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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

02
Mai21

Tudo ao molho e fé em Deus

Poder de síntese


Pedro Azevedo

O Jovane ontem jogou vinte e oito minutos. Tanto tempo em campo na vida do Jovane Cabral é objectivamente um luxo asiático, um motivo de abertura de telejornal e de parangonas de tablóide, pelo menos a avaliar pelos 13 jogos anteriores a contar para a Liga em que jogou menos tempo que isso ou não foi sequer utilizado (no 14º, contra o Benfica, pisou a relva durante 29 minutos). Aliás, se analisarmos as estatísticas, só por seis vezes o cabo-verdiano foi utilizado mais tempo do que ontem, cinco delas como titular, sendo que nunca fez um jogo completo a contar para este campeonato. Porém, no somatório de todas as competições, o Jovane é o nosso segundo melhor marcador, só superado pelo Pedro Gonçalves. Tal deve-se ao seu poder de síntese. Metam o Jovane na barra do Gambrinus e em 28 minutos, sob a supervisão arbitral do excelente senhor Brito, ele terá tempo de despachar uns croquetes, desfazer a empada de perdiz e ter a digestão completa em menos de meia-hora. No campo é igual. Para isso contribuem diversos factores. Em primeiro lugar, ele é claro na linguagem que emprega, não se perde a meio do caminho ou corre o risco de entediar, confundir ou desagradar quem o está a ver. Em segundo, é objectivo, vai vertiginosamente direito ao assunto e traduz em golos e assistências a razão da sua existência. Em terceiro, omite informações desnecessárias: o Jovane não anda por atalhos e não se ilude com rococós efémeros e nada eficazes. Em quarto, não tem medo de ser mal-interpretado. Ele vai sempre contra o adversário que se interpuser face à baliza, e ganhando ou perdendo a bola fá-lo-á uma e outra vez. Finalmente, ele desenvolveu uma capacidade tal de ir lapidando a sua linguagem que 12 minutos contra o Porto para a Taça da Liga são mais do que suficientes para deixar uma marca indelével da sua passagem pelo relvado. 

 

Até à entrada do Jovane em campo, o Sporting caracterizou-se pela capacidade do Bragança de encontrar o Pote entre-linhas, seguida por assistência para o Paulinho se esmerar na arte de perdoar em frente do golo, especialidade onde a sua cotação não poderia estar mais em alta. Tudo o resto foram inuendos sem objectividade nenhuma, formas incipientes encontradas para disfarçar a nossa verdadeira prioridade no jogo. Até que entrou o Jovane. A partir daí um vendavel se soltou, uma onda se alevantou, um átomo a mais se animou (obrigado, José Régio). Assim, logo de entrada isolou o Porro na direita, mas o Paulinho trocou os pés na hora de dar o melhor seguimento à jogada. Não satisfeito, aproveitou uma boa simulação do nosso ponta de lança e deixou o Porro na cara do golo. Depois, pegou na bola no meio-campo e arrancou tão potentemente para a baliza que fez expulsar o pobre do Alhassan, única forma de evitar a jogada de 2x1 que se perspectivava. Mas a "pièce de résistance" ainda estava para vir: primeiro trocando as voltas a um defesa e colocando com precisão a bola na cabeça de Feddal para o golo inaugural, depois sprintando e ganhando a frente a um defesa nacionalista até se isolar e ser por este, já grogue (bebida típica de Cabo Verde), derrubado dentro da área. Na conversão da penalidade não fez por menos: bola na gaveta, no ângulo, indefensável. Tudo natural, porque para o Jovane foi só mais um dia no escritório. No próximo jogo lá voltará ao banco, de onde assistirá, sem um queixume ou dor de alma, à exibição dos seus colegas. Se a coisa estiver a dar para o torto, quem sabe poderá jogar 1, 2 ou 3 minutos. Ganhando nós, lá estará como sempre a festejar efusivamente com a restante equipa no relvado. Em síntese, o Jovane é impagável, não tem preço, deve ficar connosco para sempre. Porque, se é verdade que o seu tempo mede-se em fracções irrisórias, essas parcelas ínfimas são as melhores das nossas vidas de leões. 

 

A 4 jornadas do fim, o Sporting lidera com 6 pontos de avanço. Com apenas 12 pontos em disputa, escusado será dizer que ganhar em Vila do Conde será muito importante. Conseguindo-o, assistiremos de cadeirão ao Clássico, algo que seria invulgarmente tranquilo para um Sportinguista. No entretanto, continuemos a testar a máquina. Sem dispositivo para cortar nas rotações, ontem a verificação começou mais cedo, com o futsal, modalidade que deveria ser acompanhada por um desfibrilador ou só vista em diferido e em slow-motion. Temo porém que tenha de ser encontrada uma solução mais efectiva no futuro. Proponho assim que o hino da Maria José Valério e o "Mundo sabe que..." passem a vir acompanhados de uma pequena palestra do Prof. Fernando Pádua, assim a modo de instruções de bordo para os solavancos que a turbulência poderá provocar na máquina. Tocaria nos nossos corações...

