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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

28
Jun21

Tudo ao molho e fé no Euro21 (ou 20)

Sorte e Hazard...


Pedro Azevedo

A sorte e o azar fazem parte do jogo, mas quando a preparação encontra a oportunidade certa estamos mais perto de ser felizes. Há 5 anos atrás, no prolongamento do jogo dos oitavos-de-final contra a Croácia, Rui Patrício viu a bola beijar o poste direito da sua baliza. No contra-ataque que lhe sucedeu, Ricardo Quaresma marcou o golo que nos qualificou para o mata-mata seguinte. Ninguém acentuou a tónica na sorte lusa ou no azar croata, a imprensa essencialmente assinalou que Portugal ia em crescendo, sendo que a aposta de Fernando Santos em Adrien (secou Modric) para acompanhar William e João Mário - criando-se assim uma coluna vertebral com centro nevrálgico no Sporting - foi dada como determinante para a difícil vitória obtida. A mesma sensação de progressão de Portugal como equipa, já sentida anteriormente aquando do jogo com a França, ficou bem patente ontem em Sevilha. É por isso duro aceitar que tenhamos ficado pelo caminho nestas circunstâncias. Todavia, olhando mais friamente para o processo, é seguro dizer-se que ficámos a meio caminho de uma renovação que nos poderia ter levado ao triunfo. Não deixando de realçar aqui e dar crédito ao facto de a nível do meio-campo ter havido um atempado ajuste - nenhum dos 3 jogadores ontem titulares havia entrado de início nos dois primeiros jogos deste Europeu - , parece-me que a insistência de Fernando Santos num Bernardo Silva em má forma em detrimento de Pote (melhor marcador do nosso campeonato e jogador com passe, golo e inteligência na exploração do espaço entrelinhas) ou mesmo André Silva (circustância em que Ronaldo partiria marcadamente a partir de uma ala, o que defensivamente nos colocaria adicionais problemas perante uma selecção com alas todo-o-terreno) tirou acutilância ao nosso ataque e nem sequer deu uma protecção defensiva adicional à nossa Selecção (Bernardo chegou visivelmente atrasado ao encontro com Thorgan Hazard aquando do golo belga). Assim, não se pode dizer que a vitória belga tenha acontecido por acaso. Pelo contrário, se um jogo é feito de pequenos erros, o atraso de Bernardo na abordagem ao lance provocou o desequilíbrio que na sua origem vir-se-ia a revelar fatal para as nossas aspirações. Não se trata de crucificar Bernardo, até porque a abordagem de Patrício ao lance foi defeituosa (teria bastado um passo em frente ou para a sua esquerda para defender uma bola que entrou sensivelmente a meio da baliza), mas vistas à lupa as coisas são como são. 

 

O principal problema das fases finais das grandes competições mundiais de selecções é o cansaço acumulado que se verifica por saturação de jogos nos melhores jogadores. Por isso, o histórico destes campeonatos é marcado pelo aparecimento de revelações e não tanto pela afirmação dos grandes craques. A frescura torna-se um elemento essencial e não será despeciendo pensar que um dos últimos grandes jogadores que brilharam numa fase final de uma grande competição, Van Basten, beneficiou de ter vindo de uma lesão que lhe poupou grande parte do desgaste da época no AC Milan. Como tal, torna-se fundamental aproveitar o momento de forma de cada jogador e não valorizar excessivamente o seu estatuto. Nesse sentido, Fernando Santos foi procurando adaptar-se progressivamente a esse contexto, mas fica a sensação de que poderia ter feito mais alguma coisa. Ainda assim, a Equipa de Todos Nós perde um jogo que poderia facilmente ter ganho, assim a eficácia tivesse sido razoável. Diogo Jota, por duas vezes, Raphael Guerreiro, Rúben Dias ou André Silva desperdiçaram 5 boas oportunidades e Courtois negou-nos o golo em 3 ocasiões, pelo que Portugal sai do Euro deixando uma boa imagem. Simplesmente, ontem Nª Senhora de Fátima meteu folga. Concomitantemente, Ronaldo, que até fez um muito bom Europeu, não teve oportunidades para marcar, as bolas para golo caíram nos pés e cabeça de outrém, sendo que esse até foi provavelmente o nosso grande azar. Ou Hazard, se quiserem.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Renato Sanches. Criou a primeira grande oportunidade do jogo logo aos 6 minutos, após arrancada perpendicular aos centrais belgas que permitiu a Jota uma situação privilegiada para alvejar a baliza de Courtois. Noutra ocasião, passou De Bruyne e Witsel num misto de força e velocidade e abriu exemplarmente na direita, criando um desequilíbrio a que faltou a continuidade dos outros jogadores. No segundo tempo voltaria a levar Portugal para a frente. Já muito cansado, acabaria rendido a pouco mais de 10 minutos do fim. Deu tudo o que tinha.

 

P.S. Optei por um "Tudo ao molho..." mais analítico. O meu sentido de humor ainda não se reencontrou após as "moules" com batata frita que me custaram a engolir ontem.

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27
Jun21

Santos, deus e os diabos


Pedro Azevedo

Isidoro, o Hispalense, bispo de Sevilha, que viveu na transição da Antiguidade Tardia para o início da Idade Média, escreveu um dia o Livro das Sentenças, publicação onde perorou sobre a receita para combater o mal encarnado no diabo. Hoje, no La Cartuja, majestoso palco andaluz deste jogo a contar para os oitavos-de-final, (Fernando) Santos procurará replicar Isidoro na busca de um antídoto para maniatar os "diables rouges" que vêm da Bélgica. Entre agentes do "bem" e do "mal", anjos e demónios, destaca-se o deus Cristiano, o português que aos 36 anos apresenta números sobrenaturais neste Europeu. Sendo certo que a influência de Ronaldo é indiscutível, será ao nosso meio-campo que teremos de pedir protecção neste conflito. É fundamental parar De Bruyne e não baixar linhas que permitam a Lukaku e Eden Hazard encontrar mais facilmente espaços curtos na nossa área. Assim, é provável que o Engenheiro venha a montar uma teia onde Moutinho tenha a dupla função de esconder a bola e condicionar a acção do mago belga, Renato seja o dinamitador que pulveriza a linha média e expõe os centrais da Bélgica e Palhinha alargue a zona de influência atribuível a um médio defensivo e saia em pressão sobre a bola. Todavia, para que o condicionamento dos belgas seja efectivo, fundamental será contar com a cooperação dos alas. Ao contrário do ocorrido contra a Alemanha, terá de haver solidariedade destes para com os laterais. Desse modo, talvez não fosse má ideia lançar Pedro Gonçalves, um jogador com intensidade defensiva e dotado de uma inteligência que, na posse de bola, lhe permite explorar os espaços entrelinhas ou encontrar o tempo ideal dos passes de ruptura, além de ter qualidade na finalização. Enfim, os dados estão lançados, a partir das 20h00 começaremos a vislumbrar qual será a sentença.

