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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

14
Jun20

Nobody expects the Spanish Inquisition(*)


Pedro Azevedo

(*) Inclui "Argument Clinic". Com um abraço ao Luís Ferreira e ao Sportinguista de 5 votos pela inspiração para o Post.

15
Jan20

O meu Sporting


Pedro Azevedo

O meu baptismo de fogo em Alvalade ocorreu no dealbar de 1976 quando Sporting e FC Porto se defrontaram num sempre eterno clássico. Até aí o meu amor ao clube foi sendo estimulado pela rádio, uma onda média face ao tsunami que me invadiu quando pisei pela primeira vez o solo sagrado daquela que viria a ser a minha segunda casa. Pode-se por isso dizer com propriedade que na minha meninice o Sporting passou de ser ouvido para ser vivido, de imaginado para testemunhado, sem que nada do sortilégio inicial se tivesse perdido mas sim reforçado. Curiosamente, a primeira recordação que tenho do Sporting é de um relato que ouvi durante uma viagem com os meus pais. O adversário era o Oriental, cujo guarda-redes curiosamente dava pelo nome de Azevedo. Do nosso lado estava o Yazalde, o índio com cara de anjo, o imortal Chirola, homem preocupado com o seu semelhante como ninguém. Menos na hora de atacar as balizas, está bom de ver, como nessa tarde em Alvalade se voltou a comprovar, com o argentino a deixar a sua marca por 5 vezes numa goleada do Sporting por 8-0. Desse ano (74), recordo-me ainda da inglória eliminação na meia-final da Taça das Taças frente ao Magdeburgo, equipa da hoje extinta República Democrática Alemã. Dois jogos que não nos correram nada bem, o de Alvalade com uma grande penalidade falhada entre um ror de oportunidades desperdiçadas e um auto-golo concedido, o da Alemanha de Leste com Tomé a desperdiçar o golo da qualificação em cima do gongo para terminar o jogo. Em ambos os jogos não pudemos contar com Yazalde, lesionado, o matador que nessa época fez abanar as redes em 50 ocasiões nas várias competições em que estivemos inseridos. Tenho também presente um derby contra o nosso rival que perdemos, mas em que Chirola fez um golo do outro mundo com um cabeceamento a 20 centímetros do chão que foi responsável por uma das últimas vidas do popular Zé Gato dos lampiões, logo de seguida substituído por Bento. Por fim, lembro-me de uma vitória saborosa no Jamor contra o Benfica, com um golo no último minuto de Chico (mais tarde Faria) que nos levou a prolongamento e a pincelada final de Marinho. Se não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão, ter começado a acompanhar o Sporting numa época em que fizemos uma dobradinha não poderia ser mais auspicioso na minha relação com o clube. O mesmo se poderia dizer da minha estreia em Alvalade. Não é todos os dias que se ganha por 5-1 ao Porto e eu estive lá a vê-lo ao vivo, numa época em que já não havia Yazalde mas ainda havia Chico e nascia a lenda de Manuel Fernandes. 

 

Ao contrário dos muitos jovens que hoje são adeptos ou sócios do clube, eu comecei a acompanhar o futebol numa altura em que o Sporting mostrava um ADN vencedor. E logo com uma das melhores equipas da história pós-revolucionária do clube, a qual só teria paralelo com a que Malcolm Allison formou em 82, ou com o "dream team" que Robson montou e do qual foi inusitadamente desbancado em 94. Talvez isso me tenha permitido carregar duradouras baterias de sportinguismo sem necessitar do lítio acinzentado dos nossos dias, baterias essas que me têm permitido navegar o meu sportinguismo para longe da espuma do momento e do surfar delirante na maionese que não condiz com a realidade do clube nem faz justiça ao seu passado de glória.

 

Num tempo em que o sentido colectivo das coisas se perdeu, o Sporting é o exemplo paradigmático de como as estratégias pessoais se sobrepuseram ao interesse comum e foram degradando o ADN do clube. Efectivamente, o Sporting é hoje em dia um clube onde as razões individuais se impõem à razão de um todo como se daí adviesse algo de positivo para o mundo sportinguista, em que os Melquiades de ocasião nos impingem miríficas loções de conhecimento empírico e conhecimento puro enquanto nos preparam para cem anos de solidão, e se denota a cada passo falta de sabedoria. Por isso, hoje em dia sou forçado a expressar a minha revolta vivendo única e exclusivamente o meu Sporting, aquele que é composto pelas minhas experiências e memórias, o que não se resigna, tem ídolos e referências intemporais, valoriza as ideias dos sócios e é empreendedor e renascentista, ganhando ou perdendo. O outro, o actual, não passa de um retrato de Dorian Gray, desfigurado e envelhecido pelo tempo enquanto tantos outros se revigoram. Retrato, que uma e outra vez "apunhalado", vai consumindo os sucessivos perpetradores. Até que um dia, terminado o infernal ciclo destes, possa enfim regressar definitivamente a todo o seu esplendor.  

