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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

03
Jul20

Tudo ao molho e fé em Deus

Jogo do Galo


Pedro Azevedo

Geralmente fico muito nervoso antes de um jogo, porém na antecâmara da recepção ao Gil Vicente senti-me bastante confiante. Bem sei, havia condicionantes de peso. Por exemplo, um impressionante surto de bife chorizo afectara o Acuña, o Jovane estava fora devido a um traumatismo (nos resultados dos nossos adversários) e o Geraldes por um triz não conseguira acabar um dos primeiros capítulos do Levantado do Chão, mas nada abalava a minha certeza de que o resultado nos seria favorável. E porquê? Bom, toda a gente sabe que cada partida da equipa de Barcelos é um Jogo do Galo. Ora, como a táctica do Ruben Amorim privilegia os três em linha (centrais), a coisa estava no papo. 

 

Este futebol pós-desconfinamento é muito sui generis, com os adeptos que habitualmente marcam presença nos estádios a verem-se obrigados a assistir pela televisão, em casa ou nos cafés. Procurando transpor por meio virtual as emoções usualmente vividas no José Alvalade, o meu grupo de bancada decidiu reunir-se à hora do jogo no Zoom. A ideia em si tinha tudo para bater certo, com 8 marmanjos de cachecol e fundos virtuais representando o nosso estádio a procurarem dentro do possível replicar as condições do futebol ao vivo. O problema é que a velocidade da fibra varia de lar para lar, pelo que passa a ser possível festejar golos do Sporting em ataques do Gil Vicente e contestar penáltis em lances disputados a meio-campo. Mais arreliador, o enfado com cada nova intervenção do Camacho pode distar 10 a 15 segundos entre cada lar, o que contraria o habitual uníssono. Nada portanto como um espectador desconfiado para lidar (rimar) com um futebol desconfinado.  

 

Foi assim com este enquadramento no meu computador que comecei a assistir ao jogo no televisor. E devo dizer que fiquei boquiaberto. Tanto que até liguei para a MEO. Então não é que a minha fibra é tão, tão lenta que até jurei ver em campo o Damas, o Jesus Correia, o Peyroteo e o Balakov? Um glorioso regresso ao passado em tempo de Regresso ao Futuro? Deixa ver, talvez com o botão do "fast forward"...

 

A primeira parte foi um bocado o que a bola deu e a bola deu para o Plata a levar aos soluços até à linha de fundo e mandá-la para trás. O Sporar dividiu-a com um gilista e o Wendel prensou-a num adversário a caminho da baliza. Estávamos na frente do marcador. Celebravam-se 114 anos de vida do nosso enorme clube e o Plata, isolado, voltou a regressar ao passado. Desta vez até antes da nossa fundação, mais concretamente ao dia 11 de Janeiro de 1906, véspera da data em que o International Board introduziu uma alteração às regras que passou a permitir o passe para a frente. O Gil é que não se deixou enganar e tentou resolver no presente, mas o Damas a.k.a. Max não estava pelos ajustes e por duas vezes negou-lhes o golo que não o galo.  

 

Gostei muito mais da nossa equipa no segundo tempo. Logo a abrir, o Plata, muito activo, isolou o Wendel. Este lá foi para a baliza, fiél ao princípio que o caminho se faz caminhando. Caminhar até caminhou, mas marcar não. Talvez porque o golinho se faz goleando e não caminhando. Uma questão de eficácia. O Sporting pressionava alto (fazendo campo pequeno) e entre campos um gilista assustado procurou livrar-se da bola para trás de qualquer maneira. O Plata agradeceu o presente de aniversário e tocou para o dois-a-zero. Porem, a noite não acabaria sem três momentos singulares. Tudo começou (78 minutos) quando o Matheus Nunes recuperou uma bola e foi progredindo, ora fintando dois para a esquerda, ora driblando os mesmos dois para a direita, até passar a bola ao Wendel. Este tocou para o Borja que de pronto lhe devolveu a bola. O brasileiro tocou para o Sporar, este para o Doumbia, o marfinense para o Ristovski e este para o Plata. A bola ainda chegou ao Wendel até ser perdida. No total foram 30 segundos de "tricô-traça" com as linhas com que se cose o actual futebol do Sporting. A deixar água na boca quanto ao desenvolvimento desta equipa. Por falar em líquidos, o Tiago Tomás e o Joelson deram razão às preocupações da Direcção Geral de Saúde com os ajuntamentos de jovens à noite. Lá se safaram da multa, porque não conseguiram o golo (ou gole). Mesmo no fim, sem ter justa causa para isso, o Ruben Ribeiro marcou-nos um golo. Porém, tal como já nos habituou, o resultado da sua acção foi inconsequente para nós, com o Sporting a conseguir a sua quarta vitória consecutiva em dia de aniversário. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gonzalo Plata. Menções honrosas para Matheus Nunes (qualidade com e sem bola), Wendel (1 golo), Coates (patrão), Nuno Mendes (revelação) e Max (segurança).

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27
Jun20

Tudo ao molho e fé em Deus

The Karate Kid e o Koffi ora gigante, ora anão


Pedro Azevedo

Na vida é sempre importante sabermos as linhas com que nos cosemos. O Ruben Amorim tem isso presente e, vai daí, aplica-o literalmente ao futebol. O problema é que muita intersecção de linhas gera obviamente demasiados passes laterais e essa tem sido a óbvia consequência de um sistema táctico do promissor técnico leonino que privilegia o engarrafamento na zona central, com dois médios a par e três defesas por detrás ("O Pentágono"). Assim, muitas vezes o Matheus cose e coze o Wendel e este responde assando (as pernas de) o Matheus com passes miudinhos que no rugby se denominam de "para o hospital", auto-anulando-se os dois no que diz respeito ao processo ofensivo e criando indefinição quando toca a defender. Evidentemente, havendo linhas sobrepostas atrás, faltarão sempre linhas à frente, algo que tentamos contornar com a solução do chutão à procura do Sporar, o 112 dos inermes. Quando o esloveno consegue segurar a bola, então aí aparece Jovane, um cabo-verdiano que se descreve melhor recorrendo ao poeta Régio: "a minha vida é um vendaval que se soltou, uma onda que se alevantou, um átomo a mais que se animou". É tudo isto que o Sporting ganha quando Jovane está em campo, os tais últimos 30 metros que comprometeriam irremediavelmente a eficiência da geringonça de passe/repasse outrora montada por Silas ("A Posse")...

