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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

01
Mar24

Tudo ao molho e fé em Deus

Morita e o Momento da Verdade


Pedro Azevedo

As crónicas dos jogos sucedem-se de sequela em sequela a uma velocidade furiosa, mas sem Michelle Rodriguez a quem recorrer em caso de conspícua falta de inspiração. A ansiedade do autor aumenta, temendo que um dia destes uma delas bata na trave como o Paul Walker e/ou desapareça no firmamento ao som do I'll Be Missing You, do Puff Daddy, Diddy ou Sean Combs (o homem muda de nome mais depressa do que o diabo da agulha esfrega o olho ao vinil). Tenho pesadelos e procuro o conforto do sindicato, mas descubro que este ainda não foi constituído por divergência de conceitos entre bloguers, blogueiros e bloguistas, o que põe em causa os direitos de autor de posts de receitas de tarte merengada, de desconto no pêssego em calda ou simplemente de contrariedades e ansiedades verificadas ao nível do pipi, entre outros eméritos candidatos a Pullitzer residentes nesta comunidade cujo potencial desaparecimento é temido como uma das terríveis ameaças que se perspectivam para o futuro da humanidade. Resignado, abrevio o tempo com um penteado à Vin Diesel e acelero teclado fora. Três são as rotações que a Terra promete sobre si própria até ao próximo jogo (Farense) e eu também preciso de dar umas quantas voltas à minha cachimónia para que entretanto me saia um texto minimamente em forma de assim-assim. 

 

Um jogo com o Benfica tem a vantagem de automaticamente resolver o problema da falta de assunto. Desde logo pelos casos e casinhos que o envolvem e quase sempre o prolongam bem para lá dos simples 90 minutos. Analisemos então um desses casos pela pena do humorista Duarte Gomes: o lance descreve-se brevemente por ter havido uma carga fora de tempo, simultanemente nas costas e numa perna, do João Neves sobre o Pote, que Fábio Veríssimo não sancionou. Tendo a falta ocorrido dentro da área do Benfica, logo deveria ter sido marcado um penálti. Mas o Duarte tem uma opinião  diferente: "Pedro Gonçalves, com a bola à sua mercê, direcionou a sua perna direita para o lado, para a trajetória de corrida de João Neves. O contacto - absolutamente evidente (NA: é Neves que toca em Pote e não o seu contrário) - não resultou de ação faltosa do médio encarnado, mas daquela opção do avançado do Sporting". Ou seja, para o inefável Duarte Gomes há uma lei que deve inibir um interveniente do jogo de se cruzar com outro numa esquina da área deste, especialmente se este último estiver a deslocar-se a grande velocidade. Já sobre a velocidade empregue ter sido impruente ou negligente, termos esses, sim, que constam das leis, nem uma palavra, ainda que o abalroamento tenha sido uma realidade. Acontece que 1 minuto depois o Pote marcou mesmo de verdade. E olhou para o Veríssimo como quem diz: "Karma is a bitch!". Estás a ver, Duarte? [O Duarte Gomes sabe bem do que fala, ele que um dia cismou interpor-se na trajectória da bola entre Ricardo Peres, adjunto de Paulo Bento no Sporting, e Rui Patrício, durante o aquecimento antes de um jogo, para depois imediatamente direccionar o seu corpo na direcção de Peres, promovendo o contacto (peitaça), terminando a sua acção a advertir o treinador de guarda-redes com um cartão amarelo perante a indignação geral de quem assistia a tão elucidativa lição de arbitragem.]

 

O Sporting ganhou o jogo no meio campo, produto da acção conjugada do requintado "Tsubasa" Morita e do sobrequalificado operário Hjulmand, que, quais Garrinchas de ocasião, meteram a dupla de Joões do Benfica no bolso. Pelo que a razão para a eliminatória ainda estar em aberto deve-se à má definição de Pote, Edwards e Geny, que desperdiçaram ingloriamente imensas jogadas promissoras. E se não fosse Gyokeres, que deixou Otamendi no passeio a anotar a matrícula do camião que o atropelou, poderíamos estar a lamentar um resultado muito aquém da exibição produzida. Porque a qualidade individual de Di Maria chegou a ameaçar sobrepor-se ao superior colectivo Sportinguista, mostrando à saciedade as vantagens de ter um fora de série. 


Evidenciando a vã ilusão do que é o controlo do jogo, em duas jogadas praticamente consecutivas o Benfica empatou. Fazendo pouco ou nada para tal, ou simplesmente, tendo Di Maria para tal. Mas se Diomande ficou a dormir no primeiro, o VAR estava bem acordado e viu a interferência do jogador benfiquista em fora de jogo que tapou a visão do nosso guarda-redes, Israel, que no fim comemorou com a Faixa de Ga(n)za situada na Superior, mostrando que o Sporting é de facto um clube diferente e cheio de sortilégios que nos aquecem e enriquecem a alma. 


Tempo ainda para Nuno Santos voltar a surpreender-nos com um Puskas, mas uma vez mais o galardão ficará adiado. Depois de uma letra, trivela e lob, agora foi um pontapé à Karaté Kid, mas o Momento da Verdade (também tinha um Morita) ficou adiado possivelmente para a segunda mão (ou demão, que a vitória de ontem foi o primário). 

Tenor "Tudo ao molho...": Hidemasa Morita 

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26
Fev24

Tudo ao molho e fé em Deus

E dois pontos o vento levou...


Pedro Azevedo

Para um clube de fidalgos, visitar a vila de um conde enquadrar-se-ia perfeitamente dentro da normalidade do protocolo habitual nessas circunstâncias. Mas o conde de que falamos não deveria frequentar muito as cortes, nem servir-se do cofre real, e o resultado foi que a sua gente teve de fazer pela vida e para sobreviver educou-se mais no conteúdo do que na forma, no pragmatismo ou realismo, o que no futebol se traduz correntemente em meia bola e força, bola para o mato que é jogo de campeonato: não é fácil jogar em Vila do Conde. Exige conhecimento amplo sobre ventos e por vezes marés, navegabilidades, a Arte da Guerra e quais as melhores caneleiras. Nem todas as equipas sabem bolinar por entre os ventos, nem todos os jogadores compreendem as trajectórias de um bom biqueiro na bola ou no lombo, só a frieza de leitura do jogo de um treinador faz perceber qual a pontão que sustenta a estrutura do adversário que é preciso abordar, se tiver a sorte de ter armas para isso ou dinheiro para gastar em Janeiro.  

 

Com o Geny à deriva e o Diomande a não responder à chamada de socorro ao náufrago, cenas da vida marítima, cedo o Umaro Embaló(u) a tempestade. Fazendo jus à lenda, logo o Narciso meteu água (lance precedido de falta sobre Pote) ao validar o golo, dando razão a quem acha que ele não é flor que se cheire (sabe-se que depois do Narciso se ter afogado, Afrodite transfomou-o numa flor). Na baliza, o Jhonatan mostrava-se na hora H, agá que para ele é antecipado desde que os seus pais registaram (mal) o seu nome. Devido a essa emergência, cedo começou a defender, negando o golo ao Gyokeres (duas vezes) e ao Trincão. Mas o Morita soltou-se e quando o Morita solta o seu perfume, os adversários ficam de olhos em bico e aparece o melhor Sporting. Na ressaca, o Hjulmand marcou um bonito golo. Quem também soltou, mas a bola, foi o Adán. Por sorte ou azelhice de um jogador do Rio Ave, não deu golo. Sorte, desta vez do Rio Ave, e azelhice (do árbitro) que se repetiram mais tarde, quando o Nóbrega, com os pitões em riste, aplicou um golpe de ninja em cima do Trincão e escapou sem a grande penalidade. Bola cá, bola lá, mais uma desatenção do nosso lado direito e bola no poste. Até que o Amine teve um atraso (mental) que correu mal e o Gyokeres explodiu com as redes do Rio Ave - foi o 30º golo do sueco e o 100º do Sporting na temporada. Estávamos finalmente em vantagem, ainda por cima com o intervalo a chegar. Só que o Nuno Santos ensarilhou os seus pés entre as pernas de um Costinha de frente para ele, oxímoro que melhor explica o absurdo do sarilho de um penálti e nova igualdade no marcador. 

 

Como o Diomande estava a meter água à direita, para o segundo tempo o Rúben decidiu que ele passaria a meter água pela esquerda a fim de equilibrar as contas (entrou Quaresma para central pela direita). Com isso saiu o Inácio, e com ele os passes rasos entre-linhas que são tão penalizadores para quem nos quer pressionar em cima. Pressão que o Rio Ave idealizou e realizou, desde o reatamento, impedindo que o Sporting partisse confortável para a frente. Desconforto que aumentou quando Quaresma se deixou sobrevoar e Adán hesitou como sempre em sair da baliza e acabou por colidir calamitosamente com o isolado avançado rioavista (Aziz). Do penálti consequente resultou a segunda vantagem do Rio Ave no marcador. Lá apareceu de novo o Morita, de surpresa. E o Coates, ainda sem a lança, empatou, mostrando que um simples central também pode marcar golos. Depois, o Amorim lá o investiu de Central de Lança, um provável resquício futeboleiro (quando não um tique) de um pós-25 de Abril em que os capitães eram graduados em generais. Até ao fim, o Gyokeres continuou a levar pancada. Curiosamente, à medida que o jogo se encerrava, o árbitro foi-se mostrando mais compreensivo com as perdas de tempo dos rioavistas, beneficiando-os com cartões amarelos e até um encarnado, tudo o que no fundo fizesse o relógio avançar e a falta de senso não compensar. Nesse transe, chegou a enviar para casa o Renato, que Pantalon (calças) não é farda que se apresente ao trabalho de um jogador de futebol. [Sim, o Pantalon não pode ter sido expulso à beira do fim por mais uma de muitas outras pauladas que o Gyokeres apanhou e passaram sem admoestação, quando não sem falta, durante todo o jogo.]

 

Pela primeira vez, senti a equipa pressionada. Como se, após o Carnaval, lhe tivesse caído a máscara da tranquilidade. Também não ajudou à festa que em tempo de Quaresma este tivesse ficado de fora, mas pode ter sido devido a uma qualquer penitência mais própria da quadra que vivemos a que Rúben se tenha sujeitado. O que é certo é que se queremos amêndoas docinhas na Páscoa, melhor será recuperarmos o foco. Porque alguma coisa teremos de recuperar, já que mais um interior ou ponta de lança serão irrecuperáveis até ao final da época. Até lá, seguimos crónica a crónica (que com a pressão também têm os seus dias).