portrait_of_dorian_gray_by_mercuralis.jpg

06
Nov19

Niilismo, maniqueísmo e conformismo, eis os males do Sporting


Pedro Azevedo

Não o conheço pessoalmente e nada tenho contra o cidadão Frederico Varandas. Adicionalmente, como Director Clínico, a ideia que ainda hoje retenho é de ter sido alguém muitíssimo competente no decurso suas funções no Sporting. Mas tenho de dizer que como presidente do clube tem falhado em toda a linha. E não falo apenas do que foi a canhestra preparação desta época desportiva e do impacto futuro que a política de aquisições, vendas (Bas Dost, Domingos Duarte) a preço de saldo e empréstimos com cláusulas de opção baixas por parte do clube comprador terá nas nossas já depauperadas finanças, acima de tudo preocupa-me o ambiente que se vive no clube e do qual não tenho memória em 39 anos de associado.

 

Tenho por hábito viajar ao filtro das pessoas, aquilo que na gíria se designa como colocar-me nos sapatos do outro. Desse modo, muitas vezes dou por mim a pensar o que faria se estivesse no lugar do presidente do Sporting e sentisse a contestação dos adeptos. Devo dizer que contestação por contestação não seria nunca motivo suficiente para abdicar das minhas convicções. Penso até que seria uma atitude algo irresponsável demitir-me nessas circunstâncias. Acontece que contestação é uma coisa, o ambiente que se vive no clube é outra. Sendo certo que algum do actual extremismo que se vive no Sporting deriva do radicalismo de linguagem que Bruno de Carvalho introduziu no clube (aquilo a que chamei de "exuberância irracional") quando errónea e despropositadamente trocou o inimigo externo pelo inimigo interno, também não deixa de ser verdade que Frederico Varandas nada fez para alterar esse "status-quo". Pior, do meu ponto de vista acentuou a separação entre sócios do Sporting. Do plebiscito referendário que ditou a destituição do anterior presidente resultou um 71%/29% em votos e uma assimetria ligeiramente menor em nº de votantes. Dado o clima que conduziu à destituição e ao "day after", em que ninguém poupou no verbo (ou melhor, no adjectivo), o radicalismo continuou a grassar. Quando Varandas começou a exercer funções cada um destes grupos já se encontrava confortavelmente barricado na sua trincheira, como se tal fosse o "novo normal" do Sporting. Ora, em vez de procurar um discurso assente no futuro, de reconciliação entre sócios e de aproximação destes ao centro da discussão como aliás havia prometido em campanha eleitoral, o presidente do Sporting não resistiu ao conforto ilusório de gerir a desunião, usando os primeiros opositores como escudo ou justificação para um eventual fracasso, ciente de que a maioria silenciosa estaria consigo. Na minha modesta opinião, um líder não parte para uma batalha com divisionismo nas suas hostes e a preparar uma derrota. Não, um líder arregimenta ao máximo à sua volta as suas tropas e com o foco exclusivo na vitória, ponto. Mais a mais após um acontecimento traumatizante para o clube que recomendava especial atenção e bom senso na colagem dos cacos, algo do género que o Marquês de Pombal exemplarmente quis fazer passar com a célebre expressão "cuidar dos vivos". Acresce que a obsessão com denegrir ainda mais o nome do anterior presidente sempre me pareceu desproporcionada. Uma coisa é eu sentir que Bruno já não tinha as condições psicológicas para gerir o Sporting, que na parte final do seu mandato já confundia o clube com ele próprio, etc, outra é não saber viver com quem partilhe uma opinião diferente ou deixar que se alimente a calúnia, insinuação e um tipo de ataques "ad-hominem" que não gostaria que fossem praticados contra mim. Esse, para mim, foi o primeiro grande erro de Varandas. No meio da exaltação de alguns seus próximos, Varandas nunca soube usar da liderança de forma a suavizar o discurso institucional e assim evitar radicalizar ainda mais o dos saudosos do antigo regime, pensando como um estadista preocupado com a próxima geração e não como um político a preservar a sua eleição. Não, durante uns tempos viveu-se um período de delito de opinião, próximo da "caça às bruxas" de um "macarthismo" bacoco que ignorou algumas realizações do anterior presidente que granjearam legitimamente simpatia nos sócios, mesmo