 

Andávamos nós neste empastelamento quando os de Belém meteram também as mãos na massa e, pumba, espetaram-nos um pastel: defesa completamente desposicionada e larga no relvado, transição rápida e golo. Mas eis que o Coates foi gigante e o Koffi anão. Qual alto signatário das Nações Unidas, o burquinês estendeu a passadeira a bem da paz e cooperação entre os povos. O uruguaio dedica o golo ao seu antigo camarada de armas, Monsieur Mathieu. Um-dó-Li-cá, e eis que o Codecity volta a marcar. Anulado, por fora de jogo. Por essa altura andava o Plata numa das suas inconsequências quando avista o Ristovski. O macedónio põe a bola com olhinhos na área, o Sporar arrasta marcações e o Jovane mostra que um leão também pode ser um dragão como o Bruce Lee. Depois, o Matheus consegue sair da cabine telefónica onde o meteram com o Wendel e faz um passe longo para o Nuno Mendes. Este dá ao Jovane e o menino inicia intermináveis tabelinhas com o Sporar que acabam com o esloveno caído na área. Penálti, diz Molero, perdão, Malheiro. O Jovane chuta, mas o Koffi dá 2 passos à frente e defende miraculosamente. Tempo então para nos interrogarmos sobre a identidade Sportinguista e os caminhos possíveis para a sua coabitação com uma pluralidade de formas artísticas no futebol português. Molero, perdão, Malheiro também reflecte sobre o tema e eis que perante a incredulidade de todos os leões confinados nos seus lares vemos um árbitro a cumprir com as regras num jogo do Sporting. O Ristovski, desta vez sem galo, sorri. Novamente chamado a tentar converter a penalidade, Jovane desfere uma bazuca de fazer inveja ao António Costa. 

 

Para a etapa complementar o Jovane ficou no banco. Aparentemente, devido a um traumatismo (que provocou no resultado). Entrou o Geraldes e o cão de Pavlov que existe no subconsciente de cada leão Sportinguista começou a salivar. E a verdade é que o Chico até fez um bom jogo, desmarcando-se sucessivamente e assim dando linhas ao portador da bola. Iniciou então um duelo em 3 actos com o Koffi, agora gigante, com o burquinês sempre a levar a melhor. Do Ensaio sobre a Cegueira para o Levantado do Chão é o mesmo Caminho (NA: editora), um caminho que se faz lendo nas entrelinhas do que são os posicionamentos do Chico, uma alternativa aos atalhos à procura do Sporar. Até ao fim pouco mais houve a declarar e o jogo ainda deu para ver entrar o Ilori e o Doumbia e para que o Borja fizesse os 90 minutos sem que o excesso de desconfinamento contagiasse toda a equipa do vírus da tragicomédia. 

 

P.S. Dois livres directos, igual número de penáltis, um canto - eis o balanço de golos de bola parada pós-desconfinamento (4 jogos). Ristovski substituiu Camacho e com um aproveitamento superior, prenúncio de que Amorim está atento à meritocracia. Muitos jovens lançados na equipa principal, sinal muito positivo. Jovane, com 4 golos, duas assistências e participação nos dois desequilíbrios de onde resultaram os penáltis, está em grande. Coisa para logo se agitarem muitos milhões que não mendilhões. Que continue por cá a afagar-nos os corações!

 

Tenor "Tudo ao molho": Jovane Cabral (póquer de menções e de golos desde o desconfinamento)

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23
Jun20

Queima(da) de carvão


Pedro Azevedo

Karbownik soa a carbono. Do carbono se faz carvão. Que tem um cheirinho a enxofre. Como o Diabo. Partidinha de diabretes, portanto. Faz sentido!

19
Jun20

Tudo ao molho e fé em Deus

Retrato de um Jovane


Pedro Azevedo

Em Alvalade há um pintor retratista de grande qualidade. Na semana passado já havia pintado uma tela representando Ricardo Ribeiro, ontem retratou Cláudio Ramos. Em qualquer dos casos bastaram poucos segundos de preparação, pelo que quando os modelos utilizados se mexeram já o quadro estava finalizado. Mas a vida de um artista não é fácil e Jovane teve de vencer o preconceito daqueles que achavam que ele só servia para pintar rodapés, tendo para tal contado com o valioso apoio do inspirador Mestre Bruno Fernandes. Agora, finalmente vencido o anátema da sua formação, ele é o mestre do renascimento leonino. 

 

Qual Ticiano, Jovane não se limita ao retrato, ele também é influente na ilustração de momentos mitológicos. Nesse sentido, "O Calcanhar" foi uma pincelada de génio que valeu um castigo máximo aos tondelenses que desacreditaram da sua arte e "O Roubo de Bola" tornou-se uma extravagante obra inacabada apenas por falta de definição final. Mas foi em dois instantes de representação da religiosidade pagã do futebol, nomeadamente em "Coroação com Espinhos" onde descreve um deus rodeado por um grupo de quatro homens que o açoita, que Jovane mostrou toda a qualidade do seu traço. 

 

Bem sei, Jovane não nasceu naquela Escola de Belas Artes do Seixal que costuma ser muito popular no Médio Oriente. Por isso será improvável que apareçam ofertas das mil e uma noites pelas suas telas. Em todo o caso o seu sucesso recente serve para relembrar os mais distraídos que ali na Pensínsula de Setúbal existe uma outra academia que certamente não por acaso ao longo dos anos vem fomando os melhores artistas do mundo, constatação que deveria sempre ser preservada de politiquices internas que nos deixam de bolsos vazios e só estimulam a promoção dos nossos concorrentes. Ontem, o mais novato do grupo, Nuno Mendes, de 17 anos, fez a sua primeira exposição colectiva, no que foi acompanhado inicialmente por mais 5 jovens que ainda receberam a visita de outros 2 na parte final da referida mostra. E passou com distinção. De forma que se quiserem transformar o ateliê  num caso de sucesso a 2-3 anos não tem nada que saber: dispensem (se possível, recebendo uma compensação) todos aqueles que os mais jovens destronaram e não cabem realisticamente no grupo de 18 (poupando assim nas tintas), mantenham cada um dos putos mais umas épocas (pelo menos até haver opções igualmente  interessantes provenientes das gerações abaixo) e todos os anos contratem só 2 (se sobrar algum, 3) grandes mestres para os enquadrar e melhorar. E guardem a experiência de Mathieu e a combatividade de Acuña para o casamento ser perfeito.

