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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

25
Jan23

Tudo ao molho e fé em Deus

Paulão, o lado B de um leão


Pedro Azevedo

Muita controvérsia tem havido à volta de Paulinho. Psicólogos, sociólogos, tudólogos, diantólogos (nome que se dá aos estudiosos da ciência do ponta de lança) e adeptos em geral vêm-se debruçando ao longos dos últimos anos sobre a carreira deste homem um dia nascido em Barcelos (o que já em si é galo, como se sabe). Devido ao elevado preço da sua contratação (16M€ por "cabeça, membros e pernas", ou seja, cerca de 70% do seu corpo, mais os ordenados do Gozão de Higgs), o Paulinho tem sido visto em certos meios como um avençado centro, um tipo caro e que anda lá nos meio dos defesas adversários, que factura pouco em frente à baliza e assim quase não emite recibos verdes (o que faz com que o valor de cada um desses recibos seja uma exorbitância). Mas isso é no campeonato, porque na Taça da Liga o Paulinho é um valor seguro, ou não fosse a competição patrocinada pela Allianz. Entra então em cena o lado B do Paulinho, o Paulão. Com o Paulão, o Sporting não deixa só de ter um problema grave no ataque, deixa também de ter gravidade no seu ponta de lança. É como se as forças centrífugas que o puxam para o fundo (chão) se invertessem e se transformassem em forças centrípetas que lhe elevam o patamar competitivo, não parando de fazer golos. A continuar assim, o Fernando Peyroteo que se cuide, já só faltam 497 golos para superar o melhor goleador mundial de todos os tempos. 

 

A relação do Paulinho com a Taça da Liga é um "case-study". No Sporting, já tivemos avançados com um apetite especial para certos jogos ou competições. Por exemplo, o Lourenço, que marcava muito ao Benfica, ou o Tiuí, que resolveu uma Taça de Portugal porque o Vukcevic amuou, o Paulo Bento não gostou, e ele lá teve que entrar. Mas eram casos e situações pontuais. Porém, com o Paulinho há toda uma continuidade, como o provam os 20 golos já apontados na Allianz Cup. Espero assim que o seguro nunca morra de velho e a Taça da Liga nunca acabe, porque o Paulinho precisa dela e nós podemos sempre necessitar de salvar uma época. 

 

Grande primeira parte do Sporting, que merecia uma vantagem bem mais ampla no marcador. Ironia do destino, por pouco não chegávamos ao intervalo em desvantagem, cortesia de um golo de placa de Antony Alves Santos, que, fazendo jus ao seu homónimo saudoso radialista e comentador desportivo, fez um tento com grande pertinácia. Só que os deuses do VAR anularam-no por alegada infração anterior e do consequente livre o Sporting passou para a dianteira. Inesperadamente, na primeira metade do segundo tempo a nossa equipa aburguesou-se, deixou de pressionar alto e perdeu intensidade. A tal bipolaridade de que fala o nosso treinador. E sofremos um golo, de um palestino que rompeu a faixa de gaze colada a adesivos que é actualmente uma defesa com Matheus Reis (pôs em jogo o avançado arouquense nesse lance e, em outro imediatamente anterior, quase lhe oferecia um golo) e antecipou-se a Adán na pequena área, servido por um Alan Ruiz que recuperou a tradição de jogadores dispensados pelo Sporting se evidenciarem posteriormente contra nós, uma longa história que inclui protagonistas como Wender, João Alves (sem luvas, Braga), o próprio Manuel Fernandes e o inevitável Wilson Eduardo, entre outros. 