 

P.S. Contrariando o shakespeareano "algo vai mal no Reino da Dinamarca", os dinamarqueses vendem saúde e jogam um futebol de grande vocação ofensiva. Vinte e nove anos após a inesperada vitória no Euro que pôs em causa os planos da pólvora da preparação das equipas - devido à desagregação da qualificada Jugoslávia, os jogadores nórdicos foram recrutados à última hora em "resorts" onde passavam tranquilamente férias - e trinta e sete anos depois da célebre "Danish Dynamite" - "we are red, we are white, we are danish dynamite" dos extraordinários Elkjaer Larsen e Michael Laudrup, a Dinamarca volta a maravilhar o mundo do futebol. Há que contar com os Vikings (a Suécia também anda por lá). 

24
Jun21

Tudo ao molho e fé no Euro21 (ou 20)

Olimpíadas da Matemática


Pedro Azevedo

Entrámos em campo no terceiro lugar do grupo. Entretanto, paralelamente, disputava-se o Alemanha-Hungria, de cujo resultado, em caso de derrota nossa, dependeria a qualificação lusa. À meia-hora estávamos em primeiro, ao intervalo em segundo. Quarenta e sete minutos de jogo e éramos quarto, logo eliminados, mas à hora de jogo voltávamos a ser o segundo. Para trás ficavam 13 angustiantes minutos em que já nos víamos a observar o Euro dos outros. Por 1 minuto (entre os 66 e os 67 minutos) descemos a terceiro, para depois regressarmos a segundo. Até que a partir dos 84 minutos nos fixámos no terceiro, assim regressando à casa de partida e carimbando o passaporte para Sevilha, cidade que o nosso Ferro Rodrigues pretende ver invadida de portugueses, quiçá nas suas variantes alpha, delta e quejandos. Ufa, estou exausto(!), foram tantas as contas que fiz durante o jogo que estou desconfiado que este grande certame internacional afinal é a Olimpíada da Matemática, torneio em que os portugueses são sempre à partida os grandes favoritos. 

 

A verdade é que depois do Euro 2016 a nossa Selecção desenvolveu uma imunidade de grupo às críticas. O seu líder, Fernando Santos, vai gozando com o que a malta diz até ao momento das grandes decisões, instante a partir do qual põe a teimosia de lado e lança os melhores para dentro do campo. A coisa produz efeito imediato, podendo dizer-se que é remédio Santo(s), desatando a Selecção a jogar futebol e a ultrapassar os incautos adversários como se não houvesse amanhã. Os próximos que nos sairão na rifa serão uns belgas, os primeiros no ranking dos profissionais chocolateiros. E da FIFA, dizem-me. Têm o gigante Courtois e o duende Hazard, o colosso Lukaku e o genial De Bruyne. Mas não têm o Cristiano Ronaldo, o Velho, que alguns dizem estar acabado. Acabado de igualar o recorde mundial de mais golos marcados ao serviço de uma selecção. Acabado de ultrapassar o recorde de mais golos marcados em fases finais de europeus. Acabado de bater o recorde de mais golos marcados no somatório das fases finais de europeus e mundiais. Acabado de terminar a fase de grupos deste Europeu como o melhor marcador destacado (5 golos) da competição. Enfim, acabadíssimo. E depois há um veloz Pepe a viver a jovialidade dos seus 38 anos, um Patrício que realizou a melhor defesa deste Euro, um Renato que é um touro e um ousado Palhinha que até se estreou neste Euro num túnel onde arrancou a crista ao galaroz do Pogba. E ainda resiste o Moutinho, mestre na arte de esconder a bola e de a passar a um só toque, um dos melhores do mundo na modalidade do futebol sem balizas, variante que foi rei no Portugal dos anos 70. Sem me esquecer do Bruno do Sporting e do Manchester que ainda não apareceu na Selecção, dos milhões do Felix que sebastianicamente um dia ainda se capitalizarão dentro do campo, ou do André Silva da Bundesliga, entre outros.

 

Dizem-me que o problema é a Bélgica jogar num 3-4-3. É que a amostra contra a Alemanha não foi nada auspiciosa e teme-se que a coisa se repita. Se calhar, o melhor será o Fernando Santos inspirar-se no Rúben Amorim e aproveitar o cochecimento que os jogadores do Sporting têm desse sistema. Por exemplo, recuar o Palhinha para a linha dos centrais, entregar ao Nuno Mendes a ala esquerda e estrear o Pote com o Jota como enganches do Ronaldo. A verdade é que a defesa dos belgas não me parece por aí além, pelo que saber explorar o espaço entrelinhas compreendido entre médios e centrais poderá ser a chave para a vitória lusa. 

 

Enfim, no Domingo logo saberemos. Para já fica o registo de um empate com sabor a vitória contra o campeão do mundo, tónico certamente motivador. Esperança também no nosso Ronaldo, tão fresquinho que desafia os controladores aéreos e continua a invadir o espaço onde é suposto só circularem os aviões, e no progressivo desenvolvimento da equipa em competição tão típico de Fernando Santos. Definitivamente, há que contar connosco. Num torneio de nómadas, disputado em 11 cidades europeias, o nosso treinador até já anunciou a intenção de deixar as malas em Budapeste. Soou-me a presságio e a um regresso ao passado (2016). Querem ver que...?

 

Tenor "Tudo ao molho...": Renato Sanches

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19
Jun21

Tudo ao molho e fé no Euro21 (ou 20)

Teimosia fatal


Pedro Azevedo

Quando um meio-campo luso meiguinho defronta uma "Mannschaft" agressiva o resultado só pode ser um. Sem intensidade, sem meter o pé, Portugal permitiu que os alemães conduzissem a bola perpendicularmente até às imediações da nossa área e depois escolhessem confortavelmente a melhor opção de passe de ruptura ou atraíssem a nossa equipa para um flanco para depois bascularem rapidamente para o outro. Não sei se Fernando Santos terá anotado a matrícula do camião que nos passou por cima, mas as minhas fontes dão-me conta que os capacetes azuis enviados pela ONU a Munique, William e Danilo, ainda estarão a esta hora a elaborar um relatório dando conta que observaram sempre as movimentações dos alemães à distância. Além de não serem intensos, o par de jarras (sem flor) que Portugal apresentou à frente da defesa mostrou flagrantemente um assustador défice de velocidade aquando da transição defensiva, expondo ainda mais a nossa defesa. Curiosamente, a ver o jogo do banco esteve Palhinha, o Exterminador Implacável, o homem que nunca deixa crescer a relva em seu redor. Como se o desacerto dos médios (Bruno incluído) já não fosse suficiente, assistiu-se a uma exibição desastrada dos laterais Nelson Semedo e Raphael Guerreiro, dois náufragos sempre longe das margens, atraídos que foram sempre para o centro pelo redemoinho de ataques germânicos que aí se concentravam. Para piorar, Rúben Dias e o próprio Guerreiro marcaram os golos que permitiram aos alemães dar a volta ao resultado ainda no primeiro tempo. Para trás já ficara o golo inaugural português, obtido contra a corrente e após um corte efectuado ainda na nossa área por Cristiano Ronaldo que  permitiu uma transição rápida iniciada por Bernardo, continuada com distinção por Jota (excelente amortecimento de peito e altruístico passe para golo) e concluída pelo próprio Ronaldo, o qual entretanto disparara de costa a costa em grande velocidade. 

