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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

20
Jan21

Tudo ao molho e fé em Deus

Com Jovanotti a música foi outra


Pedro Azevedo

Esta janela de transferências de Janeiro tem habitualmente o seu quê de "silly season" antecipada, servindo essencialmente para que os clubes que não fizeram bem o trabalho de casa no Verão possam retocar os plantéis e para que os empresários de futebol retoquem também um pouco mais a sua conta bancária. Por isso, as primeiras páginas dos jornais enchem-se de putativas compras de alegados craques. Este ano o panorama não tem sido diferente, registando-se um notório acréscimo do número de notícias relacionadas à medida que o mercado se encaminha para o seu fecho. Em conformidade, o grande destaque da semana foi o Unilabs. Porém, consultadas as minhas fontes - até à hora do fecho desta edição as alcoviteiras do Mais Tabasco não estiveram disponíveis, pelo que fui beber inspiração ao Aqueduto das Águas Livres - , estas, apesar de confirmarem a sua certificação de qualidade para a nossa Liga, apontam-lhe alguma inconstância nas acções, pelo que a sua eventual contratação poder-se-á revelar falsamente positiva.

 

Com o mercado a dominar as atenções de toda a gente, quase não se deu conta que Sporting e Porto defrontavam-se para a Taça da Liga. Acabadinho de empatar o Benfica na gloriosa final da Champions League disputada na pretérita Sexta-feira, o Porto de Sérgio Conceição era o grande favorito para a maioria dos analistas. A coisa era de tal modo um pró-forma que seria uma mera questão de tempo. Quer dizer, uma mera questão de tempo até ao Jovane entrar e deixar o Conceição com um positivo para a azia laboratorialmente confirmado. Nesse sentido, o Rúben Amorim foi particularmente cínico, escondendo o jogo e dando a ilusão ao técnico portista de que eram já favas contadas. Como tal, pôs o Inácio de pé trocado (grande personalidade do miúdo), deixou o João Mário 69 minutos a fazer de holograma e só meteu o Jovane a 12 minutos do fim. Atentem bem neste último dado porque ele é particularmente interessante e advoga bem no sentido da sagacidade do nosso treinador. Eu passo a explicar: é que o Jovane tem esta época uma média de 1 golo a cada 78 minutos, o que estatísticamente lhe teria dado uma probabilidade interessante de fazer 1 golo caso tivesse jogado de início e ainda estivesse em campo por essa altura. O Sérgio Conceição sabia disso. O que ninguém suporia, para além do Mister Amorim, é que, tendo passado esse período no banco, ao entrar não só marcaria 1 como também 2 golos. É que para o Rúben onde vai um, vão todos, e o Jovane, assegurado o primeiro, fez logo questão de partir para o segundo. A sorte do Conceição foi que o jogo terminou logo ali, caso contrário a coisa ainda acabava numa quarentena (de golos) ou assim. E que golos marcou o Jovane! Assim, para celebrar o seu (re)descobrimento, o inaugural foi de embandeirar em arco, como os navios quando anunciam festa. Um golo algumas vezes visto em Figo, num misto de técnica e força. E, como muitos Sportinguistas o tratam como um patinho feio, o que encerrou a contagem foi de bico, à Romário. 

 

No final do jogo estava à espera de ver e ouvir os protagonistas: o Jovane, o Amorim e assim. Imaginei a coisa como se fosse na TV inglesa, com o Lineker em estúdio a tecer loas ao nosso "Jovanotti" e tudo e os Sportinguistas a comunharem a emoção do momento. Mas não, quem apareceu foi o presidente Varandas. Para dizer que hoje estaria na tropa. Um, dois, esquerdo, direito, meia-volta volver, agradeci a informação, encaminhei-me para o quarto e dormi muito mais descansado. Eu sei, tudo isto fez parte de uma grande mise-en-scène de desvalorização da vitória. É que o Benfica A e o B estavam de olhos postos em nós e agora ficaram a saber que nós é mais faca na Liga. Assim, confiantes, diria até falsamente positivos para o que se seguirá, irão até Sábado. E nós, como quem não quer a coisa, dando avanço com o Matheus e o Jovane no banco, no fim cantaremos de galo, que é como quem diz, rugiremos como um leão. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": "The one and only" Jovane Cabral 

 

#ondevaiumvaodoisgolosdejovane

jovane2.jpg

Que dupla!

08
Jan21

A guerra do Solnado


Pedro Azevedo

Já após serem conhecidas as previsões meteorológicas para a Madeira e a Protecção Civil ter emitido um aviso, o telefone toca na sede da Liga Portugal. O seu presidente, Pedro Proença, atende e segue-se este diálogo:

 

- "Alô!?"

- "Pedro? Daqui fala a Depressão!"

- "Como ousais? Toda a gente no mundo do futebol sabe que deprimente só há um, o Proença e mais nenhum..."

- "Sim, reconheço que na tua cabeça não sopra uma aragem, mas eu sou o vento, um furacão, outro tipo de Depressão, Filomena..."

- "Ah, bom! E que desejais, Filomena?"

- "Era só para comunicar que Quinta-feira, a partir das 18h, vou atacar forte na Choupana."

- "Ó Filomena, mas tu metes medo a alguém? Ainda se fosses bruma ou nevoeiro (ou stock de gel para o cabelo)... Bate mas é a bola baixinho."

 

E ela bateu... E a bola lá foi rolando, baixinho, junto à relva...

 

O diálogo terá terminado por aqui. Nada foi feito atempadamente no sentido de antecipar ou adiar o jogo. Este, como seria abundantemente de esperar, nunca chegou a começar à hora marcada. 

(Está lá, é do inimigo?/Dailymotion)

(A Guerra de 1908/YouTube)

02
Jan21

Tudo ao molho e fé em Deus

Predestinação


Pedro Azevedo

Se não há campeões sem estrelinha, o Sporting precisou da Ursa Maior para bater o Braga esta noite em Alvalade. O facto nem é novo e parece dar razão a quem acredita que o título nacional desta época está predestinado, teoria que começa a reunir simpatia entre místicos e deterministas Sportinguistas. Um dos maiores místicos que alguma vez escreveu sobre futebol foi o famoso cronista Nelson Rodrigues. Fanático do Fluminense, criou o personagem do Sobrenatural de Almeida para explicar fenómenos aparentemente incompreensíveis que assolavam negativamente o tricolar carioca. Porém, quando o Flu finalmente voltou a vencer um campeonato, Nelson jurou ver o fantasma do Gravatinha, o protector do Fluminense, popular adepto que segundo o cronista havia falecido em 1958 em consequência da gripe espanhola. Assim, para os místicos, o Sporting também terá o seu Gravatinha, o que até fará algum sentido na medida em que 1958 marcou a última vitória leonina no campeonato com o que ainda restava (Vasques e Travassos) dos majestosos 5 Violinos, entrando então o clube num ciclo menos virtuoso. Nesse transe, para fechar o ciclo e começar um novo virtuoso, o nosso Gravatinha terá regressado agora como fantasma em tempo de pandemia de Covid-19 com o propósito de nos oferecer o tão desejado título. Já para os deterministas, tudo se deve ao controlo das causas e seu prévio conhecimento. Da mesma forma que o atrito de pau e pedra explica o fogo, um bom treinador e a sua concomitante escolha do plantel adequado estarão na origem do desempenho que nos conduzirá à glória. Não sei se o António Salvador acredita no destino, ele que deixou sair o Rúben Amorim sem que o Sporting batesse a cláusula de rescisão, mas o mais certo é começar a ser acometido de superstições a cada nova visita a Alvalade. É que nunca se sabe o que poderá encontrar à noite no Museu... 

