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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

02
Nov19

A alma de Kolisi deu asas ao sonho de Mandela


Pedro Azevedo

A África do Sul partia para a final do mundial de rugby como o "underdog". Do outro lado estava a poderosa Inglaterra, grande favorita à vitória final. Tudo assentava numa espécie de silogismo: os "Springboks" sul-africanos haviam perdido bem contra os "All Blacks" neozelandeses (fase de grupos) que por sua vez tinham sido derrotados convincentemente pela selecção da Rosa (meias finais), logo a Inglaterra devia naturalmente vencer.

 

Acontece que os sul-africanos não estiveram de acordo. Tudo começou na estratégia de jogo e na palestra motivacional do seu treinador, o conhecedor Rassie Erasmus (a fazer jus ao nome). Depois, prolongou-se no campo através da acção de liderança de Siya Kolisi, o primeiro capitão negro da história dos "Springboks", que no final do jogo teve este discurso inspirador: "Viemos de contextos diferentes, distintas raças, mas juntamo-nos com um único objectivo: alcançar a vitória no Mundial e mostrar à África do Sul que quando estamos juntos, conseguimos tudo". Mandela, em cima, no Céu, deve ter sorrido embevecido...  

 

O jogo ficou marcado pelos pontapés de Handre Pollard, o experiente médio de abertura sul-africano, que desde o apito para o início da partida foi estabelecendo a diferença no marcador, apoiado no desempenho dos seus valorosos avançados (o número 8, Vermeulen, foi considerado "Man of the match") que foram ganhando sucessivos "rucks" e faltas. Destaque também para a acção dos talentosos pontas Mapimpi e Kolbe, os quais foram decisivos na fase final do jogo com ensaios obtidos através de movimentações onde combinaram velocidade com inteligência e/ou trocas de pés estonteantes. 

 

Com esta vitória, os "Springboks" estão agora a par da Nova Zelândia como as selecções com mais  vitórias em mundiais (3), com a particularidade de os sul-africanos terem ganho sempre com intervalos de 12 anos (1995-2007-2019). Uma palavra de apreço para o Japão, país que organizou um Mundial fantástico, com muita festa nas bancadas. Uma celebração da vida, não do ódio. Aliás, digno de destaque foi o "fair-play" de todos os intervenientes, desde árbitros (sempre a privilegiarem a prevenção em detrimento da repressão), treinadores, jogadores até ao público presente. O rugby, mais uma vez, a dar uma lição de civilidade a todos os amantes do desporto em Portugal e no mundo.

kolisi.jpg

Kolisi recebendo a Taça Webb Ellis com De Klerk (influente Médio de Formação) a seu lado

21
Set19

Outros mundos - Mundial de Rugby


Pedro Azevedo

Começou ontem o Mundial de 2019 em rugby. No jogo inaugural, disputado no Tokyo Stadium, o anfitrião Japão venceu a Rússia por 30-10 (12-7 ao intervalo). Os nipónicos, que estiveram à beira de se qualificarem para os quartos de final do Mundial de 2015 após terem feito história ao bateram a África do Sul por 34-32, não se mostraram à altura do salto qualitativo que se esperava deles nesta edição, revelando dificuldades inesperadas contra a frágil formação do leste europeu. Ainda assim, colocados no Grupo A, aguardam-se com expectativa os seus confrontos com as duas equipas das ilhas britânicas, Escócia e Irlanda, as quais reunem favoritismo a entrar na fase a eliminar (são apurados os dois primeiros de cada grupo). Completa o grupo a Samoa, país do Pacífico Sul com muita tradição no rugby e com jogadores de grande compleição física, velocidade e habilidade, mas a quem falta a organização de jogo neozelandesa.  

