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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

21
Fev21

Tudo ao molho e fé em Deus

20.000 Léguas Submarinas


Pedro Azevedo

Caro Leitor, depois de superadas as batalhas da Choupana, Leiria, Bessa ou Barcelos, o Sporting saiu vitorioso de um novo confronto disputado debaixo de água. Com a fatalidade triunfante do costume, a despeito dos estrategas adversários andarem a esfregar abundantemente as meninges, o que leva uma pessoa às tantas a interrogar-se se o que lhe têm vindo a servir é a realidade ou se se trata apenas de mais um capítulo das 20.000 Léguas Submarinas do Júlio Verne reescrito por um jovem guionista chamado Rúben Amorim.

 

Bem sei, os nossos vizinhos andam há muito tempo a dizer que estão uma década à frente da concorrência, pelo que irmos buscar algo que foi originalmente escrito há mais de século e meio atrás soa a regresso ao passado. Só que Verne era um visionário, o que pressupõe que o cenário das 20.000 Léguas Submarinas fosse o futuro. Quer dizer, era o futuro em 1859, mas o mais extraordinário é que é o presente em 2021. E é também o futuro no presente, tantos são os elementos de juventude inseridos nesta ficção (ou será a realidade?).

 

Se isto me deixa confuso, imagine-se o sentimento que provoca à esmagadora maioria dos observadores. Estes, apostados em livrar Portugal da aberração estatística que tem vindo a ser esta temporada, dividem-se entre os que, aproveitando tanta água, lançam o canto de sereia destinado a nos fazer mudar de rumo e desconcentrar no meio de tanta adulação e os outros que, semana após semana, preferem ver em cada novo confrontante um Bayern de Munique. Estes últimos durante esta semana decretaram até um alerta amarelo, anunciando ao mundo a destreza portimonense nos momentos estratégicos. Foi debaixo desta onda de motivação que o Yellow Submarine do Professor Paulo "Aronnax" Sérgio zarpou da Praia da Rocha e seguiu com destino a Alvalade. 

 

A recebê-los estava o capitão Nemo Coates e o seu Náutilus, a versão verniano-amorinesca da arca de Noé que vem abrigando todos os Sportinguistas do dilúvio sempre pré-anunciado. Debaixo de água, isolando o ruído, Amorim encontrou no Náutilus a forma ideal de manter a tripulação leonina longe dos ecos que vêm de terra e extremamente concentrada. Ontem, tal voltou a ser absolutamente explícito. Noutros tempos, o simples facto de a armada confrontante ser liderada por um Beto e um Boa Morte seria pretexto mais do que suficiente para pensarmos tratar-se de um ataque fofinho e não hostil e relaxarmos até ao ponto do abalroamento fatal que invariavelmente nos deixaria a "andar (nadar) ó tio, ó tio" Ricciardi na (des)esperança de encontrar um salva-vidas. Mas agora não. Assim, mal avistámos o Yellow Submarine, enquanto Feddal, Inácio e Adán tratavam de executar as necessárias manobras de defesa e Santos se destacava pela hiperactividade habitual (energia nem sempre bem canalizada, mas capaz de contagiar quem o rodeia), logo lançámos o torpedo Palhinha contra eles. A refrega acabou por se resolver em poucos minutos, o que não deixou de ser um alívio para quem tanto tem sofrido de ansiedade, umas vezes real, outras vezes ficcionada após observadas as manobras de outros contendores. 

 

E assim vai prosseguindo a epopeia que tanto está a pôr em causa o sistema métrico por onde se mede o futebol português. Indiferentes às últimas décadas do nosso futebol, os jornalistas perguntam por que é que o Náutilus não emerge e se assume. Visto pelo nosso prisma, a coisa topa-se à légua...