 

O jogo caminhava para o fim e para os penáltis, mas o espírito competitivo de Nuno Santos e a inusitada codícia goleadora de Paulinho combinariam para uma desmarcação no limite do fora de jogo e golo ao primeiro poste do nosso matador. Um golo à Fredy Montero, dir-se-ia. E assim o Sporting fugiu à lotaria das grandes penalidades e habilitou-se à sorte grande que será jogada contra o Porto, a não ser que Jorge Costa dê uma de Viriato e da revolta subsequente não haja Roma que valha ao Papa

 

Tenor "Tudo ao molho...": Paulinho

Paulinho20585022ASF.jpg

21
Jan23

Tudo ao molho e fé em Deus

Um golo orfão de um ataque prometedor


Pedro Azevedo

Com o Paulinho, o ataque do Sporting é muito associativo, distributivo e cumulativo, qualidades que o fazem, pelo menos algebricamente, prometedor. Só que, como o futebol não é uma ciência exacta, durante a primeira volta do campeonato o Paulinho só fez golo um par de vezes, concluindo-se que se pode ser prometedor e ainda assim não se concretizarem as promessas. Em contraponto, o ataque do Vizela não é considerado prometedor. Pelo menos a atestar pelo comportamento do senhor Rui Costa. Contudo, faz golos ("E pur si muove", como diria o Galileu). Eu explico: depois de uma bola jogada por um vizelense lhe ter embatido na perna direita, não chegando assim ao seu destinatário natural (Gonçalo Inácio), o árbitro entendeu não interromper o jogo, não o recomeçando assim com uma bola ao ar. Motivo: não considerou o ataque dos minhotos prometedor. Resultado? Cinco segundos depois a bola entrou na baliza à guarda de Adán. (Não estamos a falar de futsal, onde 5 segundos podem ser uma eternidade.) Ora, recorrendo à lógica, sendo certo que um ataque promissor é uma condição necessária mas não suficiente na geração de um golo (é preciso ainda ser eficaz na hora do remate à baliza), um golo só pode acontecer se precedido de um ataque promissor. A não ser que seja um "charuto". Ou um auto-golo. E, mesmo assim, não um auto-golo qualquer, mas sim um daqueles dos apanhados da bola que a RTP costumava passar em jeito de balanço antes do concerto de ano-novo, um aperativo do Karajan (e da Filarmónica de Viena). Porém, não houve "charuto" ou auto-golo, nem músiquinha de encantar (quer dizer, se houve eu não a ouvi, porque o Vidigal arranhava tanto os meus já redundantes ouvidos com as suas redundâncias que agora preventivamente tiro sempre o som ao televisor), mas ainda assim para o senhor Rui Costa tratou-se de um golo orfão de um ataque prometedor. Conclusão: orfão também era o David Copperfield, do Dickens, mas esse não fazia magia... (E com o VAR é mais difícil, salvando-se o nosso segundo golo.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pedro Porro

rui costa árbitro.jpg

01
Dez22

Tudo ao molho e fé em Deus

Muda aos 3 e acaba aos 6


Pedro Azevedo

O Sporting Clube de Portugal defrontou uma sua filial, o Sporting Farense. Uma filial é como um filho, no caso o nº 2 (o de Tomar é o primeiro), e um pai deve dar sempre bons ensinamentos aos seus filhos, prepará-los para o futuro. Vai daí, ao Farense foi dada uma lição que se espera tenha servido para que na próxima época possa jogar com(o) gente grande. Por falar em gente grande, o jogo de ontem fez-me lembrar o estranho caso de Benjamin Button: enquanto, no Sporting, os muito jovens Marsá e Mateus Fernandes jogaram que nem veteranos, na baliza do Farense esteve um Velho, que pareceu tão jovem que aguentou até aos 90. E seguro, apesar dos 6 golos encaixados. (Bem diz a sabedoria popular que o seguro morreu de Velho...)

 

A partida também me trouxe à imaginação os tempos de escola e as peladinhas em que se mudava de campo aos 3 para acabar aos 6. Mas com postes em vez de malas e uma outra diferença: na escola, geralmente havia guarda-redes avançado, enquanto no jogo de ontem o Sporting nem teve guarda-redes. Pelo menos foi a sensação com que fiquei, que, quando os farenses atacavam, o campo afigurava-se-lhes tão, tão grande como do Campo Grande a Israel... 

