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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

14
Mai23

Tudo ao molho e fé em Deus

Restaurador Olex


Pedro Azevedo

No futebol, o que é natural e fica bem é cada um actuar de acordo com a sua vocação. Com Restaurador Olex, cada interveniente no jogo recupera a sua posição primitiva. Assim, o Coates pode concentrar-se na arte de marcar golos (em vez de os oferecer ao adversário), o Paulinho em evitá-los e o Tiago Martins em estender a passadeira vermelha ao novo campeão. (Já que o Rúben Amorim não se mostra, e bem, disponível para guardas de honra no contexto actual, convém haver um voluntário que as faça.)

 

Os últimos 10/15 minutos de ontem em Alvalade foram paradigmáticos da diferença que a aplicação de Restaurador Olex provoca no futebol português e no Sporting: para começar, o Autogolo voltou a evidenciar-se como o nosso melhor ponta de lança, o que não deixa de ser surpreendente num avançado que chegou a custo zero, não tem ordenado e nem sequer pode ser dado como um exemplo de amor à nossa camisola. Depois, o Coates mostrou o seu instinto matador, sendo ele o segundo no ranking dos nossos avançados-centro. De seguida, o árbitro desrespeitou o seu auxiliar e validou um golo irregular ao Marítimo. O Adán chamou-lhe a atenção para o pecado original e ficou de fora da recepção ao Benfica. Veio um insular desembestado e deu uma peitaça num nosso que até o virou. Não contente, procurou repetir a dose com o Coates, mas bateu na couraça da indiferença do uruguaio e acabou ele virado. Entretanto, virado, e do avesso, estava o Tiago Martins, que a muita insistência do nosso capitão lá se dignou a falar com o "bandeirinha". Para manter tudo como estava e insistir no erro. Até que o VAR devolvou a verdade ao marcador, ainda que não ao jogo (a expulsão de Adán jamais teria acontecido se o árbitro tem imediatamente validado a indicação do seu auxiliar). Finalmente, o Paulinho foi à baliza, para apurar um pouco mais as suas melhores características de defensor. Como diriam os Pink Floyd, foram dez/quinze minutos de momentâneo lapso de racionalidade, de uma insanidade total, com muitos amarelos, um vermelho, um golo anulado e outro marcado na própria baliza. Um clássico do Western Spaghetti luso - obrigado pela dica, Álamo - do tipo "Once upon a time in Alvalade", que bem poderia ter sido dirigido por um Sérgio leão para ilustrar o valor da nossa resiliência. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": o VAR

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09
Mai23

Tudo ao molho e fé em Deus

Móvel à Mata Real, Retális


Pedro Azevedo

Faz parte do imaginário popular de quem alguma vez tenha pisado o interior de um táxi a mítica expressão "Móvel à Rua da Buraca", muitas vezes entrecortada por "Retális", com que uma menina via rádio sinalizava o chofer de praça. Não sei se era difícil estacionar na referida rua, se lá existiam serviços camarários relevantes ou se a maioria dos seus moradores infelizmente não possuía carro, mas não me lembro de uma artéria de Lisboa com tantos pedidos de táxi como essa, talvez com a honrosa excepção da mais central Rua das Pretas. Lembrei-me disso ontem ao ver Rúben Amorim requisitar um móvel à Mata Real, que é como quem diz, um ataque móvel à Capital do Móvel. Habitualmente muito criticado por esta opção que entretanto havia caído em desuso, o Rúben tomou a decisão correcta face às circunstâncias, contrapondo mobilidade a um mobiliário que como se sabe não tem mobilidade nenhuma (ou tem, mas necessita de um empurrãozinho à maneira de Palma de Maiorca). Ainda mais, havendo, entre o mobiliário, alguns baús velhos e pesados como o Gaitán, o Luiz Carlos ou o Marafona. Nem de propósito, estes dois últimos deram uma de Coates e combinaram para um primeiro golo à ponta de lança. De seguida veio o Nuno Santos, que não é imaginativo na arte do drible mas é um criativo na arte do golo. E, já depois de não deixar cair em Braga e de ensinar uma letra ao Boavista, brindou-nos com um chapéu de aba larga: a bola subiu, subiu e subi...tamente desceu, como se tivesse furado pelo caminho. O Trincão não quis ficar atrás e teve um pormenor à Bergkamp no terceiro da noite. Faltava o Chermiti molhar a sopa. O açoriano havia marcado pela última vez após assistência de Arthur (Porto), um jogador com um tipo de futebol mais prático e que o favorece. Ontem houve uma reedição: finta e cruzamento do ex-estorilista, e Chermiti a mostrar faro de golo e a encostar os pitões à bola. Nada mais havendo a acrescentar, o móvel regressou à Rua Professor Fernando da Fonseca. Retális.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Nuno Santos 

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01
Mai23

Tudo ao molho e fé em Deus

Identidade e oportunidade


Pedro Azevedo

João Pedro Sousa não é um treinador qualquer. Não é fácil todos os anos sofrer uma revolução no plantel e ainda assim conseguir fazer do Famalicão um clube competitivo. Não se trata só da qualidade individual dos jogadores que compõem o plantel, como Sanca ou Jaime, há também rotinas de jogo muito apreciáveis e que ontem estiveram na origem de algumas dores de cabeça que o Sporting sofreu. Ainda assim, tivemos as nossas oportunidades, que a vontade de jogar para a frente dos minhotos foi sempre um incentivo para as nossas transições rápidas, principalmente quando se está habilitado de jogadores com inteligência no aproveitamento dos espaços entre-linhas como Pote (ontem apagado), Edwards ou Morita. Mas se João Pedro Sousa merece uma palavra de admiração, a Rúben devemos o facto de ter elevado a bitola do nosso futebol. Nem a estapafúrdia ideia do ataque móvel num clube grande belisca o facto de o Sporting ter uma boa ideia de jogo e com Amorim ter subido de patamar. Por isso agradeço o seu trabalho em prol do clube, desejando que continue. Quem já cá não está é o Paulo Freitas, que no hóquei muito nos ajudou no passado. Acontece que o Paulo foi indecentemente insultado por adeptos nossos no Sábado, gente sem gratidão e/ou cultura desportiva. Um clube que não é capaz de valorizar quem o serviu com distinção tem um problema de cultura corporativa: não tem memória, nem prestigia a sua história. Porque uma tribo do Sporting arregimenta-se por uma identidade comum que se alimenta de vitórias e de títulos, mas também por causas de acordo com os valores comportamentais que nos distinguem. E quando esses valores estão em crise na sociedade, mais ainda se justifica haver uma forte cultura de clube que eduque no sentido certo e assim filtre comportamentos que fiquem aquém dos mínimos olímpicos. 

 

O jogo em si serviu para provar duas grandes convicções de Rúben até aqui muito contestadas: o ponta de lança principal deve ser associativo (Chermiti, no segundo golo) e o de recurso deve ser um defesa e ter "killer instinct" (Coates, de volta aos golos). Também deu para ver que sem Ugarte ou Morita (se não estiver Pote) o meio campo do Sporting não é a mesma coisa. Como diz um amigo meu alentejano, 30 minutos é tanlongo para o argentino do Sporting... (O pior é que com o Buscapoulos ficamos a saber que não há ligação à corrente.) Mas os destaques vão inteirinhos para Edwards, Morita e Adán, sem esquecer o primeiro golo de carreira de Esgaio ao serviço da equipa principal do leão, uma década após a sua estreia: o inglês foi omnipresente nos golos e nas oportunidades, o nipónico um átomo a mais que se (nos) animou... e marcou, o espanhol garantiu a vitória com uma enorme estirada.