 

Tenor "Tudo ao molho...": João Palhinha

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05
Out20

Tudo ao molho e fé em Deus

Solar dos Nunos


Pedro Azevedo

Há muitas formas de sofrer a ver um jogo de futebol. A mais radical implica ouvir os comentários da SportTV quando em campo está o Sporting, momento em que a experiência adquire contornos de uma realidade paralela que nos deixa em constante sobressalto. Vou dar-vos alguns exemplos: uma pessoa vê o Matheus Nunes e o Pote a serem ceifados como o trigo e é obrigada a esfregar os olhos várias vezes até concluir necessitar com urgência de uma consulta oftalmológica quando ouve o inefável comentador a defender que não há espiga e, por conseguinte, amarelo. Numa outra ocasião, até fui arrancado do sofá. O brasileiro é pisado no pé e de dentro do aparelho surge o som: - "Quem anda à chuva, molha-se!" - , sentencia um orgulhoso Sousa. Assim mesmo, figurativamente, porque precipitação só mesmo na cabeça do senhor e a "chuva" a que ele se refere é de pitóns de alumínio que literalmente incidem sobre o pobre do Matheus e só "molha" os tolos que ainda se dão ao trabalho de manter o som da televisão ligado. Mais à frente, o Coates tem uma entrada perigosa que é logo apelidada de "duríssima". Depreende-se assim que a chuva quando cai não é para todos. Mas quando um algarvio se pendura num dos nossos, logo surge um "É bem!". Faz sentido, quem anda à chuva molha-se, especialmente se não tiver uma sombrinha. Às tantas o Portimonense ia atacando cada vez mais e o bom do comentador saiu-se com um "É um massacre!". Concordei e tirei o som ao aparelho...

 

Comi qualquer coisa ao pé do televisor e o que vi, ao contrário do que ouvi, não foi um calvário. Calvário onde fica o Solar dos Nunes, que por acaso nem é calvário nenhum mas sim um paraíso epicurista. Só que a noite foi mais de "Solar dos Nunos", do Mendes e do Santos, o berço onde nasceu a nossa vitória. O primeiro, o Mendes, caiu mesmo agora do berço e já marca golos deste mundo e do outro como se fora Rei do reino de Aquém e Além Dor, local imaginário onde não há sofrimento dos adeptos Sportinguistas. Pelo que o jogo, em vez do proverbial "Florbela" espanca-me, começou por oferecer uma flor bela do canteiro de Alcochete cujo aroma nos inspirou. E tanto assim é que ainda mal refeitos estávamos da emoção e eis que o Santos aparece à matador e de cabeça, qual lilliputiano investido de Gulliver, faz o segundo. Surpreendidos? Quem anda à chuva, molha-se!

 

Não queiram saber a choradeira que houve antes do jogo. "Ai que o Wendel isto, ai que o Wendel aquilo", segundo a crítica agora é que estávamos feitos ao bife. Acontece que o Wendel para mim sempre foi como os anos bissextos, que acontecem de quatro em quatro. Assim era ele, em jogos. Quando o calendário era comum, o Wendel tornava-se um caminhante. E um contemplativo. Um indivíduo que partia sozinho, sem destino, por estradas secundárias. Parando aqui e ali para observar a paisagem. Eu não percebia bem para onde e por onde ia ele, mas os peritos diziam que ele cumpria a importantíssima função de transporte. Enfim, para essa missão eu até preferia aquela miúda do gás Pluma da Galp, mas com tanta gente a cair-me em cima às tantas conformei-me. Só que o Matheus começou a aparecer na equipa principal e eu, que o tinha visto nos sub-23, achava-o muito atado e longe do que já lhe tinha visto antes do senhor Sousa me levar a crer que precisava de óculos. Se a mim se me oferecia estar atado, para alguns peritos ele era de uma irrelevância total, a velha dicotomia entre o estar e o ser que pendia contra ele (e mim). Até que o Wendel foi para São Petersburgo e o Matheus com toda a sede ao Pote fez-se finalmente ao caminho. Porém, em vez de picadas escolheu vias rápidas, mais directas. E nunca parou. Entregando sempre (não perdeu uma bola) e voltando de seguida para recolher mais inventário. Às tantas o Sousa até disse estar surpreendido por não conhecer essa faceta do Matheus. E não é que quando acabou o jogo fiquei a pensar nisso? Bom, até recuperei o som da SportTV e tudo. Arrependido, porque afinal o senhor até mostrou sabedoria e honestidade intelectual ao não hesitar dar valor a alguém que anteriormente havia desvalorizado e eu calei-o. Olhe, caro Sousa, é como você para os árbitros: para a próxima prometo ter um critério mais largo consigo.

