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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

05
Jul20

Feddal como o destino?


Pedro Azevedo

Contratações cirúrgicas... E ainda há quem pense que contratar apenas 2/3 jogadores de qualidade por época seja um desinvestimento. Bom, bom são 14 contratações num ano. O resultado? Fatal como o destino. 

 

P.S. Sejamos francos, o Sporting não tem qualquer possibilidade de lutar pelo título em 2020/21, depois de ter perdido Mathieu, Bruno Fernandes, Bas Dost ou Nani no último ano e meio. Mas existe hoje um grupo de futuros grandes jogadores da nossa Formação que precisa de tempo, enquadramento com jogadores de qualidade superior e de uma Direcção que não crie irrealistas expectativas nos adeptos e diga a verdade. Podemos ter um futuro brilhante a 2-3 anos se mantivermos os nossos jovens e soubermos ir ao mercado com critério, contratando 2-3 jogadores bons por ano (não há dinheiro para mais). Mas se a tentação de ir ao mercado como na última temporada se sobrepuser, trocando qualidade por banalidade, e a nossa folha de pagamentos continuar a contemplar um rol de jogadores redundantes, então o tempo de espera pela felicidade será maior. Muito maior. 

03
Jul20

Tudo ao molho e fé em Deus

Jogo do Galo


Pedro Azevedo

Geralmente fico muito nervoso antes de um jogo, porém na antecâmara da recepção ao Gil Vicente senti-me bastante confiante. Bem sei, havia condicionantes de peso. Por exemplo, um impressionante surto de bife chorizo afectara o Acuña, o Jovane estava fora devido a um traumatismo (nos resultados dos nossos adversários) e o Geraldes por um triz não conseguira acabar um dos primeiros capítulos do Levantado do Chão, mas nada abalava a minha certeza de que o resultado nos seria favorável. E porquê? Bom, toda a gente sabe que cada partida da equipa de Barcelos é um Jogo do Galo. Ora, como a táctica do Ruben Amorim privilegia os três em linha (centrais), a coisa estava no papo. 

 

Este futebol pós-desconfinamento é muito sui generis, com os adeptos que habitualmente marcam presença nos estádios a verem-se obrigados a assistir pela televisão, em casa ou nos cafés. Procurando transpor por meio virtual as emoções usualmente vividas no José Alvalade, o meu grupo de bancada decidiu reunir-se à hora do jogo no Zoom. A ideia em si tinha tudo para bater certo, com 8 marmanjos de cachecol e fundos virtuais representando o nosso estádio a procurarem dentro do possível replicar as condições do futebol ao vivo. O problema é que a velocidade da fibra varia de lar para lar, pelo que passa a ser possível festejar golos do Sporting em ataques do Gil Vicente e contestar penáltis em lances disputados a meio-campo. Mais arreliador, o enfado com cada nova intervenção do Camacho pode distar 10 a 15 segundos entre cada lar, o que contraria o habitual uníssono. Nada portanto como um espectador desconfiado para lidar (rimar) com um futebol desconfinado.  

 

Foi assim com este enquadramento no meu computador que comecei a assistir ao jogo no televisor. E devo dizer que fiquei boquiaberto. Tanto que até liguei para a MEO. Então não é que a minha fibra é tão, tão lenta que até jurei ver em campo o Damas, o Jesus Correia, o Peyroteo e o Balakov? Um glorioso regresso ao passado em tempo de Regresso ao Futuro? Deixa ver, talvez com o botão do "fast forward"...

 

A primeira parte foi um bocado o que a bola deu e a bola deu para o Plata a levar aos soluços até à linha de fundo e mandá-la para trás. O Sporar dividiu-a com um gilista e o Wendel prensou-a num adversário a caminho da baliza. Estávamos na frente do marcador. Celebravam-se 114 anos de vida do nosso enorme clube e o Plata, isolado, voltou a regressar ao passado. Desta vez até antes da nossa fundação, mais concretamente ao dia 11 de Janeiro de 1906, véspera da data em que o International Board introduziu uma alteração às regras que passou a permitir o passe para a frente. O Gil é que não se deixou enganar e tentou resolver no presente, mas o Damas a.k.a. Max não estava pelos ajustes e por duas vezes negou-lhes o golo que não o galo.  

 

Gostei muito mais da nossa equipa no segundo tempo. Logo a abrir, o Plata, muito activo, isolou o Wendel. Este lá foi para a baliza, fiél ao princípio que o caminho se faz caminhando. Caminhar até caminhou, mas marcar não. Talvez porque o golinho se faz goleando e não caminhando. Uma questão de eficácia. O Sporting pressionava alto (fazendo campo pequeno) e entre campos um gilista assustado procurou livrar-se da bola para trás de qualquer maneira. O Plata agradeceu o presente de aniversário e tocou para o dois-a-zero. Porem, a noite não acabaria sem três momentos singulares. Tudo começou (78 minutos) quando o Matheus Nunes recuperou uma bola e foi progredindo, ora fintando dois para a esquerda, ora driblando os mesmos dois para a direita, até passar a bola ao Wendel. Este tocou para o Borja que de pronto lhe devolveu a bola. O brasileiro tocou para o Sporar, este para o Doumbia, o marfinense para o Ristovski e este para o Plata. A bola ainda chegou ao Wendel até ser perdida. No total foram 30 segundos de "tricô-traça" com as linhas com que se cose o actual futebol do Sporting. A deixar água na boca quanto ao desenvolvimento desta equipa. Por falar em líquidos, o Tiago Tomás e o Joelson deram razão às preocupações da Direcção Geral de Saúde com os ajuntamentos de jovens à noite. Lá se safaram da multa, porque não conseguiram o golo (ou gole). Mesmo no fim, sem ter justa causa para isso, o Ruben Ribeiro marcou-nos um golo. Porém, tal como já nos habituou, o resultado da sua acção foi inconsequente para nós, com o Sporting a conseguir a sua quarta vitória consecutiva em dia de aniversário. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gonzalo Plata. Menções honrosas para Matheus Nunes (qualidade com e sem bola), Wendel (1 golo), Coates (patrão), Nuno Mendes (revelação) e Max (segurança).

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01
Jul20

... E o Sporting é o nosso grande amor


Pedro Azevedo

O Sporting perfaz hoje 114 anos de existência. Cento e catorze anos é muito tempo, tanto que só 8 pessoas actualmente entre nós, por sinal senhoras, já eram nascidas quando o Sporting foi fundado. São elas as nipónicas Kane Tanaka, Shigeyo Nakachi e Mina Kitagawa, as gaulesas Lucile Randon e Jeanne Bot, as americanas Hester Ford e Iris Westman e a polaca Tekla Juniewicz.

 

Também não há muitos países cuja criação/independência sejam anteriores ao Sporting. Por exemplo, em África, só o Egipto, a Etiópia, a Libéria e Marrocos têm mais anos que o nosso clube. Na Oceania, apenas a Austrália precede o Sporting e por apenas 5 anos.

 

Perante estes contextos é fácil perceber o quão importante é preservar algo com tanta riqueza histórica e tão precioso e invulgar como o Sporting Clube de Portugal.

 

O Sporting está muito bem acompanhado no que respeita ao dia da fundação, pois a 1 de Julho nasceram também a diva Amália Rodrigues (1920) e o Capitão de Abril Salgueiro Maia (1944). Lá fora, o multi-campeão olímpico Carl Lewis (1961). E faz sentido, independentemente dos seus amores clubísticos! É que, se por um lado somos a voz de revolta de um certo (en)fado português, por outro a nossa visão do desporto sempre procurou promover a liberdade de decisão de todos os clubes e apelar à nobreza de carácter dos seus dirigentes. E temos para apresentar a grandiosidade de um ecletismo que também marca a nossa riquíssima história.  

 

Em 1906, o índice Dow Jones superou pela primeira vez os 100 pontos (25 812 actualmente), as regras do futebol passaram a contemplar o passe para a frente, Ascetic's Silver venceu o mítico Grand National com uma probabilidade de 20/1, o rei D. Carlos I nomeou João Franco como primeiro-ministro, os irmãos Wright conseguiram patentear a sua "máquina voadora", Santos-Dumont voou pela primeira vez, César e Cleópatra (George Bernard Shaw) estreou em NY, a China proibiu o comércio de ópio, o 1º cinema (Omnia Pathe) no mundo abriu em Paris, Reginald Fessenden tornou-se o primeiro radialista a transmitir música e o Irão passou a ser uma monarquia constitucional.  

 

E foi neste contexto muito marcado pelo pioneirismo um pouco por todo o mundo que José Alvalade fundou o Sporting Clube de Portugal em 1 de Julho de 1906, dando-lhe logo o objectivo de ser tão grande como os maiores clubes da Europa. 

 

Muitos parabéns Sporting! Obrigado pela companhia de todos os dias, por toda a glória e pelo privilégio de me poder associar a algo tão grandioso. Por isso, a dívida que tenho para contigo será algo que jamais poderei pagar em vida. Na alegria ou na tristeza, ser do Sporting sempre foi, é e será especial para mim. Muito mais do que um clube, ser do Sporting é idealmente uma forma única de estar na vida e por consequência também no desporto. No respeito pelos nossos concorrentes, na inovação e contributo para um desporto melhor, no saber ganhar e perder (dando sempre tudo para vencer), os alicerces do Sportinguismo. Mas, para nos abrigarmos dos dias tempestuosos, sempre precisámos de um tecto. E o que nos dá cobertura é a esperança inquebrantável que tanto intriga os nossos adversários e a resiliência indelével que nos une. Havemos de voltar a ser muito felizes juntos! Um bom dia para todos os Sportinguistas espalhados pelos 5 continentes. (E venham mais 114, a caminho da eternidade.)

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29
Jun20

Possibilidade de desenvolvimento do nosso jogo


Pedro Azevedo

Uma equipa que pratique um futebol atacante como a do Sporting está na maior parte do tempo instalada no meio campo adversário. Ora, atendendo a que habitualmente um campo tem as dimensões de 110 m/70m - considerando que a linha defensiva estará posicionada um pouco atrás do grande círculo, o ponta de lança andará nas imediações da grande área contrária e os laterais/alas abrirão em largura - , então na maior parte do tempo a equipa ocupará um espaço de 45 metros de comprimento e 70 metros de largura.  

 

Com bola, o Sporting de Ruben Amorim ocupa 4 linhas, guarda-redes excluído. Existe uma primeira linha defensiva de 3 centrais, uma segunda que compreende dois médios centrais e dois laterais/alas, dois avançados interiores como enganche e um ponta de lança. Ora, fazendo as contas, supondo que a distância entre todas as linhas é uniforme, teremos uma distância entre linhas igual a 15 metros, o que é superior àquilo que seria unanimemente recomendável para praticar um futebol posicional (à volta de 10m). Acresce que é possível ver à vista desarmada que médios centro e centrais estão demasiado próximos, o que faz com que o espaço compreendido entre os médios centro e os dois enganches ascenda por vezes a 20/25 metros, o que, ou inibe o passe e engasga o nosso jogo (lateralizações), ou acaba por estar na origem da perda de tantos passes, ambas as situações contribuindo para piorar a qualidade do nosso jogo. Se a isso adicionarmos a falta de conhecimento por parte de Plata daquilo que é requerido a um interior e as características individuais de dois enganches que pensam muito mais como avançados do que como médios (acelerando e não temporizando), fica explicada a razão pela qual tantas vezes a solução de recurso para os médios é colocar a bola directa em Sporar. Tal permite também perceber porque habitualmente a circulação de bola do Sporting é em "U", procurando parcerias entre os laterais/alas e os interiores por detrás do ponta de lança que essencialmente têm características de extremos e acabam por procurar muitas vezes a bola junto às linhas laterais. 