 

O Braga criou e o Sporting marcou, eis o sumário do que foi o jogo. Os arsenalistas tiveram 5 oportunidades claras de golo, os leões responderam com 100% de aproveitamento das ocasiões geradas. Outras situações não foram tão claras, como das duas vezes que Nuno Santos foi desarmado na "hora h", ou quando os pézinhos mágicos de Coates e Feddal impossibilitaram o que parecia inevitável por via dos remates de Iuri e Galeno, respectivamente. Todavia, se a maior ou menor eficácia faz parte do sortilégio do jogo, há que dar mérito às substituições operadas por Rúben Amorim que conseguiram estancar a supremacia que durante meia-hora os arsenalistas tiveram no miolo do terreno, zona nevrálgica onde por muito tempo Palhinha foi impotente para travar a superioridade numérica dos pupilos de Carvalhal. Valeu nesse período Adán, o poste e a desinspiração de Ricardo Horta. E se Adán deve melhorar com os pés, Raúl Silva teve dificuldade em ficar de pé, o que indica que os próximos tempos em Braga deverão ser de intensa terapia: como se já não bastasse o complexo de inferioridade do Salvador, ainda ter-se-ão de avir com o Síndrome de Ménière...  

 

Apesar de ser católico, acredito que Deus terá coisas muito mais importantes com que se entreter em detrimento do futebol, o que em parte ajuda a explicar o livre arbítrio que se vê por aí. Ainda assim, creio que há destinos que são factos inquestionáveis. Por exemplo, a viagem de metropolitano para o Campo Grande é um destino que está antecipadamente programado. Porém, isso não quer dizer que infalivelmente lá chegará, podendo por exemplo descarrilar por motivo de imprudência ou negligência do maquinista. Assim também é no futebol, onde o maquinista que transporta a mais apetecida taça anda geralmente de apito na boca. (E contra isso não há misticismos ou determinismos que nos valham.)

 

P.S. Se eu tivesse antecipadamente escrito o guião deste jogo, dificilmente escolheria um desenlace melhor. Ou não tivessem sido os meus dois jogadores preferidos - Pote (coitadinho, está tão mal que só leva 11 míseros golos no campeonato) e Matheus - os autores dos nossos dois golos. Mas, atenção, que não haja confusões: eu ainda sou de carne e osso e ao fim de semana não uso gravatinha. Outra nota: não conheço a lei do jogo que manda admoestar com amarelo chicuelinas como aquela aplicada pelo Matheus Nunes a um defensor do Braga. É que, em vez de cortar a jogada ao brasileiro, quanto muito o árbitro deveria ter-lhe pedido para cortar as unhas, a única parte do seu corpo que eventualmente terá tocado no bracarense (um pedido de autógrafo também não lhe ficaria mal, o soberbo drible assim o mereceria).

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pedro Porro (um leão de raça a dar o "Rugido" de Ipiranga) 

Festejosbraga.jpg

12
Dez20

Tudo ao molho e fé em Deus

Um móvel TT feito à medida do Paços de Ferreira


Pedro Azevedo

Muito se fala no futebolês em adaptação ao adversário e ontem a esmagadora maioria dos nossos adeptos deu o exemplo. Vai daí, se de um lado vem o clube da capital do móvel, do outro a gente recebe-os no sofá, assim homenageando o mobiliário e fazendo deste jogo aquele porventura com um maior sentido em tempo de pandemia. Diga-se de passagem que no relvado cada um dos intervenientes também se procurou adequar ao momento: o Paços trouxe Castanheira, a arbitragem fez-se representar por um Pinheiro e o Adán deu umas madeiradas na bola. Houve ainda uma centena de adeptos que louvavelmente foi dar um empurrãozinho até à entrada no estádio, o que não surpreendeu porque já se sabe que nas mudanças requeridas (edifício do futebol português) quando há móveis envolvidos dá sempre jeito uns Urbanos. 

 

Também não foi preciso VAR para se observar que o Sporting é de longe a equipa que melhor futebol pratica em Portugal. Bem sei, não sou o Jorge Jesus e por isso não estou dentro do que é a moda. Ainda assim, não preciso de nuances para constatar o óbvio: dá imenso gozo ver esta equipa jogar. Deste modo, podemos não jogar o triplo, mas ganhamos pelo triplo. É que o jogo de Famalicão ensinou-nos que para evitar azares nada como bater três vezes na madeira...

 

E por falar em madeira, ontem o primeiro golo pareceu Snooker às três tabelas: tacada de Coates para Nuno Santos, carambola deste para Tiago Tomás e bola na rede (caçapa). O segundo já foi mais artístico, com Bruno Tabata a fazer rodar a bola com efeito e caprichosamente a colocá-la no canto oposto. E o terceiro, em "free style", começou no taco de João Mário e teve de passar por um(a) Palhinha até ver a rede. 

 

Durante o resto do tempo, ao melhor estilo da Beatriz Costa em "ai chega, chega, chega, chega, chega ó minha agulha, afasta, afasta, afasta, afasta o meu dedal", o Sporting foi dando a ilusão aos pacenses de que poderiam lá chegar para assim melhor poder coser o avental à sua volta e no fim tudo acabar com a mesma (des)ventura para os pupilos de Pêpa. Impotentes para contrariar a superioridade leonina, estes ainda foram distribuindo alguma lenha com a ajuda de um Pinheiro ali à mão. Mas nada pôde obstaculizar a superioridade dos leões no marcador, naquela que foi a exibição mais uniformemente conseguida da equipa nesta época e que como tal mereceu que o seu treinador a ela assistisse de camarote com o beneplácito de Luis Godinho. Com a noite chuvosa que estava, é de esperar nas próximas horas um comunicado do Sporting a agradecer a gentileza.

 

 Tenor do "Tudo ao molho...": TT. Palhinha, uma espécie de abafador do jogo de berlindes, seria uma excelente alternativa. 

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29
Nov20

Tudo ao molho e fé em Deus

O presente de César


Pedro Azevedo

Como em termos de organização o futebol jogado em Portugal ainda está na Idade Média, disposto a tomar de assalto um grupo de irredutíveis com sede a noroeste de Lisboa, o Clero Regular uniu-se a um César para conquistar a Sportingália. Com esta associação, os cónegos julgaram assim poder ditar leis em terra conhecida por não se governar sozinha nem se deixar governar por outrém. O problema é que com o advento da Idade Média e as invasões bárbaras a influência dos César perdeu-se. E nem o Clero Secular, de estricta obediência aos bispos, ajudou às pretensões dos cónegos. 

 

Em Alvalade, 1 ano corresponde a 1 segundo em termos de tempo de Humanidade. Assim, se ontem estávamos entre o triássico e o paleolítico inferior - assistindo à dança do T-Rex Jesérássico e vendo uns cromagnons a desenhar pinturas rupestres com os pés - , amanhã poderemos chegar à Modernidade. Um dos responsáveis por esta metamorfose é Potix, assim designado por ter tomado um pote de poção mágica em pequenino. O outro é Amorinix, o chefe da Sportingália. Ao contrário do seu antepassado Abraracourcix que tinha medo que o céu lhe caísse em cima da cabeça, Amorinix só tem medo que a cabeça dos seus pupilos toque na lua. Por isso, insiste em que todos ponham os pés bem assentes na terra e não vão em cantos de sereia. O mínimo que se pode dizer é que o combate de ontem deu-lhe inteira razão.