 

Os primeiros 30 minutos foram muito bons, depois a equipa acusou o desgaste físico e psíquico do jogo de Quinta. Primeiro físico, deixando de se desdobrar tanto ofensivamente. Depois psíquico, procurando apenas afastar a bola da sua área, sem critério. Naturalmente, chegado esse momento, os jogadores mais experientes resistiram melhor. Quase todos, com a única excepção de Feddal. Assim, Neto fez provavelmente o seu melhor jogo de leão ao peito, cortando imensas jogadas de perigo. Mesmo cansado, com a bola nos pés não se lhe afiguraram mil novecentas e seis alternativas sobre que destino dar-lhe, mostrando que nem sempre a falta de irrigação do cérebro causada pela falta de oxigenação é contraproducente. Coates foi o colosso a que nos vem habituando e Adán à falta de ter de orientar a barreira foi ele próprio uma barreira às intenções dos algarvios. Nos mais novos, Porro foi um queniano, Pote mostrou qualidade de passe e disciplina no posicionamento à frente da defesa e o TT desta vez fechou mais espaços do que os que abriu. Vietto deu-se ao jogo enquanto durou, perdoando-se-lhe o já habitual desacerto na hora da finalização pela assistência que deu para golo. E, claro, os Nunos foram decisivos.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Matheus Nunes

portimonense sporting.jpg

29
Ago20

Telegrama de pré-época


Pedro Azevedo

Primeira parte sonolenta STOP Wendel em modo Zé Carioca STOP Pouco Porro e Plata STOP Simulação de falta dá penálti a favor deles STOP Oferta dá penálti a nosso favor STOP A um passe extraordinário de Gonçalo Inácio correspondeu Pote com uma assistência certeira para o jovem Tiago Tomás adiantar o Sporting no marcador STOP Matheus Nunes STOP em passe magistral STOP isolou Nuno Mendes na esquerda para remate defendido pelo guardião portimonense STOP Pormenor técnico excelente de Matheus Nunes STOP recebendo a bola de costas na quina da área STOP rodando por fora e ganhando a frente ao seu adversário para um cruzamento que acabou interceptado por um central algarvio STOP Pareceu o famoso "Turn" do Cruijff STOP Bastaram-lhes 20 minutos STOP mas Matheus Nunes STOP Nuno Mendes STOP Gonçalo Inácio e Daniel Bragança foram os melhores em campo STOP Viva a Formação do Sporting e todos aqueles artífices de jogadores que ao longo dos anos trabalharam e se esforçaram para apontar um caminho e assim nos mostrarem o óbvio ululante STOP Pote confirmou ser o melhor reforço STOP

10
Fev20

Tudo ao molho e fé em Deus - "Siclete"


Pedro Azevedo

Silas tem um conceito de futebol que privilegia a posse de bola. Porém, há um problema. Enquanto na física, ou química, uma acção gera uma reacção, no futebol de Silas a posse de bola é simultaneamente acção e reacção, não tendo uma finalidade fora deste circuito fechado que possa ser observada no campo. Assim, a bola vai circulando para trás e para a frente e da esquerda para a direita até voltar à sua posição inicial e repetir-se o ciclo. A coisa seria interessante se o jogo fosse o da Rabia, assim é só chato, previsível e mastigado para quem assiste da bancada ou na televisão. Porém, para Silas é um placebo: "ter" dá-lhe uma tranquilidade que o "não ter" não lhe dá. É também um trunfo nas conferências de imprensa. Por isso, enquanto os ingleses inventaram o futebol e lhe atribuiram um objectivo ("goal"), Silas já patenteou o Siclete (contracção do nome próprio "Silas" com o substantivo "chiclete") com o propósito de integrar a futura Taça dos Clubes Campeões Europeus de Estatística, competição que irá gerar uma distribuição (normal) de... dados probabilísticos. 