 

Fernando Santos fez entrar Renato no reatamento. Porém, em vez de substituir um dos duplos-pivô, o Engenheiro tirou Bernardo do terreno. No meio, Portugal continuou a dar bar aberto aos alemães e estes não se fizeram rogados e com gosto anteciparam a Oktoberfest em Munique e marcaram-nos mais 2 golos. Por aí já Rafa estava em campo, desta vez sem carambolas a melhorarem a sua exibição e com culpas no quarto golo alemão da tarde. Com Moutinho em jogo e Renato na zona central (saiu William), Portugal conseguiu reduzir quando Ronaldo retribuiu a assistência de Jota. Renato ainda chutaria com violência ao poste direito da baliza de Neuer, mas esse acabaria por ser o canto do cisne português.

 

A Alemanha mostrou ser uma Selecção a ter em conta, mas a insistência de Fernando Santos numa dupla de médios completamente fora de forma, sem ritmo ou velocidade, descendentes do "laissez faire, laissez passer" de Adam Smith e do liberalismo, ajudou muitíssimo ao resultado final. Foi pena, até porque a linha defensiva germânica mostrou uma falta de velocidade que poderia ter sido mais bem aproveitada se Portugal tivesse conseguido ter mais vezes a bola. Adicionalmente, a perda de Cancelo e a lesão de Nuno Mendes estão a constrangir o desempenho geral defensivo. É certo que Pepe e Rúben Dias são muito bons, mas nem eles conseguem operar milagres a toda a hora. Entretanto, os nossos jogadores Pote e Palhinha, que terminaram a época em muito melhor forma que vários dos actuais titulares (o suplente do Bétis incluído), continuam a desfrutar do sol que neste momento brilha intensamente no centro da Europa, pelo que a única lesão de que poderão padecer será um escaldão.  

 

Do mal o menos, num duelo para homens de barba rija pelo melhor marcador, o nosso homem da Gillette (Ronaldo) igualou (Patrick) Schick como lâminas mais bem afiadas no ataque. 

Hoje foram 11 contra 7 (com favor). Se já 11 contra 11 no fim ganharia a Alemanha (velha máxima do futebol postulada por Lineker), creio que deveremos estar agradecidos de não termos saído de Munique com um resultado de proporções bíblicas. Está na hora de mudar. Scolari (em 2004) e o próprio Fernando Santos (2016) fizeram-no no passado, tenhamos então fé que ainda será possível inverter o rumo dos acontecimentos. A poderosa França está aí à nossa espera e a inação não será prudente, mas sim radical. Porém, é justo dizer-se que não foram só as escolhas individuais que se revelaram determinantes na forma como o jogo nos fugiu. Nesse sentido, o plano de jogo falhou. A equipa afundou constantemente, deu (propositadamente ou não) a iniciativa aos alemães e nunca encaixou o nosso 4-3-3 no 3-4-3 teutónico. Há que, no entanto, não esquecer que Portugal é o campeão da Europa e o vencedor da Taça das Nações. E tal tem muito o dedo de Fernando Santos, o treinador que hoje aqui criticamos, que conseguiu criar um grupo solidário, resiliente  e com uma mentalidade vencedora, valores que nos conduziram à superação no passado. Serão suficientes no actual contexto? O futuro próximo o dirá. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Ronaldo (e ainda há quem ponha em causa o homem...). Diogo Jota, Renato Sanches, Pepe e João Moutinho merecem uma menção honrosa.

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16
Jun21

Tudo ao molho e fé no Euro21 (ou 20)

A Filosofia do Ketchup


Pedro Azevedo

"Os golos são como o Ketchup" - Cristiano Ronaldo 

 

O grande filósofo Cristiano Ronaldo disse um dia que "Os golos são como o Ketchup e quando aparecem vêm todos de uma vez". Lembrei-me disso ontem quando o Renato Sanches sacudiu a garrafa do Ketchup (lâmpada?) e o génio Ronaldo concedeu os 3 desejos, deixando altruisticamente para o Raphael Guerreiro a tarefa de concretizar o primeiro. Foi, no entanto, necessário esperar 84 minutos para que Portugal fizesse baloiçar as redes magiares, tempo exemplarmente gasto pelos lusos com o intuito de contrariar o postulado do Princípio da Impenetrabilidade da Matéria - "Dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo". Para tal, Fernando Santos elaborou uma experiência científica com Danilo e William como cobaias, provando que, em matéria de princípios, até os Princípios da Física não resistem ao futebol português. 

 

Portugal apresentou-se com Rui Patrício como guardião das nossas esperanças e calafrios (ai, ai...). Como o respeitinho é muito bonito, o Jogador do Ano da Premier League (Rúben Dias) foi deslocado para o lado esquerdo da zona central da defesa portuguesa a fim de que o veterano Pepe pudesse jogar de cadeirinha pela direita. Nas laterais o Nelson Sem Medo e o Raphael Guerreiro, dois apelidos à altura da batalha que tínhamos pela frente perante 60 000 húngaros. À frente destes aparecia um pivô duplo, com o Bruno Fernandes a ter mais liberdade para criar. Depois, no ataque tínhamos o Bernardo, o Jota e o inevitável Ronaldo. 

 

Só para contrariar os Velhos do Restelo que dizem que Ronaldo é prejudicial à Selecção porque toda a equipa joga para ele e isso retira imprevisibilidade, o irreverente do Jota começou logo o jogo a ignorar o nosso capitão, desmarcado na esquerda, e a chutar à baliza. O Gulácsi é que não esteve pelos ajustes e contrariou as suas intenções. O Jota não via ninguém, queria marcar um golo de qualquer maneira e, pouco depois, antecipou-se ao Bruno Fernandes e voltou a acertar no guarda-redes magiar. Depois, o Ronaldo isolou o Bernardo na direita, mas este lamentou não ter dois pés esquerdos e o lance perdeu-se mais uma vez. Antes do intervalo o Ronaldo ainda podia ter marcado, não fora ter ficado surpreendido por o Jota finalmente não se ter atirado que nem um glutão à bola. 

