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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

18
Jun22

A Vida de "Chirola" Yazalde (*)

Parte VI (e última) - Até sempre, Chirola!


Pedro Azevedo

Após uma boa primeira época em França, nada faria supor que estaria iminente o seu regresso à Argentina. Inclusivé, Carmen acaba de dar à luz o único filho do casal, Gonzalo, em terras francesas. Yazalde tem uma vida estável, tranquila e confortável na Riviera Francesa, mas a ilusão de voltar a jogar um Mundial, ainda mais na Argentina (anfitriã do Mundial de 78), fá-lo esticar a corda e regressar a casa. Perde muito dinheiro (com contrato por mais dois anos, tem de pagar 500.000 dólares de valor de rescisão ao Marselha) no processo, mas no início de 77 (a meio da temporada em França) assina pelo Newell's Old Boys, um clube argentino da cidade de Rosário, 300 km a noroeste de Buenos Aires. 

 

Estreia-se pela sua nova equipa no Campeonato Nacional (hoje Clausura), competição que funcionava como segundo turno do campeonato argentino. O primeiro jogo é em Mar del Plata, contra o Círculo Deportivo. Fica em branco. Em 4 de Fevereiro, contra o San Martin de Tucumán, o primeiro golo. Mas não é só 1, são 3 de uma vez, um hat-trick. Acaba o ano com 7 golos. Reencontrado com a forma de jogar na Argentina, inicia o Metropolitano de 78 em grande forma. Logo a abrir, 2 golos ao Argentinos Juniors, a equipa de "El Pibe" Maradona, mago que tem em Yazalde um dos seus ídolos de criança. O Newell's vence por 3-0 e os dois craques tiram uma foto que um dia Maradona utilizará para homenagear nas redes sociais o seu ídolo (entretanto já falecido). Os golos voltam-lhe aos pares, marca a dobrar ao Colón, Chacarita e San Lorenzo. Acaba o primeiro turno do campeonato com 10 golos. Yazalde está novamente em grande, mas a tristeza por não ter sido incluído na convocatória de Menotti para o Mundial deixa-o inconsolável. Entra em depressão. Como se não bastasse, segundo Carmen, leva uma injecção contra a gripe e é contagiado com hepatite num tempo em que as seringas são muitas vezes reutilizadas. Começa a ter recorrentes problemas de fígado.  Na 2ª parte da época, disputada pós-Mundial, o Chirola só faz 4 golos. Mais animado, regressa em 79 com um bis ao Racing de Avellaneda, rival dos tempos em que esteve no Independiente. De seguida, um hat-trick ao Velez Sarsfield. Acaba 1979 com 14 golos marcados, o mesmo registo do ano anterior. Em 80 está em grande evidência no dérbi de Rosário, o Classico Rosarino, que põe em confronto "leprosos" (Newell's) e "canalhas" (Rosário Central). Marca por duas vezes e o Newell's vence por 3-0. Em finais de Outubro, volta a bisar. Desta vez contra o seu antigo clube, o Independiente. Um mês depois, faz 2 golos no espaço de 3 dias. A vítima é o "all mighty" River Plate. Acaba o ano com 13 golos, como um relógio suiço. Ainda faz uma perninha no Metropolitano de 81. São apenas 2 meses, o suficiente para se despedir com 6 golos. No total, são 54 pelo Newell's. Por fim, é visto em 82, num jogo pelo Huracán, mas é o canto do cisne. 

 

Terminada a carreira de futebolista, Yazalde assume funções no staff directivo do Huracán e chega até a treinar o clube durante um curto período de tempo. No Natal de 84 vem a Lisboa para apresentar Saucedo, compatriota que jogava no Equador. Entra em Alvalade, é recebido e saudado pela direcção presidida por João Rocha e regressa à Argentina. Nunca se esquecerá do Sporting, vivendo-o sempre com intensidade, fazendo fé nas próprias palavras de Carmen Yazalde. Carmen de quem se separa em 87, nunca porém se divorciando. E morre, em 97, a 18 de Junho, aos 51 anos. Conta Carmen ao "As": "o meu filho ligou-me pelas 6h30, mas quando cheguei já o Yazalde estava morto. Tinha vindo de jantar, sentiu-se indisposto. Não estava bem desde há 2 anos atrás, tinha uma úlcera perfurada e muitas hemorrogias internas". 

 

Um Homem só verdadeiramente morre quando já não existe ninguém para o lembrar. Assim, estou em crer que Yazalde viverá enquanto existir pelo menos 1 Sportinguista, logo eternamente (assim o espero). Para a história ficarão essencialmente os seus 50 golos em 73/74 (apenas 35 jogos) - 46 dos quais, no campeonato, valer-lhe-iam a Bota de Ouro - , marca só muitos anos mais tarde batida por outro "leproso" (Messi) e por um jogador da Formação do Sporting (Ronaldo). Não digam que não há coincidências...

 

P.S. Termino hoje, no dia em que se perfazem 50 anos desde a data em que Yazalde se estreou em Alvalade, este ciclo de Posts sobre a vida de Héctor Yazalde. Uma homenagem ao Chirola em que procurei trazer alguns novos, ou pouco divulgados, dados sobre a sua carreira desportiva e vida fora das quatro linhas. Foram 6 capítulos escritos com amor, ciente do impacto (não querendo desvalorizar a importante acção do meu pai) que o meu 1º ídolo teve na minha decisão de ser do Sporting. Era algo que um dia teria de fazer, assim como que uma espécie de chamamento, eu que me estreei na blogosfera exactamente a escrever sobre Yazalde. Ficará em arquivo, espero que vivo, deste blogue enquanto acervo da vida deste enorme futebolista que tão bem serviu o nosso Sporting. Nunca se esqueçam que, tal como as nossas referências, princípios ou valores, as pessoas só morrem verdadeiramente se nos esquecermos delas. 

