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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

25
Nov20

Pedro, o perseverante


Pedro Azevedo

Pedro David Rosendo Marques é a nova coqueluche proveniente da Formação do Sporting. Uma colheita tardia, vintage, como tal delicada e de grande qualidade. Ouvi falar no Pedro pela primeira vez através de um primo "belém" (eu sei, acontece nas melhores famílias haver quem escape ao desígnio do leão) que, entusiasmado, me ia relatando o impacto tremendo que estava a ter nas camadas jovens do Belenenses. O Sporting contratou-o no seu primeiro ano de junior e logo se distinguiu pela profusão de golos que marcou. Recordo em especial um golo de belo efeito contra o Real Madrid na Youth League: servido por Abdu Conté, Pedro imitiu o movimento dos alcatruzes de um engenho hidráulico trazido para a península pelos muçulmanos para deixar o guardião madridista à nora, afagando primeiro a bola no ar com o seu pé esquerdo para depois rodar e chutar, sem deixar cair a bola, com o pé direito. Um golo de elevadíssima execução, porém não suficiente para chamar a atenção do juiz da nota artística que por essa altura embora já patinando ainda era rei em Alvalade. 

À míngua de oportunidades, o Pedro foi sendo condenado à irrelevancia. Ressurgiu por momentos numa outonal noite europeia quando as goleadas se sucediam, a esperança se vestia de verde e Keizer era ainda um encantador  de leões. Durou pouco, e a estrelinha do Pedro voltou a ofuscar-se. Na época passada foi para a Holanda onde jogou na Segunda Liga. Primeiro no Dordrecht, um clube que lutava para não descer de divisão. A equipa não era boa, levava grandes cabazadas, a bola não chegava lá à frente. Ainda assim, marcou 6 golos e fez 8 assistências, o suficiente para suscitar o interesse do Den Bosch, um clube do mesmo escalão mas com aspirações à subida. A sua estrela voltou a brilhar, terminando a época com 8 golos em 7 jogos realizados na sua nova equipa até à suspensão do campeonato devido à pandemia. Mais uma vez a conjuntura parecia estar contra o Pedro, e logo quando se estava de novo a afirmar. Regressou então ao Sporting e foi integrar a recém (re)criada equipa B. O cenário era o do Campeonato de Portugal. Em 4 jogos fez 4 golos, destacando-se não só como matador na área mas também nas transições. Nesse aspecto, o Pedro engana muito. Sempre composto, com o tronco muito direito, transmite a falsa ideia de ser lento. Mas só até começar a correr com a bola, momento em que a sua velocidade associada à boa articulação dos movimentos provoca imediatamente danos nos adversários que anteriormente o subestimaram. Dadas as suas boas prestações, o Pedro já "reclamava" uma oportunidade de jogar com gente grande. Foi convocado duas vezes, mas em ambas não saiu do banco. Até que, a pretexto da Taça de Portugal , finalmente teve a sua chance. Foram apenas 18 minutos, mas o seu impacto dificilmente poderia ter sido mais impressionante. Dois golos, a confirmação dos seus dotes de matador e uma sede de golo que não deixou nenhum Sportinguista indiferente foram a sua assinatura no jogo. E, do quase nada, em pouco tempo, tal como no anúncio publicitário todos ficámos cientes de que se calhar a solução (ponta de lança) estava no banco. Boa sorte, Pedro! E muito trabalho. 

(Golo ao Real Madrid aos 23 segundos do vídeo. Aos 46 segundos repete a dose.)

25
Set20

As contas do Sporting Clube de Portugal


Pedro Azevedo

Antes de falar sobre as contas e orçamento do Sporting Clube de Portugal (e não da Sporting SAD) gostaria de fazer um pequeno preâmbulo. Logicamente, eu tenho as minhas crenças sobre a matéria em causa, leia-se, sobre o que tem sido a gestão do Sporting e da sua participada Sporting SAD. Acontece que as minhas crenças se materializam nas minhas razões, e não tomando eu cuidado com isso facilmente se transformariam no meu ego face a outros egos. Esse tem vindo aliás a ser historicamente um dos grandes problemas do clube, o que associado a uma imprudente e irrealista gestão nos conduziu até aqui. Ora, muito mais importante do que as minhas razões são as razões do clube, expressão colectiva que não vale só por si mas sim deriva da soma dos vários indivíduos para os quais ele é relevante e onde se destacam obviamente os seus associados. Nesse sentido, a minha preocupação neste momento é com o todo e a escolha que farei no próximo Sábado em AG terá exclusivamente a ver com o sentido colectivo que dou às coisas através de uma acção individual que pretende fazer alguma diferença, o mesmo aliás que me faz procurar prevenir conflitos de interesse e tráfico de influências no meu clube e no futebol português através da sugestão de medidas concretas vertidas em regras e procedimentos em detrimento de massagear o ego em protesto com o "status quo" como D. Quixote das segundas-feiras. Apesar disso, independentemente do meu sentido de voto, o fundamental neste clube deve ser a criação de um espaço de tolerância onde as ideias, ainda que opostas, se possam discutir construtivamente, com urbanidade e sem dissidências definitivas nem processos de intenção. Esse é o clube com que sonho, o clube que na minha meninice vivi e aquele que não podemos permitir que nos seja roubado pela sucessão de acontecimentos e por gente que, não deixando de ser Sportinguista, está bastas vezes mais preocupada com o seu umbigo do que com o interesse comum ou, por outro lado, se torna obsessiva na consumação de uma paixão que se pretende seja obviamente entusiástica mas também vivida de forma harmoniosa entre todos. Nesse sentido, prezo o ideal de um Sporting democrático onde todos possam comungar da sua paixão. Até pela forma como esta AG, espaço de consulta aos sócios, foi sendo protelada, admito que também isso venha a ser referendado no Sábado.

 

Posto isto, aqui ficam as minhas impressões sobre os indicadores disponíveis: a primeira constatação é a recorrente reserva da parte dos auditores em relação ao método de equivalência patrimonial usado pelo clube que permitiu reconhecer como valor nulo as participações financeiras do clube em entidades cujos capitais próprios eram negativos à data de fecho das contas. Segundo a PWC, caso o clube tivesse reconhecido as responsabilidades que resultam das perdas apuradas nas suas subsidiárias, haveria que acrescer cerca de 257M€ ao Passivo e cerca de 265M€ em Resultados Transitados negativos. E que subsidiárias são essas? Olhando para o R&C, aqui fica a lista completa, com a participação financeira do clube entre parênteses: SAD (26,66%), Soc. Promoção Imobiliária - Quinta das Raposeiras (100%), Sporting Comunicação e Plataformas (100%), SGPS (100%), Construz - Soc. Promoção Imobiliária (100%), Verdiblanc I, II, III e IV (cada uma delas detida a 100%) e Fundação Sporting (100%). Relembro que, exceptuando a SAD, não se conhecem os Resultados discriminados de todas estas empresas do Grupo Sporting. Trata-se de uma situação recorrente (a sua menção nas notas de auditores está presente pelo menos desde 2012, mais antiga data disponível no site do clube, e independentemente da evolução desses valores até será muito anterior a isso), como tive oportunidade de mencionar inicialmente, mas não deixa de ser muito preocupante. Adicionalmente, este exercício ficou marcado pelo aumento do endividamente do clube junto da SAD em cerca de 12,7M€, para uns actuais 17,4M€. Não existe explicação no referido R&C para esta situação, mas é certo que ela não decorre exclusivamente de acertos entre participadas, na medida em que o Activo das entidades relacionadas cresceu apenas 3,6M€, o que não compensa este acréscimo de Passivo. De referir ainda que o Resultado Líquido do exercício se saldou num lucro de 74 mil euros. Porém, analisadas as transacções entre partes relacionadas, retira-se que o Sporting teve um Resultado entre rendimentos e custos com a SAD de cerca de 180 mil euros e de 2,164M€ com a Sporting Comunicação e Plataformas, empresa da qual não se conhecem as contas (mais 50 mil euros facturados à Construz). Esta situação aliás não é original, pois já em 2019 o Resultado das transacções com a SAD fora positivo em 1,4M€ e o Resultado das transacções com a Sporting Comunicação e Plataformas tivera um lucro ligeiramente superior a 2M€. Curiosamente, a Sporting Comunicação e Plataformas é a grande responsável pela subida do Activo do Sporting neste período, dado o incremento da sua dívida para com o clube em cerca de 2,7M€.

 

Em relação ao Orçamento, há um já expectável ajuste das receitas e dos custos ao cenário da Covid-19. Porém, como habitualmente o diabo está nos detalhes e na rúbrica "Outros Rendimentos e Ganhos" o mecanismo de equivalência patrimonial justifica um aumento previsível dos Proveitos em cerca de 40% (para 585 mil euros). Nos Gastos, prevê-se uma queda de cerca de 1M€ nos Honorários (atletas), o que apesar de significar uma descida de 11% não será só por si uma razão definitiva para a assumpção de uma menor competitividade das nossas equipas, vis-a-vis os frutos de uma maior aposta na qualidade existente na Formação aquando da definição dos plantéis. O Orçamento para 2020/21 pressupõe um Resultado positivo de 89 mil euros.

08
Set20

Análise ao R&C da Sporting SAD (19/20)


Pedro Azevedo

Demonstração de Resultados

  • A Sporting SAD apresentou um lucro do exercício anual findo a 30 de Junho de 2020 de 12.5M€.
  • Excluindo os rendimentos líquidos (já expurgados de comissões de 22.7M€) provenientes da venda de jogadores, o Resultado teria sido negativo em 71.7M€ (-70.2M€ se não considerarmos Perdas por Imparidade que podem estar relacionadas com alienação de direitos económicos), valor (recorde) em linha com aquilo que aqui tenho vindo a transmitir aos Sportinguistas.
  • O desequilíbrio entre Proveitos e Custos (ordinários) atingiu um valor recorde de -38.9M€.
  • Os juros pagos atingiram o valor de 15.4M€ (10.4M€ em 18/19).
  • Considerando apenas os últimos 3 meses do exercício, a SAD perdeu 18M€ nesse período (inclui venda de Matheus Pereira por um total líquido de 8.2M€).
  • Ao contrário do que havia sido divulgado aquando da divulgação da Estratégia PES (Pessoas, Estruturas e Software) e mais recentemente em editorial do Jornal Sporting, os custos com Pessoal não desceram 18M€ ao ano nem baixaram 18M€ nesta época. Houve sim um decréscimo de 9.6M€ em salários e encargos e menos 2.4M€ atribuídos a título de prémios de desempenho, mas esse valor foi em parte diluído por indemnizações de 7.1M€ (treinadores e jogadores), mais 5.5M€ que em 18/19. Relembro ainda que houve 3 meses de lay-offs que justificam parte significativa da queda dos custos, na medida em que foi anunciada uma redução de 40% dos ordenados durante 3 meses (com posterior redução a apenas 20% caso o campeonato se reiniciasse, valor que desconheço se já foi compensado ou entrou neste Relatório).
  • Ademais, os Gastos Gerais da sociedade subiram para 107.4M€, mais 2.5M€ que em 18/19. Em contraciclo, os Proveitos quedaram-se pelos 68.5M€, menos 7.3M€ que em 18/19. De referir a queda dos DireitosTV em cerca de 2.7M€ face a 18/19, bem como da Bilhética (efeito Covid) em cerca de 2.4M€.

Balanço

  • O Activo reduziu-se em 12.5M€, sendo que as principais descidas registaram-se a nível do Valor Bruto do plantel (-19.2M€) e da rúbrica de Clientes/valores a receber de clubes (-6.2M€, para 17.2M€). A contribuir para uma queda menos pronunciada do Activo esteve a rúbrica Outros Devedores, a qual subiu em 12.3M€, destacando-se aqui o crescimento da dívida de entidades relacionadas e em particular a do Sporting Clube de Portugal que é a 30 de Junho de 17.3M€. Neste Relatório foi possível observar que já não consta qualquer dívida do Manchester United à nossa SAD, sinal de que os 55 milhões de euros já estão integralmente pagos. (Recordo que em termos de Balanço o valor contabilístico dos formandos em Alcochete é próximo de zero, o que não reflecte o seu real valor de mercado, valor esse que cresceu intrinsecamente a partir do momento em que vários jovens foram postos a jogar na 1ª categoria.)
  • O Passivo baixou em 26.2M€, sendo que os Financiamentos desceram em cerca de 23M€ (Passivo bancário).
  • Em Clientes (17.2M€), o maior devedor é o WBA (9.1M€, o valor de venda de Matheus Pereira).
  • Por outro lado, a rúbrica de Fornecedores subiu face a período homólogo em 8M€, situando-se agora nos 55.9M€. Os Fornecedores não-correntes desceram em 4.6M€, estando agora nos 9.7M€ (Total de Fornecedores= 65.6M€). 
  • Após ter vendido, no final de Janeiro, Bruno Fernandes por 55M€ (integralmente pagos), a Sporting SAD tem a 30 de Junho cerca de 14M€ em Depósito à Ordem.  
  • A conta restrita para pagamento de VMOCs continua apenas com cerca de 600 mil euros (necessitamos de 40.5M€), dando a ideia que o acordo que reestruturação financeira que obriga a provisionar essa conta numa determinada proporção após vendas de jogadores ainda não está totalmente fechado. 
  • Os Capitais Próprios da SAD continuam negativos, agora em 9.9M€.
  • A SAD informou que 4 adjuntos do treinador Mihajlovic, invocando terem celebrado, em Junho de 2018, contratos de trabalho com a Sporting SAD, apresentaram uma acção junto do TAS em que peticionam a SAD a pagar-lhes o valor de 2.95M€. A SAD mais informa que não celebrou quaisquer contratos com os autores.

