Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

18
Abr21

Marxismo-Leoninismo


Pedro Azevedo

Não sei se o Leitor se apercebeu deste facto bastante incomum no futebol mundial, mas o Sporting apresentou-se de início em Faro com uma maioria de jogadores canhotos. Ora então anote lá: Antonio Adán, Gonçalo Inácio, Matheus Reis, Nuno Mendes, Daniel Bragança e Paulinho. Não sei se tal já havia ocorrido alguma vez na nossa história, ou mesmo nos anais do futebol mundial, mas por curiosidade aqui fica a devida nota acompanhada por título espirituoso a dar conta da primazia da esquerda no onze do Sporting.

11
Mar21

Lost in translation


Pedro Azevedo

Esta CI da Liga denomina-se Comissão de Instrutores ou Comissão de Inquisidores?

 

Tendo em conta a observância em média de um evento por mês relacionado com o Sporting, não sei se devo circunscrever este tipo de sinal que a CI ciclicamente transmite ao Conselho de Disciplina da FPF no âmbito da convolação ou da... ovulação. Temo porém que os actos não estejam a ser praticados em segurança e que venham a traduzir-se em abortos (jurídicos) quando devidamente apreciados pelos tribunais comuns.

06
Fev21

Tudo ao molho e fé em Deus

A Revolução


Pedro Azevedo

Caro Leitor, do Ilhéu de Monchique no Atlântico até Penha das Torres onde se avistam os primeiros raios de sol, uma Cortina de Ferro desceu sobre Portugal. Comunico-vos assim que o momento é grave e está a mexer com as correlações de poder que sempre conhecemos. Para que o entendam, na sua origem parece estar a Muralha de Aço resultante da união entre um pasteleiro (Matheus Nunes) e um operário (João Palhinha), uma coisa de fazer corar de inveja qualquer Vasco Gonçalves ou projecto de Geringonça neste país à beira-mar plantado. E por falar em à beira-mar plantado, tudo isto é sublimado pela Pérola do Atlântico (Pedro Gonçalves), um perigoso subversivo sempre disposto a desafiar a ordem instituída. Sem esquecer aquele que, reza a lenda, numa das suas expedições Fernão de Magalhães registou ter avistado quando viajando de leste a oeste: um monte muito peculiar a que deu o nome de "Monte Vi Eu" (declinado em Montevidéu), o imponente Sebastián Coates. Estejamos pois atentos, porque há que por todos os meios fazer conter esta revolução.

 

O Churchill que me desculpe por ter trocado o Báltico pelas Ilhas e o Adriático por Bragança, mas o pânico que se faz sentir nos nossos rivais justifica a truncagem. É como se tivessem sido tomados de surpresa por este movimento que se formou na clandestinidade e agora está progressivamente ("jogo a jogo") a tomar o poder. Não só no Continente, mas também nas Ilhas. Diga-se entretanto que todas as tentativas de o conter se têm revelado infrutíferas. Disso são aliás ilustrativos o espancamento e a tortura do apito a que ontem, na Madeira, Matheus e Palhinha, respectivamente, foram submetidos, tendo daí resultado uma eficácia nula para os propósitos de quem com tanto afã pretende manter o "status quo". Já o Pote, começou por escapar através de um túnel até ao mar e a última vez que foi visto estava a fazer baloiçar as redes do Amir, que a pescaria foi de alto nível. Quem ficou até ao fim a proteger a retirada em glória foi "El Capitán Barba Rossa" (Coates), um homem que se vem revelando uma fortaleza impossível de expugnar. Desta vez com a ajuda de um marujo que se julgava já reformado, um tal de Antunes ou Vitorino, que mostrou ainda estar para as curvas, ou para os (bom)bordos que envolvam os melhores caminhos marítimos. Ambos apoiados pelo jovem marinheiro Inácio, que do cesto da gávea vislumbrou mais longe.

 

Portuguesas e portugueses, continuaremos a dar notícias sobre estes dias turbulentos que ameaçam a paz e a ordem no nosso Portugal. A fazer fé nos rumores que circulam, à hora em que Vos escrevo as tropas do regime estarão reunidas de emergência na sede do Conselho de Disciplina. O motivo: procurar decapitar a intentona. É a última esperança. Pouco ainda se sabe sobre esta instância, mas Castigo Máximo obteve a informação de a futura acção estar assente num documento. A única coisa que podemos transmitir é que tem oito pontos. Sente-se o desespero...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pedro Gonçalves

 

P.S. Entretanto, parece que o Benfica de Jesus e de Vieira foi empatado por um Tanque nos Paços de Ferreira. (Ou como um treinador de meia-dúzia de milhões tem o desempenho de um outro que é obrigado a usar um boné que mais jeito daria na Luz para esconder os melões.)

pote marítimo.jpg

02
Fev21

Tudo ao molho e fé em Deus

O Evangelho segundo Matheus


Pedro Azevedo

Eis o que era verdade no início da época: o Benfica partia com 100 milhões de euros de avanço, ia jogar o triplo e estava 10 anos à frente da concorrência. Não sei se os deuses andarão loucos, mas recordo-me de Pimenta Machado, que até é benfiquista, um dia haver avisado que, no futebol, o que hoje é verdade, amanhã poder passar a ser mentira. Não surpreende assim que tenham bastado 6 meses para o antigo presidente do Vitória de Guimarães voltar a provar o seu ponto (ou três). É que ontem, após ter perdido com o Sporting, o Benfica recuou vertiginosamente de 2031 até 1859, ano em que Darwin escreveu a sua Teoria da Evolução, publicação que a entourage de Vieira precisa rever com a maior urgência. [Nesse transe provavelmente envolvendo um(a) girafa (Luisão), que ninguém explica tão bem assim Darwin.]

Como se este Regresso ao Passado não tivesse sido já suficientemente doloroso, tal coincidiu com o dia em que o rival e líder Sporting provou também gastar milhões num jogador. E com o quê contrapôs desta vez o Benfica? Bom, teve de se contentar com o Ficanov (segundo o meu enviado-especial à Ucrânia, pronuncia-se "fica a nove"), coisa para ter deixado Vieira com um traumatismo "ucraniano"... [Também pode ter sido da Galinha (agora) à Kiev estar estragada.]