 

Obrigado, Yazalde!

 

Bibliografia: Esquadrão Imortal (site brasileiro); Jornal AS (Espanha, artigo de Topo López); Puntal Villa María (jornal argentino); En Una Baldosa (site argentino); Cápsulas de Carreño (site colombiano); Clarin (jornal argentino); Infobae (site de notícias argentino propriedade de Daniel Hadad), Bifana Bifana (blog, Inglaterra); OM4ever.com (blog de apoiantes do Marselha); Entrevista de Rui Miguel Tovar a Carmen Yazalde; WikiSporting. O meu agradecimento especial ao Francisco Navarro. 

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(*) Publicado originalmente neste blogue em 24 de Fevereiro de 2021

18
Jun22

A Vida de "Chirola" Yazalde (*)

Parte V - Sob o signo do bronze


Pedro Azevedo

Como tantas vezes na nossa história, após uma gloriosa época culminada com uma dobradinha nas provas nacionais e presença nas meias-finais da Taça dos Vencedores das Taças, a instabilidade regressa ao clube. Mário Lino e João Rocha têm opiniões distintas sobre a preparação da pré-época seguinte, a corda estica e acaba por partir pelo elo mais fraco. Lino ja nem está no banco na final da Taça, demitido na manhã desse jogo no hotel onde a equipa estagia. Osvaldo Silva, velha glória do clube, assume interinamente.

 

João Rocha tinha uma ideia para garantir a independência financeira do clube. Lança o projecto da SCP - Sociedade de Construções e Planeamento, o qual é aprovado em Março de 1974 pelo governo de então. Surge a Revolução e João Rocha vê-se obrigado a abrir mão do projecto. O PREC está aí e a convulsão política não ajuda à confiança na economia. Em contra-ciclo, Yazalde está em alta. Faz um bom Mundial, o Real Madrid pressente as dificuldades financeiras vividas em Portugal, de que o Sporting não é excepção, e faz uma proposta pelo avançado. São 27.000 contos (135.000 euros). Rocha hesita, mas decide fazer um esforço para manter o seu ponta de lança. Por isso quer ir no final da época aos EUA, onde pretende arrecadar algum dinheiro para o clube. Lino não está de acordo por pesar mais a fadiga dos jogadores e o efeito que isso terá no atraso de preparação da nova época. O treinador sai, o Sporting realiza 3 jogos nos EUA, 2 com o Porto, 1 com o Benfica de Newark, entre 30 de Junho e 7 de Julho de 74.

 

Sem treinador, o Sporting procura-o no estrangeiro. Curiosamente, é uma lenda do Real Madrid o escolhido. Trata-se de Alfredo Di Stefano, a "sieta rúbia", um antigo jogador que está para o Real Madrid e sua correlação de forças com o Barcelona como Eusébio está para o Benfica na sua disputa pela primazia no futebol com o Sporting. Yazalde é quem estabelece o primeiro contacto e apresenta João Rocha a Don Alfredo. Ao longos dos poucos dias em que o argentino naturalizado espanhol está em Portugal são vistos a jantar no Gambrinus, a relação entre eles é muito boa. Tanto assim é que quando Rocha e Di Stefano se incompatibilizam, Yazalde tenta pôr água na fervura e sai em defesa do treinador. Dinis e Dé são os primeiros a não gostar dos métodos do treinador, a derrota em Faro (o Estádio Padinha estava interditado) com o Olhanense, para a primeira jornada do campenato, é a gota de água que faz transbordar o copo. Di Stefano, que nesse jogo nem vai para o banco, acaba demitido por entre a acusação presidencial de ser um "turista mal-educado". O facto de insolitamente ainda não ter o contrato assinado ajuda ao desenlace. Osvaldo Silva volta a assumir, mas apesar de 1 golo de Yazalde o Sporting acaba eliminado das provas europeias pelo Saint Étienne, na primeira eliminatória da Taça dos Campeões (Champions). 

 