Conclusão

  • A Sporting SAD tem hoje pela frente um cenário de um quadrado com 4 faces iguais, todas elas a mirrarem e a necessitarem da maior atenção dos Sportinguistas. Cada face corresponde a um problema de dimensão idêntica. Os problemas são sociais, económicos, financeiros e desportivos, todos de alguma forma se interligam (e interagem) e merecem uma resposta de todos os Sportinguistas que amam o clube e o colocam acima de quaisquer proselitismos. Do ponto de vista social, eu fico chocado com o nível de discussão que se estabelece entre todos, desde ataques pessoais até aos proverbiais processos de intenção sempre colocados a quem não partilhe exactamente da nossa opinião. Eu penso que isso é indecente, não está de todo de acordo com os pergaminhos deste grande clube e com os valores que propagandeamos e tem de acabar, sob pena de o clube acabar primeiro para futuro desespero de todos os que se consideram actualmente cheios de uma razão que passará a ser inútil. Se evitar este tipo de coisas é o que cada Sportinguista pode fazer pelo clube, à Direcção caberá informar correctamente os sócios sobre a actividade do clube. Não vejo isso. De todo. Seja na forma como meias-verdades (passe o eufemismo) são plantadas para satisfação de uma certa narrativa, seja pela ausência de comunicação oficial sobre dispensas, jogos, etc. No prisma económico, o clube continua a laborar num paradoxo, mantendo custos com pessoal altíssimos e promovendo elevadíssimo número de contratações todos os anos (21 para a equipa principal desde que Frederico Varandas lidera o clube). O problema já vem de trás, mas a falta de acerto na maioria das contratações na época passada agudizou-o, levando a mais venda de qualidade e concomitante enfraquecimento do plantel. Financeiramente, o clube tem inúmeros problemas de tesouraria, deve 65 milhões a Fornecedores, renegoceia pagamento ao Braga, tem umas VMOCs integralmente por pagar e não tem novos meios de financiamento que não sejam a antecipação de receitas da NOS. O problema são os altos juros da operação (8,25% segundo foi dito por um dos participantes do "Rumo Certo"). Estamos a pagar 15 milhões de euros só em juros, anualmente, ou seja, entramos em cada novo exercício já a perder esse valor. Desportivamente é o que se vê, quarto lugar no campeonato, eliminados pelo Alverca na Taça e pelo Basaksehir na Liga Europa. Como sair disto? Cortando em gorduras desnecessárias, diminuindo peso adiposo e compensando-o com músculo proveniente de fibras jovens e 2-3 craques que peguem de estaca na equipa. Aproveitar a boa base da Formação (e não desperdiçar ingloriamente gerações como as de Demiral, Domingos Duarte, Matheus Pereira, Mama Baldé e afins) e complementá-la, ano a ano, com qualidade indiscutível. Ter uma política que privilegie os sócios, os aproxime do clube. Ter um discurso de verdade, que arregimente, evitando desculpas do passado que criam ainda maior afastamento entre consócios. É preciso acabar também com lendas e narrativas e a forma como se vertem em documentos estratégicos do clube ou nos seus meios. Só trabalhando bem todas estas faces do problema poderemos vir a ter uma solução. Evidentemente, um Sportinguista que se preze quer sempre que o Sporting ganhe, chame-se o presidente Varandas, Carvalho, Godinho ou Bettencourt. O fundamental é conseguir-se transformar esta massa imensa actualmente amorfa num mecanismo oleado onde todos caminham para o mesmo lado, juntos naquilo que a todos deve unir: o amor ao Sporting. Por isso, precisamos de doutrina como necessitamos de boas práticas de gestão e de bom entendimento do que deve ser uma política desportiva. E por aqui me fico presentemente, independentemente de asegurar a minha presença na AG ainda sem data marcada, que o campeonato começa dentro de dias e quero ficar focado no apoio (mesmo que no sofá) ao Sporting que para mim sempre foi mais relevante, aquele que todas as semanas vai a campo. Estes são e sempre foram os meus princípios. Ao contrário do que alegava Groucho Marx, peço desculpa mas não tenho outros. 
30
Ago20

O Sporting e as reformas inadiáveis


Pedro Azevedo

A jurisprudência resultante do caso Bosman, e concomitante fim de normas internas da UEFA e das suas respectivas federações nacionais de futebol, teve um impacto negativo bastante significativo a nível da competitividade internacional das equipas portuguesas. É certo que depois disso o FC Porto ainda venceu a Champions e a Liga Europa (duas vezes), alicerçado numa base de bons jogadores portugueses (a realidade com Mourinho) complementada por jogadores estrangeiros de inegável categoria (mais predominante com Villas-Boas) como Deco, McCarthy, Derley, Hulk, Otamendi, James Rodriguez ou Falcão, mas isso deve ser entendido como a excepção que confirma a regra. 

 

De uma forma geral os planteis mais fortes existentes em Portugal ocorreram entre a segunda metade dos anos 80 e a primeira metade dos anos 90. No caso particular do Sporting é claro e inequívoco que o clube não se soube adaptar à nova realidade. Se hoje em dia seria muito difícil termos um meio campo de luxo constituído por Paulo Sousa, Cherbakov, Figo e Balakov cujos suplentes eram da estirpe de um Peixe, Filipe, Capucho ou Pacheco, isso decorre essencialmente do facto de seis desses oito jogadores terem sido comprados no mercado e de ser cada vez mais complicado manter por um período razoável de tempo os jogadores por nós formados. 

 

É exactamente no que diz respeito à nossa Formação e sua utilidade na equipa principal que se pode fazer mais qualquer coisa. Mesmo levando em linha de conta o novo paradigma (duas, três décadas) da crescente influência dos empresários e concomitante pressão sobre esses activos, a verdade é que uma gestão eficiente dos nossos recursos deveria permitir que o núcleo central da equipa proveniente da Formação se mantivesse mais tempo connosco. O problema é que à medida em que a sua influência na equipa vai aumentando, também a sua visibilidade para o mercado cresce. Começa aí a pressão no sentido da saída, pressão essa que advém maioritariamente da promessa de salários muito mais elevados de clubes com outro potencial económico. Acontece que muitas vezes o Sporting não consegue ir ajustando a valorização do jovem atleta e sua crescente importância na equipa porque na sua folha salarial tem demasiados jogadores que não fazem a diferença e que pesam muitíssimo no total dos custos com pessoal, não deixando grande margem para ajustes salariais que premeiem a meritocracia. Se calhar, devíamos começar por aí, eliminando um significativo conjunto de redundâncias que só acrescentam na folha de pagamentos. 

 

O futuro do Sporting passará indubitavelmente por uma base sustentável de jogadores made-in Alcochete, base essa que necessariamente deve ser complementada por qualidade importada. Por isso digo muitas vezes que mais vale comprar 2-3 jogadores de indiscutível categoria, que provoquem um impacto imediato na equipa, do que apostar em quantidade numa classe média/baixa de jogadores que manifestamente não acrescentam. Se entre Janeiro de 2019 e Janeiro de 2020 comprámos (ou recebemos emprestados) 15 jogadores, só nesta janela de transferências já adquirimos mais 6. Ora, é relação a este tipo de política que eu estou em absoluto contra, e os factos que se consubstanciam em resultados vêm provando em abundância o porquê. Há um problema conceptual de definição de plantéis e a pressa em reunir rapidamente um conjunto de jogadores acaba por ser a némesis de qualquer aspiração ao título. Pensava eu que após uma temporada em que terminámos a 22 pontos do primeiro colocado algo de fundo se alteraria, mas a recente investida ao mercado prova o contrário. É certo que deposito fundadas esperanças em Pote, mas não vejo o enquadramento em termos de competência (capacidade, qualidade e experiência temperadas) importada ideal para que esse jogador possa ser útil à equipa sem que daí advenha uma pressão desmesurada para a sua juventude. 

 

Na verdade, tudo poderia ser diferente. É até uma realidade que recentemente tivemos connosco uma espécie de Balakov, de seu nome Bruno Fernandes, o que prova que esses jogadores não são impossíveis de obter. Infelizmente, o excesso de aposta na classe média/baixa acabou por motivar a venda de toda a qualidade que fazia a diferença, de Nani a Bas Dost, passando por Raphinha ou o próprio Bruno, sem esquecer Mathieu que terminou a carreira. O que nos resta hoje é uma belíssima base proveniente da Formação. Jogadores como Jovane Cabral, Matheus Nunes, Nuno Mendes, Daniel Bragança, Eduardo Quaresma ou Gonçalo Inácio são o futuro. Mas esse futuro só se materializará se houver um plano de carreiras para eles, o que passa antes de mais por uma gestão racional dos recursos existentes e sua não dispersão à toa. Caso isso continue a não existir, o mais certo é continuarmos no paradigma errado de formar para vender, quando o que deveríamos tentar fazer era formar para ganhar. Nesse sentido, não precisamos de jogadores a mais e que não façam a diferença. Do que precisamos, isso sim, é de qualidade que enquadre esses jovens e os faça elevar o seu patamar competitivo. Mas isso presentemente não temos. E continuaremos a não ter à razão de mais de 10 jogadores comprados por época, muitos deles prontamente na porta de saída. É urgente mudar este paradigma, da mesma forma que é premente dizer-se esta verdade aos sócios: se não souberem esperar 2 anos pela construção eficiente de uma equipa com pretensões ao título ficaremos cada vez mais arredados de qualquer palavra significativa no que diga respeito ao rendimento desportivo. Por muito que a cada janela de mercado se queira sonhar com Feddal e companhia, a realidade está aí ao virar da esquina e dá pelo nome de Rosier, Camacho, Eduardo, Ilori, Jesé, Fernando, etc. E é nesse sentido, não deixando de amar este clube para sempre, que digo que não se pode ser súbdito do "feddalismo" que invadiu o Sporting Clube de Portugal. Não só não se pode ser cúmplice do caminho da desesperança como é preciso que se dê voz aos reformistas, que querem essencialmente alterar as coisas por dentro. Até porque a história nos mostra que quanto mais se tenta calar os reformistas (moderados), mais azo se dá aos revolucionários. O problema das revoluções é que no dia seguinte há a necessidade de criar tudo de novo. Entre o caos. 

29
Ago20

Gonçalo Inácio


Pedro Azevedo

Há já algum tempo que venho pondo os olhos em Gonçalo Inácio, central canhoto que também fez parte da sua formação a lateral esquerdo. E gosto. Muito. Nomeadamente como central, onde a sua visão de jogo, encurtamento rápido dos espaços e superior capacidade técnica dão diferentes tipos de soluções, desde passe à distância e bloco alto até superioridade numérica em zonas mais avançadas do campo por via da sua boa saída de bola de trás. Para continuar a ver...

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27
Ago20

Ponto de situação


Pedro Azevedo

Nos últimos tempos tenho vindo a ouvir falar muito em experiência. Mas experiência não é só por si sinónimo de competência. Um indivíduo pode ter 33 anos de experiência e tal significar apenas um ano mau repetido por trinta e duas vezes. A experiência é importante quando acompanhada por qualidade e sabedoria. Olhando para o Sporting, Jeremy Mathieu foi o paradigma de como pode haver utilidade na experiência quando o ponto de partida é a qualidade e depois existe a humildade de procurar conhecer mais sobre o jogo, aprender e evoluir. Quando tudo isto é acompanhado por uma especial vocação para transmitir conhecimento, então, aí, sim, esse capital de saber acumulado torna-se determinante para uma qualquer organização, não só pelo trabalho individual realizado pelo próprio mas também pelo seu papel formativo dos quadros mais jovens e desenvolvimento geral do grupo de trabalho. Nesse sentido pode dizer-se que Mathieu elevou a qualidade do futebol Sporting, lamentando-se apenas que só tenha tido escassos 3 meses de contacto a sério com os jovens da nossa Formação a fim de deixar um cunho ainda mais pronunciado nas suas características futuras. Algo que, por exemplo, o Benfica soube fazer muito bem com Luisão, que do meu ponto de vista era menos jogador que Mathieu,  aproveitando-o praticamente como última estação de produção da linha de montagem sita no Seixal. É essa qualidade futebolística extra, aliada à sabedoria, que recomenda a aquisição de um veterano, pois do ponto de vista estritamente financeiro é sabido de antemão que o negócio será deficitário. Todavia, aposta-se no rendimento desportivo imediato do jogador e seu contributo para a melhoria do desempenho colectivo da sua equipa, bem como na ajuda pelo exemplo ao desenvolvimento de futuros novos craques que, para além do rendimento em campo,  poder-se-ão vir a constituir como importantes mais-valias para o clube. Na minha opinião, nesse sentido, e apenas assim, a contratação de um veterano fará todo o sentido.