 

O Sporting começou num 3-5-2, o sistema que melhor permite compatibilizar Vietto na equipa. É também o sistema que mais favorece o Siclete, na medida em que, sem alas puros, vai acumulando jogadores no centro do terreno e concomitante empastelamento do jogo para gáudio do treinador. Para piorar, um Battaglia ainda receoso e um Wendel em greve durante o primeiro tempo não deram a intensidade requerida e o Portimonense ia conseguindo controlar as operações. Num cenário assim, apenas a qualidade poderia desbloquear o marcador. Ora, a qualidade não tem condição física ou idade, razão pela qual um manco e um avô se conseguiram ainda assim destacar entre o marasmo. Max, um jovem promissor, evitou que os leões fossem para o intervalo em desvantagem.

 

No segundo tempo o Sporting mudou de sistema, trocando Neto por Jovane Cabral. Em 4-3-3, os leões foram mais perigosos. Ainda assim, a igualdade ia teimando no marcador e Vietto, em duas ocasiões, provou não ser Bruno em frente da baliza. Eis então que a réstia de qualidade da nossa equipa volta a aparecer: Acuña, ocasionalmente deslocado sobre a direita, efectua um centro largo para o segundo poste e o mal-amado Jovane - um jovem que vai para cima do seu adversário e é sistematicamente preterido por um Camacho que neste jogo se mostrou adepto de floreados inconsequentes - corresponde da melhor maneira colocando a bola com malícia na frente do isolado Sporar. Na tentativa desesperada de evitar o golo, um algarvio (Jadson) acabou por confirmar o iminente golo. Até ao final do jogo, destaque para uma defesa de Max a segurar a vitória e para um remate ao poste do entretanto despertado Wendel.

 

Mesmo contra o 17º colocado da Primeira Liga e a jogar em casa, o Sporting venceu tangencialmente. A falta de qualidade global da equipa é notória e Silas será provavelmente parte do problema mas não é "o problema". Aliás, o jovem treinador é já o 5º da dinastia varandista, pelo que a sua substituição neste momento não auguraria nada de bom dado o histórico dos recrutadores. É o próprio Varandas que o admite quando dá como provável que o despedimento de Keizer tenha sido injusto em razão de um mau planeamento da época por parte da Estrutura - algo que agora admite, mas que quando na altura própria foi alvo de crítica por sócios e adeptos atribuiu a "cientistas" e a ignorantes em matéria de futebol - , não se percebendo se no momento da tomada de decisão de afastamento do treinador holandês a percepção de mau planeamento por parte da Estrutura já existia ou se só foi criada agora. Logo, a pergunta que se impõe é a seguinte: quantos treinadores ainda precisaremos de ter até que o mau planeamento da época tenha consequências que impactem os planeadores?  

 

Tenor "Tudo ao molho...": Jeremy Mathieu

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P.S. Hoje à tarde, após o derby do futsal, um vice-presidente e um vogal do Conselho Directivo foram agredidos por adeptos do clube. Uma menina, adolescente, filha de um dos dirigentes, foi cuspida. Tal foi narrado pelo Record e posteriormente confirmado por Frederico Varandas. À hora a que Vos escrevo, segundo as televisões, a informação conhecida é a de que os agressores ostentavam dísticos da JL, organização que em comunicado repudiou e condenou os actos de violência.

 