 

No dia em que oficialmente ficámos definitivamente fora da luta pelo título, o acesso à Champions também se complicou mais um bocadinho (a mesma distância, menos uma jornada). Resta-nos a oportunidade de tentar ganhar o futuro no presente, procurando hoje soluções para problemas com que nos depararemos amanhã. E isso urge, na medida em que todos já nos apercebemos que as saídas não se ficarão por Ugarte, e sem um lote razoável de jogadores influentes as nossas hipóteses serão só académicas. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Edwards

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22
Abr23

Os melhores marcadores por equipa


Pedro Azevedo

Estes são os 3 melhores marcadores de cada clube que compete no Campeonato Nacional:

 

Benfica - 1º Gonçalo Ramos (PL, 17 golos), 1º João Mário (Ala, 17), 3º Neres (Ala, 6)

Porto - 1º Taremi (PL, 14), 2º Galeno (Ala, 8), 3º Evanilson (PL, 6)

Braga - 1º Ricardo Horta (AV, 11), 2º Banza (PL, 10), 3º Iuri Medeiros (Ala, 9)

Sporting - 1º Pote (AV/M, 14), 2º Trincão (AV, 8), 3º Edwards (AV, 7), 3º N. Santos (Ala, 7)

Arouca - 1º Mujica (PL, 8), 2º Dabbagh (PL, 7), 3º Antony (AV/M), 5)

Vitória - 1º Safira (PL, 5), 2º André Silva (PL, 4), 3º Tiago Silva (M, 4)

Vizela - 1º Osmajic (PL, 7), 2º Samu (M, 3), 2º Anderson (D, 3)

Famalicão - 1º Ivan Jaime (AV/M, 8), 2º Juan Cadiz (PL, 3), 3º Colombatto (M, 2)

Casa Pia - 1º Rafael Martins (PL, 6), 2º Clayton (PL, 4), 3º Godwin (AV, 3)

Chaves - 1º Hernandez (PL, 6), 1º Steven Vitoria (D, 6), 3º Juninho (PL, 4)

Rio Ave - 1º Aziz (PL, 7), 2º Boateng (PL, 4), 3º Fabio Ronaldo (AV, 3)

Boavista - 1º Yusupha (PL, 11), 2º Sasso (D, 4), 3º Salvador Agra (AV/M, 3)

Gil Vicente - 1º Fran Navarro (PL, 13), 2º Murilo (AV, 4), 3º Alipour (PL, 2)

Portimonense - 1º Welinton Junior (PL, 6), 2º Yago Cariello (PL, 3), 3º Estrela (M, 2)

Estoril - 1º Tiago Gouveia (AV, 5), 2º F. Geraldes (M, 4), 3º João Carlos (PL, 2)

Marítimo - 1º André Vidigal (AV/M, 6), 2º Winck (D, 4), 3º Bruno Xadas (M, 3)

Paços de Ferreira - 1º Butzke (PL, 6), 2º Thomas (AV, 3), 3º Gaitan (AV, 2)

Santa Clara - 1º Gabriel Silva (AV, 5), 2º Rildo (M, 3), 3º Tagawa (PL, 2)

 

Legenda: D=Defesa, M=Médio, Ala=Ala, AV=Avançado, PL=Ponta de Lança

 

Nota: Só o Sporting e o Marítimo não têm um Ponta de Lança entre os 3 melhores marcadores da sua equipa. No Santa Clara e no Estoril, o Ponta de Lança mais efectivo apenas contribuiu com 2 golos. Curiosamente (ou talvez não), Marítimo, Santa Clara e Estoril são 3 dos 4 piores classificados do Campeonato Nacional, o que parece demonstrar existir uma importante correlação entre a eficácia dos Pontas de Lança e a classificação das equipas.

 

10
Abr23

Tudo ao molho e fé em Deus

Hat-Tri(n)cão


Pedro Azevedo

O Ruben Amorim é treinador de futebol. Dos bons, quero eu dizer. Mas é hiperactivo, e um hiperactivo não se conforma com o que tem ou com situacionismos, precisa de estar sempre a alterar alguma coisa. Por isso, o Amorim mudou totalmente a forma de jogar do Sporting depois do clube ter sido campeão ao fim de 19 anos. Deitando fora a fórmula vencedora e procurando uma outra mais de acordo com o estatuto de clube grande, ainda que porventura em desacordo com as vitórias. Relacionado com esse desassossego, troca de centrais a cada jogo e durante um jogo como quem muda de roupa interior. Nem sempre por insatisfação com o que tem, muitas vezes por aparente gestão do desgaste de competição ou para dar uso ao roupeiro. Para o Ruben a inacção não é prudente mas sim radical. Estivesse ele em casa, em vez de em Alcochete, e andaria a arrastar os móveis de um lado para o outro, mudando-os de lugar ou trocando-os por outros novos, dispondo a Sala de Estar em 3-4-3 para assim melhor enquadrar o Feng-Shui. (O Ruben é o Scouting, que outro além dele seria capaz de descobrir um avançado chinês assim?) Se bem que há jogadores que são mais substituídos que outros. O Esgaio, por exemplo, é quase sempre titular. Alguns esperariam ver ontem o Bellerin. Mas o dia ideal para os Vegan foi a Sexta-feira Santa, o Domingo de Páscoa seria sempre de ressurreição para alguém nascido na Nazaré. Como tal, o Esgaio ganhou uma outra vida. Quem também regressou ao mundo dos vivos foi outro ex-braguista. A novos começos podem corresponder novas identidades, por isso para já tratem-no por Hat-Tri(n)cão. E, claro, não poderia haver trocas e baldrocas sem o mínimo de organização, razão pela qual o camaleónico Pote é fundamental. Num mundo de mudanças, não haverá muitos Urbanos capazes de realizar tantas funções ao mesmo tempo, desde carregador de piano até motorista que sabe como ninguém dar acelerador, travão ou embraiagem ao nosso jogo. Só não concordo com esta coisa de o ponta de lança Coates jogar como central durante 75 minutos. Ontem tal poderia ter-nos custado caro, tantas foram as tentativas de antecipação falhadas que nos custaram golos. Mentalidade de avançado centro, é o que é. Se pensasse como central, reflectiria duas vezes antes de procurar adivinhar e se comprometer assim nos lances. Canto do cisne a jogar com os Gansos? Boa semana, com especial ênfase na Quinta-feira! 