 

Dito isto, para mim não é correcto ir-se buscar um veterano sem passado desportivo significativo ou para uma posição onde já se impôs um jovem da fornada da Formação. Desse modo, não só na minha ideia não se substitui um jogador de qualidade-extra como Mathieu por um Feddal como também não se coarta o desenvolvimento de valor de um Max adquirindo Adán. Admitia, isso sim, e escrevi-o aqui no início de Julho, que o gaulês fosse substituído por Vertonghen, jogador que a fazer fé nas notícias chegou ao Benfica por valores contratuais e prémio de assinatura semelhantes aos que envolveram em 2017 a aquisição de Mathieu. Por outro lado, havendo um Renan que foi determinante na conquista de duas taças, não só teria mantido o brasileiro como segunda opção como continuaria a apostar na melhoria de valor de mercado de Max, jogador que me parece seguir as pisadas de Rui Patrício, eventualmente até com menos dores de crescimento do que o hoje campeão europeu e guarda-redes titularíssimo da selecção nacional.

 

Mais do que experiência, falta ao plantel do Sporting jogadores de qualidade superlativa que peguem de estaca. Nesse sentido, a saída de Acuña, jogador de raça, regular a alto nível, experiente, polivalente, de forte entrega ao jogo e capaz de proporcionar cruzamentos com conta, peso e medida, parece-me um passo atrás na progressão colectiva da equipa, perdendo-se mais uma referência a juntar à sangria verificada em apenas ano e meio, período no qual o Sporting viu sair Nani, Raphinha, Bas Dost, Bruno Fernandes e Mathieu. Esta escassez de qualidade-extra no plantel trará inevitavelmente como consequência uma pressão adicional sobre os mais jovens, em especial sobre o muito promissor Pedro Gonçalves, um jogador que poderá ser o nosso Pote de Ouro mas que precisará de um período de adaptação a um grande clube e necessitaria de um melhor enquadramento que o soltasse mais de prematuras responsabilidades para com a equipa. 

 

Acresce que nenhuma equipa do mundo terá estabilidade quando praticamente todos os seus jogadores estiverem no mercado. Já o ano passado foi notório, mesmo num jogador experiente e plenamente adaptado ao clube como Coates, a consequência das notícias da imprensa que apontavam para a sua muito possível saída. O que me parece é que existem planos a mais e convicções a menos. Disse-o na preparação de 19/20, apontando algumas incongruências que alguns na altura terão interpretado mal, e repito-o agora. Não é possível abrirmos diariamente os jornais e vermos Acuña ou Jovane como vendáveis a preços muito abaixo das suas cláusulas de rescisão, o mesmo se passando com Max. Com a agravante do argentino, à semelhança de Palhinha, nem ter seguido para o estágio no Algarve, uma forma de desvalorização imediata de jogadores.

 

Neste transe, teme-se que se volte a vender qualidade para continuar a comprar quantidade. Entretanto, à maioria dos sócios continua a passar despercebido o nosso maior problema. Falo da colocação do elevado lote de excedentários, muitos deles acabados de comprar pela Estrutura de futebol do clube. Entre eles, aliás, constam dois dos mais caros: Rosier e Camacho. Não conseguindo baixar a massa salarial e realizar algum capital nessas vendas, para além da venda de qualidade teme-se que voltemos de novo a alienar prematuramente os passes dos jogadores mais jovens. Esse é um erro recorrente proveniente de uma política desportiva que enferma de vários erros, uns conceptuais, outros funcionais, outros ainda orgânicos. 

 

Tudo isto vem contribuindo para reduzir o moral dos adeptos Sportinguistas e traz agregado o habitual discurso miserabilista de que não há dinheiro - entre Janeiro de 19 e Março de 20 investiram-se (com comissões) cerca de 50 milhões de euros em 15 jogadores, que terão custado nesse período qualquer coisa entre 15 e 20 milhões em salários (estimativa), além de termos pago 8,7 milhões de euros em indemnizações a treinadores e um ou outro jogador, mais 3 milhões a Mihajlovic e 10 milhões a Ruben Amorim (e penalizações e juros), num total que deve andar à volta dos 90 milhões de euros (fora os custos com o restante plantel de cerca de 50 milhões anuais, ou talvez um pouco menos exclusivamente devido à Covid e concomitantes medidas de lay-off, mais os 30 milhões de fornecimentos e serviços externos, além de outros pequenos itens) - , afastando cada vez mais o nosso estado actual daquilo que efectivamente somos: o maior clube desportivo nacional e uma dos maiores da Europa. O ser humano convive bem com conjunturas positivas e prepara-se no sentido de adequar-se por algum tempo às conjunturas  negativas. Aquilo com que o ser humano convive mal é com a incerteza. E aquilo com que não consegue viver de todo é com a ausência de esperança. Eu quero estar errado, mas entrando numa nova época com um défice estrutural sem venda de jogadores de cerca de 70 milhões de euros, e nada mudando em termos de política desportiva, os augúrios não são os melhores. Além disso, continua a faltar um discurso de verdade, que indique as coisas como elas são e simultaneamente dê eco de que se escutaram as pessoas e vamos mudar na direcção certa, explicando minimamente os passos que serão dados. Pedindo tempo, mas mostrando que esse tempo não será ingloriamente desperdiçado como até agora. Infelizmente, não vejo nada disso. E, sinceramente, já não acredito nisso. O Sporting é um grande clube e conduzir esta nau é uma enorme responsabilidade. Nunca seria fácil após as consequências sociais, desportivas, económicas e financeiras de Alcochete, mas esta direcção tem conseguido piorar a situação em todas as vertentes. Mesmo os resultados financeiros que vai apresentando resultam exclusivamente da venda dos melhores jogadores do plantel, vendas essas cuja necessidade se tem vindo a intensificar. Temo, como tal, que a filosofia venha a ser cada vez mais a de lançar jovens para rapidamente os vender, paradigma a meu ver totalmente errado. Isso até pode fazer sentido num Vitória de Guimarães, com todo o respeito que me merecem a instituição e as aguerridas gentes vitorianas, mas não faz qualquer sentido num clube com os pergaminhos do Sporting, onde formar deve ser sinónimo de ganhar e só depois vender. Só que para ganhar precisaríamos de enquadrar esses jovens com 3 contratações efectivamente cirúrgicas ano a ano, de indiscutível qualidade, que aumentassem a qualidade global da equipa. Ora, não deixando de saudar finalmente se ter apostado nos jovens, para ganhar é preciso criar-se uma simbiose perfeita entre os jovens, jogadores de qualidade e carregadores de piano. À semelhança do que Allison fez em 82. E isso não é possível à medida que, um a um, os melhores jogadores do plantel vão saindo. Deixo a pergunta: onde estão os nossos Meszaros, Eurico, Manuel Fernandes, Jordão e Oliveira, os craques de 82, que permitiram enquadrar os Mário Jorge, Virgílio, Carlos Xavier, Freire, Alberto ou Ademar que então despontavam? Concluindo: há que mudar de paradigma em termos de política desportiva e ter uma comunicação que efectivamente envolva os Sportinguistas e lhes mostre não só objectivos mas também, de uma forma convincente, a forma de lá se chegar, ainda que possa demorar algum tempo. E mesmo com tudo isto, ainda faltará uma coisa: uma ideia do Sporting para o futebol português. Tudo o que seja menos que isto significará uma perda de tempo que não temos.

06
Ago20

Polígrafo Sporting


Pedro Azevedo

Pós Editorial do Jornal Sporting ("Polígrafo Sporting CP") publicado por André Bernardo, cumpre dizer que a realidade financeira da SAD do Sporting é a seguinte: em 9 meses de actividade da época 19/20, a Março de 2020, a SAD obteve um resultado (sem venda de jogadores) negativo em €49,2 milhões. Tal compara com prejuízos (igualmente sem venda de jogadores) de €42,8 milhões em Março de 2019 e de €27,4 milhões em Março de 2018. Anualizando a perda anual e expurgando o efeito pandemia nos custos (corte nos salários nos últimos 3 meses de 40% com consequente reposição de 20% por via do recomeço do campeonato), o resultado anual sem venda de jogadores andaria à volta (para mais, devido á eliminação precoce das provas europeias) de €66 milhões. Acresce que a incerteza quanto à bilhética em 20/21 e a não qualificação directa para a fase de grupos da Liga Europa poderão elevar este valor deficitário para cima de €75 milhões.

 

Vejamos agora do ponto de vista do activo intangível, o valor do nosso plantel. Independentemente dos valores em queda apresentados no Balanço, e na medida em que os activos provenientes da nossa Formação têm um valor contabilístico próximo de zero, procurei a avaliação do Transfermarket como valor absoluto e comparativo mais fidedigno. Ora, o valor actual do nosso plantel para o Transfermarket é actualmente de €115,1 milhões de euros, uma descida acentuada face aos €211,1 milhões de euros verificados no início de 18/19 ou os €259 milhões observados no início de 17/18.

 

Conclusão: o nosso défice estrutural nos Resultados (sem venda de jogadores) aumentou 15% face a 18/19 e 79,6% quando comparado com 17/18. Paralelamente, os nossos activos depreciaram-se fortemente (45,5% face a 18/19, 55,6% perante 17/18). Ou seja, em 17/18 o nosso rácio de cobertura do défice de resultados por via da venda de jogadores era de 4,82 vezes, em 18/19 (consequência de Alcochete e opção de não aproveitamento de várias gerações da Academia e concomitante não diminuição dos Custos face à não-qualificação para a Champions) baixou para 3 vezes e no final de 19/20 (após 15 jogadores comprados!) é apenas de 1,71 vezes (57,3% do valor total do plantel, não esquecendo ainda que o Sporting não é detentor de 100% dos direitos económicos de diversos jogadores que compõem o seu plantel). É este o rastro de destruição de valor na SAD. E é muitíssimo preocupante, obviamente. 

 

Sem lendas e narrativas, com honestidade intelectual e apenas baseando-se em indicadores irrefutáveis extraídos dos Relatórios&Contas, este é o polígrafo de "Castigo Máximo" aplicado ao Sporting Clube de Portugal. Porque verdadeiramente assumir a responsabilidade das consequências das decisões tomadas no Sporting é aceitar os tremendos erros do passado e mudar de vida. Não é branquear o passado e com soberba imaginar os sócios do Sporting como menores do ponto de vista intelectual e como tal facilmente manipuláveis. Quem age assim não merece ter mais tempo à frente do clube para depois o desperdiçar ingloriamente.    

 

P.S.1. Em relação ao desempenho desportivo nem vale a pena falar...

P.S.2. O Sporting Clube de Portugal gasta de mais (€70M vs €18M em custos com pessoal, €105M vs €31M em gastos gerais) para andar a discutir taco-a-taco com o Sporting de Braga.

09
Jul20

Ped Talks

Sustentabilidade


Pedro Azevedo

O futebol, pese a sua idiossincrasia, do ponto-de-vista da gestão tem semelhanças com outros negócios, outras indústrias. Veja-se o caso da indústria farmacêutica: a maioria dos recursos são alocados a R&D ("research&development", pesquisa e desenvolvimento). Ora, o modelo de sustentabilidade que preconizo para o Sporting, que assenta na Formação, pressupõe o necessário investimento nesses vectores de crescimento como forma de obtenção de rendimento desportivo e, simultaneamente, resultados financeiros. Pesquisa é encontrar desde cedo um conjunto de jogadores muito jovens com algo de distintivo, um dom diferenciador, que possam integrar as nossas escolinhas/escalão de infantis. Para isso, precisaremos de técnicos com especiais características de detecção de talento. César Nascimento ou Osvaldo Silva eram homens com uma sensibilidade especial para isso e, literalmente, fizeram escola. Adicionalmente, tem de se criar uma base alargada de contactos, de forma a que se possa chegar primeiro. Nesse processo, uma boa rede de olheiros é necessária. A utilização de antigos jogadores que vivam nos diversos distritos do país, o aproveitamento do conhecimento no terreno dos núcleos regionais e a informação proveniente das várias escolinhas (franchisadas) do clube é essencial. Detectado o talento, segue-se o contacto com o jovem e seus pais. É necessário convencer os progenitores de que o Sporting é a melhor opção para o futuro do seu filho. Não é de ânimo leve que um pai entrega um filho a um clube, principalmente quando o agregado familiar vive muito longe de Alcochete. Há a questão dos estudos, a dor do afastamento para quem vive longe, a questão da mobilidade para quem está mais próximo, a escolha do melhor clube. O Senhor Aurélio Pereira sempre se destacou pelas garantias que oferecia aos pais, capacidade de persuasão e sentido de responsabilidade, para além das suas capacidades organizativas e dons de prospecção de talento. Certamente tem feito escola, mas o Sporting tem vindo a atrasar-se face à concorrência essecialmente devido à escassez de recursos alocados aos olheiros e rede de prospecção, mas também devido ao isolamento de Alcochete face à rede de transportes. Enquanto o Seixal está a 15 minutos de barco de Lisboa, o acesso a Alcochete é bem mais complicado. Menos mal, finalmente parece haver uma aposta nos jovens na equipa principal, algo que poderá trazer benefícios ao clube também por via de uma alteração da percepção que os pais terão sobre as oportunidades que serão dadas aos seus filhos de virem a jogar pela equipa principal.