 

Desde o início do jogo, o Benfica procurou encaixar-se no Sporting, recorrendo até a 3 centrais para que a adaptação fosse mais perfeita. Porém, se defensivamente as águias montaram uma linha de 5, ofensivamente o Vertonghen encostava à lateral esquerda e o Grimaldo surgia como joker solto a tentar beneficiar da fixação que Cervi provocaria em Porro. Com esse sistema, o Benfica pretendia não só travar as investidas ofensivas do lateral/ala leonino como também perturbar a definição das funções defensivas deste e de Neto e criar aí envolvências que suscitassem uma superioridade numérica numa zona do terreno já de potencial perigo. Acontece que o Sporting de Rúben Amorim nunca defende a 5 quando a bola é metida nas alas, na medida em que o lateral/ala do lado da bola logo sai ao encontro dela, pelo que amiúde Porro ia ao encontro de Grimaldo e Neto basculava até à lateral para vigiar Cervi. E quando os dois partiam em simultâneo para cima de Porro, Matheus ocorria e evitava a criação da tal superioridade numérica. Com o tempo, desfeito o elemento surpresa que Jesus engendrou sem o efeito positivo do colhido no Dragão (Nuno Tavares e Grimaldo sem posição claramente definida baralharam as marcações portistas), o Benfica acabaria por desistir desta estratégia, procurando outros caminhos por via, primeiro, da substituição de Cervi por Taarabt e, depois, da troca de Grimaldo por Nuno Tavares, tentando então maior predominância no centro do terreno. 

 

Se a primeira parte terminou com uma única grande oportunidade de golo incrivelmente desperdiçada por Neto e mais acções desequilibradoras do Sporting através de Pote e do diabólico Tiago Tomás (sacou dois amarelos durante o jogo a defesas do Benfica em jogadas que de outra forma terminariam com ele isolado para a baliza), no segundo tempo o Benfica começou a aparecer mais perigoso na frente. Todavia, tendo sido os seus avanços bem contidos por Matheus (mais tarde também por Palhinha) e por uma defesa de betão, ainda assim, as melhores oportunidades foram do Sporting: primeiro numa arrancada de TT que, nada egoísta, serviu Pote para um remate que ficou prensado em Weigl; de seguida, numa brilhante investida de Jovane, que substituíra um pouco feliz Nuno Santos, culminada em remate deflectido de Pote que quase surpreendeu o atento Vlachodimos; depois, através de Palhinha (troca com João Mário) cujo remate falhou o alvo por escassos centímetros. 

 

O jogo caminhava para o fim, os nossos mais perigosos TT e Pote, esgotados, já haviam saído e pensei que o jogo terminaria a zeros. Adicionalmente, Bragança estava em campo ainda não há 30 segundos e aparentemente a sua troca por Pote significaria um pouco mais de contenção. Mas eis que surge mais uma tentativa de exploraçao da profundidade, Tabata em esforço e com o calcanhar leva a bola para a frente, Jovane baila já na área e cruza, como tantas vezes repetido em laboratório a bola vai de costa a costa à procura das costas do lateral adversário, Porro ocorre e centra, Vlachodimos soca como pode e Matheus aproveita o ressalto e marca. Estavam decorridos dois minutos do tempo de compensação, três que mais pareceram uma eternidade ainda haveria com que sofrer, mas a vitória, justíssima, já não fugiria. Afinal de contas, ganhou a equipa que tinha o sistema enraizado e rotinado e não aquela que improvisou e mudou para este específico jogo. Tudo normal, portanto, que esta coisa de génio da lâmpada acontece essencialmente em filmes (de série B).

 

Com Jesus indisponível, o Benfica recorreu a Deus, só faltando o Espírito Santo de outros tempos para completar a Santíssima Trindade. Todavia, o milagre não aconteceu e o "Evangelho" acabou por ser escrito segundo Matheus (5:6): "Felizes (Bem-aventurados sejam) os que têm sede e fome de justiça, porque eles serão saciados". (A propósito da injusta penalização a Palhinha que permitiu a Matheus assumir a titularidade, com um obrigado sentido a Fábio Veríssimo.) 

 

Quem deve estar a fazer horas extraordinárias na Luz é o "anjo" (João) Gabriel, porque os tempos estão difíceis e tal não deve ser simples para um porta-voz da boa nova aos benfiquistas... De forma que, como as coisas estão, talvez seja melhor o Jesus desistir de jogar o terço e passar a rezar o triplo, ou então efectivamente começar a jogar o triplo e rezar o terço à espera que tal ainda venha a ser suficiente. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": O "Menino do Rio" Matheus Nunes. Tiago Tomás seria a alternativa óbvia, mas toda a equipa (incluindo os menos inspirados, mas igualmente transpirados) funcionou como um bloco coeso e acreditou na vitória até ao fim. No final, venceu quem teve mais fé, o que não deixa de ser uma ironia atendendo a quem estava do outro lado. O caso Palhinha? Escreveu-se direito por linhas tortas. Aí Leões!!!

 

P.S. Tanto se falou de arbitragem esta semana que é justo reconhecer que Artur Soares Dias esteve em bom plano. Com um senão: amarelou prematuramente Gilberto e Tiago Tomás por "bocas", o que me pareceu desnecessário, acabando depois por ter de contemporizar com uma falta cometida pelo mesmo Gilberto sobre Nuno Mendes que seria um óbvio segundo amarelo e concomitante expulsão (roçar de pitons no gémeo, deslizando posteriormente na direcção do pé e colocando em perigo evidente a integridade física do nosso jovem defesa, o qual acabou atingido no tendão de aquiles e tornozelo).

matheus nunes benfica.jpg

27
Jan21

Tudo ao molho e fé em Deus

O Gozão de Higgs


Pedro Azevedo

Ontem, no Bessa, confirmou-se que este Sporting é muito forte na transição. Tão, tão forte que, tendo entrado no campeonato como "underdog", chegou ao tabuleiro axadrezado com indícios de cão-peão, uma importante evolução na cadeia alimentar. Ainda assim, não suficiente para se ver livre do bispo, que mexe-se de forma enviesada. E, se o cão late, o bispo ladra, o peão, que anda a direito, acaba sempre por ser comido. 

 

O que sofre um Sportinguista não vem descrito na Bíblia. E depois ainda há o Sporar, suspeito de causar taquicardias a um monge tibetano. Por isso a melhor estratégia é fazermos como o Professor Cavaco e nunca assumirmos nada: ah e tal, vamos só ali à Figueira fazer a rodagem, e quando derem por nós estamos a sair de lá entronizados. Tal nunca foi possível com Jesus, que é sabido ter amaldiçoado a figueira (Mateus 21: 18-22), mas pode ser que aconteça com o Rúben. Até aposto que ele anda a ler a biografia de Aníbal e tudo. Se eu estiver certo, a sua rodagem será o "jogo a jogo". E, se no fim vencer, será menino para deixar de "trombas" o Conceição. Seria do car(t)ago! Quanto a JJ, ficaria com o triplo da azia.

