de deixar as malas em Budapeste. Soou-me a presságio e a um regresso ao passado (2016). Querem ver que...?

 

Tenor "Tudo ao molho...": Renato Sanches

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19
Jun21

Tudo ao molho e fé no Euro21 (ou 20)

Teimosia fatal


Pedro Azevedo

Quando um meio-campo luso meiguinho defronta uma "Mannschaft" agressiva o resultado só pode ser um. Sem intensidade, sem meter o pé, Portugal permitiu que os alemães conduzissem a bola perpendicularmente até às imediações da nossa área e depois escolhessem confortavelmente a melhor opção de passe de ruptura ou atraíssem a nossa equipa para um flanco para depois bascularem rapidamente para o outro. Não sei se Fernando Santos terá anotado a matrícula do camião que nos passou por cima, mas as minhas fontes dão-me conta que os capacetes azuis enviados pela ONU a Munique, William e Danilo, ainda estarão a esta hora a elaborar um relatório dando conta que observaram sempre as movimentações dos alemães à distância. Além de não serem intensos, o par de jarras (sem flor) que Portugal apresentou à frente da defesa mostrou flagrantemente um assustador défice de velocidade aquando da transição defensiva, expondo ainda mais a nossa defesa. Curiosamente, a ver o jogo do banco esteve Palhinha, o Exterminador Implacável, o homem que nunca deixa crescer a relva em seu redor. Como se o desacerto dos médios (Bruno incluído) já não fosse suficiente, assistiu-se a uma exibição desastrada dos laterais Nelson Semedo e Raphael Guerreiro, dois náufragos sempre longe das margens, atraídos que foram sempre para o centro pelo redemoinho de ataques germânicos que aí se concentravam. Para piorar, Rúben Dias e o próprio Guerreiro marcaram os golos que permitiram aos alemães dar a volta ao resultado ainda no primeiro tempo. Para trás já ficara o golo inaugural português, obtido contra a corrente e após um corte efectuado ainda na nossa área por Cristiano Ronaldo que  permitiu uma transição rápida iniciada por Bernardo, continuada com distinção por Jota (excelente amortecimento de peito e altruístico passe para golo) e concluída pelo próprio Ronaldo, o qual entretanto disparara de costa a costa em grande velocidade. 

 

Fernando Santos fez entrar Renato no reatamento. Porém, em vez de substituir um dos duplos-pivô, o Engenheiro tirou Bernardo do terreno. No meio, Portugal continuou a dar bar aberto aos alemães e estes não se fizeram rogados e com gosto anteciparam a Oktoberfest em Munique e marcaram-nos mais 2 golos. Por aí já Rafa estava em campo, desta vez sem carambolas a melhorarem a sua exibição e com culpas no quarto golo alemão da tarde. Com Moutinho em jogo e Renato na zona central (saiu William), Portugal conseguiu reduzir quando Ronaldo retribuiu a assistência de Jota. Renato ainda chutaria com violência ao poste direito da baliza de Neuer, mas esse acabaria por ser o canto do cisne português.

 

A Alemanha mostrou ser uma Selecção a ter em conta, mas a insistência de Fernando Santos numa dupla de médios completamente fora de forma, sem ritmo ou velocidade, descendentes do "laissez faire, laissez passer" de Adam Smith e do liberalismo, ajudou muitíssimo ao resultado final. Foi pena, até porque a linha defensiva germânica mostrou uma falta de velocidade que poderia ter sido mais bem aproveitada se Portugal tivesse conseguido ter mais vezes a bola. Adicionalmente, a perda de Cancelo e a lesão de Nuno Mendes estão a constrangir o desempenho geral defensivo. É certo que Pepe e Rúben Dias são muito bons, mas nem eles conseguem operar milagres a toda a hora. Entretanto, os nossos jogadores Pote e Palhinha, que terminaram a época em muito melhor forma que vários dos actuais titulares (o suplente do Bétis incluído), continuam a desfrutar do sol que neste momento brilha intensamente no centro da Europa, pelo que a única lesão de que poderão padecer será um escaldão.  

 

Do mal o menos, num duelo para homens de barba rija pelo melhor marcador, o nosso homem da Gillette (Ronaldo) igualou (Patrick) Schick como lâminas mais bem afiadas no ataque. 

