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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

20
Out20

Entrada com garras de leão


Pedro Azevedo

Depois de ter ultrapassado a última ronda de qualificação para a Taça EHF - a segunda competição europeia em prestígio (inferior à Champions e superior à Taça Challenge que já conquistámos em duas ocasioões) - eliminando os romenos do Dobogea Sud Constanta, o Sporting estreou-se na fase de grupos da referida competição vencendo fora uma outra equipa proveniente da Roménia, o Dínamo de Bucareste, por 27-25 (16-15 ao intervalo). Com este triunfo, o Sporting é um dos líderes do Grupo B com dois pontos, os mesmos dos alemães do Fuchse Berlin e dos franceses do Nimes. Na próxima jornada (27/10), os leões receberão no Pavilhão João Rocha o já velho conhecido Tatran Presov, uma equipa eslovaca que recentemente encontrámos na Champions e que nesta jornada foi derrotada em casa pelo Nimes (22-28). O IFK Kristianstad, da Suécia, completa este grupo de seis equipas em que se apurarão quatro para os oitavos-de-final da prova. Do lado do Sporting, Pedro Valdés (6 golos) e Carlos Ruesga (5) estiveram em evidência. Por curiosidade, de destacar que Valentin Ghionea, nosso antigo jogador e actualmente no Dínamo, foi o melhor marcador da partida com 8 golos.

19
Out20

74:26


Pedro Azevedo

(Imagens: SportTV)

Estavam decorridos 74 minutos e 26 segundos de jogo quando Sérgio Oliveira cometeu esta infração sobre Matheus Nunes que arrancou os pés do brasileiro do chão. O árbitro, perfeitamente em cima do lance, agiu bem do ponto de vista técnico, deixando prosseguir o lance visto a bola ter continuado do lado do Sporting. Porém, disciplinarmente, a acção violenta do médio do Porto passou impune. Convido todos a reverem o lance aqui, através da box da Vossa operadora ou no canal YouTube de Castigo Máximo.

18
Out20

Tudo ao molho e fé em Deus

O “worst case scenario” do Sporting


Pedro Azevedo

O "worst case scenario" é um conceito de gestão de risco inerente ao planeamento de uma determinada estratégia que contempla o pior cenário que se pode perspectivar com razoabilidade a uma determinada situação a fim de melhor se poderem acomodar eventuais futuras contingências relacionadas com eventos muito improváveis. Muito aplicado na banca, empresas e forças armadas, ainda assim ontem voltou a ficar provado que o "worst case scenario" não serve ao Sporting. Acham que estou a exagerar? Imaginemos hipoteticamente o seguinte: um defesa do Porto põe a mão continuamente em cima do ombro de um avançado do Sporting que se isola na área e na sequência dessa acção cai. Perante esta situação, considerando a mais recente jurisprudência resultante do golo anulado a Coates em Portimão por mínima pressão (não continuada no tempo) com a mão, se eu fosse treinador do Sporting e estivesse a planear o jogo, na antevisão de um lance desses daria 95% de probabilidade a ser marcada uma grande penalidade contra o Porto e expulsão do jogador portista (último defesa). Todavia, na realidade - a hipótese formulada aconteceu mesmo em campo - tal vir-se-ia a revelar insuficiente, pois embora o efeito prático da decisão do árbitro tenha sido o mesmo, o jogador não viu o vermelho mas sim o amarelo (no caso, o segundo). Assim sendo, esta observação apontaria para uns 99% de probabilidade (mínimo: grande penalidade e cartão amarelo), intervalo de confiança para a gestão de risco que na história da humanidade só não resistiu ao 11 de Setembro de 2001 e à crise do subprime. Dir-se-ia então razoavelmente imbatível. Eis então que, consultado o VAR, não só o "penalty" é revertido como também o segundo amarelo. Nesse estádio, a probabilidade de contingência em termos de risco para essa situação específica já era equiparável à de um massivo ataque terrorista (ou à de uma emissão de obrigações hipotecárias tóxicas). Mas não ficaria por aí, pois o treinador do Sporting foi expulso por alegados protestos que não terão caído bem ao árbitro que anteriormente havia observado a grande elevação dos responsáveis do banco portista que no português mais irrepreensível e sem vislumbre de qualquer vernáculo lhe haviam pedido por favor, por entre tratamento de V.Exª., digníssimo e ilustríssimo, para consultar o revolucionário amperímetro com que ligado à corrente o VAR na Cidade do Futebol mede a intensidade. Conclusão: no futebol português nem o "worst case scenario" nos acode. Perante o que acabo de descrever, o empate final registado no marcador acabou por ser uma contingência menor em termos globais face a uma situação não-razoável que ocorreu durante o jogo, circunstância essa que me fez evocar os tempos de um certo treinador croata que por cá passou e tão boa impressão deixou pela coragem de apostar nos jovens e estoicismo cavalheiresco com que aguentou os sucessivos atropelos às regras da arbitragem que acabariam por desviar da rota do título uma equipa que no campo exibia um belo futebol.

 

O jogo? O Sporting foi mais equipa e o Porto teve melhores jogadores. A uma boa organização leonina responderam os portistas com as individualidades Luis Diaz e Corona. Matheus Nunes falhou à primeira e Nuno Santos não perdoou à segunda oportunidade. Numa diagonal entre os centrais, Uribe empatou. Luis Diaz ia semeando o pânico na direita da defesa leonina e, após um contra-ataque rápido mal desfeito pelo jovem Nuno Mendes, Corona espalhou o vírus do seu futebol no marcador com toda a defesa leonina em isolamento forçado. Em cima do intervalo, o "worst case scenario" descrito em cima.

