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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

10
Fev21

Tudo ao molho e fé em Deus

Coates e a razão hegeliana


Pedro Azevedo

Hegel disse um dia que a história se repete sempre. Se dúvidas houvesse sobre esta afirmação do filósofo alemão, o jogo com o Gil tirou-as de uma forma inequívoca. Retratando-o, à semelhança do que havia ocorrido na primeira volta, no relvado mais uma vez o Sporting se viu manietado na ligação entre os médios centro e os interiores, esteve em desvantagem no marcador e só melhorou após recorrer à largura que lhe proporcionou a alternativa do jogo exterior. Cá em casa, o ritual também foi repetido, entre picos de tensão a cada perda de bola nossa, mudanças estratégico/supersticiosas de sofá (o treinador de bancada e seus alhos à Oliveira...) e um desfibrilador sempre por perto não fosse a coisa no fim vir a dar galo.

 

Se a sensação de "déjà vu" esteve sempre presente como quartinho dos fundos no cognitivo dos Sportinguistas, a atenção imediata virou-se para a diversidade e plasticidade das formas geométricas que evoluiam no relvado, cuja riqueza merece o desenvolvimento que espero não Vos vir a maçar. Assim, se o Sporting iniciava a construção através de um pentágono formado por 3 centrais e 2 médios-centro, o Gil respondia com um triângulo que circunscrevia os nossos médios. E como muitas vezes os leões procuravam conduzir a bola pelo meio, a equipa de Barcelos, ciente de que Antunes dava pouca profundidade pelo lado esquerdo e como tal não era um factor de risco, fazia deslocar interiormente o seu avançado do lado direito para formar então um quadrado de pressão a emparedar a defesa e linha média leoninas. Já o avançado do lado esquerdo tinha uma outra missão: encostar à ala e assim procurar travar a progressão de Porro, de forma a que a linha de 5 defesas gilistas não afundasse no terreno e pudesse apertar por dentro quaisquer espaços entre-linhas que Pote, Paulinho ou Nuno Santos pretendessem explorar. Com tudo isto, a nossa circulação estagnou, reatando-se apenas nos fugazes momentos em que Matheus Nunes quebrava linhas de pressão em posse e combinava com o pivô do ataque ou que Porro conseguia fugir ao estrangulamento imposto no corredor e entrar em diagonais para o centro com o intuito de aplicar o seu forte remate. Para além de curto, este fluxo revelar-se-ia também ineficaz, porque Paulinho era apanhado em fora de jogo ou escorregava no momento da recepção da bola após o desequilíbrio estar criado, ou na medida em que não se pode esperar que pontapés de 30 metros entrem em todos os jogos. Para piorar a situação, se de uma perda de bola de Palhinha resultou um primeiro aviso que se consubstanciou numa dupla-oportunidade no mesmo lance para os gilistas, à segunda o Gil Vicente marcou mesmo depois de Feddal não ter alinhado por Coates e Antunes se ter esquecido de acompanhar a progressão do japonês que literal e lateralmente lhe "fugiu de moto" (Fujimoto). Com tudo isto, o Sporting ia para o descanso em desvantagem. Não porque a equipa não tivesse querido correr, ilusão que admito se tivesse momentaneamente instalado, mas essencialmente porque o bloqueio imposto pelos gilistas impedia que o Aston Martin leonino tivesse auto-estradas para acelerar. 

 