 

Com tanta juventude em campo e a época natalícia a chegar, não se estranhou que tenha entrado em cena o Pai Natal, o original e não o da Coca-Cola, aquele que se veste de verde e branco. Para quem nele acreditar, claro. Logo, os mais velhos se aperceberam de que era o Paulinho, que se fartou de distribuir presentes por espectadores e até pelos colegas. Mais individualista, o Edwards deu-nos a sua última actualização de mini-Messi, o que também não esteve nada mal. Com tudo a correr tão bem, até foi possível vislumbrar o Pote de Ouro no final do arco-íris. Foi de sonho, tão de sonho que julguei ver o cavaleiro Arthur a fazer da redonda o seu reino. E ainda houve tempo para o Jovane desentorpedecer as pernas (e as sinapses) e para o Mateus assumir na hora H. (Provavelmente será por isso que insistem em escrever o nome dele com um "h", sabendo que a virtude está no meio.)

 

Agora é esperar que a estes bons princípios, perdão, reinícios se sigam boas continuidades. Até 2026. (Uma vez que havia que substituir as VMOCs, ao menos que tenha sido por algo ou alguém que já mostrou valer a pena.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Paulinho

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07
Fev22

Tudo ao molho e fé em Deus

A metafísica do penálti


Pedro Azevedo

A história dizia-nos não ser fácil para o Sporting jogar contra o Famalição. Disse bem, F-a-m-a-l-i-ç-ã-o, ou Fama Lição, que para os jogadores minhotos cada jogo com um grande é uma montra para a fama, para o mercado (uma equipa de um mercador é naturalmente um amontoado de jogadores com os olhos postos no mercado), momento ideal escolhido para vestirem o melhor fato de gala e exibirem dentro do campo tudo o que aprenderam e não mostraram sempre que o palco foi menor ou despertou menos curiosidade mediática. Sabendo-se de antemão que nunca havíamos vencido o Famalicão para o campeonato (em cinco jogos) desde que este regressou das profundezas das divisões inferiores, os Sportinguistas já estavam precavidos para as lições futebolísticas que mais uma vez poderiam advir desta partida. Ninguém porém poderia esperar que desta vez a lição se fosse centrar sobre a metafísica do penálti e englobasse como protagonistas os numerosos comentadeiros de serviço das diversas televisões, todos eles procurando descrever os fundamentos, as leis, as recomendações, as causas ou princípios e o sentido e finalidade de realidade inerentes à marcação de uma grande penalidade. Surpreendentemente, a coisa acabou por ser um jogo dentro do próprio jogo, estendendo-se até para além do jogo, isto é, o jogo já há muito havia terminado quando a metafísica (ou meta fisica, para alguns) do penálti tomou conta do cenário central de abordagem ao próprio jogo. Deve dizer-se que a discussão teve a sua graça e permitiu-me dar algumas bem audíveis gargalhadas. Uma delas soltei quando um senhor da SportTV garantiu que o Porro havia caído em cima da perna de um jogador famalicense, razão substantiva, na sua opinião, para a marcação de um castigo máximo. Ora, eu não vi nada disso. O que eu vi foi o Porro imitar o Cavaleiro Negro do "Em Busca do Cálice Sagrado" (Monty Python), e já sem braços e pernas tentar, primeiro com a cabeça, depois só com as orelhinhas, incomodar o jogador minhoto como se do Artur de Camelot este se tratasse. E não preciso da metafísica, bastam-me os conhecimentos básicos sobre a física e em particular sobre a dinâmica do movimento, para entender que se alguém me cair sobre uma perna eu fico logo ali, com operação garantida à tíbia e perónio e fisioterapia durante meses, não dou nem mais um passo com o pé firme no chão (se a meia do jogador famalicense fosse branca ainda se poderia alegar no sentido da penalidade o "pé de gesso", mas sendo azul...). Outro momento hilariante foi o do penálti do Paulinho. Quer dizer, um jogador famalicense atrasa mal a bola e ao ver que Paulinho se vai aproveitar desse deslize procura emendar o erro através de um carrinho. A sua perna esquerda é consequente nesse acto e chega primeiro à bola enquanto o Paulinho esboça um movimento teatral ao ir de encontro às pernas do adversário. Até aí nada indiciara a existência de uma falta. Só que a perna direita do defensor desliza na relva e acaba por acertar no calcanhar do avançado do Sporting. Penálti nítido, sem sombra de dúvida, independentemente do La Féria ter no Paulinho um elemento em conta para incluir a trupe do Politeama. Penálti cá, penálti lá, a inquisição espanhola voltou a fazer toda a diferença: Sarabia castigou lá, Adán defendeu o castigo cá. E o Sporting foi para o intervalo na frente do marcador.