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres. Hjulmand (se fosse só pela primeira parte, em que marcou 1 golo e recuperou ou antecipou inúmeras bolas, teria sido o melhor), Morita (esteve em 2 golos e no que poderia ter sido outro) e Coates bem. Pote, Edwards e Diomande: zero. Os outros: neutro.

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23
Fev24

Tudo ao molho e fé em Deus

As pequenas coisas


Pedro Azevedo

Daqui a alguns anos, quando olharmos para o ranking UEFA, não nos vamos lembrar deste empate contra o Young Boys. E, contudo, é à conta de deslizes assim - o Leitor recordar-se-á do Skenderbeu e dos jogos com o LASK... -, e da atitude de alguma indiferença que foi havendo perante a sua acumulação ao longo dos anos, que o Sporting tem poucos pontos na Europa e não participará no próximo Campeonato do Mundo de clubes (2025). Porque, se o diabo está nos detalhes, as pequenas coisas acabam por no fim fazer toda a diferença. Como foi ontem o caso do desacerto na finalização, que nos custou uma vitória mais do que certa. E por goleada. Amorim sentiu-o, muito, quando se apresentou na flash-interview a deitar fumo por dentro, sem necessidade de recorrer a truques circenses. Fez bem em dar esse sinal, porque o Sporting conseguiu o mais difícil, que foi manter um ritmo alto durante todo o tempo, e tinha de ter ganho o jogo. 

 

Entre tantos falhanços à frente da baliza, difícil será destacar qual foi o mais bizarro ou caricato,  desde o pé direito de Edwards que travou o remate de pé esquerdo de... Edwards que se encaminhava para a baliza deserta até ao pontapé desferido por Bragança na pequena área que acertou no único pedaço de baliza coberto pelo guarda-redes suiço, para já não falar do traço de humanidade revelado pelo deus Gyokeres no momento em que falhou uma grande penalidade ou de uma outra perdida clamorosa do Daniel. 

 

Ainda assim houve um golo, um grande golo, marcado por Gyokeres num movimento soberbo em que rodou sobre 2 adversários e rematou de forma indefensável, por alto. No resto do tempo, a boa dinâmica leonina foi alargando os buracos no queijo suiço por onde surgiram as tais grandes oportunidades. Mas na hora de comermos o queijo, a gula demasiada levou a que a sofreguidão se impusesse ao discernimento e acabámos por cear mal e ir dormir com fome, que comer de penálti também não ajuda à correcta ingestão dos alimentos. (Continuamos sob o signo da temporada de 73/74: depois de uns 8-0 ao Casa Pia que evocaram igual resultado contra o Oriental, este jogo fez-me recordar a aziaga recepção ao Magdeburgo.)

 

Seguem-se os Oitavos e de novo a Atalanta. Um reencontro, pois então. E a possibilidade de corrigir velhas falhas para não incorrer em novos erros (Confúcio). Para que no fim a dor de partir não emerja sobre a alegria de um reencontro bem sucedido. A fazer lembrar a igualmente (à de 73/74) épica época de 63/64 (sempre a acabar em 4), em que dois jogos não bastaram para pôr fora do caminho a briosa equipa de Bérgamo no nosso rumo até Antuérpia (finalíssima), cidade onde levantámos por fim o caneco. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres

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20
Fev24

Tudo ao molho e fé em Deus

Arrasador !!!


Pedro Azevedo

Ontem à noite, vi o jogo na SportTV. O Sporting foi arrasador, como se os Leões tivessem montado uma rede assente entre as laterais do rectângulo de jogo e aquela equipa das camisolas esquisitas fosse constituída por um conjunto de mesatenistas que viam a bola permanentemente embater nela e ser devolvida. Nesse transe, cedo o Frimping-pong atirou a bola contra o Morita, para ela depois ricochetear para dentro da sua própria baliza. Enquanto o VAR analisava o lance, o Rui Orlando pareceu querer limitar os danos, ignorando durante todo o tempo que a bola havia batido primeiramente na mão do neerlandês e depois afanosamente apontando à tese do auto-golo, como se de um auto-golo fosse de esperar menos golo do que um golo marcado de outro modo, no que constituiu um raro momento de niilismo televisivo, que o pobre do Carlos Brito ainda procurou refrear, caracterizado por uma visão céptica e pessimista em relação à realidade como (quase) todos a vimos. [Pensando bem, se o estilhaço de uma explosão cósmica levou 100 milhões de anos até atingir a Terra (Yucatán) e extinguir os dinossauros, por que não pode o Rui Orlando demorar 90 minutos a perceber o que é um ricochete? Pode, claro.] 

 

O jogo também me marcou pela novidade de o ter visto na companhia de um amigo benfiquista. Tratou-se de uma experiência única e enriquecedora, na medida em que me trouxe outro ponto de vista sobre o jogo. Passo a explicar: enquanto eu procurava a acção no campo, o meu amigo entretinha-se com uma espécie de "Onde está o Wally?", tentando identificar o Boaventura no túnel, numa esquina, junto ao balneário, enfim um pouco por todo o lado, manifestando-se por fim muito surpreendido e triste pelo facto de não ter conseguido ver um filantropo assim em Moreira de Cónegos. Em contraste, estava eu centrado no meu ponto de vista quando o Geny foi por ali fora e soltou para o Trincão no tempo certo. Este deixou correr a bola até à linha e depois fê-la filantropicamente bolinar na direcção do Pote. Seguiu-se o habitual passe à baliza e estava feito o dois a zero. [Brincadeirinha minha, que o meu amigo é um tipo às direitas.]

 

Se Amorim é grande adepto de Guardiola, as semelhanças do futebol do Sporting com as ideias de Klopp não deixam de ser reais. No Gegenpressing (Gyokeres, Morita, Hjulmand e Nuno Santos foram extraordinários), na transição rápida, na energia contagiante com que os jogadores estão em campo, como se a equipa fosse uma banda de heavy-metal itenerante. Todavia, por contraste, já se sabe que dos metaleiros se podem esperar as mais belas baladas, pelo que nos são dadas a ver nuances da mais pura filigrana. Como as que apresenta o Kaiser Quaresma, um defesa com pés de bailarino clássico, destreza de ilusionista e espírito de aventureiro, novamente em destaque em Moreira de Cónegos. Para não falar em Pote e na sua delicada execução do já famoso passe à baliza, Art-Deco do melhor que já se viu por cá. Pensei nisto tudo enquanto decorria o intervalo... No segundo tempo, o Sporting manteve a pressão sobre o Moreirense. Embora menos concludente no que fazer com ela, a equipa soube não conceder espaços aos minhotos. De tal forma que a única oportunidade de golo do Moreirense ocorreu já nos descontos, um ar de graça final depois de um jogo inteiro de privações. Como o último suspiro de um moribundo. [Seguimos jogo a jogo, se a Polícia deixar.]

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pote

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16
Fev24

Tudo ao molho e fé em Deus

Sintético a dobrar


Pedro Azevedo

Caro Leitor, isto de ser analítico a comentar o sintético já de si é uma contradição nos termos. Acresce que sintético não foi só o relvado, artificial. Não, sintético foi também o Rúben Amorim na dosagem de esforço dos mais utilizados, gerindo a condição física dos jogadores e simultaneamente a disposição anímica do balneário. Doravante, socorramo-nos então do dobro do sintético para nos aproximarmos de algo que se assemelhe a uma análise, substituindo a relva e o Amorim por Kant e Hegel em busca de uma síntese filosófica que explique o que se passou ontem em Berna.

 

A síntese filosófica é um processo que deriva do simples para o composto, do elemento para o todo, das causas para as consequências, com o objectivo último de defender uma ideia através da argumentação. Como tal, comecemos pelo mais simples, o elemento, o jogador: Coates e Paulinho foram poupados a um piso demolidor para as articulações e ficaram em Lisboa. Trincão, que pegou de estaca e muito tem jogado (e jogado muito, também) desde que o novo ano brotou, e Morita, em acção recente na Taça de Ásia, não iniciaram o jogo por gestão da sua condição física. Se estas foram as causas, tudo isto conjugado deu a oportunidade a Edwards, Bragança, Matheus Reis e, mais tarde, aos estreantes Nel e Koba de jogarem, solidificando a união do balneário, pelo que a única consequência negativa para o todo (a equipa) foi um desempenho menos bom do nosso meio-campo. Tratou-se de um risco, creio que calculado, que o nosso treinador assumiu correr, mas a verdade é que a dupla Bragança-Hjulmand não funcionou, não conseguindo controlar os tempos de jogo e dando demasiado espaço (por vezes, avenidas) aos nossos adversários no miolo do terreno. Então, o que nos valeu? Bom, desde logo a excelente acção dos nossos 3 centrais, em especial de Eduardo Quaresma e de Gonçalo Inácio, que numas vezes deram o corpo ao manifesto e noutras fizeram valer a antecipação para evitarem males maiores. E depois a acção de Edwards e de Gyokeres na frente (Pote esteve muito activo, mas desinspirado na definição), que puserem sempre em sentido as pretensões helvéticas de avançar mais as suas linhas, com o "plus" do sueco ter arrancado desde cedo um cartão amarelo ao seu marcador directo (quando mais tarde ficámos a jogar contra 10, senti-me um voyeur a espreitar o que é jogar como o Benfica), ele que foi carregado à margem das leis tantas vezes quantas as que ousou transformar a defesa do Young Boys num queijo suíço. [Emmental (que até é de Berna), meu caro Watson.] 

 

No fim, gerindo até ao limite (os nossos dois melhores jogadores, Gyokeres e Pote, foram descansar com um quarto de hora mais descontos por cumprir), Amorim venceu a triplicar: o jogo, a condição física dos jogadores e o balneário. Especulou e foi feliz, que o controlo esteve à beira de se descontrolar em momentos como o do "frango" de Adán ou dos golos anulados ao Young Boys e o golo inaugural do jogo foi na realidade um auto-golo. Não que o Sporting não fosse muito superior aos suiços, mas porque Amorim quis ganhar em Berna a pensar em Moreira de Cónegos. Legítimo, evidentemente, mas não necessariamente sinónimo de uma menor ambição europeia, espera-se. Pelo menos a fazer fé no lema do nosso fundador: "TÃO GRANDES COMO OS MAIORES DA EUROPA". 