 

Para tentar contrariar o 3-4-2-1 do Sporting, o Boavista dispôs-se num 5-3-2. A ideia de Jesualdo Ferreira era povoar o mais possível a defesa, precavendo a entrada desde trás dos interiores leoninos, não deixando porém de ter vantagem numérica no miolo do terreno. Só que Matheus e João Mário foram variando inteligentemente o centro do jogo e a postura defensiva dos do Bessa convidou Nuno Mendes e Porro a montarem um acampamento à entrada da área do Boavista. Não surpreendeu assim que, após um curto período de estudo mútuo, o Sporting desatasse a criar oportunidades de golo. E até marcou à primeira (Nuno Santos), embora depois tenha tido oportunidades de primeira que esbanjou por Sporar, Jovane e João Mário. Atrás a coisa esteve tranquila, tendo o lance mais perigoso criado pelos boavisteiros pertencido a Neto, jogador que continua a mostrar que faz bom balneário tanto fora como dentro do campo, desta vez altruisticamente permitindo a um enregelado Adán brilhar.  

 

O segundo tempo começou na mesma tónica. O Matheus roubou uma bola e com uma chicuelina tirou dois do caminho. De seguida, tocou no Nuno Mendes, que deu mais à frente no Nuno Santos. Bola para um lado, jogador a fugir pelo outro, num jeito nada católico para um axadrezado, o Santos apareceu solto na grande área. E deu de bandeja ao Sporar. O que a aconteceu a seguir é difícil de explicar, pese embora tenha vindo a ser objecto de estudo pormenorizado do "Tudo ao molho...", recorrendo-se à ciência - Princípio da Impenetrabilidade da Matéria - , ou até ao sobenatural - holograma de um ponta de lança morto como goleador - para o tentar compreender, continuando a ser um mistério a forma como a bola insiste em perpassar o esloveno como se do vazio se tratasse. Quer dizer, de vazio somos nós cientificamente quase 100% feitos, mas depois há um campo magnético que liberta uma partícula (dita "de Deus") que faz com que o nosso corpo se adere como uma tela esponjosa e ganhe uma massa. Ora, aparentemente, se o nosso corpo sim, o do Sporar não. O que faz com que o Sporar tenha sido a melhor contratação de sempre do Sporting, na medida do que o seu descobrimento significou para a ciência: é que o esloveno desafia a Teoria do Bosão de Higgs. Mais, diria até que Sporar é o Gozão de Higgs...

 

O jogo ia para o fim e esta coisa da vantagem mínima cria sempre alguma tremideira. Noutras épocas, esta esmerada arte de perdoar pagar-se-ia com língua de palmo, mas este Sporting de Rúben Amorim a tudo parece resistir. Vai daí, o Rúben quis dar mais solidez à equipa. Primeiro entrou o Bragança, depois o Palhinha e o TT. Com isto, o João Mário e o Matheus passaram de médios centro para interiores, procurando resguardar mais a equipa. Até que o Porro apanhou uma ressaca (de bola), tomou consciência da sua recepção e orientou-a para o nosso bem comum, transferindo assim as dores de cabeça que já se faziam sentir na sua e nas nossas cabeças. Ficava sentenciado aí o jogo. Depois, a coisa até deu para o Matheus dar dois ou três metros de avanço a um trio de boavisteiros e ainda ir apanhar a bola à frente mesmo que um deles estivesse fresquinho por acabado de entrar, que o xeque-mate no tabuleiro axadrezado já estava consumado.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Hesitei muito na hora de atribuição desta menção. Na verdade, à hora que escrevo ainda estou hesitante, mas se calhar são nervos. Não será assim uma escolha totalmente convicta. Pela primeira parte a menção assentaria bem a Nuno Mendes (de referir que, na segunda parte, salvou um golo certo com um subtil desvio de cabeça). Nuno Santos não esteve assim tanto em jogo, mas fez um golo e quase uma assistência, também poderia ser uma opção. O Porro marcou um golo do outro mundo e fez a minha pulsação voltar a um semi-normal, poderia perfeitamente ser o escolhido. Contudo, acabei por optar pelo Matheus Nunes, que fez um jogo enorme em que alardeou técnica, leitura táctica e disponibilidade física. Assim, até porque tem habitualmente menos visibilidade que os restantes, escolhi-o para Melhor em Campo. 

 

P.S.1: Inacreditável o cartão amarelo a Palhinha que em princípio o retira do derby. Até a hipótese de falta seria difícil de promover, quanto mais a acção disciplinar.

P.S.2: Os meus sentimentos às famílias e amigos de Jozef Venglos (ex-treinador do Sporting) e de John Mortimore (ex-treinador do Benfica), antigos treinadores que faleceram ontem. O mínimo que se pode dizer é que nunca fizeram mal ao futebol. Venglos foi muito conceituado no futebol europeu e devidamente apreciado pela FIFA, Mortimore ganhou títulos em Portugal. RIP!

P.S.3: Após uma nota triste, uma nota alegre: Rúben Amorim completa hoje 36 anos. Parabéns, Mister! 

veríssimo.jpg

26
Jan21

"Prozhaka"


Pedro Azevedo

Depois de mais uma depressão motivada por uma nova eliminação na Taça da Liga, competição que para os portistas evoluiu do desprezo total para a busca do Santo Graal, os pupilos de Sérgio Conceição pareceram encontrar algum conforto naquela rodinha que fizeram no fim do jogo. Ontem, perante um São Luis que mais parecia São Martinho, a coisa foi antecedida por castanha ao Loum e tudo. Depois, lá repetiram o seu "haka" à posteriori, que isto no Hemisfério Norte é tudo ao contrário do Sul. 

rodinha.jpg

24
Jan21

Tudo ao molho e fé em Deus

Campeões de Inverno


Pedro Azevedo

Bem sei, estamos em tempo de pandemia. Ainda assim, estes dois jogos em Leiria fizeram-me lembrar um outro tempo, aquele em que uma visita do Sporting à Cidade do Liz servia também para ir com os amigos "matar o bicho" ao Tromba Rija, o que por si só pressupunha que esse bicho, embora não contagioso, ocupasse para aí umas quatro assoalhadas do intestino delgado de cada um de nós. Por vezes a coisa até acabava em azia, sem que tal se devesse propriamente ao epicurismo treinado à mesa. Como naquela ocasião (2000) em que no último minuto o Schmeichel pôs banha a mais nas luvas, a bola escorregou-lhe e saímos do antigo Municipal a lamentar a (má) sorte e a pensar (erradamente) que ainda não seria dessa vez que o Sporting interromperia o seu hiato de títulos no campeonato nacional.

Nada disto viria a acontecer ontem. 