 

No segundo tempo os minhotos continuaram a mostrar um bom futebol, nomeadamente através de variações constantes do centro de jogo que muito atrapalharam as marcações do meio-campo leonino. Isso, somado à boa técnica de vários dos seus jogadores, foi criando inúmeros problemas aos leões, que muito devem agradecer o resultado à má definição do último passe/remate por parte dos famalicenses e ao monumental golo (o seu primeiro de verde-e-branco) de Matheus Reis que acalmou um pouco as nossas hostes. Enquanto isso, o Sporting procurava ter bola, única forma de esconder uma menor intensidade resultante do facto de 5 dos 11 jogadores em campo estarem à bica de falhar o jogo com o Porto. A fava acabaria por tocar a Porro, confirmado como o Cavaleiro Negro da noite de Alvalade, que assim estará ausente do Jogo do Título. Uma baixa muito importante para nós num jogo que vai pedir muita garra, disponibilidade física e vontade de vencer a cada um dos nossos jogadores. Bom, mas isso é só para a semana que vem. Para já "matámos" o borrego, seguir-se-á o Dragão. Jogo a jogo. E com Slimani como nóvel cavaleiro candidato a São Jorge (e Edwards como opção a ter em conta). 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Antonio Adán

porro fama.jpg

(Imagem: A Bola)

27
Jan22

Tudo ao molho e fé em Deus

Flying Circus


Pedro Azevedo

Sem Coates, voltou a ser um central sul-americano a fazer o papel de Paulinho. Chama-se Villanueva, um venezuelano provavelmente mais habilitado a defender a sua baliza a sete Chavez, e até agora ainda não tinha mostrado dotes goleadores especialmente relevantes. Mas desta feita fez um golo com um disparo indefensável efectuado a 1 metro da baliza, marca de onde Paulinho mais tarde miraculosamente despachou para canto um golo cantado. Tudo está bem quando acaba bem, mesmo que o guião do jogo se tenha assemelhado ao de um filme dos Monty Python. (Pensando bem, nem o John Cleese se lembraria de uma coisa assim.)

Paulinhosantaclara.jpg

30
Dez21

Tudo ao molho e fé em Deus

O WM contra o autocarro


Pedro Azevedo

Caro Leitor, os jogos em Alvalade estão cada vez mais difíceis de vencer! Ontem, por exemplo, deparámo-nos com um daqueles autocarros antigos de passageiros da Eva que já se julgava estarem fora de circulação, com um veio posterior que, qual elástico ou fisga (de David), impulsiona a traseira para a frente nalgumas curvas mais sinuosas. Partindo de uma espécie de um 6-3-1, desse desdobramento portimonense resultou que, subitamente, vários algarvios se abeirassem da nossa baliza, daí nascendo uma interacção entre Adán e Eva que terminou com o pecado original de sofrermos um golo primeiro que o adversário. Na sua génese esteve o Reis, curiosamente um dos melhores em campo. Seguiu-se um jogo de ténis, com a bola a ir e vir constantemente para e da área portimonense sem que o Sporting conseguisse marcar um ponto. Para tal muito contribuiu a robustez do quadrunvirato de centrais algarvio, que impôs a lei perante o marxismo-leoninismo patenteado por uma equipa leonina sub-virada à esquerda, com a ala direita amputada pela inibição de Esgaio e as ligações de jogo interior coartadas pela extrema vigilância dos médios algarvios a Matheus Nunes. O intervalo chegou com o Sporting em desvantagem no marcador.