Tenor "Tudo ao molho...": Hat-Tri(n)cão

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06
Abr23

Tudo ao molho e fé em Deus

Galo em vez de golo


Pedro Azevedo

Os pontas de lança precisam que a bola lhes chegue de uma forma auspiciosa, seja através de um passe de ruptura, de uma tabelinha a pedir desmarcação ou de um cruzamento executado com precisão. Ontem, o Chermiti não teve nada disso. Pelo contrário, foi ele que executou brilhantemente um movimento típico de um "10", rasgando a defesa com um passe milimétrico que isolou o Pote. Teria sido o momento do jogo, mas o VAR anulou o golo devido a um off-side do nosso ponta de lança no início do lance. As razões pelas quais o Chermiti não teve boas bolas para golo têm sido recorrentes esta época: os dois interiores jogam de pé trocado, invariavelmente vêm para o meio à procura de combinações ou de rematar e quando optam por cruzar fazem-no de uma forma que apanha os centrais contrários em vantagem, de frente para o lance. A solução seria os alas justificarem o seu nome, procurarem a linha e cruzarem, mas o Esgaio perde o timing do passe porque necessita sempre de parar primeiro a bola, não se dê o caso de acertar em algum navio de carga no alto mar, e o Arthur também parece ser fã do marxismo-leoninismo e alinha em puxar a bola para o pé esquerdo antes de cruzar. Do lado oposto, o Nuno Santos faz o que tem de ser feito, mas como não tem magia suficiente no drible precisa de quem crie indefinição e o ajude a arranjar espaço para centrar com eficácia. O problema adensa-se quando o Matheus Reis liga o complicometro e estraga todas as ligações possíveis de jogo, além de invariavelmente não acertar um único cruzamento para o homem que se desmarca isolado ao primeiro poste. Ontem, do seu cardápio constaram asneiras várias, desde o atropelamento a Pote que estragou uma promissora jogada da ataque até à finta mal sucedida à saída da nossa área que deu ao Gil uma possibilidade real de nos ferir. Pelo meio não foi capaz de descodificar um único passe de Inácio durante o primeiro tempo, o que não pode ser só responsabilidade do recém- internacional português. De tal forma que deveria ter ficado no balneário logo ao intervalo para poupar aos adeptos uma consulta de cardiologia, mas infelizmente foi o Inácio que já não regressou no segundo tempo. Depois, a falta de qualidade no cruzamento faz com que vamos tecendo interminavelmente o nosso jogo pelo meio, onde quase sempre nestes jogos estamos em inferioridade numérica, até o novelo se desfiar e termos de começar tudo de novo, vivendo então muitas vezes da inspiração de Pote. E quando o génio da lâmpada não sai, bye bye 2 ou 3 pontos. Especialmente contra equipas que se fecham bem, nos encurtam os espaços e estão preparadas para as movimentações-padrão dos nossos desequilibradores, concentrando os seus jogadores em posições centrais que habitualmente são procuradas pelos nossos. E o tempo vai passando, nós persistindo no estilo monocórdico e assim caindo no engodo. Muitas aproximações mas raras conclusões, a maior parte das jogadas perde-se por falta de expontaneidade no remate. E assim minam-se lances em catadupa. Há sempre um toque a mais na bola na hora de servir o jogador que ficaria isolado ou de rematar. Não sei se há alguma lei no futebol que obrigue um jogador que surge com espaço numa ala a travar e vir consecutivamente para dentro em vez de respeitar a movimentação do ponta de lança, mas no Sporting tal parece estar instituído. A tal ponto que por vezes dá a ideia que estamos a jogar ao lenço ou à barra fixa, e que o propósito do jogo para nós é entrar simultaneamente com jogador e bola para dentro da baliza do nosso adversário. Ora, é claro para todos, de cada vez que um jogador vai apressadamente  dentro da baliza do adversário buscar a bola, que este se sente incomodado com a violação de tal espaço. Quer dizer, a bola ainda é como o outro, mas aceitar que alguém entre pela baliza adentro é humilhação intolerável. Todavia, insiste-se nesse jogo miudinho até ao frémito, um paradigma da inconsequência. No fim, pede-se para fora que se dê tempo ao que estamos a fazer lá dentro, que não se deve trocar o futuro pelo presente, mas depois o Rodrigo Ribeiro não consta da ficha de jogo e tem de ser o Coates pela enésima vez a fazer de ponta de lança. Para não falar do Fatawu, que é uma espécie de pirilampo para Mister Amorim. Enfim, o meu receio é que se esteja a empolar o que se faz para se esconder o que não se faz, assim ao jeito do exponencial aumento de receitas ordinárias anunciado pelo presidente Varandas que nenhum R&C confirma (mas a gente gosta de ouvir). Justiça porém seja feita a Ruben Amorim: se é certo que é falso que estejamos menos dependentes de vendas de jogadores para equilibrar os Resultados e a tesouraria - nunca estivemos tão dependentes quanto agora - , não deixa de ser verdade que houve uma valorização do plantel que hoje permite que haja muitos jogadores com interesse para o mercado e que as putativas futuras vendas se possam processar por valores acima daquilo que era usual no clube, e isso sim é da sua quase exclusiva competência. Só que quando se vende e não se compensa a saída desse activo com outro, seja por correcta incursão ao mercado ou ascensão de alguém de valor da Formação, então o nosso trabalho assemelha-se ao de Sísifo, conforme esta época abundantemente ilustra. E se tal apenas ficou mais claro ontem em Barcelos, isso somente se deveu a em vez de golo ter havido galo, criatura que não deixa para amanhã o que pode fazer logo de manhã e nos desperta para que cedo possamos planear a forma de contornar os desafios que temos pela frente.  

 

Tenor "Tudo ao molho...": St Juste

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05
Mar23

Tudo ao molho e fé em Deus

Distribuição menos chata


Pedro Azevedo

Já Vos tinha dito aqui que o futebol não é uma ciência exacta como a matemática. Ainda assim, a matemática pode ajudar-nos a explicar o futebol e, mais concretamente, o que aconteceu ontem ao fim da tarde em Portimão. Imaginem uma distribuição normal como uma função probabilística caracterizada por uma média e um desvio-padrão. Essa distribuição representa uma amostra, a qual é composta por n observações. Se tivermos muitas observações concentradas no mesmo valor, a média andará muito perto desse valor e as caudas da distribuição serão muito finas ou quase inexistentes. A esse achatamento da distribuição normal dá-se o nome de curtose platicúrtica. Agora peguemos no caso concreto de Paulinho. Antes desta jornada, para o campeonato, o Paulinho tinha apenas dois golos marcados, o que se traduzia matematicamente numa esmagadora quantidade de observações em branco. Assim, a probabilidade de marcar em Portimão era muito baixa, porque o desvio-padrão, a medida de dispersão de dados das observações face à média, era também muito baixo. Mesmo que em cada Sportinguista não exista um Pedro Nunes e que o conceito de distribuição normal possa não estar interiorizado por todos, há um senso comum nos seres humanos que deriva do conhecimento das suas experiências passadas. Ainda que superficial, esse pensamento tem o seu quê de probabilístico, logo matemático. Só que, como iniciei esta crónica, o futebol não é uma ciência exacta. E Portimão foi o cenário ideal para o provar. Com esmero, ou o nosso melhor goleador não tivesse falhado golos em barda e o seu recúo para o meio campo coincidido com o momento do nosso golo. Mais, esse golo - e que golo! - foi apontado por Paulinho. Ou seja, o Sporting ganhou com Pote no meio campo (e foi ele a assistir para o momento do jogo) e Paulinho a marcar um golo à ponta de lança na única oportunidade que teve para o fazer, tudo ao contrário das observações que os adeptos leoninos tinham em mente. Enfim, poder-se-á tão somente dizer que aconteceu futebol, sendo aqui futebol algo comparável à magia, a um sortilégio que nos transporta para lá da racionalidade e/ou compreensão. O que não quer dizer que no futuro não possa ser explicado matematicamente. Nesse sentido, o desafio de Paulinho será tornar a distribuição dos seus golos menos achatada em torno do zero de média e, por conseguinte, menos chata.  Para ele e para nós.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Paulinho

 

P.S.1. Uma palavra para Rúben Amorim, que foi um senhor em todas as intervenções que teve depois do jogo, nunca procurando o revanchismo após as criticas de que foi alvo pela utilização recente de Pote no meio campo e de Paulinho como ponta de lança. Ele sabe que as razões do Sporting são mais importantes do que as suas pontuais razões. Chapeau!

 

P.S.2. O Chermiti traz ao jogo do Sporting uma capacidade de luta extraordinária. Ontem foi quase sempre mal servido, mas nunca desistiu de uma bola.

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28
Fev23

Tudo ao molho e fé em Deus

O dia em que o Trincão finalmente trincou


Pedro Azevedo

Em vésperas de uma recepção ao Arsenal, nada como começarmos a ambientar-nos ao ritmo dos ingleses com uma arbitragem digna de terras de Sua Majestade. Como protagonista, Manuel "Butcher" Mota, um talhante que paradoxalmente corta muito pouco, excepção feita a umas entremeadas de bola e jogador que aviou com demasiada frequência. 

 

Ontem em Alvalade fomos anfitriões do Estoril Praia, cuja equipa é uma espécie de misto remendado de antigas reservas do Benfica e do Sporting. Por isso equipa de amarelo, o que pelo sistema de cores de Maxwell resulta da combinação do vermelho com o verde. Na preparação do jogo, o Amorim tomou nota de que o Estoril é o clube da linha, logo sugerindo aos seus jogadores para que a atacar procurassem o jogo interior. Por isso encostou o Edwards e o Trincão às alas, como isco (ou dissuasão), mandando o Bellerin e o Nuno Santos para posições mais de dentro. E resultou, com o espanhol a imitar o compatriota Porro nos movimentos à bolina e a entrar obliquamente à area canarinha. Daí surgiu o nosso primeiro golo, o que para o GAP - Grupo de Amigos do Paulinho - pode ser descrito assim: aproveitando os magnos conhecimentos de geometria euclidiana e as lições de trigonometria apreendidas com mestres como Hisparco de Niceia e Ptolomeu, Paulinho fez inteligentemente a bola tabelar num defensor estorilista para que chegasse na medida certa aos pés de Bellerin. Mais uma prova de associativismo do nosso ponta de lança, ele que já antes, isolado, solicitado por Edwards, havia permitido que Dani Figueira também se associasse ao lance e defendesse. Há "casamentos" assim, e este de Rúben Amorim com o nosso ponta de lança faz lembrar aquela sentença de Oscar Wilde de que o casamento é o triunfo da imaginação sobre a inteligência... 