 

Ainda não estavam decorridos 3 minutos e já Palhinix era abandonado por Analgésix no meio da batalha, ficando assim impotente para travar um cónego que de forma nada canónica revelava más intenções. Esquecendo-se de que junto ao seu aquartelamento a correlação de forças era-lhe favorável em 5 para 2, Feddalix não saiu a campo aberto para ajudar. Para piorar as coisas, o jovem Mendix adormeceu na formatura e permitiu que a cavalaria moreirense o flanqueasse. Nesse transe, Geriatrix (também conhecido como Agecanonix ou Decanonix), o ancião da aldeia, assustou-se e abriu as portas à invasão dos cónegos. Determinados a contra-atacar, os homens de Amorinix não desarmaram. Mendix avançou com Santix, e este deu a munição para que os poderes sobre-humanos de Potix restabelecessem a igualdade de forças. Dada a forma célere como as tropas de Amoranix haviam recuperado de um duro revés no dealbar da batalha, pensou-se que a derrota dos cónegos estaria iminente. Puro engano. É certo que Sporarix podia até ter sentenciado cedo a contenda, mas um intrépito cónego também teve tudo para causar dolo se bem municiado quando, após um risco mal calculado por Feddalix, ganhou 2 metros a um Geriatrix que na correria pareceu transportar um menir às costas.

 

Dada a dureza inaugural da refrega, ambos os exércitos optaram por se estudar. Nesse transe, acabou por ser decretado um intervalo na contenda. Não se sabe se tal foi acompanhado por um pequeno repasto, o provável é que ao bardo de serviço não tenha sido impedido que entoasse melodias para um campo de batalha vazio e uma arena envolvente sem assistência até que escrivães e narradores voltassem ao serviço. Reatada a contenda, cedo se notou que a infantaria de Amorinix enfrentava dificuldades tamanhas na nevrálgica zona central do terreno, optando sempre por circular em "U" e utilizar a cavalaria. O problema é que, mesmo desbravado o terreno pelos flancos, Sporarix (onde andava o Marquix?), o guerreiro encarregue de conquistar o estandarte moreirense, tardava em dar a estocada final. Como tal, a situação caiu num impasse. Para quem conheça bem a vida na Sportingália, quando as coisas se complicam a solução está no Potix. E este não desiludiu. Assim, se num primeiro momento fez abanar as fundações da fé moreirense, num segundo momento conseguiu ultrapassar o trôpego "passionato" guardião dos cónegos, um presente de César que antecipou o período natalício que vem aí. Consta que tudo acabou em bem e que, observado o devido distanciamento social, o bardo Assurancetourix lá acabou amarrado a um canto para não suscitar reacções enérgicas da parte dos restantes aldeões. Comme il faut! (O Linguistix da aldeia ao lado é que não deve ter ficado nada contente com o desfecho e em Janeiro lá estará a pedir a um Ordralfabétix de ocasião mais munições para arrasar a malta.)

 

Menir d'Ouro "Tudo ao molho...": Potix. Outra boa opção seria Palhinix.pote moreirense.jpg

24
Nov20

Tudo ao molho e fé em Deus

ASAE leonina contra o Whisky a martelo


Pedro Azevedo

Caros Leitores de Castigo Máximo, há qualquer coisa de justiça divina quando um clube da outrora capital da contrafacção etílica lusa vem até ao Estádio Nacional jogar contra o Sporting e chega ao intervalo a provar do seu próprio veneno servido num copo de 3 (golos), ainda assim uma fraca compensação para quem ao longo dos anos tanto tem ressacado a cada nova martelada nas nossas aspirações que suspeitamos nos dão. Tal como na parábola da faca na liga (Liga?), não é que os sacavenenses tenham totalmente abandonado práticas antigas. Desse modo, provavelmente inspirados pelo mítico Manuel Serafim, foi possível observar que mantiveram o velho hábito de expôr rótulos bem conhecidos. Assim, não surpreendeu vermos um Iaquinta em tons de ébano ou um Job que mesmo que caia nas boas graças do Senhor dificilmente viverá 140 anos como o seu homónimo do livro bíblico. Ainda assim, a cópia não foi totalmente adulterada, tendo o Iaquinta dado um golo aos sacavenenses e o Job passado uma grande provação. (Houve até em tempos quem dissesse que o whisky de Sacavém não ficava a perder para o escocês, mas quem o disse não deve ter sobrevivido ao dia seguinte nem experimentado o que é uma cabeça num torno a comprimir-se.)

 

Manda contudo a prudência que não se ponha o carro à frente dos bois, que é como quem diz, em "sportinguês", a "roulotte" à frente do Mini. (O outro senhor é que tem um Ferrari d'arrasar.) Seja como for, o Sporting realizou ontem uma boa exibição e continua a demonstrar saúde. Prova disso, desde o início a nossa equipa cercou o último reduto sacavenense como se do quartel do RALIS se tratasse. E com bastante mais sucesso que os pára-quedistas de António de Spínola no 11 de Março, diga-se de passagem. Assim, logo a abrir, servido pelo Jovane, o Nuno Santos inaugurou o marcador. O mesmo jogador, pouco tempo depois, poderia ter ampliado a nossa vantagem, mas foi tanta a força e vitalidade que ficou logo a descoberto ter encontrado o ferro. Eis então que aparece o Joãozinho Caminhante ("Johnnie Walker", a.k.a. João Mário), que da sua cartola faz sair um (vidro de) tiro contendo um blend harmonioso com o requinte e estilo do seu Black Label. Só faltou a eficácia: a bola falhou o alvo por um grão. Grão a grão enche a galinha o papo, e o Nuno Santos que já andou pela capoeira do Seixal apanhou uma segunda bola e meteu-a no Coates para o segundo da noite. Logo a seguir, o Sporar embrulhou-se com a bola e as pernas de um jogador sacavenense. O árbitro se calhar também se embrulhou um bocado e mandou marcar um penálti. O Jovane não perdoou. Até ao intervalo não houve mais incidências de registo. 

 

No reatamento, o Sporting começou de forma igual ao primeiro tempo. Reatando a parceria luso-uruguaia que estabeleceu com o Coates, o Nuno Santos voltou a oferecer-lhe um golo. O coates mostrou cabeça fria e não desperdiçou. O Ruben Amorim entrou então em modo de experiências. Nesse sentido, deixou de trocar os pés ao Borja, o que também significou deixar de trocar os olhos aos espectadores. Infelizmente, os espectadores estavam todos à frente dos seus televisores, pelo que o Ruben não pôde ouvir "in-loco" a gratidão dos Sportinguistas. O Matheus foi então para a direita. Só para chatear, ele e o Coates ficaram ligados ao golo do Sacavenense. Simplesmente, se defensivamente a coisa não lhe correu lá muito bem - houve ainda uma tentativa sua de substituir o árbitro e assim entregar a bola ao Sacavenense à entrada da nossa área - , ofensivamente o brasileiro esforçou-se por procurar justificar a razão dos provérbios portugueses. Nessa forma de aculturização, começou por demonstrar que "não há duas sem três". A coisa teve a sua graça, na medida em que cada oportunidade que o Matheus criava era depois desperdiçada ao melhor estilo Benny Hill, a fazer também lembrar aqueles "bloopers" de futebol que as televisões portugueses nos servem para fazerem companhia ao bacalhau, perú e rabanadas no nosso Natal. Tudo se iniciou num passe do brasileiro que morreu quando Jovane foi impedido de chegar à bola por Sporar. De seguida, João Mário não teve cabeça para acertar na baliza vazia. Finalmente, Nuno Santos trocou os pés e a bola fez uma rosca e veio para trás. Desfeito o mito de que "à terceira é de vez", o brasileiro procurou estabelecer novos limites. E à quarta tentativa teve sucesso. Para o facto também ajudou já ter em campo um ponta de lança que pode ter "gap" mas não é um holograma: Pedro Marques. Com instinto matador na área (Sporar é essencialmente um jogador forte em transição, de apoios e desmarcações inteligentes nesse momento de jogo), o Pedro voltou a marcar. Aconteceu após uma incursão de Bruno Tabata pela meia esquerda ter apanhado o guarda-redes sacavenense desesperado para evitar o hara-kiri de um seu colega. No ressalto, o Pedro não perdoou. E já que falamos de Tabata, o jogo não terminaria sem que este colocasse a bola com precisão numa zona do terreno capaz de criar indefinição na defesa adversária, situação muito bem aproveitada por Gonçalo Inácio para se estrear a marcar oficialmente pelo Sporting.