Se as coisas não começam bem, tardam a endireitar-se. Apesar de um empate encorajador nas Antas, à quinta jornada a equipa tem apenas 1 vitória. O resto são empates (2) e derrotas (após Olhanense, o Sporting perde em casa com o Guimarães). O Sporting consegue então alinhavar 3 vitórias consecutivas perante Atlético, União de Tomar e Farense. São 11-2 em golos, Yazalde marca 8, com direito a póquer aos alcantarenses e dois bis, um no Nabão, outro na recepção aos algarvios. No total, já leva 10 golos no campeonato (+1 na Europa), a fúria goleadora mantém-se. Vai-se destacando também socialmente: anda sempre com os bolsos cheios de moedas para dar aos meninos que o esperam na Porta 10A, sorteia os carros que lhe oferecem entre os colegas, chega até a comprar de volta um auto-rádio que lhe haviam roubado, a todos vai tocando com a sua humanidade. Voltando ao futebol, as coisas voltam a complicar-se no campeonato. Primeiro é um empate no Estádio do Mar, depois outro, em casa, com a CUF, finalmente nova divisão de pontos em Marvila. Pelo meio, duas vitórias tangenciais contra Espinho e Boavista, este último agora treinado por Pedroto que terminara o seu excelente ciclo em Setúbal. A insatisfação é geral, de forma que a 22 de Dezembro, quando o Sporting se desloca à Luz, é já Fernando Riera que está no banco. Riera começara por se destacar como jogador, tendo actuado pelo Chile na World Cup 50 disputada no Brasil. Como treinador, incia-se no Belenenses e quase é campeão. É o tal campeonato do golo de Martins, nas Salésias, que acaba por dar o título ao Benfica. Depois orienta o Chile no Campeonato do Mundo de 62. Leva a sua selecção até às meias-finais, pela frente tem o Brasil. Quer dizer, o Brasil sem Pelé, que se havia lesionado no 2º jogo da fase de grupos. Mas, se não há Pelé, está lá Garrincha. O "anjo das pernas tortas" marca 2, Vavá outros dois e o Chile (derrota por 4-2) tem de se contentar com o 3º lugar (vitória sobre a Jugoslávia). É depois campeão 3 vezes pelo Benfica, a última já depois de despedido. E vai a uma final dos Campeões perdida para o Milan. Treina também o Porto, em 72/73. É, portanto, um treinador com cartel aquele que acaba de chegar. O embate na Luz termina empatado e renasce a esperança de um futuro melhor. Yazalde, como não podia deixar de ser, aponta o nosso golo, o seu 12º na competição. Confirmando a retoma, o Sporting vence o Belenenses em novo dérbi lisboeta e a 1ª volta termina com melhores auspícios. 

 

O Sporting entra forte na 2ª volta e vinga-se com uma cabazada ao Olhanense. São sete-a-zero e o Chirola faz uma "manita". De seguida, visita a Coimbra onde a Académica mudara de sexo, e nova vitória (3-1). Mais um para a conta de Yazalde. A recuperação é depois testada contra o Porto. A expectativa é grande e os leões mostram estar no bom caminho: triunfo por 2-1 com golo decisivo de Yazalde e tudo. Mas, em Guimarães há empate sem golos e a margem de erro reduz-se para zero. O Sporting consegue então a sua melhor sequência de vitórias nesse campeonato, alinhando 5 triunfos consecutivos. Yazalde marca por 6 vezes, quatro delas aos "bebés" de Matosinhos. Estamos a meio de Março e o Sporting tem uma saída difícil ao Bessa. Os boavisteiros já estão a sentir o efeito Pedroto e lutam com o Guimarães pelo quarto lugar. Têm muito bons jogadores, como Alves, Salvador, Celso ou Mário João. O jogo corre-nos mal (derrota por 2-0) e é o adeus definitivo ao título. Restam-nos 5 jogos, 1 deles com o Benfica (novo empate 1-1). Yazalde marca por 5 vezes e volta a ganhar a Bola de Ouro para o melhor marcador do campeonato. 

 

Os leões terminam o campeonato sob o signo do bronze. O Sporting é 3º e é ainda eliminado pelo Boavista no prolongamento das meias-finais da Taça. Pedroto a ser Pedroto e a aplicar dois xeque-mates aos leões. Yazalde acaba a época com uns muito bons 37 golos (34 jogos). No campeonato marca 30 (26 jogos) e ganha a Bota de Prata europeia da France Football. O romeno Georgescu (33 golos) é o vencedor, Geels, holandês do Ajax, e Onnis, também argentino do Mónaco, dividem com Yazalde o prémio. Infelizmente, há um outro alinhamento de bronze no horizonte: a situação em Portugal deteriora-se, João Rocha não consegue aguentar por mais tempo o seu avançado e vende-o por 11 mil contos ao Marselha. Do bronze no campeonato para o bronze ao sol da Riviera Francesa, Yazalde transfere-se para o Marselha. São 126 golos em 131 jogos, 104 golos em 104 jogos de campeonato. Para o substituir em Alvalade, Manuel Fernandes, proveniente da CUF, outro ídolo leonino.

 

Em Marselha, a vida não corre mal a Yazalde. Socialmente, convive com Alan Delon e Jean Paul Belmondo, astros do cinema francês. Também com Carlos Monzón, seu compatriota e campeão do mundo de pesos médios (boxe). Vive num apartamento de 300m2 com uma vista impressionante, 3 piscinas, 2 courts de ténis, numa hora está na praia em Saint-Tropez ou viaja até Aix-en-Provence. O Mónaco é também um dos seus destinos favoritos. Em França, Yazalde dá largas à sua joie-de-vivre. Desportivamente a primeira época é salva pela conquista da Taça de França. No campeonato o Marselha é 9º classificado devido a uma série final terrível de 6 derrotas em 7 jogos. O treinador é Jules Zvunka e a equipa não tem grandes valores, exceptuando Trésor (defesa) e Yazalde. Coincidência, ou talvez não, a queda do Marselha acontece quando Yazalde se lesiona e perde 6 dos últimos 7 jogos. Nos 10 primeiros jogos do Olympique, 10 golos de Yazalde. Business as usual!  Termina o campeonato com 19 golos em 30 jogos disputados (o campeonato tem 38) e é o 6º melhor marcador, o 1º entre os marselheses. Se é influente no campeonato, na Taça torna-se providencial. Marca 3 golos, um dos quais na meia-final contra o Nancy, de Michel Platini. Na final, é eleito o "L'Homme du Match". No total, a época para Yazalde fica-se pelos 22 golos. Nada mal, considerando o nível da equipa e a lesão. A segunda temporada corre-lhe pior. Começa a época e rapidamente se lesiona. Regressa á equipa e marca os dois golos que garantem uma vitória em Sochaux (2-1) mas já estamos na 9ª jornada do campeonato. De seguida, bisa de novo com o Lille e é o canto do cisne. Yazalde só faz 12 jogos na Ligue 1, a sua cabeça está na Argentina e na promessa que alegadamente Júlio Grondona lhe terá feito - Carmen afirma-o parentoriamente, mas, embora muito influente no meio (o que em parte o justifica), Grondona só será presidente da AFA a partir de 79 -  de que se regressasse à Argentina estaria entre os seleccionados para o Mundial de 78. É tempo de terminar a aventura europeia de Yazalde, a sua terra natal espera-o de volta. Destino: o Newell's Old Boys. 