 

Num jogo que foi de sentido único, com o Sporting sempre a atacar de uma forma equilibrada, com os seus jogadores bem posicionados para a perda da bola e não dando azo a que os estorilistas procurassem uma cava de casino, não se estranhou que os leões chegassem ao segundo golo. Insólito, sim, foi o seu marcador: Trincão. E que golo foi, com o ex-Barcelona a serpentear por entre vários pórticos, que nem um Stenmark ou Girardelli no esqui alpino, até pontapear para o fundo das redes. (A alusão à neve foi para refrescar da primeira visão que tive, que foi o Trincão, que nem fáquir, a caminhar em acelerado sobre as brasas até finalmente vencer o desafio.) Agora é acreditar que a sua forma não Tomba, porque de um Trincão consistente está o Sporting bem precisado. 

 

Uma palavra final para o Chermiti, com um agradecimento por nos mostrar a diferença que existe entre um ponta de lança e um avençado centro, salientando-se aqui que cada recibo verde do Paulinho está caro para burro. E ainda há que acrescentar o IVA, VAT catar!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Trincão

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21
Fev23

Tudo ao molho e fé em Deus

Um eufemismo em forma de ponta de lança


Pedro Azevedo

A última versão da cartilha leonina, que também a há por cá, é que o Paulinho é um excelente jogador que tem a pouca sorte, vejam só(!), não de não acertar numa baliza a 3 metros de distância mas sim de ser vítima do preconceito de que é um ponta de lança. Logo, seguindo a manada, como é do interesse de quem dirige e sinal de boa obediência, não se pode dizer que o Paulinho é um ponta de lança. Quer dizer, ocupa os terrenos comumente atribuídos a um ponta de lança, os colegas procuram servi-lo como a um ponta de lança, o seu preço de compra reflecte ser um ponta de lança, mas não se pode chamar-lhe tal. Assim sendo, Castigo Máximo vai doravante seguir também a cartilha. Não, o Paulinho não é um ponta de lança. Então, é o quê? - Perguntará legitimamente o Leitor. Bom, a conclusão a que cheguei é que o Paulinho é uma figura, mais concretamente uma figura de estilo. O Paulinho é um Paulinho, sendo "Paulinho" um eufemismo. Um eufemismo para penalty cavado e outras teatralidades, para golos falhados e também para injustiça, que o Chermiti bem poderia nascer 10 vezes e jogar bem, assistir ou marcar de novo a Braga, Rio Ave e Porto que ainda assim teria de ver a sua confiança abalada com um banho de banco. Menos mal, dentro das figuras de estilo, alguém porventura menos bem intencionado até poderia considerá-lo uma metáfora e, indo mais além, a metáfora mais literal de todas as metáforas, sendo o fora de jogo o paradigma da própria metáfora. E como com um presidente militar o balneário até se poderá chamar de caserna, a este arrazoado sobre o status-quo até poderíamos chamar de alegoria da caserna, ou não fosse a cegueira mais do que evidente. Com "s" de seca (de golos), e não "v" de vitória, senão até seria Platão. No fundo, nem podemos levar a mal o Paulinho. A nossa revolta com ele deve-se essencialmente a nos revermos indesejavelmente nele, no seu inconseguimento, na sua furiosa militância anti-corrupção que o faz bramir desaforos e esbracejar indignidades com a mesma espontaneidade ou convicção com que finge agressões ou simula penalidades. No fim do dia, ele é um português, tão somente isso. E, como tal, totalmente inconsequente. Na acção como nas palavras. 

 

Com Ugarte sozinho no miolo para todas as encomendas e Pote ingloriamente fora da posição em que é letal, não se estranhou que depois de uma boa entrada no jogo o Sporting tenha progressivamente abrandado o ritmo. Como a tendência natural do uruguaio perante as vagas constantes de adversários em seu redor é defender-se, encostando-se aos centrais, o nosso meio-campo transforma-se num queijo suiço, o que não ajuda nada o trabalho da nossa defesa. Surpreendidos? Não é preciso ser um Sherlock Holmes, para o compreender, não é verdade? Emmental, meu caro Watson! 

 

Assim andámos durante cerca de uma hora até que Amorim fez entrar o nosso Tsubasa e o Pote pôde finalmente recuperar o seu lugar no relvado. E o mínimo que se pode dizer é que foi tiro (de Pote) e queda (do guarda-redes do Chaves), adiantando-se novamente o Sporting no marcador. Depois veio o terceiro, às três tabelas, com Nuno Santos a fazer de Theriaga e a bola a carambolar uma última vez num flaviense antes de se anichar na rede. Tempo então para Amorim fazer entrar o Chermiti, confirmando a sua aposta na Formação. O valor desta aposta depende de questões contratuais: se um jogador tem um contrato para assinar, então o natural é que jogue 90 minutos; porém, pós-contrato assinado, a cotação da aposta baixa até ao ponto em que 10 minutos cheguem para fazer sobreviver a narrativa. Houve ainda oportunidade de se realizar a enésima substituição de centrais durante um jogo, subindo o elevador de St Juste e descendo o costa-marfinense Diomandé, produzindo-se mais um dos paradoxos deste Sporting versão 22/23. É que já sem o ex-Mafra em campo, estranhamente a equipa deixou correr o marfim. Concomitantemente, o Nuno Santos não fechou ao centro e um espanhol desabrido e em ruptura com a metafísica acerca de um ponta de lança, que ocupa terrenos de ponta de lança, é servido pelos colegas (no caso, o ex-Sportinguista Benny) como um ponta de lança mas não custou o preço habitual de um bom ponta de lança, reduziu para o Chaves. E soou o gongo, para alívio dos nossos. Quinta-feira há mais uma voltinha na montanha-russa. Na Dinamarca, mas pode ser que seja na Noruega (a atender ao que diz a SportTV). FIM

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pedro Gonçalves

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13
Fev23

Tudo ao molho e fé em Deus

Um Chermiti contra o associativismo


Pedro Azevedo

Para além de Ugarte, o Sporting tem no seu plantel 6 médios. Bragança é um lesionado de longa duração, Morita ficou indisponível à última da hora, mas estavam desimpedidos 2 miúdos da formação (Essugo e Mateus Fernandes) e outros 2 jogadores contratados esta época (o Tanlongo e o Buscapoulos). Resultado? Vários milhões depois, gastos entre olheiros (eles), olheiras (nós) e colchões da Academia, contra o Porto o titular foi Pote, o nosso melhor marcador das duas últimas temporadas, que obviamente fez falta lá na frente. Depois há o caso do elevador de St Juste, que voltou a ficar parado. Alta manutenção, está mais do que visto, ou não tivesse custado 9,5M€. Passou mal a noite, leu-se por aí, interpretando-se tal como um transtorno do foro gastro-intestinal. Depois do ombro, joelho, coxa e tornozelo, os intestinos e o estômago... Enfim, o neerlandês até é bom jogador, o problema é que o único orgão relacionado que parece funcionar bem é o da igreja luterana que frequenta. Se uns não podem ir a jogo, outros ficam no banco por opção. Mas é uma opção de curto prazo, porque o impulso pavloviano do treinador com Paulinho e Esgaio faz com que não resista a mandá-los para o relvado à primeira oportunidade, ainda que o primeiro tenha entrado 1 hora antes do tempo e o segundo tenha estado 15 minutos a mais em campo. O fisiologista Pavlov chamou-lhe reflexo condicionado. Se é reflexo, eu não sei, mas que condiciona (a equipa), lá isso condiciona. Muito. E depois há o caso da gestão de Fatawu. De prometedor contra o Braga para a bancada face ao Rio Ave, como tirocínio para a titularidade ontem com o Porto, jogo em que depois saiu ao intervalo. Vi algo parecido na antiga Feira Popular, creio que se chamava Montanha Russa. É só emoção! (Mas cabeça fria precisa-se.)

 

Já li por aí que a nossa exibição foi deprimente e assim, mas não estou de acordo. Deprimente foi o nosso jogo em Vila do Conde, isso sim. Só que ganhámos, e isso fez com que os leões fizessem de avestruzes e enfiassem a cabeça na areia. Ontem, pelo contrário, fizemos uma boa primeira parte. Mas não fomos felizes na finalização. Só que depois demos o estoiro, o que já é prática corrente. E, entre erros próprios (Coates) e má fortuna (Ugarte), demos 2 golos de bandeja ao Porto. Também não ajudou muito termos 1 único jogador capaz de desequilibrar no 1x1 (Edwards) e somente 1 ponta de lança goleador (Chermiti), características individuais que por vezes se sobrepõem a uma equipa que não está a funcionar como um todo e fazem ganhar jogos, pelo que perdemos. Perdemos no presente, mas talvez tenhamos ganho algo no futuro (Chermiti). Mas nunca se sabe, pode ser que o Amorim lance o Youssef no próximo jogo da B. É que é preciso comer muita papa até dominar o associativismo... 