 

Ticiano do "Tudo ao molho...": Jovane Cabral (hat-trick para "Castigo Máximo"). Menções honrosas para Nuno Mendes, Eduardo Quaresma e Matheus Nunes. Camacho esteve um pouco abaixo do nível regular de toda a restante equipa.  

 

P.S. O Sistema? Continuamos com alguma dificuldade de penetração pelo meio, hoje resolvida pela pujança da Ala dos Namorados, a banda esquerda, com bonitas combinações entre os jovens Nuno Mendes, lateral/ala e Jovane, interior.

 

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18
Jun20

Tudo ao molho e fé em Deus

O Lampionato voltou!


Pedro Azevedo

O futebol português é muito divertido. Por exemplo, na conferência de imprensa após o jogo em Vila do Conde, os jornalistas indagaram Bruno Lage sobre as razões da reviravolta benfiquista. O tom geral entusiástico das perguntas fez-me por um momento acreditar que estariam a interrogar um Prémio Nobel da Física sobre a descoberta da radiação cósmica de fundo e seu contributo para um melhor conhecimento da estrutura do Universo. Em resposta, não perdendo a compostura, o próprio treinador benfiquista pareceu personificar o papel de laureado, valorizando muito as virtudes da tal Estrutura e das opções de fundo que tomou. Curioso, fui ver as imagens do jogo. Devo dizer que fiquei um bocadinho decepcionado. É que se por um lado confirmei, e por duas vezes, a (ir)radiação de fundo, vermelha por sinal, por outro verifiquei que ela deveria ter sido atribuída a Luis Godinho e não a Lage. E ainda apanhei o Carvalhal a dizer que já conhecia muito bem o futebol português. Qualquer adepto do Sporting também. Como tal, nem estranhei que o treinador vilacondense, certamente com medo de um castigo, não tenha apontado o dedo a ninguém. O problema é que, se o braço estiver sempre encostado ao corpo (*), não só apontar o dedo se torna humanamente impossível como o contorcionismo e o ilusionismo irão continuar. E, para completar o circo, os palhaços também. Diz(em) que é da educação (física, não cívica)... 

 

(*) O braço encostado ao corpo não cauciona que um jogador o use ostensivamente para desviar a trajectória da bola dentro da área. Na minha opinião, ficou um penálti por marcar a favor do Rio Ave quando o jogo estava empatado e os vilacondenses tinham menos 2 jogadores em campo. 

14
Jun20

Nobody expects the Spanish Inquisition(*)


Pedro Azevedo

(*) Inclui "Argument Clinic". Com um abraço ao Luís Ferreira e ao Sportinguista de 5 votos pela inspiração para o Post.

13
Jun20

Tudo ao molho e fé em Deus

“Jovanotti”, o rap(az) da Formação a dar música em Alvalade


Pedro Azevedo

Três meses depois, o Sporting voltou a apresentar-se em Alvalade. Ou àquilo que as televisões garantiram ser Alvalade, podendo perfeitamente ter sido um estúdio na Venda do Pinheiro, que isto dos Reality Shows que apresentam a banalidade do quotidiano só precisa de um cenário a condizer. Com o suposto regresso a casa, retornou também a ladainha da inexperiência e juventude dos jogadores como causa próxima de uma exibição menos conseguida, reminiscência daquelas conferências de imprensa de Silas em que ele encontrava sempre uma boa justificação para a derrota na utilização de jovens da Formação. O problema destas coisas é termos memória e a alternativa aos jovens da Academia remeter-nos sempre para aqueles "gloriosos" meses vividos anteriormente com as cantorias de Jesé, os tropeções na bola de Bolasie e a enfermaria de Fernando. Aquilo é que (não) era! Para quem já se esqueceu, nada como o momento revivalista que consistiu na troca do jovem Matheus Nunes pelo Eduardo Pés de Barro, esse personagem tão vítima da sua própria inocência que mais parece saído de um filme de Tim Burton (Batman, o argentino, hoje não actuou) com enredo baseado num sonho do rei Nabucodonosor da Babilónia (*). Foi elucidativo!

 

(Verdade seja dita que pelo menos Ruben Amorim tem o mérito de ser consistente nas suas apostas, não desistindo dos jovens à primeira contrariedade e dando-lhes estabilidade e confiança para desempenharem o seu papel da melhor forma.) 

 

O Departamento da Defesa do Sporting voltou a ter a sua sede no Pentágono, realidade que só por si já faz de Ruben Amorim um líder NATO (ou será 'nato'?) em tempo de Guerra Fria em Alvalade. Hoje a missão era passo a Paços destruir o submarino amarelo. O Pentágono, como já se sabe, é compreendido por três centrais e dois trincos que jogam tão perto uns dos outros que o objectivo será certamente entre eles existir um "Ground Zero". Para complicar um pouco mais a tarefa, Mathieu, o Ministro da Defesa e aquele que tem mais saída de bola, não jogou. Valeu então a maior desinibição de Matheus Nunes face ao jogo de Guimarães e o regresso após lesão de Wendel para que o Sporting conseguisse ter algum jogo interior de aproximação à área adversária. Ainda assim, a circulação fez-se essencialmente em zonas muito recuadas do terreno, entrecortada por chutões para a frente (ou atrasos para Max) quando a pressão pacense era mais eficaz e deixava a nu a falta de saída com bola de Coates e Borja. Apesar do controlo geral das operações, os leões na primeira parte só conseguiram criar perigo numa desmarcação subtil de Vietto para Sporar que o esloveno desperdiçou em frente da baliza. Com esta acção, a sua única digna de registo, Vietto deu por terminada a participação no jogo, pois pouco depois sofreu o que pareceu ser uma luxação num ombro. Entrou Plata, e o Geraldes lá ficou a fazer contas aos 10 minutos da ordem que lhe haveriam de caber quando o jogo estivesse em desordem e a bola só andasse pelo ar. No fundo, àquilo que os especialistas designam de uma oportunidade perdida...