 

Um dia, num treino do Varzim, o Joaquim Meirim, que tinha tanto de filósofo como de psicólogo e louco, disse a um guarda-redes espanhol que lá treinava, Jose Luis de seu nome, que era o melhor da Europa. Quando este então o inquiriu sobre a razão por que não jogava, Meirim respondeu-lhe que o Benje era o melhor do Mundo. O Sporting pode até ganhar a Liga Europa, mas a condição de melhor equipa da Europa paradoxalmente não lhe garante o título máximo doméstico. Por isso há que fazer pela vida, externa e internamente. E ser objectivo, que é como quem diz, sintético. Serve como análise? (Deu para "dobrar" os suiços.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Eduardo Quaresma. Edwards, Inácio e Gyokeres estiveram em bom plano. 

P.S. (Sobre o excesso de futebol nas televisões.) À hora a que termino esta crónica está a começar mais um jogo no 11, canal sempre na vanguarda da promoção do futebol exótico. Parece que é em casa (casota?) do São Bernardo. Não ouvi o adversário, mas suspeito que seja o Pastor Alemão. Ou então o Serra da Estrela, o que daria um belo clássico de montanha.

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12
Fev24

Tudo ao molho e fé em Deus

Muita largura de banda e mobilidade 5G


Pedro Azevedo

O Braga é uma equipa que futebolisticamente foi montada da frente para trás, o que na construção, sector caro para o seu presidente (e possivelmente caríssimo para os credores da Britalar), significa edificar uma casa pelo telhado, sem fundações. Improvisando, Artur Jorge procurou limitar o prejuízo ao colocar 2 ou 3 pilares como escora a fim de evitar que o furacão Gyokeres soprasse e o tecto ao cair lhe reabrisse a moleirinha já fechada em bebé. Ora, já diz o povo na sua infinita sabedoria, quando a manta é curta, tapa-se a cabeça e descobrem-se os pés. E o Braga, ao proteger-se da acção superior de Gyokeres, ficou exposto à intensa ventania produzida pela restante equipa do Sporting que lhe escancarou o hall de entrada. Na verdade, foi um suicídio, como nos livros do Ásterix quando o chefe dos piratas afunda o navio só para não sofrer com a abordagem do Óbelix. É que o Gyokeres parece ter caído no caldeirão da poção mágica em pequenino, tal a sua potência, e o medo que inspira nos adversários ficou bem expresso na forma como mobilizou a atenção do treinador dos bracarenses, dando razão a John Locke quando disse que "as acções dos homens são as melhores intérpretes dos seus pensamentos". Pelo que, sagaz e consciente, o Artur Jorge, na preparação do jogo, perante a inevitabilidade da derrota, escolheu a forma como quis perder. Deixando assim o aviso à navegação, restando tentar entender de que forma quererão os treinadores nossos adversários perder no futuro: se fazendo brilhar o colectivo do Sporting ou se promovendo mais uma epopeia do nosso deus sueco. A mim, dá-me igual.

 

Com o Artur Jorge em modo de "onde vai o Gyokeres, vão todos" - ainda assim o todo não chegou para impedir que o sueco marcasse o 27º golo da época -, não houve grandes obstáculos às transmissões de bola entre os restantes jogadores. Porém, a vitória leonina só começou a consolidar-se através de uma pressão fortíssima sobre o portador da bola, estratégia que viria a resultar no primeiro golo, marcado pelo Trincão. Depois, o Quaresma imitou o Beckenbauer ou o Baresi e foi campo adentro, começando por fintar dois bracarenses com a maestria de um extremo. continuando a tebelar com o Trincão como se de um médio se tratasse e terminando a cheirar uma bola perdida com o instinto de um matador - um hat-trick de predicados num único golo! Para o segundo tempo o Amorim decidiu esperar pelo Braga. Longa se tornou a espera: o resultado foi que durante longos minutos viu-se Braga por um canudo, que o medo dos minhotos de destapar as costas se sobrepôs à ambição de ser feliz. Como eles não vinham com tudo, houve algum adormecimento dos nossos. Até que numa bola parada o Adán mostrou que não era um holograma a fazer figura de corpo presente. E depois o Álvaro Djaló desperdiçou a única grande oportunidade dos bracarenses no jogo. Tal teve o condão de despertar os leões da letargia, voltando ao ataque. Logo, o Quaresma descobriu o Trincão na ala direita. Este flectiu para dentro e levantou por cima da defesa. O Gyokeres agradeceu a liberdade condicional ou saída precária e atirou à meia-volta sobre o Matheus. De seguida, o Pote serviu o Bragança para o quarto. E ainda houve tempo para um bonito golo de trivela do "Puskas" Santos que passou o risco de baliza do Braga antes que o seu guarda-redes se mexesse. 

 

Com muita largura de banda dada por Nuno Santos e o Geny(o) Catamo, o Sporting conseguiu uma mobilidade 5G (cinco golos) que facilitou as comunicações de Trincão, Quaresma, Gyokeres, Bragança e Nuno Santos com a baliza do Braga. Entretanto, no outro jogo que fez parte da cimeira de Domingo entre Lisboa e o Minho, o Benfica empatou em Guimarães. Ainda que contra 10, como é impositivo nos jogos que envolvem a equipa da águia. [Tal como as Top Models dos anos 80, que não saíam da cama se o cachet não atingisse um determinado faraónico valor, enquanto a todas as outros equipas do campeonato se aplicam as regras do jogo, aos benfiquistas são concedidas "rules of engagement" sem as quais nem pensem que eles ousam meter os pés num relvado. É o Benfica, o glorioso, o PIB e coiso, pá!] 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Eduardo Quaresma. Trincão seria a minha alternativa. 

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08
Fev24

Tudo ao molho e fé em Deus

O Estádio Policial e os Calcanhares de Aquiles


Pedro Azevedo

O jogo de futebol era muito simples na minha meninice: num rectângulo, nem sempre relvado, dispunham-se duas equipas de 11 jogadores, 1 trio de árbitros, duas balizas e uma bola. À medida que fui crescendo, adicionou-se complexidade: o nº de jogadores, de balizas e de bolas curiosamente permaneceu o mesmo, contudo a equipa de arbitragem foi aumentando, primeiro com o 4º árbitro, depois com VAR, AVAR, técnicos especializados, cabos hertzianos, equipamentos vídeo e uma roulotte anormalmente não nómada porque sita na Cidade do Futebol. Até que na semana passada me dei conta de que, em Portugal, o XV da Polícia também ia a jogo. Ou, mais precisamente, que quando o XV não quiser, não haverá jogo. Conclusão: o futebol português vive num excesso de "Estádio Policial". [Um dia o ladrão, sindicalizado, entrará em greve por falta de condições de trabalho e todos acharão bem que lute pelos seus direitos e lhe sejam facultadas melhores condições. Até que, com tanto respeito pelos direitos de todos, no fundo nada nem ninguém no país será respeitado, sendo esse o calcanhar de Aquiles de um mal (perda de autoridade do Estado) sem direito a protesto.]

 

 

Aquiles era filho de Peleu, o rei dos mermidões (Tessália). Um dia, sua mãe, Tétis, banhou-o no rio Estige a fim de torná-lo imortal. Só que ao segurá-lo pelo calcanhar, este ficou vulnerável. Em consequência, morreu na Guerra de Tróia após uma flecha disparada por Páris lhe ter acertado no calcanhar. Gyokeres tem a mesma pinta de guerreiro mítico, tanto que muitas vezes é comparado a Thor, o filho do deus nórdico Odin. A sua vulnerabilidade era o jogo de cabeça, dizia-se, mas ontem marcou 2 golos com a testa que mostram que o sueco está gradualmente a transformar essa fraqueza numa força. Pelo que tendo nós o nossa Tróia, que curiosamente se situa na mesma península (de Setúbal) que Alcochete e o Seixal, para o futuro cresceu a esperança de que esse calcanhar de Aquiles não se venha a tornar mortal às nossas aspirações ao triunfo nesta "Guerra  Peninsular" que se perspectiva até ao final da temporada. 

 

 

O Sporting ganhou ao União de Leiria por três bolas a zero. Desses três golos, o Gyokeres marcou 2 e assistiu em outro. Mas não ficou satisfeito. Pelo menos a avaliar pelos seu protestos para com o árbitro na sequência deste só ter dado 1 minuto de desconto e assim violado o seu direito de correr mais e de tentar obter um hat-trick. Com trabalhadores destes, arriscamo-nos a ganhar sempre o próximo jogo. Ou o outro a seguir, se a Polícia não deixar fazer o primeiro. (Vamos jogo-a-jogo que a Polícia deixar fazer.)

 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres. (Pote muito bem, Hjulmand idem e Quaresma também. Nuno Santos esteve em 2 golos e Morita regressou ao seu nível.)

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04
Fev24

Tudo ao molho e fé em Deus

O jogo de uma crónica adiada


Pedro Azevedo

O período de aquecimento antes dos jogos serve o propósito de as equipas desentorpecerem os músculos. As equipas da PSP e da GNR falharam o aquecimento. Em consequência, o cassetete ("casse-tête") não trabalhou os abdominais. Sem ameaça de cassetete das autoridades a dobrar por perto, os adeptos mais radicais fizeram o seu próprio aquecimento. Nesse transe, a pedra substituiu a bola perante o delírio de uns ultras que nestas ocasiões ficam sempre de cabeça a andar à nora. Partiram-se cabeças, havendo até traumatismos cranianos a registar para desenjoar do insustentável traumatismo ucraniano causado pela ofensiva imperial russa. A polícia não entrou em campo, não luziu o seu crachá, contribuindo assim para o estado de sítio em Famalicão. Reforços provenientes do Porto foram aguardados como quem espera por Godot. Clínicos gerais e psiquiatras desdobraram-se a passar baixas médicas a agentes das forças de segurança que deveriam ter estado em Famalicão, sem que tal movesse qualquer comunicado ou inquérito por parte da Ordem dos Médicos. O MAI imitou os Trabalhadores do Comércio: "Chamem a Polícia, que eu não pago". No fim, o Sporting não jogou. Depois da greve dos árbitros no final dos anos 90, do amuo de televisão e rádios nos 80s, agora o boicote informal da polícia... (Se um dia a Associação de Adeptos do Futebol decidir por um protesto, já sabemos com quem tomarão uma posição. O mesmo será válido para stewards, apanha-bolas, etc, não sendo de descurar a possibilidade de a própria cal que limita o campo se encantar e tomar uma posição contrária aos interesses do Sporting.)