 

Artur a suar(es) há dias é um caso perdido desde que os Super Dragões invadiram o centro de destreinos da Maia. E a culpa nem é principalmente dele, mas sim de quem o deveria proteger (Estado e Federação) e prefere assobiar para o lado, deixando-o exposto. E de quem o freta, ano após ano, para estes caldinhos (Conselho de Arbitragem). Ontem amarelou tudo o que pôde vestido de verde-e-branco e fez vista grossa a um pisão de Pepe que quase arrumava com o Chermiti, ali bem à frente dos seus olhos. O que o faz correr? Com um caso perdido não se devem gastar muitas linhas, que a vaidade de ver o seu nome impresso ainda pode sobrepor-se aos motivos pelos quais é chamado à colação. Apenas dar graças a Deus por haver um limite de idade até para a asneira. (A UEFA e a FIFA é que os topam bem, e mais não digo.)

 

O ambiente está ao rubro entre os apaniguados do J Marques e as testemunhas de Janelá. Se dentro das quatro linhas a disputa vai ser até ao fim, fora delas vamos ver quem vai ser o campeão dos figurões. E o que não falta aí são discípulos (até no nosso clube, mas jogam para nulos), todos a aprenderem pela cartilha de João de Deus dos pobres de espírito. Pode ser que lá para o fim da época até já saibam escrever, que o que dizem não se escreve (nem se recomenda). 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Youssef Chermiti

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07
Fev23

Tudo ao molho e fé em Deus

“Quatro Centrais Futevoltaicos” e um Chermiti ligado à corrente


Pedro Azevedo

Com Manuel Ugarte mais baixo no terreno do que é costume, formando uma inovadora (para o treinador) linha de quatro defesas - 4 Centrais Futevoltaicos, que esgotaram as baterias num circuito fechado que foi a consagração da posse estéril - , Rúben Amorim pretenderia alimentar o resto da equipa com segurança. Só que o jogo foi de noite, o sol há muito já se havia posto e o recúo do uruguaio acabou por enfraquecer o jogo atacante do Sporting, que com menos um homem no meio campo perdeu energia e ligação entre os sectores. Essa ausência de corrente no miolo, agravada pela falta de meios auxiliares de diagnóstico - o (grego) Buscapoulos ficou em Lisboa - ,  persistiu durante todo o jogo. E, se no relvado faltou condução de energia, no banco deu-se um apagão. Salvou-se então a inteligência de Pedro Gonçalves e a energia de Chermiti, o único jogador que verdadeiramente esteve sempre ligado à corrente. Desta parceria nasceria aliás o único golo do desafio, com a Defesa vilacondense a ser arrastada com sede a mais ao Pote e o Chaimite a atingir o alvo. Antes, quase tudo foi deprimente, desde a arbitragem de Manuel Mota - Quantas faltas pode um central fazer sobre um mesmo jogador (Chermiti) sem sofrer a devida punição disciplinar? - até aos centros inversamente proporcionais de Matheus Reis -  se o Chermiti ia ao primeiro poste, ele metia a bola no segundo; se o nosso ponta de lança surgia ao segundo pau, o brasileiro punha a bola no primeiro - , passando pelos desastrados passes de Ugarte, gerando uma exasperação no adepto que só não se transformou em frustração devido à expedita acção de Adán numa ocasião. Mas ganhámos, o que permitirá uma qualquer outra leitura do jogo mais adaptada ao resultado. Com a Vossa licença, para esse peditório eu passo. 

 

Em resumo, jogámos como sempre quando na condição de visitante esta época e GANHÁMOS como (quase) nunca. Com o golo marcado por um miúdo de 18 anos da nossa Formação, o que me fez surgir um brilhozinho nos olhos. Hoje soube-me a pouco, hoje soube-me a tanto... (É destes oxímoros que também se faz o sortilégio do futebol.)

 

Tenor "Tudo ao molho": Youssef Chermiti. Pote, Adán e Inácio (passe a queimar linhas no golo do Sporting) salvaram-se também da nota negativa.

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02
Fev23

Tudo ao molho e fé em Deus

O Tsubasa, o Copperfield e o Button foram à bola


Pedro Azevedo

Os amantes do futebol associativo passaram uma semana de grande ansiedade após terem visto o seu ícone, Paulinho, desassociar-se do resto da equipa, deixá-la em campo em inferioridade numérica e ser suspenso. Foi como se lhes tirassem um dos seus últimos argumentos, uma das suas derradeiras linhas de defesa contra a falta de proficuidade goleadora do nosso avançado centro. Na verdade, o associativismo do Paulinho estava para o ponta de lança como o charme está para os homens - "Ah, e tal, não é bonito mas é um homem muito charmoso" - , uma característica que lhe dava patine, o tornava interessante e fazia esquecer tudo o resto. Mas, o drama, o horror, a tragédia, o Paulinho estava de fora do jogo com o Braga e os últimos resistentes da intrépida devoção ao "Citizen Kane" português - "Como saberes o que é suficiente, se não souberes o que é demais?" Há excessos assim que nos abrem os olhos para delirantes percepções da realidade... - rezavam secretamente para que Amorim lançasse o trio dinâmico na frente, com Trincão e sem ponta de lança. (Se não se puder provar que um seu eventual substituto é melhor, então é mais fácil de conceder que o Paulinho, ainda que não goleador e divergentemente associativo, tem de jogar.)

 

Acontece que o Amorim decidiu operar uma pequena revolução. E, qual Salgueiro Maia, avançar para o quartel que já foi do Carmo (agora no Porto) com o chaimite, ou Chermiti, ou lá o que é esse menino que deslumbra tanto a cada toque na bola como a cada movimentação sem ela, ora servindo apoios frontais, ora arrastando marcações, com a vantagem adicional de não se inibir no jogo aéreo e disputar com quantos adversários for preciso qualquer bola nas alturas. Não é fácil para um menino de 18 anos saber quando deve soltar a bola rapidamente e desmarcar-se ou simplesmente a reter e esperar pelo avanço dos colegas, mas nesse aspecto o Cherniti pareceu um veterano, um Benjamim Button desfilando de chuteiras. E quanto aos arrastamentos dos centrais, bom, basta dizer que os segundo e terceiro golos do Sporting resultaram dessas movimentações, com a cereja em cima do bolo de o segundo ainda ter tido uma assistência à Madjer do nosso puto a engalaná-lo. Além disso, o nosso novo ponta de lança mostrou bom jogo de cabeça, ora antecipando-se a todos ao primeiro poste, ora vencendo a oposição de 2 adversários numa bola dividida. É claro, porém, que o Chermiti não jogou sozinho. Houve muito Edwards na condução e transporte de bola, naquele seu estilo de prestidigitador, que habilmente mostra a bola ao defesa para o iludir e logo a esconde com um rápido movimento de pés. E tivemos também, e principalmente, um grande Morita, o nosso Tsubasa, gregário no meio do campo e letal na chegada à área. Um espectáculo este japonês que a todos encanta pela sua generosidade, humildade, simpatia e, é bom não esquecer, qualidade técnica ímpar. Depois destes, destaco ainda Pote, St Juste e Esgaio (e o grande golo de Matheus Reis e a iniciativa de Fatawu que deu um penálti). O primeiro de volta aos golos e sempre em movimento, o segundo ímpar nas acelerações e com passes sempre precisos e o terceiro rejuvenescido, como que liberto de uma sombra opressora tutelar que o esmagava e confrontava com a sua própria realidade. 

Uma vitória muito importante do Sporting, que culminou uma semana em que o Braga foi servindo de exemplo de gestão para nós. Dez-a-zero depois (pouparam a visita ao museu), com um mês de intervalo, eu diria que o Braga deve mesmo servir de exemplo. Para o Rio Ave, o Porto e os restantes desafios que temos pela frente. Porque o único salvador de que precisamos está dentro da nossa casa. E quando faz as coisas certas, é certo que estamos mais perto de ser felizes. Jogo a jogo, Amorim. 