Um acto ignóbil destes, caso flagrante de (in)segurança pública, não pode passar incólume. Se às autoridades policiais caberá indentificar os perpetradores das agressões, ao Conselho Fiscal e Disciplinar do Sporting cumprirá instaurar os processos que conduzam à sua expulsão de sócios (caso o sejam) e proibição de entrada nas instalações. Mas chega de surfar na maionese. Todos os que me leem sabem que detesto divisionismos no meu clube, que desde Alcochete me bato e alertei contra os maniqueístas que vão manietando o Sporting em nome de proselitismos vários, endurecendo no processo a linguagem. Porém, o clube está doente, refém da falta generalizada de estratégia de uma Direcção (o que a enfraquece), de uma mesa da AG que vai empurrando decisões com a barriga e de um conjunto de adeptos com um comportamento inadmissível, onde se incluem membros das duas claques a quem forem retirados benefícios e que se manifestam sonoramente contra a Direcção no estádio no decorrer dos jogos. Por outro lado, a oposição mais visível à actual Direcção e com maiores responsabilidades desde as últimas eleições - não interessa para o caso se mais ou menos activa - , que existe e tem cara(s), por omissão vai caucionando, como causa provável por motivos eleitoralistas, este tipo de acontecimentos e comportamentos, não se ouvindo uma palavra sua que faça doutrina no sentido de os tentar prevenir. Existe assim um enorme vazio de autoridade e uma total ausência de magistério de influência no Universo Sporting que recomende a necessária ordem e tranquilidade, criando-se assim um latente barril de pólvora pronto a detonar. Acresce que este ambiente geral acaba por abafar a legítima contestação de sócios e adeptos moderados e ordeiros que não se revêm na actuação destes Orgãos Sociais e gostariam de encontrar uma forma civilizada de cidadania leonina que lhes permitisse expressar as suas inquietações em democracia.

 

Perante tudo isto, o Estado teria de intervir como repressor da violência. Acontece que o Secretário de Estado do Desporto (e o seu chefe, o Ministro da Educação) continua a circunscrever o tema à instituição, ele que deveria ser o maior interessado em erradicar a violência no desporto. Igualmente, o Ministro da Administração Interna parece ignorar que a violência na sociedade está a montante do desporto. É que a segurança pública, sendo um direito e responsabilidade de todos, é um dever do Estado, assim como o direito à integridade pessoal assiste aos cidadãos. Nesse sentido, o artigo 22º da Constituição da República portuguesa (Responsabilidade das entidades públicas) reza o seguinte: "O Estado e as demais entidades públicas são civilmente responsáveis, em forma solidária com os titulares dos seus órgãos, funcionários ou agentes, por acções ou omissões praticadas no exercício das suas funções e por causa desse exercício, de que resulte violação dos direitos, liberdades e garantias ou prejuízo para outrem". É por isso tempo de dizer basta! O Estado não pode continuar a demitir-se das suas funções. 

22
Dez19

Tudo ao molho e fé em Deus - Against all odds


Pedro Azevedo

Dezasseis de Outubro de mil novecentos e oitenta e cinco: Portugal precisava de ganhar na Alemanha e esperar que a Suécia perdesse na Checoslováquia para se qualificar para o Mundial de 1986. As nossas hipóteses eram encaradas por quase todos como meramente académicas. Mas um homem acreditava. Chamava-se José Torres e queria levar a carta a Garcia(*), nem que para isso tivesse de usar a anilha de um dos seus pombos. Na antevisão dessa jornada largara um romântico "deixem-me sonhar", ao jeito de quem ia alimentando a quimera. 

 

Vinte e um de Dezembro de dois mil e dezanove: o Sporting precisava de ganhar em Portimão e esperar que o Rio Ave, que recebia um Gil Vicente já sem aspirações, não vencesse a fim de se qualificar para a "final four" da Taça da Liga. As nossas hipóteses era encaradas por todos como meramente académicas. Desta feita não se sabe se o próprio Silas acreditava. Apenas queria vencer o seu jogo e depois "logo se via", assim como quem primeiro quer terminar o 12º ano e a seguir ver se tem média para a admissão à universidade. 

 

Trinta e quatro anos intercalaram estes 2 acontecimentos, mas a mesma conjugação cósmica sorriu a Portugal (em 1985) e ao Sporting (em 2019). Curiosamente, ou não, ambos os acontecimentos foram marcados por temporais. Em 1985, as tempestades Elena e Gloria; em 2019, as tempestades Elsa, Fabien e... Pinheiro. 

 

Se o Elsa e Fabien causaram a mesma depressão nos nossos adversários que o Elena e Gloria haviam causado nos contendores de Portugal, e como tal deverão ser considerados como benignos em relação às nossas pretensões, a ocorrência da Tempestade Pinheiro foi uma verdadeira ameaça às intenções do Sporting em prosseguir na Taça da Liga. Tudo terá começado numa onda tropical que entrou em Portimão através da África Central, mais concretamente via Congo. Enquanto a onda se ia movendo para noroeste, altas pressões fizeram descer o ar frio sobre o relvado do Portimonense, interagindo com o sistema de forma a se formarem nuvens muito negras que atingiram o seu ponto máximo por volta dos 45 minutos de jogo.   