 

Regressados do balneário, os leões voltaram a ter em Jovane um dinamitador do jogo. Logo a abrir, o cabo-verdiano entrou em aceleração pela esquerda, driblou dois pacenses sem passo para o acompanhar e serviu um desmarcado Sporar para um golo que teria sido fácil caso o esloveno não tivesse tentado antecipar a jogada dando um passo a mais. Não conseguindo assistir, Jovane procurou resolver por ele próprio: chamado a cobrar um livre directo à entrada da área, o avançado arrancou um míssil indefensável que bateu na quina da barra e ressaltou para dentro da baliza. Matheus Nunes ainda recargou para golo, mas, como a transmissão televisiva esclareceu, a bola já tinha entrado. O Sporting apanhou-se merecidamente na frente do marcador, mas nos últimos 20 minutos, com a substituição de Matheus por Eduardo, acabaria por perder o controlo das operações a meio-campo. Os pacenses começaram a explorar debilidades nossas, como a falta de velocidade de Coates, o deficiente posicionamento de Borja, ou as perdas constantes de bola de Camacho - Quaresma foi de longe o nosso defesa mais competente - , e tiveram uma óptima oportunidade nos pés de João Amaral. Max esteve à altura e defendeu, mas Rui Costa apitou penálti por alegada falta cometida pelo colombiano Borja. O VAR acabou por aconselhar a mudança de decisão e nos lares Sportinguistas por todo o mundo respirou-se de alívio. Até ao final do jogo, os leões não conseguiram segurar a bola, com Plata a ligar o complicómetro vezes de mais para o pobre coração de um adepto, pelo que o resultado esteve sempre incerto. Acuña, fora de forma, saiu e deu lugar a mais uma estreia a assinalar, a do jovem Nuno Mendes. Max, por duas vezes, voltou a evitar o pior na melhor fase do Paços de Ferreira. No entanto, o jogo não terminaria sem que mais uma magistral arrancada de Jovane criasse sensação de golo. Infelizmente, a bola estrelou na barra, tal a fervura aplicada no remate.

 

Enfim, ganhámos! E à falta de nota artística (por exemplo, Benfica e Porto têm sido de uma pobreza franciscana), três pontos e sete jovens da Formação lançados (não considero Camacho, que custou 5,6 milhões de euros e saiu da Academia com, creio, 13 anos) merecem uma boa nota técnica. Só espero é que a necessidade de "nota" para pagar tantas contratações cirúrgicas (ouro, prata, bronze, ferro e... barro, muito barro) não leve a que alguns saiam prematuramente, não concretizando o seu potencial desportivo connosco. Em especial o Jovane, o mal-amado de que tanto gosto.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Jovane Cabral (2º jogo consecutivo). Menções honrosas para Eduardo Quaresma, Max, Wendel e Matheus Nunes. Pela negativa destacaram-se Camacho, Borja, Plata e Eduardo. Os restantes estiveram num nível mediano.  

 

(*) O sonho de Nabuconodosor continha uma estátua de um homem imóvel (de ouro, prata, bronze, ferro e barro), que seria a interpretação da manutenção do seu império até ao final dos tempos. Mas, devido à fragilidade do barro, bastaria uma pedra para destruir o sonho do rei e 24 anos após a sua morte a Babilónia haveria de ser conquistada pelos persas de Ciro, o Grande. 

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07
Jun20

Pedras na engrenagem encarnada


Pedro Azevedo

A  semana do Benfica ficou marcada pela pedrada. Tudo começou na demissão do seu presidente da AG, uma pedrada no charco, ou melhor, um canhão de Nazaré, abrindo uma onda de contestação à Direcção que foi logo surfada por putativos candidatos à presidência do clube. Seguiu-se-lhe mais um episódio canalha de violência no futebol português novamente perpetrada contra os profissionais do chuto na bola. Da pedrada alegórica passou-se (o que "passou-se"?) para a literal, com um ataque ao autocarro do Benfica do qual resultou ferimentos em dois jogadores (Zivkovic e Weigl). Um momento de terror para os visados, pelo menos a atestar pelas declarações da mulher de Weigl, que se encontrava a falar telefonicamente com o marido quando o incidente ocorreu. Finalmente, o jornal Público denunciou alegados "acordos de dependência" entre o clube da Luz e o Desportivo das Aves que o Benfica classificou de "legais e normais no futebol e em outras sociedades comerciais", ficando a ideia que do ponto de vista estrictamente da ética as explicações se assemelharam a um 'quem nunca pecou que atire a primeira pedra'. 

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03
Jun20

The roof is on fire


Pedro Azevedo

Ler Parábola , do José Navarro de Andrade, em És a nossa FÉ.

 

Alternativamente: uma obra começou pelo telhado e não pelas fundações. O telhado está a arder. O Chefe dos Bombeiros escolhe ignorar os sinais de fumo. O Presidente, o da Junta, opta por não pôr água na fervura. O povo divide-se entre os que não veem o fogo, quem o quer atear (o que também não está certo) e aqueles que desejariam combatê-lo mas não têm como. Os teólogos desta religião pagã não põem as barbas de molho e preferem discutir o que é um incêndio. Como diria Rimbaud, isto é como viver uma temporada no inferno, em que todos os sonhos inspiradores se desvanecem e os demónios aterrorizantes aparecem. Mas estamos a discutir o telhado? Este Sporting cada vez mais se assemelha ao escárnio de "Uma Ilha na Lua", do Blake, ou a um castigo de Sísifo, um sem-propósito. Há lá obra que se sustente pelo telhado!? Que se dane o telhado, bom seria tratar-se das fundações! Querem pôr as mãos à obra? Pelo Sporting, e só pelo Sporting? Deixando os maniqueísmos de lado e pensando no bem maior? Todos? Ontem, já seria tarde... 