 

Bem sei que a primeira lei económica enuncia que os recursos são escassos, mas é exactamente por isso que se devem estabelecer estratégias de gestão desses recursos. Se há investimento que possa ter elevado retorno é o efectuado na Formação. Temos de investir para podermos detectar primeiro. Por outro lado, há que pensar noutras opções para além de Alcochete. Este é um local físico (os terrenos, inclusivé, ter-se-ão valorizado com a perspectiva do aeroporto e procura imobiliária geral), importante é a propriedade intelectual que temos nos nossos quadros, pelo que me agradaria uma solução alternativa eficiente do ponto-de-vista de transportes e escolas, que não roubasse tanto tempo aos jovens e suas famílias.

 

Adicionalmente, cumprida a fase da pesquisa, entramos no Desenvolvimento. O Sporting tem de ter um conjunto de técnicos com capacidade formadora, tanto a nível futebolistico como humano. A Cultura Sporting começa aqui. Nas atitudes, nos comportamentos, na divulgação do que é o Sporting, a sua história, os seus heróis, os valores do clube. O rendimento escolar também deve ser monitorizado regularmente. Entrando na questão desportiva, é fundamental que haja um plano de desenvolvimento por jogador. Que passe pela componente física (uma previsão de crescimento pode dar dicas sobre a posição a ocupar futuramente no terreno), táctica (só nos escalões competitivos) e técnica. Nesta última vertente, verificamos que poucos jovens chegam a idade adulta com boa técnica de remate, com o pé ou de cabeça. É mais vulgar vermos aparecer jogadores com velocidade e capacidade de finta, com recepção orientada e passe, mas bons rematadores escasseiam. Existem exercícios específicos que visam melhorar o desempenho de remate, seja com os pés ou a cabeça. A correcta orientação do corpo e a distância do pé para a bola saem beneficiados dos conhecimentos existentes sobre física, exercícios de foot-volley que estimulem o último toque de cabeça (de cima para baixo, junto à rede) ajudarão a aprimorar a técnica do cabeceamento (popular na escola do Ajax), pelo que haverá, certamente, trabalho a desenvolver nessa área. Mais uma vez, é curial dotar recursos. Precisamos dos melhores técnicos, dos melhores formadores e temos de reforçar essa equipa e não estar permanentemente a perder referências para o nosso rival de Lisboa.

 

Não nos podemos esquecer que o Sporting é um clube, pelo que a prioridade deve ser dada ao desempenho desportivo. Nesse sentido, a filosofia deve ser formar para ganhar e não formar para vender. Se tivermos custos controlados, o que advirá de uma aposta na Formação, a pressão sobre a venda será muito menor, pelo que o clube só terá de vender mediante uma vantagem considerável para si e para o jogador.

 

Olhando para o nosso R&C e desde a entrada em cena do contrato com a NOS verificamos que o valor das nossas Vendas e Prestação de Serviços andará actualmente à volta dos 75 milhões de euros. Ultimamente a entrada na Champions tem-se tornado mais difícil dada a descida no ranking da UEFA de Portugal. Todavia no final da próxima época voltarão a qualificar-se automaticamente dois clubes portugueses para a fase de grupos da Champions, havendo ainda a possibilidade de um terceiro clube se qualificar caso ultrapasse duas eliminatórias. Ainda assim não deveremos em termos orçamentais dar por adquirida a entrada na Champions, pelo que os custos devem por uma questão de prudência ser indexados apenas à participação na Liga Europa. Assim, considerando 75 milhões como o total dos Proveitos, discriminando teríamos cerca de 25 milhões de DireitosTV, 15 milhões de bilheteira e bilhetes de época, 15 milhões de publicidade e patrocínios e 10 milhões como receitas de distribuição da Loja Verde e outros e 10 milhões da Liga Europa como principais itens. De seguida, indexaria os Custos Operacionais aos Proveitos Operacionais, adoptando uma política de Resultado Operacional ZERO. Atendendo a que gastamos cerca de 30 milhões anuais em Fornecimentos e Serviços Externos (FSE), mais 5 milhões são consumidos em Provisões e cerca de 70 milhões são gastos em Custos com Pessoal, torna-se claro que teremos de apertar o cinto. Deste modo proponho um corte nos FSEs para 20 milhões e uma descida dos Custos com Pessoal para 45 milhões, que se juntariam a custos de mercadorias vendidas e depreciações de cerca de 10 milhões. Este valor de Custos com Pessoal parecendo baixo, ainda assim estaria em linha com o valor gasto na melhor época de Jorge Jesus no Sporting (15/16, 2º lugar, 48,8 milhões) e quase o dobro do que foi gasto no tempo de Leonardo Jardim (2º lugar, 25 milhões) ou Marco Silva (3º lugar, 25,1 milhões). Estou certo de que com a eliminação da recorrente redundância na contratação de jogadores em quantidade, que implicam investimento elevado (50 milhões num ano) e aumentam os custos salariais, bem como com uma maior aposta na Formação (no seu primeiro contrato, os jovens usufruem de uma retribuição relativamente baixa), a poupança face à extravagância que foi o custo anual incorrido nestas últimas 3 épocas nos permitirá encaixar os Custos com Pessoal num patamar de Sustentabilidade, sem prejuízo de continuarmos competitivos (não reduziria os custos com as modalidades). Assim, regressariam alguns dos jogadores emprestados, pelo que só iríamos ao mercado buscar 2-3 jogadores de qualidade indiscutível (proponho até que estatutariamente haja um limite ao número de contratações, o que não só nos faria poupar recursos financeiros como promoveria as compras em qualidade em vez de aquisições por catálogo e a grosso). Teremos de fazer mais, mas principalmente melhor, com o orçamento que temos, ainda assim, repito, quase o dobro do disponibilizado a Leonardo Jardim, técnico que se classificou em segundo lugar no campeonato nacional. Partindo de uma Resultado Operacional zero, e mesmo contando com um valor de amortizações anuais (15/20 milhões) do plantel e custos financeiros que têm vindo a subir, seria possível a obtenção de consistentes resultados de exercício positivos, recorrendo a alguma venda quando não atingido o objectivo da Champions, pelo menos até que não se consiga elevar os Proveitos provenientes das vendas de gamebox e do merchandising das lojas do clube. Com esta política e também afectando parte dos rendimentos anuais do contrato da NOS, estou convencido de que se conseguiria uma redução do Passivo em cerca de 25% bem como a recompra total das VMOCs, objectivos que seriam materializados nos próximos 4 anos.  

 

Uma Sociedade com este tipo de performance financeira (e, estou em crer, também desportiva) será altamente atractiva para investidores. Defendo que o Sporting deve ter uma boa relação com todos os stakeholders, mas também que deve aumentar ao máximo a sua participação por via da recompra das VMOCs. Para a Holdimo, entre ter 30% da actual realidade ou ter 10% de uma sociedade bem gerida e com resultados de exploração interessantes, certamente seria mais vantajosa a segunda opção. Estas coisas devem ser conversadas, olhos nos olhos, numa relação que se pretende sadia entre as partes, mas sempre tendo em consideração o superior interesse do Sporting Clube de Portugal.

 

Adicionalmente, é para mim importante que o Sporting seja visto como um clube que aplica boas práticas e transparente, pelo que gostaria de erradicar todo o ruído históricamente existente à volta das transferências de jogadores e credibilidade de entidades que se relacionem com o clube. Assim, constituiria um Comité de Compliance, independente, composto por personalidades com provas dadas, que pudesse analisar "in loco" todas essas questões (que só chegam ao Conselho Fiscal e Disciplinar mais tarde), emitir o seu parecer e as suas recomendações e inclusivé ter o poder de veto em determinadas negociações. Para além disso, caberia a esse Comité rever todo o tipo de procedimentos existentes no clube, códigos de conduta (colaboradores, sócios, claques) e propor medidas que ajudem à transformação do futebol português (código de ética do agente desportivo...), algo que tenho vindo a abordar em Posts anteriores.

 

Penso que a visão para o clube e para a SAD deve ser comum. Por isso, entende que o presidente do clube deve, também, ser o presidente da SAD. Com a criação de orgãos que vão reforçar a transparência da(s) instituição(ões), julgo que ficam asseguradas as condições para que tudo corra pela normalidade. Adicionalmente, proporia em Assembleia Geral uma limitação de mandatos do presidente do clube a 2 mandatos e uma maioria absoluta como condição necessária para eleger um presidente (hipótese de uma 2ª volta). Com isso pretenderia evitar o sempre problemático apego ao poder e estimularia o trabalho em equipa e, correndo bem os mandatos, a preparação de novas lideranças, sujeitas obviamente ao escrutínio dos sócios. Por outro lado, uma maioria absoluta daria a um presidente outras condições de governabilidade. Um clube onde haja muita dispersão de votos é um clube fragilizado. Gostaria também que fosse claro que não me revejo na forma como sucessivos presidentes veem ideias diferentes. O clube é de todos e quem lidera "está" presidente, não "é" presidente. Defendo um clube renascentista, em que fluam as ideias e a participação dos sócios. Nesse sentido, convidaria todos os candidatos eleitorais, bem como profissionais que efectivamente se destaquem pela sua competência e seriedade em diversos sectores de actividade, para um Conselho Consultivo que se reuniria com uma periodicidade trimestral (igual à publicação das contas). A ideia seria envolver mais pessoas num bem que é comum, de todos, de forma a haver uma efectiva representatividade do Universo Leonino, procurando também trazer para o seio do clube sangue novo

 

O Sporting precisa de maiores proveitos e entendo como importante a dinamização dos núcleos nesse sentido. Estes são um bom canal de vendas (para além da bilhética) e potenciadores de negócios para o clube. Estão nas regiões e devem estar ligados ao tecido económico das mesmas. Poderão servir para aumentar o número de associados, incrementar as vendas de produtos e serviços do clube e como polo aglutinador de patrocinadores para o clube através do conhecimento das forças vivas da região e suas necessidades de promoção das marcas. Deveriam ter Promotores comerciais, pagos à comissão, na venda de produtos/serviços, num modelo que poderia atribuir um "fee" maior ao núcleo, ficando estes responsáveis pelo pagamento dos comerciais, ou um "fee" menor, assumindo o Sporting os compromissos com esses comerciais. Gostaria que um dia nos fosse mostrada uma discriminação dos proveitos obtidos na Loja Verde, Rua Augusta, "on-line sales" e outros canais, de forma a perceber de que forma se podem melhorar as vendas nos diversos canais de distribuição. Nos escrutínios eleitorais, os sócios espalhados pelo país poderiam votar directamente num núcleo próximo da sua residência (haveria um pré-determinado número de núcleos envolvidos no processo eleitoral), recenseando-se junto deste para o efeito. Um voto electrónico presencial, com delegados das várias listas presentes, observadas as necessárias garantias de fiabilidade e integridade do sistema. 

 

Gostaria que o Conselho Directivo do clube tivesse um Pelouro da Juventude. Para quem não pratica desporto federado no clube e é jovem, a oferta é pouco mais do que umas idas ao estádio ou pavilhão para apoiar as equipas do clube. A juventude não são só as claques (muitos deles já avôs) e temos de estimulá-los. Olhando para as novas tendências e para a emergência dos desportos radicais, o Sporting poderia abrir as portas para quem se quisesse iniciar em modalidades como o kite-surf, escalada, paraquedismo, à semelhança do já ocorrido com o surf (também alvo de proposta minha em Julho de 2018), actividades pagas e com um custo mais baixo para novos associados, iniciativa que creio iria contribuir para chegarmos a mais sócios e mais cedo. Adicionalmente, e em conjunto com a Fundação Sporting, estimularia programas de voluntariado para jovens, em acções de responsabilidade social.