 

No segundo tempo o Bruno desatou a rematar à baliza. O Gulácsi provou ser o melhor dos húngaros e negou-lhe um golo certo. Entretanto, O Engenheiro mandou o Rafa lá para dentro para ver se intimidava os húngaros com a barba (ou se dava água pela barba aos magiares, vá lá saber-se...). Mas foi a partir do momento em que o Renato Sanches entrou que Portugal conseguiu abanar o jogo. É certo que o nosso primeiro golo foi às três tabelas, mas depois o Bulo foi por ali acima até servir o Rafa para este cavar um penálti que decidiu o jogo. Quem o transformou foi o Ronaldo, mandando o Platini para canto como melhor marcador de fases finais de europeus. Animado com mais um recorde, o Cristiano engendrou e iniciou uma tabelinha com o Rafa, finalizando com uma finta ao excelente guarda-redes húngaro e provando que ainda não perdeu de todo a habilidade de extremo. E lá ficou o Ali Daei à distância de um "hat-trick"... Assim, com 3 golos em 8 minutos, o jogo chegava ao fim. O jogo jogado, porque o jogo falado teve o "Motorista Santos" como protagonista. Com os hilariantes e habituais tiques de pescoço, provável consequência de algumas caîbras originadas pelas tensas travagens que muitas vezes impõe nas partidas, mas com a naturalidade de quem soube reconhecer que o apodo sugerido pelo técnico italiano dos magiares até se revelou apropriado, tal a forma como Fernando Santos soube com maestria contornar o longo autocarro que a Hungria colocou à sua frente. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Cristiano Ronaldo

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31
Mar21

Wonderful tonight


Pedro Azevedo

Maravilhoso jogo de Portugal este fim de tarde com a Suiça, na última jornada do Grupo D do Campeonato da Europa de sub-21. Uma vitória por 3-0 e uma exibição quase imaculada. Pedro Gonçalves é a conclusão prática da tese de René Descartes - cogito, ergo sum - no futebol, o homem fez prova da formulação do filósofo francês em cada acção no campo (até parado). Deve ter um quociente de inteligência semelhante ao Einstein, vê coisas que outros nem imaginam. Deu 3 bolas de golo ao TT, mas este não antecipou devidamente duas delas (a outra foi defendida pelo guarda-redes), ninguém provavelmente o conseguiria. Daniel Bragança é uma máquina, a caixa de ritmos da equipa, o passe-vite que vai esmifrando os miolos aos adversários que ficam esmagados perante tanta classe. Uma cabine telefónica para ele é um latifúndio. Precisa de melhorar apenas na acção de cobertura defensiva: deu de borla um livre ao adversário à entrada da nossa área e isso na alta competição por vezes paga-se caro. O Vitinha e o Fábio Vieira são também excelentes, tal como o Trincão. O TT esteve sempre em movimento e com acelerações de fazer prender a respiração - quem tem o azar de o apanhar pela frente deve julgar-se na montanha russa - , deve porém aprimorar o timing de entrada aos lances na área que se reflecte em instinto de ponta de lança. Foi decisivo no segundo golo. A defesa, a Quinta dos Diogos (hiper-inflação descarada) com Thierry como convidado especial, esteve muito segura. Ah!, e ainda houve tempo para o puto Conceição entrar e marcar um golo digno dos desenhos animados. Há muito tempo que não me divertia tanto a ver um jogo de futebol. O nosso passe-repasse foi deixando os helvéticos cada vez mais desconfortáveis, ao ponto de no segundo tempo já baterem em tudo o que apanhavam à mão. Foi um vendaval de bom futebol, às tantas dei por mim a pensar estar a ver o Brasil de 82. A sério!! Parabéns aos jogadores e, naturalmente, à equipa técnica encabeçada pelo Rui Jorge.

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31
Mar21

Tudo ao molho e fé em Deus

A braçadeira não caiu, a braçadeira não cairá


Pedro Azevedo

Portugal foi até ao Grão-Ducado do Luxemburgo onde um dia Siegfried, o da Brunilda de Wagner, mandou edificar uma fortaleza que durante muito tempo chegou a dar ares de aguentar as investidas do tradicional caos organizado que o exército de Fernando Santos montou a partir de um cerco. É curioso falar aqui de Siegfried porque a sua história tem semelhanças evidentes com a de Aquiles, ainda que a fragilidade do nórdico proviesse do ombro e não do calcanhar ou tornozelo. Ora, o nosso Aquiles é o Félix. A julgar pelo jornal da Queimada ambos até terão sido banhados em rios sagrados: o Aquiles já se sabia que no Estige e o Félix dizem-nos que no Judeu, ali para os lados do Seixal. O mesmo periódico que antes de cada jogo de Portugal embala o Félix como o Aquiles que transporta o escudo nacional, o guerreiro épico que fará a diferença na peleja. Só que depois as profecias saem todas furadas - deve ser do efeito nas águas das descargas poluentes na Baía do Seixal que o PAN atribui à inércia da autarquia - e o Jotinha que se destaca no ataque é aquele que o Klopp, qual Wagner, foi um dia buscar a Wolverhampton para dar um novo impulso à "cavalgada das valquírias" do seu Liverpool. Ontem, por exemplo, a única semelhança entre o Aquiles e o Félix foi a vulnerabilidade do tornozelo. Só que enquanto o Aquiles, ferido mortalmente por uma flecha de Páris, só viria a perecer após se encher de uma glória homérica com a conquista de Troia (que não a da Península de Setúbal onde acontece outra "guerra" que Alcochete neste momento lidera), a lesão no tornozelo de Félix foi como um sacrifício que os santinhos afectos ao Fernando congeminaram para que o onze de Portugal tivesse a oportunidade de vencer a Batalha do Luxemburgo. Foi de tal modo que diz-se por aí que como pagamento da dívida aos santinhos e expiação do pecado perante os inquisidores o Ronaldo irá permanecer 3 dias e 3 noites na fortaleza. E no fim, qual Mestre Afonso Domingues, proferirá: "A braçadeira não caiu, a braçadeira não cairá". Desengane-se porém quem pense que morrerá de seguida, que o Cristiano tem mais vidas que um gato e ainda vão ter de levar com ele mais uns anitos. É tomarem Rennie, a poção mágica dos Invejosix, o povo sedentário ocupante da fracção mais ocidental da Península Ibérica que não se governa nem se deixa governar ou dá valor ao real mérito.