Na etapa complementar tudo mudou. Desde logo porque Rúben Amorim ao intervalo acrescentou largura à equipa, baixando Nuno Santos para fazer todo o corredor. Também na medida em que essa não foi a única alteração estrutural, visto que a substituição de Neto por Inácio não foi apenas uma mera troca de defesas e teve como consequência uma melhor saída de bola pelo lado direito, que criou incerteza e permitiu a Porro libertar-se mais por esse flanco. Coincidentemente, o Gil baixou bastante as linhas, não sei se por falta de ousadia ou cansaço físico (a disponibilidade nesse capítulo da nossa equipa impressiona). Com o seu avançado pela direita a ter de se preocupar em fechar a ala das investidas de Nuno Santos, aos de Barcelos começaram a faltar entreajudas no meio. O Sporting começou então a construir 20 metros à frente. A pressão intensificava-se e Matheus, que conjuntamente com Porro até estava a ser um dos melhores mas já tinha um amarelo, saiu para entrar o Bragança. Com a sua qualidade de fintar e circular em cabines telefónicas, o jovem da nossa Formação ia atraindo gilistas ao centro para depois criar superioridade numérica nas alas ou jogo entre-linhas. Acontece que a desinspiração dos nossos avançados foi adiando o golo: Paulinho (por duas vezes), TT e Pote desperdiçaram 4 soberanas oportunidades. Desesperava-se pela entrada de um jogador como Jovane que trouxesse criatividade e imprevisibilidade na área, mas Rúben optaria por mais progressão na saída de bola pela esquerda (Matheus Reis, com pouco ritmo, por Feddal) e refrescamento do meio-campo (João Mário por Palhinha). E a verdade é que acabaria por ser feliz, empatando após a ressaca de uma pouco ortodoxa bola centrada de uma zona praticamente perpendicular à baliza e ganhando o jogo na sequência de uma bola parada. Na finalização de ambas, um defesa para o efeito investido de avançado-centro, "El Gran Capitán Barba Rossa". Na sua origem, o Porro, o tal jogador que, alternativamente a Paulinho, poderia ter saído para a entrada do cabo-verdiano (nessa circustância encostando-se TT à ala como na recepção aos gilistas, jogo em que terminámos com um WM), sortilégios que expuseram a gloriosa falta de certezas de um jogo de futebol em toda a sua essência. 

 

Com esta vitória, o Sporting alargou para, respectivamente, 8 e 11 pontos a distância para Porto e Benfica. Num mundo normal isto seria um redobrado motivo de satisfação. Acontece porém que o futebol português e as suas polémicas têm um desvio-padrão significativo face à normalidade. Regressemos então à perspectiva hegeliana de que a história se repete e pensemos no caso Palhinha como a espada de Dâmocles outrora usada com êxito sobre Slimani. Aprendamos algo com isso e não nos deixemos desconcentrar. Porque, razão tem o Amorim, o foco tem de estar exclusivamente no "jogo a jogo". E só nisso. Por muito que doa a quem vá procurando semanticamente, semana após semana, novas formas (neste caso não-geométricas, mas cartesianas) de colocar a mesma pergunta: - "Lidera, logo é candidato?". Não, candidatos seremos sempre a ganhar... o próximo jogo. E, já agora, também, em casa, com umas ventosas (eléctrodos) ligadas ao Holter, a desembrulhar o desfibrilador...

 

Um bom dia para todos os Sportinguistas.

 

Tenor "Tudo ao molho...": o grande capitão Seba Coates. Já não tenho encómios e sobejam-me as emoções de cada vez que procuro descrever o apreço e gratidão que sinto pela sua conduta enquanto jogador e homem. Também ele me parece replicar os grandes capitães da nossa gloriosa história. A propósito, no fim do jogo gostei de ver o cabo(verdiano) Jovane abraçado ao seu capitão, sinal inequívoco do bom ambiente que se vive na "caserna". 

coates gil.jpg

29
Out20

Tudo ao molho e fé em Deus

Um Sporting à Benjamin Button


Pedro Azevedo

O Sporting começou o jogo de uma forma lenta e muito previsível, foi-se revigorando à medida que os laterais passaram a ser alas puros e a saída via médios trocada pelo jogo em "U", e acabou rejuvenescido por um banho de golos sucessivos nos últimos 10 minutos que não expressa minimamente as dificuldades sentidas na maioria do tempo. Em suma, um Sporting à Benjamin Button que nasceu para o jogo com um Neto já avô e só deu a volta quando o avô deu lugar ao neto. 

 

Diga-se em abono da verdade que as dificuldades sentidas pelos leões se deveram à astúcia do treinador gilista. Sagaz, Rui Almeida bloqueou durante todo o tempo a saída de bola leonina pelo centro, dispondo para tal de um losango que enquadrava o par de médios do Sporting. Em permanente inferioridade numérica (2 contra 4) e sem centrais com qualidade técnica para conduzir a bola por entre as linhas da equipa de Barcelos e assim ajudar a diminuir a desproporção de homens no miolo, os leões viram-se bloqueados e sem soluções. Não se estranhou por isso que ao intervalo o resultado permanecesse inalterado. 

