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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

02
Fev23

Tudo ao molho e fé em Deus

O Tsubasa, o Copperfield e o Button foram à bola


Pedro Azevedo

Os amantes do futebol associativo passaram uma semana de grande ansiedade após terem visto o seu ícone, Paulinho, desassociar-se do resto da equipa, deixá-la em campo em inferioridade numérica e ser suspenso. Foi como se lhes tirassem um dos seus últimos argumentos, uma das suas derradeiras linhas de defesa contra a falta de proficuidade goleadora do nosso avançado centro. Na verdade, o associativismo do Paulinho estava para o ponta de lança como o charme está para os homens - "Ah, e tal, não é bonito mas é um homem muito charmoso" - , uma característica que lhe dava patine, o tornava interessante e fazia esquecer tudo o resto. Mas, o drama, o horror, a tragédia, o Paulinho estava de fora do jogo com o Braga e os últimos resistentes da intrépida devoção ao "Citizen Kane" português - "Como saberes o que é suficiente, se não souberes o que é demais?" Há excessos assim que nos abrem os olhos para delirantes percepções da realidade... - rezavam secretamente para que Amorim lançasse o trio dinâmico na frente, com Trincão e sem ponta de lança. (Se não se puder provar que um seu eventual substituto é melhor, então é mais fácil de conceder que o Paulinho, ainda que não goleador e divergentemente associativo, tem de jogar.)

 

Acontece que o Amorim decidiu operar uma pequena revolução. E, qual Salgueiro Maia, avançar para o quartel que já foi do Carmo (agora no Porto) com o chaimite, ou Chermiti, ou lá o que é esse menino que deslumbra tanto a cada toque na bola como a cada movimentação sem ela, ora servindo apoios frontais, ora arrastando marcações, com a vantagem adicional de não se inibir no jogo aéreo e disputar com quantos adversários for preciso qualquer bola nas alturas. Não é fácil para um menino de 18 anos saber quando deve soltar a bola rapidamente e desmarcar-se ou simplesmente a reter e esperar pelo avanço dos colegas, mas nesse aspecto o Cherniti pareceu um veterano, um Benjamim Button desfilando de chuteiras. E quanto aos arrastamentos dos centrais, bom, basta dizer que os segundo e terceiro golos do Sporting resultaram dessas movimentações, com a cereja em cima do bolo de o segundo ainda ter tido uma assistência à Madjer do nosso puto a engalaná-lo. Além disso, o nosso novo ponta de lança mostrou bom jogo de cabeça, ora antecipando-se a todos ao primeiro poste, ora vencendo a oposição de 2 adversários numa bola dividida. É claro, porém, que o Chermiti não jogou sozinho. Houve muito Edwards na condução e transporte de bola, naquele seu estilo de prestidigitador, que habilmente mostra a bola ao defesa para o iludir e logo a esconde com um rápido movimento de pés. E tivemos também, e principalmente, um grande Morita, o nosso Tsubasa, gregário no meio do campo e letal na chegada à área. Um espectáculo este japonês que a todos encanta pela sua generosidade, humildade, simpatia e, é bom não esquecer, qualidade técnica ímpar. Depois destes, destaco ainda Pote, St Juste e Esgaio (e o grande golo de Matheus Reis e a iniciativa de Fatawu que deu um penálti). O primeiro de volta aos golos e sempre em movimento, o segundo ímpar nas acelerações e com passes sempre precisos e o terceiro rejuvenescido, como que liberto de uma sombra opressora tutelar que o esmagava e confrontava com a sua própria realidade. 

Uma vitória muito importante do Sporting, que culminou uma semana em que o Braga foi servindo de exemplo de gestão para nós. Dez-a-zero depois (pouparam a visita ao museu), com um mês de intervalo, eu diria que o Braga deve mesmo servir de exemplo. Para o Rio Ave, o Porto e os restantes desafios que temos pela frente. Porque o único salvador de que precisamos está dentro da nossa casa. E quando faz as coisas certas, é certo que estamos mais perto de ser felizes. Jogo a jogo, Amorim. 

PS: O único senão foi a voluntária exclusão de Coates para o jogo de Vila do Conde. Os melhores disponíveis devem sempre jogar o próximo jogo (de acordo com a narrativa de "jogo a jogo"), e a ausência do uruguaio vai obrigar-nos a reformular toda a defesa (Inácio para o meio, Reis à esquerda). Aprender com os erros faz parte da evolução humana, e a ausência de Pote (a que se seguiu a opção por não colocar Nuno Santos de início) já nos custou 3 pontos na Madeira à conta de poupanças para o jogo com o Benfica (que não ganhámos). 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Hidemasa "TSUBASA" Morita