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30
Mar21

Sporting em alta também na Selecção


Pedro Azevedo

Na primeira parte dei por mim a pedir a entrada de Palhinha, naquela fase em que Portugal não tinha controlo do jogo no meio campo e parecia que faltava intensidade e pressão sobre a bola à Equipa de Todos Nós. No segundo tempo entrou... e marcou. A jornada tripla acabou por ser muito importante para a valorização dos activos do Sporting. Palhinha e Nuno Mendes estrearam-se como internacionais e não deixaram os seus créditos por mãos alheias. Se Palhinha fez 1 golo, o nosso lateral/ala esquerdo destacou-se por este parecer ser o seu habitat natural, não se perturbando com o peso da responsabilidade. Foi titular em dois jogos, fez a assistência para o golo (da "vitória") incorrectamente não validado na Sérvia e hoje protagonizou um lance (52 minutos) que não terá escapado ao olhar atento e conhecedor dos grandes clubes europeus. Oxalá o consigamos manter por mais algum tempo, sendo certo que havendo propostas deveremos ser irredutíveis em relação ao valor da cláusula de rescisão, porque precisamos do Nuno, como do João e de todos os outros jovens que se vêm afirmando, para finalmente impormos um ciclo de Sporting que se assemelhe ao que mediou entre 46 e 54. Bom, mas isso já sou eu a sonhar, a realidade agora são os 10 jogos de campeonato que ainda temos pela frente, os quais teremos de ir superando um a um. Cada coisa a seu tempo, ainda que o futuro não só traga água na boca como deva ser encarado com grande responsabilidade e precisão de ourives. 

15
Mar21

ÉPICO!


Pedro Azevedo

Pela primeira vez na sua história, Portugal vai ter uma equipa de modalidade de pavilhão presente nos Jogos Olímpicos (o hóquei em patins esteve em Barcelona92, mas meramente enquanto modalidade de exibição). O feito, épico, foi ontem à noite alcançado pelo andebol português em Montpellier, cidade onde a nossa selecção, superiormente orientada por Paulo Jorge Pereira, venceu a anfitriã e campeã do mundo França por 29-28. Obrigado a ganhar para assim conseguir a qualificação olímpica, Portugal teve primeiro de progressivamente eliminar uma diferença negativa de 6 golos (3-9) que se chegou a registar no marcador. Ao intervalo o rersultado era de 12-13. No segundo tempo, a equipa nacional chegou a ter uma vantagem de 1 golo, mas nos 10 minutos finais os franceses voltaram à liderança e venciam por dois golos de diferença a pouco mais de 1 minuto para o final. Foi então que a garra dos "Heróis do Mar" e o suplemento de alma conferido pelo desejo de homenagear o recém-malogrado Alfredo Quintana - ausente fisicamente, mas omnipresente nesta selecção - veio ao de cima. Capdeville deu o mote com duas defesas espantosas e Rui Silva, após miraculosa recuperação de bola, marcou o golo da qualificação a 4 segundos do fim. Para se ter ideia do dramatismo que se viveu nos segundos finais, a França ainda respondeu num último suspiro, mas o seu golo sofreu um atraso de milésimos de segundo face à buzina. Destaque especial para os golos de António Areia e para a qualidade evidenciada por André Gomes. Particularmente, uma palavra de louvor aos atletas do Sporting, Manuel Gaspar e Tiago Rocha, integrantes do grupo que esteve presente neste Torneio Pré-Olímpico, bem como para Luís Frade (4 golos ontem), antigo andebolista leonino recentemente transferido para o Barcelona.

 

Portugal está assim nos Jogos Olímpicos de Tóquio de 2021, competição que terá 12 participantes. A Europa estará representada por 7 países (Dinamarca, Noruega, França, Suécia, Alemanha, Portugal e Espanha), América e Ásia por 2 cada (Brasil e Argentina; Japão e Bahrein) e África por 1 (Egipto). Os jogos decorrerão entre 24 de Julho e 8 de Agosto. Haverá 2 grupos de 6 equipas que se disputarão em "poule" (todos contra todos) e os 4 primeiros de cada grupo apurar-se-ão para os quartos-de-final, iniciando-se então a fase a eliminar. Tendo em conta os potes pré-definidos para o sorteio final, Portugal já sabe que irá defrontar pelo menos duas equipas não-europeias (Brasil ou Japão e Argentina ou Bahrein), podendo ainda apanhar o Egipto (no mesmo pote que a Espanha). 

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18
Nov20

Tudo ao molho e fé em Deus

Retratos de Rubens


Pedro Azevedo

A conclusão que se poderá tirar deste jogo é que provavelmente a nossa selecção teria ficado melhor no retrato se Fernando Santos houvesse optado por separar ("split") os Rubens. É que se o estilo barroco de Dias se traduziu extravagantemente no marcador, o estilo bacoco de Semedo na abordagem aos lances, misto de excesso de confiança e de um sem medo a roçar a displicência, poderia ter deitado tudo a perder. E é pena, até porque a qualidade (abundante) está lá. Mas, o tempo passa, as falhas de concentração exasperam e deixam qualquer um de rastos (rastas?).

 

Ao contrário do jogo com a França, desta vez a nossa equipa manteve as linhas bem próximas. Num campo cheio de sulcos e muito esperançoso para o cultivo de tubérculos, coube a Moutinho a batata quente de assegurar a ligação do jogo, tarefa que cumpriu com aproveitamento. Todavia, com Ronaldo (ansioso sempre que se aproxima de um novo recorde) e Jota abaixo dos seus níveis habituais de eficácia e Felix e Bruno muito fora do jogo, Portugal, disposto em 4-4-2, sujeitou-se a que os croatas, com a sua qualidade técnica, numa transição rápida fizessem a diferença no marcador. Desse modo, fomos para o intervalo em desvantagem após uma má abordagem defensiva da nossa equipa ter sujeitado Rui Patrício a um pelotão de fuzilamento. 

 

No reatamento, após uma falta nas imediações da área croata, Portugal rapidamente ficou em vantagem numérica no batatal de Split. Na conversão do livre, Ronaldo mandou uma daquelas bolas curvas e cheias de efeito tão comuns no basebol e Livakovic sacudiu como pôde. Os Rubens combinaram e tiraram-lhe o retrato. Bradaric exclamou e Juranovic ajuramentou a igualdade no marcador. Pouco tempo depois, mãozinha marota de Jota sem VAR e Felix a marcar aos trambolhões. Pensava-se que o jogo tinha terminado aí, mas mais uma abordagem macia de Ruben Semedo a um lance e uma deficiente leitura de jogo de Danilo, atraído pela bola e esquecendo-se de cobrir a entrada de área, combinaram para permitir aos croatas restabelecerem a igualdade. O esgar contínuo de pescoço de Fernando Santos era o retrato fiél do que se passava em campo.