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(*) Publicado originalmente pelo autor neste blogue em 23 de Fevereiro de 2021

18
Jun22

A Vida de "Chirola" Yazalde (*)

Parte IV - A Glória


Pedro Azevedo

Casado de fresco, Yazalde apresenta-se em Alvalade com estabilidade e motivação adicionais para a temporada de 73/74. Mário Lino, vencedor da Taça de Portugal, vê renovada a confiança em si e continua como treinador principal. Ao contrário das duas épocas anteriores, que começaram muito bem, o Sporting perde o primeiro jogo do campeonato. O adversário é o Vitória de Setúbal, que com José Maria Pedroto volta a ameaçar discutir o título. Uma derrota é sempre uma derrota, mas esta, tendo ocorrido no Bonfim, acaba por ser o presságio do que está para vir. Nem de propósito, Benfica e Porto perdem, respectivamente, no Bessa e em Belém. O Sporting inicia então uma sequência de 7 jogos consecutivos a vencer. E não são vitórias quaisquer, os leões marcam 31 golos e sofrem apenas 2: Boavista, Leixões, Farense e CUF levam "chapa 3", o Belenenses 4, o Oriental 7 e o Montijo é vergado em Alvalade com 8 golos sem resposta. Yazalde marca em todos esses jogos. No somatório, são 19(!) golos do "Chirola", meia-dúzia contra os montijenses, um póquer face ao Oriental. Segue-se um jogo nas Antas, o único que Yazalde não disputa nesse campeonato. Chico Faria faz de "Chirola" e o Sporting sai do Porto com um empate. Os leões estão definitivamente na corrida pelo título. 

 

A paragem não parece ter feito bem a Yazalde, que nos próximos dois jogos fica em branco. Um deles é na Luz, onde o Sporting perde por 2-0. Porém, rapidamente retoma a sua cadência goleadora: o Sporting vence os 4 jogos que faltam para completar a primeira volta e "Chirola" faz abanar as redes mais 8 vezes. A meio do campeonato, o Sporting lidera a classificação e Yazalde leva 27 golos(!), ficando em branco em apenas 4 jogos (1 ausente). 

 

No início da segunda volta, o Sporting vInga-se da derrota sofrida em Setúbal. Dois-a-um é o resultado e Yazalde marca o golo decisivo. O Chirola fica em branco no Bessa e o Sporting não vence um Boavista que continua a progredir. Estabelece-se então de novo um proporção directa entre os golos de Yazalde e a sina do Sporting: marca ao Leixões e ganhamos, não marca em Belém e o Sporting perde. Como consequência, Benfica e Vitória de Setúbal aproximam-se de novo com perigo. A resposta é concludente: o Sporting vence o Oriental por 8-0 com 5 golos do Chirola. Na baliza dos marvilistas estava Carlos Alberto Azevedo Cunha, Azevedo para o mundo do futebol, meu homónimo, sem parentesco conhecido com o grande João Azevedo (o Gato de Frankfurt e histórico guarda-redes do tempo dos 5 Violinos). A vitória é o prelúdio para uma sequência de 6 triunfos consecutivos e um score de 23-1 em golos. Yazalde divide as coisas: marca 5 ao Oriental, outros 5 nos restantes jogos. Pelo meio, o Sporting vence o Porto, em Alvalade, por 2-0. Nesse dia Yazalde fica de jejum, é o "Brinca n'areia" (Dinis) que bisa. Na 26ª jornada, o Sporting perde em casa com o Benfica por 3-5. Yazalde bisa, o primeiro memorável, com um salto de peixe que não foi do agrado de Zé Gato. Resultado: o guarda-redes encarnado sai ao intervalo e é substituído por Bento, um render da guarda. O jogo é a 31 de Março e Marcello Caetano está na tribuna. Recebe aí a sua última grande ovação (entre alguns apupos), a revolução está a chegar. Com a derrota, o campeonato fica tremido e a 4 dias do 25 de Abril a coisa piora com um empate em Aveiro. Há só agora 1 ponto a separar-nos de Benfica e 2 do Setúbal, é imprescindível ganharmos os 3 jogos que faltam para sermos campeões. 

 

O Sporting apanha a Revolução no regresso da RDA. Umas meias-finais da Taça dos Vencedores de Taças que terminam de forma totalmente desafortunada com um falhanço de baliza aberta de Tomé, que de outro modo nos teria conduzido à final. Cá o fado já havia sido semelhante: penálti falhado por Dinis, auto-golo de Manaca (sim, o infortúnio não lhe aconteceu só em Guimarães) e golo solitário de Chico. Feitas as contas, 1-1 em casa e 1-2 na Alemanha, o Sporting é eliminado pelo Magdeburgo. Yazalde, lesionado com uma micro-rotura, não joga nenhum dos encontros, os alemães de leste aproveitam e acabam por ganhar o troféu após vitória na final sobre o Milão. 