Hoje foram 11 contra 7 (com favor). Se já 11 contra 11 no fim ganharia a Alemanha (velha máxima do futebol postulada por Lineker), creio que deveremos estar agradecidos de não termos saído de Munique com um resultado de proporções bíblicas. Está na hora de mudar. Scolari (em 2004) e o próprio Fernando Santos (2016) fizeram-no no passado, tenhamos então fé que ainda será possível inverter o rumo dos acontecimentos. A poderosa França está aí à nossa espera e a inação não será prudente, mas sim radical. Porém, é justo dizer-se que não foram só as escolhas individuais que se revelaram determinantes na forma como o jogo nos fugiu. Nesse sentido, o plano de jogo falhou. A equipa afundou constantemente, deu (propositadamente ou não) a iniciativa aos alemães e nunca encaixou o nosso 4-3-3 no 3-4-3 teutónico. Há que, no entanto, não esquecer que Portugal é o campeão da Europa e o vencedor da Taça das Nações. E tal tem muito o dedo de Fernando Santos, o treinador que hoje aqui criticamos, que conseguiu criar um grupo solidário, resiliente  e com uma mentalidade vencedora, valores que nos conduziram à superação no passado. Serão suficientes no actual contexto? O futuro próximo o dirá. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Ronaldo (e ainda há quem ponha em causa o homem...). Diogo Jota, Renato Sanches, Pepe e João Moutinho merecem uma menção honrosa.

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16
Jun21

Tudo ao molho e fé no Euro21 (ou 20)

A Filosofia do Ketchup


Pedro Azevedo

"Os golos são como o Ketchup" - Cristiano Ronaldo 

 

O grande filósofo Cristiano Ronaldo disse um dia que "Os golos são como o Ketchup e quando aparecem vêm todos de uma vez". Lembrei-me disso ontem quando o Renato Sanches sacudiu a garrafa do Ketchup (lâmpada?) e o génio Ronaldo concedeu os 3 desejos, deixando altruisticamente para o Raphael Guerreiro a tarefa de concretizar o primeiro. Foi, no entanto, necessário esperar 84 minutos para que Portugal fizesse baloiçar as redes magiares, tempo exemplarmente gasto pelos lusos com o intuito de contrariar o postulado do Princípio da Impenetrabilidade da Matéria - "Dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo". Para tal, Fernando Santos elaborou uma experiência científica com Danilo e William como cobaias, provando que, em matéria de princípios, até os Princípios da Física não resistem ao futebol português. 

 

Portugal apresentou-se com Rui Patrício como guardião das nossas esperanças e calafrios (ai, ai...). Como o respeitinho é muito bonito, o Jogador do Ano da Premier League (Rúben Dias) foi deslocado para o lado esquerdo da zona central da defesa portuguesa a fim de que o veterano Pepe pudesse jogar de cadeirinha pela direita. Nas laterais o Nelson Sem Medo e o Raphael Guerreiro, dois apelidos à altura da batalha que tínhamos pela frente perante 60 000 húngaros. À frente destes aparecia um pivô duplo, com o Bruno Fernandes a ter mais liberdade para criar. Depois, no ataque tínhamos o Bernardo, o Jota e o inevitável Ronaldo. 

 

Só para contrariar os Velhos do Restelo que dizem que Ronaldo é prejudicial à Selecção porque toda a equipa joga para ele e isso retira imprevisibilidade, o irreverente do Jota começou logo o jogo a ignorar o nosso capitão, desmarcado na esquerda, e a chutar à baliza. O Gulácsi é que não esteve pelos ajustes e contrariou as suas intenções. O Jota não via ninguém, queria marcar um golo de qualquer maneira e, pouco depois, antecipou-se ao Bruno Fernandes e voltou a acertar no guarda-redes magiar. Depois, o Ronaldo isolou o Bernardo na direita, mas este lamentou não ter dois pés esquerdos e o lance perdeu-se mais uma vez. Antes do intervalo o Ronaldo ainda podia ter marcado, não fora ter ficado surpreendido por o Jota finalmente não se ter atirado que nem um glutão à bola. 