PS: O único senão foi a voluntária exclusão de Coates para o jogo de Vila do Conde. Os melhores disponíveis devem sempre jogar o próximo jogo (de acordo com a narrativa de "jogo a jogo"), e a ausência do uruguaio vai obrigar-nos a reformular toda a defesa (Inácio para o meio, Reis à esquerda). Aprender com os erros faz parte da evolução humana, e a ausência de Pote (a que se seguiu a opção por não colocar Nuno Santos de início) já nos custou 3 pontos na Madeira à conta de poupanças para o jogo com o Benfica (que não ganhámos). 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Hidemasa "TSUBASA" Morita

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21
Jan23

Tudo ao molho e fé em Deus

Um golo orfão de um ataque prometedor


Pedro Azevedo

Com o Paulinho, o ataque do Sporting é muito associativo, distributivo e cumulativo, qualidades que o fazem, pelo menos algebricamente, prometedor. Só que, como o futebol não é uma ciência exacta, durante a primeira volta do campeonato o Paulinho só fez golo um par de vezes, concluindo-se que se pode ser prometedor e ainda assim não se concretizarem as promessas. Em contraponto, o ataque do Vizela não é considerado prometedor. Pelo menos a atestar pelo comportamento do senhor Rui Costa. Contudo, faz golos ("E pur si muove", como diria o Galileu). Eu explico: depois de uma bola jogada por um vizelense lhe ter embatido na perna direita, não chegando assim ao seu destinatário natural (Gonçalo Inácio), o árbitro entendeu não interromper o jogo, não o recomeçando assim com uma bola ao ar. Motivo: não considerou o ataque dos minhotos prometedor. Resultado? Cinco segundos depois a bola entrou na baliza à guarda de Adán. (Não estamos a falar de futsal, onde 5 segundos podem ser uma eternidade.) Ora, recorrendo à lógica, sendo certo que um ataque promissor é uma condição necessária mas não suficiente na geração de um golo (é preciso ainda ser eficaz na hora do remate à baliza), um golo só pode acontecer se precedido de um ataque promissor. A não ser que seja um "charuto". Ou um auto-golo. E, mesmo assim, não um auto-golo qualquer, mas sim um daqueles dos apanhados da bola que a RTP costumava passar em jeito de balanço antes do concerto de ano-novo, um aperativo do Karajan (e da Filarmónica de Viena). Porém, não houve "charuto" ou auto-golo, nem músiquinha de encantar (quer dizer, se houve eu não a ouvi, porque o Vidigal arranhava tanto os meus já redundantes ouvidos com as suas redundâncias que agora preventivamente tiro sempre o som ao televisor), mas ainda assim para o senhor Rui Costa tratou-se de um golo orfão de um ataque prometedor. Conclusão: orfão também era o David Copperfield, do Dickens, mas esse não fazia magia... (E com o VAR é mais difícil, salvando-se o nosso segundo golo.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pedro Porro

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09
Jan23

Tudo ao molho e fé em Deus

Poupar 3 pontos para o Benfica


Pedro Azevedo

Cada equipa presente no campeonato nacional disputa 102 pontos numa temporada. Cada jogo equivale a 3 pontos, não constando em nenhum livro de regras, pelo menos de algum que eu tenha conhecimento, que uma partida contra um rival para o título valha mais do que esses 3 pontos. Por isso, em cada jogo, cada equipa deve sempre apresentar o seu melhor Onze. E, quando digo melhor, não me refugio naquela semântica floreada a que certos treinadores recorrem quando se trata de poupar alguns craques, de que o Onze apresentado é o melhor por ser o que oferece mais condições ou garantias, et caetera e tal de prosápia encaracolada equivalente. Ora, assim sendo, não se entende por que razão o nosso jogador mais competitivo, aquele com mais fome de ganhar, o que não gosta de perder nem ao berlinde, o "ranhoso" (segundo o próprio Rúben), em suma, o Nuno Santos, tenha ficado de fora de início. Alegadamente por estar à bica de amarelos e isso poder vir a redundar num sinal vermelho à pretensão de o fazer alinhar contra o Benfica. Mas cada jogo não vale os mesmos 3 pontos? Agora percebo melhor a mentalidade que nos faz ano após ano ficar longe do título máximo doméstico. É que somando Benfica, Porto e Braga, já são 6 poupanças de véspera. Adicionem-se os jogos das provas europeias e, se calhar, só fazemos meio campeonato na máxima força. Repito, isto faz algum sentido? Principalmente quando é sabido que a rotação não é possível, por não termos 2 bons jogadores por posição, que no meio campo (após as vendas sucessivas de Palhinha e de Matheus) e centro de ataque nem sequer 1 à altura da dimensão das responsabilidades de um clube como o Sporting provavelmente teremos. E depois as sinistras substituições... Devemos querer entrar no Guiness como a equipa de futebol que mais troca de centrais durante os jogos num campeonato, só pode ser essa a justificação. Além de que a aposta na Formação não é tirar um miúdo que não estava a jogar pior que os outros (fez o passe para o penálti sobre Porro), como que o penalizando pela imprudência de uma penalidade anteriormente cometida. Não, a aposta na Formação sugere convicção. E assumpção de riscos. (Se é que era um risco ter Rodrigo Ribeiro, única alternativa ao ponta de lança por vontade de Amorim, no banco em vez de na bancada.) Trocar para quê e por quem? Por um jogador (Rochinha) que falha por metro e meio a baliza num cabeceamento frontal efectuado a 3 metros da linha de golo? Enfim, também é verdade, ou VARdade, que o Marítimo, ou VARítimo, beneficiou aos 50 minutos de um ataque de sono daquela equipa que vive numa roulotte na Cidade do Futebol (todavia, esta pode sempre refugiar-se na interpretação do árbitro, por ser um lance de ponderação da  tal intensidade imortalizada pelo Dr Pôncio Monteiro e, como tal, caber essencialmente à apreciação do chefe da equipa de arbitragem). Mas isso são outros poemas, de apitos e de inquéritos, aos quais anos e anos  de poupanças da melhor equipa deverão acrescentar algumas estrofes de justificação. Queremos respeito? Respeitemo-nos. Começando por aproveitar os pontos perdidos pelos rivais, não embandeirando em arco e concentrando o foco em nós e no adversário do dia. Infelizmente, até uma franja importante dos nossos adeptos parece retirar mais prazer da derrota dos nossos rivais do que das nossas vitórias. E isso é sinónimo de que algo está errado na nossa Cultura de clube. Os nossos adversários sabem-no. Há anos. Vamos mudar? Espero que sim. Se não, o nosso mundo continuará a ser do tamanho de uma ostra e haverá sempre uma pérola (do Atlântico) a "adornar" o percurso. 


PS: Antigamente a filosofia era jogo-a-jogo, agora é jogo-a-pensar-no-jogo-seguinte. Assim sendo, o próximo obstáculo será o Vizela. Já é concelho, eu sei, mas não aconselho (essa estratégia). 

PS2: O Sporting tem muito galo com o senhor Malheiro. Que o diga o Ristovski, expulso em Setúbal por reclamar a ausência da devida punição disciplinar para um adversário (depois de muito tempo caído no relvado com a complacência da inacção do árbitro), logo após uma agressão por si sofrida lhe ter provocado um hematoma na testa visível a partir da Lua. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Nuno Santos. Pedro Porro foi o melhor dos que entraram de início, secundado por Gonçalo Inácio. No plano oposto, o sumo que se extraiu da acção de Trincão foi nulo. Estranhamente, voltou a jogar os 90 minutos. (Eu entendo que o Edwards seja inconstante, mas do inglês ainda se espera um momento de brilhantismo que desafie o status-quo.)