 

Não demorou muito tempo até que Rúben Amorim mexesse na equipa, Primeiro trocando Palhinha por Bragança, depois abdicando de Esgaio em função do estreante Geny Catamo, um jovem que revelou ter grande personalidade ao procurar constantemente o 1x1, com o suplemento de inteligentemente ter variado as suas acções, alternando os movimentos para fora e para dentro. Com as duas alas finalmente a carburarem em sintonia, os portimonenses viram-se obrigados a bascular sucessivamente a sua linha defensiva como se de uma equipa de andebol se tratasse. Por essa altura já Pedro Sá havia sido expulso por acção de um Reis Mago que assim entregou o ouro a Amorim, pelo que o esforço pedido aos algarvios acabou por provocar uma erosão de onde começaram a surgir falhas. E como tantas vezes acontece no andebol, o espaço para o pivô (atacante) apareceu. Assim, Paulinho acabaria por marcar de cabeça, primeiro, e depois por duas vezes com o pé direito, materializando um hat-trick, um sortilégio digno da magia do Natal que, pasme-se, nem sequer envolveu o seu melhor pé ou o remate de fora da área. Nuno Santos, no segundo tempo muito mais ala que lateral, esteve na origem dos dois primeiros.

 

Para ganhar ao Portimonense, qual "remake" da recepção ao Gil Vicente no ano passado, Rúben Amorim teve de pôr o Sporting a jogar em 3-2-5, o célebre WM popularizado por Herbert Chapman e tão caro aos nossos saudosos 5 Violinos. Curiosamente, Amorim surge agora entre Robert Kelly (79,2%) e Cândido de Oliveira (75,3%), os treinadores dos verdadeiros 5 Violinos que ainda incluíam Peyroteo, no segundo lugar da lista histórica dos treinadores do Sporting com maior percentagem de vitórias (75,31%, 61 em 81 jogos) por jogo realizado, deixando ainda mais atrás nomes como Alexander Peics (4º), Jozsef Szabo (5º), Randolph Gallloway, Mário Lino, Fernando Vaz, Malcolm Allison ou Bobby Robson. E como o nosso treinador diz que o melhor ainda está para vir...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Paulinho

AmorimPaulinho.jpg

04
Mar19

Tudo ao molho e fé em Deus - O condutor


Pedro Azevedo

Na física, um campo eléctrico é criado por cargas eléctricas ou por variação de campos magnéticos. As cargas eléctricas necessitam de condutores para se poderem deslocar. No Sporting, o Bruno Fernandes é esse condutor de electricidade da equipa no campo. Já o Gudelj é um isolante, nele não existe qualquer movimentação de corrente. Tal como um dínamo, ou o motor de um automóvel, Bruno é a fonte de alimentação que traz a corrente contínua a todo o circuito formado pela equipa leonina. A sua acção é constante ao longo do jogo, tal como a de Acuña ou de Mathieu. Por Tiago Ilori, por exemplo, passa uma corrente alternada, pois o sentido do seu jogo varia tanto com o tempo que chega a um ponto em que já não faz qualquer sentido.

 

Em tempo de Carnaval, o Sporting recebeu ontem uma escola de samba em Alvalade. Comandados por Paulinho, e com Tabata, Wellington e Lucas Fernandes em bom plano, o Portimonense, com 8 brasileiros no seu "onze" inicial, tentou pregar uma partida à equipa leonina. Porém, acabaria por ser outro Fernandes, Bruno de seu nome, a ser o Rei Momo. A sua marca ficou logo registada ao minuto 10, e em dose dupla: primeiro, serviu de trivela Raphinha para um remate defendido por Ricardo Ferreira para canto; de seguida, enviou do quarto de círculo um míssil que Diaby desviou para golo; finalmente, com a parte interior do pé direito, isolou Raphinha para o segundo da noite. Nada mal para aquele que cada vez um número mais reduzido de adeptos que certamente não aprecia o bom futebol continua a não querer perdoar, indo ao ponto de lhe atribuir um epíteto insultuoso. É que Bruno não é um verme, mas sim um Vermeer e, em duas pinceladas de génio, da sua cabeça (e pés) saíram umas composições inteligentes e brilhantes com que começou a ilustrar uma nova tela.