 

No Grupo B é extremamente improvável virem a acontecer surpresas. A Nova Zelândia, país recordista de vitórias (3 em 8 edições) em mundiais de rugby, é naturalmente a maior favorita a ganhar a Taça Webb Ellis, pelo que não terá dificuldades em passar a fase de grupos, no que será acompanhada pela África do Sul, a grande potência africana da modalidade e uma das favoritas a ganhar o título, que tem no "três-quartos" De Klerk velocidade e um jogo de pés inovativo. A curiosidade maior será o imperdível embate entre estas duas selecções, o qual está agendado para hoje (10H45 SportTV). Já sem dois dos seus mais influentes campeões de 2015, os míticos Dan Carter (médio de abertura) e Richie McCaw (capitão e terceira linha), ainda assim os neozelandeses apresentar-se-ão fortes e, na ausência de Carter, com dois "playmakers": o seu novo médio de abertura Richie Mo'unga e o "arrière" Beauden Barrett. Itália, Canadá e Namíbia completam o grupo, mas apesar da evolução dos dois primeiros não é crível que se constituam como um verdadeiro obstáculo às pretensões de duas das maiores selecções mundiais.  

 

O Grupo C é claramente o "grupo da morte" deste Mundial, com Argentina, França e Inglaterra a disputarem dois lugares de qualificação, enquanto Estados Unidos e Tonga pouco mais poderão fazer do que mostrar a evolução do seu rugby, mais evidente por parte dos americanos. De entre os favoritos a passar esta fase os gauleses são quem mais vezes conseguiu atingir as meias finais da competição, tendo lá chegado por seis vezes, feito apenas batido pela Nova Zelândia (7). Apesar disso, nunca venceram um mundial, tendo perdido 3 finais. Adicionalmente, as suas prestações nos últimos "Seis Nações", torneio que é um verdadeiro campeonato europeu da modalidade, não têm deslumbrado pelo que não será de admirar que os franceses fiquem de fora. Em relação aos restantes, a Inglaterra é a única selecção europeia a ter vencido um Mundial (2003), mas há muito tempo que não chega a umas meias finais (2007), com os seus "XV" a não conseguirem reeditar o nível de jogo daquela mítica equipa superiormente comandada por Sir Clive Woodward (treinador) e pelo médio de abertura e temível chutador Jonny Wilkinson. A Argentina tem vindo a beneficiar de participar desde 2012 no Rugby Championship, uma espécie de campeonato do hemisfério sul, que reune anualmente Nova Zelândia, África do Sul, Austrália e os "Pumas", o que lhe vem conferindo uma maior competitividade. 

 

O Grupo D tem a Austrália e o País de Gales como claros favoritos. A Geórgia, que tem vindo a evoluir bastante nos últimos anos, é uma forte candidata ao terceiro lugar no grupo enquanto Uruguai e Fiji deverão discutir a quarta posição. Os galeses, recém vencedores do "Torneio das Seis Nações", serão pela última vez treinados pelo neozelandês Warran Gatland, que certamente não quererá abandonar sem conquistar a mais importante competição do mundo do rugby, evento em que o País de Gales, ao contrário do seu riquíssimo histórico no "Seis Nações", não tem sido feliz, com apenas um terceiro e um quarto lugar nas 8 edições da prova. Os galeses depositam todas as suas esperanças numa geração de grandes jogadores que tem neste Mundial provavelmente a sua última hipótese de fazer história, pelo que será de esperar que o capitão Alun Wyn Jones, o abertura Dan Biggar, o centro Jonathan Davies, os pontas George North e Liam Williams (também "arrière") e o mítico "arriére" Leigh Halfpenny não deixem os seus créditos por mãos alheias. Quanto aos "wallabies", já venceram por duas vezes o torneio, pelo que serão sempre uma selecção a considerar como candidata ao título. 

 

De assinalar que os árbitros deste Mundial têm instruções muito claras no sentido de tolerância zero face a placagens perigosas, as quais serão punidas com o cartão vermelho (o cartão amarelo implica a saída - passagem pelo "sin-bin" - por 10 minutos do jogador infractor). De resto haverá vídeo-árbitro neste campeonato, ou não fosse o rugby uma modalidade precursora no que à verdade desportiva diz respeito, algo que não se mede só pela arbitragem mas também pela postura leal da esmagadora maioria dos jogadores em campo, pese embora a combatividade e a agressividade natural sempre presentes no jogo. 

 

Não percam este Mundial!

Webb_Ellis_Cup.jpg

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