 

Uma solução para este problema, que se poderá vir a manifestar de forma nefasta nos resultados contra equipas mais evoluídas, poderia passar pelo recurso a mais uma linha no meio campo. Existem duas possibilidades de colocação dessa nova linha no terreno, mas só um jogador ideal para a ocupar: Francisco Geraldes. A meu ver, ambas as possibilidades trazem vantagens, todavia uma delas poderá incluir inconvenientes. A primeira possibilidade passaria por Chico substituir Plata, recuando um pouco face a Jovane, assumindo-se mais como um médio atacante do que como um enganche de Sporar, dando uma componente mais cerebral ao nosso futebol. O senão desta alternativa é a equipa poder perder alguma capacidade de explosão na frente. A segunda possibilidade, aquela em que mais acredito, envolveria a saída de um dos médios centro actuais e a criação de uma linha à frente onde actuaria Geraldes. A ideia seria haver uma clara definição entre as posições "6" e a "8", o que ajudaria o nosso jogo interior a desenvolver-se mais. Acresce que, com 3 centrais atrás, me parece excessiva a utilização de dois médios a par na linha imediatamente à frente, situação que leva muitas vezes a um engarrafamento na saída de bola e cria até indefinição sobre quem atacar a bola no processo defensivo (vidé o segundo golo, de carambola, do Vitória de Guimarães). Com 5 linhas, o espaçamento entre sectores seria mais próximo do ideal (11,25m) e a equipa poderia ligar muito melhor e variar mais o seu jogo ofensivo, incluindo aí as entradas frontais do "8" que hoje em dia não temos. Por outro lado, aquando da perda de bola a equipa estaria muito mais inteligentemente disposta no terreno para a recuperar rapidamente, não dando espaço entrelinhas nem permitindo transições. (A grande vantagem para mim deste 3-4-3, ou 3-4-2-1, ou 5-4-1 quando sem bola, é a possível inclusão de Geraldes como "8", algo que não seria tão credível num 4-3-3 onde ao "8" é pedido muito mais trabalho defensivo.)

 

Não sei o que Ruben Amorim pensará disto, porque no actual contexto da comunicação nos clubes portugueses poucas vezes há a possibilidade de questionar um treinador sobre o futebol jogado. Mas que gostaria de lhe perguntar como vê esta possibilidade de desenvolvimento do nosso jogo, lá isso gostaria. 

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27
Jun20

Tudo ao molho e fé em Deus

The Karate Kid e o Koffi ora gigante, ora anão


Pedro Azevedo

Na vida é sempre importante sabermos as linhas com que nos cosemos. O Ruben Amorim tem isso presente e, vai daí, aplica-o literalmente ao futebol. O problema é que muita intersecção de linhas gera obviamente demasiados passes laterais e essa tem sido a óbvia consequência de um sistema táctico do promissor técnico leonino que privilegia o engarrafamento na zona central, com dois médios a par e três defesas por detrás ("O Pentágono"). Assim, muitas vezes o Matheus cose e coze o Wendel e este responde assando (as pernas de) o Matheus com passes miudinhos que no rugby se denominam de "para o hospital", auto-anulando-se os dois no que diz respeito ao processo ofensivo e criando indefinição quando toca a defender. Evidentemente, havendo linhas sobrepostas atrás, faltarão sempre linhas à frente, algo que tentamos contornar com a solução do chutão à procura do Sporar, o 112 dos inermes. Quando o esloveno consegue segurar a bola, então aí aparece Jovane, um cabo-verdiano que se descreve melhor recorrendo ao poeta Régio: "a minha vida é um vendaval que se soltou, uma onda que se alevantou, um átomo a mais que se animou". É tudo isto que o Sporting ganha quando Jovane está em campo, os tais últimos 30 metros que comprometeriam irremediavelmente a eficiência da geringonça de passe/repasse outrora montada por Silas ("A Posse")...

 

Andávamos nós neste empastelamento quando os de Belém meteram também as mãos na massa e, pumba, espetaram-nos um pastel: defesa completamente desposicionada e larga no relvado, transição rápida e golo. Mas eis que o Coates foi gigante e o Koffi anão. Qual alto signatário das Nações Unidas, o burquinês estendeu a passadeira a bem da paz e cooperação entre os povos. O uruguaio dedica o golo ao seu antigo camarada de armas, Monsieur Mathieu. Um-dó-Li-cá, e eis que o Codecity volta a marcar. Anulado, por fora de jogo. Por essa altura andava o Plata numa das suas inconsequências quando avista o Ristovski. O macedónio põe a bola com olhinhos na área, o Sporar arrasta marcações e o Jovane mostra que um leão também pode ser um dragão como o Bruce Lee. Depois, o Matheus consegue sair da cabine telefónica onde o meteram com o Wendel e faz um passe longo para o Nuno Mendes. Este dá ao Jovane e o menino inicia intermináveis tabelinhas com o Sporar que acabam com o esloveno caído na área. Penálti, diz Molero, perdão, Malheiro. O Jovane chuta, mas o Koffi dá 2 passos à frente e defende miraculosamente. Tempo então para nos interrogarmos sobre a identidade Sportinguista e os caminhos possíveis para a sua coabitação com uma pluralidade de formas artísticas no futebol português. Molero, perdão, Malheiro também reflecte sobre o tema e eis que perante a incredulidade de todos os leões confinados nos seus lares vemos um árbitro a cumprir com as regras num jogo do Sporting. O Ristovski, desta vez sem galo, sorri. Novamente chamado a tentar converter a penalidade, Jovane desfere uma bazuca de fazer inveja ao António Costa. 

 

Para a etapa complementar o Jovane ficou no banco. Aparentemente, devido a um traumatismo (que provocou no resultado). Entrou o Geraldes e o cão de Pavlov que existe no subconsciente de cada leão Sportinguista começou a salivar. E a verdade é que o Chico até fez um bom jogo, desmarcando-se sucessivamente e assim dando linhas ao portador da bola. Iniciou então um duelo em 3 actos com o Koffi, agora gigante, com o burquinês sempre a levar a melhor. Do Ensaio sobre a Cegueira para o Levantado do Chão é o mesmo Caminho (NA: editora), um caminho que se faz lendo nas entrelinhas do que são os posicionamentos do Chico, uma alternativa aos atalhos à procura do Sporar. Até ao fim pouco mais houve a declarar e o jogo ainda deu para ver entrar o Ilori e o Doumbia e para que o Borja fizesse os 90 minutos sem que o excesso de desconfinamento contagiasse toda a equipa do vírus da tragicomédia. 

 

P.S. Dois livres directos, igual número de penáltis, um canto - eis o balanço de golos de bola parada pós-desconfinamento (4 jogos). Ristovski substituiu Camacho e com um aproveitamento superior, prenúncio de que Amorim está atento à meritocracia. Muitos jovens lançados na equipa principal, sinal muito positivo. Jovane, com 4 golos, duas assistências e participação nos dois desequilíbrios de onde resultaram os penáltis, está em grande. Coisa para logo se agitarem muitos milhões que não mendilhões. Que continue por cá a afagar-nos os corações!

 

Tenor "Tudo ao molho": Jovane Cabral (póquer de menções e de golos desde o desconfinamento)

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26
Jun20

Resiliência


Pedro Azevedo

Sou adepto de causas difíceis. Não, não pensem que o Sporting é a única. Vou dar alguns exemplos. Em Espanha ganhei afecto pela Real Sociedad, equipa do País Basco cujo último campeonato conquistado data de 82. Ainda recordo a bigodaça do Zamora, o cérebro contra o fúria espanhola daquele tempo, e a arte da revienga do Lopez Ufarte, mais tarde colega do Paulo Futre no Atlético de Madrid de "El Flaco" Menotti. Em França, o meu coração bate pelo Saint-Étienne, outrora o clube de Platini, Rocheteau e Jean-Michel Larqué, este último mais tarde jornalista da revista ONZE que eu devorava na minha adolescência. Ao longo dos anos, muito "Allez les Verts!", mas "Les Verts ne marche pas"... O último título de campeão data de 81! Em Itália torço por uma Roma que só me deu 2 Scudettos desde que vim ao mundo. Nos recreios tentava replicar as fintas do Conti, o meu jogador preferido da história do clube da cidade eterna. Falcão e, mais tarde, Giannini também me marcaram com a sua imensa classe. E Totti, pois claro, cuja história se confunde com a do clube romano. Já em Inglaterra nasci campeão. O problema é que depois tive de esperar 26 anos para que a geração de Giggs, Beckham e Cantona substituísse a de Best, Law e Charlton. Desconfiado, na Alemanha fui com duplas. Mas nem assim: o Borussia Dortmund não vence desde 2012, o Werder Bremen está quase condenado à descida de divisão. Os de North-Rhine Westphalia ainda levantaram a "Orelhuda". Eram os tempos gloriosos de Sammer, Chapuisat, Riedle ou Paulo Sousa, o português que com Redondo e Makélélé completa o trio de melhores "6" que vi jogar. Já os de Bremen estão cada vez mais distantes dos tempos gloriosos dos "Bomber" Rudi Voller (alemão), Wynton Rufer (neo-zelandês) ou Claudio Pizarro (peruano) e do Super Mário Basler. Pelo que alegrias só fora dos Big5, nomeadamente através de um campeonato periférico como o holandês onde o Ajax nunca me deixa ficar mal, não só pelos campeonatos que vence mas também pela convicção com que defende o seu modelo estratégico (e nunca conjuntural) de aposta na Formação. De onde saíram Cruijff, Keizer (o tio do outro), Krol, Rep, Van Basten, Bergkamp, Davids, Seedorf, Kluivert, entre tantos outros. Mas, não Vos escondo, aquele último segundo da meia final da Champions contra o Tottenham deixou-me com uma azia das antigas...

 

Se estes, perdendo mais do que ganhando, hão-de ser sempre os meus clubes, porque razão o meu coração não haveria de bater sempre com intensidade pelo Sporting? Os clubes têm ciclos, tal como a paixão. Mas o amor é incondicional. Com altos e baixos, por certo, mas para quem não desespere a recompensa estará sempre no fim do arco-irís que se formará após os primeiros raios de sol desanuviarem os dias cinzentos. Vejam o caso do Liverpool. Eles nunca caminham sozinhos, no dizer sempre apaixonado dos seus adeptos. E puderam enfim festejar, numa catarse colectiva onde se pôde ver um alemão (Klopp) a dar azo às suas emoções como um latino e a chorar perante o olhar embevecido do monumental Kenny Dalglish. Quem é que não teria gostado ontem de ser do clube da cidade dos Beatles e do rio Mersey? E vieram para ficar, não duvidem um só momento desta afirmação. Até cansa só de os ver jogar...

25
Jun20

PED Talks

Modelo para o futebol/Política desportiva


Pedro Azevedo

O futebol cumpre uma importante função social, ele é o circo romano dos tempos modernos. Por paixão pelo jogo, amor ao clube, desejo de vencer, necessidade de pertença e/ou de partilha ou, simplesmente, como escape para frustrações diversas do quotidiano, os adeptos vão aos estádios. Se for possível contribuir para que de lá saiam mais felizes do que entraram e não totalmente entediados, quando não enervados, então penso que o clube cumprirá uma função importantíssima do ponto-de-vista social. Defendo, por isso, que o Sporting tem de oferecer um bom produto aos seus adeptos sob a forma de um futebol positivo, onde o rigor táctico possa ser compatibilizado com os desequilíbrios provocados pelos "gladiadores" que fazem o bilhete valer a pena. Nesse sentido, entendo que o treinador principal do clube deve ser escolhido por conseguir conciliar a aposta nos jovens com uma boa ideia de jogo que permita algum deleite ao espectador e não transforme um campo de futebol numa repartição pública. Um perfil semelhante ao que em tempos tivemos com Malcolm Allison, ainda que não necessariamente tão "bigger than life" como o inglês. 