 

No segundo tempo o Bruno desatou a rematar à baliza. O Gulácsi provou ser o melhor dos húngaros e negou-lhe um golo certo. Entretanto, O Engenheiro mandou o Rafa lá para dentro para ver se intimidava os húngaros com a barba (ou se dava água pela barba aos magiares, vá lá saber-se...). Mas foi a partir do momento em que o Renato Sanches entrou que Portugal conseguiu abanar o jogo. É certo que o nosso primeiro golo foi às três tabelas, mas depois o Bulo foi por ali acima até servir o Rafa para este cavar um penálti que decidiu o jogo. Quem o transformou foi o Ronaldo, mandando o Platini para canto como melhor marcador de fases finais de europeus. Animado com mais um recorde, o Cristiano engendrou e iniciou uma tabelinha com o Rafa, finalizando com uma finta ao excelente guarda-redes húngaro e provando que ainda não perdeu de todo a habilidade de extremo. E lá ficou o Ali Daei à distância de um "hat-trick"... Assim, com 3 golos em 8 minutos, o jogo chegava ao fim. O jogo jogado, porque o jogo falado teve o "Motorista Santos" como protagonista. Com os hilariantes e habituais tiques de pescoço, provável consequência de algumas caîbras originadas pelas tensas travagens que muitas vezes impõe nas partidas, mas com a naturalidade de quem soube reconhecer que o apodo sugerido pelo técnico italiano dos magiares até se revelou apropriado, tal a forma como Fernando Santos soube com maestria contornar o longo autocarro que a Hungria colocou à sua frente. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Cristiano Ronaldo

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20
Mai21

Tudo ao molho e fé em Deus

A última ceia


Pedro Azevedo

"That's all folks!", este conto de Cinderela terminou para nós. Para o ano haverá mais, assim o esperamos. Na verdade, não queríamos que esta época de sonho acabasse. Talvez por isso, prolongou-se até quase à meia-noite, não indo mais além apenas por receio que a carruagem se transformasse numa abóbora. Para o fim ficou a ceia, um bom caldo verde onde se afundaram uns chouriços madeirenses. Ainda deu para haver um Pote de Ouro no finalzinho do arco-iris, com o nosso Harry Pote a mostrar toda a sua Art Deco naquele seu jeito de quem faz um passe (de magia) à baliza, no processo batendo o Esferovite na disputa pelo melhor marcador do campeonato. 

 

O jogo começou tão tarde que o Jovane entrou em campo à hora do costume, mais um motivo para dar razão a quem acha que o cabo-verdiano é melhor quando entra tarde. Sendo ele geralmente letal entre as 21H45 e as 21H55 (jogos que se iniciam às 20H00), ou entre as 23H00 e as 23H10 (apito de saída às 21H15), não surpreendeu que tivesse começado por assistir o Pote nesse primeiro intervalo de tempo. Por fim, utilizou o último espaço temporal para, num passe à Neymar, fazer a assistência decisiva para a Bola de Prata. Tudo está bem quando acaba bem, e o Jovane acabará sempre por entrar a altas horas. Dizem que está provado ser melhor assim...

 

Pode ser que um jogo que acabou tão tarde tenha sido uma parábola da carreira de João Pereira. Uma pena que a sua despedida tenha ocorrido sem público. Não há duas sem três e à terceira (passagem por Alvalade) foi de vez, o João finalmente arrumou as botas. Obrigado pela raça e empenho. Seguir-se-à uma carreira como treinador e uma forte candidatura a destronar Rúben Amorim como alvo predilecto do Conselho de Disciplina. A coisa promete.

 

Agora vamos para a "silly season" a sonhar com a próxima época. A Olá já anunciou que criará um Perna de Pau à Sporting para nos dessedentar no Verão. Um Perna de Pau à Sporting? Acho a coisa um bocadinho provocativa, até porque neste Sporting 2020/21 não houve pernas de pau, só craques. Por isso, deixo uma sugestão: que tal reeditar o Super Max(i)? Se o Adán se puser a jeito...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pote