 

E assim termina uma crónica que abordou whisky a granel e campeonatos a martelo. Ou vice-versa. É que pelo que se ouve e lê, se uns adicionavam alcool etílico, outros alegadamente juntam-lhe o alcool metílico (metanol). É que este arde e não se vê. Tal como o amor de Camões. Digam lá se não há como não amar o futebol em Portugal?...("To be, or not to be".)

 

P.S. Sete-a-um é um resultado que me faz lembrar o 14 de Dezembro de 1986. E mais não digo. "Time to sleep, perchance to dream". (Thanks Shakespeare, obrigado Manél de Sarilhos porque não se fazem Hamlets sem ovos.)

 

P.S.2 Um abraço aos briosos jogadores e staff do Sacavenense e às gentes de Sacavém, cidade presente em inúmeros momentos marcantes da nossa História de Portugal. 

 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Nuno Santos

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15
Nov20

Tudo ao molho e fé em Deus

A razão de Kant(é)


Pedro Azevedo

Não sei o que terá passado pela cabeça de Fernando Gomes para autorizar que um jogo decisivo da nossa selecção fosse marcado para lá das treze horas de um Sábado. Desse modo, os nosso jogadores mantiveram-se durante a maior parte do jogo confinados, saindo apenas para o cumprimento de um passeio higiénico por volta das vinte e uma e quinze, hora a que os franceses ainda se recriavam a seu bel-prazer no relvado da Luz. Antes porém, Rui Patrício já havia negado veementemente por duas vezes que a declaração do Estado de Emergência se traduzisse numa lei Martial. Não obtante, não houve emoção do guarda-redes português que pudesse  calar a razão de Kant(é). É certo que o Bernardo tentou contrariá-la, mas como diz o ditado o cântaro foi a Fonte e partiu-se (contra um poste).

 

Sem cão para passearem no relvado, os portugueses lançaram nesses últimos quinze minutos um Moutinho, a coisa mais parecida em moço marafado que temos com um perdigueiro. Este logo começou a afiar os caninos para abocanhar, um a um, os calcanhares dos gauleses e sacar a bola. Desabituados de não a terem, os pupilos de Deschamps por um momento perderam a compostura. Entretanto, o Jota já estava em campo, ele que compreensivelmente havia sido preterido pelo génio por quem uns madrilenos haviam pago 120 milhões para descobrir a cura da Covid-19. Já se sabe que isto dos milhões tem a sua influência, caso contrário os adeptos do Sporting não ficariam com a pedra no sapato ao ver Pedro Gonçalves relegado para o banco de suplentes dos sub-21 no jogo contra a Bielorrússia. Mas, lá está, por seis milhões e meio de euros o Pote só pôde inventar um remédio santo (que não Santos) para os calos dos Sportinguistas, patente não suficiente para demover Rui Jorge de o preterir em função de um emprestado benfiquista com zero minutos de utilização em Valladolid ou aqui. 

 

Estava eu a falar do Moutinho abocanhar e, vai daí, o Fernando Santos reforçou a dose com o Trincão. Recreando-se finalmente com bola, os portugueses ainda assim iam observando as regras do SNS. Nesse transe, o Cancelo isolou-se pela direita. A bola viajou toda a área gaulesa, mas Ronaldo, Jota e Ruben Dias alinharam em não lhe acertar. Foi (jogo do) galo! E o canto (Kant?) de cisne. 

 

Desconstruir o caos organizado que Fernando Santos trouxe para a selecção nacional não tem sido tarefa fácil para ninguém (creio que nem mesmo para o Engenheiro), muito menos para este Vosso autor que não é nenhum Agostinho da Silva. Tanto assim é que ontem provou-se que a sua compreensão só estaria ao alcance de um filósofo como Kant(é). Este soube perceber a realidade subjectiva do tempo e do espaço, bem como a sua interacção com a intuição, traduzindo-se isso na sua sensibilidade ao objecto bola como condição de pensamento e, por conseguinte, entendimento de todo o jogo, pelo que daí a ter (N')Golo foi apenas um pequeno passo. Por esta não esperava o Fernando, que ainda assim não deve ser criticado. É que se não houvesse do outro lado um Kant(é), outro galo provavelmente (não) Kantaria cantaria. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": João Moutinho 

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28
Set20

Tudo ao molho e fé em Deus

Cartão amarelo


Pedro Azevedo

Não sei qual o espanto da generalidade dos comentadores, mas se durante todo o fim de semana só se ouviu falar em cartão amarelo a propósito da actualidade do Sporting teria sido muito difícil isso escapar aos ouvidos do Fábio Veríssimo, não é verdade? É que estas coisas sempre influenciam um bocadinho. Outra coisa: desde o Rui Costa, os árbitros vão todos àqueles cabeleireiros onde lhes fazem um penteado à voleibolista americano dos anos 80 e 90 e à saída começam logo a ouvir piadinhas fáceis do tipo de "sim, senhor, bonito serviço, merece um cartão amarelo!". De seguida vão até Paços, cidade conhecida por o clube da terra ser um submarino amarelo daqueles à portuguesa que já não submerge e anda sempre na linha de água. Como um árbitro gosta sempre de dar nas vistas, um amarelo aos pacenses quase nem se nota, não faz contraste. Vai daí, aponta para o lado, que no caso é verde e branco. Só assim se explica que quem comete 18 faltas escape com 2 amarelos e quem infringe a regra uma dúzia de vezes apanhe com meia-dúzia de admoestações de tom icterícia. É  a mesma razão que justifica o Benfica raramente vêr cartões vermelhos. A excepção só está ao alcance de árbitros daltónicos. E o daltonismo no futebol português não costuma augurar grandes vôos...

 

Por falar em amarelo, quem não se deixou levar em cantigas foi o Ruben Amorim. Sabendo que os eslovenos andam habitualmente de camisola amarela (Tour), não quis arriscar colocar de início o Sporar contra o Paços para não ficar em inferioridade numérica. Perspicaz, o nosso treinador! Assim, o Tiago Tomás foi titular. E não se deu mal. Se é verdade que a abrir falhou um golo cantado, de seguida engendrou uma sofisticada carambola bilharistica que aprendeu com o Theriaga numa daquelas acções de "team-building" leoninas e levou a bola por fim a embater na mão de um incauto pacense que cometeu a ingenuidade de pensar que se podia usar os braços mesmo fora do enquadramento da baliza. O Totói, do União de Tomar dos anos 70, neste futebol actual seria um craque...