 

Para agravar a situação, uma desatenção imperdoável numa bola parada permitiu ao Gil Vicente adiantar-se no marcador logo após o reatamento. Ruben Amorim procurou mexer à hora de jogo, mas nenhuma das suas soluções resolveu o problema central e o Sporting continuou com apenas dois homens no meio-campo. Por essa altura (substituição de Neto), Nuno Mendes era o central pela esquerda, Pote recuara para fazer dupla com Palhinha e Nuno Santos já jogava mais como ala do que lateral. Porém, só aos 71 minutos, com a troca de Porro por Daniel Bragança, é que o Sporting conseguiu encontrar um antídoto para o espartilho em que o Gil Vicente o colocou. Não porque a equipa tivesse conseguido circular pelo meio - para tal recomendar-se-ia o 4-3-3, que além do mais nos teria exposto menos às transições adversárias que poderiam ter sido fatais assim houvessem tido uma melhor definição - , que continuava obviamente bloqueado, mas sim devido à adopção do 3-2-5. Ruben a imitar Herbert Chapman e a recriar o WM popularizado pelo Arsenal, com Tiago Tomás e Nuno Santos como extremos, Jovane e Pote como interiores e Sporar como avançado centro. Evidentemente, para além dos sistemas existem as dinâmicas, e de uma troca de posição entre Pote e Nuno Santos viria a surgir o golo do empate: o ex-famalicense cruzou, Nuno Santos antecipou-se a Jovane - estava com marcação - e apareceu ao primeiro poste a desviar a bola e Sporar cabeceou com êxito ao segundo pau. Estavam decorridos 82 minutos, um minuto que se viria a revelar de grande galo para os de Barcelos. Isto porque logo de seguida, o Sporting voltou a marcar: transição rápida, Sporar recuperou a bola e passou-a a Bragança, e o menino mete um passe frontal de grande classe a isolar Tiago Tomás que chutou no tempo certo e sem dar a possibilidade a Dennis de ser um pimentinha e estragar a noite aos Sportinguistas. Com dois golos num só minuto os gilistas desorientaram-se e, após uma perda de bola infantil dos de Barcelos, Pote encerraria a contagem com um passe à baliza de categoria. Foi um momento Art Deco, na medida em que misturou a exuberante beleza plástica da sua movimentação com o toque fino e suave que trouxe à memória a inteligência e a técnica rendilhada do ex-internacional português Deco. Ruben bem havia alertado que o jogo com o Gil seria a nossa Champions, e o golo de Pedro Gonçalves a fazer lembrar um moderno Deco foi o mais próximo que estivemos de ouvir a magistral composição de Handel. Música para os meus ouvidos, o único dos meus sentidos que por essa altura ainda parecia estar a funcionar após uma noite muito sofrida e em que as imagens que surgiam através do ecrã pareceram durante muito tempo inverosímeis.  

 

Tenor "Tudo ao molho...": Sporar

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03
Jul20

Tudo ao molho e fé em Deus

Jogo do Galo


Pedro Azevedo

Geralmente fico muito nervoso antes de um jogo, porém na antecâmara da recepção ao Gil Vicente senti-me bastante confiante. Bem sei, havia condicionantes de peso. Por exemplo, um impressionante surto de bife chorizo afectara o Acuña, o Jovane estava fora devido a um traumatismo (nos resultados dos nossos adversários) e o Geraldes por um triz não conseguira acabar um dos primeiros capítulos do Levantado do Chão, mas nada abalava a minha certeza de que o resultado nos seria favorável. E porquê? Bom, toda a gente sabe que cada partida da equipa de Barcelos é um Jogo do Galo. Ora, como a táctica do Ruben Amorim privilegia os três em linha (centrais), a coisa estava no papo. 

 

Este futebol pós-desconfinamento é muito sui generis, com os adeptos que habitualmente marcam presença nos estádios a verem-se obrigados a assistir pela televisão, em casa ou nos cafés. Procurando transpor por meio virtual as emoções usualmente vividas no José Alvalade, o meu grupo de bancada decidiu reunir-se à hora do jogo no Zoom. A ideia em si tinha tudo para bater certo, com 8 marmanjos de cachecol e fundos virtuais representando o nosso estádio a procurarem dentro do possível replicar as condições do futebol ao vivo. O problema é que a velocidade da fibra varia de lar para lar, pelo que passa a ser possível festejar golos do Sporting em ataques do Gil Vicente e contestar penáltis em lances disputados a meio-campo. Mais arreliador, o enfado com cada nova intervenção do Camacho pode distar 10 a 15 segundos entre cada lar, o que contraria o habitual uníssono. Nada portanto como um espectador desconfiado para lidar (rimar) com um futebol desconfinado.  