 

Em relação à relação do clube com os seus sócios, proporia o seguinte:

  •  CRM Sporting: os sócios têm diferentes competências, trabalham em diferentes sectores de actividade, têm skills que podem ser úteis ao clube e à sua Direcção. A partir do momento em que é extinto o Conselho Leonino, ainda mais importante é explorar o conhecimento que estes sócios têm sobre matérias específicas, podendo e devendo a Direcção pedir-lhes apoio na implementação de certos projectos ou, simplesmente, via algum conselho que possa ser dado, sempre em complemento das equipas de colaboradores do Sporting. Para que a Direcção possa conhecer melhor os seus sócios tem de promover um novo cadastramento dos mesmos (os dados preenchidos aquando da adesão são insuficientes). Proponho que se olhe para as melhores práticas da banca, a qual tem hoje em dia um formulário obrigatório denominado Know Your Customer (KYC), que inclui dados complementares (profissionais e áreas de interesse). Depois é adaptá-lo à relação entre um clube e seus sócios (os dados patrimoniais já seriam talvez intrusivos) e lançá-los numa plataforma CRM. No passado, criei uma de raíz através do Microsoft Dynamics, a custo muito baixo. Outro aspecto relevante é esta ferramenta também permitir fazer uma segmentação dos sócios, por "bucket" etário, geografia, profissão, interesses, etc, adaptando a nossa oferta de produtos/serviços a cada segmento. Preocupação que tenho nesta matéria: Protecção de dados. Associado ao CRM, geralmente existem diferentes níveis de prioridade de acesso aos dados do cliente/sócio. Alguns dados deveriam permanecer confidenciais para todos os colaboradores e só poderiam ser acedidos pelo Conselho Directivo/Conselho de Administração e pelo Director de Marketing. Tenho um exemplo muito desagradável no passado, com outra Direcção, quando, através de um Contact Center, uma determinada companhia de seguros começou a ligar-me diariamente e às horas mais impróprias (durante reuniões e/ou à hora do jantar) no sentido de que lhes comprasse um  determinado produto. Isto durou meses - todos os dias ligavam-me pessoas diferentes - apesar de, desde o início, ter referido não estar interessado. Quando lhes perguntei como tinham obtido os meus dados referiram-me que o Sporting lhes tinha vendido a base de dados dos seus sócios. Fiquei indignado é só não tomei uma providência por ser o meu clube do coração (já não me recordo - sou sócio há 40 anos - se aquando da filiação havia algum campo que permitisse a transmissão de dados, mas sendo eu menor na altura duvido que isso fosse legalmente permitido). 
  •  Provedor do Sócio/Secretário Geral: não sei se existe; no site, em lugar de destaque, não consta. Como podem os sócios encaminhar sugestões para o clube? Ou queixas sobre um determinado abuso por parte do clube? Seria importante, em ambiente fechado ou aberto a outros sócios, os sócios terem um espaço onde pudessem apresentar sugestões de melhoria de determinados serviços ou ideias, visões, para o futuro do clube. O tipo de conteúdo é diferente de uma Linha de Apoio, pelo que deveria haver um canal próprio, "on line", criado para o efeito.  
  • Sócios - iniciativa Glória do mês: iniciativa que visaria homenagear mensalmente um atleta que pelo seu palmarés e comportamento social tenha sido uma referência dos valores que apregoamos. Do futebol ao atletismo, do hóquei ao basquetebol, do andebol ao futsal e restantes modalidades seria prestada homenagem a essas figuras, o que permitiria aos mais jovens tomar consciência de quem foram essas pessoas e aos mais antigos recordá-las com saudade. Armando Marques (tiro), vice-campeão olímpico (quem conhece?), Chana (hóquei, campeão do mundo, para mim, ainda melhor que Livramento, quem conhece?), Rita Villas-Boas (trampolins, vários títulos, quem conhece?). Isso permitiria às pessoas, durante esse mês, tomar contacto com a história desse atleta e da sua modalidade, com peças na SportingTV, jornal do Sporting, Site do clube e iniciativas próprias no Estádio José Alvalade e no Pavilhão João Rocha antes dos jogos das nossas equipas, reforçando o orgulho de ser Sporting e o "awareness" sobre uma modalidade específica.  
  • Stock-out Loja Verde: mensalmente, haveria um dia com preços bastante mais baixos, com colecções "retro" de outras épocas, vendidas a preço muito acessível. 
  • Dia de Sporting: trabalho de pré-época, de conjugação dos calendários dos jogos no Pavilhão com os jogos no Estádio, permitindo maior afluência de público, envolvendo famílias. Criação do Pack Dia do Sporting, de bilhete único para utilizar no estádio e pavilhão, no mesmo dia. 
  • Sócio do mês: em todos os jogos em Alvalade, o Conselho Directivo (por mérito ou por sorteio, critério a definir) escolheria alguns sócios, os quais teriam direito a assistir aos jogos em Alvalade com a sua família (4 pessoas, p.e.), entrar em campo com as equipas, dar um pontapé de saída simbólico, receber uma bola autografada por todos os jogadores e treinadores, efectuar uma visita guiada a Academia e Museu, participar nas homenagens ao atleta do mês (Glória), entrevistas a SportingTV e Jornal do clube dando conta da sua experiência de envolvimento com o clube. Nota: poucos sócios reunem condições para terem a familia com eles nos jogos durante toda a época. Só aqui em casa somos cinco, pelo que se torna incomportavel caso não queiramos naturalmente discriminar qualquer dos filhos. 
  • Colecção de cromos GLÓRIAS do SPORTING: uma colecção de cromos digital (com um chip que possa ser lido em aplicativo) com os craques de todos os tempos do nosso clube e vendida na Loja Verde;
  • Site do Sporting: carece de urgente reformulação. Paupérrimo em termos de conteúdos e da sua actualização (procurar as equipas de Formação é um exercício surrealista). É muito pobre, tem muito poucas referências à nossa história e à dos nossos atletas e é pouco funcional e interactivo (a não ser para pagamentos de quotas ou gamebox). Aqui há tempos, um nosso comentador (JHC) deu conta de um site brasileiro, "Esquadrão Imortal", que faz mais jus à carreira de Peyroteo e dos 5 Violinos do que qualquer publicação leonina (exceptuando os livros de Fernando Correia). No mês dedicado a um atleta, poderiam ser incluídos no site peças diárias sobre todos os relevantes atletas dessa modalidade onde o homenageado se destacou. 

 

Há muita a fazer a nível de merchandising do clube. O merchandising é um elemento essencial na afirmação de uma marca. Na minha opinião, não faz sentido o Sporting abrir uma loja na Rua Augusta, de dimensão bem mais reduzida do que a que o Benfica tem na mesma rua, apenas dois quarteirões abaixo. Aquilo que deveria ser considerado como muito positivo – abertura de uma loja numa zona com enorme circulação de pessoas, muitas delas de cidadania estrangeira, aspecto importante na internacionalização da marca – acaba por ficar indelevelmente marcado pela comparação pela negativa face a um rival, algo facilmente percepcionado por qualquer transeunte e que põe em causa a imagem do Sporting como a maior potência desportiva nacional. Se queriam competir na mesma zona não poderiam ter arranjado um espaço pelo menos de dimensões idênticas às do rival? Estas coisas têm de estar integradas com a estratégia de afirmação do clube e serem transversais a todos os pelouros atribuídos no CD/CA. Outro aspecto que tem vindo a ser negligenciado: os estágios de pré-época na Suiça não têm sido aproveitados para divulgar a nossa marca internacionalmente, nem para satisfazer a procura dos emigrantes portugueses. Por incrível que pareça, o Sporting não transportou nenhum material de merchandising consigo nestas viagens onde foi visível a presença de vários emigrantes com camisolas desactualizadas. Dado que a equipa actuou em diversas cidades suíças, porque é que o Sporting não fez deslocar um camião itinerante da Loja Verde? O mesmo se aplica aos nossos jogos fora de casa, em Portugal, que também não costumam ter a presença de qualquer merchandising do clube, algo que acaba por ser um sonho para a contrafacção. Gostaria de abrir mais lojas do clube em diversas zonas geográficas do país. Não podemos pensar no universo de sócios apenas nos momentos eleitorais, temos de pensar primeiro nos 3-3,5 milhões de adeptos espalhados pelo país e dotá-los de oferta do clube.

 

(Vou continuar a publicar aqui as minhas ideias para o clube. Gosto de transparência e penso que as pessoas devem ser informadas sobre as intenções de quem apresenta ideias para o clube, de forma a não serem instrumentalizadas. Com toda a franqueza, até há 2 anos atrás nunca tinha estado no meu pensamento qualquer ambição no meu clube que não fosse o apoio incondicional às equipas das suas várias modalidades, mas a boa receptividade e o incentivo por parte de vários Leitores do que fui escrevinhando acabou por me fazer reflectir maduramente sobre o assunto e tomar uma posição. Por isso, sem tacticismos nem receios, não escondo o meu interesse num futuro acto eleitoral, mas para mim o mais importante será sempre o clube poder aproveitar as ideias dos sócios (se quem dirige nelas vir algum valor) e as colocar em prática para o bem de todos os que partilham este amor pelo Sporting. Por isso continuarei a disponibilizá-las aqui, à semelhança do que fiz em Julho de 2018. As PED Talks voltarão com a "Sustentabilidade do Futebol Português".)

 

PED Talks - Princípios, Estratégia, Desporto

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06
Jun20

Formar para rendimento


Pedro Azevedo

O lançamento por Ruben Amorim de vários jovens da nossa Formação tem de ser encarado como um sinal de esperança. No entanto, para que esse presságio se venha a mostrar consistente ao longo do calendário gregoriano é necessário mudar de paradigma. Não podemos formar jovens para os vender antes do tempo em nome da urgência de suprir o défice substancial da Demonstração de Resultados, o que acabará por suscitar novas investidas ao mercado como forma de reposição de activos e concomitantes custos associados. Não, esse paradigma está totalmente errado. O que deverá ser promovido, isso sim, é o aproveitamento desses jovens em nome do seu rendimento desportivo individual e contribuição para o rendimento desportivo colectivo.

 

Nos primeiros anos, o custo em salários desses jovens é reduzido. Isso ajuda a manter a folha de pagamentos da SAD em níveis sustentáveis. Tendo esse jogador rendimento desportivo, a sua relação custo/benefício será muito interessante para nós. Acresce que, dado o tempo passado connosco, o conhecemos bem. Sabemos como treina, como se comporta extra-futebol, o que precisa de ser desenvolvido. Logo, vender esse jogador prematuramente será um erro, ainda que possa proporcionar um proveito no imediato. Acresce que a nossa história está cheia de exemplos de má utilização do dinheiro proveniente da venda de jovens promissores, geralmente usado em "contratações cirúrgicas" que são como operações de coração aberto ao leão. Por isso, formar para rendimento (desportivo) deve ser o nosso paradigma. Depois, sim, a partir do momento em que o jogador mostre um rendimento superlativo e atraia a cobiça de grandes clubes, deveremos equacionar a venda. Nesse estádio do seu desenvolvimento o ordenado poderá já ser pesado para nós e haverá novas soluções na linha de produção prontas a serem testadas, pelo que um proveito extraordinário será bem-vindo. Igualmente, será uma forma de proporcionar a oportunidade de independência financeira a esse produto da nossa formação. 

 

A aposta na Formação tem de ser estratégica e não aquilo a que se recorre quando já falharam todas as outras soluções. Se for este último o caso, verão que tal aposta não perdurará no tempo. Desde logo, porque será necessário vender rapidamente para fazer dinheiro e assim colmatar o buraco de tesouraria (e da conta de exploração) deixado por políticas anteriores. Também porque acabarão por chegar jogadores de fora para substituir os nossos formandos, voltando-se à situação inicial.

 

Uma política desportiva estrategicamente assente na Formação assegura custos controlados. Esse é um ponto de partida muito importante. Depois, permite que se vá ao mercado apenas procurar qualidade extra (2-3 contratações) e não comprar em quantidade. Tal manterá os custos com pessoal em níveis saudáveis/sustentáveis, fará baixar as Amorizações e reduzirá os custos financeiros inerentes ao Passivo ou a operações de antecipação de receitas (proveitos). Também tornará gerível a dívida a Fornecedores. Além disso, esse núcleo duro de jogadores que conhecemos bem, mesclado com a qualidade importada, com alguns anos de amadurecimento poderá assegurar o sucesso desportivo. Ora, o segredo do negócio é a manutenção de custos controlados, pois é isso que nos permitirá ir consolidando, ano após ano, uma equipa e não ter a pressão de alienar direitos económicos de jogadores. Vendendo prematuramente e não deixando crescer os nossos leõezinhos, não será possível que o seu crescimento individual se traduza no crescimento da nossa equipa de futebol e nos seus resultados desportivos. Por isso, formar para rendimento (e para ganhar) é a opção. Formar para venda, aquilo que se retira de cada nova intervenção pública dos nossos dirigentes, será redutor e acabará por traduzir toda a aposta desde cedo (na Academia) na Formação num castigo de Sísifo. E já nem toco aqui com desenvolvimento no efeito nefasto para a nossa Cultura ou identidade de se enraizar nos nossos jovens a ideia de que estão a prazo e que o Sporting é apenas um trampolim para outros voos, o que talvez justifique uma relação dos nossos formandos com o clube que os adeptos gostariam que fosse de outra forma. 

 

P.S. Se muitos ficaram surpreendidos com o valor de venda de Thierry Correia, talvez o sentimento não tenha sido o mesmo após a chegada, por empréstimo, de Fernando, Bolasie e Jesé. Façam as contas todas, ordenados, comissões e pagamentos a clubes incluídos, e depois vejam qual foi o resultado líquido (financeiro) destas operações, já que quanto ao resultado desportivo estamos conversados.

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01
Jun20

As contas da SAD

3º Trimestre de 2019/20


Pedro Azevedo

Nos 9 meses compreendidos entre 30 de Junho de 2019 e 31 de Março de 2020 a SAD do Sporting registou um lucro de 30,1M€. Esta é a boa notícia e aquilo que fará "soundbyte" em jornais e televisões. No entanto, uma leitura cuidadosa do R&C mostra que sem venda de jogadores a SAD teria perdido 49,3M€ neste período, na medida em que as vendas de jogadores (expurgadas do valor das comissões) tiveram um impacto líquido positivo de 79,4M€. 