 

Tendo conseguido reduzir a desvantagem de dois golos que chegou a ter por volta da meia-hora de jogo, a expulsão de Bolasie em cima do intervalo aparentemente comprometia as nossas hipóteses para a etapa complementar. Mas um Sportinguista está sempre preparado para o inesperado, o que só pode ser considerado um paradoxo para quem não vive a nossa saga dos últimos 35 anos. Na verdade, o inesperado e o aleatório estão de tal maneira inculcados na nossa história recente e na nossa memória que, conjugados, desafiam sempre a lógica e o cálculo das probabilidades. Por isso somos uns desmancha-prazeres para os jogadores dos vários sites on-line de apostas. Imagino o fluxo de palpites a favor do Portimonense durante o intervalo do jogo e a decepção que isso deve ter criado a muito boa gente... Ainda por cima com pormenores de malvadez. Não se faz! Então não é que os até aqui obscuros Camacho e Plata desataram a marcar? Ou que o Felipe das Consoantes trocou a gastroenterite que deixou no banco pelo corrimento de golos que vem marcando? No meio desta imprevisibilidade, somos também nós um ciclone. Em certos dias não há Pinheiro que resista, noutros perdemos a força e dissipamo-nos.

 

Vem aí o Mercado de Inverno. Eu gosto muito de mercados. Vou com frequência ao da Ribeira ou ao de Campo de Ourique. Paga-se um valor razoável e geralmente ficamos bem servidos. Já em relação ao Mercado de Inverno fico sempre desconfiado. Tem uma publicidade muito negativa por geralmente se pagar caro por uns refugados. Por isso, os críticos não o recomendam. Não figura em nenhum Guia Michelin e não augura um GoodYear. E para "encher pneus" já temos em casa "alimento" suficiente. Mas isso sou eu, que com tanto pneumático até perco a vontade de ser fleumático.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno Fernandes (duas assistências para golos em momentos fundamentais do jogo). Vietto, 1 golo e uma assistência, Plata (o golo da reviravolta), Luiz Phellype (1 golo) e Camacho (grande golo, mas cometeu a penalidade que abriu o marcador) também se destacaram. Destaque ainda para mais uns minutos concedidos a Battaglia e para a Max, que paulatinamente vai consolidando a titularidade na nossa baliza.

 

(*) Carta a Garcia: durante a insurreição cubana contra os espanhóis, o presidente americano McKinley entregou uma missiva dirigida a Garcia, o líder dos rebeldes cubanos. Com essa missiva pretendia manifestar o apoio do seu país à sublevação contra os espanhóis. Para tal, chamou um mensageiro que assim ficou com a missão de entregar a carta a Garcia, daí para a frente aplicado como expressão que pretende determinar o cumprimento de um objectivo. . 

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25
Ago19

Tudo ao molho e fé em Deus - O lusco-fusco


Pedro Azevedo

Jogo ao fim da tarde, imediatamente aproveitado pelo Sporting para entrar no negócio do lusco-fusco, uma ideia que ainda não estava devidamente rentabilizada. Assim, foi com 5/7 minutos de grande diversão e muito intensos que o Sporting se viu rapidamente a ganhar por dois golos, fazendo de Keizer um visionário e de Portimão a capital mundial do lusco-fusco. (Há que puxar a brasa à sua sardinha.)

 

Passado este período, o Portimonense imediatamente reduziu, num lance onde houve precipitação de Mathieu. Mas ninguém terá advertido os leões de que o lusco-fusco já tinha terminado e estes logo ganharam um penálti. Sucede que árbitro e VAR anularam a grande penalidade a nosso favor devido a uma falta (de betão?) ocorrida aquando da construção do estádio dos algarvios, o que como é óbvio aconteceu(?) noutra fase. Um apagão às regras de intervenção do VAR!