 

Entretanto, à hora marcada, enquanto colegas seus mantiveram a baixa para Famalicão, agentes de segurança estiveram em alta no Dragão para a recepção do Porto ao Rio Ave, que o respeitinho é muito bonito e até uma associação sindical que insiste em negligenciar a imagem de perda de autoridade por parte dos seus profissionais sabe que não pode ultrapassar certos limites. Ironicamente, a autoridade mostrada em campo pelos pupilos de Sérgio Conceição foi do mesmo nível da das forças da autoridade, e os vilacondenses roubaram 2 pontos aos portistas sem que ninguém os levasse presos. E assim terminou um jogo (táctico, de pressão, influência e poder) cuja crónica ficará adiada para um outro tempo, no mínimo até após o Benfica passar para primeiro à condição. (O título de "Crónica de um jogo adiado" perpassou-me as sinapses, mas não reflectiria tão bem a realidade ontem vivenciada.)

 

O estado a que isto chegou... Ou melhor, o Estado a que isto chegou...

 

Tenor "Tudo ao molho...": A Polícia Judiciária 

 

P.S. O Benfica conseguiu finalmente ser líder. O PIB irá subir (mesmo em contra-ciclo) e já se poderá pagar melhor à Polícia. Tudo na santa paz do Senhor, portanto...

 

P.S.2 Já se sabia que o futebol português eram 11 contra 10 e no final ganhava o Benfica. O que não se sabia é que era também 20 contra 19 (jornadas) e no fim o líder é o... Benfica. 

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30
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

Levantados do chão (com molas)


Pedro Azevedo

Quem me lê há algum tempo sabe que a minha primeira recordação do Sporting é de um jogo no José Alvalade contra o Oriental que ganhámos por 8-0 (5-0 ao intervalo), em que o Yazalde (meu primeiro ídolo) marcou 5 golos a um guarda-redes da equipa de Marvila chamado Azevedo (sim, por coincidências da vida, houve um homónimo a encaixar oito bolas associado à minha primeira memória futebolística e do Sporting). Esse jogo vivi-o pela telefonia, que ainda não tinha idade para ir ao futebol, pelo que o que começou numa onda média (da rádio) só se transformou verdadeiramente num tsunami (de emoções) quando entrei no nosso estádio pela primeira vez (5-1 ao Porto, época de 75/76). Pois bem, quis o sortilégio que ontem, data do meu aniversário, o Sporting me brindasse com um presente de dimensão em tudo igual à do supracitado jogo de 73/74, evocando-me, 50 anos depois, a memória dessa onda (verde) em crescendo. Uma obra também do Gyokerismo, a doutrina que o sueco trouxe para Portugal e que a todos no Sporting parece estar a tomar de encantamento. 

 

Se existe o paradigma de um novo normal em Alvalade que se pode associar a Gyokeres, outras coisas há que são cíclicas. Como o central de lança Coates, o nosso capitão, que ontem reapareceu para desbloquear o marcador e tornar fácil aquilo que de outro modo poderia ter-se complicado. Aberta a rolha do champagne, no refluxo o Pote recebeu um passe de ruptura (magnífico) do Inácio, isolou-se na meia esquerda e serviu em bandeja de prata o Gyokeres para o segundo. Depois, o Hjulmand desmarcou o Pote e este deu uma raquetada na bola que passou o guarda-redes. Seguiu-se um momento de Gyokeres que fez lembrar uma jogada do Eusébio contra a Coreia do Norte, tal a demonstração de técnica, força e velocidade. Como no Mundial de 66, a coisa acabou em penálti, que convertido (pois claro!) pelo próprio daria o quarto da noite. Destaque para o túnel prévio escavado por Nuno Santos que fez desabar por completo as pretensões dos Gansos. E antes do intervalo ainda houve mais um golo, com o Trincão a mostrar que estes são como o ketchup e a chutar com o pé mais à mão (o direito), depois do Edwards ter fintado dois dentro de uma cabine telefónica antes de chocar com a porta de saída. 

 

Com cinco golos de vantagem, terá havido quem pensasse que no segundo tempo o Sporting tiraria o pé do acelerador. Mas não, a equipa queria vingar a derrota na Taça da Liga e emitir um "statement" destinado à concorrência, pelo que não abrandou. (Não sei se o Amorim será milagreiro, mas não se via uma recuperação assim desde que Jesus ordenou a Lázaro que se levantasse e andasse.)

 

Levantado do chão, com molas, o Sporting continuou a procurar a baliza do Casa Pia. Nesse sentido, o Geny entrou para alargar a margem. Sábio, o Rúben lançou também o Paulinho. Mas aí o motivo foi a contenção dos danos infligidos aos casapianos, que o Coates e o Trincão estavam imparáveis e era preciso evitar a todo o custo que o Sporting atingisse o duplo digito e com isso ficasse na lua e pudesse não voltar a assentar os pés em terra firme. A missão era difícil, desde logo porque o Gyokeres fumegava que nem um touro enraivecido e não parava de correr. A solução foi começar a lançar o Paulinho em profundidade ou solicitar a sua comparência ao primeiro poste para encostar, tudo coisas que no fundo não favorecem o seu associativismo. Pelo que a custo lá ficámos nos 8, o número da sorte para os chineses, o infinito ali de lado, que de infinitas possibilidades se fazem os sonhos em que tudo é possível. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres

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24
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

Eficiência vs Eficácia


Pedro Azevedo

Para quem se preocupa com o rendimento, o jogo de ontem do Sporting mostrou a diferença entre a eficiência e a eficácia. Quer dizer, o Sporting foi eficiente, na medida em que com os recursos disponíveis - havia jogadores importantes na dinâmica da equipa ausentes pela participação nas taças da Ásia e de África - conseguiu dominar o jogo e ter as melhores oportunidades. Mas não concretizou essas oportunidades, e nessa medida não foi eficaz. Depois, há quem analise o jogo do ponto de vista etéreo. Por exemplo, para as "viúvas" do Paulinho, a sua exclusão do onze inicial teve como consequência a derrota, ainda que tenha tido 23 minutos (mais 4 de descontos) para fazer a diferença e nem sequer se tenha dado por ele. São os mesmos que agora desenvolvem a teoria de que o Gyokeres beneficia muito da presença do Paulinho, quando o sueco tem tantos golos marcados (11) com o português em campo como fora dele (já a influência positiva de Gyokeres no rendimento de Paulinho é visível pelos 9 golos que o português marcou com o sueco em campo, contra apenas 4, dois deles com o Dumiense, sem ele presente). E, finalmente, há ainda os amantes do esoterismo, os supersticiosos: para eles, o Sporting foi também vítima da evolução do jogo, ou melhor, da evolução das infraestruturas adjacentes ao jogo: no futebol de antigamente, três pancadinhas na madeira teriam dado sorte; na era do pós-revolução industrial e dos postes metálicos, malhar três vezes no ferro produziu um manifesto azar. São os mesmíssimos que acham que os eventos do Esgaio não dar andamento pela faixa direita e lhe ter parado o cérebro no golo do Braga estão relacionados com uma tremenda falta de sorte ou com uma intervenção nefasta do bruxo Nhaga. 

 

A ideia da sorte ou azar num qualquer tipo de jogo não é totalmente descabida. Diria até que a sorte e o azar fazem parte do jogo. Todavia, aquilo a que chamamos de sorte acontece mais quando a oportunidade certa encontra a preparação correcta, e ontem mesmo os espíritos preparados não conseguiram concretizar as oportunidades que tiveram (bolas a rasar os postes, de Pote, Gyokeres e Quaresma). Pelo que as melhores oportunidades (as bolas nos postes) surgiram mais de boa preparação (remates colocados, de longe) do que de situações reais em que um jogador aparece isolado em frente ao guarda-redes. Ou seja, nessas circunstâncias, foi mais a boa preparação do jogador que criou a oportunidade e não a oportunidade criada pela dinâmica da equipa que esperou a preparação certa. E quando a dinâmica da equipa criou a oportunidade, a bola saiu ao lado. Depois, após sofrido o golo, a equipa perdeu o tino, por quebra anímica ou substituições que não produziram efeito, mostrando-se impreparada para a situação e não vendo na ameaça a oportunidade de fazer algo épico como dar a volta ao jogo. 

 

De lado ficaram também as aspirações do Sporting de vencer a Taça da Liga, falhando assim o primeiro objectivo da época. Sendo esta claramente a competição menos importante daquelas em que estamos inseridos, tal não será muito grave. Gravíssimo seria a equipa desmoralizar e os adeptos desmobilizarem, porque há ainda coisas muito importantes para ganhar esta temporada. Como o Campeonato, a Taça de Portugal e mesmo a Liga Europa, esta última uma prova que o Sporting precisa de encarar com uma ambição condizente com o lema do seu fundador. Num certo sentido, esta derrota até se poderá traduzir em algo positivo, capaz de se vir a reflectir em muitas vitórias futuras. É, todavia, imperial que se aprenda com os erros e se corrija o que está mal. Porque não podemos ter uma ala direita coxa, que não dê andamento atacante e comprometa defensivamente. Pelo que ou se vai ao mercado, ou se adapta St Juste, Quaresma ou mesmo o Afonso ali, como está é que não se pode manter (o Geny deveria ser mais uma solução como interior, ou extremo num 4-2-3-1 com, por exemplo, Quaresma a fazer de lateral). Se tal acontecer, então poder-se-á esperar sermos ainda mais eficientes, melhorando ainda mais as tarefas desempenhadas pelos recursos disponíveis ao disponibilizar melhores recursos para o processo. E sendo ainda mais eficientes, estaremos mais perto de ganhar. Porque mais oportunidades surgirão. E os golos também, por mais ou menos eficácia que haja. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Eduardo Quaresma (Nuno Santos, que fez um jogo de raça, à leão, seria a minha 2ª opção). O nosso central esteve simplesmente magnífico, mostrando a sua refinada técnica (ser bom na roleta num jogo de sorte ou azar é sempre uma mais-valia) e impressionante velocidade. 