 

No reatamento, a toada mantinha-se igual por entre terços e até rosários rezados de cada vez que a bola assomava a Neto. Até que ao fim do segundo terço (do jogo), Sérgio Conceição trocou Diaz e Marega por Martinez e Anderson e o Sporting aproveitou para tomar conta das operações. O Porto limitava-se ao tão enganador quanto ilusório "controlo do jogo", expressão do futebolês que já se sabe não augura nada de bom e precede um imediatamente posterior ar de estupefacção do treinador tuga com uma "batata" com que não estava a contar enquanto alegremente especulava com o jogo, ou seja, entregava a bola ao adversário. Simultaneamente, o Sporting ia progressivamente arriscando mais e mais a partir do banco. Até que uma transição dos dragões virou numa ainda mais rápida transição leonina - ou não tivesse vindo do carrinho de Palhinha - e Vietto empatou a partida após defesa de Marchesin a um toque de calcanhar do entretanto regressado Sporar. 

 

O segredo do Sporting esteve na labuta do miolo do terreno, onde Palhinha (segundo tempo) e Matheus Nunes (primeira parte) estiveram em bom plano e Pedro Gonçalves deu uma ajuda preciosa. Palhinha foi para mim o melhor em campo, por sozinho ter assumido a secção de metais e a percussão quando Ruben Amorim precisou de violinistas para as cordas com que subtilmente agarrou a equipa ao jogo face aos tocadores de bombo que vieram do Norte. Quanto ao brasileiro, voltou a ser massacrado com inúmeras faltas que, para além de nunca resultarem no cartão amarelo correspondente, acabam por o enfraquecer durante o jogo. Exemplo do que acabo de escrever foi a inacreditável inacção disciplinar do árbitro numa acção grave de um portista onde o Ma theus ficou partido em duas sílabas de dor numa palavra aguda, em lance que viria a terminar num remate de Porro a rasar o poste. Quanto a Pote, andou sempre abaixo e acima, defendendo e atacando, recuperando bolas, rematando sempre que pôde e cruzando como no lance do qual resultou o empate final que se viria a registar no marcador. Relevo ainda para a estreia de João Mário, um regresso a casa ao fim de 3 anos de ausência.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Palhinha

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(Imagem: A Bola)

13
Out20

Pedro Gonçalves bisa


Pedro Azevedo

O nosso jogador Pedro Gonçalves, vulgarmente conhecido por Pote, marcou hoje por duas vezes na vitória da selecção portuguesa de sub-21 no rochedo de Gibraltar (3-0). Parabéns ao Pedro, extensíveis à selecção comandada pelo nosso antigo jogador Rui Jorge.

 

PS: Pedro Gonçalves a confirmar uma vez mais ter sido uma excelente contratação e a reavivar a questão que deverá andar na mente de Ruben Amorim por estes dias acerca da melhor forma de o compatibilizar no onze do Sporting com o regressado João Mário. Dado aquilo que têm sido as ideias que Ruben tem mostrado neste início de época, médio centro e interior esquerdo serão as posições em aberto a preencher por estes dois.

11
Out20

Divisionismos e incongruências


Pedro Azevedo

"Na luta entre o bem e o mal, é sempre o povo que morre." - Eduardo Galeano

 

"O jornalista Henrique Monteiro defende um órgão de consulta da Direção eleito também proporcionalmente (espécie de senado, mas não com a composição e competências do Conselho Leonino), para onde transitassem diversas competências da AG — como a aprovação de contas. No seu entendimento, tal seria mais democrático e mais claro." - in Leonino

 

Após uma semana de trégua entre os adeptos motivada por uma vitória com esperançosa exibição em Portimão, dos escombros de um maniqueísmo infelizmente instalado em Alvalade emergiu Henrique Monteiro com a peregrina ideia de substituição dos sócios por uns seus representantes denominados de senadores. Para quem não saiba, Henrique Monteiro é um jornalista. Ora, de um jornalista espera-se que procure a notícia, transmita-a, comente-a até desde que em coluna própria de opinião. Tudo isso faz sentido. O que talvez faça pouco sentido é um jornalista pôr-se constantemente em bicos de pés para ser a notícia. Bom, dir-se-á que o faz na condição exclusiva de associado do clube e como tal tem todo o direito de intervir no dia-a-dia do clube com as suas ideias. Assumamos então como boa essa premissa e concentremo-nos apenas na bondade (ou não) da sua proposta. Segundo Winston Churchill, a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais que têm sido experimentadas de tempos em tempos. Quer isto dizer que a democracia não é perfeita, mas permite a cada cidadão (sócio, para o efeito) exprimir a sua opinião através do voto. O que nos leva à questão se todos os cidadãos estarão devidamente informados na hora de votar. A resposta é óbvia: não estão. Um exemplo claro disso é o próprio Henrique Monteiro, o qual confunde elementarmente orgãos consultivos com deliberativos e/ou esquece-se que não cabe em nenhuma circunstância ao poder executivo deliberar em matéria de exclusiva competência de sócios (ou associados), algo que qualquer pessoa minimamente experiente em gestão lhe poderia ter soprado. Quer isto dizer que o sócio Henrique Monteiro deveria ser impedido de votar? Não, obviamente, o caminho nunca poderá passar pela supressão desse ou de qualquer tipo de eleitor. Não, o caminho passa por formar e informar correctamente as pessoas e levá-las a tomar consciência própria e abalizada sobre os temas, tornando assim incompatível o aproveitamento do desconhecimento dos cidadãos, na medida em que estes deixariam de ser facilmente permeáveis a campanhas de desinformação instruídas seja por que parte for. Algo que aliás deveria encontrar particular sensibilidade de quem começou por escrever em a Voz do Povo. Estamos entendidos, "Comendador Marques de Correia"? É que a democracia não é algo que se ponha na gaveta quando não nos dá jeito.

 

P.S. Serei sempre contra o maniqueísmo ou simplista divisão do mundo entre o bem e o mal, da mesma forma que não suporto manifestações niilistas onde vale tudo, desaparece a ordem e não se obedece a nada nem a ninguém. Por isso, urge criarem-se espaços onde todos possamos comunicar sem agressões verbais ou processos de intenção, em que impere a ponderação dos moderados e progressivamente se traga para o centro de discussão os ortodoxos e os radicais. Radicalismo gera radicalismo, e isso não colhe a ninguém de bom senso nem a nenhuma instituição. Nada contra as críticas ao trabalho da direcção, especialmente se forem construtivas e dirigidas para as ameaças à nossa sustentabilidade, mas peço a todos os que como eu têm uma apreciação negativa do mandato de Varandas para não a confundirem com o Sporting que de facto é relevante, aquele que vai a campo e é a razão de toda a nossa paixão e envolvimento com o clube. Não se esqueçam nunca que decisões tomadas em tenra idade não obedecem a interesses, e nunca traiam a integridade daquilo que um dia Vos fez ser Sportinguistas e o desejo de ver sempre o clube a ganhar. 