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14
Nov22

Tudo ao molho e fé em Deus

Mixórdia de temáticas


Pedro Azevedo

Caro Leitor, a semana começou com o sorteio da Liga Europa e eu conheci o nome do nosso oponente antes da cerimónia em si. Não, não foi em sonhos nem teve a ver com o "sortilégio" ou manha das bolas quentes e frias, embora o clube dinamarquês que nos calhou em sorte fosse o mais desejado. Acontece que há uns dias atrás eu havia tido uma consulta no meu oftalmologista. E o senhor doutor pôs-me a olhar para uma parede iluminada onde se projectava um amontoado de letras soltas. Às tantas, pediu-me para eu as soletrar, uma a uma: M I D T J Y L L A N D. Foi então que tive a epifania. Entretanto, se o meu diagnóstico foi 20/20, o nosso só pode ser a passagem aos oitavos. Mas como é conhecida a nossa miopia de cada vez que nos é pedido para ver mais longe, o melhor mesmo é continuarmos a olhar de perto, jogo a jogo, assim Deus nos livre da hipermetropia que nos acomete de cada vez que o Braga e o Porto estão mesmo ali ao dobrar da esquina.  

 

Ainda durante a semana foram anunciados quase todos os convocados do Sporting para as selecções que vão disputar o Mundial do Qatar. Assim, teremos o Coates e o Ugarte pelo Uruguai e presumivelmente o Fatawu pelo Gana, ambos do grupo de Portugal. E o Morita alinhará pelo Japão. Por Portugal é que nada, nem um dos nossos. O meu medo é que os futuros jogadores lusos do Sporting comecem logo a pensar naturalizar-se por outro país no acto da assinatura de contrato. Por exemplo, arranjando uma canária para poderem jogar por Espanha. Ou, crescendo para umas suiças, de forma a alinharem pelo país da banca e do chocolate. Como não se chamam Otávio ou Pepe, não correriam o risco de virem a ser chamados pelo Engenheiro. Sim, porque o Coates teria que nascer 100 vezes para tirar o lugar ao António Silva - "Ó Evaristo, tens cá disto?". (O Fernando Santos como cómico - apesar daqueles trejeitos de pescoço e da fantástica rábula do IRS - também teria de nascer 100 vezes para tirar o lugar ao António Silva.)

 

Ontem terminámos o nosso aquecimento para o campeonato nacional em Famalicão. Para não variar o Amorim fintou toda a gente e lá inventou uma equipa capaz de dar cabo do Placard ao apostador mais ousado. O Edwards e o Arthur, que haviam sido os melhores contra o Casa Pia, foram para o banco. E o St Juste fez os 90 minutos. O caso do neerlandês então é paradigmático: o homem andava a jogar a espaços, porque havia perdido a pré-época por lesão e alegadamente precisava da paragem para o campeonato do mundo para recuperar a melhor condição física. E o que aconteceu? Agora que a paragem está à porta, abrindo-lhe essa janela a possibilidade de poder ser totalmente recuperado sem risco de recidivas em competição, pela primeira vez jogou o tempo todo. (Ao Gabinete de Performance o que é do Gabinete de Performance, ou ainda alguém se lembra de convocar para aqui os laboratórios Azevedos.) Felizmente nada de mais aconteceu para além de um golo do Famalicão. Podia ter sido um tiro no pé, assim foi só um auto-golo. (Azares à parte, a defesa foi de longe o nosso melhor sector, com Inácio a salvar um golo certo, Coates imperial sobre a terra e sobre o ar e o Jeremias igualmente bem.)

 

O Morita ganhou uma bola que o Paulinho endereçou para a baliza deserta. Só que o Trincão intrometeu-se e sobre a linha sacou o golo ao nosso necessitado ponta de lança. Conclusão: eles até podem ter sido colegas em Braga, mas cá para mim o Trincão é um amigo de Peniche. Para o Paulinho, que não para o Pote que aproveitou um penalty saído dos pés do ex-culé. Depois, o Morita viria a marcar um golo. A coisa na televisão pareceu limpinho, limpinho. Até o Freitas Lobo, meio resignado, o confirmou. O Euclides, o Euler e o Gauss também. Mas depois veio o VAR. E comeu-o. E lá foram o Pai Natal e o palhaço no combóio ao circo. Enfim, (terão sido só) fantasias de Natal...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Seba Coates

 

PS: Outra fantasia de Natal é haver árbitros portugueses no Qatar. O Lineker é que não conhece bem isto, se não saberia que em Portugal o futebol são onze contra onze e no fim ganha o amarelo (também onze, ontem em Famalicão). 

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30
Out22

Tudo ao molho e fé em Deus

O Professor Pardal e o Lampadinha


Pedro Azevedo

Para algumas pessoas que seguem o futebol tudo se circunscreve a sorte ou a azar (ou ao árbitro). Por exemplo, jogamos com um ponta de lança que por acaso (claro!) é um extremo e por azar (obviamente!!) só tem 1,69m e não se chama Romário e queixamo-nos da falta de sorte na finalização, quando, se calhar, deveríamos pensar que se tivéssemos um ponta de lança que não fosse um extremo, não se chamasse Paulinho e tivesse 1,85m como o Rodrigo Ribeiro estaríamos mais perto de ter mais sorte nas finalizações. Mas isso sou eu que digo, que não sou treinador nem tive de passar por aqueles cursos complicadíssimos que fazem com que o senhor José Pereira dê prova da sua existência. (A ASAE deveria investigar o conteúdo desses cursos porque parece-me que o Amorim se estragou e está muito menos fresco desde que ficou com nível.) Porque esta coisa de correlacionar um ponta de lança com o golo deve estar errada desde o início. Porém, eu, que ainda sou do tempo do anúncio do Restaurador Olex - "Um preto de cabeleira loira ou um branco de carapinha não é natural" - , não me conformo e sou capaz de achar um bocadinho de invencionice as peças estarem fora do seu sítio natural, como se num Banco o Compliance andasse a fazer investimentos por conta dos clientes e a Gestão de Activos tratasse da contabilidade, ou num hospital o nefrologista operasse o coração e o estomatolista fosse para o refeitório descascar dentes de alho (olho por olho, dente por dente, se o Coates por ser alto é recomendável para ponta de lança...). Todavia, na vida encontramos sempre pessoas com um espírito revolucionário e ego suficiente para baralhar e dar de novo. Quando acertam, elevam-se a génios, se falham redondamente há sempre uma qualquer desculpa que justifique o insucesso. Simplesmente, não há desculpa que esconda a má percepção da realidade por parte de quem lidera. E a dificuldade consequente de aceitar a derrota e arrepiar caminho só cria atalhos para a invenção, com apostas cada vez mais altas e improváveis de obterem sucesso. Pensei maduramente nisso ao ver o nosso jogo em Arouca. E caro Leitor, há que dizê-lo com frontalidade: Rúben Amorim é o nosso Professor Pardal e o Rochinha ontem foi o seu Lampadinha, o protótipo de uma ideia de ponta de lança que traduz a negação da realidade.  

 

É também, realmente, um Azar dos Távoras ter no plantel um jogador irregular mas com uma obsessiva vocação para marcar golos decisivos como o Jovane. E ainda mais azar é dar-lhe uma grandíssima oportunidade e ele, em dois ou três minutos, não conseguir resolver a eliminatória da Taça com o Varzim. Lá está, o Rúben tinha razão, o cabo-verdiano é muito ansioso. Eu também, de cada vez que repetidamente o Trincão desperdiça os 90 minutos que regularmente o Rúben lhe concede. Vai daí, o Jovane continua a ver os jogos à flor da relva (banco de suplentes) e o Trincão continua a ver a relva através dos jogos (ainda se tirasse os olhos do chão...). 

 

Finalmente, no Sporting é comum que quando um treinador começa a sentir-se apertado aposte na Formação. Contudo, convém haver um critério. Por exemplo, eu até admito que o Mateus Fernandes se tenha cansado demasido devido aos 29 minutos que jogou em Londres e que o Essugo fosse mais indicado para um jogo que se antevia mais físico, mas já não entendo que na ausência de um placebo que nos dá a sensação de "wishful thinking" e custou uns módicos 16 M€ (por 70% do passe) não se convoque o tal ponta de lança proveniente da Formação que tinha servido à narrativa de que não era necessário ir ao mercado contratar alguém para marcar golos. Por isso, mais do que ansiar pela pausa do Campeonato do Mundo a fim de podermos recuperar alguns lesionados, eu suspiro por essa interrupção para que possamos recuperar o ... Rúben Amorim.

 

E agora é esperar que na terça-feira esta montanha russa de emoções continue e levemos de vencida o Frankfurt... (Caso contrário, depois da salsichada que foi este início de época, iremos ter de nos conformar com uns enlatados até ao fim.)