 

Gostei muito do jogo e do comportamento das duas equipas. Num campo com um lago no meio, Sporting e Braga bateram-se galhardamente. Havendo um lago, armei-me em Julius Reisinger, e qual coreógrafo da bola pensei logo em cisnes e no Jovane a bailar sobre os defesas como chave para desbloquear o jogo. O Tiago Martins é que não me pareceu sincronizado com a melodia do Tchaikovsky, nomeadamente quando a meio do primeira parte achou por bem mostrar um amarelo ao Jovane depois de este ter sofrido um toque por trás do Castro e um pisão do Horta, coisa que uns senhores da SportTV validaram enquanto faziam de conta que todo o seu auditório tinha fechado os olhos nesse preciso instante. Pondo-nos a duvidar do que os nossos próprios olhos viam, não fosse vir-nos à memória o velho adágio de que pior cego é quem não quer ver. [Tanto assim é que no fim do jogo ainda tiveram o topete de sugerir demoradamente que o Jovane deveria ter sido admoestado com o segundo(!) amarelo quando à meia-hora se tentou interpor entre o Matheus, um defesa braguista e a bola e tocou ligeiramente no guarda-redes.]

 

Na sequência deste último lance, o Carvalhal e o Amorim foram expulsos, um daqueles insólitos à portuguesa que ocorrem quando o árbitro quer tomar o protagonismo a jogadores e treinadores e, qual pavão, abre o leque (dos disparates). Não me impressionei por aí além, afinal desde pequeno que lido com coisas destas no Jardim da Estrela enquanto alternativa a dar milho aos pombos. Logo de seguida, uma nova rábula: Tiago Tomás disputava a bola ombro-a-ombro com Fransérgio quando levou uma cotovelada que o atingiu na face e o deixou a sangrar nessa zona, obrigando-o a ser assistido fora do campo. Perante o cenário que se lhe deparava, com aquela altivez típica dos ignorantes, Tiago Martins apitou falta contra o Sporting, involuntariamente fazendo de TT o trouxa que enfiou a touca (literal e metaforicamente). Azar do nosso jovem jogador, que por essa altura já tinha desenvolvido guelras, tantas foram as vezes que Sequeira, à margem das leis, o fez mergulhar no lago. Tudo sem que o árbitro visse razão plausível para amarelo, claro, que o miúdo ainda respirava e por isso mantinha boa cor. Estávamos nós nisto, faltas e faltinhas para aqui, habitual não observância da lei da vantagem para ali, critério disciplinar com as arbitrariedades do costume do futebol jogado em Portugal, quando o Elmusrati quis molhar a sopa por um(a) Palhinha, num dois-em-um ainda no nosso meio-campo em que primeiro tocou na bola e depois em quem lhe apareceu pela frente. Foi o tempo dos putos darem o Grito de Ipiranga: o Inácio bateu o livre para as costas do Galeno, o TT fez que ia mas não foi (e assim atraiu o Sequeira, que ficou nas covas) e o Porro teve uma auto-estrada com via verde para o golo. Ainda antes do intervalo, o Pote foi por ali fora qual Moisés abrindo o mar vermelho e quase aumentava o marcador. Uma jogada de grande inspiração (e transpiração) individual. 

 

No reatamento, o Amorim, que já tem uns anitos disto, anteviu o que todos estávamos a prever. Vai daí, antes evitar um xeque-mate que um (ballet de) Tchaikovsky, substituiu o Jovane pelo Nuno Santos. A ideia foi meritória, porém acabou por resultar numa troca entre a quase certeza de virmos a ter menos 1 homem em campo e a realidade de termos ficado em inferioridade numérica mesmo com os mesmos jogadores que o adversário, na medida em que o ex-vilacondense nunca se conseguiu adaptar às condições do terreno(?) de jogo. Ainda assim, até meio do segundo tempo as melhores oportunidades foram nossas, com Pote a testar o Matheus do Braga. Mais à frente, o recém entrado Matheus Nunes protogonizou a melhor oportunidade da etapa complementar, oferecendo a Sporar, outro substituto, um golo cantado. A bola perder-se-ia ingloriamente nas mãos do guarda-redes bracarense. Todavia, essa ocasião surgiu já em contra-ciclo face ao melhor período do Braga. Com a entrada do nosso velho conhecido Iuri Medeiros, os pupilos de Carvalhal carregaram então em cima de nós, mas uma actuação estóica de todo o sector recuado superiormente liderado pelo Ministro da Defesa (Sebastián Coates) e coadjuvado pelos secretários de estado Feddal e Inácio com o apoio dos assessores Porro e Mendes evitou o pior. O que já ninguém conseguiu evitar foi que Pote fosse expulso após dois bizarros amarelos em apenas dois minutos. Foi a forma encontrada por Tiago Martins de encerrar de forma invernal, perdão, infernal, uma actuação que o devia remeter imediatamente para a jarra. Com a água disponível em Leiria, podia ser que aí arrebitasse para se mostrar viçoso em futuras ocasiões. 

 

Já havíamos por duas vezes nos últimos 3 anos sido campeões de Inverno em sequeiro. Ontem fomo-lo também em regadio (o que pode ter parecido precipitação, afinal foi aspersão). Aliás, comme il faut! E se o Inverno voltou a ser o Inverno (do nosso contentamento), por que não o Sporting voltar a ser campeão? Por acaso, campeão até rima com Verão... (Foi absolutamente exemplar a entrevista que Rúben Amorim concedeu à SportTV pouco tempo após o fim do jogo.)

 

Parabéns a todos os Sportinguistas!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Coates

 

P.S. Dedico esta modesta crónica assente numa belíssima vitória à leoa Joana Cruz, excepcional radialista e mulher dotada de uma ironia fina que muito me agrada, nela exortando todas as senhoras que se deparam com o cancro da mama, não deixando também de me associar ao alerta para a necessidade de diagnóstico precoce que a motivou corajosamente a expôr a sua situação. Certíssimo de que a Joana, que não conheço pessoalmente, com o espírito, força e determinação que emanam do que lhe vou ouvindo, lendo e vendo, não dará quaisquer hipóteses à doença, daqui lhe envio os meus votos de rápido restabelecimento. 

campeãodeinverno.jpg

20
Jan21

Tudo ao molho e fé em Deus

Com Jovanotti a música foi outra


Pedro Azevedo

Esta janela de transferências de Janeiro tem habitualmente o seu quê de "silly season" antecipada, servindo essencialmente para que os clubes que não fizeram bem o trabalho de casa no Verão possam retocar os plantéis e para que os empresários de futebol retoquem também um pouco mais a sua conta bancária. Por isso, as primeiras páginas dos jornais enchem-se de putativas compras de alegados craques. Este ano o panorama não tem sido diferente, registando-se um notório acréscimo do número de notícias relacionadas à medida que o mercado se encaminha para o seu fecho. Em conformidade, o grande destaque da semana foi o Unilabs. Porém, consultadas as minhas fontes - até à hora do fecho desta edição as alcoviteiras do Mais Tabasco não estiveram disponíveis, pelo que fui beber inspiração ao Aqueduto das Águas Livres - , estas, apesar de confirmarem a sua certificação de qualidade para a nossa Liga, apontam-lhe alguma inconstância nas acções, pelo que a sua eventual contratação poder-se-á revelar falsamente positiva.