10
Out20

João Almeida, o nome da rosa


Pedro Azevedo

Gosto muito de ciclismo e sou um grande fã das grandes voltas velocipédicas (Giro, Tour e Vuelta), em especial das suas etapas de alta montanha. Vivenciei o ocaso de Merckx e a emergência de Hinault, os duelos entre Fignon e Lemond, o domínio de Indurain e a ascensão e queda de Armostrong. Nesse sentido, a edição deste ano do Giro não me tem passado ao lado. Hoje, Castigo Máximo surgirá durante o dia com um fundo rosa em homenagem a João Almeida, ciclista português que acaba de igualar o recorde de Joaquim Agostinho do ciclista português que mais dias se manteve na liderança de uma grande Volta. Deste modo, realçar o feito de João Almeida é também evocar o "Tino de Brejenjas", o melhor ciclista luso de todos os tempos e grande vulto da história do nosso Sporting Clube de Portugal. Acontece que Agostinho, para além de dois pódios consecutivos no Tour, liderou durante 5 dias a Vuelta de 74, corrida que haveria de perder por apenas 11 segundos para o espanhol José Manuel Fuente entre acusações de erro dos cronometristas. Ora, com o fim da etapa de hoje (a 8ª da prova), João Almeida, ciclista de apenas 22 anos, termina assim o seu quinto dia consecutivo na posse da "maglia rosa", a camisola que distingue o líder do Giro de Itália, uma competição inspirada pelo jornal Gazzetta dello Sport que é célebre pela sua impressão em papel cor de rosa. A fazer a sua primeira grande volta, o ciclista das Caldas da Rainha é a mais recente esperança de Portugal voltar a ter um especialista em provas de 3 semanas. É certo que até já tivemos um campeão do mundo, Rui Costa, mas o ciclista que actualmente representa a UAE nunca mostrou a necessária resistência em provas longas. Característica, aliás, que ninguém pode jurar que João Almeida tenha, na medida em que nunca foi testado em competições que durassem para lá de 1 semana. Ainda assim, a liderança do Giro fica-lhe muito bem e será bonita enquanto durar. Parabéns ao João, eterno saudade pelo Agostinho. 

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08
Out20

Imortal!

Vítor Damas nasceu há 73 anos


Pedro Azevedo

In memoriam do grande Vítor Damas, hoje republico dois textos que originalmente "deram à estampa" neste blogue em 18 de Janeiro e em 6 de Setembro de 2019. Nós, Sportinguistas, jamais o esqueceremos.  

 

"O Leão Branco"

 

Há um antes e um depois de Vítor Damas. Nas peladas de rua ou em terrenos baldios, nos relvados do futebol profissional.

Antes dele, quando um grupo de rapazes traquinas se juntava para "jogar à bola" ninguém queria ir à baliza. Os garotos eram Figueiredo (mais tarde, Peres) ou Eusébio, mais remotamente, Peyroteo ou Espírito Santo, mas nunca guarda-redes. Por isso, o engenho dos rapazolas criou a figura do guarda-redes avançado, limitando os danos de quem era incumbido de tão maçadora, quão castradora, missão. Mais tarde, nova engenhoca dos petizes e o "keeper" ia rodando entre todos os compinchas para não penalizar por muito tempo qualquer um deles.

Até que surgiu Damas. Como outrora dizia Comte, "tudo na vida é relativo, e isso é o único valor absoluto". Damas foi o maior porque enorme era Eusébio e vice-versa, tal "yin" e "yang", dois seres que se complementavam e davam corpo à sua existência, em que o "yin" era Damas, com a sua elegância e sapiência na baliza que transmitiam grande tranquilidade à equipa e aos adeptos, e o "yang" era Eusébio, com a sua vigorosa acção criativa digna de um Rei. Se Eusébio era o Pantera Negra (cientificamente, uma mutação genética da Panthera que se designa por "melanismo"), Damas era o Leão Branco ("Panthera Leo", mutação genética oposta ao melanismo que se designa por "leucismo").

Quando em 9 de Novembro de 1969, Damas realizou a "parada do campeonato", ajudando o Sporting a ser campeão com uma defesa por instinto após cabeçada de Eusébio, não foi só o Pantera Negra que, já festejando de braços abertos, ficou incrédulo. O estádio inteiro "se levantou" para aplaudir, consciente de que tinha assistido a uma impossibilidade física, como se outra dimensão tivesse penetrado no nosso Sistema Planetário. Eusébio teve consciência desse momento e imediatamente, como grande desportista que era, correu a abraçá-lo, contribuindo para elevá-lo à imortalidade.

Este duelo perduraria até Eusébio "pendurar as botas", o que, acto contínuo, foi seguido por a saída de Damas do Sporting, rumo a Espanha, quiçá por falta de motivação ao sentir que o grandioso combate jamais se repetiria.

Assim acabariam 9 anos de expoente máximo, de fábula, de encantamento, embora Damas ainda tenha regressado, anos depois, para cumprir 5 boas épocas.

Outro momento de Ouro, viveu-o em Wembley, ao serviço da Selecção Nacional, em 20 de Novembro de 1974, aguentando estoicamente, com 6 grandes defesas, um empate a zero do Portugal "dos pequeninos" (Octávio, Alves, Osvaldinho,...) contra os super-favoritos ingleses. Uma dessas defesas ficou conhecida nos "media" britânicos como "a defesa do Século " (Vídeo abaixo) e foi mais ou menos assim: perda de bola na esquerda da nossa defesa, por Osvaldinho, contra-ataque inglês, bola em Gerry Francis, isolado na área, pela direita, simulação de remate e cruzamento para trás onde apareceu David Thomas a encostar, a meia altura, para a baliza deserta (Damas ficara a tapar o primeiro poste e a hipótese de remate). Eis que surge então Damas, felino, o Leão Branco, em extensão inimaginável, a sacudir a bola na exacta projecção dos postes perante a incredulidade do jogador inglês.