 

Os de Portimão não se ficaram e desataram a incomodar a baliza de Renan. Com facilidade iam ultrapassando Ilori, no solo ou pelos ares, embora sem consequências de maior, até que Renan, primeiro, e Mathieu depois, foram o pronto-socorro que evitou males maiores. Estimulados pela oportunidade, os algarvios viriam a reduzir diferenças, num lance em que Gudelj desligou a ficha e deixou a sua baliza em circuito aberto. Com o golo, o jogo ficou repartido e as oportunidades até ao intervalo sucederam-se a um ritmo frenético. Primeiro, foi Bruno (sempre ele!) a encontrar Raphinha solto na direita e este a deixar Diaby isolado na cara de Ricardo, após simulação e arrastamento de Dost, em lance ingloriamente desperdiçado pelo maliano. Depois, foi Renan o herói, e tal como Bruno em dose dupla, parando os remates consecutivos de Paulinho e de Wellington, sem que nunca Gudelj surgisse a pressionar o portador da bola ou a ajudar os seus defesas. De seguida, Lucas Fernandes enviou uma bomba que acertou na trave e ressaltou para cá da linha de golo, ficando a rabiar nas suas imediações. Finalmente, Bas Dost, servido por Bruno e isolado perante o guarda-redes adversário, voltou a ter uma falha eléctrica no seu cérebro, sintoma que não sabemos se estará relacionado com a leitura de algum relatório e contas.

 

No recomeço, o Sporting já não surgiu tão afoito, facto que também não permitiu as transições portimonenses. Ainda assim, os leões desperdiçaram inúmeras oportunidades. Assim, de cabeça, Diaby e Bruno falharam golos cantados. Mais tarde, com os pés, repetiriam o desígnio. Destaque, no entanto, para a jogada em que Bruno tirou dois adversários da frente e rematou de pé direito para uma enorme defesa de Ricardo Ferreira. Entretanto, ainda antes da hora de jogo, Dost deu lugar a Phellype. Keizer, no fim do jogo, justificou a decisão com a observação de que o seu compatriota não estava no jogo. Observação correcta, diga-se. Não que o brasileiro que o substituiu tenha trazido algo de especial ao jogo, para além do cartão amarelo da ordem. Eis então que Keizer colocou Doumbia em campo para nos mostrar que este é bem melhor que Gudelj e, provavelmente, o único jogador contratado este Inverno para a equipa principal do qual ouviremos falar (bem) no futuro. No entanto, não foi o sérvio a sair mas sim Raphinha. Uma lástima, pois o marfinense deveria jogar sempre e, tal como nos medicamentos, vir acompanhado da contra-indicação de não ser misturado com cidadãos dos balcãs. Com a substituição, o Professor Marcel pretendeu fechar o jogo, mas um algarvio não concordou e imbuído do espírito do entrudo deu uma martelada na cabeça do Bruno Fernandes dentro da área. Chamado a converter a penalidade, o Bruno sentou o guarda-redes com a paradinha e escolheu o lado por onde rematar com sucesso. Ainda houve tempo para a entrada de Francisco Geraldes, por troca com Wendel. O homem que mais aquece em Alvalade queria tanto tocar na bola que quando teve oportunidade agarrou-a (literalmente) com as duas mãos. O Capela não gostou e o Xico saiu do lance com um sorriso (e não só) amarelo. Nós também, no fim do jogo, pese embora tenhamos ganho, o que é sempre o mais importante. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno Fernandes (who else? - médio com mais golos obtidos numa só época em toda a história do Sporting). Menções honrosas para Renan (3 defesas importantes), Mathieu (seguro, ainda teve tempo de ir à frente assistir Diaby para um falhanço) e Acuña (tem corrente para os 90 minutos). Raphinha e Diaby marcaram um golo cada, mas destacaram-se igualmente (mais o maliano) pela trapalhice com que abordaram alguns lances.

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