 

P.S. Ah, e por falar em linguagem, aquele manuelmachadês que consistiu em comunicar contra tudo o que mexesse de verde-e-branco foi uma afirmação semântica digna de figurar no Dicionário Canelas do futebol português. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Jovane Cabral. Pote foi outro dos destaques. Porro parece ter melhorado face a desempenhos anteriores. Max teve uma intervenção decisiva.

jovane nacional.jpg

02
Mar19

Cântico Verde


Pedro Azevedo

No futebol, o Sporting entrou num "bear market" (ciclo recessivo) há mais de 30 anos. Por vezes, algumas sementes de recuperação criam a ilusão de que o clube entrou num novo ciclo, mas há sempre aquilo a que um dia um ex-presidente da Reserva Federal americana (Alan Greenspan) chamou de exuberância irracional a puxar-nos para baixo. 

 

Nos anos 80, o Miguel Esteves Cardoso escreveu um livro notável, em jeito de sátira, sobre os portugueses. Chamava-se "A Causa das Coisas" e expunha a alma lusa nas suas contradições e idiossincrasias. Não sei o que o MEC hoje diria sobre nós enquanto povo e sobre os sportinguistas em particular, mas tenho por certo que os meus consócios deste tempo se preocupam muito mais com as coisas do que com as causas, pelo que uma reedição do livro dedicada a nós dever-se-ia chamar de "As Coisas da causa", assim mesmo, com causa com "c" pequeno, tal o desprezo que actualmente mostramos pela nossa identidade ou cultura corporativa, que deveria ser a razão de aqui estarmos.

 

Um clube de futebol como o nosso - que é muito mais do que só futebol e deveria ser muito mais do que um clube - não é um circo e, como tal, nele não deveriam coabitar trapezistas, contorcionistas, ilusionistas, palhaços ou adestradores de leões (este último, vulgo plantar de "Comunicação"). Também não deveria ser um clube de danças de salão, embora por exemplo o tango tenha um compasso binário semelhante à tanga do futebol português, onde o Sporting está condenado a perder mais do que ganha. Aliás, na actual conjuntura da Champions, a dança é acompanhada ao som do bandoneon (pequeno acordeão argentino usado no tango), em que os clubes que asseguram a fase de grupos estão num lado do fole e quem não o consegue fica no lado diametralmente oposto, estando o instrumento esticado até ao limite e assim proporcionando enormes assimetrias "rítmicas". 

 

Por tudo isto, hoje ouvimos dizer que somos um "high yield", um elevado risco, mas também elevada perspectiva de retorno caso não haja "default" (incumprimento), para um investidor, coisa que era capaz de deixar o Visconde de Alvalade à beira de um ataque de nervos se voltasse ao mundo dos vivos. Do clube "tão grande como os maiores da Europa" para o "senhor Orlando e os colchões da academia", rotação de cento e oitenta graus de uma peculiar forma de enaltecimento de uma instituição (um nobre até pode ficar sem dinheiro, não perde nunca é a dignidade). E que Instituição!!!

 

Precisamos como nunca de voltar às origens, de procurar as nossas referências. Os mais novos e os rapazes da minha geração que me desculpem, mas este é um tempo de nos sentarmos e ouvirmos os menos jovens, aqueles que são tão pouco rendibilizados nos nossos dias. De recolhermos lições das suas histórias, inspirarmo-nos nas suas memórias, bebermos da sua experiência, vivenciarmos e celebrarmos o sportinguismo, entendermos de onde vinha aquela mística ganhadora. Um clube como o Sporting precisa deles como nunca, como precisa de todos, não pode funcionar em circuito fechado. Apostar no que é nosso e feito de (e por) nós, em vez de importar "novo riquismo". Quando temos dúvidas sobre um caminho, nada como recuar às origens de tudo. Tal permitir-nos-á, como diria José Régio, saber por onde não ir, saber para onde não ir. É que tantos anos de desilusão provocam erosão e nos nossos olhos já há ironias e cansaços. Mas atenção, ao contrário do enunciado pelo poeta, não cruzamos (nem cruzaremos) os braços, porque este cântico pode parecer negro mas é verde. De esperança!

 

P.S. Qualquer pessoa sabe que o dinheiro custa muito a ganhar, nomeadamente se for obtido de uma forma legítima, sem batota. Já perdê-lo, é fácil. Basta gastá-lo, ou investi-lo sem critério.

 

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