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21
Jan23

Tudo ao molho e fé em Deus

Um golo orfão de um ataque prometedor


Pedro Azevedo

Com o Paulinho, o ataque do Sporting é muito associativo, distributivo e cumulativo, qualidades que o fazem, pelo menos algebricamente, prometedor. Só que, como o futebol não é uma ciência exacta, durante a primeira volta do campeonato o Paulinho só fez golo um par de vezes, concluindo-se que se pode ser prometedor e ainda assim não se concretizarem as promessas. Em contraponto, o ataque do Vizela não é considerado prometedor. Pelo menos a atestar pelo comportamento do senhor Rui Costa. Contudo, faz golos ("E pur si muove", como diria o Galileu). Eu explico: depois de uma bola jogada por um vizelense lhe ter embatido na perna direita, não chegando assim ao seu destinatário natural (Gonçalo Inácio), o árbitro entendeu não interromper o jogo, não o recomeçando assim com uma bola ao ar. Motivo: não considerou o ataque dos minhotos prometedor. Resultado? Cinco segundos depois a bola entrou na baliza à guarda de Adán. (Não estamos a falar de futsal, onde 5 segundos podem ser uma eternidade.) Ora, recorrendo à lógica, sendo certo que um ataque promissor é uma condição necessária mas não suficiente na geração de um golo (é preciso ainda ser eficaz na hora do remate à baliza), um golo só pode acontecer se precedido de um ataque promissor. A não ser que seja um "charuto". Ou um auto-golo. E, mesmo assim, não um auto-golo qualquer, mas sim um daqueles dos apanhados da bola que a RTP costumava passar em jeito de balanço antes do concerto de ano-novo, um aperativo do Karajan (e da Filarmónica de Viena). Porém, não houve "charuto" ou auto-golo, nem músiquinha de encantar (quer dizer, se houve eu não a ouvi, porque o Vidigal arranhava tanto os meus já redundantes ouvidos com as suas redundâncias que agora preventivamente tiro sempre o som ao televisor), mas ainda assim para o senhor Rui Costa tratou-se de um golo orfão de um ataque prometedor. Conclusão: orfão também era o David Copperfield, do Dickens, mas esse não fazia magia... (E com o VAR é mais difícil, salvando-se o nosso segundo golo.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pedro Porro

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09
Jan23

Tudo ao molho e fé em Deus

Poupar 3 pontos para o Benfica


Pedro Azevedo

Cada equipa presente no campeonato nacional disputa 102 pontos numa temporada. Cada jogo equivale a 3 pontos, não constando em nenhum livro de regras, pelo menos de algum que eu tenha conhecimento, que uma partida contra um rival para o título valha mais do que esses 3 pontos. Por isso, em cada jogo, cada equipa deve sempre apresentar o seu melhor Onze. E, quando digo melhor, não me refugio naquela semântica floreada a que certos treinadores recorrem quando se trata de poupar alguns craques, de que o Onze apresentado é o melhor por ser o que oferece mais condições ou garantias, et caetera e tal de prosápia encaracolada equivalente. Ora, assim sendo, não se entende por que razão o nosso jogador mais competitivo, aquele com mais fome de ganhar, o que não gosta de perder nem ao berlinde, o "ranhoso" (segundo o próprio Rúben), em suma, o Nuno Santos, tenha ficado de fora de início. Alegadamente por estar à bica de amarelos e isso poder vir a redundar num sinal vermelho à pretensão de o fazer alinhar contra o Benfica. Mas cada jogo não vale os mesmos 3 pontos? Agora percebo melhor a mentalidade que nos faz ano após ano ficar longe do título máximo doméstico. É que somando Benfica, Porto e Braga, já são 6 poupanças de véspera. Adicionem-se os jogos das provas europeias e, se calhar, só fazemos meio campeonato na máxima força. Repito, isto faz algum sentido? Principalmente quando é sabido que a rotação não é possível, por não termos 2 bons jogadores por posição, que no meio campo (após as vendas sucessivas de Palhinha e de Matheus) e centro de ataque nem sequer 1 à altura da dimensão das responsabilidades de um clube como o Sporting provavelmente teremos. E depois as sinistras substituições... Devemos querer entrar no Guiness como a equipa de futebol que mais troca de centrais durante os jogos num campeonato, só pode ser essa a justificação. Além de que a aposta na Formação não é tirar um miúdo que não estava a jogar pior que os outros (fez o passe para o penálti sobre Porro), como que o penalizando pela imprudência de uma penalidade anteriormente cometida. Não, a aposta na Formação sugere convicção. E assumpção de riscos. (Se é que era um risco ter Rodrigo Ribeiro, única alternativa ao ponta de lança por vontade de Amorim, no banco em vez de na bancada.) Trocar para quê e por quem? Por um jogador (Rochinha) que falha por metro e meio a baliza num cabeceamento frontal efectuado a 3 metros da linha de golo? Enfim, também é verdade, ou VARdade, que o Marítimo, ou VARítimo, beneficiou aos 50 minutos de um ataque de sono daquela equipa que vive numa roulotte na Cidade do Futebol (todavia, esta pode sempre refugiar-se na interpretação do árbitro, por ser um lance de ponderação da  tal intensidade imortalizada pelo Dr Pôncio Monteiro e, como tal, caber essencialmente à apreciação do chefe da equipa de arbitragem). Mas isso são outros poemas, de apitos e de inquéritos, aos quais anos e anos  de poupanças da melhor equipa deverão acrescentar algumas estrofes de justificação. Queremos respeito? Respeitemo-nos. Começando por aproveitar os pontos perdidos pelos rivais, não embandeirando em arco e concentrando o foco em nós e no adversário do dia. Infelizmente, até uma franja importante dos nossos adeptos parece retirar mais prazer da derrota dos nossos rivais do que das nossas vitórias. E isso é sinónimo de que algo está errado na nossa Cultura de clube. Os nossos adversários sabem-no. Há anos. Vamos mudar? Espero que sim. Se não, o nosso mundo continuará a ser do tamanho de uma ostra e haverá sempre uma pérola (do Atlântico) a "adornar" o percurso. 


PS: Antigamente a filosofia era jogo-a-jogo, agora é jogo-a-pensar-no-jogo-seguinte. Assim sendo, o próximo obstáculo será o Vizela. Já é concelho, eu sei, mas não aconselho (essa estratégia). 