 

Há demasiados erros conceptuais no projecto de futebol do Sporting. Creio, por isso, que o elemento mais importante deverá ser o Director Técnico. O Sporting precisa de alguém que seja um pensador de todo o futebol do clube e que possa actuar com total autonomia, numa abordagem "top-down", definindo o tipo de jogo que se pretende praticar a nível sénior - se a Direcção, como entendo que o deve fazer até em função de poder chamar mais gente aos estádios, definir como prioridade uma ideia de "futebol positivo", então o Director Técnico deve procurar modelizar princípios de jogo compatíveis com tal - , sugerindo à Direcção treinadores que se possam adequar a esse desiderato, coordenando o futebol juvenil, de forma a que as rotinas implementadas - a partir dos escalões competitivos, porque no início não se deve estereotipar as crianças mas sim dar-lhes liberdade para que desenvolvam as suas qualidades técnicas - se assemelhem tanto quanto o possível à realidade dos seniores, trabalhando com os treinadores da Formação no sentido de serem desenvolvidas determinadas características em futebolistas jovens que mais tarde possam constituir uma mais-valia no plantel principal. A meu ver, esse Director Técnico deveria também ser responsável pelo complemento da formação de jovens treinadores a trabalhar na Academia, facilitando assim o seu crescimento na Estrutura até, alguns deles, poderem assumir-se futuramente como timoneiros da equipa principal do clube, ganhando assim o projecto por haver técnicos bem identificados com o processo. Com isto conseguiríamos ter um Futebol de Autor como oposição ao futebol de cada treinador que tem sido a nossa realidade, o que evitaria estarmos sempre a recomeçar a obra de construção do nosso futebol (Castigo de Sísifo) de cada vez que vamos buscar um novo treinador, perdendo-se inúmeros jogadores promissores no processo. 

 

Da forma como entendo o modelo, de cada vez que o treinador principal necessitar de um jogador com determinadas características, o Director Técnico deve primeiro procurar se elas existem na Academia, ou se é possível desenvolvê-las em tempo útil. Caso tal não seja possível, então, sim, dever-se-á recorrer ao mercado. (Se tivermos um miúdo nos escalões jovens que precisa de mais 1 ano para amadurecer, mais vale ir buscar um veterano tipo Mathieu que me faça uma temporada do que investir bastante dinheiro na compra de um jovem promissor que depois vai tapar o lugar ao produto da nossa Academia.) Como profundo conhecedor que será das necessidades da equipa principal, o Director Técnico deverá sempre ter a última palavra, ficando a liderar Scouting e Gestão de Activos, de forma a que sejam limitados ao máximo os erros de "casting". 

 

Um edifício futebolistico constrói-se pelos seus alicerces. No nosso caso, a nossa fundação é a Formação. Investimos dinheiro no projecto da formação com o objectivo de virmos a colher benefícios disso, tanto a nível desportivo como económico. Ora, é extremamente importante saber balancear estas duas vertentes e, através delas, assegurar a sustentabilidade do projecto. Por isso, defendo que tem de haver outra ligação entre o que é feito no terreno e a gestão do clube. Desde logo, através de um planeamento decorrente de um diagnóstico, tão precoce quanto possível, do valor intrínseco de cada jogador da nossa Academia. Nesse sentido, constituiria um Gabinete Técnico, conectado com a área de gestão de activos, que catalogaria os nossos jovens em 4 categorias:

  • jogador de classe extra(4), tipo Futre, Figo ou Ronaldo
  • jogador muito bom(3), tipo Adrien, William, Rui Patrício ou João Mário 
  • jogador bom(2)
  • jogador de classe média(1)

 

Quando o jogador chega aos juniores, haverá um ano para completar o seu diagnóstico. Com estas conclusões na mão, a gestão de activos e o treinador principal deverão seguir este plano: o jogador da classe 4 deve ser considerado um "eleito" e deveremos tentar mantê-lo o tempo possível para que nos ajude a ter êxito desportivo, sem prejudicar a sua valorização enquanto "activo". Nesse sentido, idealmente só o libertaremos por volta dos 23 anos, permitindo-nos 4/5 épocas na equipa principal e concomitante rendimento desportivo. Este tipo de jogadores nunca deverá ser vendido por valor inferior a 50 milhões (para quem ache pouco relembro que Futre saiu a custo zero, Figo por 2/3 milhões e Ronaldo por 15 milhões); os jogadores da classe 3 não despertarão tanta cobiça imediata por parte dos tubarões europeus. Aparecerá certamente uma segunda linha de clubes de topo interessada neles, mas os valores não serão assim tão sedutores. Preconizo que se tente fixar uma bitola entre os 25/35 milhões para venda destes "activos" e que se tente mantê-los até uma idade próxima dos 27 anos. Se, como no caso de João Mário, o valor oferecido pelo mercado for superior ao preço por nós definido, então aceitaremos libertar o jogador mais cedo; ligo muito a classe 2 à nossa sustentabilidade financeira, até porque tenho a firme convicção de que aqui há um trabalho importante de racionalização e optimização dos recursos a fazer. Se não trabalharmos bem esta classe ficaremos com os tais plantéis de 70/80 jogadores que, todos juntos, acabam por pesar bastante na conta de exploração da SAD.  Na minha opinião, é com as vendas destes jogadores - a esmagadora maioria dos quais condenados a empréstimos e pré-épocas na equipa principal fracassadas - que pagaremos por longo tempo os custos incorridos com a nossa Formação. Imagine-se que definimos um preço entre os 10 e os 15 milhões para venda de um determinado jogador. Em vez de "aquecer" o banco ou andar de empréstimo em empréstimo até ao final do seu contrato, um jogador destes, só por si, pagaria 3 anos da nossa Academia. Não podemos querer ter os "cromos" todos e se percepcionamos que o treinador principal não o vê a entrar de caras na equipa nos seus 3 primeiros anos de sénior, então o melhor é tirar algum proveito económico/financeiro do investimento que fizemos na formação do atleta; finalmente, o jogador da classe 1 deve ser alienado no final do seu primeiro ano de juniores ou na passagem para sénior, de preferência a clubes com que tenhamos boa relação e protocolo e com quem se possa estabelecer um acordo de opção de recompra (valor que não deverá superar 0,5/1 milhão de euros), precavendo o caso de o jogador vir a desenvolver-se de uma forma surpreendente que suplante o pré-diagnóstico feito.

É de superior importância que se reconheça e aprove o processo e que este não possa estar dependente de um eventual diagnóstico falhado. No futebol, infalíveis são apenas os ferros das balizas e a bola que rola (quando não fura), até a relva nem sempre cumpre como bem sabemos (e todo o mérito, independentemente de outras considerações, a quem finalmente resolveu esse problema), pelo que não será o erro que nos deverá desmobilizar de tentar introduzir alguma ciência na gestão dos activos. Os desvios devem ser corrigidos, substituindo ou reforçando pessoas no tal Gabinete Técnico se for caso disso, mas não deveremos nos afastar do processo nem duvidar das suas vantagens. (nota: os valores apontados para venda não dispensam que o valor das cláusulas de rescisão dos jogadores permaneça elevado, na ordem dos 60 ou 100 milhões, até de forma ao clube poder ter maior liberdade negocial)

 

De seguida, passarei a abordar ideias sobre o futebol profissional e a sua articulação com a Formação. O modelo de aposta na Formação deve ser imposto pelo clube, sem trangiversações e como parte integrante da sua política desportiva. É que, independentemente dos resultados desportivos que o treinador consiga obter, a factura é paga pelo clube/sociedade anónima desportiva e cabe a ela garantir a sustentabilidade económico/financeira do projecto.

 