 

Fernando lançou Cancelo e conjuntamente com Nelson Semedo passámos a ter duas motas nas alas. Bernardo também entrou e logo falhou um golo digno dos "bloopers": com o guarda-redes no chão, a bola saiu caprichosamente por cima da baliza. Trincão agitava o jogo e justificava a chamada em cabines telefónicas. O jogo aproximava-se do fim e a igualdade teimosamente persistia no marcador. Lovren, após a expulsão de Rog o único não "ic" em campo do lado croata, insistia em orientar a equipa no sentido de virar a página do seu insucesso recente. Nada como fazer entrar Brekalo para assegurar o mesmo propósito, pensou o seleccionador croata. Até que o guarda-redes largou uma bola perfeitamente ao seu alcance e Ruben Dias pintou de novo a manta. Apesar disso, a imagem que ficou não foi a melhor, como aliás Fernando Santos deu conta no final do jogo. Bons tempos estes em que se lamenta uma exibição menos conseguida após uma vitória no relvado(?) do vice-campeão do mundo!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Ruben Dias

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15
Nov20

Tudo ao molho e fé em Deus

A razão de Kant(é)


Pedro Azevedo

Não sei o que terá passado pela cabeça de Fernando Gomes para autorizar que um jogo decisivo da nossa selecção fosse marcado para lá das treze horas de um Sábado. Desse modo, os nosso jogadores mantiveram-se durante a maior parte do jogo confinados, saindo apenas para o cumprimento de um passeio higiénico por volta das vinte e uma e quinze, hora a que os franceses ainda se recriavam a seu bel-prazer no relvado da Luz. Antes porém, Rui Patrício já havia negado veementemente por duas vezes que a declaração do Estado de Emergência se traduzisse numa lei Martial. Não obtante, não houve emoção do guarda-redes português que pudesse  calar a razão de Kant(é). É certo que o Bernardo tentou contrariá-la, mas como diz o ditado o cântaro foi a Fonte e partiu-se (contra um poste).

 

Sem cão para passearem no relvado, os portugueses lançaram nesses últimos quinze minutos um Moutinho, a coisa mais parecida em moço marafado que temos com um perdigueiro. Este logo começou a afiar os caninos para abocanhar, um a um, os calcanhares dos gauleses e sacar a bola. Desabituados de não a terem, os pupilos de Deschamps por um momento perderam a compostura. Entretanto, o Jota já estava em campo, ele que compreensivelmente havia sido preterido pelo génio por quem uns madrilenos haviam pago 120 milhões para descobrir a cura da Covid-19. Já se sabe que isto dos milhões tem a sua influência, caso contrário os adeptos do Sporting não ficariam com a pedra no sapato ao ver Pedro Gonçalves relegado para o banco de suplentes dos sub-21 no jogo contra a Bielorrússia. Mas, lá está, por seis milhões e meio de euros o Pote só pôde inventar um remédio santo (que não Santos) para os calos dos Sportinguistas, patente não suficiente para demover Rui Jorge de o preterir em função de um emprestado benfiquista com zero minutos de utilização em Valladolid ou aqui. 

 

Estava eu a falar do Moutinho abocanhar e, vai daí, o Fernando Santos reforçou a dose com o Trincão. Recreando-se finalmente com bola, os portugueses ainda assim iam observando as regras do SNS. Nesse transe, o Cancelo isolou-se pela direita. A bola viajou toda a área gaulesa, mas Ronaldo, Jota e Ruben Dias alinharam em não lhe acertar. Foi (jogo do) galo! E o canto (Kant?) de cisne. 

 

Desconstruir o caos organizado que Fernando Santos trouxe para a selecção nacional não tem sido tarefa fácil para ninguém (creio que nem mesmo para o Engenheiro), muito menos para este Vosso autor que não é nenhum Agostinho da Silva. Tanto assim é que ontem provou-se que a sua compreensão só estaria ao alcance de um filósofo como Kant(é). Este soube perceber a realidade subjectiva do tempo e do espaço, bem como a sua interacção com a intuição, traduzindo-se isso na sua sensibilidade ao objecto bola como condição de pensamento e, por conseguinte, entendimento de todo o jogo, pelo que daí a ter (N')Golo foi apenas um pequeno passo. Por esta não esperava o Fernando, que ainda assim não deve ser criticado. É que se não houvesse do outro lado um Kant(é), outro galo provavelmente (não) Kantaria cantaria. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": João Moutinho 

RonaldoFranca.jpg

14
Nov20

Duelo de campeões


Pedro Azevedo

O Portugal-França de logo à noite (Estádio da Luz, 19h45) não será apenas mais um clássico latino. De facto, nas últimas décadas o futebol gaulês e o luso evoluiram tanto a nível de selecções que o jogo que se avizinha irá contrapor o actual campeão europeu ao campeão mundial em título. Sendo certo que o Mundo é maior que a Europa - algo que Joaquim Meirim um dia teve oportunidade de explicar enquanto procurava moralizar o guarda-redes suplente do Varzim ("és o maior da Europa") que almejava a titularidade no clube da Póvoa ("não jogas porque o Benje é o maior do Mundo) - , a verdade é que, para ser campeão europeu, Portugal teve de vencer a França, enquanto os franceses não precisaram de ganhar aos portugueses para se sagrarem campeões mundiais. Deste modo, o jogo de mais logo será como que um tira-teimas entre selecções que têm dominado o panorama futebolístico, pouco tempo depois de um primeiro diagnóstico realizado no Stade de France (Saint-Denis/Paris) se ter revelado inconclusivo. Não se pense porém que o único aliciante do jogo residirá aí, pois é bom não esquecer que estará em causa a qualificação para a final-four da Liga das Nações, competição que Portugal brilhantemente venceu em 2019 após derrotar na final a Holanda. Num jogo desta natureza é muito difícil atribuir favoritismo. Se é certo que Portugal venceu o Euro-2016 após bater os anfitriões gauleses na final com um golo de Éder no prolongamento, não é menos verdade que os lusos não ganham aos franceses em 90 minutos há 45 anos. É verdade!, a última vitória portuguesa conseguida no tempo regulamentar data de 1975. O jogo ocorreu em Colombes, os golos foram obtidos por Nené e Marinho. O treinador luso era José Maria Pedroto, e Samuel Fraguito destacou-se pela arte com que escondeu a bola dos gauleses. Doze jogos depois - oito derrotas e quatro empates - , Portugal irá entrar em campo para matar o borrego, que é como quem diz, depenar o galo. E se os gauleses têm razões para levantar a crista dada a presença de Griezmann, Pogba ou Martial, os portugueses não lhes ficarão atrás com o trio Bruno Fernandes, João Félix e Bernardo Silva. Para o póquer de ases ficar completo, nada como acrescentar-lhe as cartas principais de cada baralho futebolístico: Mbappé e Ronaldo. Em condições normais isto poderia ter a simbologia de um render de guarda, uma passagem de testemunho do veterano português para o jovem francês. Porém, Cristiano Ronaldo nada tem de normal no que de comum concerne. A sua ambição renova-se a cada instante e a sua sede de glória parece inesgotável. Assim sendo, acredito que Mbappé vai ter de continuar à espera da sua hora. Ah, e já agora, tenho o pressentimento que, cartas todas metidas em cima da mesa, um Joker (Jota) poderá fazer toda a diferença e em Dia dos Bandeirantes - também é Dia Mundial da Diabetes, o que, já se sabe, invoca a necessidade de  muito equilíbrio - abrir novos caminhos para Portugal. Em todo o caso, Senhoras e Senhores, Mesdames et Messieurs, façam as vossas apostas, faites vos jeux!

