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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

15
Jun20

O futuro do futebol


Pedro Azevedo

Ao contrário do que muitos analistas têm vindo a antecipar, eu tenho as maiores dúvidas que o valor dos direitos económicos dos jogadores de futebol tenha uma descida pronunciada. E há boas razões para acreditar que tal não venha a ocorrer no horizonte próximo. Vou tentar explicar o porquê dessa minha convicção. 

 

Desde 2008, devido à crise financeira, os bancos centrais, um pouco por todo o mundo, têm perseguido uma política monetária expansionista a fim de estimularem o consumo e o crescimento económico. Esta política, dita Keynesiana, porque baseada em teoria expressa por John Maynard Keynes, tem implicado impressão de moeda, redução de juros e monetização da dívida (recompra de obrigações do Tesouro e de empresas) por parte dos bancos centrais. Com isso, os juros em todo o primeiro mundo desceram até O% (ou abaixo). Alguns dos bancos centrais, como o americano, já tinham iniciado o processo de reversão da descida dos juros, outros, como o BCE, ainda não, quando eis que se se instala a pandemia. Com os juros novamente em baixa, assistimos nos últimos 2 meses a subidas significativas dos índices accionistas e obrigacionistas. Para muitos pode parecer um absurdo, dadas as expectativas macroeconómicas de recessão (mínimo de 2 trimestres consecutivos de PIB negativo) para o 2º semestre do ano e perspectivas de aumento dos défices orçamentais, mas a verdade é que tal resulta de um efeito de dissociação entre activos financeiros e a economia e do intervencionismo dos bancos centrais inerente ao modelo keynesiano em curso. 

 

Como tal, e enquanto os mercados financeiros continuarem suportados (os analistas não põem de parte a possibilidade de o próprio FED poder comprar acções e uma antiga governadora da Reserva chegou a admiti-lo como cenário possível!!!), os investidores continuarão a apostar nos mercados financeiros em contraponto a depósitos que dão um rendimento nulo. Evidentemente, haverá sempre riscos no horizonte, pelo que a dado momento dar-se-á uma lógica de diversificação. O mercado imobiliário, por exemplo, sendo outro mercado que beneficia muito do crédito barato, será um destino possível para essa lógica de distribuição dos activos. Logicamente, nem todos os países ou cidades serão interessantes e alguns haverá que estarão sobreaquecidos. Não se sabe, por exemplo, como os preços das casas em Portugal e Lisboa aguentarão se os turistas que suportam o R&B não regressarem, os pedidos de residentes não  habituais diminuirem acentuadamente e os investidores estrangeiros se retraírem. 

 

Por muito que o desemprego suba, que o poder de compra das famílias de classe média se reduza, a consequência imediata do keynesianismo será acentuar as assimetrias entre ricos e pobres, criando ao longo do tempo múltiplas bolhas especulativas à espera de uma desculpa para rebentarem. Ora, seja por uma lógica de diversificação do risco, por ser um nicho interessante a explorar, infeliz menor escrutínio dos capitais alocados ao futebol por oligarcas, visibilidade que o futebol dá que pode potenciar outros negócios, ou simplesmente por interesses geo-políticos e económicos de estados soberanos asiáticos, a verdade é que continuará a chegar ao futebol muito dinheiro. Sob a forma de entrada no capital de sociedades (capitais próprios) ou de empresas especializadas no financiamento da indústria/engenharia financeira (capitais alheios) que em breve tomarão a posição outrora da banca. Logicamente, devido ao cenário macro, serão de esperar no imediato menos receitas comerciais, a nível de publicidade e patrocínios directos. Também a nível de bilhética, acentuadas pelas regras de distanciamento social. Porém, não estou tão certo de vir a haver retracção no que diz respeito aos DireitosTV, opinião resguardada no recente acordo (1 semana) anunciado pela Liga alemã, que vendeu por um valor recorde de 1,4 mil milhões de euros por ano, a um consórcio formado por Sky, Eurosport e ZDF, os direitos de transmissão televisiva para as próximos 4 épocas, confirmando-se assim o futebol como um fenómeno muito atractivo para os operadores de TV mundiais e, indirectamente, para empresas que através da televisão publicitam os seus produtos. Simplesmente, também no futebol é expectável que as assimetrias entre grandes e pequenos venham a aumentar, aspecto que a não ser resolvido pela regulação da UEFA - fortemente pressionada pela possibilidade de uma Superliga - , através de regras como a limitação do número de jogadores inscritos, maior equidade no acesso à Champions entre Big Five e clubes de países fora desse círculo restrito e fundos de compensação para países periféricos, ir-se-á acelerar nos próximos tempos. É por isso mais do que nunca importante apostar no que se produz, isto é, na Formação. O investimento em pesquisa e desenvolvimento de jovens jogadores continuará a ser muito mais acessível que o mercado de transferências. E essa será sempre uma realidade que não deve ser desprezada por clubes de países adjacentes aos Big 5, que irão ainda mais constituir-se como o viveiro de jogadores dos principais campeonatos europeus, sob pena de, sem eles, a falência do negócio futebol ser inevitável dada a discrepância geral entre custos e proveitos e o valor de mercado dos jogadores das grandes Ligas. 