 

Se bem que não totalmente recuperado, Yazalde acede a jogar os 3 jogos decisivos para o campeonato. Primeiro, o Sporting vence em Coimbra os "estudantes" (3-1) e o Chirola faz 1 golo. A seguir, recepção ao Olhanense e uma goleada por 5-0 com 2 de Yazalde. É chegado então o dia do tudo ou nada. O Sporting tem apenas 1 ponto de avanço sobre o Benfica e estes têm vantagem no desempate directo. Desloca-se ao Barreiro, mais concretamente ao Campo D. Manuel de Mello, a fim de defrontar o Barreirense. Paralelamente, o Benfica vai a Setúbal. O Vitória está já afastado do título, a 3 pontos do Sporting. Pelo sim, pelo não, os adeptos Sportinguistas que vão ao Barreiro levam uma telefonia consigo, os jogos são para acompanhar com os olhos num lado e os ouvidos noutro. O Benfica está a vencer durante a maior parte do tempo, aumenta a ansiedade. Até que, em cima do intervalo, Baltazar adianta o Sporting no marcador. No fim, o Benfica empata (2-2), mas nem seria preciso porque o Sporting cumpre a sua obrigação, vence por 3-0, e sagra-se campeão nacional. É também o melhor ataque (96 golos) e a melhor defesa (21) do campeonato, uma limpeza! Yazalde marca o seu 46º no campeonato (média de 1,59 por jogo, semelhante aos números que marcaram a carreira de Peyroteo). No total, são 50 (35 jogos), contando com os 4 na Taça das Taças. [Por curiosidade e para avivar a memória de jogadores de um outro tempo, aqui ficam os melhores marcadores desse campeonato: 1º Yazalde, 46 golos; 2º Duda (Setúbal), 24; 3º Eusébio (Benfica), 16; 4º Jordão (Benfica), 15, 5º Abel (Porto), 15; 6º José Torres (Setúbal), 14; 7º Alemão (Beira Mar), 14; 8º Arnaldo (CUF), 13; 9º Paco Gonzalez (Belenenses), 13; 10º Ademir (Olhanense), 12; 11º Mirobaldo (Farense), 12; 12º Marco Aurélio (Porto), 11; 13º Vala (Académica), 11; 14º Nelson (Sporting), 11; 15º Custódio Pinto (Guimarães), 11; 16º Tito (Guimarães), 11; 17º Móia (Oriental), 10.]

 

Há ainda uma Taça de Portugal por disputar, mas Yazalde não estará disponível, ausente na Alemanha a tentar recuperar para o Campeonato do Mundo. Aliás, não fará qualquer um dos 5 jogos da competição e assim falhará a gloriosa final contra o Benfica, que parecia perdida, é salva por um golo tardio de Chico e finalmente vencida por outro de Marinho já no prolongamento. 

 

O Sporting faz a dobradinha e Yazalde recupera a tempo do Mundial de 74. A campanha da Argentina não é famosa, eliminada na 2ª fase, mas o Chirola (nº 22) ainda marca dois golos ao Haiti. Entretanto, escrutinados todos os golos dos campeonatos europeus, Yazalde é o melhor marcador da Europa. E no Lido de Paris recebe a Bota de Ouro perante um Franz Beckenbauer que lhe diz ter a mulher mais bonita de todas as mulheres de jogadores de futebol. O segundo classificado é o austríaco Krankl (Rapid de Viena, mais tarde estrela do Barcelona), os terceiros, ex-aequo, são o também argentino Carlos Bianchi (jogador e futuro treinador de sucesso) e os alemães Jupp Heynckes (Borussia M'Gladbach) e Gerd Muller (o "Bomber", do Bayern de Munique). Que quinteto! Termina assim da melhor maneira uma temporada de glória. Para Yazalde e para o Sporting. 

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(*) Publicado originalmente pelo autor neste blogue em 22 de Fevereiro de 2021

18
Jun22

A Vida de "Chirola" Yazalde (*)

Parte III - A caminho da glória


Pedro Azevedo

Após 8 meses sem jogar, Yazalde tem a oportunidade de finalmente poder justificar a sua contratação pelo Sporting. É o início da época 71/72 e o treinador é Fernando Vaz, campeão em 70 e vencedor da Taça de Portugal em 71 pelo clube. Yazalde entusiasma na estreia com 3 golos ao Boavista. Na jornada seguinte, mais um golo, desta vez ao Barreirense. O ímpeto goleador vai continuando: faz abanar as redes do Leixões e do Vitória de Guimarães. À sexta jornada o Sporting tem 6 vitórias e Yazalde 6 golos. Se seis é o número da união perfeita, Alvalade está em delírio com a equipa e o seu avançado.