  • Princípios de jogo/Sistema de jogo: (Ponto prévio: a visão da ideia de futebol positivo é da competência da Direcção, a forma de lá chegar é definida pelo Director Técnico e adoptada pelo treinador que comunga dessas ideias e está integrado no projecto.) Mais do que o 4-3-3 ou o 3-4-3, o mais importante no futebol são os princípios de jogo. Por exemplo, se eu quiser adoptar os princípios da escola holandesa de Michels e Cruijff, então eu vou jogar um futebol posicional, em que desenho triângulos constantes à frente do portador da bola de forma a que este tenha sempre linhas de passe. No fundo, quem se desmarca é que define para onde vai o passe, não quem tem a bola. A ideia é tentar ver o jogo o mais possível de frente, começando a construção na posição "6" ou, até ainda mais atrás, através de um central com boa saída de bola, razão porque Cruijff no Barcelona fez recuar Koeman ou Guardiola para essa posição. O futebol um pouco como o rugby, partindo de trás, sem chutões para a frente e tentando levar o máximo de jogadores em futebol apoiado até à baliza adversária. Sem bola, pressão inteligente. Por exemplo: se vou fechar o lateral direito adversário, devo tapar-lhe o lado do seu melhor pé, dando-lhe apenas a opção de bater com o pé esquerdo. Logo, imediatamente, faço subir um médio para tentar fechar a saída de bola pelo centro. E se subo esse médio, e dou espaço ao médio contrário, tal deve ser compensado por um defesa imediatamente. Tudo isto deve ser treinado e rotinado desde cedo, nos escalões de formação competitivos. O que para mim não faz qualquer sentido é andarmos anos a formar Daniel Bragança como "6", o que sugere uma ideia de futebol posicional em que a construção começa a partir dessa posição, para depois nos seniores querermos um "6" essencialmente repressivo, exemplo acabado de uma articulação inexistente entre formação e futebol profissional.
  • Treinador Principal do futebol profissional: a meu ver, o treinador tem de ser alguém com especial vocação de artífice, no sentido em que está na última estação de produção de talento da linha de montagem que é a nossa Formação. Ao seu nível, tratará dos “acabamentos”, a dimensão táctica do jogador. Se este chegar aqui com deficiências técnicas, a nível do passe e recepção orientada, dificilmente terá um crescimento tão exponencial quanto aquele que se poderá esperar no plano táctico (olho para Ristovski, por exemplo, um jogador rápido e todo-o-terreno, mas nota-se a falha na sua formação a nível de recepção orientada). Já a finta ou o remate poderão mais facilmente ser trabalhados, burilados pelo treinador. Ao mesmo tempo, o treinador tem de estar habituado à pressão de ganhar, mesmo quando com orçamentos inferiores aos seus rivais. 
  • Adjuntos: um dos adjuntos da equipa profissional deve ser uma velha glória do Sporting, campeão pelo clube e com capacidade para passar a cultura Sporting ao plantel. Deve também ser um homem leal e que ajude na integração do treinador principal e restante equipa técnica, especialmente se forem estrangeiros.
  • Gabinete Técnico do futebol profissional: formada por Director Técnico para o futebol profissional (superintende Scouting e Gestão de Activos), treinador principal do futebol profissional, Coordenador do futebol de Formação, treinador dos sub-23 (e/ou treinador da equipa B) e treinador dos juniores. Reunindo semanalmente, espaço onde se pode ir avaliando a evolução dos jogadores jovens com potencial para subirem à 1ª equipa do clube, bem como estabelecerem-se pré-diagnósticos (com base em informação constante do Gabinete Técnico da Formação, onde estarão os treinadores das várias camadas da nossa Formação, que produzirá relatórios anuais sobre o desenvolvimento dos jogadores) dos mesmos em articulação com a área de gestão de activos. Decisões como “queimar etapas” na Formação, posições em que é necessário intensificar o treino do jovem, com mais conteúdos tácticos, para mais rapidamente suprir uma lacuna da equipa principal, empréstimos para rodar ou dispensas devem ser aqui definidas, de forma a que o Director Técnico possa saber com a máxima antecedência possível com o que pode contar na equipa principal e as posições em que terá de ir ao mercado.
  • Política de quotas da Formação até que a aposta se consolide: não sou muito fã das quotas, mas a verdade é que se tem de começar por algum lado. Por exemplo, em tempos não muito distantes, foi a única forma de as mulheres poderem subir na sua carreira profissional. Uma discriminação positiva e que, no início poderá mais privilegiar a quantidade do que a qualidade, mas creio ser a única forma de impedir desvios ao que deveria ser o nosso ADN. Julgo, por isso, que deveria haver um número mínimo de jogadores provenientes dos nossos escalões de Formação na equipa principal e nem me chocaria que isso fosse integrado nos Estatutos do clube.
  • Tecto máximo de jogadores: o plantel principal deve ter um número máximo de jogadores. Na minha opinião deveria ser de 24: dois por cada posição, 3 pontas-de-lança e 3 guarda-redes. Havendo lesões, subiriam jogadores dos sub-23 (ou B) à equipa principal para as posições em défice. Seria uma maneira inteligente de optimizar recursos, com consequências positivas em termos de custos com pessoal e resultados líquidos da sociedade anónima desportiva.
  • Política de empréstimos: do meu ponto-de-vista, cumprindo-se os pressupostos dos dois pontos anteriores não seria necessário emprestar muitos jogadores (existe a equipa sub-23 e a B). Em todo o caso, estes, a acontecerem, por motivos de maior competitividade, deveriam privilegiar clubes que tenham treinadores com histórico de aposta em jogadores jovens e da nossa Formação (Couceiro, por exemplo, que nos melhorou João Mário, Ruben Semedo ou Ryan Gauld) ou com ligações históricas ao nosso clube (filiais). A meu ver, nessa política o treinador é mais importante do que o clube. Pode-se ter óptimas relações com o clube, mas o treinador não apostar em jovens. A não ser que se queira influenciar a escolha do treinador por parte do clube, mas isso já seria passar aquela linha que a mim me começaria a causar alguma urticária, pois a possibilidade de a coisa entrar no domínio do conflito de interesses seria considerável.e tenho como certo que o Sporting é um clube que não pode estar ligado a essas situações.
  • Contratação de novos jogadores: só deveriam ser contratados jogadores cirurgicamente e para as posições em falta. No máximo 3 jogadores por época e de muita qualidade, que efectivamente produzam a diferença, em detrimento de "contratações cirúrgicas" em classe média/baixa do futebol mundial. Qualidade e não quantidade. Posições como as de ponta-de-lança, que a nossa Formação geralmente não produz, por exemplo, e outros que conjunturalmente seja necessário colmatar. De qualquer forma, a qualidade das “fornadas” da Academia não é uniforme de ano para ano pelo que que haverá anos em que será necessário actuar mais no mercado. Evidentemente, uma boa oportunidade de mercado não deve ser desperdiçada, obedecendo ao tecto contemplado em cima. Vi o Sporting a contratar um jogador de qualidade média como Marcelo (defesa), com 28 anos, e fez-me uma certa confusão. O mesmo se passou com Ruben Ribeiro. Sobre Jesé, Bolasie e Fernando, que chegaram por empréstimo, é melhor nem falar. Outros não falo porque ainda são nossos jogadores. Eu proporia que só se contratassem jogadores com idade máxima de 23/24 anos (numa óptica de rendibilização de investimento) e alguns jogadores mais velhos apenas quando pudessem efectivamente fazer a diferença (Mathieu, por exemplo) e trouxessem a experiência que faltasse à equipa. Se eu tiver fundadas esperanças num craque da Formação e achar que precisa de 1/2 anos de estágio para que possa vir ao de cima todo o seu potencial, então será melhor contratar um jogador mais veterano (prematuro envelhecimento em cascos de carvalho) de créditos firmados - que vem cumprir esse período e que anteriormente já foi informado que se pretende que contribua para o crescimento desse jovem - do que estar a ir buscar ao mercado um jogador igualmente jovem e que depois, devido ao seu preço, vou ter a pressão de o pôr a jogar, prejudicando assim a ascenção do jogador formado na nossa Academia. Quantos casos destes ou semelhantes já não tivemos? Nunca contrataria nenhum jogador por empréstimo, excepto se tiver uma cláusula de opção com um valor acessível para as nossas finanças. Eu tenho a certeza de que se deve falar a verdade aos sócios e adeptos. Não temos dinheiro para de uma vez só actuarmos eficazmente no mercado, pelo que precisaremos de ir compondo a equipa em 2-3 anos, a fim de então podermos discutir o título.
  • Introdução do treino por sectores na Formação: vemos as melhores práticas dos desportos profissionais americanos e fica sempre a sensação que a Europa está muito atrás em diferentes matérias. Desde logo na interligação com os adeptos, mas aqui vou falar do treino por sectores, algo que é particularmente visível no futebol americano. O futebol ganhará muito com os ensinamentos de outros desportos. Por exemplo, a basculação (mudança de flanco) é uma coisa que se vê com frequência num jogo de andebol. Como é possível termos um homem como Manuel Fernandes nos nossos quadros e continuarmos sem produzir um ponta-de-lança com qualidade? Manuel Fernandes daria um bom treinador de avançados e pontas-de-lança em particular, transversal aos diferentes escalões de Formação, ensinando os miúdos em questões de posicionamento no campo, colocação do pé na bola, cabeceamento (vemos muitos que chegam ao plantel principal com défices nesse aspecto – Gelson, Matheus, etc). Não seria o Manél mais útil para nós aqui que no Scouting?
  • Scouting: conseguir cadastrar a base-de-dados com o maior número possível de jogadores, nacionais e internacionais, ainda em idade juvenil e ter a capacidade de os ir acompanhando até que as regras FIFA (jogadores estrangeiros) não impeçam a sua contratação. Isto traria menores custos na sua aquisição. Quando se chega a um jogador “já feito”, os custos são necessariamente superiores. Procurar mercados emergentes (Argentina, Uruguai, Chile, os brasileiros já estão muito inflacionados), mas também afluentes. No tempo de Sousa Cintra (outro tempo) chegaram ao Sporting, pela mão do empresário Lucídio Ribeiro, uma série de jogadores muito interessantes, provenientes do centro da Europa e do Magrebe. Balakov, Iordanov (bulgaros), Cherbakov (Ucrânia), Valckx (holandês) ou Naybet e Hadgi (marroquinos) foram jogadores que chegaram ao Sporting por valores acessíveis e que tiveram excelente performance desportiva, além de, alguns deles, proveitos extraordinários para o clube após venda. Abandonaram-se esses mercados e não se percebe bem porquê.
  • Propriedade Intelectual vs Academia: julgo que a maioria dos adeptos e até alguns dirigentes confunde muito a nossa Formação com a Academia de Alcochete. A Academia é um espaço físico, com excelentes condições é certo, mas o que faz toda a diferença é a propriedade intelectual, o enorme talento de homens como Aurélio Pereira ou João Couto, por exemplo, ou dos falecidos César Nascimento e Osvaldo Silva que fizeram escola. Se alienarmos isto, podemos ter a melhor Academia do mundo que os resultados não aparecerão. E depois há outras coisas: aquele campo pelado, ali ao lado do antigo pavilhão, viu nascer jogadores como Futre, Figo e Ronaldo (apanhou a Academia já no final da sua formação). Esses campos irregulares estimulavam a técnica e a habilidade dos jogadores, obrigados a dominar a bola após ressaltos inesperados ou a fintar entre umas covas ou lombas no terreno de jogo. Hoje em dia, os campos são perfeitos mas os talentos escasseiam. Dá que pensar, mas talvez não fosse má ideia ter um campo pelado em Alcochete, que pudesse recriar um pouco as condições do futebol de rua, onde craques como os já citados, para além dos ultramarinos Peyroteo, Hilário, Eusébio, Coluna ou Matateu, aprenderam o ofício. E continuem a recrutar formadores de excelência para enquadrar os nossos jovens.do ponto-de-vista desportivo e educacional. Houve quem brincasse quando eu falei a primeira vez dos campos pelados, mas eis que o Ajax decidiu ultimamente seguir esse caminho, construindo 3 campos baldios na sua academia. E porquê? Porque os jovens precisam de ser desafiados com novas dificuldades e as irregularidades de certos campos, que se assemelham às condições do futebol de rua, melhoram o tempo de reacção do jogador e aprimoram-lhe a técnica.
  • Independência total face a agentes de jogadores: no Sporting não podem nunca ocorrer situações de conflito de interesses que envolvam profissionais com vínculo com o clube e agentes de jogadores. O clube precisa de ter rigorosos procedimentos em matéria de prevenção desse tipo de situações, seja a nível do plantel profissional ou da sua Formação. Precisamos de ter a certeza que o único interesse instalado no Sporting é a defesa intransigente do clube.

 

É evidente que um clube como o Sporting não pode apostar só na Formação. Mas, temos é de saber estrair dela todo o seu potencial e não prejudicar o nosso investimento com redundâncias vindas de fora. Todo o jogador de categoria e que seja empenhado no trabalho é bem-vindo ao Sporting e o clube não pode estar de costas voltadas para o mercado, mas não faz qualquer sentido gastar dinheiro com suplentes ou suplentes de suplentes e colocá-los em cima dos jovens por nós formados, criando uma pirâmide que retira qualquer possibilidade de afirmação a estes. E com custos que se reflectirão no aumento do nosso Passivo e na Demonstração de Resultados. Do mesmo modo, a sintonia entre a Direcção/Administração e o treinador deve ser total (algo facilitado pelo facto do Director Técnico ter equiparação a COO no meu modelo de governação) e este último deve comungar das directrizes traçadas acima. Como tudo na vida, não basta ter (boas) ideias, igualmente importante é saber implementá-las e ter a força para, acreditando no projecto, não nos desviarmos nunca do mesmo, independentemente de acertos cirúrgicos que se venham a fazer, sem prejuízo da integridade do processo pensado e criado. Na verdade, isso tem falhado e há décadas. Melhorou nos primeiros anos de Bruno de Carvalho, mas regrediu pós aposta em JJ, ficando sempre a ideia de que o processo era demasiado empírico e muito assente na maior ou menor sensibilidade do treinador principal.

 

Uma equipa de futebol não pode ser a soma das competências de cada um. Para isso, existe um treinador, o qual cabe a atribuição de criar um todo que seja superior à soma de cada um. O envolvimento de toda a Estrutura no processo é importante, assim como a relação com os adeptos e a forma como os jogadores sentem o projecto e o clube. 

 

Para finalizar, gostaria de abordar as diferentes academias que temos espalhadas por Portugal e pelo mundo, constatando que existem actualmente diferentes modelos de negócio. Em algumas, o Sporting tem uma participação; noutras receberá um “fee” (100% franchising). Seria interessante que estes modelos e respectivos Business Plan fossem apresentados aos associados e que se percebesse, através de planos plurianuais, quais os custos em que o clube incorre e os proveitos que se podem esperar destas apostas. Igualmente, no plano desportivo, perceber-se quais são os objetivos. Há algumas informações dispersas que indicam que já há alguns jovens a treinar nas equipas de Formação do Sporting (Lucas Dias, muito bom jogador dos nossos juvenis, creio que veio de Toronto) e que são provenientes deste tipo de academias, mas não são claros quais são objectivos (quantificáveis). É importante uma clarificação aos sócios dos objectivos económicos e desportivos da aposta nas academias, a nível nacional e internacional, e perceber-se qual a política de expansão e como se conjuga com o merchandising e a promoção da marca, áreas onde haverá muito trabalho a desenvolver.