 

P.S. Antigamente havia uma dicotomia entre FED (continente americano) e Bundesbank em termos de política monetária que garantia um sistema com algum equilíbrio em que os mercados não tinham tanta vida própria quando comparados com a economia. A Reserva Federal americana, com o seu mandato dual, de controlo da inflação e promoção do pleno emprego, sempre teve um cariz mais expansionista, mais keynesiano. Por outro lado, o banco central alemão, perseguiu sempre uma política monetária adepta da escola austríaca, de Hayek, tomando apenas como referência o crescimento da massa monetária em circulação (M3) e sendo por isso mais austero na rapidez da descida dos juros. Essas duas visões diferentes, protagonizadas nas figuras de Alan Greenspan e de Hans Tietmeyer, não caucionavam tantos excessos nos mercados. Durante os primeiros anos do euro, esse equilíbrio manteve-se, com o BCE a herdar a filosofia do Bundesbank. Mas a crise financeira provocada pela dívida subprime e a subjacente crise da dívida soberana periférica europeia acabou por aproximar a política monetária europeia da americana, dando-se até o caso de hoje em dia ela própria ser mais expansionista, como já estava a ser notório antes da pandemia da Covid-19. Os ganhos de produtividade inerentes à revolução tecnológica a que temos vindo a assistir na nossa geração e a diminuição dos custos de produção por deslocalização dos factores produtivos para a Ásia (China, Índia,...) terão contribuído para conter a pressão inflacionista subjacente a uma política monetária expansionista e isso acabou por gerar uma dissociação entre o mercado accionista (a subir desde Março de 2009) e a própria economia, aumentando as assimetrias entre as populações por via de rendimentos extra que não provêm do trabalho e aparecimento de novos milionários provenientes essencialmente de empresas tecnológicas europeias e americanas, de companhias que exploram e gerem recursos naturais e de oligarquias do leste europeu e da Ásia, uns e outros beneficiando da especulação accionista e do forte investimento estratégico do novo gigante China em ambiente de juro zero.

dinheirofutebol.jpg

02
Ago19

A diferença entre valor e preço


Pedro Azevedo

Anda por aí muito boa gente que diz que o valor de um atleta é o preço que alguém paga por ele. Nada mais errado, pois se assim fosse, e meramente à laia de exemplo, os mercados financeiros não oscilariam diariamente na ausência de novas notícias ou indicadores de desempenho, porque estariam sempre certos. Se forem falar com lendários investidores como Warren Buffet ou Bill Miller (Legg Mason), este último mais desconhecido para o grande público mas sobejamente identificado nos mercados financeiros como alguém que bateu o desempenho do S&P500 (índice de acções americano) durante 15 anos consecutivos, eles dir-vos-ão isso. Por exemplo, o preço de uma garrafa de água é algo conhecido em média e varia com um desvio-padrão relativamente curto. Mas qual será o valor de uma garrafa de água no deserto durante um dia de tórrido calor? O valor tem a ver com o rendimento que aquele activo tem para nós (dividendo, se estivermos a falar em acções; desempenho desportivo, no futebol; sobrevivência, no caso da garrafa de água), o seu potencial de crescimento, a qualidade intrínseca ao seu desempenho e o custo de oportunidade da sua substituição.  

 

Por isso, os investidores em "valor" compram activos quando a sua avaliação dos mesmos é superior ao preço de mercado e vendem-nos quando ocorre o contrário, porque têm a consciência que os mercados tão depressa reagem exageradamente como também subestimam determinados activos, essencialmente devido a decisões emotivas e altamente especulativas. Não esquecer também que, no caso do futebol, o activo jogador está relacionado com o activo clube, no sentido do desempenho deste último, da sua visibilidade nos grandes palcos, da sua performance económico/financeiro, sua relação com empresários e política a este respeito, entre outros parâmetros de análise. Chegados aqui, o que importa à Administração da SAD do Sporting reter é se o valor do atleta Bruno Fernandes para eles é superior ou não ao preço que o mercado está disposto a pagar por ele. E, se o for, tomar a decisão de naturalmente não o vender. Havendo a consciência que a diferença de preço entre, por exemplo, João Felix e Bruno Fernandes, poderá pouco ter a ver com o valor intrínseco de cada um e dentro de algum tempo poderá inverter-se. Se dúvidas houver, atente-se na transferência de Renato Sanches para o Bayern, a qual com objectivos ascendia a cerca de 60 milhões de euros. Qual será hoje o preço do "bulo"? O mesmo é válido para João Mário.

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