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19
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

O Fantasma da Oprah


Pedro Azevedo

Caro Leitor, a noite passada tive uma branca (e verde), um momento digno dos contos do imprevisto, uma visão paranormal e hitchcockiana imprimida no meu cérebro ao jeito de um quadro de Dali (havia também pelo menos um rinoceronte que levava tudo à frente) que me transportou para uma janela nas minhas sinapses que eu julgava estar calafetada e subitamente se abriu. Pelo que não sei se sonhei, se estava acordado, ou até se sonhei acordado, mas juro que vi o Bryan Ruiz em Vizela. Sim, só podia ser ele, pois na minha memória recordo ainda aquele remate de baliza aberta em que a bola não entrou, reminiscência de um outro mais antigo atribuído a ele que ainda hoje me causa pesadelos. Agora, se era o Ruiz em carne e osso não sei, a mim pareceu-me mais o fantasma do Bryan. Mas também há que dizer que há fragmentos da primeira parte para mim confusos, tanto que por causa do Esgaio estivemos a Soro e só mesmo nas urgências se começou a resolver o problema. De forma que quando voltei a olhar para o ecrã já não vi mais o Ruiz, era o Gyokeres que eu conheço que estava a marcar um grande golo e a festejar de máscara. Um golo em forma de swing, que abriu novas perspectivas, tal como uma boa tacada de abertura de um buraco por parte de um golfista. [A alusão ao golfe aqui não é dispicienda, porque o que Gyokeres rodou o seu corpo nesse lance teria sido de fazer inveja ao Tiger Woods que conhecemos antes das múltiplas operações às hérnias discais e à ciática, handicap que dizem as más linguas ter sido provocado por múltiplos embates com mulheres de grau de dificuldade (sinuosidade) superior ao par do campo.]

 

Estava eu ainda a recompor-me daqueles achaques do primeiro tempo que alimentariam um bom programa da Oprah (Winfrey) quando o Gyokeres assustou o guarda-redes do Vizela. Diz-se do medo que este é paralisante, e o pobre do Buntic provou-o ao ficar quedo perante a iminência da aproximação do colosso sueco. O resultado foi que a bola entrou directa, impelida por um renascido Trincão. O mesmo que pouco depois serviu Paulinho na perfeição para o terceiro. (Pausa para checar a pulsação, para ver se era mesmo verdade aquilo que os meus olhos diziam e a razão não queria acreditar.) Após este último golo veio uma quebra de adrenalina. O Amorim também descomprimiu e tirou o Hjulmand do relvado antes que este fosse expulso. Não que este receio encontrasse lógica na acção do jogador, mas devido à habilidosa dualidade de criterios do árbitro. Um árbitro que no entanto se mostrou particularmente judicioso no que respeita a Gyokeres, sempre preocupado em testar os seus sinais vitais após cada novo embate com Anderson, um defesa abençoado pelos deuses do apito ao ponto de ter permanecido em campo os 90 minutos. Até que o Essende lá fez umas das suas diagonais, o Quaresma (mais um grande jogo!!!) desta vez não estava por perto para fazer de SOS e o Coates ficou a pedir uma falta de pernas e a ver a bola entrar na nossa baliza. Logo se reavivaram os fantasmas do passado, as perdidas do Ruiz e a derrota no União da Madeira, um bate-boca com o consócio ao lado sobre o vício do desperdício e os porquês da saída do dinamarquês e assim. Foi curto porém esse revivalismo, porque o nosso capitão foi à área contrária mostrar que o que não lhe falta é cabeça e voltou a alargar a nossa vantagem. E depois o Gyokeres mandou mais uma pedrada e igualou o seu melhor registo goleador no Coventry, quando ainda vamos a meio da temporada. 

 

Cinco golos marcados, 3 anulados (2 a Gyokeres e 1 a Paulinho) e inúmeros falhados depois (mais uns tantos penaltis a favor por assinalar) - além do supramencionado, aquele em que o Pote se isola, hesita em chutar e falha o passe para o Gyokeres é também digno daqueles apanhados de fim de ano - , o Sporting segue líder do campeonato. Com o Gyokeres individualmente em grande evidência mas também muito importante pelo efeito de contágio que anima a própria equipa. É que com o Gyokeres em campo os adversários concentram-se nele e abrem espaços para os demais. Além de que com a sua atitude e comprometimento aumentou o nível de exigência para todos os outros, colocando a fasquia muito alta e projectando assim o Sporting para outros vôos. Porque com o Gyokeres veio também o Gyokerismo, uma nova doutrina que seria importante para o futuro que fizesse escola em Alcochete. Isso, sim, seria holístico. [E mais produtivo do que os habituais desabafos desiludidos de sofá (da Oprah) à conta de fantasmas do passado.]

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres

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14
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

A Revolta dos Patinhos Feios


Pedro Azevedo

Contra uma chuva persistente, que misturada com o calcário (carbonato de cálcio) que envolveu o jogo - a cal que limitava as linhas, misturada com o dióxido de carbono libertado na respiração dos jogadores - precipitava estalactites nos narizes dos jogadores, o frio siberiano e um terreno em condições quase ideais para a prática do cultivo de bivalves, o Sporting saiu de Chaves com os 3 pontos. Como é habitual nestes jogos com equipas ditas pequenas e estava em plena conformidade com o nome da cidade representada pelo clube em questão, o nosso adversário começou por se encerrar a 7 Chaves, recorrendo para tal a fechaduras, trancas, trincos e cadeados a fim de bloquear o acesso ao seu cofre-forte, não dispensando ainda interpor o autocarro (Steven) Vitória, que logo de início apanhou com duas boladas consecutivas à laia de tentativa de arrombamento. Só que o Sporting, a despeito do glorioso porco bísaro da região, desde cedo mostrou que não estava em Chaves para serrar presunto e insistiu em atacar. Até que logrou obter um primeiro golo, numa jogada típica de Harpastum, misto de pé e mão, um jogo precursor do futebol que chegou a Chaves ("Aquae Flaviae") e aí pelos vistos criou raizes por via dos romanos no tempo do imperador Vespasiano (Séc. I), césar que sucedeu a Nero e que com o jogo e a ideia de construção do Coliseu em Roma pretendeu entreter as suas tropas e o povo após um período marcado pela loucura e por um impasse de poder e guerras de sucessão. O marcador do golo foi o Paulinho, um homem apropriadamente habituado a atravessar o Rubicão (de criticas) e outros cursos em que costuma meter água.

 

Na TV insistiam que se tratava de um jogo de futebol, ainda que provavelmente só se chegasse a essa conclusão por negação de todas outras hipóteses relacionadas com diferentes desportos: não era curling, porque o objecto do jogo não deslizava; não era andebol porque a "basculação" se tornava impossível, o que muito terá desgostado o comentador Freitas Lobo (que basculou em floreado para outras bandas); não era basquetebol porque não havia cesto, embora naquele lodaçal as possibilidades de afundanço fossem imensas; não era hóquei, por muito que houvesse quem patinasse; não era rugby, futebol americano ou luta livre, ainda que contra Gyokeres pareça valer tudo menos tirar olhos. Pelo que o jogo foi uma coisa em forma de assim, como diria o O'Neill e constatou o João Correia quando atrasou a bola ao seu guarda-redes e a viu ficar presa na relva e à mercê de um isolado Pote. Mais uma vez, como aliás aconteceria amiúde durante a partida, Hugo Souza lá estava para atrasar o inevitável...

 

O segundo tempo começou logo com mais 2 golos: o relvado todo molhado ficou apropriado para a navegabilidade de outros 2 patinhos feios desta temporada, o Trincão (lindo golo) e o Pote, agora branquinhos (equipamento) que nem cisnes. Pelo que o resto do jogo se pode resumir a uma cruzada de Gyokeres na busca do golo, ora travada pelo guarda-redes, ora detida pelo estado do relvado, esforço infrutífero que resultou num ensinamento do tipo do Sermão de Santo António aos Peixes, do Padre António Vieira, em que foi censurado o vício (de golo) do colonizador em face dos direitos dos desprotegidos autóctones. Solidário, o Luís Godinho logo lhe deu um amarelo para o acalmar, ainda que não se vislumbrasse razão válida para tal que não fosse um(a) Baia que se formou nesse mar rodeado por relva e terra que se opunha a um cabo (no caso, da escola de praças do Regimento de Infantaria 19, sito ali ao pé).  

 

E assim terminou um jogo em que as chaves que desbloquearam o cofre flaviense não vieram do Areeiro mas sim de Braga. Abrindo assim antecipadamente uma vantagem sobre os nossos adversários directos que se hoje não for atenuada só pode ser vista mesmo por um "canudo" (telescópio), prática a que, por exemplo, os bracarenses já estão habituados a partir do Bom Jesus. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pedro Gonçalves

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10
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

Jogar à sueca


Pedro Azevedo

Um jogo de Taça entre um grande e um pequeno dá sempre uma oportunidade a este último de jogar a cartada do tomba-gigantes. Nessa conformidade, o Tondela não quis ser uma carta fora do baralho e foi a jogo. Só que no "pano" verde de Alvalade agora joga-se à sueca e o Sporting tem sempre o Ás de trunfo. Acrescentar o Ás a outros trunfos importantes que o clube sempre teve, ajuda muito a que as vazas não terminam em "palha". E não terminando em "palha", vão-se somando pontos importantes para se ganharem campeonatos e outras competições. É preciso porém não olvidar que esse Às não deixa de ser um "Joker(es)", pelo que se o nosso adversário quiser especular com o jogo (Póquer) ou jogar as cartas todas que tem na mão (Canasta e Gin Rummy), as probabilidades continuarão a tombar para o nosso lado, havendo um "Joker(es)" que se pode fazer de qualquer outra carta para desempatar.  

 

Aquilo que mais impressiona no Gyokeres (chamemos-lhe assim), é mesmo a forma como substitui qualquer carta do baralho: que ele era um Ás na finalização, poucos teriam dúvidas, mas também é um rei, para os adeptos do Sporting, como foi rainha para os ingleses do Coventry. E um valete, ao serviço de Amorim. Ou uma manilha, quando acelera pela ala direita como um "7". E pinta com cada "sena"... Umas vezes vestindo traje de gala (terno), outras esfarrapando-se todo como se fosse a carta menos valiosa do baralho (duque). No fim, o adversário invariavelmente quina, pelo que sobre ele alguém ainda há-de escrever uma bela quadra. (Se quiserem que ele seja "8" ou "10", também se arranja, além de "9" como bem sabemos.)

 

Todavia, subsistiam ainda algumas dúvidas sobre o Gyokeres. É que por muito que se tenha algumas das melhores cartas do baralho, ainda assim os jogos ganham-se por vezes com a cabeça. Creio porém que desde ontem algumas dessas dúvidas se começaram a dissipar. "Ó Diacho!", dirão os seus adversários, pasmando-se ao vê-lo tanto correr, sem se esgotar ou lesionar. Pelo que se deverão sentir como os funcionários daquela Estação de Serviço retratada no célebre anúncio do Citroen Dyane: "E eu a vê-lo passar. Gasolina não precisa, oficina nem pensar!...". 