 

É certo que Zenha continuará a dizer que as vendas de jogadores fazem parte da actividade operacional da SAD, algo com que estou em perfeito desacordo (são receitas extraordinárias, não ordinárias) - não significa que não vendemos 1-2 jogadores por época, se for bom para o clube e para o jogador, mas o Sporting é um clube de futebol que procura resultados desportivos e não uma "trader" de futebolistas - , desvalorizando assim o défice estrutural existente (cerca de 70M€/ano). No entanto, a realidade apresta-se a bater de frente com esta teoria porque já praticamente foram vendidos todos os jogadores com valor significativo e as compras efectuadas no mercado (15) não permitiram uma reposição de qualidade mínima que garanta futuros encaixes na ordem do que aconteceu nestes 9 meses. Adicionalmente, a má época desportiva mostra à evidência a consequência desta política de compras em quantidade e vendas de qualidade. Compreende-se por isso a necessidade que a SAD sentiu de contratar um treinador para tentar rendibilizar jogadores nos meses que faltavam para acabar a época. A SAD tinha perfeita consciência do desequiíbrio profundo previsível das contas em 2020/21.

 

Comparando os 9 meses de 2019/20 com o período homólogo de 2018/19, verificamos que quase todas as rúbricas da Demonstração de Resultados pioraram. Assim, os Proveitos Operacionais desceram 1,7M€, os Gastos Gerais, contrariando tudo o que se vai lendo por aí, subiram mais 3,2M€ e os Custos Financeiros cresceram 4,1M€. Apenas as Amortizações tiveram um impacto positivo, descendo 2,8M€ (justificado pela venda de alguns dos jogadores mais valiosos). Isto para além obviamente do Rendimento proveniente da Vendas de Jogadores, que incrementou em 42,5M€.

 

Decompondo a rúbrica de Gastos Gerais, é possível observar um crescimento dos Fornecimentos e Serviços Externos em 3M€ e das Provisões e Perdas por Imparidade em 4,5M€. Os Custos com Pessoal desceram modestamente e nada de acordo com notícias postas a circular, reduzindo-se em cerca de 3M€. Sendo certo que a nível de remunerações houve uma descida de 7,8M€, o valor das indemnizações pagas cresceu 5M€. Controversamente, a SAD estabelece a habitual narrativa de que poupou 35M€ para o futuro, desconhecendo-se quais os contratos a que se refere e se nesse valor estão incluídas vendas normais de mercado. No fundo, é como se todos os Sportinguistas tivessem de estar gratos por a administração Varandas já ter tido 6 treinadores (mais respectivas equipas técnicas), dois deles provisórios com ou sem tarefas, desde que tomou posse.

 

Em termos de Balanço, o Passivo decresceu cerca de 24M€ face a Março de 2019 e cerca de 21M€ vs Junho de 2019. Já o Activo cresceu cerca de 4M€ face a Março de 2019 e cerca de 9,3M€ vs Junho de 2019. Mais uma vez à superfície tudo parece estar bem, mas quando entramos no detalhe a sensação é oposta. Comecemos pela rúbrica Fornecedores: o valor em dívida já ascende a 70,4M€, dos quais 61,9M€ são para pagar até 1 ano. De destacar que só nos Fornecedores Correntes (até 1 ano) as responsabilidades cresceram 18,4M€ desde Março de 2019 e 14M€ face a Junho de 2019, o que aumenta significativamente o garrote de tesouraria da Sociedade nos próximos tempos. Por outro lado, do lado do Activo é visível o enfraquecimento geral do nosso plantel de futebol (Activo Intangível), com o valor contabilistico a desvalorizar 16,9M€ desde Março de 2019 e 22,5M€ face a Junho de 2019. Aliás, o valor actual contabilistico do plantel (66,7M€) é pela primeira vez que me lembre inferior ao défice de exploração anual (sem venda de jogadores) da SAD (cerca de 70M€), o que mesmo considerando que os jogadores da Formação têm um valor residual não deixa de ser absolutamente perturbante. Ainda no Activo, a rúbrica Clientes (valores a receber, até 1 ano) não cresceu na proporção das responsabilidades para com Fornecedores, subindo apenas 2,3M€ face a Junho de 2019 e 10,2M€ versus Março de 2019

 

Olhando para a rúbrica de Clientes é também possível verificar que o Manchester United já só nos deve cerca de 27M€ (de um valor acordado de 55M€), o que contraria aquilo que o jornal O Jogo, citando fontes não identificadas do Sporting, em tempos difundiu, transmitindo que no acordo com o Man U só haveria recebimentos a partir de 1 ano, algo perante o qual logo manifestei a minha estranheza. Outros jornais também haviam deixado a entender que o Manchester não tinha pago nenhuma tranche ainda, ficando até a ideia no ar de que poderia ter incumprido. Enfim, em nome do superior interesse do Sporting não abramos mais o véu numa matéria (mais uma) onde os sócios andam a ser desinformados e/ou a ouvir meias verdades (para ser simpático). 

 

No que diz respeitos aos principais credores do Sporting, para além do Braga (Ruben Amorim, 12,3M€) e Slovan Bratislava (Sporar, 4,75M€), as maiores dívidas são a empresários. De entre estes destaca-se Jorge Mendes e a sua Gestifute com 10,9M€ a receber, seguido da Positionumber do empresário de Bruno Fernandes, com 3,9M€ e da D20 Sports, de Deco, com 2,5M€ a haver. 

 

Em termos de Caixa, o valor dos Depósitos Restritos (para pagamento de VMOCs) continua inexpressivo (623.000 euros), registando-se agora um valor aproximado de 13M€ em depósitos à ordem, o qual temo que seja sugado rapidamente pelo pagamento de salários.

 

Finalmente, olhando para as Entidades Relacionadas, verificamos que a dívida do Sporting à SAD continua a aumentar, saldando-se agora num valor de 16,2M€, mais 11,7M€ do que em junho de 2019 e mais 14,8M€ face a Março de 2019, o que parece indicar que a nossa quotização deve ter descido muito nesta época desportiva. 

 

Em suma, as contas da SAD mostram exactamente o cenário para 2020/21 que eu anteriormente havia indicado, sendo que a maior preocupação reside na forma como se vai cobrir e financiar um défice de exploração anual tão grande, nomeadamente quando vemos o valor do plantel a diminuir e é quase certo que voltaremos a não participar na Champions. Exigem-se cortes nos Custos de Pessoal bem mais significativos, sendo certo que eles deverão tocar exactamente numa maioria de jogadores contratados por Frederico Varandas/Hugo Viana que não têm vindo a provar para lá da folha de pagamentos. Fica, no entanto, a pergunta: como vamos ser competitivos com este tipo de política desportiva que compra banalidade em tanta quantidade que depois nos obriga a vender a qualidade existente? Acresce que, a fazer fé na bitola de Frederico Varandas que consoante as publicações (nacionais e internacionais) indicou que o passe de Bruno Fernandes agora só valeria 10, 20 ou 30 milhões de euros, se prevê uma queda generalizada do valor dos Direitos Económicos dos jogadores devido ao efeito secundário na economia da Covid-19.

27
Mai20

O óbvio ululante


Pedro Azevedo

Conselho Fiscal e Disciplinar deixa sério alerta: "processo de redução de custos não pode ser interrompido e terá de ser reforçado". 

 

Gostaria de perguntar ao Dr Baltazar Pinto a que redução de custos se refere. É que não se pode parar algo que ainda não arrancou. Temo porém que seja fruto de mais um trabalho invisível da Direcção do Dr Varandas (os "célebres" 18 milhões por ano de cortes que "prepararam" a SAD para o advento da Covid-19, referenciados no documento de "visão" estratégica), tão invisível que não se vê nos sucessivos R&C até 31 de Dezembro de 2019. Não se trata só de investir e gastar menos, mas sim de investir e gastar menos e melhor, o que dada a profusão de erros no mercado e falta de aposta numa geração entre os 20 e os 24 anos proveniente da Academia não se me afigura difícil. Aquilo que o CFD deveria ter dito abertamente, elucidando assim devidamente os Sportinguistas, é que o clube foi apanhado na Covid-19 com um défice de exploração antes da venda de jogadores surreal (mais de 70M€), o mais alto da sua história, que os Fornecimentos e Serviços Externos estão igualmente a nível record, o valor do Activo Intangível (plantel) tem vindo a decrescer e a dívida a Fornecedores estava em Dezembro de 2019 nos 57M€, dos quais 51M€ são a pagar num prazo até 1 ano. Isso, sim, seria um serviço prestado aos Sportinguistas: a verdade nua e crua. Porque, se todos souberem onde estamos, mais fácil será reunir consenso sobre o caminho a seguir. Além de que, não é possível determinar um objectivo se dúvidas subsistirem sobre o ponto de partida. Entretanto, passaram 20 meses desde que Frederico Varandas herdou a pasta de José de Sousa Cintra. 

 

P.S. Deixo à consideração do comunidade científica como é que tanto trabalho invisível produz uma visão (estratégica, dizem eles)...

19
Mai20

Gentle Reminder

A frustração de a minha razão de nada servir ao Sporting


Pedro Azevedo

https://castigomaximo.com/uma-oportunidade-perdida-183792

https://castigomaximo.com/uma-nau-a-deriva-183820

https://castigomaximo.com/o-canario-na-mina-de-carvao-192636

 

Triste, muito triste! O nosso Sporting sempre adiado, emparedado entre lendas e narrativas e trincheiras várias. Pouco adianta agora vociferar ou rasgar as vestes, as coisas têm um tempo para ser ditas e eu já o usei. E sobre o dia-a-dia do Sporting em silêncio permanecerei aqui no blogue. Até ao dia em que aos sócios for anunciado que se poderão pronunciar nas urnas. 

18
Mai20

O meu Regime de Governo


Pedro Azevedo

Nos últimos dias tem-se falado de modelos de regime de governo no Sporting. Antes de mais, enquanto ponto prévio, gostaria de lembrar que a Sporting SAD, sociedade anónima cotada em bolsa, foi criada como forma de potenciar o futebol do clube através de captação de recursos financeiros e de uma gestão focada e profissional, ou seja, embora do ponto de vista formal tenha havido um efectivo spin-off corporativo a lógica que presidiu à criação da SAD não foi a separação do clube em dois, continuando o Sporting a ter modalidades e futebol (ainda que este através da SAD). É importante entendermos isso, pois esta situação é diferente de haver um grupo de empresas individuais que a dado momento, geralmente por motivos fiscais ou simplesmente por consolidação de contas, ficam sobre a alçada de uma holding, uma SGPS, a qual aparece mais tarde. Também seria diferente se o Sporting perdesse a maioria da SAD, situação em que provavelmente só o nome das suas equipas, o símbolo, as riscas verde-e-brancas da camisola e os calções pretos e, eventualmente, o nome do Estádio continuariam como sempre conhecemos, cabendo a uma administração nomeada pelo novo accionista maioritário a gestão da SAD. 

 

No Sporting existem 3 poderes: o poder executivo, personificado ctualmente no Presidente do Conselho Directivo, em 4 vice-presidentes e no restante CD (vogais); o poder "legislativo", que cabe à Assembleia Geral, onde os sócios aprovam Estatutos, elegem ou destituem Direcções, cujos trabalhos são presididos por PMAG e tem ainda 1 vice-presidente e 3 secretários; o poder de fiscalização (ou controlo), representado pelo Conselho Fiscal e Disciplinar, que aprova as contas e instaura processos disciplinares. 

 

Concentrando-nos no poder executivo, no Sporting foram eleitos 11 membros (mínimo 5, máximo 11) para o Conselho Directivo, presidente incluído, e ainda 2 suplentes (neste momento o CD já não pode estatutariamente substituir o 3º membro que se demitiu pelo que ficou reduzido a 10 elementos). O Sporting, como maior accionista da SAD, indica Presidente e vogais para o Conselho de Administração da SAD, sendo que a Holdimo, tendo uma participação qualificada, fez eleger 1 vogal. Até agora o Conselho de Administração era composto por 5 elementos, Presidente e 4 vogais, mas entretanto o Sporting fez aprovar em AG da SAD a alteração de 5 para 7 membros. A SAD tem igualmente uma MAG e um CF.