 

Quem passa o tempo a esbracejar é o Neto. Já sem o avô (Mathieu) em campo, entretanto reformado, o único que o atura é o Coates. É que o homem, de cada vez que tem a bola nos pés, pensa em 1906 coisas ao mesmo tempo, tempo mais do que suficiente para um adepto em casa sobreaquecer as sinapses antes do nosso defensor acabar por despachar a bola à queima. E, quando não tem bola, geralmente fica a contemplar a sua trajectória, esperando que o pronto-socorro uruguaio faça o resto. Em todo o caso, não há lance por si protagonizado que não acabe em recriminação a alguém. Menos a ele próprio, claro. Dizem que é sintoma de liderança...

 

Anda por aí muito boa gente a embirrar com o Matheus Nunes. Coitado do rapaz, já provou nos sub-23 o que pode fazer com a bola nos pés. Acontece que não é isso que o Ruben lhe pede nos seniores. E ele lá vai fazendo o que lhe é pedido, o que não será o melhor para ele, mas será certamente o que fará mais sentido à equipa na ideia do Ruben Amorim. E, como este não o tira, admitamos que se calhar está a fazê-lo bem. Ontem pelo menos correu o campo todo. Ele e o Wendel. Ambos sem o brilhantismo de um Porro ou de um Nuno Mendes, há que dizê-lo, mas com grande utilidade para uma equipa onde na tracção atrás o Vietto não engrena a marcha. 

 

Mas o Homem do Jogo foi o Coates. Poemas homéricos deveriam ser elaborados sobre a exibição do uruguaio ontem na cidade do móvel. Em tempo de pandemia que recomenda o uso de máscara, o homem parece viver sob o efeito do Mask do Jim Carey, transfigurando-se, com elasticidade desdobrando-se à esquerda e à direita consoante as desatenções dos homens que lhe colocaram ao lado. Na ausência de um ponta de lança, investindo-se ele dessa qualidade. E é verde, obviamente. E grande capitão! Se há quem tenha beneficiado do sistema de 3 centrais para dar um salto de qualidade, esse jogador é Sebastián Coates, El Patrón! 

 

Como o futebol não é só luta e é também arte em movimento, deixem-me destacar para o fim o Daniel Bragança. Pobre do Eustáquio, que ainda deve estar a perceber "o que passou-se" quando o menino lhe passou a bola por cima da cabeça e foi buscá-la mais à frente. Passo a passo, ou paço(s) a paço(s), o miúdo vai mostrando o valor de quem habita a nobre residência leonina sita em Alcochete. E, no entretanto, evidenciando que a celebérrima teoria do "gap" da Formação foi um passo no caminho para o abismo que nos fez ingloriamente perder 1 ano (e muitos jogadores que poderiam estar aqui). 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Sebastián Coates. Vamos!

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17
Set20

"Coitados dos gregos" e o "Cavalo de Tróia"


Pedro Azevedo

Era uma vez uma Cartilha de João de Deus dos pobres de espírito distribuída por um senhor que anteriormente havia ficado tristemente conhecido por infelizes analogias que envolviam padres, vulgo Alegoria da Caserna, alegadamente contidas em emails que supostamente trocara com outros interessados na causa. Lendo essa cartilha, o mesmo senhor, eufórico e possuído de uma razoável dose de soberba, entoava loas ao sonho de expansão europeísta e antecipava o fim de uns gregos pelos quais mostrava até antecipadamente alguma compaixão. Acontece que o que era sonho virou pesadelo e caiu aos pés do "Cavalo de Tróia" de onde saiu Zivkovic, para o efeito investido de um Aquiles sérvio mergulhado de olhos fechados em menino no Danúbio e cuja única vulnerabilidade conhecida (oftalmológica) se revelara recentemente sob injustificado apedrejamento por uma horda irada, desavinda e criminosa. Agora, desacreditado enquanto orixá e desbancado do pedestal que outrora partilhara com uma enfurecida Hera protectora dos gregos, de nigromante transformado em agoureiro, restará ao senhor cartilheiro um papel menor no coro das Testemunhas de Janelá que discretamente ainda andará por aí. É, por isso, caso para se dizer: coitado do "troiano"!

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05
Set20

Tudo ao molho e fé em Deus

Baywatch - Marés Vivas


Pedro Azevedo

A "silly season" dos clubes portugueses assemelha-se a uma versão futebolística do "Baywatch". Por exemplo, com eleições à porta no Benfica, Luís Filipe Vieira procurou um salva-vidas no Uruguai. Assim, tendo metido água com Cavani, esbracejou apressadamente para Darwin. Em teoria é o que se chama uma selecção natural, facto científico e como tal irrebatível para a sua oposição. Já o Boavista foi ainda mais longe. À procura de uma bóia de salvação, não podendo contar com a estrela da série, Pamela Anderson, contratou o seu antigo marido, o francês (e campeão do mundo) Adil Rami. Temo, porém, que não fique tão bem nas repetições em "slow motion" (enfim, há gostos para tudo). Quem tem procurado um salvamento do "fair-play" financeiro é o Porto. Ainda assim, para além de uma Zundapp foram comprar um persa. Já se sabe, futebol é farsi... Entretanto, chegámos a Setembro. Em mês de marés vivas, ajuda sempre haver mais um nadador Salvador. Menos, claro, se este der uma de Cobrador do Fraque numa área onde habitualmente se anda de tanga. (Bom, na verdade, eu penso que seria de bom tom que pelo menos se usasse uns calçõezinhos.)

Boas ondas! 

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22
Jul20

Tudo ao molho e fé em Deus

O Jovane não decidiu (mal)


Pedro Azevedo

Entediado com o tipo de jogo sensaborão que o Lito Vidigal sempre proporciona, entretive-me a ler um estudo da Katherine Berg, professora do Departamento de Terapia Física da Universidade de Toronto. A Katherine é especialista em geriatria e elaborou uma escala. A escala de equilíbrio de Berg é um teste clínico que visa determinar o equilíbrio estático e dinâmico de um indivíduo. Compreende 14 tarefas de equilíbrio simples, cada uma pontuada de 0 a 4. Apresento-vos as conclusões: se o resultado final for entre 41 e 56, considera-se que o indivíduo é independente no que respeita à mobilidade; caso oscile entre 21 e 40, então o indivíduo necessitará de assistência para andar; na eventualidade de ser igual ou menor que 20, determina-se que o indivíduo é um Semedo ou um Makaridze.

 

Eis como lendo um livro se pode aprender sobre o que se passa num relvado de futebol. Pensei logo no Chico Geraldes e que isso também funcionaria bem com ele. Bem, talvez com menos Ensaio sobre a Cegueira e mais Ensaio sobre a Lucidez a coisa vá lá. Ou mesmo - porque não? - , ensaiar o remate. (Chuta rapaz, se não de nada adianta puxar aqui por ti.)