 

PED Talks - Princípios, Estratégia, Desporto

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24
Jun20

A notícia que eu não queria ler


Pedro Azevedo

Segundo o jornal A Bola, Jeremy Mathieu lesionou-se com gravidade num joelho e não jogará mais esta época. Será porventura também o seu fim de linha connosco, uma vez que o seu contrato expira no final desta época. Uma notícia muito triste por variados motivos: primeiro, porque gosto de futebolistas de fina técnica e superior visão de jogo, coisa que não abunda por cá, e ainda tinha a secreta esperança que o gaulês ficasse mais uma época no Sporting; segundo, na medida em que, com a sua experiência, poderia em campo, com os seus conselhos, ajudar no posicionamento dos jovens que têm vindo a ser lançados; finalmente, visto que o plantel ainda fica mais pobre, restando Acuña (Porthos) ao grupo de Mosqueteiros (Bruno/D' Artagnan, Dost/Aramis e Mathieu/Athos) que com grande brio contribuiu decisivamente para a conquista de duas taças na época passada (Renan também foi muito influente, mas entendo que se tenha dado uma oportunidade a Max). Sabendo-se que finalmente seguimos a opção correcta de apostar nos jovens em detrimento da classe/média baixa onde durante anos delapidámos as nossas finanças, que enquadramento de superior qualidade estamos a criar para melhor os potenciar? 

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23
Jun20

Queima(da) de carvão


Pedro Azevedo

Karbownik soa a carbono. Do carbono se faz carvão. Que tem um cheirinho a enxofre. Como o Diabo. Partidinha de diabretes, portanto. Faz sentido!

23
Jun20

PED Talks - Carlos Santos(*)

Ser Sporting


Pedro Azevedo

Individualmente todos temos uma ou mais razões que justificam o sermos do Sporting. Há até quem o seja sem necessariamente saber dizer o porquê. Também todos nós temos os nossos ódios de estimação ou aqueles com quem menos simpatizamos. Faz parte, todas as famílias são algo disfuncionais. É sem dúvida no que nos une que nos devemos focar. Isto claramente não está a ser feito pelos corpos sociais actuais. Estes, muito mais do que outros anteriores, estão a dividir o clube. Também não está a ser feito pelos sócios e adeptos. Já falei na disfuncionalidade das famílias, mas o Sporting inova porque tão militantes como os antis são os antis dos antis. Eu diria que este é mesmo um dos grandes problemas actualmente, mais do que a existência de um grupo de antis com os quais o resto vai lidando e isolando, o aparecimento de vários focos de antis cria uma divisão, essa sim, problemática e potencialmente disruptora. É que os primeiros antis, ainda que lunáticos, estão “umbilicalmente” ligados ao assunto central, neste cenário o Sporting, mas quanto mais ramificações de antis aparecerem, mais o assunto central se vai afastando e esbatendo para se centrar no que cada facção tem contra a outra.



Voltando ao tema do post, formação, ecletismo e integridade são para mim os três pilares base do Sporting.



Formação: o Sporting sempre foi um Clube formador, foi com a formação que alcançou os maiores triunfos e com a qual ganhou renome. Sempre formou para benefício próprio, mas também para representar o país (e apesar de constantemente nos apoucarem, bem deviam agradecer ao Sporting. Tenho a certeza de que sem o nosso contributo, nem metade dos títulos teriam sido ganhos). É com e através da formação que se deve continuar a distinguir sempre.



Ecletismo: é óbvio que em termos de mediatização nada bate o futebol, mas em toda a sua história, o Sporting sempre significou muito mais do que futebol. Diria que todos nós sorrimos quando recordamos, ouvimos e/ou lemos as histórias sobre aqueles nossos multifacetados atletas que nos representavam em múltiplos desportos durante a primeira metade do século passado e vibramos com os milhares de títulos alcançados em todos os desportos. Todos nós recordamos a velhinha nave, os jogos míticos que presenciou e as fantásticas memórias que nos deu. Pessoalmente, parte da minha memória Sportinguista faz-se com as idas à nave e só depois ir para o estádio ver o futebol. Mesmo actualmente, com as assistências do pavilhão (de longe as melhores de Portugal), fica provado que grande parte da força do Clube são as modalidades e que é criminoso voltarmos a um passado recente em que não as tínhamos ou que fazíamos apenas figura de corpo presente.



Integridade: Mais uma vez, bem sei que eram tempos e gentes diferentes, mas creio que todos partilhamos os valores sobre os quais o Clube foi erigido e que o guiaram durante muitos anos. É um facto que com a chegada destes tempos “modernos” temos feito um caminho mais sinuoso, um caminho que a maioria não pretende caminhar, mas julgo que isso se deve ao futebol indústria. Estou convencidíssimo de que o Sporting no fim dos anos 70, início dos anos 80, não soube fazer a transição do futebol para o futebol indústria (e todas as ramificações que esta expressão implica). Isto não é uma crítica, prefiro isso e não ganhar títulos do que ser corrupto. Isto não exclui as nossas próprias culpas no cartório, apenas justifica que muito do que se passou e passa actualmente se deve ao futebol jogado fora de campo. Com certeza não teríamos ganho os 40 títulos jogados entretanto, mas, caramba, pelo menos 4 ou 5 (não sendo “lambão”) sei que nos foram escandalosamente tirados. Vi-o com os meus próprios olhos. De forma a exemplificar e clarificar o que pretendo dizer com integridade, e que em parte vai algo ao encontro do reformismo que o Pedro fala, aconselho uma série, The English Game. São valores como os retratados nesta série que devem reger o desporto, seja em 1900, seja em 2020. Não me alongo nisto para evitar spoilers, cada um tirará as suas conclusões.

 

(*) Contributo do nosso Leitor Carlos Santos, a quem desde já agradeço.

 

PED Talks - Princípios, Estratégia, Desporto 

21
Jun20

PED Talks(*)

Ser Sporting


Pedro Azevedo

Tão importante quanto uma política desportiva criteriosa, a sustentabilidade financeira, boas práticas de gestão ou adequados princípios de governação, a Cultura de um clube é o elo identificador entre todos os seus dirigentes, treinadores, atletas, funcionários, sócios, adeptos e simpatizantes. 

 

Porém, estranhamente, este tema costuma ser explorado de uma forma redutora, geralmente circunstanciando-o às claques, como se à margem destas a identidade e alma do clube não tivesse também já vivido melhores dias. Tal é perfeitamente claro quando vemos adeptos afirmar que o Sporting é um clube diferente, ao mesmo tempo que demonstram querer ganhar de qualquer forma. 

 

A meu ver as tergiversações constantes na gestão do clube ajudam muito a confundir os seus adeptos. Se já existem dúvidas sobre o que fazemos (Formação, sim ou não) e como fazemos (formar para vender vs formar para ganhar), imagine-se quanto à razão de aqui estarmos, o porquê da nossa existência. O Sporting em que me revejo é um clube conservador no que respeita a valores e princípios, mas ao mesmo tempo com matizes reformistas e inovadoras quanto ao seu papel no desporto português. Simplesmente, se tal não for doutrinado a todo o momento, ou se a mensagem for confusa e os conceitos não estiverem bem interiorizados por quem dirige, então gera-se um vazio, e vazio é algo a que a natureza na sua rebeldia tem horror e logo procura preencher de uma forma desordenada. (Quando a cultura é forte, todas as pessoas directa ou indirectamente relacionadas adoptam uma postura diferente daquela que têm lá fora, absorvendo assim os valores da Organização.)

 

A desordem a que assistimos hoje advém de um problema conceptual. A pior coisa que se pode fazer à identidade de um clube é multiplicá-la. Já se sabe, o Sportinguismo é igual à identidade dividida pelas suas espécies. Se só houver uma espécie, a dos Sportinguistas, então seremos muito mais fortes e unidos (Sportinguismo=100%). Ora, nos últimos anos, as gestões do Sporting não têm cessado de dividir os Sportinguistas em sub-espécies. Umas vezes os sócios e adeptos são "sportingados", outras vezes "esqueletos", consoante a dissidência face à linha programática e conforme a liderança conjuntural. Se pensarmos bem tudo isto é um enorme disparate, pois todos somos essencialmente Sportinguistas, aquilo que verdadeiramente nos une.

 

Depois, existe o problema das claques. Quanto a isso vou ser muito claro: o papel de uma claque é apoiar as equipas e os atletas do Sporting Clube de Portugal nos estádios, pavilhões, pistas ou piscinas onde actuam. Não é constituirem-se como anti-poder ou contra-poder, serem guarda pretoriana ou um grupo de pressão sobre a Direcção do clube (muito menos usar o tempo do Sporting que vai a jogo para expressar a contestação a uma Direcção). E isto que se aplica às claques é igualmente válido no que toca a formas alternativas de poder para o Grupo Stromp (que aliás no seu regimento proíbe que o grupo se imiscua nas decisões dá Direcção), os Cinquentenários ou aqueles signatários colectivos que por vezes aparecem mais os seus manifestos, pois na nossa Organização a única forma colectiva com intervenção política que deve existir é o próprio clube (os Leões de Portugal e a Fundação Sporting, que são associações de solidariedade leonina com uma obra notável de entrega a quem precisa, têm uma componente essencialmente social), . Quero com isto dizer que o clube não deve ser discutido? Nada disso. Simplesmente, estou certo que isso deve ser feito numa base individual. Qualquer adepto, em democracia, é livre de exercer o seu sentido crítico, propondo melhorias ou simplesmente tecendo loas a quem nos dirige. Por isso é tão natural aquilo que eu faço aqui em Castigo Máximo como ver Tito Arantes Fontes, em nome pessoal e não do Grupo Stromp, aclamar a actual Direcção, simultaneamente aproveitando para promover a importância do ponto de exclamação enquanto sinal de pontuação da língua portuguesa. O que não é natural é o Congresso Leonino, espaço de reflexão entre todos os Sportinguistas, ter sido adiado aquando da primeira vez, algo nada restaurador (Olex?) no sentido de que contrariou os Estatutos e impediu a salutar troca de ideias entre sócios no local próprio, transmitindo uma imagem de um clube nos antípodas do Renascimento.

 

Há 2 anos atrás lancei o slogan "Ser Sporting", em que o "ser" era simultaneamente verbo e substantivo, juntando o sentimento de pertença (verbo) à nossa existência enquanto tribo, organismo vivo, pessoa física e moral (substantivo). É da maior importância que nos reencontramos com um caminho onde nos perdemos algures, entre tergiversações sobre ecletismo e Formação, no meio dos nossos valores seculares e da urgência de ganhar. Não somos o “glorioso”, nem temos a "causa do Norte" e da descentralização, pelo que temos de descobrir a nossa própria cultura, o que é “Ser Sporting”, a razão de aqui estarmos. E depois, partilhar o nosso sonho com o nosso mercado-alvo. William Bruce Cameron um dia disse que “nem tudo o que pode ser contado conta, nem tudo o que conta pode ser contado”. Atendendo a que somos um clube com menos títulos que os outros dois, mas que sempre pugnou por um comportamento desportivo exemplar, julgo que estas frases se aplicariam como uma luva à nossa narrativa. Para além de que deveríamos reflectir na razão pela qual ganhando muito pouco (no futebol) conseguimos manter, passando sportinguismo de geração em geração, um número de simpatizantes que representa cerca de 3 milhões de portugueses.

 

Nesse sentido, urge encontrar factores de diferenciação face à concorrência. Oiço, recorrentemente, críticas de sócios à aposta nas modalidades e fico atónito. Na verdade, uma constante narrativa pós-moderna, emanada do início do milénio, produziu em sócios e adeptos a ideia que as modalidades impediam a canalização de maior investimento para o futebol. Nada mais errado, o desinvestimento que fizemos nesses tempos nas modalidades acabou foi por retirar identidade ao clube, o qual sempre se afirmou pelo ecletismo. O efeito prático disto foi o fecho de uma série de modalidades, seguido de enormes gastos na construção de um novo estádio, o qual teve um orçamento que resvalou em dezenas de milhões de euros e, ainda por cima, apresentou durante anos um relvado que mais parecia um batatal. (É o que se chama confundir cultura com agricultura.) Convém não nos esquecermos que a história do Sporting é feita do Professor Mário Moniz Pereira, de Carlos Lopes - primeiro campeão olímpico português -, de Fernando Mamede - antigo recordista do mundo dos 10.000 metros -, de Joaquim Agostinho, 3 vezes seguidas vencedor da Volta a Portugal (2 pódios na Volta a França, 1 pódio na Volta à Espanha) e melhor ciclista português de todos os tempos e de Chana e Livramento, os melhores hóquistas que o mundo viu.