Com a emergência de Damas, nas peladas, em balizas improvisadas com malas da escola, já todos queriam ser Damas e imitar o ídolo, o mito, a sua elegância, agilidade, elasticidade, diria até, plasticidade entre os "postes".

E nos relvados do futebol profissional, todos os guarda-redes se inspirariam nele, herdando o seu estilo proactivo em detrimento de uma doutrina antiga mais reactiva, passando a ser mais intuitivos, instintivos e antecipativos, procurando adivinhar o movimento do avançado adversário.

Que saudades de ver Vítor Damas, o Eusébio do Sporting nas sábias palavras de outro grande: Carlos Pinhão. Damas já não está entre nós, mas como todos os grandes virou mito e passou à eternidade nas estorinhas que se haverão de contar de avô para neto, de quem o viu jogar e de quem se porá a imaginar como ele era. Tal como sucedeu comigo a propósito de Peyroteo, a lenda alimentar-se-á da descrição dos mais velhos e dos sonhos das crianças. Para sempre! 

 

"O Guarda-redes"

 

Se o objectivo (goal, em inglês) de um jogo de futebol é o golo - o equivalente a um orgasmo, para o bi-bota Fernando Gomes -, impedi-lo é o anti-climax, pelo que o guarda-redes é um desmancha-prazeres por natureza. Talvez por isso, as regras estabelecidas em 1848, na Universidade de Cambridge, não contemplavam a figura do "keeper", posição que só passou a existir em 1871. 

 

Por tudo isto, existe uma não confessada má-vontade contra o guarda-redes, ele é um mal-amado. Se é perdoado a um ponta-de-lança perder um golo de baliza aberta, a um extremo falhar um drible ou um centro, a um médio errar um passe e a um defesa fracassar no desarme, nada é consentido a um guarda-redes. Se der um "frango" e daí resultar a derrota da sua equipa, bem pode efectuar uma mão-cheia de defesas impossíveis que nem assim será absolvido pelo tribunal dos adeptos.

 

Condenado a observar o jogo à distância, isolado, apenas com dois postes e uma barra como companhia, é como um prisioneiro solitário numa cela, somente aguardando a sua própria execução. E quando lhe aparece um adversário sózinho pela frente e sai ao seu encontro, parece percorrer o corredor da morte (Dead man walking) à espera de um indulto de última hora. Isso talvez justifique porque o mais famoso guarda-redes de sempre (Lev Yashin) e alguns dos melhores da história do nosso Sporting (Azevedo, Carlos Gomes e Vítor Damas) escolheram equipar-se de preto: o luto era adequado a quem sabia que a coisa, provavelmente, ia acabar mal.

 

Curiosamente, e em contra-ciclo, à medida que o futebol se foi tornando mais cinzento, cínico, burocrático, cerebral e os treinadores sacrificaram o objectivo do jogo à estratégia e à táctica, os equipamentos dos guarda-redes foram ganhando cor, como se agora acreditassem que tudo vai correr bem. Mas é um engano. Barbosa, arqueiro do Brasil no Mundial de 1950, batido pelo uruguaio Ghiggia na final, resistiu 50 anos como um condenado, tendo de conviver com desconsiderações várias, punido por adeptos, que até, certa noite, furtivamente, lhe colocaram a baliza daquele dia no Maracanã no seu jardim. Para que nunca se esquecesse! Meio-Século pagando por um crime que não cometeu (Barbosa foi considerado o melhor guardião desse Mundial), num país onde a pena máxima para qualquer tipo de crime é de 30 anos...

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08
Out20

Recordes da Primeira Liga


Pedro Azevedo

  • Mais jogos no Campeonato: Manuel Fernandes - 486
  • Mais golos no Campeonato: Peyroteo - 332
  • Mais golos marcados num jogo de Campeonato: Peyroteo - 9 (Sporting - Leça)
  • Maior goleada de sempre no Campeonato: Sporting - Leça 14-0 (1941/42)
  • Mais golos numa temporada do Campeonato: Sporting - 123 golos (1946/47)
  • Mais golos de um jogador num só Campeonato: Yazalde - 46 golos (1973/74)

 

Já agora, o Sporting possui ainda os recordes das maiores goleadas de sempre na Taça de Portugal e nas provas europeias:

  • Taça de Portugal: Mindelense - Sporting 0-21 (1970/71), Fernando Peres (7 golos)
  • Provas europeias: Sporting - Apoel Nicósia 16-1 (1963/64), Mascarenhas (6 golos)

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(Peyroteo e Yazalde, dois goleadores imortais da nossa história: foto blogue Tesouro Verde)

06
Out20

O regresso do "Pés de Veludo"


Pedro Azevedo

Saúdo o regresso de João Mário, aquele tipo de jogador capaz de entrar de caras no onze titular que configura o género de contratação/empréstimo que sempre preconizei. Enquanto as compras em quantidade vêm sempre a repercutir-se como um custo e um loose-loose no binómio económico/desportivo, uma aposta em qualidade deste género (empréstimo) é à partida uma garantia de rendimento desportivo. Nesse sentido, o João é um claro "upgrade" para esta equipa do Sporting, um campeão europeu formado nas nossas escolas que retorna numa idade (27 anos) em que os jogadores atingem o pico da sua carreira em termos físicos, técnicos, tácticos e de maturidade. Acresce que o João com a sua versatilidade táctica pode ocupar diferentes posições no terreno, desde actuar como um dos dois médios do sistema de Ruben Amorim até partir de qualquer uma das alas (talvez mais a direita, na medida em que já temos Jovane, Pote - caso não jogue como médio - ou mesmo Nuno Santos sobre a esquerda), o que me parece muito interessante para a equipa. Além destes predicados, João Mário é também um jogador cuja contratação não fractura a massa associativa do Sporting, pormenor que me parece da maior importância à luz do que tem vindo a ser o ambiente maniqueísta e niilista presente no clube. Em todas a entrevistas que concedeu após a sua saída de Alvalade, o João soube sempre colocar o Sporting acima de pessoas e do seu interesse próprio, nunca tendo aproveitado conjunturas específicas para dizer algo que o beneficiasse perante nomenclaturas (aquilo que os brasileiros denominam de "puxa-saco") ainda que pudesse dividir os adeptos, traço de carácter que me caiu particularmente bem. Por tudo isto, vejo com muito bons olhos o regresso do nosso "Pés de Veludo". Seja muito bem-vindo, João Mário!