 

Subitamente, uma derrota, em Belém. Yazalde não marca e o Sporting perde. A equipa parece retomar um caminho virtuoso com vitórias sobre Farense e CUF e um empate nas Antas, mas é sol de pouca dura: um empate em Setúbal e uma derrota caseira com o Beira Mar dão pouco espaço de manobra, o desaire caseiro com o Benfica (0-3) põe fim às aspirações de ganhar o título. Yazalde, entre pequenas lesões e abaixamento de forma não é mais o mesmo, consequência porventura da falta de ritmo ocasionada por ter estado tanto tempo parado durante a temporada anterior. Até ao fim da época marcará apenas em mais 7 ocasiões, 3 golos para o campeonato e outros 4 na Taça das Taças. Nesta última acontece o caricato: após eliminar o Lyn, da Noruega (3 golos de Yazalde), o Sporting enfrenta o Glasgow Rangers. Primeiro, é derrotado na Escócia por 3-2. Em Alvalade, Yazalde inaugura o marcador. Mas, por cada golo que os leões marcam, os protestantes logo igualam. Perto do fim, Pedro Gomes faz o 3-2 e o jogo vai para prolongamento. Desta vez são os escoceses que se adiantam, mas Peres volta a colocar o Sporting na frente. Termina o prolongamento e o árbitro manda seguir com as penalidades. Damas defende por três vezes, é o herói da noite. Alvalade festeja a eliminação do Rangers. Por pouco tempo: ao acordarem de manhã, os adeptos tomam conhecimento que o árbitro falhou ao não cumprir com os novos regulamentos que prevêm que em caso de igualdade final prevaleçam os golos marcados fora. Ora, o Sporting fizera 2 em Glasgow e os escoceses 3 em Lisboa, o golo a mais, ainda que marcado no prolongamento, conta mesmo para desempatar a contenda a favor do Rangers.

 

A época não é menos frustrante: Fernando Vaz não resiste aos maus resultados e é despedido num processo com o seu quê de sinistro. Três vezes campeão pelo Sporting como adjunto de, respectivamente, Robert Kelly, Cândido de Oliveira e Randolph Galloway, Vaz havia ganho como treinador principal o campeonato e a taça, a última após goleada por 4-1 na final contra o eterno rival Benfica. Sai Vaz, entra Mário Lino, antes adjunto. Com o campeonato perdido (3º lugar) e já eliminado na Europa, Lino concentra-se na Taça de Portugal. E o Sporting vai à final, reeditando o duelo com o Benfica. Desta vez sem glória: derrota por 3-2. Yazalde fica em branco e termina da pior maneira uma temporada que pareceu auspiciosa. No total marca 13 em 28 jogos. Chico Faria faz 14 e Fernando Peres, o maestro, é o melhor marcador da equipa (16 golos). 

 

Se no plano futebolístico Yazalde ainda está a aquecer os motores, no amor as coisas vão de vento em popa. Assim, terminada a época, viaja com Camizé, futuramente dita Carmen, para a Argentina a fim de lhe apresentar a família e estar presente no casamento de Teté Coustarot, modelo e rainha de beleza do país das pampas.

 

No regresso conhece um novo treinador. É inglês e chama-se Ronnie Allen, antigo ponta de lança do WBA e dos "Three Lions" (as armas inseridas no escudo da selecção inglesa de futebol). A expectativa é grande, Allen vem com bom cartel de Bilbau onde conseguiu um segundo lugar na La Liga com o Athletic. A estreia no campeonato não poderia ser melhor: o Sporting desloca-se às Antas e ganha por 1-0. Marca Yazalde, "of course". Seguem-se vitórias tranquilas sobre União de Tomar, Farense e Vitória de Guimarães. Em todos esses jogos Yazalde factura, bisando mesmo contra os nabantinos. Quatro jornadas, quatro vitórias, Yazalde já leva 5 golos. Segue-se deslocação à Luz e derrocada: o Sporting perde por 4-1 (póquer de Eusébio). O golo solitário ainda assim é do Chirola. De seguida o Sporting ainda ganha ao Atlético e Yazalde lá faz o seu golito, marcando pelo 6º jogo consecutivo, mas um empate no Montijo inflama os ânimos e na recepção ao Leixões a casa vai abaixo. Estávamos no dia 29 de Outubro de 1972 e o Sporting jogava com os matosinhenses. Damas, a quem Allen deliberadamente havia atribuído culpas do massacre (6-1) na Escócia frente ao Hibernian (Taça das Taças), havia sido agredido por adeptos montijenses no jogo anterior e o ambiente estava quente. Para piorar, logo no início, o auxiliar dá fora de jogo a um ataque leixonense, mas o árbitro deixa seguir. Na sequência, assinala grande penalidade contra os leões. Damas defende, Carlos Lopes (assim se chamava o árbitro) manda repetir alegando que o guarda-redes se havia movimentado antes do tempo. O Leixões marca à segunda tentativa. Começam a chover pedras no relvado. O jogo pára por uns instantes e quando é reatado produz-se o caos: um jogador dos "bebés" corta para canto, o árbitro dá pontapé de baliza. Logo adeptos provenientes do peão, superior e central invadem o campo. Um deles tenta perfurar o árbitro com um guarda-chuva. Às tantas o árbitro é socado, cai no chão. Seguem-se pontapés, alguns na cabeça. Teme-se o pior. Num instinto, Carlos Alhinho corre e deita-se por cima do árbitro. Apanha também ele alguns pontapés. Depois vem Yazalde, conhecido pelo seu elevadíssimo fair-play, que replica o gesto do seu colega de equipa. Outros jogadores ocorrem, fazem um cordão de segurança e Carlos Lopes consegue escapar com vida. O incidente não escapa sem a punição devida e o Estádio José Alvalade fica interditado por 9 jogos. É o fim da picada, a equipa nunca mais se reencontra e termina o campeonato com a até aí pior classificação de sempre, um 5º lugar. 