 

Foi assim com este enquadramento no meu computador que comecei a assistir ao jogo no televisor. E devo dizer que fiquei boquiaberto. Tanto que até liguei para a MEO. Então não é que a minha fibra é tão, tão lenta que até jurei ver em campo o Damas, o Jesus Correia, o Peyroteo e o Balakov? Um glorioso regresso ao passado em tempo de Regresso ao Futuro? Deixa ver, talvez com o botão do "fast forward"...

 

A primeira parte foi um bocado o que a bola deu e a bola deu para o Plata a levar aos soluços até à linha de fundo e mandá-la para trás. O Sporar dividiu-a com um gilista e o Wendel prensou-a num adversário a caminho da baliza. Estávamos na frente do marcador. Celebravam-se 114 anos de vida do nosso enorme clube e o Plata, isolado, voltou a regressar ao passado. Desta vez até antes da nossa fundação, mais concretamente ao dia 11 de Janeiro de 1906, véspera da data em que o International Board introduziu uma alteração às regras que passou a permitir o passe para a frente. O Gil é que não se deixou enganar e tentou resolver no presente, mas o Damas a.k.a. Max não estava pelos ajustes e por duas vezes negou-lhes o golo que não o galo.  

 

Gostei muito mais da nossa equipa no segundo tempo. Logo a abrir, o Plata, muito activo, isolou o Wendel. Este lá foi para a baliza, fiél ao princípio que o caminho se faz caminhando. Caminhar até caminhou, mas marcar não. Talvez porque o golinho se faz goleando e não caminhando. Uma questão de eficácia. O Sporting pressionava alto (fazendo campo pequeno) e entre campos um gilista assustado procurou livrar-se da bola para trás de qualquer maneira. O Plata agradeceu o presente de aniversário e tocou para o dois-a-zero. Porem, a noite não acabaria sem três momentos singulares. Tudo começou (78 minutos) quando o Matheus Nunes recuperou uma bola e foi progredindo, ora fintando dois para a esquerda, ora driblando os mesmos dois para a direita, até passar a bola ao Wendel. Este tocou para o Borja que de pronto lhe devolveu a bola. O brasileiro tocou para o Sporar, este para o Doumbia, o marfinense para o Ristovski e este para o Plata. A bola ainda chegou ao Wendel até ser perdida. No total foram 30 segundos de "tricô-traça" com as linhas com que se cose o actual futebol do Sporting. A deixar água na boca quanto ao desenvolvimento desta equipa. Por falar em líquidos, o Tiago Tomás e o Joelson deram razão às preocupações da Direcção Geral de Saúde com os ajuntamentos de jovens à noite. Lá se safaram da multa, porque não conseguiram o golo (ou gole). Mesmo no fim, sem ter justa causa para isso, o Ruben Ribeiro marcou-nos um golo. Porém, tal como já nos habituou, o resultado da sua acção foi inconsequente para nós, com o Sporting a conseguir a sua quarta vitória consecutiva em dia de aniversário. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gonzalo Plata. Menções honrosas para Matheus Nunes (qualidade com e sem bola), Wendel (1 golo), Coates (patrão), Nuno Mendes (revelação) e Max (segurança).

plata.jpg

05
Dez19

Tudo ao molho e fé em Deus - Auto da fé


Pedro Azevedo

O Sporting voltou a Barcelos para jogar com as reservas(!) do Gil Vicente e novamente encenou o clássico auto da barca do inferno, apenas interrompido por "un grand finale" de auto da fé protagonizado pelo habitual génio da lâmpada (Philips, o PSV que o diga), Bruno Fernandes, o anjo que conduziu a barca, os seus tripulantes, Silas, a Estrutura e todos os passageiros adeptos Sportinguistas até porto seguro, mostrando conhecer bem o significado do símbolo que leva ao peito. Diz-se que Deus se move de uma forma misteriosa, e isso talvez explique a razão pela qual um anjo cuja permanência entre nós alegadamente estragou elaboradíssimos planos da pólvora (seca?) para a época acabe por sistematicamente a todos resgatar das trevas...  