 

Com o mercado a dominar as atenções de toda a gente, quase não se deu conta que Sporting e Porto defrontavam-se para a Taça da Liga. Acabadinho de empatar o Benfica na gloriosa final da Champions League disputada na pretérita Sexta-feira, o Porto de Sérgio Conceição era o grande favorito para a maioria dos analistas. A coisa era de tal modo um pró-forma que seria uma mera questão de tempo. Quer dizer, uma mera questão de tempo até ao Jovane entrar e deixar o Conceição com um positivo para a azia laboratorialmente confirmado. Nesse sentido, o Rúben Amorim foi particularmente cínico, escondendo o jogo e dando a ilusão ao técnico portista de que eram já favas contadas. Como tal, pôs o Inácio de pé trocado (grande personalidade do miúdo), deixou o João Mário 69 minutos a fazer de holograma e só meteu o Jovane a 12 minutos do fim. Atentem bem neste último dado porque ele é particularmente interessante e advoga bem no sentido da sagacidade do nosso treinador. Eu passo a explicar: é que o Jovane tem esta época uma média de 1 golo a cada 78 minutos, o que estatísticamente lhe teria dado uma probabilidade interessante de fazer 1 golo caso tivesse jogado de início e ainda estivesse em campo por essa altura. O Sérgio Conceição sabia disso. O que ninguém suporia, para além do Mister Amorim, é que, tendo passado esse período no banco, ao entrar não só marcaria 1 como também 2 golos. É que para o Rúben onde vai um, vão todos, e o Jovane, assegurado o primeiro, fez logo questão de partir para o segundo. A sorte do Conceição foi que o jogo terminou logo ali, caso contrário a coisa ainda acabava numa quarentena (de golos) ou assim. E que golos marcou o Jovane! Assim, para celebrar o seu (re)descobrimento, o inaugural foi de embandeirar em arco, como os navios quando anunciam festa. Um golo algumas vezes visto em Figo, num misto de técnica e força. E, como muitos Sportinguistas o tratam como um patinho feio, o que encerrou a contagem foi de bico, à Romário. 

 

No final do jogo estava à espera de ver e ouvir os protagonistas: o Jovane, o Amorim e assim. Imaginei a coisa como se fosse na TV inglesa, com o Lineker em estúdio a tecer loas ao nosso "Jovanotti" e tudo e os Sportinguistas a comunharem a emoção do momento. Mas não, quem apareceu foi o presidente Varandas. Para dizer que hoje estaria na tropa. Um, dois, esquerdo, direito, meia-volta volver, agradeci a informação, encaminhei-me para o quarto e dormi muito mais descansado. Eu sei, tudo isto fez parte de uma grande mise-en-scène de desvalorização da vitória. É que o Benfica A e o B estavam de olhos postos em nós e agora ficaram a saber que nós é mais faca na Liga. Assim, confiantes, diria até falsamente positivos para o que se seguirá, irão até Sábado. E nós, como quem não quer a coisa, dando avanço com o Matheus e o Jovane no banco, no fim cantaremos de galo, que é como quem diz, rugiremos como um leão. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": "The one and only" Jovane Cabral 

 

#ondevaiumvaodoisgolosdejovane

jovane2.jpg

Que dupla!

08
Jan21

A guerra do Solnado


Pedro Azevedo

Já após serem conhecidas as previsões meteorológicas para a Madeira e a Protecção Civil ter emitido um aviso, o telefone toca na sede da Liga Portugal. O seu presidente, Pedro Proença, atende e segue-se este diálogo:

 

- "Alô!?"

- "Pedro? Daqui fala a Depressão!"

- "Como ousais? Toda a gente no mundo do futebol sabe que deprimente só há um, o Proença e mais nenhum..."

- "Sim, reconheço que na tua cabeça não sopra uma aragem, mas eu sou o vento, um furacão, outro tipo de Depressão, Filomena..."

- "Ah, bom! E que desejais, Filomena?"

- "Era só para comunicar que Quinta-feira, a partir das 18h, vou atacar forte na Choupana."

- "Ó Filomena, mas tu metes medo a alguém? Ainda se fosses bruma ou nevoeiro (ou stock de gel para o cabelo)... Bate mas é a bola baixinho."

 

E ela bateu... E a bola lá foi rolando, baixinho, junto à relva...

 

O diálogo terá terminado por aqui. Nada foi feito atempadamente no sentido de antecipar ou adiar o jogo. Este, como seria abundantemente de esperar, nunca chegou a começar à hora marcada. 

(Está lá, é do inimigo?/Dailymotion)

(A Guerra de 1908/YouTube)

02
Jan21

Tudo ao molho e fé em Deus

Predestinação


Pedro Azevedo

Se não há campeões sem estrelinha, o Sporting precisou da Ursa Maior para bater o Braga esta noite em Alvalade. O facto nem é novo e parece dar razão a quem acredita que o título nacional desta época está predestinado, teoria que começa a reunir simpatia entre místicos e deterministas Sportinguistas. Um dos maiores místicos que alguma vez escreveu sobre futebol foi o famoso cronista Nelson Rodrigues. Fanático do Fluminense, criou o personagem do Sobrenatural de Almeida para explicar fenómenos aparentemente incompreensíveis que assolavam negativamente o tricolar carioca. Porém, quando o Flu finalmente voltou a vencer um campeonato, Nelson jurou ver o fantasma do Gravatinha, o protector do Fluminense, popular adepto que segundo o cronista havia falecido em 1958 em consequência da gripe espanhola. Assim, para os místicos, o Sporting também terá o seu Gravatinha, o que até fará algum sentido na medida em que 1958 marcou a última vitória leonina no campeonato com o que ainda restava (Vasques e Travassos) dos majestosos 5 Violinos, entrando então o clube num ciclo menos virtuoso. Nesse transe, para fechar o ciclo e começar um novo virtuoso, o nosso Gravatinha terá regressado agora como fantasma em tempo de pandemia de Covid-19 com o propósito de nos oferecer o tão desejado título. Já para os deterministas, tudo se deve ao controlo das causas e seu prévio conhecimento. Da mesma forma que o atrito de pau e pedra explica o fogo, um bom treinador e a sua concomitante escolha do plantel adequado estarão na origem do desempenho que nos conduzirá à glória. Não sei se o António Salvador acredita no destino, ele que deixou sair o Rúben Amorim sem que o Sporting batesse a cláusula de rescisão, mas o mais certo é começar a ser acometido de superstições a cada nova visita a Alvalade. É que nunca se sabe o que poderá encontrar à noite no Museu... 