 

O Sporting tinha hoje um primeiro match-point para garantir o 3º lugar que dá acesso directo à fase de grupos da Liga Europa. Mas o que Artur Jorge (pai) e companhia deram, Artur Jorge (filho) e companhia tiraram, e lá iremos para a última jornada a precisar de pontuar na Luz não vá o diabo tecê-las na Pedreira e o Porto sair de lá derrotado. O Vitória, que é sadino mas não e sádico, é que não desperdiçou a oportunidade de melhorar a sua situação (saiu da "linha de água") e agora basta-lhe vencer o Codecity, a SAD que usa o nome d' Os Belenenses, para permanecer na Primeira Liga. Quanto ao Portimonense, que também é uma SAD, até uma vitória sobre a SAD que ameaça não comparecer em Portimão poderá não lhe valer. Atenção porém que estes últimos são Aves e de rapina, como tal até a Taça de Portugal ganha contra nós voou. Como diria um amigo meu inglês, a história das SAD em Portugal é "sad". A da Liga também. Muito.

 

O jogo não foi bom nem mau (antes pelo contrário), o Pentágono do Ruben Amorim não é bom nem mau (antes pelo contrário) e os jogadores que enquadram os jovens não são bons nem maus (antes pelo contrário). Já este autor que Vos escreve também não deve ser bom para alguns situacionistas ou cartilheiros (hoje há horas extraordinárias aí no escritório?) quando escreve o que vê antes dos resultados se desvanecerem, nem mau quando se cala hoje perante evidências que já não pode contrariar (antes pelo contrário). São muitos anos a virar frangos (lembram-se do Katzirz?). Assim, sem mais assunto, após esta longa elegia ao Gabriel Alves, saúdo um novo equipamento que não é bom nem mau (antes pelo contrário) e os 200 jogos do Coates, que é um bom profissional. Ah, quase me esquecia: o Nuno Almeida não é bom nem mau (antes pelo contrário). O Xistra idém, mas pelo menos já está reformado. Pelo contrário, quem hoje deixou saudades foi o Jovane. Muitos tiveram pena que não jogasse, especialmente aqueles que embirram com ele e não perdem uma oportunidade de dizer que decide mal. Pois bem, hoje não decidiu de todo.

 

O mal disto tudo (da formação dos plantéis) é a contabilidade das SAD. Então não é que uma venda entra toda direitinha e uma compra só releva pela amortização do número de anos do contrato? Assim, não há austeridade ou bom senso (e bom Scouting) que impere, ou défice estrutural que assuste uma Demonstração de Resultados, basta vender caro. Depois, compra-se igualmente caro e divide-se por muitos anos de contrato. Eis a essência desse dinheiro cripto ou encriptado para a maioria dos adeptos. Fácil, não é? Quarenta e cinco milhões para aqui, cento e vinte milhões para ali, consoante o escalão de hard-core. Difícil mesmo é haver um Bruno Fernandes com um rendimento desportivo superlativo em qualquer palco, que vale cada cêntimo que se pague por ele. Mesmo que isso apenas represente uma perna do Felix. Assim vai o futebol (português e não só). 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Marcos Acuña

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17
Jul20

O amor acontece (Love Actually)


Pedro Azevedo

O filme começa (prólogo) com a voz do "primeiro ministro" narrando que cada vez que fica deprimido com o estado da nação (lampiânica) pensa no terminal de chegadas do Aeroporto de Lisboa e no amor com que amigos e famílias recebem os seus entes queridos. Enquanto a realização nos dá a vêr excertos avulsos desses reencontros, a narração é entrecortada por "Wouldn`t it be nice" dos Beach Boys.  A fita evolui então para a "história de amor" entre Jorge e Luís.

 

O primeiro acto aborda a aposta arriscada que Luís fez em Jorge há 11 anos atrás, o "big break" da carreira do veterano treinador até aí sempre afastado dos grandes palcos. Preparando o novo enlace, a cena é acompanhada pela audição de "Christmas is all around", um "cover" canastrão de Love is all around dos Wet, Wet, Wet.

 

O segundo acto narra o "casamento" entre Jorge e Bruno e os ciúmes sentidos por Luís durante esse período. O divórcio esteve para ser litigioso, mas no fim um acordo acabou por ser selado. Um pungente "Bye bye baby (baby goodbye)", tocado pelos Bay City Rollers, acompanha o enredo.

 

O terceiro acto centra-se em Luís e Rui e como o primeiro voltou a ser feliz, apesar de um primeiro encontro que não pareceu muito prometedor. Dois anos de extrema alegria, esfusiantemente passados para o ecran ao som de "All you need is love". No entanto, ao terceiro ano a relação começa a ter os seus percalços e da ameaça de adultério ao divórcio foi um pequeno passo (ou luz). O realizador ilustra esse doloroso momento com o soberbo "Both sides now" de Joni Mitchell.

 

Epílogo: após breve quimera vivida com Bruno Lage, Vieira volta a aproximar-se de Jorge e... o amor acontece. Jorge Jesus regressa a Portugal, por entre anteriores juras de amor do tipo "o bom filho a casa torna", terminado o seu exílio forçado nas arábias e no Brasil, e tem um reencontro emotivo no Aeroporto de Lisboa com Luís Filipe Vieira. Ao longe, em ruído de fundo, os Beach Boys tocam "God only knows"... (Entretanto, em suas casas, os benfiquistas socorrem-se do sal para engolirem o sapo.)

 

P.S. Baseado num texto originalmente publicado pelo autor em "És a nossa Fé". Para melhor aproveitamento deste "filme", aconselha-se que a leitura de cada parágrafo seja acompanhada pela audição do(s) temas musical(ais) nele inserido(s). 

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11
Jul20

Tudo ao molho e fé em Deus

Jovane resolve!


Pedro Azevedo

Em "Repeated games with incomplete information", os matemáticos Robert Aumann, Michael Maschler e Richard Stearns, que contratados por uma agência governamental americana elaboraram estudos e estabeleceram padrões úteis nas negociações sobre desarmamento durante a Guerra Fria, explicam que quando as pessoas interagem, elas usualmente já o fizeram no passado e é esperado que o voltem a fazer no futuro. Este elemento de continuidade é estudado na Teoria dos Jogos Repetidos e visa prever fenómenos como cooperação, altruísmo, secretismo, confiança, castigo ou vingança. O ponto principal do livro é que há informação vital que pode ser retirada da acção de um jogador, sendo certo no entanto que por vezes o jogador pode esquivar-se a tomar certas acções de forma a evitar essa revelação (exemplo típico do póquer). Sendo altamente provável que Aumann, Maschler e Stearns não conheçam o futebol português, desconhecerão por certo que as conclusões do seu trabalho se aplicariam na perfeição à arbitragem portuguesa a ao Coates ("os jogadores"). Ao uruguaio, na medida em que erroneamente interpretou o sinal de que nada lhe serviria cair ao chão após um agarrão (Moreira de Cónegos) e no jogo de ontem libertou-se de quem o agarrava e cabeceou a bola para logo ser sancionado pelo árbitro, sendo assim sempre prejudicado independentemente do comportamento adoptado. Aos árbitros, porque transmitem informação contraditória e enganadora, ora não punindo um agarrão ao Coates e sua posterior queda na grande área do Moreirense, ora punindo o Coates por se ter libertado de um agarrão na grande área do Santa Clara. Tudo isto traz à colação a atitude tomada por Lorde Rothschild na Bolsa de Londres, em que, antecipadamente sabendo por um dos seus informadores da vitória do Duque de Wellington na Batalha de Waterloo, mandou o seu homem de confiança vender acções (criando a percepção nos especuladores de que os ingleses haviam perdido a batalha e provocando o pânico de venda no mercado) enquanto simultaneamente encomendava a múltiplas pessoas cuja ligação a si era por todos desconhecida que comprassem em baixa o máximo possível de títulos accionistas. Conclusão: em Portugal há sempre um vasto conjunto de agentes que contribuem para que os jogos do Sporting se repitam sempre com informação incompleta, aquilo a que os comentadores do fenómeno depois traduzem por critérios. Por isso, se calhar a solução é o Coates posicionar-se à entrada da área, fingindo que vai participar no lance e concentrando em si as atenções, para posteriormente alhear-se enquanto outros colegas atacam a bola. É que não temos Lorde Rothschild, mas fomos fundados por um visconde...