31
Mai20

Tudo ao molho e fé em Deus

Dicionário Sporting Editora


Pedro Azevedo

A

Academia - Escola certificada sita em Alcochete que forma abundantemente jogadores de futebol de qualidade, mais tarde convertidos em ginastas por uma visão superior em que a equipa principal do Sporting é um trampolim e não um fim.  

 

Alcochete - Espaço vanguardista onde há 2 anos se testaram os primeiros equipamentos de protecção para o rosto no âmbito da prevenção da Covid-19. Os resultados foram muito pouco animadores e para alguns implicou um prematuro confinamento forçado...

 

Alma - O segredo do negócio.

 

Aurélio Pereira - O Descobridor. Responsável pelo aparecimento de Futre, Figo e Ronaldo. O Senhor Formação (menção também para César Nascimento e Osvaldo Silva).

 

B

"Benchmark" - Padrão usado para aferir o mau desempenho dos nossos dirigentes.

 

C

Campeão - O Santo Graal de todos os Sportinguistas. 

 

Cheque - Imortalizado por Luís Duque, quando acompanhado de uma vassoura visa dar provisão a novas investidas ao mercado a fim de que a vassoura volte a actuar, e assim sucessivamente num ciclo infernal de 360º até ao esgotamento de todos os nossos recursos materiais.

 

Claques - Metamorfose do batuque do futebol espectáculo para o petardo do futebol negócio onde todos querem o seu quinhão. 

 

Comunicação - Som desarmónico, de vibrações irregulares. 

 

Contratações cirúrgicas - Operação de barriga aberta (laparotomia) às finanças do leão que deve ser executada com o paciente sócio em estado de completa sedação. 

 

Croquette - Figura da mitologia Sportinguista inspirada no nome de um antigo accionista de referência do Totta (também com 2 "t"). Semelhante a conceitos como "sportingados" ou "esqueletos", no fundo mais uma dispersão de identidade perfeitamente evitável num clube de implantação nacional e com uma base de apoio transversal à sociedade portuguesa.

 

D

Damas (Vítor) - Guardião da verdadeira alma leonina.

 

E

Esqueletos - Expressão dedicada a sócios indeterminados do Sporting que aparentemente saem de um armário na visão delirante de um presidente. (Nota do autor: nos armários cá de casa só há roupas e porcelanas.)

 

Exuberância irracional - Termo popularizado pelo antigo presidente da Reserva Federal norte-americana (FED), Alan Greenspan, para indicar o sobre-aquecimento do mercado accionista. No Sporting refere-se ao desnecessário ímpeto "facebookiano" pós-derrota de Madrid que acabaria por marcar o início do fim da presidência anterior. 

 

F

Figo - Bola de Ouro e fruto da nossa Formação.

 

"Forever" - Estado transitório que não augura nada de bom para o futuro.

 

Formação - Placebo utilizado em momentos de crise para desencadear reacções psicológicas positivas nos pacientes sócios e adeptos.

 

Fraguito - Classe sem rodilhas. 

 

G

Gamebox - Cartão de ingresso ao José Alvalade que dá acesso a grandes espectáculos... de pirotecnia. 

 

H

Herança - Legado que passa de presidente para presidente do Sporting, geralmente usado como desculpa para o insucesso. 

 

I

Idiotas úteis - Todos aqueles que não se resignam com o estado do leão.

 

J

Janela - Antigo dirigente leonino e cartilheiro-mor dos DDT do futebol português conhecido pela difusão da Cartilha de João de Deus dos Pobres de Espírito e da Alegoria da Caserna do filósofo Glutão. Tem um grupo de seguidores denominado de Testemunhas de Janelá. 

 

João Rocha - presidente visionário, inspirador e fomentador do ecletismo do Sporting. Três vezes campeão nacional pós-25 de Abril.

 

Jordão - Pintor de belos quadros dentro e fora do campo. Aquele golo de calcanhar contra o Porto foi uma tela impressionista. A Gazela de Benguela, rápido e enleante com a bola nos pés.

 

Joaquim Agostinho - Paradigma de um leão que passa a vida a pedalar, nunca anda para trás e quando cai é em glória. Um exemplo alegórico para todos nós.

 

K

Kmet - Que mete um buraco na tesouraria. Tipo de contratação favorita de qualquer dirigente leonino.

 

L

Lopes (Carlos) - O maior dos maiores para os Leitores de "Castigo Máximo". Orgulho!

 

M

Mamede - Em Estocolmo, onde morreu a razão (Descartes), (re)nasceu a emoção de ser português. 

 

Maniqueísmo - Divisão inglória entre dois grupos de radicais Sportinguistas estimulada por quem vê nisso uma oportunidade para continuar a reinar. Os moderados continuam a aguardar o resultado de um jogo que terminará com a derrota de ambas as partes e, principalmente, do Sporting.

 

Manual para Burros - Sinal de decadência final de um regime que chegou a revelar-se bastante auspicioso.

 

Manuel Fernandes - O Capitão da minha geração. Duas vezes campeão nacional e 4 golos nos 7-1 ao Benfica. 

 

Moniz Pereira - O Senhor Atletismo.

 

N

Niilismo - Com o vazio vem o deixar de acreditar seja no que for, porta aberta para o indesejável vale-tudo.

 

Novo normal - Termo usado nos negócios para definir as condições financeiras emergentes a uma crise. No Sporting refere-se ao período subsequente à saída do presidente João Rocha, tempo esse entrecortado por alguns óasis no deserto que se viriam a revelar uma miragem. 

 

O

Ó Teresa! - Interjeição repetida 114 vezes por um Sportinguista em banho maria.

 

P

Passivo - Responsabilidades crescentes contraídas perante terceiros aquando de cada nova voltinha no carrossel do mercado.

 

Peyroteo (Fernando) - Sinónimo de golo em todas as línguas. E quem disser o contrário é má língua.

 

Peyrotear - Neologismo de marcar golos.