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17
Mai21

Tudo ao molho e fé em Deus

O genial Amorim


Pedro Azevedo

O Rúben Amorim é um génio. Como ser superiormente inteligente que é, sabia que o jogo era mais importante para Jesus do que para o Benfica. Se Jesus ganhasse, teria outra margem para fazer os contestatários "acarditarem", entusiasmar-se e arrasar na próxima época da mesma forma que arrasou nesta. Se perdesse, essa margem ser-lhe-ia provavelmente retirada e Vieira poderia ser tentado a pensar que um treinador que inspirasse apenas jogar o essencial fosse mais útil que um que inspirasse jogar o triplo, assim a modos como consequência da reflexão de William Blake quando se interrogava "como saberes o que é suficiente, se não souberes o que é demais?". Por conseguinte, a derrota do Benfica neste jogo poderia ser perigosa para o Sporting no longo-prazo, enquanto a vitória do rival não teria consequências no curto-prazo porque o título já estava no estômago do leão. Vai daí, o Amorim subtraiu o Palhinha do jogo. Em sequência, durante a primeira parte, o Cebolinha usou e abusou do calcanhar, o Seferovic assemelhou-se a um ponta de lança e o Pizzi até fez lembrar o Bruno Fernandes. Tudo simples, tudo fácil, como se estivessem a jogar contra bidons. Rapidamente, o Benfica marcou 1, 2, 3 golos. Em contrapartida, o Sporting ficou a fazer guarda de honra à nota artística do Jesus. Apenas um jogador ousou destoar do tom geral, o Pote. É que o homem não sabe brincar em serviço e, em cima do intervalo, reduziu a desvantagem leonina no marcador. 

 

Ao intervalo o Amorim pareceu ter-se assustado: é que uma coisa é dar moral ao Jesus, outra é oferecer a hipótese ao Benfica de devolver os célebres 7-1 de 86. Querendo conter o prejuízo, decidiu então fazer entrar o Palhinha. O Matheus Nunes é que não se apercebeu que o "chip" tinha mudado. Então, ala que se faz tarde, ofereceu logo um brinde. Com o tempo a presença do Palhinha fez-se notar. Onde antes havia auto-estradas, os benfiquistas começaram a encontrar becos sem saída, sinais de sentido proibido e tabuletas de aviso de piso escorregadio. Tanto que, durante 30 minutos, só deu Sporting. Dois golos, uma bola no poste, os leões fizeram acreditar que iam dar a volta ao jogo. O Pote continuava desenfreado e agora havia também o Jovane para moer o juízo ao Lucas Veríssimo, um vexame para quem chegou agora à Canarinha. A televisão mostrava-nos o Helton Leite a falar sozinho, o Benfica abanava por todos os lados. Com os descontos, faltavam ainda uns 15 minutos, mas o Sporting acabou aí. Amenizada a derrota para níveis não-apocalípticos, o Rúben pareceu conformado. É certo que o Coates ainda foi lá à frente fingir que tinha custado 16 milhões por 70% do passe mais os ordenados do Sporar, mas foram serviços mínimos porque o resultado era, afinal, o ideal.

 

Além de assegurar Jesus no Benfica para 2021/22, o Rúben Amorim preencheu um outro objectivo. Subliminarmente, o nosso treinador enviou a seguinte mensagem que pôde ser lida da Lua: "NÃO VENDAM O PALHINHA". E assim o título do próximo ano pareceu mais perto. Tanto que, se os benfiquistas este ano apanharam com o Cabo Delgado(*), para o ano levarão com o Cabo das Tormentas. Um génio, o Amorim!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pedro Gonçalves ("Pote") 

 

(*) O meu aplauso para a referência a Cabo Delgado nas camisolas, região de Moçambique alvo de ataques armados do grupo jihadista Estado Islâmico que já provocaram mais de 2.500 mortos e 700.000 deslocados. Para ser justo, inclúo neste aplauso o meu colega bloguista José Pimentel Teixeira, que há muito tempo vem estando na linha da frente do alerta na blogosfera sobre esta tragédia que o mundo não pode mais ignorar.

 

P.S. O problema do Benfica de Jesus não foi a Covid, mas sim, quanto muito, o co-video (vulgo VAR), coadjuvante do árbitro e da verdade desportiva, que veio eliminar alguns dos erros mais flagrantes que aconteciam em campo. De resto, o Benfica foi sempre uma equipa sem intensidade no meio campo, e essa foi a principal pecha que se traduziu no resultado final no campeonato. 

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