 

O Braga criou e o Sporting marcou, eis o sumário do que foi o jogo. Os arsenalistas tiveram 5 oportunidades claras de golo, os leões responderam com 100% de aproveitamento das ocasiões geradas. Outras situações não foram tão claras, como das duas vezes que Nuno Santos foi desarmado na "hora h", ou quando os pézinhos mágicos de Coates e Feddal impossibilitaram o que parecia inevitável por via dos remates de Iuri e Galeno, respectivamente. Todavia, se a maior ou menor eficácia faz parte do sortilégio do jogo, há que dar mérito às substituições operadas por Rúben Amorim que conseguiram estancar a supremacia que durante meia-hora os arsenalistas tiveram no miolo do terreno, zona nevrálgica onde por muito tempo Palhinha foi impotente para travar a superioridade numérica dos pupilos de Carvalhal. Valeu nesse período Adán, o poste e a desinspiração de Ricardo Horta. E se Adán deve melhorar com os pés, Raúl Silva teve dificuldade em ficar de pé, o que indica que os próximos tempos em Braga deverão ser de intensa terapia: como se já não bastasse o complexo de inferioridade do Salvador, ainda ter-se-ão de avir com o Síndrome de Ménière...  

 

Apesar de ser católico, acredito que Deus terá coisas muito mais importantes com que se entreter em detrimento do futebol, o que em parte ajuda a explicar o livre arbítrio que se vê por aí. Ainda assim, creio que há destinos que são factos inquestionáveis. Por exemplo, a viagem de metropolitano para o Campo Grande é um destino que está antecipadamente programado. Porém, isso não quer dizer que infalivelmente lá chegará, podendo por exemplo descarrilar por motivo de imprudência ou negligência do maquinista. Assim também é no futebol, onde o maquinista que transporta a mais apetecida taça anda geralmente de apito na boca. (E contra isso não há misticismos ou determinismos que nos valham.)

 

P.S. Se eu tivesse antecipadamente escrito o guião deste jogo, dificilmente escolheria um desenlace melhor. Ou não tivessem sido os meus dois jogadores preferidos - Pote (coitadinho, está tão mal que só leva 11 míseros golos no campeonato) e Matheus - os autores dos nossos dois golos. Mas, atenção, que não haja confusões: eu ainda sou de carne e osso e ao fim de semana não uso gravatinha. Outra nota: não conheço a lei do jogo que manda admoestar com amarelo chicuelinas como aquela aplicada pelo Matheus Nunes a um defensor do Braga. É que, em vez de cortar a jogada ao brasileiro, quanto muito o árbitro deveria ter-lhe pedido para cortar as unhas, a única parte do seu corpo que eventualmente terá tocado no bracarense (um pedido de autógrafo também não lhe ficaria mal, o soberbo drible assim o mereceria).

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pedro Porro (um leão de raça a dar o "Rugido" de Ipiranga) 

Festejosbraga.jpg

12
Dez20

Tudo ao molho e fé em Deus

Um móvel TT feito à medida do Paços de Ferreira


Pedro Azevedo

Muito se fala no futebolês em adaptação ao adversário e ontem a esmagadora maioria dos nossos adeptos deu o exemplo. Vai daí, se de um lado vem o clube da capital do móvel, do outro a gente recebe-os no sofá, assim homenageando o mobiliário e fazendo deste jogo aquele porventura com um maior sentido em tempo de pandemia. Diga-se de passagem que no relvado cada um dos intervenientes também se procurou adequar ao momento: o Paços trouxe Castanheira, a arbitragem fez-se representar por um Pinheiro e o Adán deu umas madeiradas na bola. Houve ainda uma centena de adeptos que louvavelmente foi dar um empurrãozinho até à entrada no estádio, o que não surpreendeu porque já se sabe que nas mudanças requeridas (edifício do futebol português) quando há móveis envolvidos dá sempre jeito uns Urbanos. 

 

Também não foi preciso VAR para se observar que o Sporting é de longe a equipa que melhor futebol pratica em Portugal. Bem sei, não sou o Jorge Jesus e por isso não estou dentro do que é a moda. Ainda assim, não preciso de nuances para constatar o óbvio: dá imenso gozo ver esta equipa jogar. Deste modo, podemos não jogar o triplo, mas ganhamos pelo triplo. É que o jogo de Famalicão ensinou-nos que para evitar azares nada como bater três vezes na madeira...

 

E por falar em madeira, ontem o primeiro golo pareceu Snooker às três tabelas: tacada de Coates para Nuno Santos, carambola deste para Tiago Tomás e bola na rede (caçapa). O segundo já foi mais artístico, com Bruno Tabata a fazer rodar a bola com efeito e caprichosamente a colocá-la no canto oposto. E o terceiro, em "free style", começou no taco de João Mário e teve de passar por um(a) Palhinha até ver a rede. 

 

Durante o resto do tempo, ao melhor estilo da Beatriz Costa em "ai chega, chega, chega, chega, chega ó minha agulha, afasta, afasta, afasta, afasta o meu dedal", o Sporting foi dando a ilusão aos pacenses de que poderiam lá chegar para assim melhor poder coser o avental à sua volta e no fim tudo acabar com a mesma (des)ventura para os pupilos de Pêpa. Impotentes para contrariar a superioridade leonina, estes ainda foram distribuindo alguma lenha com a ajuda de um Pinheiro ali à mão. Mas nada pôde obstaculizar a superioridade dos leões no marcador, naquela que foi a exibição mais uniformemente conseguida da equipa nesta época e que como tal mereceu que o seu treinador a ela assistisse de camarote com o beneplácito de Luis Godinho. Com a noite chuvosa que estava, é de esperar nas próximas horas um comunicado do Sporting a agradecer a gentileza.

 

 Tenor do "Tudo ao molho...": TT. Palhinha, uma espécie de abafador do jogo de berlindes, seria uma excelente alternativa. 

TT.jpg

29
Nov20

Tudo ao molho e fé em Deus

O presente de César


Pedro Azevedo

Como em termos de organização o futebol jogado em Portugal ainda está na Idade Média, disposto a tomar de assalto um grupo de irredutíveis com sede a noroeste de Lisboa, o Clero Regular uniu-se a um César para conquistar a Sportingália. Com esta associação, os cónegos julgaram assim poder ditar leis em terra conhecida por não se governar sozinha nem se deixar governar por outrém. O problema é que com o advento da Idade Média e as invasões bárbaras a influência dos César perdeu-se. E nem o Clero Secular, de estricta obediência aos bispos, ajudou às pretensões dos cónegos. 

 

Em Alvalade, 1 ano corresponde a 1 segundo em termos de tempo de Humanidade. Assim, se ontem estávamos entre o triássico e o paleolítico inferior - assistindo à dança do T-Rex Jesérássico e vendo uns cromagnons a desenhar pinturas rupestres com os pés - , amanhã poderemos chegar à Modernidade. Um dos responsáveis por esta metamorfose é Potix, assim designado por ter tomado um pote de poção mágica em pequenino. O outro é Amorinix, o chefe da Sportingália. Ao contrário do seu antepassado Abraracourcix que tinha medo que o céu lhe caísse em cima da cabeça, Amorinix só tem medo que a cabeça dos seus pupilos toque na lua. Por isso, insiste em que todos ponham os pés bem assentes na terra e não vão em cantos de sereia. O mínimo que se pode dizer é que o combate de ontem deu-lhe inteira razão.