 

Planos (A, B, C) - "May day, may day". "Houston, we have a problem!".

 

Provisório - Estado transitório que afecta qualquer treinador do Sporting, excepto aqueles que usam risco ao meio (Paulo Bento e Jorge Jesus).

 

Q

Quinze milhões - Mendilhões.

 

R

Resiliência - Anglicismo próprio de um "british" Sporting que tem na resistência dos seus adeptos o seu maior activo. 

 

Ribeiro Ferreira - 6 títulos de campeão nacional (em sete). O presidente com mais vitórias na prova máxima do calendário futebolístico nacional.

 

Ronaldo - O Maior da Cantareira. Made-in Sporting, está claro. Multi-Bola de Ouro e um número de golos superior ao de mulheres do Rei Salomão (não é fácil).

 

Rulote - Courato de software by Zegna, perdão, Zenha.

 

S

Sportingado - Mais uma expressão evitável dedicada a sócios do Sporting.

 

Sporting - A maior potência desportiva mundial.

 

Sportinguistas - Adeptos do maior clube do mundo.

 

T

Tarefa - Missão de curto-prazo entregue a Leonel Pontes, semelhante aos 12 trabalhos de Hércules.

 

Tronco - parte do corpo humano de um Sportinguista sacrificada pelo actual presidente em nome da adição de mais membros inferiores, ou não fosse o futebol a actividade principal do clube. 

 

U

Unir - Acto de alimentar discórdia ou desarmonia entre sócios e adeptos com o objectivo de manutenção nos cargos. 

 

V

Vazio - Resultado final da subtração das partes obtido por Frederico Varandas.

 

W

Wolverhampton - Sinónimo de Protocolo Chinês.

 

X

Xanax - Futebol de passe/repasse praticado pelo Sporting no tempo de Silas com o objectivo de se sagrar campeão... da posse de bola.

 

Y

Yazalde - Ó Varandas, isto é que é um avançado-centro, pá!

 

Z

Zenha - Introdutor da rulote e do protocolo chinês no léxico leonino e criador de um singular novo conceito de "reforço".  

30
Abr20

Tudo ao molho e fé em Deus - Vem aí a bola


Pedro Azevedo

Segundo alguns, o futebol português é uma farsa. Eis então que chega a pandemia e tudo muda, e o futebol português passa a ser a única indústria nacional em que os profissionais andam sem máscara. Sem dúvida, uma vitória da transparência do nosso futebol contra a maledicência. Ou não...

 

Estou curioso para ver como se procedem os jogos. Não pondo totalmente de parte a possibilidade de os jogadores aparecerem em campo com capacetes e viseiras à Girão, o mais certo é a marcação à zona imperar sobre o homem-a-homem. O VAR terá o seu trabalho muito facilitado pelas regras de distanciamento social, especialmente devido aos nítidos (2 metros) foras de jogo e inexistentes penáltis. Idém para o árbitro auxiliar, o qual só terá de se preocupar em proteger a cara caso o vento impulsione a bandeirinha na sua direcção. Em contrapartida, os árbitros terão um trabalho intelectualmente extenuante, na medida em que terão de puxar muito pelas sinapses para descortinarem uma razão para advertirem com cartões os jogadores do Sporting. (Se o "Corona" tivesse ocorrido no tempo do José Pratas, aconselhar-se-ia uma viseira aerodinâmica para facilitar a corrida do árbitro ao longo do campo.) As Tácticas da Tosse, do Corrimento Nasal e da Expectoração serão à partida mais eficientes e capazes de proporcionar desmarcações e oportunidades de golo do que os tradicionais 4-3-3, 4-4-2 ou 4-2-3-1. A Liga de Clubes, atenta às recomendações da Direcção Geral de Saúde, lavará muito bem as mãos (como Pilatos). 

 

À partida vai tudo correr bem. A não ser que um Paulinho Santos ou Rambo Dias desta vida se venham a tornar mais perigosos para a integridade física dos jogadores do que o próprio Coronavírus. Cá estaremos para ver... pela televisão, o futebol como Reality Show. Certo, certo é que no fim vai ser uma alegria. Para os confinados dos Aliados ou do Marquês, obviamente...Liga_NOS_logo.png

22
Abr20

O "espectáculo" do futebol


Pedro Azevedo

Quem olhe para os clubes portugueses fica com a ideia que não passam de um interposto de compra e venda de jogadores. Tudo em nome do negócio, claro, uma actividade económica que os manuais da especialidade surpreendentemente dizem ter o objectivo de gerar lucro, lição a que os clubes portugueses e o Sporting em particular ainda não terão chegado. 

 

Antigamente, referíamo-nos ao futebol como um espectáculo. Curiosamente, nessa época do entretenimento, os clubes portugueses não padeciam das dificuldades financeiras de hoje, eram bem mais competitivos na Europa e os seus estádios apresentavam uma muito melhor moldura humana. Mas, lá está, eram muito mal geridos. Porquê? Porque não tinham como objectivo o lucro...

 

Nesta lógica de substituição do espectáculo desportivo pelo negócio quem parece ter ficado a perder foi o público que dá cor e vibração aos jogos nos estádios, essa mole de ingratos "clientes" (outrora considerados o sal do futebol) que está sempre a verberar o excelso trabalho de diligentes especialistas na administração dos clubes, que passou a ser subalternizado em função da compra/venda de jogadores e dos horários impróprios dos jogos impostos pelas transmissões televisivas. Até que chegou o Coronavírus, o risco de contágio obrigou ao isolamento e o futebol redescobriu que não pode viver sem público, a razão e a paixão de todo o fenómeno à sua volta. 

 

Bom, na verdade, até pode. É que entretanto há uns senhores que querem servir o futebol pela televisão, sem público nas bancadas. Já sabíamos que tínhamos uns estádios herdados do Euro 2004 que eram uns elefantes brancos, o que não tínhamos enxergado é que ao Sporting e todos os outros teria bastado um terreno relvado em vez de se andarem a endividar para construir uma arena à volta. Agora só falta a moda pegar, ultrapassar fronteiras e alastrar a outros eventos. Desse modo, ainda veremos o público através de tele-chamada a decidir se o Morante corta uma orelha, duas, ou o rabo ao touro, ou uns enxames de melgas a fazerem coro num concerto dos Rolling Stones. Tudo em nome do negócio que está no sangue (o suor é dos jogadores, as lágrimas são nossas) destes promotores. Vai ser o máximo! Ou, um "espectáculo"...