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05
Out20

Tudo ao molho e fé em Deus

Solar dos Nunos


Pedro Azevedo

Há muitas formas de sofrer a ver um jogo de futebol. A mais radical implica ouvir os comentários da SportTV quando em campo está o Sporting, momento em que a experiência adquire contornos de uma realidade paralela que nos deixa em constante sobressalto. Vou dar-vos alguns exemplos: uma pessoa vê o Matheus Nunes e o Pote a serem ceifados como o trigo e é obrigada a esfregar os olhos várias vezes até concluir necessitar com urgência de uma consulta oftalmológica quando ouve o inefável comentador a defender que não há espiga e, por conseguinte, amarelo. Numa outra ocasião, até fui arrancado do sofá. O brasileiro é pisado no pé e de dentro do aparelho surge o som: - "Quem anda à chuva, molha-se!" - , sentencia um orgulhoso Sousa. Assim mesmo, figurativamente, porque precipitação só mesmo na cabeça do senhor e a "chuva" a que ele se refere é de pitóns de alumínio que literalmente incidem sobre o pobre do Matheus e só "molha" os tolos que ainda se dão ao trabalho de manter o som da televisão ligado. Mais à frente, o Coates tem uma entrada perigosa que é logo apelidada de "duríssima". Depreende-se assim que a chuva quando cai não é para todos. Mas quando um algarvio se pendura num dos nossos, logo surge um "É bem!". Faz sentido, quem anda à chuva molha-se, especialmente se não tiver uma sombrinha. Às tantas o Portimonense ia atacando cada vez mais e o bom do comentador saiu-se com um "É um massacre!". Concordei e tirei o som ao aparelho...

 

Comi qualquer coisa ao pé do televisor e o que vi, ao contrário do que ouvi, não foi um calvário. Calvário onde fica o Solar dos Nunes, que por acaso nem é calvário nenhum mas sim um paraíso epicurista. Só que a noite foi mais de "Solar dos Nunos", do Mendes e do Santos, o berço onde nasceu a nossa vitória. O primeiro, o Mendes, caiu mesmo agora do berço e já marca golos deste mundo e do outro como se fora Rei do reino de Aquém e Além Dor, local imaginário onde não há sofrimento dos adeptos Sportinguistas. Pelo que o jogo, em vez do proverbial "Florbela" espanca-me, começou por oferecer uma flor bela do canteiro de Alcochete cujo aroma nos inspirou. E tanto assim é que ainda mal refeitos estávamos da emoção e eis que o Santos aparece à matador e de cabeça, qual lilliputiano investido de Gulliver, faz o segundo. Surpreendidos? Quem anda à chuva, molha-se!

 

Não queiram saber a choradeira que houve antes do jogo. "Ai que o Wendel isto, ai que o Wendel aquilo", segundo a crítica agora é que estávamos feitos ao bife. Acontece que o Wendel para mim sempre foi como os anos bissextos, que acontecem de quatro em quatro. Assim era ele, em jogos. Quando o calendário era comum, o Wendel tornava-se um caminhante. E um contemplativo. Um indivíduo que partia sozinho, sem destino, por estradas secundárias. Parando aqui e ali para observar a paisagem. Eu não percebia bem para onde e por onde ia ele, mas os peritos diziam que ele cumpria a importantíssima função de transporte. Enfim, para essa missão eu até preferia aquela miúda do gás Pluma da Galp, mas com tanta gente a cair-me em cima às tantas conformei-me. Só que o Matheus começou a aparecer na equipa principal e eu, que o tinha visto nos sub-23, achava-o muito atado e longe do que já lhe tinha visto antes do senhor Sousa me levar a crer que precisava de óculos. Se a mim se me oferecia estar atado, para alguns peritos ele era de uma irrelevância total, a velha dicotomia entre o estar e o ser que pendia contra ele (e mim). Até que o Wendel foi para São Petersburgo e o Matheus com toda a sede ao Pote fez-se finalmente ao caminho. Porém, em vez de picadas escolheu vias rápidas, mais directas. E nunca parou. Entregando sempre (não perdeu uma bola) e voltando de seguida para recolher mais inventário. Às tantas o Sousa até disse estar surpreendido por não conhecer essa faceta do Matheus. E não é que quando acabou o jogo fiquei a pensar nisso? Bom, até recuperei o som da SportTV e tudo. Arrependido, porque afinal o senhor até mostrou sabedoria e honestidade intelectual ao não hesitar dar valor a alguém que anteriormente havia desvalorizado e eu calei-o. Olhe, caro Sousa, é como você para os árbitros: para a próxima prometo ter um critério mais largo consigo.