 

Ainda não estavam decorridos 3 minutos e já Palhinix era abandonado por Analgésix no meio da batalha, ficando assim impotente para travar um cónego que de forma nada canónica revelava más intenções. Esquecendo-se de que junto ao seu aquartelamento a correlação de forças era-lhe favorável em 5 para 2, Feddalix não saiu a campo aberto para ajudar. Para piorar as coisas, o jovem Mendix adormeceu na formatura e permitiu que a cavalaria moreirense o flanqueasse. Nesse transe, Geriatrix (também conhecido como Agecanonix ou Decanonix), o ancião da aldeia, assustou-se e abriu as portas à invasão dos cónegos. Determinados a contra-atacar, os homens de Amorinix não desarmaram. Mendix avançou com Santix, e este deu a munição para que os poderes sobre-humanos de Potix restabelecessem a igualdade de forças. Dada a forma célere como as tropas de Amoranix haviam recuperado de um duro revés no dealbar da batalha, pensou-se que a derrota dos cónegos estaria iminente. Puro engano. É certo que Sporarix podia até ter sentenciado cedo a contenda, mas um intrépito cónego também teve tudo para causar dolo se bem municiado quando, após um risco mal calculado por Feddalix, ganhou 2 metros a um Geriatrix que na correria pareceu transportar um menir às costas.

 

Dada a dureza inaugural da refrega, ambos os exércitos optaram por se estudar. Nesse transe, acabou por ser decretado um intervalo na contenda. Não se sabe se tal foi acompanhado por um pequeno repasto, o provável é que ao bardo de serviço não tenha sido impedido que entoasse melodias para um campo de batalha vazio e uma arena envolvente sem assistência até que escrivães e narradores voltassem ao serviço. Reatada a contenda, cedo se notou que a infantaria de Amorinix enfrentava dificuldades tamanhas na nevrálgica zona central do terreno, optando sempre por circular em "U" e utilizar a cavalaria. O problema é que, mesmo desbravado o terreno pelos flancos, Sporarix (onde andava o Marquix?), o guerreiro encarregue de conquistar o estandarte moreirense, tardava em dar a estocada final. Como tal, a situação caiu num impasse. Para quem conheça bem a vida na Sportingália, quando as coisas se complicam a solução está no Potix. E este não desiludiu. Assim, se num primeiro momento fez abanar as fundações da fé moreirense, num segundo momento conseguiu ultrapassar o trôpego "passionato" guardião dos cónegos, um presente de César que antecipou o período natalício que vem aí. Consta que tudo acabou em bem e que, observado o devido distanciamento social, o bardo Assurancetourix lá acabou amarrado a um canto para não suscitar reacções enérgicas da parte dos restantes aldeões. Comme il faut! (O Linguistix da aldeia ao lado é que não deve ter ficado nada contente com o desfecho e em Janeiro lá estará a pedir a um Ordralfabétix de ocasião mais munições para arrasar a malta.)

 

Menir d'Ouro "Tudo ao molho...": Potix. Outra boa opção seria Palhinix.pote moreirense.jpg

24
Nov20

Tudo ao molho e fé em Deus

ASAE leonina contra o Whisky a martelo


Pedro Azevedo

Caros Leitores de Castigo Máximo, há qualquer coisa de justiça divina quando um clube da outrora capital da contrafacção etílica lusa vem até ao Estádio Nacional jogar contra o Sporting e chega ao intervalo a provar do seu próprio veneno servido num copo de 3 (golos), ainda assim uma fraca compensação para quem ao longo dos anos tanto tem ressacado a cada nova martelada nas nossas aspirações que suspeitamos nos dão. Tal como na parábola da faca na liga (Liga?), não é que os sacavenenses tenham totalmente abandonado práticas antigas. Desse modo, provavelmente inspirados pelo mítico Manuel Serafim, foi possível observar que mantiveram o velho hábito de expôr rótulos bem conhecidos. Assim, não surpreendeu vermos um Iaquinta em tons de ébano ou um Job que mesmo que caia nas boas graças do Senhor dificilmente viverá 140 anos como o seu homónimo do livro bíblico. Ainda assim, a cópia não foi totalmente adulterada, tendo o Iaquinta dado um golo aos sacavenenses e o Job passado uma grande provação. (Houve até em tempos quem dissesse que o whisky de Sacavém não ficava a perder para o escocês, mas quem o disse não deve ter sobrevivido ao dia seguinte nem experimentado o que é uma cabeça num torno a comprimir-se.)

 

Manda contudo a prudência que não se ponha o carro à frente dos bois, que é como quem diz, em "sportinguês", a "roulotte" à frente do Mini. (O outro senhor é que tem um Ferrari d'arrasar.) Seja como for, o Sporting realizou ontem uma boa exibição e continua a demonstrar saúde. Prova disso, desde o início a nossa equipa cercou o último reduto sacavenense como se do quartel do RALIS se tratasse. E com bastante mais sucesso que os pára-quedistas de António de Spínola no 11 de Março, diga-se de passagem. Assim, logo a abrir, servido pelo Jovane, o Nuno Santos inaugurou o marcador. O mesmo jogador, pouco tempo depois, poderia ter ampliado a nossa vantagem, mas foi tanta a força e vitalidade que ficou logo a descoberto ter encontrado o ferro. Eis então que aparece o Joãozinho Caminhante ("Johnnie Walker", a.k.a. João Mário), que da sua cartola faz sair um (vidro de) tiro contendo um blend harmonioso com o requinte e estilo do seu Black Label. Só faltou a eficácia: a bola falhou o alvo por um grão. Grão a grão enche a galinha o papo, e o Nuno Santos que já andou pela capoeira do Seixal apanhou uma segunda bola e meteu-a no Coates para o segundo da noite. Logo a seguir, o Sporar embrulhou-se com a bola e as pernas de um jogador sacavenense. O árbitro se calhar também se embrulhou um bocado e mandou marcar um penálti. O Jovane não perdoou. Até ao intervalo não houve mais incidências de registo. 