naqueles que não lhe perdoaram a deriva dos últimos meses . Ora, se nós estamos absolutamente seguros da força das nossas convicções não devemos temer as opiniões dos outros, não é assim? À medida que os resultados desportivos mostravam a ponta do icebergue de uma política desportiva incompreensível, Varandas cometeu o seu segundo grande erro: começou o discurso truculento voltado para dentro, primeiro com um alvo definido (Cintra) depois para quem quisesse enfiar a carapuça ("esqueletos", "cientistas", "malucos", "cães que ladram"...), o regresso de uma linguagem imprópria que se julgava erradicada do clube e que ainda ontem se ouviu, imagine-se, em Dias da Cunha ("o bronco", assim se referiu ele a BdC, sendo certo que tem como atenuante já não exercer qualquer cargo no Sporting). Só que já se cumpriu um período de nojo razoável em relação aos acontecimentos de Alcochete e a gestão do futebol de Varandas é algo exogéno a esse dia negro, pelo que os sócios do Sporting, nomeadamente as bases e os moderados, deixaram de bater palmas a esse tipo de maniqueísmo primário e começaram a preocupar-se essencialmente com as consequências da estratégia delineada pela Estrutura para o futebol. Sentindo que a contestação subia de tom e que a fragilidade dos orgãos sociais era mais evidente, logo líderes de algumas claques aproveitaram para mostrar os dentes e vingarem a perda de privilégios. A Direcção respondeu como devia, mas num timing que a fragilizou dado o contexto da equipa de futebol. Entretanto, foi apresentado o 5º treinador da era Varandas, protestou-se um jogo bem perdido contra um clube da terceira divisão, depois de 40 milhões investidos desde Janeiro em contratações a equipa encontra-se à décima jornada a dez pontos do Benfica, não se vê aposta notória na Formação, a Comunicação do clube continua a não acertar uma, as Assembleias Gerais redundantemente vão terminando em arruaça e o Congresso Leonino, espaço onde todos os Sportinguistas podiam finalmente, de uma forma salutar e construtiva, discutir entre si ideias que visassem a melhoria do Sporting, foi adiado com o argumento (dado pela Comissão Organizadora) de que o momento não era o ideal para a reflexão sobre o clube. Convenhamos que é obra! Paralelamente, a equipa de futebol não tem qualquer protecção nos relvados deste país, algo que vem sendo exacerbado pela criatividade dos vídeo-árbitros que nos têm calhado em "sorte". Sobre isto a Direcção também não diz nada. Cria-se assim a sensação de vazio, desconhecendo-se para e por onde se caminha (se é que se caminha) e por que valores lutamos. É a nossa identidade que está em causa quando o niilismo Sportinguista entra em cena e deixamos de acreditar seja no que for e o ressentimento, paralisia e incapacidade de seguir em frente tomam conta do clube. O declínio sente-se a chegar. E é aqui que entra o terceiro grande mal que assola o Sporting: o conformismo. Dado o contexto, tudo hoje em dia no Sporting é visto como uma fatalidade, uma inevitabilidade. É por isso que Frederico Varandas deve repensar o seu futuro no Sporting. Volto a viajar ao filtro do presidente e interrogo-me: se o objectivo de um presidente é fazer os seus felizes, que ilação posso eu tirar de ver toda a gente infeliz e cada vez maior desagregação à minha volta? É aqui que o Sportinguismo do presidente deve, no meu entendimento, prevalecer sobre a ambição pessoal e o natural desejo de inverter o rumo dos acontecimentos, não esquecendo que Varandas tem toda a legitimidade democrática para se manter em funções. Se tomar uma atitude agora, dando o seu acordo para um pacto de regime que viabilize a realização de eleições assim que termine este campeonato, estará a prestar um serviço relevante ao clube, permitindo que projectos alternativos possam ser apresentados aos sócios e por eles devidamente escrutinados com a calma, serenidade e ponderação que não existiu no pretérito período eleitoral, evitando-se assim decisões puramente emocionais ou uma daquelas mudanças que deixem tudo igual ou pior. Se não o fizer, fiél ao seu slogan eleitoralista, continuará a "unir o Sporting". Temo é que os nós usados para o unir acabem por deixar o clube estrangulado.      

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