 

O jogo não diferiu muito do anterior, espaçado que foi de apenas 3 dias. A nuance foi que Silas preferiu apostar num onze muito semelhante, submetendo os seus jogadores a um esforço maior e não rodando a equipa - tirando Bruno, Acuña, Mathieu e, vá lá, Coates será que faz assim tanta diferença quem jogue? - , e Vitor Oliveira mudou praticamente tudo. O défice de condição de alguns futebolistas ficou bem patente quando Wendel pareceu guiar um Mini perante um gilista que circulava de Ferrari sobre a direita do ataque da equipa de Barcelos. O Sporting voltou a mudar de táctica, partindo de um duplo pivot mas com uma definição tão confusa mais à frente que até fez a aprendizagem do mandarim parecer fácil comparativamente. Silas concedeu mais uma boa oportunidade a Miguel Luís e voltou a dar minutos a Rafael Camacho, em ambos os casos com os (não) resultados do costume. Em contrapartida, Matheus Nunes (não jogou nos sub23) voltou a não ser utilizado e logo na competição desenhada para que os jovens possam ser testados, algo pouco compreensível. O mesmo em relação a Rodrigo Fernandes, um miúdo atirado às feras num jogo de campeonato e substituído ao intervalo para não mais voltar à equipa. E no fim Silas ainda se queixa de ter muitos jogos (para que serve um plantel vasto e com um custo muito superior ao que a nossa realidade poderia acolher?)... Por outro lado, vejo o Fernando, uma contratação (empréstimo) literalmente curúrgica, a provocar um "traumatismo ucraniano" ao Bruno Tavares, que vê a sua progressão nos sub23 estagnar para que o brasileiro possa ganhar ritmo. Haverá certamente uma racionalidade nisto tudo, mas deverá ser de tal forma inteligente que eu não a compreendo. 

 

Qual é a política desportiva do futebol do Sporting? Recuperar jogadores para o PSG e o Shakhtar Donetsk? Vender qualidade e comprar banalidade? Renunciar à sua matriz formadora e não lançar os jovens perante os conhecidos constrangimentos financeiros e de tesouraria? Até quando teremos jogadores de qualidade cuja venda seja capaz de sustentar o défice brutal de exploração da SAD? E quando tivermos vendido a última pérola, o que fazer, qual o nosso desígnio? Apostar definitivamente na Formação e baixar significativamente os custos com pessoal ou ser uma barriga de aluguer para clientes de luxo? Tudo isto carece de explicação, se é que há alguma. Até lá há que ter fé. Mas do tipo de auto da fé de Gil Vicente interpretado por Bruno Fernandes, não do tipo de auto de fé onde quem critica sustentado em factos que compõem uma realidade (e não uma percepção) possa ser tratado como um herege no mundo do leão e misturado por entre vários epítetos com outras realidades bem diversas. É que para lendas e narrativas basta-me o Herculano, esse pelo menos era um mestre da palavra com quem se podia aprender alguma coisa.  

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno Fernandes. Destaques, pela positiva para Coates (o Ministro da Defesa esta noite), Neto e Vietto (duplamente bem no segundo golo) e pela negativa para Acuña, um jogador que volta a mostrar sinais de nervosismo extremo na vizinhança da abertura de nova janela de transferências (será coincidência?). 

BF Gil.jpg

01
Dez19

Tudo ao molho e fé em Deus - A Restauração


Pedro Azevedo

O Sporting vinha da melhor exibição da época e de uma vitória retumbante sobre o PSV Eindhoven. As condições estavam criadas para um desanuviamento. Mas isso é não conhecer o nosso clube. Um Tribunal Arbitral condenou o Sporting a pagar a título de indemnização o valor de 3 milhões de euros a Sinisa Mihajlovic e logo alguém vislumbrou a oportunidade de "matar" não 1, mas 2 ou 3 coelhos de uma só cajadada. É verdade, a procura de bodes expiatórios é uma actividade vista com muitos bons olhos no futebol, mas eu cá penso que a culpa é toda do tal tribunal. Então não foi o TAS que também nos condenou a comprar o Ilori, o Eduardo, o Camacho, o Rosier (mais o Mama Baldé) e a pedir emprestado o Jesé, o Bolasie e o Fernando?