 

Os primeiros 30 minutos foram muito bons, depois a equipa acusou o desgaste físico e psíquico do jogo de Quinta. Primeiro físico, deixando de se desdobrar tanto ofensivamente. Depois psíquico, procurando apenas afastar a bola da sua área, sem critério. Naturalmente, chegado esse momento, os jogadores mais experientes resistiram melhor. Quase todos, com a única excepção de Feddal. Assim, Neto fez provavelmente o seu melhor jogo de leão ao peito, cortando imensas jogadas de perigo. Mesmo cansado, com a bola nos pés não se lhe afiguraram mil novecentas e seis alternativas sobre que destino dar-lhe, mostrando que nem sempre a falta de irrigação do cérebro causada pela falta de oxigenação é contraproducente. Coates foi o colosso a que nos vem habituando e Adán à falta de ter de orientar a barreira foi ele próprio uma barreira às intenções dos algarvios. Nos mais novos, Porro foi um queniano, Pote mostrou qualidade de passe e disciplina no posicionamento à frente da defesa e o TT desta vez fechou mais espaços do que os que abriu. Vietto deu-se ao jogo enquanto durou, perdoando-se-lhe o já habitual desacerto na hora da finalização pela assistência que deu para golo. E, claro, os Nunos foram decisivos.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Matheus Nunes

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03
Out20

Indagações à volta do sistema


Pedro Azevedo

Começo por dizer que a primeira parte do jogo contra o Linz foi bem mais equilibrada que a de há 1 ano atrás, com a nossa equipa a mostrar-se muitíssimo mais competente e preparada para o desafio, mérito indiscutível do seu treinador. Na época passada contei 0-8 em oportunidades no primeiro tempo e uma equipa leonina completamente perdida no campo, parecendo surpreendida e asfixiada pelo adversário e totalmente à sua mercê. Valeu-nos na altura a falta de eficácia dos austríacos e o Atlas Fernandes que no segundo tempo em dois lances de génio assistiu e resolveu. Ainda assim, recuperando a crónica que na altura escrevi, foram 3-13 em oportunidades claras de golo para um resultado final de 2-1 (0-1 ao intervalo). Enfim, sortilégios do futebol...

 

Todavia, contra uma equipa igualmente disposta em 3-4-2-1 e que colocou duas linhas de 3 homens - uma primeira com os 3 homens da frente, uma segundo com os dois do meio mais o ala do lado da bola - , ficaram evidenciadas algumas contradições da nossa equipa. Anteontem não tivemos Jovane, mas este tem sido deslocado da sua posição natural como o segundo avançado que parte da esquerda (o que parte da direita é Tiago Tomás) para o eixo do ataque. Só que assim, jogando de costas para a baliza, o cabo-verdiano não potencia a sua característica principal de partir, sem medo, para cima dos defesas, utilizando a sua capacidade de explosão, técnica e boa relação com o golo. Sem Jovane, jogou Vietto. Ora, o argentino não só não tem golo como se torna irrelevante se não vir o jogo de frente, pelo que foi uma unidade a menos em campo, sem expressão do ponto de vista ofensivo e uma nulidade em termos defensivos. No entanto, se pudessemos jogar em 4-3-3, então Pote, que tem vindo a jogar onde Jovane actuava no ano transacto, poderia ser o terceiro médio e Jovane voltaria ao seu lugar natural. Três médios dariam outra cobertura à equipa. Contra o Linz foi notório que Matheus e Wendel estiveram muito tempo em inferioridade numérica, algo potenciado por Nuno Santos ter actuado muito junto à linha. É certo que o vilacondense fez um passe para golo, mas também não o é menos que o seu rendimento seria muito mais eficaz se houvesse um ponta de lança clássico para aproveitar os seus cruzamentos. Só que Amorim parece querer 3 avançados móveis, o que me leva à seguinte dúvida: não seria Gelson Dala o homem ideal para actuar no eixo do trio dinâmico da frente, imitando o que Firmino faz no Liverpool? Quando olho para os "Reds" vejo um Firmino que tanto recua para 10 a fim de organizar jogo como aparece mais adiantado a servir apoios frontais e laterais aos dois avançados vertiginosos (Salah e Mané) da equipa que partem das alas, assim como uma correia de transmissão das motos. Ora, nós poderíamos jogar assim, mas ingloriamente vendemos o Dala, um jogador inteligente, rápido a pensar, com visão de jogo e frio na finalização. Será que Amorim não vê isso em Dala? Ou, simplesmente, quando o cedeu ainda não tinha o "trio dinâmico" em mente? São perguntas que gostaria que os jornalistas fizessem a Ruben Amorim, sendo certo que o treinador é que anda lá dentro, saberá coisas que desconhecemos e até já deu mostra de sagacidade em situações semelhantes.

 

Para terminar, olhando para o nosso plantel vejo boas condições para jogarmos em 4-3-3. creio até que o Matheus, que do meu ponto de vista tem recebido críticas injustas por estar atado no sistema de 3-4-2-1, poderia ser um jogador bem mais influente, ele que nos sub-23 criava muitos desequilíbrios com as costas protegidas por Rodrigo Fernandes, alternando com Tomás Silva as saídas para o ataque. Por exemplo, anteontem, quando se libertou, criou o desequilíbrio que deu origem ao primeiro golo. Só que fá-lo muito poucas vezes, por só haver dois médios e por Wendel se desposicionar mais frequentemente. 

02
Out20

A propósito do jogo de ontem


Pedro Azevedo

Média etária dos 14 jogadores utilizados pelo Sporting = 25,57 anos

Média etária dos 14 jogadores utilizados pelo Lask Linz = 25,24 anos

 

Orçamento Sporting 19/20 = 107,43M€ (18/19 = 104,91M€)

Orçamento Lask Linz 18/19 = 15,303M€ (último disponível na net)

 

Custos com Pessoal Sporting 19/20 = 60,542M€ (18/19 = 68,901M€)

Custos com Pessoal Lask Linz 18/19 = 7,704M€ (último disponível na net)

 

Maior contratação Sporting em 20/21: Pote - 6.5M€ (50% passe)

Maior contratação Lask Linz em 20/21: Mads Madsen - 750 mil euros

 

Fontes Sporting: Transfermarket e R&C (CMVM)

Fontes Lask Linz: TransfermarketNachrichten

Informações adicionais: orf.at

 

Nota: A nível de rodagem é um facto indesmentível que os austríacos levavam vantagem, com 6 jogos efectuados contra 2 do Sporting antes das duas equipas se terem encontrado ontem à noite em Alvalade.