PS2: O Sporting tem muito galo com o senhor Malheiro. Que o diga o Ristovski, expulso em Setúbal por reclamar a ausência da devida punição disciplinar para um adversário (depois de muito tempo caído no relvado com a complacência da inacção do árbitro), logo após uma agressão por si sofrida lhe ter provocado um hematoma na testa visível a partir da Lua. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Nuno Santos. Pedro Porro foi o melhor dos que entraram de início, secundado por Gonçalo Inácio. No plano oposto, o sumo que se extraiu da acção de Trincão foi nulo. Estranhamente, voltou a jogar os 90 minutos. (Eu entendo que o Edwards seja inconstante, mas do inglês ainda se espera um momento de brilhantismo que desafie o status-quo.)

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14
Nov22

Tudo ao molho e fé em Deus

Mixórdia de temáticas


Pedro Azevedo

Caro Leitor, a semana começou com o sorteio da Liga Europa e eu conheci o nome do nosso oponente antes da cerimónia em si. Não, não foi em sonhos nem teve a ver com o "sortilégio" ou manha das bolas quentes e frias, embora o clube dinamarquês que nos calhou em sorte fosse o mais desejado. Acontece que há uns dias atrás eu havia tido uma consulta no meu oftalmologista. E o senhor doutor pôs-me a olhar para uma parede iluminada onde se projectava um amontoado de letras soltas. Às tantas, pediu-me para eu as soletrar, uma a uma: M I D T J Y L L A N D. Foi então que tive a epifania. Entretanto, se o meu diagnóstico foi 20/20, o nosso só pode ser a passagem aos oitavos. Mas como é conhecida a nossa miopia de cada vez que nos é pedido para ver mais longe, o melhor mesmo é continuarmos a olhar de perto, jogo a jogo, assim Deus nos livre da hipermetropia que nos acomete de cada vez que o Braga e o Porto estão mesmo ali ao dobrar da esquina.  

 

Ainda durante a semana foram anunciados quase todos os convocados do Sporting para as selecções que vão disputar o Mundial do Qatar. Assim, teremos o Coates e o Ugarte pelo Uruguai e presumivelmente o Fatawu pelo Gana, ambos do grupo de Portugal. E o Morita alinhará pelo Japão. Por Portugal é que nada, nem um dos nossos. O meu medo é que os futuros jogadores lusos do Sporting comecem logo a pensar naturalizar-se por outro país no acto da assinatura de contrato. Por exemplo, arranjando uma canária para poderem jogar por Espanha. Ou, crescendo para umas suiças, de forma a alinharem pelo país da banca e do chocolate. Como não se chamam Otávio ou Pepe, não correriam o risco de virem a ser chamados pelo Engenheiro. Sim, porque o Coates teria que nascer 100 vezes para tirar o lugar ao António Silva - "Ó Evaristo, tens cá disto?". (O Fernando Santos como cómico - apesar daqueles trejeitos de pescoço e da fantástica rábula do IRS - também teria de nascer 100 vezes para tirar o lugar ao António Silva.)

 

Ontem terminámos o nosso aquecimento para o campeonato nacional em Famalicão. Para não variar o Amorim fintou toda a gente e lá inventou uma equipa capaz de dar cabo do Placard ao apostador mais ousado. O Edwards e o Arthur, que haviam sido os melhores contra o Casa Pia, foram para o banco. E o St Juste fez os 90 minutos. O caso do neerlandês então é paradigmático: o homem andava a jogar a espaços, porque havia perdido a pré-época por lesão e alegadamente precisava da paragem para o campeonato do mundo para recuperar a melhor condição física. E o que aconteceu? Agora que a paragem está à porta, abrindo-lhe essa janela a possibilidade de poder ser totalmente recuperado sem risco de recidivas em competição, pela primeira vez jogou o tempo todo. (Ao Gabinete de Performance o que é do Gabinete de Performance, ou ainda alguém se lembra de convocar para aqui os laboratórios Azevedos.) Felizmente nada de mais aconteceu para além de um golo do Famalicão. Podia ter sido um tiro no pé, assim foi só um auto-golo. (Azares à parte, a defesa foi de longe o nosso melhor sector, com Inácio a salvar um golo certo, Coates imperial sobre a terra e sobre o ar e o Jeremias igualmente bem.)

 

O Morita ganhou uma bola que o Paulinho endereçou para a baliza deserta. Só que o Trincão intrometeu-se e sobre a linha sacou o golo ao nosso necessitado ponta de lança. Conclusão: eles até podem ter sido colegas em Braga, mas cá para mim o Trincão é um amigo de Peniche. Para o Paulinho, que não para o Pote que aproveitou um penalty saído dos pés do ex-culé. Depois, o Morita viria a marcar um golo. A coisa na televisão pareceu limpinho, limpinho. Até o Freitas Lobo, meio resignado, o confirmou. O Euclides, o Euler e o Gauss também. Mas depois veio o VAR. E comeu-o. E lá foram o Pai Natal e o palhaço no combóio ao circo. Enfim, (terão sido só) fantasias de Natal...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Seba Coates

 

PS: Outra fantasia de Natal é haver árbitros portugueses no Qatar. O Lineker é que não conhece bem isto, se não saberia que em Portugal o futebol são onze contra onze e no fim ganha o amarelo (também onze, ontem em Famalicão). 