 

Num clube onde sempre coexistiram falta de reconhecimento com quem é bom e falta de exigência com quem não cumpre os mínimos, é preciso dizer que Luciano Vietto foi hoje o melhor jogador em campo. Mas também é importante perceber que Vietto pôde brilhar porque durante toda a primeira parte Acuña segurou as pontas, muitas vezes levando de enfiada com ala e lateral. Com Vietto sem preocupações defensivas, a combinar muito bem com Bruno Fernandes e sempre a flectir para dentro, o Sporting esboçou uma espécie de Táctica do Quadrado. Uma versão futebolística inspirada em D. Nuno Álvares Pereira, ou não fosse Marcel Keizer um "santo contestável(!)". 

 

Se, no primeiro tempo, o sucesso do Sporting teve muito a vêr com as diagonais de Raphinha e, essencialmente, com a superioridade na zona central onde apenas Pedro Sá tentava conter os avanços leoninos, para o regresso do intervalo Keizer pediu ao ala argentino para fechar na ala, evitando-se assim que Acuña tivesse de jogar com uma máscara de oxigénio. De quando em vez, sempre compensado por Bruno Fernandes, o antigo jogador do Fulham ia até ao centro e continuava a fazer miséria, algo só interrompido quando Folha finalmente fez entrar Dener para acompanhar o até aí desamparado Pedro Sá. Antes, já o Sporting fizera o terceiro numa jogada de entendimento entre Vietto e Bruno Fernandes, concluída com um tiro indefensável de Raphinha após passe imaculado do maiato. Até ao final do jogo, o Portimonense conseguiu controlar os acontecimentos, com Jackson Martinez à procura do tempo perdido, no jogo e na carreira. Mas o colombiano (hoje) já não foi a tempo e o Sporting assumiu assim, (à hora que escrevo) à condição, a liderança da classificação da Primeira Liga. 

 

Ah!... E o Diaby não jogou... 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Luciano Vietto (tem de melhorar o remate à baliza). Bruno Fernandes esteve nos 3 golos, Raphinha marcou dois e perdeu mais 1 de uma forma incrível, Luíz Phellype encostou para outro e deu luta à defesa algarvia. "Mutley" Acuña mordeu as canelas de todos quantos passaram nos seus terrenos e Thierry Correia continua a crescer. Os outros estiveram a um nível médio, com Mathieu a impor-se na defesa após um início atribulado. Renan teve uma noite tranquila e quase voltava a defender uma grande penalidade.

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04
Mar19

Tudo ao molho e fé em Deus - O condutor


Pedro Azevedo

Na física, um campo eléctrico é criado por cargas eléctricas ou por variação de campos magnéticos. As cargas eléctricas necessitam de condutores para se poderem deslocar. No Sporting, o Bruno Fernandes é esse condutor de electricidade da equipa no campo. Já o Gudelj é um isolante, nele não existe qualquer movimentação de corrente. Tal como um dínamo, ou o motor de um automóvel, Bruno é a fonte de alimentação que traz a corrente contínua a todo o circuito formado pela equipa leonina. A sua acção é constante ao longo do jogo, tal como a de Acuña ou de Mathieu. Por Tiago Ilori, por exemplo, passa uma corrente alternada, pois o sentido do seu jogo varia tanto com o tempo que chega a um ponto em que já não faz qualquer sentido.

 

Em tempo de Carnaval, o Sporting recebeu ontem uma escola de samba em Alvalade. Comandados por Paulinho, e com Tabata, Wellington e Lucas Fernandes em bom plano, o Portimonense, com 8 brasileiros no seu "onze" inicial, tentou pregar uma partida à equipa leonina. Porém, acabaria por ser outro Fernandes, Bruno de seu nome, a ser o Rei Momo. A sua marca ficou logo registada ao minuto 10, e em dose dupla: primeiro, serviu de trivela Raphinha para um remate defendido por Ricardo Ferreira para canto; de seguida, enviou do quarto de círculo um míssil que Diaby desviou para golo; finalmente, com a parte interior do pé direito, isolou Raphinha para o segundo da noite. Nada mal para aquele que cada vez um número mais reduzido de adeptos que certamente não aprecia o bom futebol continua a não querer perdoar, indo ao ponto de lhe atribuir um epíteto insultuoso. É que Bruno não é um verme, mas sim um Vermeer e, em duas pinceladas de génio, da sua cabeça (e pés) saíram umas composições inteligentes e brilhantes com que começou a ilustrar uma nova tela.