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15
Out20

Tudo ao molho e fé em Deus

A moto Jota contra o Auto Sueco


Pedro Azevedo

Ao contrário do que autoridades sanitárias e comentadores descreveram, o Ronaldo esteve ontem no relvado do Sporting. Pelo menos no subconsciente dos suecos, os quais andaram sempre à procura do "Melhor do Mundo" de cada vez que os portugueses se acercavam da sua área. Debalde, pois foi como se perseguissem um holograma, deixando espaço para que o DJ de serviço aquecesse a noite fria de Alvalade.

 

Antes porém, os suecos foram ameaçadores. Com uma potência propulsionada por vários cavalos de força, o motor sueco encontrou durante algum tempo uma autoestrada no meio do campo lusitano. Porém, à medida que os portugueses foram construindo portagens e assim encurtando os espaços de circulação, os vikings deixaram de poder desenvolver todo o vigor da sua máquina e os seus problemas de afinação emergiram. Numa dessas pequenas cabines, Bruno Fernandes atrai dois suecos e encontra Jota solto. Este, nada egoísta, serve Bernardo e Portugal adiantava-se no marcador. Manietados, os suecos viam-se agora obrigados a acelerar em espaços de reduzida mobilidade. Em consequência, começaram a bater de frente e de lado e a desorganizarem-se. Pressentindo isso, Cancelo, sem ninguém a pressioná-lo, lançou a bola para as costas da defesa sueca onde a moto Jota acelerou mais do que toda a frota sueca e dilatou a vantagem portuguesa. Portugal ia para o intervalo com dois golos à maior. 

 

No reatamento, Portugal controlou totalmente o jogo. Com Pepe investido como Ministro da Defesa, todos os avanços suecos esbatiam na boa organização defensiva lusa. Simultaneamente, abriam-se espaços na frente por onde contra-atacar. Numa dessas ocasiões, Bruno Fernandes isolou Felix, mas o promissor avançado embora estivesse sozinho frente a Olsen encontrou pela frente um batalhão de comentadores que diariamente o pressionam até ao limite do surreal e falhou. Quem não desperdiçaria nova oportunidade seria Jota. Servido por William, entrou em altíssima rotação pelo lado direito da defesa sueca, mandou uma mudança abaixo, flectiu para dentro e apanhou em contramão o desamparado guarda-redes escandinavo. Estava feita a história do jogo. Começando a diesel, aos poucos a selecção de Fernando Santos foi boicotando as máquinas a combustão suecas, cansando-as e levando-as para terrenos onde os cavalos não conseguiam fazer a diferença, caminhos esses mais propícios a quem tem moto. Chamam-lhe Jota. Fixem-lhe o nome.

 

Um dos grandes méritos do engenheiro é este: sem dramas, quando não tem cão Fernando Santos caça com gato. Ou, como quem diz, sem Ronaldo, craque e inspirador desta nova geração, dá palco aos jotinhas. E Portugal continua a ganhar. 

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13
Out20

Pedro Gonçalves bisa


Pedro Azevedo

O nosso jogador Pedro Gonçalves, vulgarmente conhecido por Pote, marcou hoje por duas vezes na vitória da selecção portuguesa de sub-21 no rochedo de Gibraltar (3-0). Parabéns ao Pedro, extensíveis à selecção comandada pelo nosso antigo jogador Rui Jorge.

 

PS: Pedro Gonçalves a confirmar uma vez mais ter sido uma excelente contratação e a reavivar a questão que deverá andar na mente de Ruben Amorim por estes dias acerca da melhor forma de o compatibilizar no onze do Sporting com o regressado João Mário. Dado aquilo que têm sido as ideias que Ruben tem mostrado neste início de época, médio centro e interior esquerdo serão as posições em aberto a preencher por estes dois.

10
Abr20

O futebol em Portugal


Pedro Azevedo

Os portugueses não amam o futebol. Isto é, até gostam do clube do seu coração, ainda que este sentimento se expresse mais pelo ódio a um rival do que pelo amor à sua equipa de eleição. Também não ajuda o facto de no futebol português vigorar a lei do mais forte, sendo este genericamente aceite como aquele que melhor manobra nos bastidores. Um futebol assente neste pressuposto será sempre um jogo capaz de fomentar todo o tipo de ódios e de recalcar um sem número de frustrações. Logo, o produto é-nos vendido de forma totalmente errada, havendo ainda muito boa gente com responsabilidade que crê ser o ruído que dá popularidade ao jogo. Essas pessoas geralmente têm o mundo do tamanho de uma azeitona e ainda assim querem trincá-lo com toda a força mesmo que aqui e ali uma dentada mais forte os faça perderem uns caninos. 

 

Uma pessoa passa fronteiras, vai até Inglaterra e percebe o que é a essência do futebol. Os ingleses são os guardiões do Santa Graal do futebol mundial. Eles amam incondicionalmente o jogo e os grandes jogadores que ao longo dos anos vão fazendo a história do futebol. Não deixam de torcer pelo seu clube, simplesmente sabem admirar a qualidade de um adversário. Acreditam piamente que a emoção nas bancadas está dependente da qualidade dos artistas e que esta sai valorizada se houver critérios uniformes de arbitragem e procedimentos que beneficiem o espectáculo. Os participantes do futebol inglês não estão interessados em criar alçapões por onde as regras se podem temporariamente escoar, quais xico-espertos de ocasião. Não, eles estão empenhados é em dar transparência às coisas de forma a que ninguém questione ou duvide do produto. E para quê? Para que a paixão do adepto seja direccionada para o jogo que é disputado nas quatro linhas durante os 90 minutos. E quando recrutam finos solistas, fazem-no com a percepção de que isso vai estimular mais o amor pelo jogo. 

 

Azar o nosso que importando tantos anglicismos não fomos capazes de adquirir a verdadeira substância das palavras. "Fair" quê?