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30
Out22

Tudo ao molho e fé em Deus

O Professor Pardal e o Lampadinha


Pedro Azevedo

Para algumas pessoas que seguem o futebol tudo se circunscreve a sorte ou a azar (ou ao árbitro). Por exemplo, jogamos com um ponta de lança que por acaso (claro!) é um extremo e por azar (obviamente!!) só tem 1,69m e não se chama Romário e queixamo-nos da falta de sorte na finalização, quando, se calhar, deveríamos pensar que se tivéssemos um ponta de lança que não fosse um extremo, não se chamasse Paulinho e tivesse 1,85m como o Rodrigo Ribeiro estaríamos mais perto de ter mais sorte nas finalizações. Mas isso sou eu que digo, que não sou treinador nem tive de passar por aqueles cursos complicadíssimos que fazem com que o senhor José Pereira dê prova da sua existência. (A ASAE deveria investigar o conteúdo desses cursos porque parece-me que o Amorim se estragou e está muito menos fresco desde que ficou com nível.) Porque esta coisa de correlacionar um ponta de lança com o golo deve estar errada desde o início. Porém, eu, que ainda sou do tempo do anúncio do Restaurador Olex - "Um preto de cabeleira loira ou um branco de carapinha não é natural" - , não me conformo e sou capaz de achar um bocadinho de invencionice as peças estarem fora do seu sítio natural, como se num Banco o Compliance andasse a fazer investimentos por conta dos clientes e a Gestão de Activos tratasse da contabilidade, ou num hospital o nefrologista operasse o coração e o estomatolista fosse para o refeitório descascar dentes de alho (olho por olho, dente por dente, se o Coates por ser alto é recomendável para ponta de lança...). Todavia, na vida encontramos sempre pessoas com um espírito revolucionário e ego suficiente para baralhar e dar de novo. Quando acertam, elevam-se a génios, se falham redondamente há sempre uma qualquer desculpa que justifique o insucesso. Simplesmente, não há desculpa que esconda a má percepção da realidade por parte de quem lidera. E a dificuldade consequente de aceitar a derrota e arrepiar caminho só cria atalhos para a invenção, com apostas cada vez mais altas e improváveis de obterem sucesso. Pensei maduramente nisso ao ver o nosso jogo em Arouca. E caro Leitor, há que dizê-lo com frontalidade: Rúben Amorim é o nosso Professor Pardal e o Rochinha ontem foi o seu Lampadinha, o protótipo de uma ideia de ponta de lança que traduz a negação da realidade.  

 

É também, realmente, um Azar dos Távoras ter no plantel um jogador irregular mas com uma obsessiva vocação para marcar golos decisivos como o Jovane. E ainda mais azar é dar-lhe uma grandíssima oportunidade e ele, em dois ou três minutos, não conseguir resolver a eliminatória da Taça com o Varzim. Lá está, o Rúben tinha razão, o cabo-verdiano é muito ansioso. Eu também, de cada vez que repetidamente o Trincão desperdiça os 90 minutos que regularmente o Rúben lhe concede. Vai daí, o Jovane continua a ver os jogos à flor da relva (banco de suplentes) e o Trincão continua a ver a relva através dos jogos (ainda se tirasse os olhos do chão...). 

 

Finalmente, no Sporting é comum que quando um treinador começa a sentir-se apertado aposte na Formação. Contudo, convém haver um critério. Por exemplo, eu até admito que o Mateus Fernandes se tenha cansado demasido devido aos 29 minutos que jogou em Londres e que o Essugo fosse mais indicado para um jogo que se antevia mais físico, mas já não entendo que na ausência de um placebo que nos dá a sensação de "wishful thinking" e custou uns módicos 16 M€ (por 70% do passe) não se convoque o tal ponta de lança proveniente da Formação que tinha servido à narrativa de que não era necessário ir ao mercado contratar alguém para marcar golos. Por isso, mais do que ansiar pela pausa do Campeonato do Mundo a fim de podermos recuperar alguns lesionados, eu suspiro por essa interrupção para que possamos recuperar o ... Rúben Amorim.

 

E agora é esperar que na terça-feira esta montanha russa de emoções continue e levemos de vencida o Frankfurt... (Caso contrário, depois da salsichada que foi este início de época, iremos ter de nos conformar com uns enlatados até ao fim.)

 

PS: Saudades de ver Palhinha a destruir tudo o que lhe aparecia pela frente e Matheus Nunes a quebrar sucessivamente as linhas do adversário. Se falharmos a Champions, não se esqueçam de debitar esse "custo" (quebra de Proveitos) aos valores dessas duas transferências.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pedro Porro 

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10
Out22

Matemática do título


Pedro Azevedo

À sétima jornada tínhamos um combinado de 26 pontos de atraso em relação a Benfica (11), Braga (9) e Porto (6). Duas jornadas depois, a nossa diferença para este trio diminuiu para 18 pontos, o que é um ritmo encorajador, à custa de 2 pontos ganhos ao Benfica e 6 ao Braga. Não se iluda porém o Leitor, é que a matemática encerra as suas próprias manhosidades. Neste caso, porque agregadamente podemos recuperar todos estes pontos e mais alguns e ainda assim tal não ser o suficiente para ganharmos o campeonato. Basta, por exemplo, que os pontos recuperados em relação a um ou dois dos contendores seja grande. Se o(s) outro(s) contendor(es) não ceder(em) a totalidade dos pontos que leva(m) de dianteira, o título nacional não será possível. 