 

A época é marcada pelo tumulto. Logo de início, Fernando Peres é suspenso pelo clube. Motivo: a defesa da honra de Fernando Vaz. Na Europa, Allen culpa publicamente Damas por 3 dos 6 golos sofridos na Escócia. O guarda-redes chega mesmo a ser agredido por adeptos no Montijo e na jornada seguinte produzem-se os incidentes acima descritos em Alvalade. Allen acaba por ser despedido em Abril, Lino volta a assumir a batuta. Sofridamente, com vitórias tangenciais sobre o mesmo Leixões e a CUF, o Sporting chega à final. Do outro lado, o Vitória de Setúbal, treinado por José Maria Pedroto, 3º classificado nesse campeonato depois de já ter feito sensação no ano anterior (2º). O Sporting acaba por ganhar a Taça após vencer por 3-2. Mário Lino garante o lugar de treinador principal para 73/74 e Yazalde vai de férias com 1 golo importante na final. No total da época faz 28 golos (38 jogos), 19 no campeonato, 7 na Taça, 1 na Europa, 1 na Taça de Honra.

 

De regresso á Argentina, Yazalde desposa Carmen. Dia 16 de Julho de 1973, a cerimónia tem lugar na Basílica María Auxiliadora y San Carlos, em Buenos Aires. Segue-se copo-d'água no Cafe Tabac, jantar a que faltaram metade dos convidados devido ao temporal que nesse dia se abateu sobre a capital argentina. Os noivos vão de lua-de-mel para Mar del Plata. Daí regressarão imediatamente para Lisboa, o Sporting iniciará a pré-época da temporada de 73/74. Estável, dentro e fora do campo, Yazalde está em crescendo. A esperança pinta-se de verde. Vem aí um ano inesquecível.

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(*) Publicado originalmente pelo autor neste blogue em 20 de Fevereiro de 2021

18
Jun22

A Vida de "Chirola" Yazalde (*)

Parte II - Yazalde em Lisboa


Pedro Azevedo

Disputado por Santos e Palmeiras do Brasil, Nacional de Montevidéu do Uruguai, Boca Juniors da Argentina e os europeus Lyon e Valência, os dotes negociais de Abraão Sorin viriam a ser providenciais para que o Sporting garantisse a sua contratação em Janeiro de 1971. Após acordar o pagamento de 3 500 contos (17 500 euros) ao clube argentino (mais 700 contos de prémio, ou "luvas" como se designava à época, para o jogador), o Sporting pediu a Yazalde para se juntar à comitiva leonina que se encontrava em digressão pela América do Sul. Estrear-se-ia então, de forma não oficial, em 25 de Janeiro, no Morumbi, num jogo contra o São Paulo, substituindo Chico Faria após o intervalo. Curiosamente, nessa ficha de jogo, do lado dos paulistas constava o nome de Pedro Rocha, grande jogador uruguaio com presença em 4 Mundiais de Futebol que mais tarde viria a ser treinador do Sporting. 

 

Chegou a Lisboa em 11 de Fevereiro, mas os primeiros tempos na capital portuguesa não foram fáceis a nível desportivo. Não podendo ser inscrito nessa temporada, restavam-lhe os jogos particulares para ir aparecendo. A sua apresentação em Alvalade ocorreria a 24 de Fevereiro desse mesmo mês, tendo sido convidados os franceses do Red Star para abrilhantar a festa. O Sporting ganhou por 3-0, mas o Chirola esteve longe de deslumbrar. Integrando uma linha avançada com Marinho, Chico e Lourenço, ficou a nu a falta de entrosamento com os seus companheiros. Aqui e ali, no entanto, deixou pinceladas de bom futebol. Enfastiado por não poder jogar oficialmente, Yazalde envolve-se na "movida" lisboeta por entre uns fados e tertúlias com a elite artística e cultural do país. Damas e Laranjeira são companheiros inseparáveis, os seus melhores amigos no Sporting. Com muito tempo disponível, as mulheres, muitas mulheres, passam também a ser uma companhia habitual na sua vida. Vivia então num pequeno apartamento na Avenida de Roma que se situava por cima do Centro Comercial Tutti Mundi, o terceiro "drugstore" por ordem cronológica a ser aberto em Portugal (o segundo em Lisboa), e Conchita Velasco, diva espanhola da época, actriz e cantora, sua vizinha, terá sido uma das suas conquistas. Até que conhece a mulher da sua vida: Maria do Carmo da Ressurreição de Deus, conhecida no meio artístico como Carmizé. O cupido foi Camilo de Oliveira, actor e fanático Sportinguista. Yazalde começa então a ser visto, noite após noite, na primeira fila do teatro de revista no Parque Meyer. Em exibição estava "Lisboa é sempre mulher" e do elenco constava Carmizé, actriz e modelo. Jantam pela primeira vez n' A Mexicana, saem com Camilo e sua mulher para uma noite de fados e iniciam então um relacionamento sério. Com outra tranquilidade e equilíbrio, chegou a altura de Yazalde voltar a jogar futebol.

 

Algum tempo havia passado até que finalmente a 12 de Setembro de 1971, 7 meses após a sua chegada a Alvalade, Yazalde estreia-se oficialmente pelo Sporting na primeira jornada do campeonato nacional de 71/72. O adversário é o Boavista, que inicia nessa temporada a metamorfose que o tornaria Boavistão. Com a voragem de recuperar o tempo perdido, ao Chirola bastam 5 minutos para marcar o seu primeiro golo pelo Sporting. Ainda faria mais dois, completando assim um "hat-trick", numa vitória leonina por 4-1. O pior havia ficado lá atrás e Yazalde preparava-se para encantar os Sportinguistas. O “anjo com cara de índio”, homem que nunca esqueceria as suas humildes origens e pela vida fora sempre evidenciará uma especial sensibilidade em relação a crianças pobres, iria finalmente a todos mostrar que, para si, o golo era, como um dia o classificou Dinis Machado (obrigado ao António F pela recordação), uma triunfante fatalidade. 