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18
Abr20

Dignos de REGISTO...


Pedro Azevedo

... os mais recentes desenvolvimentos à volta do caso Rui Pinto.

 

P.S. Dedicado a quem verberou a atitude daquele juíz que requereu escusa em processo que dizia respeito ao clube do seu coração.

13
Abr20

Factura vs fartura


Pedro Azevedo

Diz o jornal A Bola que o Sporting facturou 155,45 M€ em vendas de jogadores, em ano e meio de actividade da Direcção presidida por Frederico Varandas. Pensei que era motivo suficiente de festejo e preparei-me para abrir uma Dom Pérignon que guardara para uma ocasião especial. No entretanto, fui dar uma vista de olhos aos Relatório e Contas de 2018/19 e do 1º semestre de 2019/20 à procura dos grandes lucros. Li, reli e concluí que o Resultado acumulado desses 2 exercícios tinha sido negativo em 5,049 M€. Para além disso, não só o Balanço como os indicadores disponíveis através do Transfermarket mostravam um enfraquecimento profundo do valor do plantel em igual período, mesmo considerando a aquisição de 14 novos jogadores. Lá voltou a Dom Pérignon à despensa...

 

P.S. Mesmo considerando a transferência de Bruno Fernandes, ocorrida em Janeiro de 2020, o valor total bruto de vendas acumulado desde 1 de Julho de 2018 é de 178,75 M€. O valor liquido das vendas (expurgado de gastos com transacções), incluindo a trf de Bruno Fernandes (comissão anunciada de 5,5 M€), é de 150,908 M€ (poderá faltar aqui outro valor recebido durante o mês de Janeiro de 2020 que perfaça os tais 155,45 M€ anunciados, o qual já será visível aquando da publicação do R&C de Março de 2020). Entre 1 de Julho de 2018 e 31 de Dezembro de 2019, o valor liquido das vendas de jogadores foi de 101,408 M€ e o bruto de 123,75 M€. Nesse ano e meio, a SAD apresentou um prejuízo acumulado de 5,049 M€.

10
Abr20

O futebol em Portugal


Pedro Azevedo

Os portugueses não amam o futebol. Isto é, até gostam do clube do seu coração, ainda que este sentimento se expresse mais pelo ódio a um rival do que pelo amor à sua equipa de eleição. Também não ajuda o facto de no futebol português vigorar a lei do mais forte, sendo este genericamente aceite como aquele que melhor manobra nos bastidores. Um futebol assente neste pressuposto será sempre um jogo capaz de fomentar todo o tipo de ódios e de recalcar um sem número de frustrações. Logo, o produto é-nos vendido de forma totalmente errada, havendo ainda muito boa gente com responsabilidade que crê ser o ruído que dá popularidade ao jogo. Essas pessoas geralmente têm o mundo do tamanho de uma azeitona e ainda assim querem trincá-lo com toda a força mesmo que aqui e ali uma dentada mais forte os faça perderem uns caninos. 

 

Uma pessoa passa fronteiras, vai até Inglaterra e percebe o que é a essência do futebol. Os ingleses são os guardiões do Santa Graal do futebol mundial. Eles amam incondicionalmente o jogo e os grandes jogadores que ao longo dos anos vão fazendo a história do futebol. Não deixam de torcer pelo seu clube, simplesmente sabem admirar a qualidade de um adversário. Acreditam piamente que a emoção nas bancadas está dependente da qualidade dos artistas e que esta sai valorizada se houver critérios uniformes de arbitragem e procedimentos que beneficiem o espectáculo. Os participantes do futebol inglês não estão interessados em criar alçapões por onde as regras se podem temporariamente escoar, quais xico-espertos de ocasião. Não, eles estão empenhados é em dar transparência às coisas de forma a que ninguém questione ou duvide do produto. E para quê? Para que a paixão do adepto seja direccionada para o jogo que é disputado nas quatro linhas durante os 90 minutos. E quando recrutam finos solistas, fazem-no com a percepção de que isso vai estimular mais o amor pelo jogo. 

 

Azar o nosso que importando tantos anglicismos não fomos capazes de adquirir a verdadeira substância das palavras. "Fair" quê?

06
Abr20

O amor em tempos de cólera

O amor em quarentena


Pedro Azevedo

Como diria o Alexandre O'Neill, ser Sportinguista é uma coisa em forma de assim. Não é mau de todo, diga-se. É mais impositivo do que ser "assim-assim" e menos radical do que ser "assado", embora muitos Sportinguistas frequentemente passem pelas brasas. Aliás, essa atracção pelo abismo é algo que faz parte do nosso ADN. Umas vezes a culpa nem é nossa, como quando somos compelidos a vivenciar o inferno de Alder Dante (o apanha-bolas no nevoeiro das Antas), de Veiga Trigo (Silvinho no berço da nacionalidade), João Ferreira (mão de Ronny), Paraty (carga de Luisão) ou dos inefáveis irmãos Calheiros. Outras vezes somos nós que incendiamos Roma e depois criamos trincheiras onde vamos cavando as nossas diferenças. É também uma forma singular de "jogarmos ao guelas", com covinhas e tudo, em que cada jogador tenta denodadamente "matar" o inimigo interno até que no fim chega o adversário externo munido de um abafador e nos leva os "berlindes" todos. 

 

Em cada Sportinguista há um oráculo: muito antes do Coronavírus já os Sportinguistas haviam experimentado o que é viver colectivamente de forma separada. Com efeito, nós estamos (somos?) como um tubo de ensaio onde se adicionam "reagentes" como a água e o óleo que periodicamente é submetido ao Bico de Bunsen. Por isso, o ambiente entre nós é constantemente quente, os ânimos estão muitas vezes inflamados e há gente que fica mesmo fula (ou, alternativamente, "está com os azeites"). Creio até que a portuguesíssima citação de que "em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão" nos é dedicada. Nesse transe, no Sporting existem pelo menos três milhões e meio de razões, cada uma com a sua idiossincrasia, pelo que convertê-las numa razão comum faz os doze trabalhos de Hércules parecerem uma coisa de meninos. 