 

O Sporting deve afirmar-se como um clube do Renascimento, com uma capacidade criadora, reformadora, de mudança de paradigma (o status-quo) e que valorize os seus sócios e as suas opiniões (não podemos querer discutir tudo externamente e internamente reduzir a discussão), com respeito pela integridade das competições, o objectivo de promover um desporto melhor, mais justo, equilibrado e íntegro, tudo assente numa necessária cultura de excelência, compromisso e superação aplicada de forma correcta e no respeito por quem nos representa. Nunca, em circunstância alguma, deveremos importar modelos que funcionem com outros, mas que não respeitem a nossa idiossincrasia e/ou os nossos valores e que criem um choque com o que são os valores tradicionais sportinguistas. A cultura de uma organização não pode estar nos antípodas do que é a personalidade e o carácter dos seus colaboradores e accionistas/sócios.

 

A ideia de exigência no plantel profissional de futebol é algo que me agrada e que penso necessita de ser reforçada, mas isso não pode ser imposto de uma forma autoritária, repressiva e, perdoem-me, imatura. Deve, isso sim, ser obtida com inteligência através de um conjunto de práticas, procedimentos e atitudes, em que o exemplo deve sempre vir de cima. Para tal, o papel do líder é fundamental, pois dele deve vir sempre o exemplo, para lá de ter de saber criar as condições para a implementação dessa cultura. Hoje em dia, as maiores empresas mundiais recorrem a gurus de atitudes comportamentais com resultados rápidos e bem visíveis, pelo que o Sporting deve sempre seguir os melhores exemplos e ser capaz de exibir as melhores práticas.

 

Finalmente, emparedado em Lisboa pelo Benfica e no Norte pelo Porto, o Sporting necessita de ser um “first mover”. Como tal, tem de ser inovador, ter uma orientação para o crescimento e estar disposto a correr alguns riscos. 

 

Em resumo, e de forma a afirmarmos a cultura Sporting, temos de perseguir os seguintes factores de diferenciação (isso sim justificará a expressão "somos diferentes"):

  • Boas práticas de gestão
  • Respeito pela integridade de todas as competições
  • Ausência de conflito de interesses
  • Transparência
  • Limitação dos mandatos de um presidente (2 mandatos)
  • Compliance
  • Clube renascentista, com ideias e sempre virado para os seus sócios
  • Inovação constante
  • Research&Development: scouting de jovens valores/desenvolvimento na Formação
  • Sustentabilidade assente na Formação
  • Dois Bolas-de-Ouro e 1 Bola-de-Prata formados no nosso clube
  • Sustentabilidade assente em défice de exploração ZERO
  • Gerador das grandes transformações do futebol português
  • Orgulho no nosso ecletismo
  • Clube do primeiro campeão olímpico português
  • 37 Títulos europeus em Atletismo, Andebol, Hóquei em Patins, Futebol e Goalball
  • Excelência, compromisso e superação

 

(*) PED Talks by Pedro (Azevedo) e Leitores de Castigo Máximo, o nosso humilde contributo para pensar o Sporting. Fica aberta a discussão a todos os Leitores.

PED= Princípios, Estratégia e Desporto.

 

P.S. Queria expressar aqui o meu profundo pesar pelo falecimento do Pedro Lima, conhecido actor e antigo nadador internacional do Sporting, que muitas vezes vi por Alvalade no apoio ao seu (nosso) clube do coração. Enquanto portugueses e sportinguistas, ficámos duplamente mais pobres. À família, os meus sentimentos.

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20
Jun20

Matheus Pereira sai definitivamente


Pedro Azevedo

Com o 30º jogo hoje efectuado pelo WBA, Matheus Pereira passa a ser em definitivo jogador do clube de Birmingham. Ao contrário do que vinha sendo divulgado em alguns círculos leoninos, Castigo Máximo sempre defendeu que não havia incumprimento do clube de Birmingham, simplesmente o Championship havia sido interrompido quando faltava apenas 1 jogo para que a cláusula de compra fosse automaticamente accionada. A fazer fé no que vem na imprensa, a transferência renderá cerca de 9,5 milhões de euros. Relembro que o Sporting já tinha recebido 500.000 euros pelo empréstimo do jogador (informação prestada à CMVM em 22 de Outubro de 2019). Até Junho de 2019, na rúbrica Passivos Contingentes havia uma nota que indicava que o Sporting teria de pagar 10% de uma futura mais-valia sobre o valor de 300.000 euros. Como essa nota desapareceu nas contas de Dezembro de 2019 e de Março de 2020, presumo que este valor recebido não tenha qualquer dedução por essa via. Não existe informação sobre uma eventual comissão paga por este negócio. 

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19
Jun20

Tudo ao molho e fé em Deus

Retrato de um Jovane


Pedro Azevedo

Em Alvalade há um pintor retratista de grande qualidade. Na semana passado já havia pintado uma tela representando Ricardo Ribeiro, ontem retratou Cláudio Ramos. Em qualquer dos casos bastaram poucos segundos de preparação, pelo que quando os modelos utilizados se mexeram já o quadro estava finalizado. Mas a vida de um artista não é fácil e Jovane teve de vencer o preconceito daqueles que achavam que ele só servia para pintar rodapés, tendo para tal contado com o valioso apoio do inspirador Mestre Bruno Fernandes. Agora, finalmente vencido o anátema da sua formação, ele é o mestre do renascimento leonino. 

 

Qual Ticiano, Jovane não se limita ao retrato, ele também é influente na ilustração de momentos mitológicos. Nesse sentido, "O Calcanhar" foi uma pincelada de génio que valeu um castigo máximo aos tondelenses que desacreditaram da sua arte e "O Roubo de Bola" tornou-se uma extravagante obra inacabada apenas por falta de definição final. Mas foi em dois instantes de representação da religiosidade pagã do futebol, nomeadamente em "Coroação com Espinhos" onde descreve um deus rodeado por um grupo de quatro homens que o açoita, que Jovane mostrou toda a qualidade do seu traço. 

 

Bem sei, Jovane não nasceu naquela Escola de Belas Artes do Seixal que costuma ser muito popular no Médio Oriente. Por isso será improvável que apareçam ofertas das mil e uma noites pelas suas telas. Em todo o caso o seu sucesso recente serve para relembrar os mais distraídos que ali na Pensínsula de Setúbal existe uma outra academia que certamente não por acaso ao longo dos anos vem fomando os melhores artistas do mundo, constatação que deveria sempre ser preservada de politiquices internas que nos deixam de bolsos vazios e só estimulam a promoção dos nossos concorrentes. Ontem, o mais novato do grupo, Nuno Mendes, de 17 anos, fez a sua primeira exposição colectiva, no que foi acompanhado inicialmente por mais 5 jovens que ainda receberam a visita de outros 2 na parte final da referida mostra. E passou com distinção. De forma que se quiserem transformar o ateliê  num caso de sucesso a 2-3 anos não tem nada que saber: dispensem (se possível, recebendo uma compensação) todos aqueles que os mais jovens destronaram e não cabem realisticamente no grupo de 18 (poupando assim nas tintas), mantenham cada um dos putos mais umas épocas (pelo menos até haver opções igualmente  interessantes provenientes das gerações abaixo) e todos os anos contratem só 2 (se sobrar algum, 3) grandes mestres para os enquadrar e melhorar. E guardem a experiência de Mathieu e a combatividade de Acuña para o casamento ser perfeito.

 

Ticiano do "Tudo ao molho...": Jovane Cabral (hat-trick para "Castigo Máximo"). Menções honrosas para Nuno Mendes, Eduardo Quaresma e Matheus Nunes. Camacho esteve um pouco abaixo do nível regular de toda a restante equipa.  

 

P.S. O Sistema? Continuamos com alguma dificuldade de penetração pelo meio, hoje resolvida pela pujança da Ala dos Namorados, a banda esquerda, com bonitas combinações entre os jovens Nuno Mendes, lateral/ala e Jovane, interior.

 

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16
Jun20

Os jogos da minha vida (VII)


Pedro Azevedo

25.05.1980  Vitória de Guimarães - Sporting 0-1

 

A nossa equipa: Fidalgo; José Eduardo, Eurico, Bastos e Barão; Meneses, Ademar (Freire, aos 75 minutos) e Fraguito (Zezinho, aos 87 minutos); Manoel, Manuel Fernandes e Jordão.

 

O Sporting entrou pelos meus ouvidos em 1974 com um rugido tão sonoro que me foi impossível ignorar. Tudo se deveu à narração de um jogo a contar para o campeonato de 73/74 que a aparelhagem instalada no carro do meu pai reproduziu ao longo de uma viagem domingueira de automóvel. Nesse dia o Sporting recebia o Oriental e o relatador de serviço, de forma prolongada e estridente, um a um, ia assinalando cada novo golo de Yazalde (naquele tempo chamavam-lhe "Jázalde"). Despertou ainda a minha atenção o facto de, por sortilégio, ter calhado ao meu homónimo Azevedo a ingrata tarefa de dançar o tango com o argentino, mas à agressividade de Yazalde contrapôs o pobre guardião dos de Marvila a tristeza de por cinco vezes se ter de resignar submissamente a ir buscar a bola às suas redes. Um Tango de "mão-cheia"! O Sporting acabaria por aplicar ao Oriental uma chapa 8, o número do equilíbrio cósmico e das possibilidades infinitas que não deveria andar longe de ilustrar o meu sentimento nesse momento. Mais tarde, no início de 76, a onda média da rádio transformou-se num tsunami de emoções aquando da minha primeira visita ao José Alvalade. Jogo Grande, o Sporting como anfitrião do Porto de Gomes, Oliveira, Seninho e Cubillas. E ganhámos. E goleámos, numa reviravolta que terminou num cinco-a-um, dava Manuel Fernandes (1 golo) os seus primeiros passos no Sporting ao lado de um Fraguito (1 golo) que, sambando, pautava o nosso jogo. 

 

Com um início tão auspicioso, achava eu que isto ia ser uma maravilha. Mas o tempo foi passando e 4 anos depois, uma eternidade na vida de uma criança, continuávamos sem ganhar o campeonato. Até que se levantou a esperança, decorria a época de 79/80. Ganhámos ao Benfica por 3-1 e com isso o direito ao tudo ou nada. O cenário era o Estádio das Antas. O Conselho de Arbitragem, num esforço para eliminar o ruído à volta do jogo havia decidido salomonicamente nomear 3 árbitros internacionais, dois deles com a missão de pela primeira vez na vida fazerem de juízes de linha, coisa peregrina. O principal, António Garrido, apitaria o jogo. Não desfeita a igualdade até ao intervalo, logo no início do segundo tempo o Freire colocou-nos na frente. De pronto, o Manuel Fernandes marcou o segundo. Anulado. Por fora de jogo. Inexistente. Um clássico dentro do clássico. Pior, a um quarto de hora do fim, o Biffe fez-se ao bife, que é como quem diz ao penálti, e o Garrido fez-lhe a vontade, aquilo a que o José Maria Pedroto, sentado no banco do Porto, se fosse contra ele apelidaria de "roubo de igreja". Penalidade marcada e o Vaz defende. O Homem de Preto manda repetir e assim começa o nosso enterro. Quer dizer, o Vaz, que era de Setúbal e já chegou entradote a Alvalade, no meio daquela caldeirada ainda voltou a defender o penálti do Oliveira, mas Romeu, o Cenoura que ainda viria a jogar por nós, recargou para golo. Confesso que chorei, para um miúdo tinham sido emoções a mais, e o sabor a injustiça acelerou a minha perda da inocência. Foi aí que o meu pai se aproximou de mim, deu-me um abraço e disse-me que se porventura o Porto não ganhasse na Póvoa me levaria pela primeira vez a ver um jogo fora de casa, em Guimarães. Faltavam jogar 3 jornadas e esta promessa deu-me suficiente alento para não baixar definitivamente os braços e depositar ainda fé no Varzim. E os poveiros, gente briosa e habituada aos Adamastores que andam pelos mares, fincaram o pé a um gigante terreno e empataram (com) o Porto, pelo que eu iria a Guimarães com o Sporting na frente do campeonato.