 

Não se esgotam porém em Gyokeres as boas notícias: ontem, o Pote voltou a atinar com o golo. Agora imaginem a cena: o Schmidt e o Conceição estavam à cata de Janeiro, a rasgarem os olhos à espreita da Taça da Ásia e com vontade de dançarem o CAN-can, e agora já não chegava aparecerem de repente todos viçosos o Bragança e o Quaresma, ainda o Pote desata a marcar e o Gyokeres até o faz de cabeça. Ganda melão, pá!!!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres

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09
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

Gyokeres oxidou o Limão Mecânico


Pedro Azevedo

Se no cinema estamos habituados ao conceito de filmes de autor, realizados por visionários como Hitchcock, Tarantino, Scorsese, Almodóvar, Kurosawa, Godard ou Fellini que se destacam pela sua singularidade e inovação, no jogo da bola também existe o chamado futebol de autor, desenvolvido ao longo dos anos por revolucionários do jogo como Herbert Chapman, Helenio Herrera, Gusztáv Szebes, Rinus Michels, Johann Cruijff, Arrigo Sacchi ou Josep Guardiola. No futebol, o rótulo é atribuído a partir do momento em que se nota uma personalidade própria e muitas vezes disruptiva no trabalho do treinador. Porém, não só de equipas grandes se faz a história do futebol de autor, há também casos de sucesso que envolvem pequenos clubes que se tornam rapidamente de culto. Como a Atalanta, de Gasperini, ou o Brighton, de De Zerbi. Ou, em Portugal, o Estoril, de Vasco Seabra, com a conceptualização de um carrossel que se desenvolve a partir de um sistema base de 3-4-3. Dada a cor das camisolas, a escassez de recursos financeiros e a óbvia influência holandesa no seu jogo, para efeito desta crónica vou denominar o modelo canarinho como "O Limão Mecânico": Seabra baseou-se no princípio de que se a vida nos dá limões, então fazemos uma boa limonada. Assim, conseguiu reunir e potenciar um conjunto de muito razoáveis jogadores, adaptáveis ao seu sistema e modelo, que bem espremidos vêm batendo o pé aos Grandes, garantindo pontos e a admiração da comunidade futebolística em geral. O problema é que ontem o Estoril deparou-se com Gyokeres, o homem que veio do gelo. Com o contacto, o limão secou e a sua mecânica enferrujou, ou seja, Gyokeres oxidou o Limão Mecânico.  

 

Com o Belchior, o Baltasar e o Gaspar presos no trânsito caótico de uma sexta-feira ao fim da tarde na 2ª Circular, o Viktor desdobrou-se em vestir a pele de todos eles e de enfiada começou a distribuir presentes pela equipa, naquilo que foi o último ensaio geral para as festividades de um Dia de Reis comemorado à espanhola (ou não houvesse um dedo de Guardiola na forma como o Sporting joga e não deixa jogar o adversário). Como figurantes, os jogadores do Estoril, com defesas a atacar como avançados e avançados a organizar o jogo desde trás como se fossem defesas. Na antecâmara, a imprensa desportiva havia elogiado sobremaneira a melodia saída da imaginação do maestro e compositor Vasco Seabra, uma espécie de caixinha de música em forma de carrossel de Natal. Mais uma equipa de autor, mais um tremendo desafio para o Sporting de Ruben Amorim, dizia-se. No jogo, porém, a equipa da Linha não entoaria mais do que o som do silêncio ("Sound of Silence")... Para começar, o Gyokeres apareceu na esquerda, Pela frente, o Rodrigo Gomes, bom jogador e a última coqueluche do futebol nacional. Não demorou mais do que uns poucos segundos para que o Gyokeres desarticulasse o pobre do Rodrigo até entregar de presente ao Edwards. Não contente, o sueco passou para a direita. Recebe do Geny. Pela frente o Pedro Álvaro, já exaurido pelo sprint prévio. Faz que vai para dentro, mete por fora, o Pedro como se estivesse numa sauna, fora do caminho, e novo presente açucarado para o Edwards: 2-0 no marcador, os estorilistas foram apressadamente para o balneário à procura de um ortopedista que lhes voltasse a atarrachar as partes do corpo que se soltaram no relvado de Alvalade. Reinício do jogo e grande jogada de um apanha-bolas do Sporting: o miúdo repõe a bola rápida e sincronizadamente para o Gyokeres, que, acto contínuo, a lança à mão para o Nuno Santos. O remate ainda é deflectido, mas só para nas redes do Estoril. Mais um presente. De seguida, o Pote recupera a bola e avança. Tem dois adversários pela frente, mas o Gyokeres arrasta ambos numa diagonal e o Pote fica isolado e faz um daqueles célebres passes à baliza cujo resultado é o golo. Novo presente, ainda que indirecto. Depois, o sueco antecipa-se e serve Trincão. Novo golo, o suspeito do costume na assistência. Muita Parra e pouca uva depois, o pobre do Raul vê o Gyokeres passar como cão por vinha vindimada. O presente era, de novo, para o Edwards, mas um canarinho antecipa-se e o Geny na ressaca atira por cima. 

 

O resultado está mais ou menos feito. O Quaresma, grande exibição, salva o golo de honra do Estoril, substituindo-se ao Adán. Edwards e Geny isolam à vez o Gyokeres, mas o sueco está em noite de entregar presentes e não de desembrulhar os presentes dos outros como é seu timbre. Edwards ainda atira ao ferro, mais tarde Pote replicá-lo-á. Pelo meio, o Estoril marca: uma bola parada, que geralmente é defendida à zona. Mas o Sporting defende-a com zona, o que é uma outra coisa, infecção viral que afecta pele e corpo e contagia toda a equipa. Desta vez o portador é Paulinho, que assiste magistralmente um jogador do Estoril para golo - mais um triunfo do futebol associativo.

 

O jogo termina. Mais um teste vencido pelo Sporting de Ruben Amorim. Mais uma equipa com direitos de autor protegidos que não passou a sua musiquinha. Toda a gente conhece como o Sporting joga, poucos sabem como desmontar a forma como o Sporting joga. Da mesma forma que conhecimento é ter a noção de que o tomate é um fruto e  sabedoria é não misturá-lo numa salada de frutas. Compreender o Sporting é fácil. No papel tudo é lógico, tudo faz sentido: encaixam-se os nossos corredores num fecho-éclair, cava-se um dique para impedir a passagem da bola entre os centrais e os médios... Mas depois a bola entra directa no Gyokeres e este mostra ter a intuição que derruba qualquer lógica. Enquanto os outros pensam, ele acredita. E nós, também!!!

 

Feliz Dia de Reis!!!

 

P.S. Já toda a gente sabe que o Edwards é um bocadinho como o Sitting Bull: dentro do campo é um guerreiro a atacar, mas fora dele é sossegado, não fala, apenas murmura, pelo que é mais ou menos indiferente a língua em que lhe façam as perguntas. Sugestionado por isso, o jornalista da SportTV inventou um novo dialecto. Não havia necessidade, mas acabou por ser um momento televisivo "importanting"...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres

31
Dez23

Tudo ao molho e fé em Deus

Da Profundidade e da Altura


Pedro Azevedo

O futebol é um jogo que se disputa sobre, e não sob, um rectângulo. Ora, num rectângulo há comprimento e largura. E existe ainda uma terceira dimensão medida pela altura, porque o futebol joga-se com uma bola e esta circula tanto à flor da relva como pelo ar. Porém, o "futebolês" gosta de complicar e então inventou um novo conceito de "profundidade". Falar de profundidade é bem, parece até ser erudito e mostrar conhecimento do jogo, especialmente quando acompanhado pela basculação, outra patacoada empregue para comparar o levantamento de uma extremidade e concomitante abaixamento de outra com a mudança de sentido de jogo num campo de futebol onde não há relevo (talvez se justificasse nos campos de treino que Portugal usou em Saltillo). Toca então de a "ensinar" naqueles cursos magníficos de que aquele senhor com nome de gigantone ou cabeçudo das festas e romarias de Portugal tanto se orgulha (o nosso Rúben era o máximo quando não tinha nivel ou só o nível 2). De tal forma que já ninguém se interroga, o que é a reacção típica do povo a qualquer bacorada quando esta é dita com a maior eloquência. Tudo bem, antes tivemos por cá grandes craques do futebol ultramarino, venha então o futebol submarino, que estes "futeboleses" a inventar são dignos do Nemo, do Náutilus e das 20.000 Léguas do Júlio Verne. 

 

Se num campo de futebol não existe essa coisa da profundidade, não deixa de ser relevante a questão da altura. Nos manuais de estratégia militar aprende-se que quando a infantaria não progride, a cavalaria não flanqueia e a artilharia não vislumbra o alvo ao nível do solo, então é preciso bombardear com os meios aéreos disponíveis. Se isso é verdade para as forças armadas, também é real num jogo de futebol: em encontros como o de Portimão, em que o adversário se fecha todo cá atrás e não deixa espaço nas costas para lançar o Gyokeres, é fundamental haver avançados com bom jogo de cabeça. O problema é que esse não é o forte do sueco e Paulinho falha tanto em terra como no ar ou até no mar (só para alegrar os "gajos" da profundidade e do futebol associativo). [Alejo Véliz seria esse ponta de lança de que precisamos como plano de contingência, mas foi (aos 18 anos) do Rosário Central para o Tottenham por um valor de investimento perfeitamente acessível para nós.] Para agravar o problema, tivemos inúmeros cantos a favor, mas o Inácio e o Coates, os nossos jogadores com mais eficácia nas alturas, não estiveram no relvado por castigo ou lesão. Assim, restava-nos encontrar o espaço por onde entrar, só que Pote ocupou durante imenso tempo esse espaço (arrastando sistematicamente para aí um adversário) que deveria ter sido deixado livre para quem viesse de trás, não sendo à toa que Morita o tenha descoberto apenas quando Bragança entrou e veio jogar ao seu lado (e não mais adiantado, como Pote anteriormente). Antes, havíamos explorado uma vez o espaço mínimo existente entre o autopullman da Eva estacionado por Paulo Sérgio e a paragem do autocarro, com Gyokeres a antecipar-se ao "pica" e a conseguir finalmente encontrar a porta de saída desse espartilho e cumprir com o seu destino (goleador). Só que de uma faltinha à portuguesa - só por causa das tosses, em Portugal qualquer corrente de ar (excepto as tempestades que investem sobre o Gyokeres) é logo motivo para que um árbitro sopre o apito - resultou o fim do descanso de Adán e o golo portimonense. E, completamente contra a corrente de jogo, até poderiam ter vindo mais dois de enxurrada, um salvo por Quaresma (e não Adán, como Rúben erradamente referiu) e outro pelo nosso guarda-redes. Até que houve a tal jogada de Morita que Paulinho assistiu de calcanhar para o calcanhar de um algarvio e por fim até às redes. {Um golo de Paulinho geralmente envolve mais rituais e inuendos que um baile de debutantes.] Antes de tudo isto porém (ainda na primeira parte), o Neto havia mandado uma sarrafada num antigo jogador nosso (Gonçalo Costa) que o deixou com a mesma cara com que eu fiquei quando soube que ele iria a jogo e o Quaresma ficaria no banco. Dois ou três jogos no banco, desde que concentradíssimo (pode ser até que levite), o nosso jovem talvez ganhe a titularidade...