 

A primeira parte foi sofrível, de um futebol quase sem balizas. O Sporting devia ter marcado por Doumbia - o costa-marfinense quase era herói, ele que lateralizou e passou a bola para trás 99% do tempo - naquele lance em que Coates esteve envolvido, e o Sporar voltou a falhar escandalosamente um golo cantado pelo Jovane, à semelhança do já ocorrido com o Paços. O Santa Clara pouco fez também, mas quase se adiantou no marcador mesmo no fim da primeira parte. O intervalo chegou sem mais nada a registar. No regresso, tomámos o controlo das operações. Por duas ou três vezes o Quaresma isolou o Ristovski na direita e por duas ou três vezes o macedónio cruzou mal. Até que acertou, mas o excesso de altruísmo do Nuno Mendes acabaria por resultar em falta de eficácia. O Jovane lá ia criando os envolvimentos dentro da área, mas na hora da verdade sempre aparecia um pé açoriano a desviar a bola. Eis então que o Wendel faz um passe longo para as costas da defesa açoriana, a cair sobre a quina da pequena área. A bola parecia perdida, mas o Jovane, mesmo apertado, ataca-a e com o pé esquerdo põe a bola junto ao ângulo superior da baliza. Um golão! 

 

O Jovane marcou assim o seu quinto golo pós-desconfinamento. Dos seus pés saiu ainda uma assistência para um golo em Guimarães e o toque subtil de calcanhar de onde resultou uma penalidade e golo contra o Tondela, num total de 7 acções preponderantes para os 11 golos marcados pelo Sporting (63,6% de participação nos golos) neste período. Isto para além de uma série de passes para golo ingloriamente desperdiçados pelos seus colegas (só entre Vietto e Sporar já se perderam meia-dúzia). Por isso, quando as bancadas do José Alvalade puderem voltar a estar repletas de público, é possível que o espírito de Liedson se possa reviver num cartaz que diga "Jovane resolve!" (repeated games). Essa seria a única informação (completa) em que poderíamos confiar.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Jovane Cabral. Menções honrosas para Wendel, Quaresma, Nuno Mendes e Acuña. O argentino ajudou a ligar o jogo desde trás, experimentando mais uma posição no onze, mas acabaria uma vez mais por ser vítima da sua própria impetuosidade e vai ficar fora do jogo no Dragão (para um jogador do Sporting "à bica" do quinto amarelo o que parece sempre é, e essa é a informação vital que se pode retirar da acção de outros "jogadores").

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07
Jul20

Tudo ao molho e fé em Deus

O Restaurador Olex e a dura lex, sed lex


Pedro Azevedo

Jogo na segunda-feira às 9 da noite, em Moreira as bancadas estão vazias mas há uma varanda desconfinada sobranceira ao estádio onde o distanciamento social é uma ilusão. Sem praia, também o Portugal rural a mandar às couves as recomendações da Drª Graça Freitas. No relvado a coisa parece um concerto dos Stomp em que tudo serve para martelar. Não há canelas, tornozelos, tendões de aquiles ou dedos dos pés que resistam. Dois canhotos, Abdu Conté e Borja, são os líderes metaleiros. Só os guarda-redes parecem a salvo. Mas eis que o treinador do Moreirense entra na festa:

- Pasinato, ó Pasinato! - , grita para o relvado o Ricardo Soares.

- Sim, mister?

- Atira-te para o chão! Para o chão!

- E dói-me o quê?

- O gémeo. (Ricardo Soares caricatamente contorce-se e simula um boneco desarticulado por uma pretensa força que incide sobre a barriga da sua perna.)

- Ah, ok!

Paragem interminável do jogo de forma a que Steven Vitória possa aquecer à vontade e o treinador engendrar um novo sistema táctico que resista à inferioridade numérica. Tudo à vista de toda a gente, sem vergonha, na segurança da sua impunidade. Bem podia ser uma Farsa de Aristófanes, mas não, é o futebol português em todo o seu "esplendor" (caro Fernando Gomes, esta a ver porque o produto não é exportável?). O mesmo futebolzinho onde depois do martelo vem a foice e o Jovane é cortado rente como a seara dentro da área moreirense perante o olhar indiferente de Tiago Martins e o silêncio conivente de Jorge Sousa, o VAR de plantão. Tudo paradigmas da ideologia "comunista" que ontem grassou em Moreira, acérrimamente defensora da igualdade e da co-propriedade (dos pontos).

 

O jogo? Em terra de cónegos é possível que o "Diácono Remédios", habitual zelador dos costumes das tácticas neste blogue, se venha politicamente manifestar, mas o estimado senhor que tenha paciência pois a verdade é que ontem foi de novo visível que, com 2 médios jogando muito perto um do outro, o fosso para os 2 interiores que jogam por detrás do ponta de lança é enorme, o que leva sistematicamente a circularmos a bola em "U", procurando assim através da Ala dos Namorados flanquear o opositor. A alternativa é o recúo dos interiores, ficando então Sporar numa ilha, longe de tudo e de todos. É curto, embora pontualmente a inspiração de um jogador possa resolver. Ultimamente esse jogador vinha sendo o Jovane, isto é, o Jovane que não é loiro nem branco de carapinha e é natural (a marcar golos) como o Restaurador Olex. Mas esse não esteve ontem em Moreira de Cónegos. O Max também poderia não ter estado, visto que não foi chamado a realizar uma defesa. Pelo menos a remates de jogadores do Moreirense...

 

Desta vez jogaram menos miúdos. Com isso vieram à superfície algumas limitações no plantel. Atente-se no Neto. O Neto é bom rapaz, respeitador do clube e da sua história, mas precisa compreender que não tem de ler toda a enciclopédia luso-brasileira antes de fazer um passe. Outro mestre na arte de engonhar na hora da saída de bola é o Borja. O colombiano, naquele seu jeito vai-que-não-vai com passes laterais dentro da área à mistura, provoca calafrios constantes ao bom do adepto. Ontem safou-se de boa após entrada imprudente e pouco católica sobre um cónego. Depois há o Ristovski, sempre a cruzar contra o primeiro boneco que lhe apareça pela frente. A coisa só melhorou quando o Acuña foi improvisado como central pela esquerda, o Nuno Mendes alargou na ala e estendeu-se ao comprido de forma literal e não idiomática e o Wendel entrou e começou a transportar jogo para a frente. 