 

A jornada começou pela manhã, no Comboio Verde (what else?), ali no Rego, para onde me desloquei com o meu pai e onde ele se reuniu com os amigos Sportinguistas. E lá fui eu, todo pimpão, cachecol ao pescoço, carruagem adentro, para ver o meu Sporting. Durante a viagem recordou-se o último campeonato, o de 74, e o Yazalde que eu já só vi pela televisão. Recordo que o comboio parou em Campanhã (Porto) e que aí tivemos de mudar de composição em direcção a Guimarães. Chegados à Cidade Berço, logo uma vimaranense me levou o cachecol. Corri, alcancei-a e recuperei o objecto da minha devoção como se dele dependesse a minha própria vida. O meu pai sorriu. Entrámos no estádio, que na altura se chamava Municipal, e posicionámo-nos atrás de uma baliza. Com o coração aos saltos, aguardei cheio de esperança o início da partida. 

 

O Sporting começou por atacar para a "minha" baliza. A todo o vapor, com Fraguito a puxar os cordelinhos, o Sporting era dominador e as oportunidades iam-se sucedendo. Porém, provavelmente devido à ansiedade, os nossos na hora da verdade não conseguiam desfeitear o Melo, guarda-redes que dois anos depois se juntaria a nós. Até que Manoel saltou com Manaca, a bola resvalou na nuca, ou nas costas, do nosso antigo campeão de 74 e, zás!, lá para dentro. Euforia da imensa mole humana que por amor ao Sporting se deslocou a Guimarães. O título estava já ali, agora era preciso segurá-lo. O intervalo permitiu regularizar o ritmo cardíaco, mas nada poderia preparar o meu coração para as emoções que ele viria a viver no segundo tempo. A bem da verdade, o Sporting teve mais do que chances para resolver o jogo, mas Manuel Fernandes e Jordão sempre falharam por uma unha negra. Negras não eram, mas ruídas já estavam as minhas (unhas) quando o Jordão é carregado para penálti. Se fosse o Manél tinha ficado no chão, mas qual Gazela de Benguela o Rui levantou-se, ainda isolado, correu e falhou um golo certo. Desespero geral, não havia maneira de matar o jogo. E o pior estava para vir: num último fôlego, o Vitória lança o Vítor Manuel, um avançado que tinha jogado no Sporting na época anterior. Cheio de ganas de mostrar o seu valor à sua antiga casa, começou a pôr a cabeça em água aos nossos defesas. Subitamente, arranca um remate seco, rasteiro, rente ao poste. Mesmo ali à minha frente, eu vi o golo. Ia ser golo, só podia ser golo, foi o que pensei nesses milésimos de segundo em que sustive a respiração. Mas, eis que, embora felino, o Fidalgo se lança já tarde. Tarde demais, pensei eu tal a potência do remate, enquanto o Fidalgo se espreguiçava todo e, espreguiçando-se, se esticava mais e mais, "frame a frame" na minha memória fotográfica em câmara lenta, tempo quasi-suspenso tal como o título ali à mão de semear. E o Fidalgo toca na bola e afasta-a do seu destino mais do que certo. E o Fidalgo bate com a cabeça no poste. E o Fidalgo parece perder os sentidos. E o Fidalgo volta de cabeça entrapada, brioso, voluntarioso, guerreiro, grandioso, a ocupar o seu lugar entre os paus. E o Fidalgo... para sempre será para mim o Homem do Título!

 

Ainda mal recarregadas as baterias dirigimo-nos para o comboio. Muitas, muitas emoções para digerir. O título estava mesmo ali. Nova paragem em Campanhã. Vou à janela, o João Rocha, grande presidente, vai entrar. Vai ser bonita a festa, mas ainda falta ganhar ao Leiria, penso. Penso, logo existo. Mas por pouco, um pedregulho enviado por algum relapso embate na quina da janela. O meu pai ordena-me, vocefera-me, grita-me desesperadamente que saia dali. Imediatamente. Nem tive tempo de processar, o título ali tão perto tinha prioridade. Faltava uma semana, uma semana que pareceram anos a contar os dias. E finalmente a catarse, o José de Alvalade cheio até às linhas que enquadravam o relvado. O Peão, orgulhoso, a ulular as bandeiras ao vento. E eu na bancada a ver o Jordão a desaparecer no meio de um magote de gente após um golo. Era nosso o título. Que emoção! (Foi há 40 anos, mas parece ter sido hoje.)

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14
Jun20

Nobody expects the Spanish Inquisition(*)


Pedro Azevedo

(*) Inclui "Argument Clinic". Com um abraço ao Luís Ferreira e ao Sportinguista de 5 votos pela inspiração para o Post.

13
Jun20

Tudo ao molho e fé em Deus

“Jovanotti”, o rap(az) da Formação a dar música em Alvalade


Pedro Azevedo

Três meses depois, o Sporting voltou a apresentar-se em Alvalade. Ou àquilo que as televisões garantiram ser Alvalade, podendo perfeitamente ter sido um estúdio na Venda do Pinheiro, que isto dos Reality Shows que apresentam a banalidade do quotidiano só precisa de um cenário a condizer. Com o suposto regresso a casa, retornou também a ladainha da inexperiência e juventude dos jogadores como causa próxima de uma exibição menos conseguida, reminiscência daquelas conferências de imprensa de Silas em que ele encontrava sempre uma boa justificação para a derrota na utilização de jovens da Formação. O problema destas coisas é termos memória e a alternativa aos jovens da Academia remeter-nos sempre para aqueles "gloriosos" meses vividos anteriormente com as cantorias de Jesé, os tropeções na bola de Bolasie e a enfermaria de Fernando. Aquilo é que (não) era! Para quem já se esqueceu, nada como o momento revivalista que consistiu na troca do jovem Matheus Nunes pelo Eduardo Pés de Barro, esse personagem tão vítima da sua própria inocência que mais parece saído de um filme de Tim Burton (Batman, o argentino, hoje não actuou) com enredo baseado num sonho do rei Nabucodonosor da Babilónia (*). Foi elucidativo!

 

(Verdade seja dita que pelo menos Ruben Amorim tem o mérito de ser consistente nas suas apostas, não desistindo dos jovens à primeira contrariedade e dando-lhes estabilidade e confiança para desempenharem o seu papel da melhor forma.) 

 

O Departamento da Defesa do Sporting voltou a ter a sua sede no Pentágono, realidade que só por si já faz de Ruben Amorim um líder NATO (ou será 'nato'?) em tempo de Guerra Fria em Alvalade. Hoje a missão era passo a Paços destruir o submarino amarelo. O Pentágono, como já se sabe, é compreendido por três centrais e dois trincos que jogam tão perto uns dos outros que o objectivo será certamente entre eles existir um "Ground Zero". Para complicar um pouco mais a tarefa, Mathieu, o Ministro da Defesa e aquele que tem mais saída de bola, não jogou. Valeu então a maior desinibição de Matheus Nunes face ao jogo de Guimarães e o regresso após lesão de Wendel para que o Sporting conseguisse ter algum jogo interior de aproximação à área adversária. Ainda assim, a circulação fez-se essencialmente em zonas muito recuadas do terreno, entrecortada por chutões para a frente (ou atrasos para Max) quando a pressão pacense era mais eficaz e deixava a nu a falta de saída com bola de Coates e Borja. Apesar do controlo geral das operações, os leões na primeira parte só conseguiram criar perigo numa desmarcação subtil de Vietto para Sporar que o esloveno desperdiçou em frente da baliza. Com esta acção, a sua única digna de registo, Vietto deu por terminada a participação no jogo, pois pouco depois sofreu o que pareceu ser uma luxação num ombro. Entrou Plata, e o Geraldes lá ficou a fazer contas aos 10 minutos da ordem que lhe haveriam de caber quando o jogo estivesse em desordem e a bola só andasse pelo ar. No fundo, àquilo que os especialistas designam de uma oportunidade perdida...

 

Regressados do balneário, os leões voltaram a ter em Jovane um dinamitador do jogo. Logo a abrir, o cabo-verdiano entrou em aceleração pela esquerda, driblou dois pacenses sem passo para o acompanhar e serviu um desmarcado Sporar para um golo que teria sido fácil caso o esloveno não tivesse tentado antecipar a jogada dando um passo a mais. Não conseguindo assistir, Jovane procurou resolver por ele próprio: chamado a cobrar um livre directo à entrada da área, o avançado arrancou um míssil indefensável que bateu na quina da barra e ressaltou para dentro da baliza. Matheus Nunes ainda recargou para golo, mas, como a transmissão televisiva esclareceu, a bola já tinha entrado. O Sporting apanhou-se merecidamente na frente do marcador, mas nos últimos 20 minutos, com a substituição de Matheus por Eduardo, acabaria por perder o controlo das operações a meio-campo. Os pacenses começaram a explorar debilidades nossas, como a falta de velocidade de Coates, o deficiente posicionamento de Borja, ou as perdas constantes de bola de Camacho - Quaresma foi de longe o nosso defesa mais competente - , e tiveram uma óptima oportunidade nos pés de João Amaral. Max esteve à altura e defendeu, mas Rui Costa apitou penálti por alegada falta cometida pelo colombiano Borja. O VAR acabou por aconselhar a mudança de decisão e nos lares Sportinguistas por todo o mundo respirou-se de alívio. Até ao final do jogo, os leões não conseguiram segurar a bola, com Plata a ligar o complicómetro vezes de mais para o pobre coração de um adepto, pelo que o resultado esteve sempre incerto. Acuña, fora de forma, saiu e deu lugar a mais uma estreia a assinalar, a do jovem Nuno Mendes. Max, por duas vezes, voltou a evitar o pior na melhor fase do Paços de Ferreira. No entanto, o jogo não terminaria sem que mais uma magistral arrancada de Jovane criasse sensação de golo. Infelizmente, a bola estrelou na barra, tal a fervura aplicada no remate.

 

Enfim, ganhámos! E à falta de nota artística (por exemplo, Benfica e Porto têm sido de uma pobreza franciscana), três pontos e sete jovens da Formação lançados (não considero Camacho, que custou 5,6 milhões de euros e saiu da Academia com, creio, 13 anos) merecem uma boa nota técnica. Só espero é que a necessidade de "nota" para pagar tantas contratações cirúrgicas (ouro, prata, bronze, ferro e... barro, muito barro) não leve a que alguns saiam prematuramente, não concretizando o seu potencial desportivo connosco. Em especial o Jovane, o mal-amado de que tanto gosto.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Jovane Cabral (2º jogo consecutivo). Menções honrosas para Eduardo Quaresma, Max, Wendel e Matheus Nunes. Pela negativa destacaram-se Camacho, Borja, Plata e Eduardo. Os restantes estiveram num nível mediano.  