 

Bom Ano de 2024 a todos!!!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Hidemasa Morita 

24
Dez23

Tudo ao molho e fé em Deus

Le Duc


Pedro Azevedo

De Bragança a Tondela são 220 km de viagem, mas ao Daniel bastaram 17 minutos para chegar ao seu destino. Foi tudo tão rápido que só poderia ter sido produto de um overlap, com o médio a sobrepor-se aos avançados e assim aparecer isolado em frente à meta. Depois, fez a bola atravessá-la com pompa e circunstância, recorrendo para o efeito a uma acrobacia digna de qualquer um dos 2 Madjers que marcaram o futebol português (consta que o Tozé também tentou, mas ficou marreco no processo). Não ficou por aqui o Daniel: cerca de um quarto de hora depois, lá estava ele, no apoio frontal, com um toque de calcanhar delicioso que abriu caminho para o Paulinho disparar de pé direito para o segundo. Se o Gyokeres é o Rei e o Pote um Príncipe, este Bragança é um Duque, um senhor a jogar à bola! 

 

Enquanto 10 jogadores se envolviam num bonito "association" do qual resultaram dois belos golos, Trincão fazia um jogo à parte, como se com ele em campo houvesse duas bolas, uma só para ele e outra para o resto da equipa. Estaria muito bem, se ele fosse um Maradona ou Messi e lhe desse continuidade até ao fim. Assim não passa de um foção, um glutão que só vê bola e se esquece do contexto (jogo) e do modo envolvente (equipa e adversários).

 

Não gostei que o Quaresma não tivesse sido titular. Se o Rúben Amorim quer ter a certeza de que ele é capaz de fazer 2 ou 3 bons jogos consecutivos, então tem de o pôr a jogar de início e não fazê-lo entrar quando o resto da equipa já está em modo de descompressão, a trocar o jogo pela peladinha. A prová-lo, o Matheus Reis, desconcentrado e com sede a mais no pote, querendo antecipar aquilo que só o tempo certo dá. Ora, se, pelo contrário, o Quaresma soube esperar pela oportunidade ou momento certo, estreando-se a titular contra o Porto com uma grande exibição, agora seria de dar-lhe continuidade. Ou não? 

 

Com a vitória de ontem, o Sporting apurou-se para a Final Four da Taça da Liga. Segue-se Portimão e o regresso ao Campeonato, onde é ansolutamente necessário segurar a liderança. A Taça da Liga continuará lá para o fim de Janeiro, pelo que só jogo a jogo lá chegaremos mais fortes. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Daniel Bragança, "Le Duc"

 

P.S. No fim do jogo o Tozé Marreco foi ter com o Gyokeres para dizer-lhe que nunca tinha visto um ponta de lança assim em Portugal. Ficou-lhe bem a grandeza da atitude e o desportivismo inerente. Imaginem só o alívio que terá sentido ao não ver o sueco em campo, ao contrário da tristeza nutrida pelos Sportinguistas que se deslocaram a Tondela, mas estes jogos com equipas de escalões secundários parecem destinados para Paulinho encher as estatísticas com golos. Gyokeres voltará em Portimão. 

Boas Festas!!!

daniel bragança.jpg

 

19
Dez23

Tudo ao molho e fé em Deus

Ciclone Gyokeres contra as altas pressões


Pedro Azevedo

Das histórias de quadradinhos do Walt Disney vêm-nos à memória vários personagens. Uns mais recorrentes no almanaque, como o Tio Patinhas, o Mickey, o Donald ou mesmo o Pateta, outros mais raros. Entre estes últimos destaco o Grilo Falante. Este falava frequentemente ao ouvido do Pinóquio, dando-lhe conselhos sábios e constituindo-se como a voz da sua consciência. Transferindo dos quadradinhos para o universo do futebol profissional, o Grilo Falante seria o VAR ideal de qualquer árbitro. O problema é que no nosso futebol há muitos Pinóquios - já o dizia o Pimenta Machado a propósito do que hoje é verdade, amanhã poder ser mentira - e poucos Grilos Falantes, abundando porém os Metralhas. Vem isto a propósito do Clássico de ontem, porque não é natural comentar um jogo contra o Porto em que o nosso maior adversário residiu no auricular instalado no ouvido do Nuno Almeida. A botar faladura, o Tiago Martins: aquando do seu anúncio, disseram-nos que o VAR era para ser usado em lances de flagrante delito do árbitro e seus auxiliares. Tomámos boa nota. O que ninguém nos preparou foi para um anti-ciclone Gyokeres a operar a partir da Cidade do Futebol, uma flor de estufa muito sensível a correntes de ar. Como resultado da acção desse centro de alta pressão (sobre o árbitro), foram anulados dois golos ao Sporting e os ânimos aqueceram na proporção das nuvens cinzentas que se desanuviaram sobre o Porto. No primeiro, o Quaresma veio da direita à esquerda para cortar um ataque perigoso do Porto. Embalado, tabelou com o Morita e foi apanhar a bola à frente. Enquanto o João Mário se contorcia no chão com dores de cotovelo, o Quaresma sacou do GPS e direccionou um cruzamento perfeito para o Gyokeres, que de cabeça disparou um míssil que passou por cima do Diogo Costa antes que este pudesse sequer ajeitar o cabelo para a fotografia. A anulação do golo foi um crime de lesa-futebol. No segundo, o Bragança chegou primeiro à bola - há uma imagem de uma câmara de frente que mostra o portista que o tenta desarmar ainda com o pé no ar - e tocou para o Paulinho, que marcou. O auxiliar anulou por fora de jogo que o VAR posteriormente viu não existir. Os portistas alegaram ter havido falta do Paulinho, que o VAR também viu não existir. Criou-se assim um impasse: consultadas as leis do jogo, a utilização do pé esquerdo não constituía infração por si só para anulação de um golo. A chuteira estava calçada, outro contratempo. Continuação do impasse. Até que o inefável Martins recorreu ao Telescópio James Webb para vislumbrar uma alegada falta do Daniel. O curioso é que o jogador que alegadamente sofreu a falta não protestou, ao contrário dos colegas que se dividiram entre um sem número de alegações cujo único propósito visava evitar a goleada.  

 

Não sei se o Sporting teve melhor organização colectiva do que o Porto, o que é claro é que os nossos jogadores ganharam os duelos individuais mais importantes. Nesse particular, o Gyokeres e o Quaresma destacaram-se: de tanto encostar o Pepe às cordas, o Gyokeres levou-o à exaustão física e mental, erosão que terá estado na origem de ter confundido o relvado com um ringue de boxe e concomitante expulsão por agressão a soco. E o Quaresma colou o cromo do Galeno numa caderneta e não o deixou sair de lá, tendo ainda tempo para uma jogada à Baresi ou à Beckenbauer, conforme a Vossa preferência. No golo, o Gyokeres choca contra o Pepe, ganha o ressalto com o peito e surpreende o Diogo Costa ao chutar para o primeiro poste. (Quem quer comparar este golo com o sofrido por nós em Guimarães engana-se, porque o jogador vimaranense conduz pela esquerda do seu ataque com o pé canhoto e tem pouquíssimo ângulo, enquanto o Gyokeres vem da esquerda, tem a bola no seu pé direito e assim o ângulo aberto.) O Sérgio Conceição logo alegou ter havido mão do sueco. Mas podia também ter alegado maus tratos a idosos e requerido a presença de uma assistente social no local para registar o facto, que ainda que fosse possível motivo para interditar o nosso lar de Alvalade não seria alibi para anular o golo. A cena repetiu-se aquando da anulação do segundo golo a Gyokeres: o árbitro não viu razão para infração e até advertiu por simulação o portista caído no chão. Mas logo se armou a tenda do circo, não faltando o anão da praxe e o médico que troca o juramento de Hipócrates pela hipocrisia de utilizar o seu estatuto para falar ao ouvido do bandeirinha: um outro tipo de Grilos Falantes. Após o intervalo, o Pepe foi expulso. O árbitro, de frente para o lance, não viu a agressão ao Matheus Reis. Chamado ao VAR, Nuno Almeida demorou um tempo infinito a constatar o óbvio ululante. Cheguei a pensar se não estaria a ser equacionado que o Matheus Reis teria agredido com a sua boca o punho cerrado do Pepe, mas o facto de as comunicações entre VAR e árbitro não serem divulgadas em tempo real inibiu o seu cabal esclarecimento. Após consulta exaustiva da Carta Universal dos Direitos do Homem, o direito à segurança pessoal (artigo 3º) prevaleceu sobre a presunção de inocência (artigo 11º) e Nuno Almeida mandou finalmente o Pepe ir tomar banho. No chão, Matheus Reis jorrava sangue... Com menos 1 em campo, os portistas concederam mais espaços ao Sporting. O Geny encontrou o Gyokeres com uma pista para acelerar e este não se fez rogado, oferecendo no fim o golo ao Pote. A celebração que se seguiu foi de baile de máscaras, como se o Pote tivesse reconhecido que o golo era todo construção do sueco e fosse necessário disfarçar a enorme superioridade leonina. Depois o Gyokeres voltou a isolar-se e a tocar novamente para o Pote, mas desta vez o Diogo Costa conseguiu defender. Novo vendaval sueco se seguiria, com o golo a ser novamente anulado como descrito acima. Pelo meio, uma cotovelada de Taremi a Inácio ou um pontapé deliberado de Varela a Catamo escaparam somente com o amarelo. 