 

Os de Portimão não se ficaram e desataram a incomodar a baliza de Renan. Com facilidade iam ultrapassando Ilori, no solo ou pelos ares, embora sem consequências de maior, até que Renan, primeiro, e Mathieu depois, foram o pronto-socorro que evitou males maiores. Estimulados pela oportunidade, os algarvios viriam a reduzir diferenças, num lance em que Gudelj desligou a ficha e deixou a sua baliza em circuito aberto. Com o golo, o jogo ficou repartido e as oportunidades até ao intervalo sucederam-se a um ritmo frenético. Primeiro, foi Bruno (sempre ele!) a encontrar Raphinha solto na direita e este a deixar Diaby isolado na cara de Ricardo, após simulação e arrastamento de Dost, em lance ingloriamente desperdiçado pelo maliano. Depois, foi Renan o herói, e tal como Bruno em dose dupla, parando os remates consecutivos de Paulinho e de Wellington, sem que nunca Gudelj surgisse a pressionar o portador da bola ou a ajudar os seus defesas. De seguida, Lucas Fernandes enviou uma bomba que acertou na trave e ressaltou para cá da linha de golo, ficando a rabiar nas suas imediações. Finalmente, Bas Dost, servido por Bruno e isolado perante o guarda-redes adversário, voltou a ter uma falha eléctrica no seu cérebro, sintoma que não sabemos se estará relacionado com a leitura de algum relatório e contas.

 

No recomeço, o Sporting já não surgiu tão afoito, facto que também não permitiu as transições portimonenses. Ainda assim, os leões desperdiçaram inúmeras oportunidades. Assim, de cabeça, Diaby e Bruno falharam golos cantados. Mais tarde, com os pés, repetiriam o desígnio. Destaque, no entanto, para a jogada em que Bruno tirou dois adversários da frente e rematou de pé direito para uma enorme defesa de Ricardo Ferreira. Entretanto, ainda antes da hora de jogo, Dost deu lugar a Phellype. Keizer, no fim do jogo, justificou a decisão com a observação de que o seu compatriota não estava no jogo. Observação correcta, diga-se. Não que o brasileiro que o substituiu tenha trazido algo de especial ao jogo, para além do cartão amarelo da ordem. Eis então que Keizer colocou Doumbia em campo para nos mostrar que este é bem melhor que Gudelj e, provavelmente, o único jogador contratado este Inverno para a equipa principal do qual ouviremos falar (bem) no futuro. No entanto, não foi o sérvio a sair mas sim Raphinha. Uma lástima, pois o marfinense deveria jogar sempre e, tal como nos medicamentos, vir acompanhado da contra-indicação de não ser misturado com cidadãos dos balcãs. Com a substituição, o Professor Marcel pretendeu fechar o jogo, mas um algarvio não concordou e imbuído do espírito do entrudo deu uma martelada na cabeça do Bruno Fernandes dentro da área. Chamado a converter a penalidade, o Bruno sentou o guarda-redes com a paradinha e escolheu o lado por onde rematar com sucesso. Ainda houve tempo para a entrada de Francisco Geraldes, por troca com Wendel. O homem que mais aquece em Alvalade queria tanto tocar na bola que quando teve oportunidade agarrou-a (literalmente) com as duas mãos. O Capela não gostou e o Xico saiu do lance com um sorriso (e não só) amarelo. Nós também, no fim do jogo, pese embora tenhamos ganho, o que é sempre o mais importante. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno Fernandes (who else? - médio com mais golos obtidos numa só época em toda a história do Sporting). Menções honrosas para Renan (3 defesas importantes), Mathieu (seguro, ainda teve tempo de ir à frente assistir Diaby para um falhanço) e Acuña (tem corrente para os 90 minutos). Raphinha e Diaby marcaram um golo cada, mas destacaram-se igualmente (mais o maliano) pela trapalhice com que abordaram alguns lances.

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De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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