 

Conclusão: Enquanto o Lask Linz bem pode ser um "case study" de como fazer muito com pouco, no Sporting gasta-se demasiado para o que se produz. Importa reflectir sobre isto e depois discuti-lo de forma séria e com elevação. Relembro que isto não é um facto isolado, já são dois anos que este Lask bate o pé ao Sporting. É certo que no passado também fomos eliminados por Casino Salzburgo e Rapid de Viena, mas desde aí a disparidade entre o que se gasta nos principais clubes portugueses face aos seus homólogos austríacos (excepto Red Bull Salzburgo) disparou com uma progressão geométrica (principalmente neste século, com o advento das SADs em Portugal).

02
Out20

Uma nota de esperança


Pedro Azevedo

Seria fácil, até natural e humano, que em mais uma noite onde várias coisas que tenho vindo a escrever aqui no blogue se evidenciaram, eu viesse aproveitar para esmiuçar as minhas razões, ou exercer de algum tipo de revanchismo para com quem não me tenha querido interpretar bem ou até tenha ousado fazer juízo de valor sobre a minha pessoa. Porém, não o irei fazer.  Confesso que isso me magoou - e a procissão ainda nem saiu do adro - , mas a quezília não é definitivamente o meu ideal de Sporting e o que mais me interessa são as razões do Sporting e de todos os Sportinguistas enquanto colectivo. Nunca gostei de criar desumanidade, desconversar ou me afastar do essencial e não será num momento de especial gravidade que irá agudizar mais a nossa já debilitada situação financeira que modificarei a minha atitude perante a vida. Peço-vos encarecidamente que procedam de igual forma. Pelo Sporting.

 

De qualquer modo, sinto que devo dizer alguma coisa aos Leitores e de uma forma geral a todos os Sportinguistas que simpaticamente me têm distinguido com as suas palavras. Este é essencialmente um momento (a derrota e, principalmente, as suas consequências) de tristeza e de introspecção para todos os Sportinguistas, dirigentes incluídos, e de cada um perceber o que está aqui a fazer, se está a cumprir bem o seu papel e se isso serve o Sporting. Eu próprio fiz esse exercício nos últimos dias, razão pela qual nesse período estive ausente do comentário à actualidade leonina. (Enfim, mais do que tudo quis dar uma oportunidade àquele Sporting que para mim sempre será o mais relevante, o que vai a campo, independentemente da análise aos acontecimentos que há muito vou fazendo.) O Sporting vive hoje uma profunda crise que assenta essencialmente numa política desportiva errática, numa Cultura e identidade débeis e  com tendência a deteriorarem-se e num conjunto de práticas de gestão muito discutíveis. Isso não é surpreendente para quem acompanhe o clube. Perante isto, o ideal seria que se pudesse suspender o tempo de forma a que a reflexão não fosse contaminada pelo turbilhão de acontecimentos. De certo modo, o destino - por tristes motivos que têm trazido muita contrariedade a vários lares por esse mundo fora - até nos concedeu essa possibilidade, só que mais uma vez desperdiçámo-la de forma inglória e não aprendemos com os erros. Ora, o pior que se pode fazer perante um problema é não tomar consciência dele. E a verdade é que o Problema Sporting diz respeito a todos os Sportinguistas, deve ser reconhecido e enfrentado e só assim daí poderão resultar soluções. Isso implica que haja discussão, logicamente. Porém, exige também responsabilidade. E respeito. Respeito e abertura para ouvir o outro, viajar ao seu "filtro", perceber as suas razões e não fechar portas. Para além do problema económico que está a montante do financeiro e que resulta de um erro conceptual de perspectiva sobre a política desportiva, o Sporting vive hoje um clima de intolerância que gradualmente vai afastando as pessoas do centro e criando trincheiras. Antagonismo gera antagonismo, e na ausência de uma doutrina que aproxime as pessoas temo que o radicalismo tome o centro da discussão. Ora, todos nós que nascemos antes do 25 de Abril sabemos bem o custo de uma revolução. Porém, a história conta-nos que há reformas inadiáveis que a não acontecerem ameaçarão não só terminar de forma desordenada com o actual governo do clube como com o próprio regime. Quem diz regime, diz Sporting, ou pelo menos o Sporting como sempre o conhecemos. E é sobre as reformas que eu gostaria que se falasse nos próximos dias. Porque as coisas não podem mais mudar para tudo ficar na mesma e o Sporting merece ter um projecto com ideias claras e um caminho com um plano de acção pela frente em que uma ampla maioria se possa reconhecer. Tudo o que seja diferente disto será surfar na maionese, o que dará razão ao velho ditado que diz que quem resiste à mudança geralmente acaba a ter de resistir à extinção. É de projectos que eu gostaria verdadeiramente que se falasse. Sem ruído, mas também sem lendas e narrativas, até porque, por muito que se criem artificialmente percepções de uma realidade, há sempre um dia em que a realidade choca de frente com todos nós e da pior forma, já tarde e sem que se possa impedir o então inevitável. Haveria muitas outras coisas que gostaria de dizer à volta daquilo que deveria ser um ideal comum, mas isso levar-me-ia por caminhos que não são para um dia como o de hoje. Apenas gostaria de contribuir com esta reflexão e com isso singelamente transmitir alguma esperança no futuro. Repito, este não é o tempo de reciminações vãs, mas sim de temperança e sentido de responsabilidade para quem conhece a situação social, económica, financeira e desportiva do clube e antevê a sinuosidade do que vem aí a seguir. Não sou, e nunca fui, contra ninguém. Sou, e serei sempre, a favor do Sporting e da perenidade das instituições que efectivamente merecem a pena. Todavia, não posso e não devo ficar indiferente ao facto de o mercado estar praticamente fechado e de qualquer solução directiva no curto-prazo estar amputada pelo constrangimento de não poder agir por essa via, razão pela qual apelei no passado e em tempo útil ao senhor presidente da mesa da Assembleia Geral do clube para que me ouvissse e daí retirasse as conclusões que fossem melhores para esta centenária instituição. Enfim, não se pode mudar o que está lá atrás, concentremo-nos e gastemos as nossas energias sim em mudar o futuro como ele hoje infelizmente se perspectiva e tenhamos a humildade e lucidez de envolvermos todos aqueles que possam ser úteis e quiserem tomar parte nele.

