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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

27
Out22

Tudo ao molho e fé em Deus

Nem sei o que vos Conte: Do tabuleiro de Xadrez para o ringue de Boxe


Pedro Azevedo

A propósito da apresentação do orçamento que levou à demissão da conservadora(?) Liz Truss, o The Economist congeminou uma capa onde sob o título "Welcome to Britaly" caricaturou a anterior primeira-ministra britânica, representando-a como a mítica Britânia, sim, porém com uma pizza com as cores da bandeira italiana a recriar o escudo e um garfo com esparguete a acompanhá-lo (em vez do tridente). Assim, satiricamente, ainda que recorrendo a estereótipos, a prestigiada publicação pretendeu demostrar que o orçamento despesista de Truss significava uma aculturação da Grã-Bretanha a Itália. Pensei nisto ontem à noite enquanto assistia à primeira parte do Tottenham-Sporting, ao ver Antonio Conte, ao leme de uma equipa inglesa, a especular com o jogo à maneira da melhor tradição italiana. Por isso a alvorada do encontro (antipasti) assemelhou-se a um jogo de xadrez, com as peças a serem movidas a um ritmo lento e muito pensado, como se ambas as equipas quisessem sobrepor a exploração do erro do adversário à vontade de mostrar cabalmente a sua superioridade, estratégia cuja responsabilidade maior recaiu, obviamente, sobre a equipa teoricamente mais forte, o Tottenham. Só que do lado do leão ainda sobrava um inglês não aculturado e capaz de trocar a elaborada pasta pelo pragmatismo do "fish&chips". Vai daí, fintou um e foi andando por ali abaixo sem que vivalma se lhe atravessasse pelo caminho até que se decidiu por disparar uma batata que Lloris não conseguiu deter. Tal deve ter custado muito a engolir a Conte, mas a peixeirada só viria mais tarde...

 

Até ao golo de Edwards a letargia da partida só havia sido abanada pela fúria espanhola de Porro, que ganhou a linha de fundo e centrou para o Paulinho aliviar para pontapé de baliza. (Dá sempre jeito a uma equipa ter um central que não faz cantos.) No entretanto, o Trincão abstinha-se de trincar a área, fugindo dela a sete pés de cada vez que a bola aí o conduzia. [Apesar de raramente tirar os olhos do chão, o Trincão vem equipado com o kit da última tecnologia de linha de grande área ("Penalty-Box Technology") que o adverte da sua iminente proximidade.] Só que Morita e Ugarte sobravam para as intenções inglesas e o intervalo chegou com o Sporting em vantagem, a qual poderia até ter sido mais dilatada não fora a infelicidade de o árbitro ter visto um Ronny perpetrado pelo Coates. (Foi você que pediu um Porto, perdão, João Ferreira? O melhor é só seguirmos os nossos próprios Paços, perdão, passos.)

Se durante o primeiro tempo Conte quis pôr o Tottenham a jogar à italiana, para a segunda parte conformou-se e devolveu a alma britânica à equipa. O efeito foi imediato. Assim, se primeiro houve xadrez, agora tínhamos boxe, com o Sporting remetido às cordas. A dado momento a coisa assemelhou-se ao Rumble in the Jungle, em alusão ao célebre combate disputado no antigo Zaire, em 30 de Outubro de 1974, onde Ali defrontou Foreman e passou quase todo o combate a levar pancada. Para o emular, não faltaram até as "patadas" de um argentino (Romero) que quase arrancava Paulinho pela raiz. Acontece que Ali só precisou de um soco para nocautear Foreman no oitavo assalto depois de o cansar ao fazê-lo correr permanentemente em sua direcção. O Ali ou aqui, foi o que quase ocorreu quando Nazinho teve não uma mas duas oportunidades de fazer KO aos ingleses, depois de magistrais jogadas de Arthur, um brasileiro com nome de cavaleiro britânico e a mesma utopia de uma távola redonda onde todos têm a mesma relevância e se sentam à mesma mesa. Só que a história nem sempre se repete, e na verdade tal nem seria justo porque após a saída de Nuno Santos o nosso lado esquerdo tornou-se um passe-vite por onde os ingleses foram triturando a nossa defesa. De forma que a conjugação dos provérbios "tantas vezes o cântaro vai à fonte até que parte" e "no melhor pano cai a nódoa" uniu-se e Adán negligentemente permitiu o golo do empate dos Spurs. (Já vimos isto tantas vezes na história do nosso clube que também já sabíamos de cor o que estava para vir.)

 

O golo inglês trouxe os habituais comentários entre Sportinguistas em que a Lei de Murphy é frequentemente invocada como razão das nossas maleitas. (Como podem os nossos jogadores sentirem-se confiantes no campo se os adeptos que os apoiam tremem como varas verdes ao primeiro contratempo? Não podem, na verdade, e essa é a nossa triste realidade.) E, para não variar, ao cair do pano o Citizen Kane marcou um golo e todos pensámos que já tínhamos ido de trenó para fora da Champions (ou, alternativamente, de Casio 850P na mão a calcular produtos de matrizes de modelos de regressão linear e outras cenas matemáticas que nos dariam uma ténue hipótese). Euforia em Londres, mas eis que as linhas com que se cose (coze?) o VAR detectaram uns pelos a mais no peito do avançado inglês e anularam o golo. O Conte voltou a ser italiano e foi expulso. O jogo terminou. 

 

Na última jornada tudo pode acontecer no nosso grupo, sendo que podemos ficar em primeiro ou segundo (qualificação para os oitavos da Liga dos Campeões), em terceiro (dezasseis-avos da Liga Europa) ou quarto lugar (faca na Liga), no fundo um final que é uma sinopse perfeita sobre a aleatoriedade de um clube, o nosso, do 8 e do 80, onde há anos uma linha (de VAR?) muito ténue separa o sorriso mais rasgado da lágrima mais pungente.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Edwards. Menções honrosas para Ugarte e Coates.

britaly.jpg

edwards tottenham.jpg

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