 

No fim do jogo lá apareceram o Faustino e o Duarte Gomes na televisão. Afinal foi tudo normal: os golos anulados, a cotovelada do Taremi ao Inácio, o pontapé do Varela ao Catamo e o tempo que o Nuno Almeida demorou para tomar a decisão de expulsar o Pepe. É sempre pungente ver como funciona o corporativismo em Portugal. Em resumo, a arbitragem foi excelente, nós todos é que precisamos de ir urgentemente à Multiópticas. Como aliás já foi a Dª Dolores, a mãe do nosso Cristiano Ronaldo, que, Sportinguista orgulhosa, foi vista a festejar euforicamente a nossa grande vitória. Grande Dª Dolores! Do jogo fica ainda uma lição da matemática: como marcar 4 golos e só ganhar por 2 de diferença, sabendo-se que o adversário não marcou qualquer golo. É que a matemática é uma ciência exacta, excepto quando a bola rola em Portugal. Estamos na frente!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres. Grande jogo do Eduardo Quaresma e exibições acima da média do Hjulmand, do Diomande e do Inácio. 

gyokeres porto.jpg

15
Dez23

Tudo ao molho e fé em Deus

Seguidores de Drucker


Pedro Azevedo

O economista e consultor de gestão Peter Drucker dizia que os resultados são obtidos através da exploração de oportunidades e não pela solução de problemas. E o Sporting levou a sua lição à letra: Trincão foi igual a si próprio, Esgaio idém, mas os leões globalmente fizeram um jogo sério e empenhado e souberam explorar bem a necessidade que o Sturm Graz tinha de ganhar o jogo a fim de se apurar para a Conference League sem ficar tão dependente do resultado do Rakow. 

 

Num jogo aberto, Sporting e Sturm Graz alternaram o domínio durante o primeiro tempo, período onde o equilíbrio foi notório. Curiosamente, quem se desequilibrou foi o árbitro, que caiu, levantou-se e correu com a bota mais à mão até ter de finalmente parar o jogo para se calçar - uma lição para quem acha que não se consegue "descalçar a bota" da arbitragem. Em contra-ciclo, quem nunca fica "descalço" com Gyokeres em campo é o Sporting. Mas já lá vamos... Se logo a abrir o Sporting teve uma oportunidade por Nuno Santos, os austríacos replicaram com uma ocasião ainda mais clara através de um cabeceamento parado por Israel com muita fotogenia. Até que o Matheus Reis tabelou com o Nuno Santos, deixou um defesa com os olhos à Marty Feldman (Mel Brooks) e cruzou exemplarmente para o Gyokeres empurar de pé esquerdo para golo. Grande jogada! Depois, o Gyokeres desarmou um adversário no nosso meio campo e soltou um vendaval até às imediações da área austríaca, passando então ao Paulinho. Este, primeiro, temporizou e depois centrou para o sueco cabecear de forma cruzada, testemunhando o guarda-redes a voar em contra-pé e a bola a esbarrar contra o poste. O suficiente para o Gyokeres, que merecidamente foi descansar para o banco. Para segunda-feira a Protecção Civil anuncia mais vento forte e possibilidade de precipitação... de golos (mas com o Pepe em campo, o "mau tempo" já era garantido).

 

Se na primeira parte o jogo foi repartido, na etapa complementar o Sporting dominou por completo. O recém-entrado Morita contribuiu bastante para isso, na medida em que mostrou uma percentagem de sucesso no seu passe de primeira bem superior à de Hjulmand, o que melhorou a fluência do nosso jogo e nos permitiu ganhar tempo e encontrar espaços por onde ferir os austríacos. Além de que as suas características compatibilizam-se melhor com as de Bragança em jogos em que o adversário não mostra grande intensidade e o Sporting tem mais posse, ambos privilegiando um jogo de passe rápido e desmarcação constantes que foi baralhando as marcações dos austríacos, que nunca encontravam o momento certo de atacar a bola. Quando o meio campo funciona bem, logo aparecem espaços entre-linhas e nas alas e melhor se realçam as virtudes do modelo de jogo em boa hora implementado por Rúben Amorim. Assim também aconteceu ontem, embora a má definição na área nos tenha impedido de alargar a vantagem dessa forma, pelo que os golos acabariam por chegar no seguimento de pontapés de canto, com Inácio, que também só entrou no segundo tempo, a bisar. Pouco mais haverá a destacar, com a excepção da oportunidade concedida ao jovem Essugo de jogar fora da sua posição natural. Um clássico de Rúben Amorim, mas, enfim, também ninguém é perfeito, não é verdade?

 

Para quem já viu uma Valsa em Linz, que mais parecia uma Tragédia Grega, e Ópera Bufa em Viena e Salzburgo, este ensaio geral com a (S)turma de Graz até não correu nada mal. Aproxima-se agora o jogo grande que os Sportinguistas acreditam ser aquele em que a equipa se vai finalmente mostrar à altura do lema do seu fundador, respeitando o adversário mas segura do seu valor. Se jogador por jogador e mesmo colectivamente vejo o Sporting como superior, não se pode descurar o peso que os duelos individuais poderão ter. Principalmente quando as forças começarem a ceder e houver menos compensações. Pelo que na forma como Esgaio (e o Diomande na dobra) lidará com Galeno, ou Edwards conseguirá ou não desequilibrar pelo centro-direita, dependerá muito provavelmente o resultado final do jogo. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Hidemasa Morita. (Matheus Reis merece uma menção especial pela jogada do primeiro golo, Gyokeres teve 1 minuto de sonho que valeu pelo jogo todo e Gonçalo Inácio já leva 3 golos nos últimos 2 jogos.) 

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14
Mai23

Tudo ao molho e fé em Deus

Restaurador Olex


Pedro Azevedo

No futebol, o que é natural e fica bem é cada um actuar de acordo com a sua vocação. Com Restaurador Olex, cada interveniente no jogo recupera a sua posição primitiva. Assim, o Coates pode concentrar-se na arte de marcar golos (em vez de os oferecer ao adversário), o Paulinho em evitá-los e o Tiago Martins em estender a passadeira vermelha ao novo campeão. (Já que o Rúben Amorim não se mostra, e bem, disponível para guardas de honra no contexto actual, convém haver um voluntário que as faça.)

 

Os últimos 10/15 minutos de ontem em Alvalade foram paradigmáticos da diferença que a aplicação de Restaurador Olex provoca no futebol português e no Sporting: para começar, o Autogolo voltou a evidenciar-se como o nosso melhor ponta de lança, o que não deixa de ser surpreendente num avançado que chegou a custo zero, não tem ordenado e nem sequer pode ser dado como um exemplo de amor à nossa camisola. Depois, o Coates mostrou o seu instinto matador, sendo ele o segundo no ranking dos nossos avançados-centro. De seguida, o árbitro desrespeitou o seu auxiliar e validou um golo irregular ao Marítimo. O Adán chamou-lhe a atenção para o pecado original e ficou de fora da recepção ao Benfica. Veio um insular desembestado e deu uma peitaça num nosso que até o virou. Não contente, procurou repetir a dose com o Coates, mas bateu na couraça da indiferença do uruguaio e acabou ele virado. Entretanto, virado, e do avesso, estava o Tiago Martins, que a muita insistência do nosso capitão lá se dignou a falar com o "bandeirinha". Para manter tudo como estava e insistir no erro. Até que o VAR devolvou a verdade ao marcador, ainda que não ao jogo (a expulsão de Adán jamais teria acontecido se o árbitro tem imediatamente validado a indicação do seu auxiliar). Finalmente, o Paulinho foi à baliza, para apurar um pouco mais as suas melhores características de defensor. Como diriam os Pink Floyd, foram dez/quinze minutos de momentâneo lapso de racionalidade, de uma insanidade total, com muitos amarelos, um vermelho, um golo anulado e outro marcado na própria baliza. Um clássico do Western Spaghetti luso - obrigado pela dica, Álamo - do tipo "Once upon a time in Alvalade", que bem poderia ter sido dirigido por um Sérgio leão para ilustrar o valor da nossa resiliência. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": o VAR

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09
Mai23

Tudo ao molho e fé em Deus

Móvel à Mata Real, Retális


Pedro Azevedo

Faz parte do imaginário popular de quem alguma vez tenha pisado o interior de um táxi a mítica expressão "Móvel à Rua da Buraca", muitas vezes entrecortada por "Retális", com que uma menina via rádio sinalizava o chofer de praça. Não sei se era difícil estacionar na referida rua, se lá existiam serviços camarários relevantes ou se a maioria dos seus moradores infelizmente não possuía carro, mas não me lembro de uma artéria de Lisboa com tantos pedidos de táxi como essa, talvez com a honrosa excepção da mais central Rua das Pretas. Lembrei-me disso ontem ao ver Rúben Amorim requisitar um móvel à Mata Real, que é como quem diz, um ataque móvel à Capital do Móvel. Habitualmente muito criticado por esta opção que entretanto havia caído em desuso, o Rúben tomou a decisão correcta face às circunstâncias, contrapondo mobilidade a um mobiliário que como se sabe não tem mobilidade nenhuma (ou tem, mas necessita de um empurrãozinho à maneira de Palma de Maiorca). Ainda mais, havendo, entre o mobiliário, alguns baús velhos e pesados como o Gaitán, o Luiz Carlos ou o Marafona. Nem de propósito, estes dois últimos deram uma de Coates e combinaram para um primeiro golo à ponta de lança. De seguida veio o Nuno Santos, que não é imaginativo na arte do drible mas é um criativo na arte do golo. E, já depois de não deixar cair em Braga e de ensinar uma letra ao Boavista, brindou-nos com um chapéu de aba larga: a bola subiu, subiu e subi...tamente desceu, como se tivesse furado pelo caminho. O Trincão não quis ficar atrás e teve um pormenor à Bergkamp no terceiro da noite. Faltava o Chermiti molhar a sopa. O açoriano havia marcado pela última vez após assistência de Arthur (Porto), um jogador com um tipo de futebol mais prático e que o favorece. Ontem houve uma reedição: finta e cruzamento do ex-estorilista, e Chermiti a mostrar faro de golo e a encostar os pitões à bola. Nada mais havendo a acrescentar, o móvel regressou à Rua Professor Fernando da Fonseca. Retális.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Nuno Santos 

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