 

Um abraço a todos para quem o Sporting é relevante, que têm o dever de contribuir com elevação e ideias para um clube melhor, mais são e forte, capaz de enfrentar os difíceis desafios que tem pela frente. Mas, o que não nos mata faz-nos mais fortes, pelo que ressurgiremos mais sábios, preparados e capazes de honrar o lema que um dia José Alvalade enunciou, especialmente se soubermos entre nós proceder da exacta mesma forma que um dia o nosso fundador descreveu em carta ao seu amigo José Gavazzo. Sim, porque também é muito de humildade e de se encontrar pontos em comum que vos falo aqui.

 

Viva o nosso Sporting Clube de Portugal!

28
Set20

Tudo ao molho e fé em Deus

Cartão amarelo


Pedro Azevedo

Não sei qual o espanto da generalidade dos comentadores, mas se durante todo o fim de semana só se ouviu falar em cartão amarelo a propósito da actualidade do Sporting teria sido muito difícil isso escapar aos ouvidos do Fábio Veríssimo, não é verdade? É que estas coisas sempre influenciam um bocadinho. Outra coisa: desde o Rui Costa, os árbitros vão todos àqueles cabeleireiros onde lhes fazem um penteado à voleibolista americano dos anos 80 e 90 e à saída começam logo a ouvir piadinhas fáceis do tipo de "sim, senhor, bonito serviço, merece um cartão amarelo!". De seguida vão até Paços, cidade conhecida por o clube da terra ser um submarino amarelo daqueles à portuguesa que já não submerge e anda sempre na linha de água. Como um árbitro gosta sempre de dar nas vistas, um amarelo aos pacenses quase nem se nota, não faz contraste. Vai daí, aponta para o lado, que no caso é verde e branco. Só assim se explica que quem comete 18 faltas escape com 2 amarelos e quem infringe a regra uma dúzia de vezes apanhe com meia-dúzia de admoestações de tom icterícia. É  a mesma razão que justifica o Benfica raramente vêr cartões vermelhos. A excepção só está ao alcance de árbitros daltónicos. E o daltonismo no futebol português não costuma augurar grandes vôos...

 

Por falar em amarelo, quem não se deixou levar em cantigas foi o Ruben Amorim. Sabendo que os eslovenos andam habitualmente de camisola amarela (Tour), não quis arriscar colocar de início o Sporar contra o Paços para não ficar em inferioridade numérica. Perspicaz, o nosso treinador! Assim, o Tiago Tomás foi titular. E não se deu mal. Se é verdade que a abrir falhou um golo cantado, de seguida engendrou uma sofisticada carambola bilharistica que aprendeu com o Theriaga numa daquelas acções de "team-building" leoninas e levou a bola por fim a embater na mão de um incauto pacense que cometeu a ingenuidade de pensar que se podia usar os braços mesmo fora do enquadramento da baliza. O Totói, do União de Tomar dos anos 70, neste futebol actual seria um craque...

 

Quem passa o tempo a esbracejar é o Neto. Já sem o avô (Mathieu) em campo, entretanto reformado, o único que o atura é o Coates. É que o homem, de cada vez que tem a bola nos pés, pensa em 1906 coisas ao mesmo tempo, tempo mais do que suficiente para um adepto em casa sobreaquecer as sinapses antes do nosso defensor acabar por despachar a bola à queima. E, quando não tem bola, geralmente fica a contemplar a sua trajectória, esperando que o pronto-socorro uruguaio faça o resto. Em todo o caso, não há lance por si protagonizado que não acabe em recriminação a alguém. Menos a ele próprio, claro. Dizem que é sintoma de liderança...

 

Anda por aí muito boa gente a embirrar com o Matheus Nunes. Coitado do rapaz, já provou nos sub-23 o que pode fazer com a bola nos pés. Acontece que não é isso que o Ruben lhe pede nos seniores. E ele lá vai fazendo o que lhe é pedido, o que não será o melhor para ele, mas será certamente o que fará mais sentido à equipa na ideia do Ruben Amorim. E, como este não o tira, admitamos que se calhar está a fazê-lo bem. Ontem pelo menos correu o campo todo. Ele e o Wendel. Ambos sem o brilhantismo de um Porro ou de um Nuno Mendes, há que dizê-lo, mas com grande utilidade para uma equipa onde na tracção atrás o Vietto não engrena a marcha. 

 

Mas o Homem do Jogo foi o Coates. Poemas homéricos deveriam ser elaborados sobre a exibição do uruguaio ontem na cidade do móvel. Em tempo de pandemia que recomenda o uso de máscara, o homem parece viver sob o efeito do Mask do Jim Carey, transfigurando-se, com elasticidade desdobrando-se à esquerda e à direita consoante as desatenções dos homens que lhe colocaram ao lado. Na ausência de um ponta de lança, investindo-se ele dessa qualidade. E é verde, obviamente. E grande capitão! Se há quem tenha beneficiado do sistema de 3 centrais para dar um salto de qualidade, esse jogador é Sebastián Coates, El Patrón! 

 

Como o futebol não é só luta e é também arte em movimento, deixem-me destacar para o fim o Daniel Bragança. Pobre do Eustáquio, que ainda deve estar a perceber "o que passou-se" quando o menino lhe passou a bola por cima da cabeça e foi buscá-la mais à frente. Passo a passo, ou paço(s) a paço(s), o miúdo vai mostrando o valor de quem habita a nobre residência leonina sita em Alcochete. E, no entretanto, evidenciando que a celebérrima teoria do "gap" da Formação foi um passo no caminho para o abismo que nos fez ingloriamente perder 1 ano (e muitos jogadores que poderiam estar aqui). 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Sebastián Coates. Vamos!

CoatesLUSA.jpg

28
Set20

Para a imortalidade


Pedro Azevedo

Se o épico combate travado por "El Patrón" Sebastián Coates em Paços de Ferreira deveria inspirar os poetas homéricos, o lençol protagonizado por Daniel Bragança sobre Eustáquio (o da Tessalónica foi grande estudioso de Homero) mereceria passar à imortalidade num tríptico em pintura a óleo e têmpera sobre madeira (o jogo foi na capital do móvel). 

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