 

No reatamento, o Sporting começou de forma igual ao primeiro tempo. Reatando a parceria luso-uruguaia que estabeleceu com o Coates, o Nuno Santos voltou a oferecer-lhe um golo. O coates mostrou cabeça fria e não desperdiçou. O Ruben Amorim entrou então em modo de experiências. Nesse sentido, deixou de trocar os pés ao Borja, o que também significou deixar de trocar os olhos aos espectadores. Infelizmente, os espectadores estavam todos à frente dos seus televisores, pelo que o Ruben não pôde ouvir "in-loco" a gratidão dos Sportinguistas. O Matheus foi então para a direita. Só para chatear, ele e o Coates ficaram ligados ao golo do Sacavenense. Simplesmente, se defensivamente a coisa não lhe correu lá muito bem - houve ainda uma tentativa sua de substituir o árbitro e assim entregar a bola ao Sacavenense à entrada da nossa área - , ofensivamente o brasileiro esforçou-se por procurar justificar a razão dos provérbios portugueses. Nessa forma de aculturização, começou por demonstrar que "não há duas sem três". A coisa teve a sua graça, na medida em que cada oportunidade que o Matheus criava era depois desperdiçada ao melhor estilo Benny Hill, a fazer também lembrar aqueles "bloopers" de futebol que as televisões portugueses nos servem para fazerem companhia ao bacalhau, perú e rabanadas no nosso Natal. Tudo se iniciou num passe do brasileiro que morreu quando Jovane foi impedido de chegar à bola por Sporar. De seguida, João Mário não teve cabeça para acertar na baliza vazia. Finalmente, Nuno Santos trocou os pés e a bola fez uma rosca e veio para trás. Desfeito o mito de que "à terceira é de vez", o brasileiro procurou estabelecer novos limites. E à quarta tentativa teve sucesso. Para o facto também ajudou já ter em campo um ponta de lança que pode ter "gap" mas não é um holograma: Pedro Marques. Com instinto matador na área (Sporar é essencialmente um jogador forte em transição, de apoios e desmarcações inteligentes nesse momento de jogo), o Pedro voltou a marcar. Aconteceu após uma incursão de Bruno Tabata pela meia esquerda ter apanhado o guarda-redes sacavenense desesperado para evitar o hara-kiri de um seu colega. No ressalto, o Pedro não perdoou. E já que falamos de Tabata, o jogo não terminaria sem que este colocasse a bola com precisão numa zona do terreno capaz de criar indefinição na defesa adversária, situação muito bem aproveitada por Gonçalo Inácio para se estrear a marcar oficialmente pelo Sporting.

 

E assim termina uma crónica que abordou whisky a granel e campeonatos a martelo. Ou vice-versa. É que pelo que se ouve e lê, se uns adicionavam alcool etílico, outros alegadamente juntam-lhe o alcool metílico (metanol). É que este arde e não se vê. Tal como o amor de Camões. Digam lá se não há como não amar o futebol em Portugal?...("To be, or not to be".)

 

P.S. Sete-a-um é um resultado que me faz lembrar o 14 de Dezembro de 1986. E mais não digo. "Time to sleep, perchance to dream". (Thanks Shakespeare, obrigado Manél de Sarilhos porque não se fazem Hamlets sem ovos.)

 

P.S.2 Um abraço aos briosos jogadores e staff do Sacavenense e às gentes de Sacavém, cidade presente em inúmeros momentos marcantes da nossa História de Portugal. 

 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Nuno Santos

pedromarques.jpg

15
Nov20

Tudo ao molho e fé em Deus

A razão de Kant(é)


Pedro Azevedo

Não sei o que terá passado pela cabeça de Fernando Gomes para autorizar que um jogo decisivo da nossa selecção fosse marcado para lá das treze horas de um Sábado. Desse modo, os nosso jogadores mantiveram-se durante a maior parte do jogo confinados, saindo apenas para o cumprimento de um passeio higiénico por volta das vinte e uma e quinze, hora a que os franceses ainda se recriavam a seu bel-prazer no relvado da Luz. Antes porém, Rui Patrício já havia negado veementemente por duas vezes que a declaração do Estado de Emergência se traduzisse numa lei Martial. Não obtante, não houve emoção do guarda-redes português que pudesse  calar a razão de Kant(é). É certo que o Bernardo tentou contrariá-la, mas como diz o ditado o cântaro foi a Fonte e partiu-se (contra um poste).

 

Sem cão para passearem no relvado, os portugueses lançaram nesses últimos quinze minutos um Moutinho, a coisa mais parecida em moço marafado que temos com um perdigueiro. Este logo começou a afiar os caninos para abocanhar, um a um, os calcanhares dos gauleses e sacar a bola. Desabituados de não a terem, os pupilos de Deschamps por um momento perderam a compostura. Entretanto, o Jota já estava em campo, ele que compreensivelmente havia sido preterido pelo génio por quem uns madrilenos haviam pago 120 milhões para descobrir a cura da Covid-19. Já se sabe que isto dos milhões tem a sua influência, caso contrário os adeptos do Sporting não ficariam com a pedra no sapato ao ver Pedro Gonçalves relegado para o banco de suplentes dos sub-21 no jogo contra a Bielorrússia. Mas, lá está, por seis milhões e meio de euros o Pote só pôde inventar um remédio santo (que não Santos) para os calos dos Sportinguistas, patente não suficiente para demover Rui Jorge de o preterir em função de um emprestado benfiquista com zero minutos de utilização em Valladolid ou aqui. 

 

Estava eu a falar do Moutinho abocanhar e, vai daí, o Fernando Santos reforçou a dose com o Trincão. Recreando-se finalmente com bola, os portugueses ainda assim iam observando as regras do SNS. Nesse transe, o Cancelo isolou-se pela direita. A bola viajou toda a área gaulesa, mas Ronaldo, Jota e Ruben Dias alinharam em não lhe acertar. Foi (jogo do) galo! E o canto (Kant?) de cisne. 

 

Desconstruir o caos organizado que Fernando Santos trouxe para a selecção nacional não tem sido tarefa fácil para ninguém (creio que nem mesmo para o Engenheiro), muito menos para este Vosso autor que não é nenhum Agostinho da Silva. Tanto assim é que ontem provou-se que a sua compreensão só estaria ao alcance de um filósofo como Kant(é). Este soube perceber a realidade subjectiva do tempo e do espaço, bem como a sua interacção com a intuição, traduzindo-se isso na sua sensibilidade ao objecto bola como condição de pensamento e, por conseguinte, entendimento de todo o jogo, pelo que daí a ter (N')Golo foi apenas um pequeno passo. Por esta não esperava o Fernando, que ainda assim não deve ser criticado. É que se não houvesse do outro lado um Kant(é), outro galo provavelmente (não) Kantaria cantaria. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": João Moutinho 

RonaldoFranca.jpg

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mensagens

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Siga-nos no Facebook

Castigo Máximo

Comentários recentes

  • Pedro Azevedo

    Boa noite, Miguel, e muito obrigado. De facto morr...

  • Anónimo

    Boa noite Pedro:O seu post mantém qualidade a todo...

  • Pedro Azevedo

    Obrigado,meu caro Bráulio. Deixou água na boca, de...

  • Bráulio Pereira

    Bem escrito como de costume. Também fiquei muito f...

  • Liondamaia

    Mas porque raios hão-de correr mal e não hão-de co...