 

Ninguém sabe quando esta outrora maravilhosa aventura colectiva irá terminar. Mas todos pressentem que não irá acabar bem. A não ser que o amor triunfe. O problema, já dizia o poeta, é que o amor é fogo que arde sem se ver, ou seja, é como o metanol que precisa de muito carvão para se processar. O risco é provocar-se um incêndio invisível e ter de se atirar água para todos os lados. Menos mal, porém. É que meter água por todos os lados é coisa que nunca constituiu um desafio no Sporting. Haja saúde! 

P.S. Excelente e solidária iniciativa dos Núcleos do Sporting, levando as compras a quem precisa e não se pode deslocar. São estas atitudes que nos devolvem a esperança.. 

22
Mar20

Tudo ao molho e fé em Deus

A paragem do tempo


Pedro Azevedo

Há exactamente duas semanas atrás tinha deixado Alvalade com a certeza de que tínhamos ultrapassado as Aves sem contrair uma gripe. Agora, quinze dias depois, eis-me retido em casa perante a pandemia do coronavírus. Tudo parou: a economia parou, o futebol parou, nós parámos de circular. Dizem-nos que parados é que estamos bem, a ver se o nosso SNS consegue respirar o suficiente para dar conta do recado. Faz sentido, na medida em que este vírus ameaça a nossa vida e a daqueles que estão à nossa volta. Deste modo, pela primeira vez desde que me conheço, ganhar (comprar) tempo passou a ser sinónimo de deixar correr o tempo. Quem diz deixar correr o tempo, diz deixar correr o marfim, algo que, já se sabe, é particularmente caro ao cidadão Jorge Nuno Pinto da Costa. Por falar em Pinto da Costa, o azul e branco é que está a dar. Pelo menos a avaliar pela quantidade de vezes que o usamos para lavar as mãos. Não no sentido que Pilatos (ou o Benfica) lhe deu, bem entendido, que a Covid-19 é uma doença que não nos permite assobiar para o lado (muito menos com um apito), mas como medida essencial de higiéne que visa prevenir o contágio. A prevenção passa também muito pelo civismo e sentido de responsabilidade de cada um. Por ironia, quis o destino que um maior sentido colectivo dos portugueses se viesse a manifestar pelo isolamento físico, a quarentena. Nada que seja novidade para todos os Sportinguistas, habituados que estamos ao isolamento que os senhores do futebol português vêm impondo ao nosso clube ao longo dos anos. Mas, tal como na vida, também no futebol o verde é a cor da esperança. Mesmo sabendo-se que, à falta de comunicação presencial, os emails se vão intensificar...

 

Mantenham-se seguros e saudáveis!

#estamosjuntos

14
Mar20

Dogmáticos "ma non troppo"


Pedro Azevedo

O Sporting é um clube curioso onde a antecipação de eleições merece um dogmático não baseado em "os mandatos são para cumprir", mas a eventual antecipação de receitas que em muito ultrapassam o corrente mandato nem sequer precisa de ir a Assembleia Geral (de clube e SAD). 

 

P.S. Não se pode questionar a interrupção de mandato, mas pode-se esvaziar o próximo mandato...   

12
Mar20

Contorcionismo


Pedro Azevedo

Depois de ter promovido Frederico Varandas "ad-nauseam" até à presidência do Sporting, Luis Paixão Martins classifica agora de "triste" o mandato do actual presidente e diz que o Sporting precisa de "eleições clarificadoras" (NA: clarificadoras ou decisivas para a sobrevivência do clube?). "Too late to say I'm sorry", não é Luis Paixão Martins? Nada tema, porém: seguir-se-á um novo ungido pelas agências de comunicação e tudo continuará como dantes no quartel de Abrantes. Responsabilidade? Não. Um dia vendemos um detergente, outro dia um presidente...

 

P.S. Nas eleições do Sporting todos os candidatos deveriam ser obrigados a declarar os gastos incorridos e financiadores da campanha, bem como eventuais compromissos futuros estabelecidos que envolvam o clube. 

03
Mar20

Uma nau à deriva


Pedro Azevedo

Perdida no mar, sem instrumentos nem costa a bombordo que lhe permita sequer uma navegação à vista. Às tantas, tolhido pelo Sol, o capitão-mor da embarcação julga ver uma Ilha dos Amores, ou Amorins. Será certamente mais uma alucinação, semelhante a outras que já custaram as velas do navio. Sem forma de fugir à aguardada tempestade, em breve se perderão também os mastros. O naufrágio está iminente. Em terra, desprezando o que os ventos lhe dizem, o Almirante Alves filosofa sobre a nau catrineta de Almeida Garrett e sonha vê-la a seco, a varar. O povo? Cansado de ser comparado aos Velhos do Restelo, ao povo já falta a energia e a coragem para dar por finalizada a desventura. Mas ainda há quem resista e diga não. É preciso terminar com esta expedição!

 

P.S.1. Ler Eça explica muito bem o momento que se vive no Sporting. Em conversas particulares, existe quase unanimidade na avaliação que é feita ao trabalho desta Direcção. Contudo, ela continua a mover-se tal como a Terra de Galileu. O Sporting não pode ser mais uma Farsa de Aristófanes, é necessário que, com urbanidade e sempre tendo presente os valores do clube, nos manifestemos contra este caminho. Eu serei sempre solidário com o meu clube e os seus sócios. Todavia, não me peçam para, por omissão, ser cúmplice do caminho da desesperança. Por isso, aqui e agora, digo BASTA!

 

P.S.2. Hoje, amanhã, daqui a 2 anos, estarei sempre disponível para ajudar o meu clube a regressar a bom porto. Mas é preciso que todos se consciencializem que há caminhos tempestuosos que uma vez percorridos tornam o regresso à bonança muito mais complicado.

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