 

Com os descontos, o Sporting esteve cerca de 45 minutos em superioridade numérica no relvado. Sensivelmente meia-parte em que a bola circulou lenta, lentamente como quem clama por praia em jogos com trinta graus à sombra. O Sporting não tinha sido melhor que o Moreirense na primeira parte e não soube traduzir o domínio no segundo tempo em oportunidades de golo. Talvez se o Geraldes não se tivesse lesionado as coisas pudessem ter sido diferentes, na medida em que houve vários momentos do jogo em que um passe de ruptura e uma superior visão de jogo teriam feito a diferença. De outro modo ficámos com pouco de que nos queixar. Ou ficaríamos, pois tempo ainda houve para o momento de dramatismo em que o Tiago Martins foi ver umas imagens e concluiu que o agarrão ao Coates fazia parte das leis do jogo ("dura lex, sed lex"). Mas quem nada propôs e nenhuma medida se lhe conhece até hoje para alterar este paradigma do futebol português também pouca moral tem para reclamar. Afinal, de que serve esgrimir argumentos contra os moinhos como D. Quixote de segunda-feira enquanto os outros enchem a pança? (A UEFA e a FIFA é que parecem não ter dúvidas sobre a sua qualidade, pelo menos a atestar pela ausência nos relvados dos árbitros portugueses nas ultimas competições internacionais de seleções organizadas por esses dois organismos que superintendem o futebol.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Wendel. Menções honrosas para Coates e Nuno Mendes. 

 

P.S. Uma coisa é termos a consciência da grandeza histórica do clube, daquilo que somos, o que é Ser Sporting. Outra coisa, bem diferente, é os adeptos embandeirarem em arco e, perante o silêncio conivente de uma Direcção que vê nessa ilusão uma forma de sobrevivência, começarem a acalentar o sonho do título em 2020/21. Isso só trará desilusão e consequente instabilidade social ao clube, pelo que é importante haver desde já um discurso de verdade por parte de quem é competente para o efeito. É preciso perceber que há que ter paciência com os miúdos e dar-lhes margem para errarem e crescerem. Simultaneamente, não havendo dinheiro para satisfazer todas as posições em défice, há que definir prioridades de mercado e procurar apenas qualidade. Ao mesmo tempo, urge libertar a folha de pagamentos de imensas redundâncias que nada acrescentam em campo e tantos constrangimentos criam à nossa tesouraria e conta de exploração. É impossível resolver o problema de falta de jogadores de referência em apenas 1 ano, mas se resistirmos a ir ao mercado em quantidade como no passado recente e procurarmos apenas qualidade de uma forma efectivamente cirúrgica (2-3 jogadores por ano), fazendo também regressar alguns dos emprestados (Bragança, Dala), então será possível lutarmos pelo título até ao fim em 2021/22. Portanto, duas coisas serão essenciais no futuro próximo: manutenção de expectativas baixas associadas ao crescimento dos miúdos e escolha criteriosa da qualidade que queremos importar para o plantel. Se estas premissas não forem cumpridas e o populismo se sobrepuser à razão, então teremos definitivamente comprometido o nosso futuro. Mas se tudo for cumprido, então estarei disposto a apoiar esse caminho. 

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03
Jul20

Tudo ao molho e fé em Deus

Jogo do Galo


Pedro Azevedo

Geralmente fico muito nervoso antes de um jogo, porém na antecâmara da recepção ao Gil Vicente senti-me bastante confiante. Bem sei, havia condicionantes de peso. Por exemplo, um impressionante surto de bife chorizo afectara o Acuña, o Jovane estava fora devido a um traumatismo (nos resultados dos nossos adversários) e o Geraldes por um triz não conseguira acabar um dos primeiros capítulos do Levantado do Chão, mas nada abalava a minha certeza de que o resultado nos seria favorável. E porquê? Bom, toda a gente sabe que cada partida da equipa de Barcelos é um Jogo do Galo. Ora, como a táctica do Ruben Amorim privilegia os três em linha (centrais), a coisa estava no papo. 

 

Este futebol pós-desconfinamento é muito sui generis, com os adeptos que habitualmente marcam presença nos estádios a verem-se obrigados a assistir pela televisão, em casa ou nos cafés. Procurando transpor por meio virtual as emoções usualmente vividas no José Alvalade, o meu grupo de bancada decidiu reunir-se à hora do jogo no Zoom. A ideia em si tinha tudo para bater certo, com 8 marmanjos de cachecol e fundos virtuais representando o nosso estádio a procurarem dentro do possível replicar as condições do futebol ao vivo. O problema é que a velocidade da fibra varia de lar para lar, pelo que passa a ser possível festejar golos do Sporting em ataques do Gil Vicente e contestar penáltis em lances disputados a meio-campo. Mais arreliador, o enfado com cada nova intervenção do Camacho pode distar 10 a 15 segundos entre cada lar, o que contraria o habitual uníssono. Nada portanto como um espectador desconfiado para lidar (rimar) com um futebol desconfinado.  

 

Foi assim com este enquadramento no meu computador que comecei a assistir ao jogo no televisor. E devo dizer que fiquei boquiaberto. Tanto que até liguei para a MEO. Então não é que a minha fibra é tão, tão lenta que até jurei ver em campo o Damas, o Jesus Correia, o Peyroteo e o Balakov? Um glorioso regresso ao passado em tempo de Regresso ao Futuro? Deixa ver, talvez com o botão do "fast forward"...

 

A primeira parte foi um bocado o que a bola deu e a bola deu para o Plata a levar aos soluços até à linha de fundo e mandá-la para trás. O Sporar dividiu-a com um gilista e o Wendel prensou-a num adversário a caminho da baliza. Estávamos na frente do marcador. Celebravam-se 114 anos de vida do nosso enorme clube e o Plata, isolado, voltou a regressar ao passado. Desta vez até antes da nossa fundação, mais concretamente ao dia 11 de Janeiro de 1906, véspera da data em que o International Board introduziu uma alteração às regras que passou a permitir o passe para a frente. O Gil é que não se deixou enganar e tentou resolver no presente, mas o Damas a.k.a. Max não estava pelos ajustes e por duas vezes negou-lhes o golo que não o galo.  

 

Gostei muito mais da nossa equipa no segundo tempo. Logo a abrir, o Plata, muito activo, isolou o Wendel. Este lá foi para a baliza, fiél ao princípio que o caminho se faz caminhando. Caminhar até caminhou, mas marcar não. Talvez porque o golinho se faz goleando e não caminhando. Uma questão de eficácia. O Sporting pressionava alto (fazendo campo pequeno) e entre campos um gilista assustado procurou livrar-se da bola para trás de qualquer maneira. O Plata agradeceu o presente de aniversário e tocou para o dois-a-zero. Porem, a noite não acabaria sem três momentos singulares. Tudo começou (78 minutos) quando o Matheus Nunes recuperou uma bola e foi progredindo, ora fintando dois para a esquerda, ora driblando os mesmos dois para a direita, até passar a bola ao Wendel. Este tocou para o Borja que de pronto lhe devolveu a bola. O brasileiro tocou para o Sporar, este para o Doumbia, o marfinense para o Ristovski e este para o Plata. A bola ainda chegou ao Wendel até ser perdida. No total foram 30 segundos de "tricô-traça" com as linhas com que se cose o actual futebol do Sporting. A deixar água na boca quanto ao desenvolvimento desta equipa. Por falar em líquidos, o Tiago Tomás e o Joelson deram razão às preocupações da Direcção Geral de Saúde com os ajuntamentos de jovens à noite. Lá se safaram da multa, porque não conseguiram o golo (ou gole). Mesmo no fim, sem ter justa causa para isso, o Ruben Ribeiro marcou-nos um golo. Porém, tal como já nos habituou, o resultado da sua acção foi inconsequente para nós, com o Sporting a conseguir a sua quarta vitória consecutiva em dia de aniversário. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gonzalo Plata. Menções honrosas para Matheus Nunes (qualidade com e sem bola), Wendel (1 golo), Coates (patrão), Nuno Mendes (revelação) e Max (segurança).

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