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09
Out22

Tudo ao molho e fé em Deus

Elegia a Nuno Santos num dia em que Adán deu o que Adán tirou


Pedro Azevedo

Caro Leitor, eu quero reparar aqui a injustiça que tenho cometido com um jogador, iniquidade essa produto de uma mente orientada para valorizar em excesso o génio em detrimento do trabalho. Esta falha, de que me penetencio, teve na sua origem o meu conceito de equipa grande, que sempre associei a jogadores que façam a diferença. E foi aqui que errei, porque não é só a genialidade que faz a diferença, o compromisso com a equipa e a não aceitação da derrota também têm de ser características diferenciadores em quem vista a camisola verde-e-branca. Por isso, hoje venho aqui em modo de elegia a um jogador. Não, não se trata de Adán, de quem nunca duvidei das qualidades (bem como dos defeitos), que ontem foi o melhor em campo e o garante dos 3 pontos que trouxemos dos Açores. Não, o jogador de que Vos quero falar, de quem já Vos devia ter falado há muito tempo e justamente enaltecido aqui é o Nuno Santos. Mas hoje vou reparar este meu descuido. A verdade é que se estivessemos em guerra e eu alistado numa qualquer fileira em prol da lusa pátria e me entregassem uma missão quase suicidária e de baixa probabilidade de sobrevivência para a qual teria de nomear um combatente para me ajudar eu escolheria o Nuno Santos. E escolheria bem, porque sei que ele daria tudo para vencer, nunca se resignaria à sua sorte. Como pude subvalorizar isto ao longo destes últimos 2 anos e meio é que não sei, ou melhor, até sei e já o expressei em cima. Por isso é que desde cedo admirei o Matheus Nunes - até chegar ao Liverpool, um desperdício imenso de talento neste purgatório que constitui os Wolves (qualquer dúvida, recomendo visionamento de um lance ocorrido aos 20 minutos da partida de ontem em Stanford Bridge), ele que tanto nos poderia ter ajudado até ao Mercado de Inverno - e o Pote, como hoje valorizo o Edwards ou o Morita, tudo jogadores de uma classe à parte. Mas depois há o Nuno Santos, que é sólido, fiável e competente. Eu sei, pode não ter a estética de um bólide italiano, mas é seguro como um familiar alemão. Falando de teutónicos, diria até que não há um jogador tão germano como ele no futebol português desde os tempos de Maniche. Senão atente-se: ele recebe bem, passa bem (até de letra), chuta bem e tem uma mentalidade vencedora. Ok, não é inventivo nos dribles, não deslumbra no 1x1, não se perde em rodriguinhos para a bancada e para quem confunda habilidade com técnica até pode passar despercebido. Mas numa equipa onde muitos se acham melhores do que verdadeiramente o são, dá sempre jeito ter alguém que é muito melhor do que o olho mal treinado pode observar. E isso é tão válido para o Sporting como para a nossa Selecção, que talvez precise de gente pouco aburguesada e ainda com muita fome de ganhar. Porque uma equipa campeã também se faz desta massa que lhe dá consistência. Por isso, será bom não esquecer que por detrás de cada Pirlo há um Gattuso, por cada Figo ou Zidane um Makelele, por cada Ronaldo um Casemiro. E essa é tanto a essência do futebol como da própria vida.  

 

Ontem ficámos a dever a vitória a Adán, mas também a Nuno Santos. Porque apesar de o espanhol ter sido um gigante entre os postes, foi a inquietação contra a moleza ou molenguice de um jogador que nos garantiu um segundo golo providencial. Sim, foi de moleza ou molenguice que se viveu no segundo tempo, e não pode haver campeões com esse espírito. Por isso a nossa chama foi ficando cada vez mais pequenina, quase se apagando quando Morita e Edwards foram mal substituídos, valendo-nos na parte final o Bico de Bunsen do Nuno Santos, um homem que parece sempre estar preparado para uma semana de campo a dormir numa tenda, a comer ração e beber de um cantil e a rastejar em cantos lodacentos por baixo do arame farpado. E como de arame farpado vamos estar sempre rodeados, que o diga mais uma exibição para esquecer do melhor árbitro internacional não reconhecido pela FIFA para os seus certames quadrienais, o Nuno Santos altamente recomenda-se. Tenho dito.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Antonio Adán

 

P.S. Gostei muito do St Juste (que até mostrou dotes de poder ser um bom substituto para o Porro), mas ainda anseio pelo dia em que o verei fazer os 90 minutos...

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01
Out22

Tudo ao molho e fé em Deus

A arte do Samurai


Pedro Azevedo

A bola cai perpendicularmente como que orientada por um fio-de-prumo. Espera-se um violento ressalto no solo, mas eis que encontra um pé que a aconchega como uma luva, a afaga com carícia e envolve num ninho que a protege de qualquer tipo de intrusão. Se este movimento encontra eco nas expressões de espanto na bancada, aguarde pelo que imediatamente se lhe seguirá: desse ninho provisório, a bola evade-se com um subtil toque de calcanhar por entre as pernas do predador que a cobiça - "taco" e "cano" em simultâneo - e encontra Pedro Gonçalves que lhe dá conforto e propósito e a anicha definitivamente entre as redes sob vigilância de um galo muito pouco madrugador. Já sabíamos que tínhamos entre nós o Pote de Ouro, mas ontem tivemos a epifania da existência da Galinha dos Ovos (Golos) de Ouro. Haverá melhor definição para a arte de Morita expressa em golos perante os Galos? Acreditam agora que Hidemasa é o super-herói, o Olivier Tsubasa desta manga ilustrada por Mestre Amorim? Só Vos digo o seguinte: por breves segundos tive a ideia de ver Sócrates, o filósofo da Democracia Corinthiana, e o Brasil de 82 em campo. E tudo graças a dois momentos seguidos de sortilégio protagonizados por Mr Hide, a que se poderia juntar um outro instante de génio (toque de calcanhar a pôr a bola jogável a 15 metros) que fez levantar as bancadas de Alvalade. Para além do seu golo, claro.