 

(*) O sonho de Nabuconodosor continha uma estátua de um homem imóvel (de ouro, prata, bronze, ferro e barro), que seria a interpretação da manutenção do seu império até ao final dos tempos. Mas, devido à fragilidade do barro, bastaria uma pedra para destruir o sonho do rei e 24 anos após a sua morte a Babilónia haveria de ser conquistada pelos persas de Ciro, o Grande. 

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12
Jun20

Primeiras impressões


Pedro Azevedo

Gosto:

  • da comunicação assertiva de Ruben Amorim.
  • do seu discurso ambicioso, de acordo com a grandeza do clube.
  • da confiança que Ruben Amorim transmite aos jovens. 
  • da insistência em Matheus Nunes, não o deixando cair após uma estreia menos conseguida.
  • dos laterais/alas de propensão atacante.
  • do papel dado a Jovane como dinamitador das linhas de defesa adversárias.
  • com dois enganches por detrás, dos espaços que se abrem para Sporar inteligentemente explorar. 
  • de ver Ruben Amorim assumir as coisas menos boas, sem desculpas.

 

Não gosto:

  • da forma como Ruben Amorim tem gerido publicamente o dossier Mathieu, porque creio que nunca esteve em causa o comprometimento do francês com o clube, trata-se tão-somente de uma opção (ou não) de final de carreira de um jogador que ainda poderia ser muito útil para a próxima época não só pelo que joga como também pela experiência acumulada que passaria a jovens como Eduardo Quaresma e Gonçalo Inácio.
  • da "Táctica do Pentágono", sistema de defesa da nação leonina em que 2 trincos se posicionam em cima de 3 centrais ("congestionamento"), proporcionando carambolas em situação de evidente superioridade numérica do tipo da que resultou no segundo golo vimaranense.
  • da ausência de um "8" bem definido, o que elimina os movimentos verticais de aproximação à linha atacante, tornando o nosso jogo mais previsível e de colocação constante das bolas nas costas dos defesas contrários, táctica que dificilmente resultará com equipas posicionadas em bloco baixo e que leva a muitas perdas de bola. 
  • da inexistência de um "10" (Vietto neste sistema é um dos segundos avançados), o que a somar à falta de um "8" faz com que o nosso jogo interior, de construção desde trás, seja substituído por transições constantes. Está a faltar quem pense o jogo e lhe dê temporizações, a fim de que a equipa não se parta tanto em campo.
  • de Mathieu, elemento mais rápido e experiente da defesa, não ser o central de referência pelo meio, expondo-nos demasiadamente a contra-ataques rápidos. 

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11
Jun20

A cada novo Princípio de Peter, um castigo de Sísifo


Pedro Azevedo

Como é hoje em dia claro como a água, o Sporting colocou toda a responsabilidade do edifício do seu futebol em Ruben Amorim. Sem pôr minimamente em causa a competência do nóvel treinador leonino, não seria esse o meu modelo - todos sabem que advogo a existência de um Director Técnico, um COO com plenos poderes na gestão do futebol - e considero a decisão um erro. Repito, nada contra Amorim, a quem desejo as maiores felicidades (que serão também minhas), simplesmente na minha mente faz muito pouco sentido ser o treinador, alguém que pela inerência das suas funções estará sempre de passagem (o presidente é o primeiro a admiti-lo quando reconhece que terá em breve a cobiça de grandes clubes), o responsável pela ligação entre futebol profissional e Formação e gestão de carreira de jovens jogadores. Acresce que, se se confirmarem os bons augúrios de Frederico Varandas em relação ao treinador, este não permanecerá muito tempo entre nós, razão suficiente para perguntar o que se fará a partir desse momento com a Estrutura que o treinador deixará no clube e se ela resistirá à entrada de um novo treinador, com ideias possivelmente diferentes. 

 

A meu ver, um dos erros da gestão da política desportiva de Frederico Varandas é estar permanentemente a laborar no erro de promover o Princípio de Peter, submetendo os seus colaboradores a missões ou tarefas que os desfocam daquilo que são as suas competências naturais e para as quais não têm a preparação devida. Isso é particularmente notório desde a saída de José Peseiro, que motivou na altura a ascensão de Tiago Fernandes à equipa principal e consequente sua substituição nos sub-23 por Alexandre Santos, treinador proveniente do Estoril. Tal voltou a acontecer com a promoção de Leonel Pontes a treinador principal do clube, abandonando um trabalho 100% vitorioso que estava a realizar no escalão de sub-23, função essa à qual posteriormente viria a voltar mas já sem o "élan" anterior, marcado que ficou pela experiência pouco feliz nos séniores. Sem esquecer a contratação de treinadores que não revelaram o grau de maturação necessário e suficiente, ou a personalidade requerida, para comandar uma nau como a do Sporting. 

 

Com tudo isto, Frederico Varandas já teve 6 treinadores na equipa A e 4 na equipa de sub-23, o que em ano e meio em funções denota pouca estabilidade emocional e falta de convicções na gestão do dossier futebol por parte do presidente e faz com que estejamos sempre a recomeçar de novo, como se de um castigo de Sísifo se tratasse. Claro que o presidente tem procurado revestir cada nova mudança de um cariz estratégico, mas é notório para a maioria dos observadores não enviezados que tudo não tem passado de sucessivos balões de oxigénio com que Varandas vem procurando combater o ar cada vez mais rarefeito de Alvalade.   

 

Hoje ficámos a saber que Leonel Pontes deixará as suas funções. Tal acontece num momento em que existem legítimas expectativas positivas em relação ao trabalho de Ruben Amorim, fundamentalmente devido à aposta que tem estado a promover nos jovens. Ora, tendo esses jovens vindo a ser trabalhados por Pontes, a decisão de o dispensar não deixa de ser surpreendente. Mais, não querendo acreditar que as decisões no futebol do Sporting dependem de cumplicidades pessoais, será de admitir que Pontes e Amorim não compartilhavam das mesmas ideias no que diz respeito ao desenvolvimento dos jovens, ou que o trabalho que era feito nos sub-23 não estava em harmonia com o que Amorim pretende, o que parece algo a carecer de fundamentação à luz da pandemia que fez parar competições e treinos. Não deixa, no entanto, de ser mais uma decisão insólita do presidente, ainda mais atendendo a que na próxima temporada haverá mais uma equipa de última estação de formação, a B. Para além de que teremos mais uma indemnização a pagar a um treinador no horizonte, a juntar a um rol tão numeroso que se torna fastidioso acompanhar, sendo certo que o R&C de Março de 2020 indica um valor de quase 7 milhões de euros de indemnizações pagas nestes 9 meses de actividade, a que se devem juntar os 1,7 milhões de euros gastos no mesmo item em 18/19.

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10
Jun20

Chana


Pedro Azevedo

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Antes ainda do futebol, o Sporting chegou aos meus ouvidos através do hóquei, por via dos relatos que passavam na rádio. Naquele tempo destacava-se um jovem nascido e criado na Linha (de Cascais), cuja formação incluía os Salesianos do Estoril. Foi aí, por influência do Padre Miguel, que Vítor Manuel dos Santos Carvalho, dito Chana, nasceu para o hóquei na Juventude Salesiana. 

Chegado ao Sporting em 71, vi-o jogar pela primeira vez no antigo Pavilhão dos Desportos, hoje "Carlos Lopes", onde o Sporting realizava os seus jogos antes da construção do seu próprio pavilhão, que se viria a situar ao lado do campo pelado. 


O Chana impressionou-me logo, não só pela quantidade de golos que marcava mas também pela elevada execução técnica empregue em cada lance. Em especial, o poder de finta e a codícia com que colocava a bola por cima do ombro dos guarda-redes, o seu ponto de maior vulnerabilidade, muitas vezes de ângulo dir-se-ia impossível, quando não por trás da baliza. 

No início era ele e o Rendeiro, embora o Salema também fosse um jogador a ter em conta. Depois, chegou o Ramalhete e a equipa ganhou outra segurança. Entretanto, o Chana lá ia brilhando, no Sporting como na seleção nacional, sempre como o melhor marcador. Eis então que João Rocha consegue adicionar a essa equipa as "pedradas" de Sobrinho, outro produto da escola salesiana, e Antonio Livramento.

 

Juntar a qualidade ímpar de patinagem e a técnica do "4" com a habilidade especial e a capacidade de remate do "8" hoje aqui evocado fez as delícias dos apaniguados Sportinguistas. O Sporting ao reuni-los conseguiu impor-se a todos os poderosos adversários que se lhe depararam no caminho. Um a um, todos foram caindo, desde o Benfica de Casimiro, Garrancho, Fernando Pereira, José Carlos, Jorge Vicente, Virgilio, Picas e Piruças, passando pelo Porto de Cristiano e Chalupa, o Infante de Sagres dos irmãos Gomes da Costa, ou o Oeiras dos irmãos Rosado, do Salema (ex-Sporting) e do Carvalho que corria e não deslizava sobre os patins e ainda viria a ser nosso.

 

O mesmo aconteceria na Taça dos Campeões, com o Sporting a trazer pela primeira vez na história do hóquei português a taça para o nosso país. Em noites memoráveis, com o Pavilhão de Alvalade a abarrotar, o Sporting começou por dar a volta ao campeão Voltregá (8-3;2-5), de Nogué e Ferrer, para depois desembaraçar-se com facilidade do Villanueva, de Carlos Trullols - o melhor guarda-redes da sua época, que depois do jogo de Alvalade afirmaria ter realizado a melhor exibição da sua carreira - , por 6-0 e 6-3. 

Já no final da sua carreira, recordo ainda dois grandes momentos de Chana. O primeiro, pela seleção nacional, em 82, no Mundial disputado em Barcelos, onde foi preponderante na vitória de Portugal sobre a Espanha, realizando uma exibição memorável com golos de sonho. Outro grande momento já havia vivido na final da Taça das Taças realizada no ano anterior. Após uma derrota em Oviedo, por 4-1, na primeira mão da final, o Sporting precisava de vencer por mais de 3 golos de diferença na segunda mão para arrecadar o troféu. Acresce que as coisas cedo se complicaram ainda mais, quando o Cibelles se colocou em vantagem por 2-1, totalizando uma diferença de 6-2 no cômputo das duas mãos. Eis então que Chana entrou em acção e com 2 golos de rajada voltou a pôr o Sporting na frente no jogo. Ainda assim faltavam 2 golos para empatar a final quando se iniciou o segundo tempo. Chana ainda voltaria a marcar (terceiro golo consecutivo) e com outro golo os leões conseguiram chegar ao final do tempo regulamentar empatados na final (1-4; 5-2). Foi então preciso recorrer-se a um prolongamento. No pavilhão, o calor era imenso e tal já se fazia sentir não só nos espectadores como também em todos os jogadores. Assim, a primeira parte serviu para recarregar baterias. A hipótese dos penaltis começou a parecer cada vez mais real, mas Chana, sempre ele, tinha outras ideias para a segunda parte: primeiro, com um golo soberbo, colocou o Sporting na frente pela primeira vez; depois, serviu primorosamente o regressado Salema para o 7-2 final (8-6 no total). No banco, Livramento, recém-empossado treinador do clube, exultava de alegria. 

Cinco vezes campeão nacional, em duas ocasiões conquistaria também a Taca de Portugal. A nível internacional acumulou Taça dos Campeões e Taça das Taças. Pela seleção nacional jogou 117 vezes e marcou 226 golos, sagrando-se por duas vezes Campeão do Mundo e por três vezes Campeão da Europa. 

Para mim, que vi jogar os dois, é muito difícil dizer quem foi melhor, se Livramento ou Chana. Na verdade, ambos foram extraordinários. No entanto, o meu coração pende para Chana, que venceu mais coisas pelo Sporting e, talvez por nunca ter jogado no nosso rival, sempre me pareceu um pouco injustiçado e sem o reconhecimento devido da imprensa, distinção essa que seria colocarem-no no mesmo patamar de Antonio Livramento. 

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