 

Neste exercício procurei explicar com a linguagem mais acessível possível a organização actual das sociedades. Mas o que me traz aqui é o meu entendimento sobre a forma de governo do Universo Sporting. Por aquilo que expressei no 1º parágrafo, o presidente do clube deve ser o presidente da SAD. Isso só por si não confere um cunho presidencialista ao modelo, e eu gostava de deixar isso claro. Desde logo porque a SAD pode ter um Chief Executive Officer (CEO), ficando o presidente como Chairman, contrabalançando-se assim os poderes, com o CEO a implementar a sua visão e as decisões colegiais do Conselho e o Chairman como salvaguarda dos interesses dos accionistas e, em particular, do accionista maioritário Sporting (deixo aqui claro que o Sporting deve ter sempre a maioria da SAD). No fundo, um modelo onde coabitam a estratégia (CEO) e a táctica (Chairman). Neste caso, geralmente existe formalmente uma Comissão Executiva que é liderada pela CEO (reuniões geralmente semanais), tendo o Chairman a incumbência de presidir ao Conselho de Administração (reuniões mensais). De todo o modo, o meu modelo também não é esse, podendo novamente supor-se um cunho presidencialista. Creio, no entanto, que não será assim. Passo a explicar: sendo presidente e CEO a mesma figura impõe-se a existência de um Chief Operating Officer (COO) - Director Técnico (profissional com vasta esperiência no sector) capaz de optimizar a Formação (visão do presidente/CEO), que irá ajudar à criação de um modelo de negócio-futebol sustentável, possuindo ainda competências de liderança e conhecimentos que lhe permitam superintender Gestão de Activos e Scouting - que ficará a acompanhar mais de perto o negócio futebol (profissional e de formação).

Não esquecer que o orgão é colegial e nele ainda coabitarão a área financeira, jurídica e comercial (todos executivos nesta nova realidade de 7 membros do CA). Para além disso, a existência de uma área de Compliance independente e um Compliance Officer, em estreita ligação ao Conselho Fiscal, irá garantir que as boas práticas de gestão serão asseguradas, nisso incluindo regras e procedimentos de escrutínio de transferências, de prevenção de conflito de interesses e de branqueamento de capitais, etc. Esse é o meu modelo para o Sporting, e creio não poder dizer-se que se trate de um modelo presidencialista lato sensu.

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17
Mai20

SCP vs PES 2000


Pedro Azevedo

Estes tempos mais recentes vieram mostrar à evidência que para a maioria dos sócios o Sporting que interessa é aquele que vai a campo. Pese embora o meu activismo presente, que tem raiz profunda na preocupação que nutro pela perenidade do clube, comungo desde tenra idade desta forma de estar dos meus consócios. 

 

Tanto é assim que às vezes dou por mim a pensar no Universo Sporting (futebol) como o "onze" que semanalmente se apresenta no relvado. Nessa linha de concepção, o sócio é o guardião do clube, preservando-o directamente com a sua militância ou através da Mesa da Assembleia Geral (representa todos os sócios). A linha defensiva é constituída pelo back office (operações), auditoria e controlo interno, sistemas de informação e compliance (e Conselho Fiscal e Disciplinar), a quem cumpre assegurar que a equipa se mantenha em jogo, garantir que a meta definida de regras e procedimentos não é violada e sair para o ataque através do processamento de informação de gestão. Na frente temos o front-office, formado por Estrutura para o futebol, equipa técnica e jogadores, de cujo sucesso vai depender o crescimento do clube em termos de proveitos, nomeadamente a nível de bilhética, merchandising, patrocínios, publicidade e DireitosTV. A linha média é o cérebro da equipa, a zona nevrálgica onde se define a estratégia (política desportiva) que pode ajudar a ganhar ou perder campeonatos, doutrinam-se atitudes comportamentais positivas e baseadas nas razões do bem-maior clube (e não de quem circunstancialmente o serve), convoca-se e fomenta-se a mobilização de sócios (e adeptos) e zela-se por boas práticas de gestão. Os titulares são os membros executivos do Conselho de Administração ou, se quiserem, a Comissão Executiva. A eles cabe definir os pilares estratégicos que vão suportar toda a actividade e os recursos (humanos e materiais) necessários para o fazer. O "Delegado ao jogo", que em sentido literal antes dos jogos reúne com o juíz (da partida), num sentido mais figurativo e ilustrativo da nossa Organização é o departamento jurídico.

 

Esta semana o Jornal Sporting apresentou a nova visão estratégica do Sporting. Para além da interacção com o sócio, que soa um pouco a interacção com o cliente, são mencionados como pilares as Pessoas, Estrutura e Sistemas de suporte, a base, segundo o referido documento, maioritariamente invisível aos sócios que permitirá a optimização do último pilar (interacção com o sócio). Confesso que esta visão me parece pobre e desfasada dos reais problemas do Sporting, os quais me parecem residir na sustentabilidade da política desportiva (modelo económico do negócio futebol) e financeira, Cultura corporativa do clube e interacção não só dos sócios com o clube mas também entre eles e nos Princípios de governo e boas práticas de gestão (SCP). Ora, eu não consigo ver (daí talvez se ter chamado de invisível) nos pilares anunciados a forma como se atingirão objectivos que estejam de acordo com os pergaminhos do clube e garantam a sua perenidade. Aliás, o que me parece é que a famoso folha de Excel que tudo comporta foi substituída pela PlayStation (PES 2000) - os 3 pilares - , tudo se passando num ambiente virtual desconexo com a realidade como presentemente a vemos. Assim sendo, na minha opinião, a possibilidade de os resultados desta visão estratégica virem a revelar-se, também eles, invisíveis aos sócios é muito grande. Lamento, por isso, que se continue a ignorar um conjunto de ideias que visam objectivos concretos e visíveis para todos e que tais ideias não estejam hoje no centro de discussão no clube.

 

P.S. Não posso deixar de lamentar a referência que é feita no referido documento a cortes de massa salarial de cerca de 18 milhões de euros por ano efectuados por esta Direcção e sua contribuição para prevenir a perenidade do clube em cenário de emergência (Covid-19). E porquê? Porque, simplesmente, esses números não têm qualquer correspondência com os R&C conhecidos até Dezembro de 2019, mesmo considerando o efeito das indemnizações pagas (6,5M€ só no 1º Semestre de 2019/20). Aliás, na comparação que no último R&C é feita entre Dezembro de 2019 e Dezembro de 2018, (semestres) a descida nos Custos com Pessoal é inferior a 1M€ (741.000 euros, para ser exacto).

14
Mai20

Os "americanos" à porta de Bagdad


Pedro Azevedo

Se o 13 de Maio nos revelou um novo Pastorinho, a 14 produziu-se o mais recente milagre de multiplicação dos pães. A capa de hoje do Record é um atentado à inteligência de sócios e adeptos do Sporting e a confirmação do não reconhecimento da grave situação actual por quem nos dirige. Só assim se compreende que a SAD do Sporting continue em negação e ofereça a mirífica promessa de sumptuosos jantares no Gambrinus a quem não tem dinheiro para comer, num momento em que os "americanos" já estão às portas de "Bagdad". Uma capa alternativa? Maior défice de sempre de exploração da SAD antes da venda de jogadores, queda acentuada do valor do activo intangível (plantel), Custos Financeiros a subir, rúbrica de Fornecimentos e Serviços Externos e dívida a Fornecedores em níveis históricos, rácio de Custos com Pessoal/Proveitos Ordinários a aproximar-se dos 100% (5º maior de sempre). Já para não falar de uma época desportiva com um dos piores resultados da nossa história. A maior garantia de um caminho virtuoso é sabermos onde estamos. 

 

P.S. A "eficiente gestão de recursos, concretizada através do corte de 18 milhões de euros por ano em massa salarial" - R&C depositados na CMVM: Custos com Pessoal (68.9M€ em 2018/19 vs 73.8M€ em 2017/18; 35.1M€ no 1º Semestre 2019/20 vs 35.8M€ no 1º Semestre 2018/19 vs 37.6M€ no 1º Semestre de 2017/18 vs 31.5M€ no 1º Semestre de 2016/17 vs 23.4M€ no 1º Semestre de 2015/16 vs 12.1M€ no 1º Semestre de 2014/15). Partindo do pressuposto que as contas estão correctas, gostaria assim que me explicassem onde está o corte de 18M€ por ano ("determinante para a capacidade de resposta ao Covid-19") anunciado no Jornal Sporting e no Record no capítulo que diz respeito à consolidação financeira e estratégia desportiva iniciadas em Setembro de 2018. É que uma coisa é o que deveria ter sido feito - curiosamente, em Julho de 2018 escrevi no EnF que os nossos Custos com Pessoal deveriam imediatamente baixar para os 50M€ por ano - , outra é a realidade patente nos Relatórios e Contas da SAD antes da pandemia. No que diz respeito ao clube e quotizações de sócios, o R&C da SAD, referente ao Primeiro Semestre (Dezembro de 2019) de 2019/20, indica que o saldo devedor do clube à SAD aumentou 10.2M€ em apenas 6 meses (para 14.2M€), o que poderá ser uma pista. 

10
Mai20

Há 1 ano...


Pedro Azevedo

Há mais de 1 ano, em 18 de Março de 2019, escrevi um texto com o título de "Uma verdade inconveniente". Por isso, a nossa realidade presente não me surpreende de todo, o que me causa sempre espanto é os Sportinguistas não verem as coisas com clarividência no seu devido tempo, algo que na nossa história nos poderia ter poupado a grandes tormentas. Perante o actual estado de coisas já seria de esperar a emergente narrativa favorável à venda da SAD, cenário que não desejo de todo para o meu clube e que na caixa de comentários do Post anterior explico porque não considero ser a melhor opção (ou sequer opção). No entretanto, deixo aqui por extenso esse tal texto de opinião alinhavado há mais de 1 ano atrás, esperando que em tempo de "vacas magras" não olhem só para as "gordas":

 

Uma verdade inconveniente

 

"Todos queremos uma equipa de futebol competitiva, mas é preciso dizer que isso não pode continuar a ser tentado com os orçamentos milionários de 2017/18 e desta temporada. De facto, só entre o populismo e a quimera é que se pode admitir que a SAD tenha gastos gerais administrativos na ordem dos 110 milhões de euros a que, para efeito da Demonstração de Resultados, se devem acrescentar 28 milhões de euros de amortizações. Tudo somado, são 138 milhões de euros a pesar negativamente nos Resultados. E os Proveitos (Receitas/Rendimentos), perguntará o Leitor? Ora, em termos de Proveitos Operacionais (excluindo vendas de jogadores) a Sporting  SAD registou na época passada um valor de cerca de 92 milhões de euros. Adicionalmente, se a esse montante descontarmos 26 milhões de euros provenientes da participação na Champions League, então os Proveitos Operacionais seriam apenas de 66 milhões de euros, isto assumindo que não teríamos uma queda importante a nível de bilheteira. Ora, fazendo uma conta simples de subtracção, conclui-se que para a SAD ter um Resultado zero precisa, com este tipo de orçamento, de vender jogadores no valor de 72 milhões de euros. Esta é uma verdade certamente inconveniente para alguns, mas é a realidade pura e dura. Como tal, para não termos como noutros tempos de alienar desordenadamente os melhores jogadores do plantel há que cortar na classe média/baixa do plantel, ficando apenas com os jogadores de top e de qualidade alta e recorrendo à Formação para completar o quadro de jogadores. 

 

Imaginando um orçamento de custos com pessoal de 50 milhões de euros, então mesmo sem Champions teríamos um défice, antes de venda de jogadores, de 48 milhões de euros, algo que com os Proveitos da Liga Europa baixaria para cerca de 40 milhões de euros. Com a Champions, o défice suavizar-se-ia para um valor à volta de 20 milhões de euros.  

 

Há decisões muito importantes a tomar brevemente para resolver o problema de tesouraria, mas há opções ainda mais relevantes a terem de ser seguidas no final da época no que concerne à definição do plantel para 2019/20. Todos sabemos quem são os 8/9 jogadores de qualidade que compõem o plantel pelo que temos de tentar colocar aqueles que não são predominantes. E conseguir um valor razoável por eles. Se possível, um valor igual ou superior àquele que pagámos por eles, situação que nos ajudaria a reduzir o "gap" para 2019/20.

 

Há quem defenda parcerias e outras situações, mas isso implicaria a perda de parte dos passes dos jogadores e influência desmedida dos empresários e/ou fundos de investimento, algo que já experimentámos no passado com os resultados desastrosos que todos conhecemos. Como tal, deveremos pensar sim numa estratégia que assente no desenvolvimento de jogadores jovens enquadrados por uma massa crítica de atletas de indiscutível qualidade, tudo supervisionado por um treinador que não tenha objecções nem receios em apostar na nossa Formação. E sim, temos de fazer muito melhor com menos quantidade, até porque esta não é de todo sinónimo de qualidade. Se assim fosse, China, Índia, Estados Unidos e Indonésia, os 4 países mais populosos do mundo, seriam campeões mundiais crónicos no futebol, mas não é isso que acontece, pois não? À laia de exemplo, O Sporting de Braga tem custos com pessoal de 18 milhões de euros e consegue ser competitivo. O que é preciso é implementar um processo, haver um pré-diagnóstico sobre os jogadores da Formação que nos interessam, uma racionalização dos custos e apostas cirurgicas, com critério, em jogadores de indiscutível valor intrínseco e que venham adicionar qualidade à nossa equipa principal. 