 

Depois de uma catarse destas que varreu o Gil do campo, é natural que o resto do jogo a pouco mais tenha obedecido do que ao cumprimento de uma mera formalidade. Ainda assim, destaque-se o inglório desperdício de inúmeras oportunidades de golo por parte dos nossos, num jogo que nos deu o vislumbre do que é um ponta de lança. Infelizmente, residiu no outro lado do campo... Quem esteve sempre do meu lado, bem juntinho a mim e animada com a arte que via a desenrolar-se no relvado, foi a minha filha mais nova, que assim fez a sua estreia em Alvalade. Um baptismo feliz, que é o que mais se pode desejar a uma criança neste longo culto de passagem de testemunho entre pai e filhos, que foi também um ritual de ligação entre a ficção technicolor dos desenhos animados do Oliver e Benji e a realidade ao vivo e a cores no solo sagrado de Alvalade (e não se notou a diferença). 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Hidemasa Morita. Destacaram-se ainda acima da mediania os seguintes jogadores: Nuno Santos e Ugarte. De nota ainda a exibição positiva de Marsá, em estreia absoluta no Campeonato, e novos indicadores animadores de Buscapoulos, um dínamo no meio campo leonino. 

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18
Set22

Tudo ao molho e fé em Deus

De volta à Liga... Europa


Pedro Azevedo

Cada vez que no miolo do meio-campo jogamos em inferioridade numérica de dois contra três é uma aflição e mais se nota a ausência de um jogador (Matheus Nunes) potente e capaz de quebrar linhas em progressão. Acrescente-se uma manta curta e a cheirar a mofo, a má onda do canhão da Nazaré, o pé direito cego de Trincão e a sorte (ou a falta dela, porque é bom não esquecer que o futebol é um jogo) e fica explicado o xeque-mate ontem sofrido no tabuleiro axadrezado.  

 

Com 2 médios incapazes de acenderem a luz no meio-campo (o Buscapoulos grego ficou no banco), um conjunto de jogadores globalmente pouco frescos (não deixa de ser paradigmático da nossa falta de dimensão física que o mesmo Tottenham que na terça-feira foi surpreendido por nós tenha também ontem despachado o Leicester por 6-2), um Esgaio com muita vontade e nenhuma arte, um Trincão que por duas vezes optou por uns rodriguinhos em vez de colocar a bola num isolado Pote - alguém diga ao rapaz o quão previsível se torna quando insiste em só fintar para fora - e pouca fortuna nos vários ressaltos ocorridos em ambas as áreas, o Sporting pôs-se a jeito para perder com o Boavista. Ainda assim, houve sempre Edwards, a nossa grande esperança na vitória. E o inglês não desiludiu, marcando até impensavelmente de cabeça após um cruzamento com letras maiúsculas saído da imaginação de Nuno Santos, um jogador que não gosta de perder nem a feijões e que por isso tanto custou ver poupado ao penoso final de jogo da nossa parte. Mas não chegou. O sortilégio de um pontapé indefensável de Bruno Lourenço e uma precipitação inaceitável de Esgaio sentenciaram o jogo. 

 

A culpa desta derrota é incerta. Há quem a associe tanto ao Petit como ao Big Bang e à instantânea criação de supostas estrelas. Ao Bosão ou ao Gozão do Higgs. E até ao Pinheiro manso ou ao bravo (assim como assim, vamos acabar o campeonato a jogar a pinhões). O que é certo é que à sétima jornada corremos o risco de ficar a 11 pontos da liderança e a 9 pontos da vice-liderança, para lá de estar confimado que o FC Porto leva-nos já meia-dúzia de avanço. Assim sendo, o melhor é pensar já em vender outro Matheus Nunes (suspeito que será uma metade do Edwards, uma versão ainda com mais baixo centro de gravidade). E assim sucessivamente, ano após ano, a fim do Balanço ficar positivo e compensarmos a ausência na Champions, completando-se assim um ciclo "virtuoso" em que vendemos indo à Champions para depois vendermos a dobrar ou a triplicar por não irmos à Champions. Dizem que é o negócio. (O negócio deveria libertar verbas para o futebol, não o futebol libertar verbas para o... negócio.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Edwards

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13
Set22

Tudo ao molho e fé em Deus

Trio dinâmico


Pedro Azevedo

O Rúben já se havia afirmado como entusiasta de um trio de duendes que alegadamente saberiam onde encontrar o Pote de Ouro. Mas nós, longe de vislumbrarmos o arco-íris, insistíamos na necessidade de um ponta de lança daqueles à antiga. O "presunto" flaviense parecia dar razão a quem contestava os fundamentos da decisão do treinador, porém o jogo contra as águias de Frankfurt tinha reforçado a opção de Amorim. A prova dos 9 estaria entaria assim reservada para a recepção ao Portimonense: é que uma coisa é jogar no contra-pé, outra seria ter de assumir o jogo e não ter um poste, um farol de referência no centro do ataque. Chegou então o jogo, e com ele a clarificação que todos nós procurávamos. E o resultado foi eloquente: Rúben Amorim 4 - Treinadores de Bancada 0, uma goleada! Temo porém que o "campeonato" ainda não tenha terminado. É que, parafraseando o próprio treinador, isto vai ser jogo-a-jogo. 

 

Não há muito a dizer sobre um jogo onde o Golias do Campo Grande aniquilou completamente o David da Praia da Rocha, uma vitória do liberalismo futebolístico (se até há o político, depois do social e económico...) - "laissez faîre la nature" - implementado por Rúben Amorim para o ataque às balizas adversárias. Sem classificação ou uma ideologia que obedeça a cânones, o Amorim montou um trio de hiperactivos (financeiros), de saltimbancos, de nómadas que ora vão para dentro, ora vêm para fora, baralhando qualquer rótulo que lhes queiram dar. A coisa não parece real, e para adensar mais essa irrealidade por detrás do trio o Rúben Amorim posicionou um herói das Mangá, o nosso simpático Oliver Tsubasa, um craque com tanta técnica que até parece extraído da banda desenhada nipónica. Todavia, aparentemente, funciona. Que o digam os davides algarvios que, sem norte (o que para quem é do sul não é de estranhar) e à falta de outros argumentos, se fartaram de fisgar as canelas dos nossos jogadores até os deixar amarelados (cortesia do Senhor Árbitro de serviço)...