03
Abr20

O melhor atleta português de sempre


Pedro Azevedo

Sugestionado por um comentário do nosso Leitor Luis Ferreira, gostaria de saber a Vossa opinião sobre quem é o melhor atleta português, masculino ou feminino, de todos os tempos. Para o efeito, façam o favor de considerar todas as modalidades desportivas, futebol incluído. Obviamente, esta eleição não se destina apenas a atletas do Sporting.

 

Peço a todos que participem, de forma a que a amostra de resultados seja suficientemente significativa e isso possa prestigiar os próprios atletas alvo de eleição. A votação decorrerá até ao final do dia de amanhã (Sábado) e não serão aceites votos de anónimos, pelo que peçam que incluam sempre nome ou pseudónimo (mesmo que em rodapé). Os resultados finais serão apresentados no Domingo.

 

A forma de apuramento do vencedor será feita da seguinte forma: cada Leitor apresentará de forma decrescente (do 1º para o 5º classificado) uma lista com aqueles que são na sua opinião os 5 melhores atletas portugueses de sempre. Ao 5º classificado será dado 1 ponto, ao 4º classificado corresponderá 2 pontos e assim sucessivamente até ao 2º classificado. Ao 1º classificado de cada Leitor corresponderá um bónus de mais 1 ponto, pelo que obterá 6 pontos. O vencedor será aquele que acumular uma maior pontuação na soma dos votos dos Leitores.

 

Boa votação!


P.S. No final do dia de ontem apenas 1 ponto separava os dois primeiros classificados deste inquérito conduzido por 'Castigo Máximo'. Não se esqueçam de votar. Têm até ao final do dia de hoje para ajudarem a eleger o 'Melhor Atleta de sempre' do desporto português. Obrigado. Keep safe! 

 

 

 

 

#estamosjuntos

25
Mar20

Viver para reconstruir


Pedro Azevedo

Numa hora destas, em que mais do que o tempo estar parado é a nossa forma de viver que está suspensa, é-me difícil falar de futebol. Vivemos um momento singular onde nos é pedido para sobreviver. Não para desfrutar da vida como Deus a terá imaginado para nós, mas tão só sobreviver. Eu sei, acreditem, assim à partida parece pouco. Não foi essa a vida que escolhi para mim. Nunca me imaginei como um sobrevivente, como alguém capaz de trocar a liberdade de pensamento e de actuação por concessões várias que tantas vezes fazem o Homem perder-se no seu caminho. Mas aqui falamos de outro tipo de sobrevivência, é a nossa comunidade que está em risco. Este pedido que agora nos fazem é justo e vai ao encontro do ideal que persigo de sociedade: uma onde existe um sentido colectivo da vida e uma preocupação com o nosso semelhante e tudo o que nos rodeia. 

 

Tantas e tantas vezes no passado o Homem se isolou dos demais, egoísticamente, de forma interesseira, individualista e egocêntrica. Quis agora o destino que esse isolamento se exprimisse altruisticamente. Eu estou em crer que teremos sucesso nessa tarefa. A confirmar-se, tal como espero, pensem então no que poderíamos fazer enquanto seres humanos se o nosso altruismo se pudesse manifestar sem distanciamento social, todos juntos e com respeito mútuo trabalhando em prol de um projecto comum, de um amor compartilhado. Sem exibicionismos, sem umbiguismos, sem bons nem maus da fita, apenas partilhando o melhor da natureza humana que existe em cada um de nós. Gostaria que fechassem os olhos por um momento e imaginassem um Sporting assim...

 

Um dia, após a tempestade, virá a bonança. Com ela, uma nova era. A reconstrução começará em nós próprios, naquilo que necessitamos mudar para podermos fazer a diferença. Deus não nos pôs no mundo para sermos mais um, e cada um deve saber extrair de si o melhor do seu potencial e entregá-lo à comunidade. Fazer a diferença! O Sporting em que eu acredito também é isso, aquele clube que em pequenino me entrou pelos ouvidos numa onda média da rádio até que uma primeira visita ao estádio transformou a onda num tsunami de emoções que foi crescendo, crescendo, sem parar. Um dia eu quero voltar a ver toda a gente feliz no nosso estádio. Quero de volta o sentimento de partilha. Entre amigos e entre desconhecidos. Desejo que as memórias que cada um tem do clube voltem a ser um património comum. E que isso seja vivido, celebrado, com a alma que marca a nossa identidade, a nossa "leoninidade". 

 

Não há instituições sem homens que as sirvam. Portugal, enquanto nação, necessita do nosso civismo e do nosso sentido de responsabilidade neste momento. Como dizia António Quadros, apropriadamente citado pelo nosso Leitor Miguel Correia, Portugal está no mais fundo de nós, e sem ele seremos menos do que somos. Assim também o é com o Sporting. O clube nunca teria atingido o patamar mais alto se não fosse por esta necessidade que o Homem tem de se ligar a algo muito mais grandioso do que ele. Foi essa necessidade exponencial e exponenciada que tornou o Sporting enorme. Por isso, dos escombros do Sporting actual teremos de recuperar a razão das coisas, aquilo que nos liga e, ligando, nos multiplica. Não o que nos divide. Ter uma ideia diferente para o clube nunca poderá ser uma causa de divisão. Pelo contrário, será outra perspectiva, outra visão, algo que acrescentará. 

 

Eu sei, o Sporting, tal como qualquer outra instituição, não pode estar adiado. Mas neste momento é a nossa vida que está adiada, suspensa pelo tempo. A morte saiu à rua, entra-nos pelos telejornais todos os dias. Se isso não nos fizer reflectir sobre o pó que nós somos no Universo, não sei mais aquilo que nos poderá alertar sobre a fragilidade da nossa condição humana. Guardemos por isso o nosso engenho, a nossa inteligência para a tarefa futura de construção e não de destruição. Gerando humanidade e não desumanidade. Apresentando trabalho e não propaganda. Quando se tem uma visão, um sonho e se pensa primeiro no bem-maior colectivo em detrimento do interesse pessoal, não há caminho impossível de trilhar nem obstáculos ou adamastores suficientemente imponentes que nos possam travar. De resto, a única coisa realmente importante a preservar é a vida, a nossa (de todos nós) e a das instituições a que nos ligamos de forma afectiva e/ou profissional. Mantenham-se saudáveis!

 

#estamosjuntos

 

P.S. O meu louvor à anónima comunidade de profissionais de saúde que tem estado na linha da frente da luta contra a covid-19, muitas vezes sem os meios ou a protecção devida que agora parece que felizmente vão chegar. A esses médicos, enfermeiros e auxiliares o meu agradecimento. Vocês são os meus heróis! Também gostaria de agradecer a todos os portugueses que têm sabido interpretar o que está em causa e que com o seu comportamento responsável e cívico vêm ajudando a conter a propagação da doença. 

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