 

Antes do jogo começar a Liga expôs uns painéis que pediam uma descida do IVA aplicado ao futebol. Nós, consumidores do espectáculo, estamos de acordo com os 6%. Agora só falta no Sporting reduzirem-se as contratações e as comissões pagas para essa mesma bitola...

 

Durante a tarde passei os olhos pela visita do Ajax a Enschede para defrontar o Twente. E reparei que os lanceiros estrearam mais um menino da sua Formação. Chama-se Noa Lang e fez um hat-trick. Fiquei a pensar que de todos os clubes que se intitulam formadores, o Sporting deverá ser o único onde existem mil e um impedimentos a lançar jovens jogadores. Por isso, o Pedro Mendes, o Matheus Nunes, o Daniel Bragança, o Matheus Pereira e outros desesperam por uma oportunidade facilmente concedível a uma estrela do raggaeton ou a um moço colombiano que aos 26 anos ainda está a aprender as regras do jogo, nomeadamente que se pode entrar na área do adversário no decurso de um jogo de futebol.

 

É claro que há razões ponderosas que justificam que Domingos Duarte ou Demiral nunca tenham feito 1 jogo para o campeonato. Não esquecer que tal é geralmente definido por dirigentes que percebem muito de futebol. Como tal, se algo correr mal só pode ser atribuído ao "azar". Como hoje em Barcelos. O Sporting teve "galo" e isso resultou da conjugação da impreparação com a oportunidade certa, leia-se o não se ter perdido o ensejo de contratar na janela de Inverno um Ilori vindo das profundezas da segunda divisão inglesa. Ilori que é um desastre à beira de acontecer no relvado e no coração dos adeptos. Não sei como isto acabará, mas estou desconfiado que será com uma ala inteira no Hospital de Santa Cruz reservada para adeptos Sportinguistas...  

 

Depois de sofrer um golo numa perda de bola de Ilori, o Sporting fez o seu primeiro remate no jogo aos 42 minutos(!). Seguiu-se uma perdida de Jesé após assistência de Bruno Fernandes e o golo do empate da autoria de Wendel (de novo Bruno no passe) com a cumplicidade involuntária do guardião gilista. No intervalo disto tudo o craque Vietto perdeu bolas sobre bolas, nunca lutando para as recuperar. Aliás, a mentalidade de alguns jogadores do Sporting deixa muito a desejar, o que aliado a um défice notório de qualidade acima da média do plantel não deixa qualquer margem para o sucesso. 

 

A etapa complementar foi ainda pior. O contraste entre os jogadores do Sporting tornou-se evidente. A título de exemplo observe-se o seguinte: Bruno lançou duas vezes a esquerda do nosso ataque com critério; em compensação, o Eduardo, nas duas primeiras posses de bola, fez dois passes para o apanha-bolas.

Doumbia e Wendel falharam a pressão sobre o portador da bola este pô-la nas costas da nossa defesa. Acuña tentou o corte em desespero e fez penalty. Na conversão, o Gil não perdoou e colocou-se em vantagem no marcador. Perto do fim poderia ter havido outro penalty. Depois de vistas as imagens, observou-se que havia um prévio fora-de-jogo. Pelo meio Doumbia havia recebido um segundo amarelo, o qual foi mais tarde despenalizado por intervenção do "árbitro" Bruno Fernandes que explicou ao "jogador" Hugo Miguel que o vídeo-árbitro não pode intervir em lances de cartão amarelo (protocolo), para além de que tinha havido uma infracção anterior. Confusos? É o futebol português no seu melhor. O Gil ainda haveria de voltar a marcar, mas por essa altura já o Sporting jogava num 3-3-4, ou 3-2-5, ou, se quiserem, num tudo ao molho e fé em Bruno... 

 

Do Céu ao Inferno em 72 horas, haveria melhor dia que o 1 de Dezembro para mostrar à saciedade que a restauração daquilo que tem sido o nosso status-quo desta época está em progresso? Venha pelo menos a aposta na Formação, a fórmula utilizada somente em desespero de causa para tapar o sol com a peneira... 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno Fernandes

brunofernandes1122019.jpg

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