 

Para piorar o cenário dos algarvios, o novo Trincão não perdoa uma maçã. Quer dizer, durante uns tempos eram mais caroços ou maças reineta, mas agora descobriu as Golden, o que já se sabe combina com o ouro que há no Pote. Para além de ajudar a digerir melhor os resultados, sempre do agrado dos adeptos. Por isso, o Trincão até poderá não ser o tal ponta de lança, mas a ponta da sua lança visa uma maçã que nem um Guilherme Tell. Poderá ele volta a fazê-lo contra os galos do Tottenham? Vamos ver quem, entre um Trincão e os galos, dará mais bicadas, sendo certo que os galos geralmente acordam mais cedo (daí parte do seu favoritismo, mas se conseguirmos evitar que marquem primeiro...).

 

Tenor "Tudo ao molho...": Trincão

TrincaoRUI4810.jpg

05
Set22

Tudo ao molho e fé em Deus

Longa-amarelagem


Pedro Azevedo

O meu nome é Manuel Oliveira e tal como o meu homófono realizo longas-metragens, ou melhor, longas-amarelagens (já lá vou!). Vocês nem imaginam as fitas que eu faço... Mas tudo começa na direcção dos actores: é que o meu maior fascínio é  poder dizer "corta" através de um silvo. No fundo, especializei-me em apitagens a metro que visam o longo-prazo, a reforma. A ver se entro no "CAhiers du Cinema". No entretanto, vou aperfeiçoando a minha obra-prima. Coisa de mestre, mais concretamente de mestre-de-obras e sua prima. É que me falta em talento para um "Aniki" o que me sobra em fôlego para um... apito. Dito isto, na Sexta o dia foi bem produtivo. De tal forma que não houve viv'alma que não saísse do relvado amarelada. (E não foi só do equipamento.)

Hehehe(!), depois não digam que eu é que tenho maus-fígados. [Notas soltas de um jogo onde o Elevador de St Juste nem precisou de subir para ser eficaz e o Edwards sent(enci)ou o adversário.]

28
Ago22

Tudo ao molho e fé em Deus

Desarmados contra os defensores de Chaves


Pedro Azevedo

O Sporting das últimas décadas é um bocado como os elevadores, umas vezes para cima, outras para baixo. Esta época parece estar para baixo e para o ilustrar até recorremos recentemente ao Elevador de St Juste, que, já se sabe, está em Baixa, tão em baixa que são mais às vezes que está em manutenção do que aquelas em que está no activo. Assim, não admira que acabemos à Bica. O estranho disto tudo é que nas duas últimas temporadas parecíamos ter estabilizado num patamar superior, afinal aquele mais fiel aos pergaminhos do nosso centenário clube. Mas, infelizmente, o nosso destino assemelha-se ao de Sísifo e acabamos sempre a viver num sem-propósito, subindo até ao topo da montanha para depois ingloriamente enviarmos o pedregulho ladeira abaixo, chame-se o pedregulho Matheus, Palhinha ou Nuno Mendes. E assim sucessivamente, num ciclo vicioso e viciante que curiosamente está absolutamente interiorizado e é aceite pelos nossos adeptos. Qual alegoria da caverna, estes vivem na cegueira de um clube que é essencialmente uma trader de jogadores que ao fim de semana tem a maçada de ir a jogo. Uma inevitabikidade, dizem-nos, como se a vida das empresas de sucesso não fosse a procura da maximização dos proveitos. Ordinários, que no futebol, já se sabe, até abundam...

 

Algo está mal quando uma equipa perde o trinco e arranja o único Trincão para tentar arrombar as Chaves do Areeiro, o que obviamente é uma contradição nos termos. O meu medo é que tenhamos atingido a Silas Season. Depois do Keynesianismo-Keyzerismo (o período em que a aposta na Formação não contemplava jogadores da... Formação) e do Marxismo-Leoninismo (do Pontes, com a equipa toda sub-virada para a esquerda, a entortar como o Titanic), todos vimos o período de Ruben Amorim como providencial. Nele, primeiro a Direcção depois nós todos, apostámos as fichas na senda do êxito desportivo. E ele disso tem sido amplamente merecedor. Só que à primeira contrariedade parece que nos esquecemos do que deveria ser o nosso objectivo e começamos a gerir o "day after" do insucesso, cada um aligeirando as suas responsabilidades e procurando o bode expiatório no outro. Contudo, como nas tragédias gregas ou nas farsas de Aristófanes, tal não ocorre em campo aberto. Não, há toda uma encenação prévia, um por baixo do pano como diria o Ney Matogrosso, onde se arquitectam essas estratégias em que quem representa são uns amanuenses que com zelo se dedicam à cópia. Sim, porque há quem faça valer a pena a pena com que escreve. Enfim, (in)dependências... 