 

PS: Saudades de ver Palhinha a destruir tudo o que lhe aparecia pela frente e Matheus Nunes a quebrar sucessivamente as linhas do adversário. Se falharmos a Champions, não se esqueçam de debitar esse "custo" (quebra de Proveitos) aos valores dessas duas transferências.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pedro Porro 

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10
Out22

Matemática do título


Pedro Azevedo

À sétima jornada tínhamos um combinado de 26 pontos de atraso em relação a Benfica (11), Braga (9) e Porto (6). Duas jornadas depois, a nossa diferença para este trio diminuiu para 18 pontos, o que é um ritmo encorajador, à custa de 2 pontos ganhos ao Benfica e 6 ao Braga. Não se iluda porém o Leitor, é que a matemática encerra as suas próprias manhosidades. Neste caso, porque agregadamente podemos recuperar todos estes pontos e mais alguns e ainda assim tal não ser o suficiente para ganharmos o campeonato. Basta, por exemplo, que os pontos recuperados em relação a um ou dois dos contendores seja grande. Se o(s) outro(s) contendor(es) não ceder(em) a totalidade dos pontos que leva(m) de dianteira, o título nacional não será possível. 

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09
Out22

Tudo ao molho e fé em Deus

Elegia a Nuno Santos num dia em que Adán deu o que Adán tirou


Pedro Azevedo

Caro Leitor, eu quero reparar aqui a injustiça que tenho cometido com um jogador, iniquidade essa produto de uma mente orientada para valorizar em excesso o génio em detrimento do trabalho. Esta falha, de que me penetencio, teve na sua origem o meu conceito de equipa grande, que sempre associei a jogadores que façam a diferença. E foi aqui que errei, porque não é só a genialidade que faz a diferença, o compromisso com a equipa e a não aceitação da derrota também têm de ser características diferenciadores em quem vista a camisola verde-e-branca. Por isso, hoje venho aqui em modo de elegia a um jogador. Não, não se trata de Adán, de quem nunca duvidei das qualidades (bem como dos defeitos), que ontem foi o melhor em campo e o garante dos 3 pontos que trouxemos dos Açores. Não, o jogador de que Vos quero falar, de quem já Vos devia ter falado há muito tempo e justamente enaltecido aqui é o Nuno Santos. Mas hoje vou reparar este meu descuido. A verdade é que se estivessemos em guerra e eu alistado numa qualquer fileira em prol da lusa pátria e me entregassem uma missão quase suicidária e de baixa probabilidade de sobrevivência para a qual teria de nomear um combatente para me ajudar eu escolheria o Nuno Santos. E escolheria bem, porque sei que ele daria tudo para vencer, nunca se resignaria à sua sorte. Como pude subvalorizar isto ao longo destes últimos 2 anos e meio é que não sei, ou melhor, até sei e já o expressei em cima. Por isso é que desde cedo admirei o Matheus Nunes - até chegar ao Liverpool, um desperdício imenso de talento neste purgatório que constitui os Wolves (qualquer dúvida, recomendo visionamento de um lance ocorrido aos 20 minutos da partida de ontem em Stanford Bridge), ele que tanto nos poderia ter ajudado até ao Mercado de Inverno - e o Pote, como hoje valorizo o Edwards ou o Morita, tudo jogadores de uma classe à parte. Mas depois há o Nuno Santos, que é sólido, fiável e competente. Eu sei, pode não ter a estética de um bólide italiano, mas é seguro como um familiar alemão. Falando de teutónicos, diria até que não há um jogador tão germano como ele no futebol português desde os tempos de Maniche. Senão atente-se: ele recebe bem, passa bem (até de letra), chuta bem e tem uma mentalidade vencedora. Ok, não é inventivo nos dribles, não deslumbra no 1x1, não se perde em rodriguinhos para a bancada e para quem confunda habilidade com técnica até pode passar despercebido. Mas numa equipa onde muitos se acham melhores do que verdadeiramente o são, dá sempre jeito ter alguém que é muito melhor do que o olho mal treinado pode observar. E isso é tão válido para o Sporting como para a nossa Selecção, que talvez precise de gente pouco aburguesada e ainda com muita fome de ganhar. Porque uma equipa campeã também se faz desta massa que lhe dá consistência. Por isso, será bom não esquecer que por detrás de cada Pirlo há um Gattuso, por cada Figo ou Zidane um Makelele, por cada Ronaldo um Casemiro. E essa é tanto a essência do futebol como da própria vida.  

 

Ontem ficámos a dever a vitória a Adán, mas também a Nuno Santos. Porque apesar de o espanhol ter sido um gigante entre os postes, foi a inquietação contra a moleza ou molenguice de um jogador que nos garantiu um segundo golo providencial. Sim, foi de moleza ou molenguice que se viveu no segundo tempo, e não pode haver campeões com esse espírito. Por isso a nossa chama foi ficando cada vez mais pequenina, quase se apagando quando Morita e Edwards foram mal substituídos, valendo-nos na parte final o Bico de Bunsen do Nuno Santos, um homem que parece sempre estar preparado para uma semana de campo a dormir numa tenda, a comer ração e beber de um cantil e a rastejar em cantos lodacentos por baixo do arame farpado. E como de arame farpado vamos estar sempre rodeados, que o diga mais uma exibição para esquecer do melhor árbitro internacional não reconhecido pela FIFA para os seus certames quadrienais, o Nuno Santos altamente recomenda-se. Tenho dito.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Antonio Adán

 

P.S. Gostei muito do St Juste (que até mostrou dotes de poder ser um bom substituto para o Porro), mas ainda anseio pelo dia em que o verei fazer os 90 minutos...

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01
Out22

Tudo ao molho e fé em Deus

A arte do Samurai


Pedro Azevedo

A bola cai perpendicularmente como que orientada por um fio-de-prumo. Espera-se um violento ressalto no solo, mas eis que encontra um pé que a aconchega como uma luva, a afaga com carícia e envolve num ninho que a protege de qualquer tipo de intrusão. Se este movimento encontra eco nas expressões de espanto na bancada, aguarde pelo que imediatamente se lhe seguirá: desse ninho provisório, a bola evade-se com um subtil toque de calcanhar por entre as pernas do predador que a cobiça - "taco" e "cano" em simultâneo - e encontra Pedro Gonçalves que lhe dá conforto e propósito e a anicha definitivamente entre as redes sob vigilância de um galo muito pouco madrugador. Já sabíamos que tínhamos entre nós o Pote de Ouro, mas ontem tivemos a epifania da existência da Galinha dos Ovos (Golos) de Ouro. Haverá melhor definição para a arte de Morita expressa em golos perante os Galos? Acreditam agora que Hidemasa é o super-herói, o Olivier Tsubasa desta manga ilustrada por Mestre Amorim? Só Vos digo o seguinte: por breves segundos tive a ideia de ver Sócrates, o filósofo da Democracia Corinthiana, e o Brasil de 82 em campo. E tudo graças a dois momentos seguidos de sortilégio protagonizados por Mr Hide, a que se poderia juntar um outro instante de génio (toque de calcanhar a pôr a bola jogável a 15 metros) que fez levantar as bancadas de Alvalade. Para além do seu golo, claro.

 

Depois de uma catarse destas que varreu o Gil do campo, é natural que o resto do jogo a pouco mais tenha obedecido do que ao cumprimento de uma mera formalidade. Ainda assim, destaque-se o inglório desperdício de inúmeras oportunidades de golo por parte dos nossos, num jogo que nos deu o vislumbre do que é um ponta de lança. Infelizmente, residiu no outro lado do campo... Quem esteve sempre do meu lado, bem juntinho a mim e animada com a arte que via a desenrolar-se no relvado, foi a minha filha mais nova, que assim fez a sua estreia em Alvalade. Um baptismo feliz, que é o que mais se pode desejar a uma criança neste longo culto de passagem de testemunho entre pai e filhos, que foi também um ritual de ligação entre a ficção technicolor dos desenhos animados do Oliver e Benji e a realidade ao vivo e a cores no solo sagrado de Alvalade (e não se notou a diferença). 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Hidemasa Morita. Destacaram-se ainda acima da mediania os seguintes jogadores: Nuno Santos e Ugarte. De nota ainda a exibição positiva de Marsá, em estreia absoluta no Campeonato, e novos indicadores animadores de Buscapoulos, um dínamo no meio campo leonino. 

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