 

Meus caros, se isto não for feito rapidamente daqui resultará o marasmo. Estamos a esgotar os créditos todos e se perdermos mais tempo acabaremos a vender ao desbarato os Bruno Fernandes, Acuña (esteve por um fio em Janeiro), Coates e afins, sómente para pagar salários. Chegados a esse ponto, aí sim, as esperanças desvanecer-se-ão. Se é verdade que esta Direcção não pôde actuar no início da época, também é um facto que a sua actuação no mercado de Inverno levanta várias questões. Por outro lado, o treinador não está a saber tomar as opções que nos conduziriam à sustentabilidade económico/financeira. Se daí resultasse que os resultados desportivos fossem muito bons, então aconselhar-se-ia um compasso de espera, mas infelizmente também aí as coisas não estão a correr bem, pelo que a situação caminha para se tornar insustentável. 

 

Esta é uma verdade inconveniente que resulta da simples leitura de um Relatório e Contas. Os sócios do Sporting que façam as suas próprias contas."

 

Já agora, acrescento também "E depois do adeus...", artigo de opinião escrito em 16 de Julho de 2019. Aqui vai:

 

E depois do adeus...

 

"Olhando para a realidade como ela é, e não para a percepção que se impõe dela - raramente limpa, como oposto do imaginado na citação de "Doors of Perception" de William Blake, e desejavelmente não quimicamente alterada, ao contrário do que propõe Aldous Huxley no livro homónimo - , há toda uma geração de jogadores que o Sporting perdeu porque teve treinadores principais que nunca olharam devidamente para eles. Ou se olharam, não viram, como diria o Dr Pôncio. Demiral, Domingos Duarte, Palhinha, Francisco Geraldes, Ryan Gauld ou Mama Baldé são apenas alguns exemplos. Quem não concorda com esta teoria geralmente apresenta um argumento: se esses jovens não jogaram com diversos treinadores, então é porque não têm categoria suficiente para a primeira equipa. Na minha opinião, esse argumento é frágil porque toma esses treinadores como os detentores da verdade absoluta. Porém, uma análise rápida permite concluir que falharam no passado nas avaliações que produziram. O caso mais flagrante será o que se passou com Bernardo Silva no Benfica quando Jorge Jesus era o seu treinador. Para além de não ter tido oportunidades, rezam as crónicas da época que JJ queria fazer dele um lateral esquerdo, uma invenção digna de mostra à Academia Real das Ciências. Outro caso é o de Demiral. O turco pode não ter convencido Jesus, ou mesmo Peseiro que o despachou de volta ao país de origem, mas não teve dificuldades em receber a aceitação de Allegri, que recomendou a sua contratação, ou de Sarri, que a ratificou por 18 milhões de euros quando chegou a Turim, dois treinadores de alto gabarito do futebol mundial. 

 

Outro problema de erro de paralaxe é a avaliação da nossa Formação não contemplar muitas vezes o valor relativo das coisas. Sentencia-se negativamente o valor do jogador A ou B proveniente da Academia, mas esquecemo-nos de avaliá-los comparativamente com os jogadores que vamos contratando no mercado. Pegando só nos casos mais recentes, eu não tenho dúvidas de que Eduardo (24 anos) mostrou qualquer coisa de distintivo no Belenenses, mas isso não foi mais do que aquilo que Geraldes (tem a mesma idade) exibiu no Moreirense - para quem já se esqueceu, destruiu o Benfica numa semi-final da Taça da Liga - ou no Rio Ave (11 assistências em 17/18) quando era ainda mais novo. Outras comparações podem mesmo estabelecer-se no desempenho observado em Alvalade: Matheus Pereira na época 15/16, aos 19 anos de idade, fez 18 jogos pela equipa principal, nos quais marcou 5 golos e produziu duas assistências, números em média por jogo semelhantes aos obtidos a época passada por Diaby (27 anos), o qual custou 5,5 milhões de euros. Simplesmente, essa aposta não teve continuidade para lá de uns lançamentos fetiche em jogos contra o Porto. E isto para não falar em Misic, Alan Ruiz, Elias, Markovic, Campbell, todos certamente muito fluentes em mandarim, ou, mais recentemente, Ilori ou Borja, que todos juntos custaram muito dinheiro em transferências, comissões e ordenados e não mostra(ra)m ser superiores a produtos da nossa Formação que ficaram em fila-de-espera eventualmente por não terem o guião correcto. Nesse sentido, é bom não esquecer que muitos daqueles produtos da nossa Formação de cuja carga agora nos queremos aliviar foram chamados de volta a meio da temporada de 2016/17 para esconder aquilo que foi um despautério de péssimas aquisições que redundaram no facto de 1 ano depois só Bas Dost ser titular, erro que desejo ardentemente não se esteja a repetir pois os melhores jogadores da equipa continuam a ser aqueles comprados em 2017/18 (Bruno, Acuña, Mathieu, Wendel).

 

Por fim, há uma ideia que à superfície aparenta fazer sentido que consiste em que já não há muito valor a apurar em jogadores da nossa Formação com idades entre os 22/25 anos e que as apostas devem ser feitas, sim, em jovens entre os 17 e os 21 anos provenientes da Academia. No entanto, quando vemos entrar um ainda lesionado Rosier (5M€ + Mama Baldé), percebemos que Thierry Correia poucas hipóteses irá ter. O mesmo acontece com a aquisição de Rafael Camacho (5M€?), continuando Elves Baldé a rodar fora de Alvalade e persistindo a interrogação sobre o futuro de Jovane, numa altura em que o Sporting tem uma hiper-inflacção de alas, o que até seria uma boa dor de cabeça se todos os adquiridos fossem de nível "top". 

 

O presidente do Sporting, Dr Frederico Varandas, sentenciou que havia défice de qualidade na Academia entre os 17-23 anos. Ninguém lhe perguntou se tal percepção se devia à sua convicção pessoal, à de técnicos especializados, ou se derivava de outras motivações. Por isso, à primeira vista, o número de jogadores da nossa Formação que se encontra em estágio é incongruente com esse ponto-de-vista. Porém, se virmos à lupa, verificamos que dadas as aquisições para médio defensivo observadas desde Janeiro (Doumbia, Matheus Nunes, Eduardo) dificilmente Daniel Bragança terá uma oportunidade, ele que ainda nem se estreou no estágio. O mesmo se passará com as opções nas alas, analisando os investimentos em Camacho e Plata. Haveria, no entanto, aqui uma boa oportunidade para os defensores da rotação por "buckets" etários mais baixos: vendia-se Borja (26 anos), aquele jogador a quem a meio do caminho parece faltar corda e que agora dizem estar super-hiper valorizado pela ida à selecção colombiana, e dava-se uma oportunidade a Abdu Conté, ou Nuno Mendes, de aprender com Marcos Acuña. Igualmente, porque já tem 26 anos, fazia-se o "write-off" de Ilori e punha-se Eduardo Quaresma (17 anos) a crescer ao lado dos consagrados Mathieu, Coates e Neto, podendo jogar na Taça da Liga e em alguns jogos da Taça de Portugal.  

 

Uma última reflexão, que repete uma outra que publiquei no "És a nossa Fé" em 1/9/2018, com o título de "E depois do adeus": "nenhum clube tão assiduamente, e na praça pública, trata os seus atletas como activos como o Sporting. Não estamos a falar de acções nem de obrigações, nem sequer de sobreiros mas sim de um outro tipo de seres vivos, com pensamento e vontade própria. No dia em que pensarmos o clube não como um entreposto de compra/venda de jogadores, mas sim como um clube de futebol que quer manter os seus melhores jogadores, rendibilizando-os do ponto-de-vista desportivo, financeiro (via proveitos ganhos com conquistas desportivas) e económico (merchandising assente nos feitos dos jogadores) estaremos mais perto de uma cultura de clube vencedora e de um modelo de Organização onde impere o respeito entre todas as partes. No entretanto, continuaremos a dizer sim a défices de exploração constantes, proliferação de importação de jogadores para as mesmas posições e outros desvarios que nos levarão, em pouco tempo, a consumir os proveitos inerentes ao contrato com a NOS. Depois, acordar será tarde." 

 

Parece ainda estar actual, não é? Ora, de forma a podermos manter os nossos melhores jogadores, ou vendê-los apenas por preços irrecusáveis, não se podem desperdiçar recursos - escassos na economia - em compras na classe média/baixa do futebol mundial. Para isso, complementa-se o plantel com a Academia, onde investimos uns milhões de euros anuais em infra-estruturas, atletas e técnicos especializados que conhecemos bem. 

 

P.S. Se o Demiral tem ficado no Sporting, aceitando ir jogar para os sub-23 como foi noticiado que lhe foi proposto, não seria hoje também alvo da narrativa daqueles que não veem valor na nossa Formação? É bom lembrar que o turco foi preterido em função de Marcelo, um central que poucos meses depois foi dispensado. Um filme que se repete, em sessões contínuas, no "cinema" de Alvalade. Depois do fado (1ª arte) de 17 anos sem ganharmos o campeonato, a Tragédia Grega (2ª arte) desencadeada por aquela abominável peripécia de Alcochete, o quadro das nossas finanças (3ª arte), o Scouting que faz tábua-rasa da nossa Formação (escultura/4ª arte), o Estádio e suas "funcionalidades" (arquitectura/5ª arte) e as narrativas de criação de uma percepção sobre a Formação (literatura/6ª arte), eis a "Sétima Arte" leonina em todo o seu esplendor. Os sportinguistas têm mesmo de ser muito resistentes..."

 

É chegado o tempo de acordar o leão!!!

08
Mai20

Trocas de cromos e alfarrabistas


Pedro Azevedo

O futuro próximo do futebol vai assemelhar-se ao meu tempo de menino, dos bancos da escola, onde para completar as cadernetas de cromos trocávamos os repetidos entre os colegas. Ainda assim, ficavam sempre a faltar dois ou três cromos mais difíceis que, caso o mesada assim o permitisse, só uma visita ao alfarrabista permitiria colmatar (comprar carteirinhas de cromos não era solução, por ser caro, originar mais repetidos e não dar garantia alguma de solução do problema). 

 

O caso do Sporting será paradigmático disso. Com excesso de jogadores que não fazem a diferença, todos muito iguais entre si, e com uma necessidade imperiosa de baixar os custos do plantel, há muitos "repetidos" por colocar e um ou outro "cromo" por adquirir que complemente o que já existe na nossa colecção (boas compras anteriores e aqueles "cromos" gratuitos - Formação - que já vieram com a caderneta). Ir ao mercado comprar de novo por grosso (ou pescar de arrastão) é proibitivo, pelo que o mais certo é este(s) último(s) ter(em) de ser pescado(s) à linha no "alfarrabista". Todavia, recordo sempre aquela troca com o Galatasaray em que cedemos o Mpenza, o Spehar e o Horvath e fomos buscar o Jardel. Que esse seja o exemplo a seguir.

cromos.JPG

07
Mai20

Pergunta a Frederico Varandas


Pedro Azevedo

Segundo o que declarou em entrevista, Bruno Fernandes foi vendido por 65 milhões de euros (sic) e hoje valeria muito menos (20, 30 milhões...), narrativa que faz de si uma espécie de oráculo da catástrofe, capaz de antecipar e prever a ocorrência da Covid-19, tudo, certamente, mérito da sua gestão e nada atribuível ao factor sorte (que aceito também ser importante e não menosprezo) e a necessidades de tesouraria ou de prencher um défice de exploração (sem venda de jogadores) substancial. Nessa mesma linha de pensamento, atendendo a que na sua gerência o senhor gastou cerca de 50 milhões de euros na compra de 15 jogadores, a que acrescem salários anuais que decorrem da duração de cada contrato, perfazendo um investimento total que não andará longe dos 100 milhões de euros, gostaria de lhe perguntar quanto vale hoje esse investimento? 20, 30 milhões de euros? E, já agora, qual foi o custo de oportunidade de não ter havido aposta em mais jovens jogadores, tais como Domingos Duarte, Matheus Pereira, Mama Baldé (oferecido) ou Matheus Nunes (aquele que o senhor inclui num lote de jogadores com 17/18 anos e já completou 21 anos)? E dou de barato a compra de Ruben Amorim por 10 milhões de euros (mais 3 milhões de euros de salários anuais, segundo foi noticiado), treze dias antes da declaração do Estado de Emergência e menos de 1 semana antes da paragem da Primeira Liga, o que para um oráculo convenhamos que não foi uma grande profecia de curto-prazo. Venha então a tão propalada aposta na Formação (que apoio totalmente e espero não estar dependente nunca de conjunturas e ser estratégica). Pena é a qualidade superlativa que melhor a permitiria enquadrar já praticamente não estar entre nós, excepção feita a Mathieu e Acuña, após desnecessárias aquisições no mercado (que objectivamente não fazem a diferença face a jogadores da nossa Academia) nos terem obrigado a vender os melhores jogadores. Porque o Sporting nasceu para ganhar (tal como o Manchester United que contratou Bruno), não para ser um "trader" no mercado de jogadores de futebol. E ir ao mercado tem de ser cirúrgico (de cirurgião plástico) e obrigatoriamente significar acrescentar qualidade. Qualidade, não banalidade. 

 

P.S. Segundo comunicação oficial, Bruno Fernandes foi vendido por 55 milhões de euros mais cinco objectivos específicos de cinco milhões cada. Foi ainda paga uma comissão de 10% e há divergência de opinião sobre se a Sampdoria tem direito (ou não) a 10% do valor da transferência. 

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