 

No entretanto, ontem lá voltámos ao sistema dos avançados móveis. A nossa paixão pelo móvel é uma coisa tão enternecedora que um dia destes ainda mudamos a sede para Paços de Ferreira. Ou isso, ou tornamo-nos pontas de lança do IKEA. Por falar em pontas de lança, o nosso único que conta é muito bom sem bola, dizem-nos alguns com olhos doces, seguros de que seria melhor que os ouvíssemos quando nos dizem "vem por aqui" (olá, José Régio). O único problema é que as regras do futebol actual estranhamente ainda não contemplam golos sem a bola entrar numa baliza, o que talvez recomende alguém que não seja tão bom sem bola mas que seja minimamente competente com ela ou que, pelo menos, a saiba fazer passar pelo risco de baliza. O problema é que não há dinheiro, dizem-nos. Todavia, um cartão de crédito pode arrombar uma boa fechadura. Que o diga a seita do olho vivo. E seita do olho vivo é coisa que não falta no nosso futebol. 

20
Ago22

Tudo ao molho e fé em Deus

Campeões de inferno (do mercado)


Pedro Azevedo

Sem quem transportasse a bola a meio campo, consequência do tributo ao dízimo, o Sporting abusou da troca de passes, o que é coisa para ter custado uma fortuna em intermediáções do agente Mendes. (A única boa notícia da noite foi o Porro ter mostrado que não tem passe.)

 

O jogo do Dragão opôs um clube sempre assediado pelo fair-play da UEFA a um novo-rico do futebol português, pelo que só poderia ter terminado em goleada do Sporting ao FC Porto. Ora, somem lá comigo, por favor: 37 M€ do Nuno Mendes + 20 M€ do Palhinha + 5 M€ do Tabata + 45 M€ do Matheus Nunes = 107 M€. Do outro lado umas vendazinhas pelas cláusulas de rescisão (baixas) do Vitinha e do Fábio Vieira. Resultado final: uma goleada das antigas. Espanta-me porém que em vez de ver leões a comemorar no Marquês, o sorriso esteja, sim, estampado no rosto do Marques. Não percebo a que campeonato está gente liga... O meu, já sei, é a Premier League. 

Não percebo também o escândalo que se faz por se abdicar do melhor jogador antes de uma visita a casa do campeão nacional. Parece de gente sem memória. Tão desmemoriada que se esquece que se abdicou de 37 campeonatos nas últimas 4 décadas. É por isso normal abdicarmos de mais um. O desvio-padrão à normalidade das coisas chama-se Ruben Amorim. Dizem que ele faz de CEO, de CFO, de responsável pelo Marketing ou Comunicação e tudo o mais no clube, mas tal não é verdade. O que ele é na realidade é um adepto. Daqueles à antiga. E por isso quer ganhar no campo, o que contrasta com o novo-adepto-novo-rico que esfrega as mãos de contente com a nossa conta DO. Mete dó, não é? 

Gosto muito do Ruben, mas há uma coisa que me incomoda: se é para só ter um ponta de lança suplente e se esse ponta de lança se chama Rodrigo Ribeiro, então por que razão o miúdo não joga? Alguém está a ver o Slimani ser opção ao Paulinho e na ausência deste o argelino não ser titular? Pelo menos escusávamos de passar 90 minutos a procurar o jogo aéreo do... Edwards, esse calmeirão de metro e meio e envergadura de vespa. 

Após uma semana marcada por um pecado original, não foi de estranhar que o Adán estivesse no centro das atenções por acções de proporções bíblicas. Enfim, como o povo sabiamente diz, o que nasce torto (gestão do mercado) tarde ou nunca se endireita. Por contraste, o Diogo Costa tirou 3 golos feitos ao Sporting, e isso no final fez toda a diferença. 

Tenor "Tudo ao molho...": Morita (foi o apagão após a sua saída) 

14
Ago22

Tudo ao molho e fé em Deus

Pote renascido e um Matheus para a história


Pedro Azevedo

Fitar o alvo, olho director apontado à mira, culatra puxada atrás e pum(!), golo. Não sei se o golo de Matheus Nunes valeu o bilhete ou se o remate em si foi um bilhete (de despedida?), o que sei é que levou um selo que o fez chegar ao seu destinatário, ainda que a violência do impacto o tenha feito saltar da "caixa do correio". 

O golo de Matheus foi o momento lusco-fusco de um jogo disputado ao entardecer, um render da guarda entre o dia e a noite, como se o pôr-do-sol anunciasse uma iminente saída do luso-brasileiro, muito pretendido em Inglaterra e a reservar-se para um City ou Liverpool. Se assim foi, a despedida ocorreu em beleza. Obrigado, Matheus, especialmente por todo o respeito que sempre demonstraste pela grandeza do Sporting. 

 

Mas o jogo não se resumiu ao golo de Matheus. Não, valeu desde logo pelo trio dinâmico da frente do nosso ataque, com Edwards e Pote en grande nível e Trincão à procura da melhor forma. Pedro Gonçalves que marcou 2 golos, esbanjando outros 2 pelo caminho naquele seu jeito em "souplesse" que às vezes roça o displicente. Todavia, é essa frieza, essa sustentável leveza do seu alter-ego Pote, que faz de Pedro Gonçalves o matador que é, disputando jogos a sério como se estivesse numa peladinha entre amigos. 

Uma palavra também para a nossa defesa, que ganhou com o comprometimento, concentração e atitude de Neto. O que demonstra que nem sempre é preciso ter uns pés de ouro, nomeadamente quando o coração é grande e a cabeça está no lugar certo (com a equipa). 


E assim terminou a première do Dragão, um ensaio geral para o que iremos encontrar no Porto. Onde também não haverá Paulinho- o drama, a tragédia, o horror... - , mas talvez ainda haja Matheus Nunes, uma espécie de milagre da multiplicação dos peixes (custou 1 e pode sair por 60 milhões), ou não tivesse passado toda a sua adolescência na vila piscatória da Ericeira.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pote

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