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(*) Publicado originalmente pelo autor neste blogue em 19 de Fevereiro de 2021

18
Jun22

A Vida de "Chirola" Yazalde (*)

Parte I - Da Villa Fiorito a Rei de Copas


Pedro Azevedo

Héctor Casimiro Yazalde nasceu em 29 de Maio de 1946 na Villa Fiorito, um pobre e degradado bairro de Lomas de Zamora, na periferia sul de Buenos Aires, onde 14 anos depois viria também ao mundo o génio Diego Armando Maradona, que aliás teve Yazalde como um dos seus grandes ídolos de infância. Começou a jogar à bola nas ruas da cidade argentina, onde com 13 anos já trabalhava, vendendo jornais, bananas e picando gelo. Como retribuição davam-lhe umas moeditas de cêntimos, apelidadas de "chirolas", o que lhe viria a valer uma alcunha para a vida. Desta forma pretendia ajudar os pais, Pedro e Petrona, e os 7 irmãos, mas o seu sonho era tornar-se profissional de futebol e jogar no Boca. 

 

Tentou a sua sorte no Racing e no Los Andes, mas o seu físico franzino e as sapatilhas esburacadas com que se apresentava nas captações não deixaram os técnicos da cantera desses clubes propriamente bem impressionados, pelo que a oportunidade continuou a passar-lhe ao lado. Até que surgiu o Piraña, um humilde clube que militava na quarta divisão argentina. Tinha 18 anos e finalmente poderia jogar futebol a nível federado. O momento era também de teste às suas reais capacidades, se falhasse ingressaria como mecânico na fábrica textil de Don Prieto. O Piraña havia sido fundado em 1942 como homenagem a Jaime "piraña" Sarlanga, um goleador do Boca do início da década de 40 (122 golos, um dos 5 maiores goleadores da história dos xeneize). O seu fundador, Alcides Solé, era um sonhador e um romântico. De forma que 3 dias apenas após o último jogo de Sarlanga pelo Boca decidira criar e registar o clube, convencendo todos à sua volta de que o nome era sonante e gracioso. Quando Yazalde chegou ao Parque de los Patricios, o clube só estava afiliado na federação argentina (AFA) há apenas 3 anos, por isso não tinha histórico significativo e encontrava-se nas profundezas das divisões inferiores argentinas. Na verdade, dificilmente se poderia chamar àquilo uma oportunidade, mas Yazalde não tinha outra e havia que tentar dar nas vistas o mais possível. E Yazalde aproveitou o que pôde, marcando 52 golos nos dois anos que passou no Piraña, o último dos quais no jogo decisivo que definia a promoção à 3ª divisão. Nessa final, disputada no estádio do Arsenal de Sarandí, clube fundado e presidido à época por Julio Grondona, futuramente presidente da AFA e vice-presidente da FIFA, do outro lado estava um clube de Avellaneda, o General Mitre, presidido por Pedro Iso. Acontece que Grondona e Iso já tinham acertado passar a desempenhar funções dirigentes no Independiente, o primeiro como presidente da comissão de futebol profissional do clube de Avellaneda. Apesar de Yazalde ter sido expulso aos 10 minutos dessa final, o golo que marcou e o requinte que mostrou deixaram impressionado Grondona, que logo convenceu o presidente Carlos Radrizzani a despender 1,8 milhões de pesos para o levar para o Independiente. Do nada, o Chirola dava um salto lunar na carreira. Tinha 21 anos e ia-se estrear na Primera A (primeira divisão da Argentina).

 

Estávamos em 1967 e o Rei de Copas, alcunha atribuída ao Independiente, o melhor clube argentino nas décadas de 60 e 70, disputava o Torneio Nacional (Clausura), o campeonato argentino que encerrava a época (na primeira fase da época ocorria o Torneo Metropolitano, hoje Apertura, podendo assim haver 2 campeões diferentes num ano). Entrando a todo o gás na competição. o Independiente cedo somou 8 vitórias consecutivas. A equipa era fortíssima e tinha um ataque de meter medo, formado por Bernao (o poeta da direita), "El Artillero" Artime, Tarabini e o polivalente Savoy, um canhoto de excelência. Mas Yazalde não se intimidou e estreou-se a marcar logo à 3ª jornada, obtendo o golo decisivo que permitiu ao "Rojo" (outro apodo) vencer no campo do Platense. Tomando-lhe o gosto e não acusando a pressão de quem vinha da 4ª divisão nem a adapatação à nova realidade, o Chirola iniciava sem ainda o saber um ciclo de 6 jogos consecutivos a marcar, obtendo logo de seguida um hat-trick na recepção ao Lanús e bisando frente ao Quilmes. A série não viria a ser interrompida sem novos golos ao Ferrocarril, Chaco e Mar de La Plata, perfazendo um total de 9 em apenas 6 jogos. No final, o Independiente, treinado pelo brasileiro Oswaldo Brandão, sagrar-se-ia campeão, com 12 vitórias, dois empates e apenas uma derrota (San Lorenzo, 1-3, golo do Chirola), e Yazalde seria o 2º melhor marcador da competição (10 golos), a apenas 1 golo do seu colega de equipa, Luis Artime, que viria a coroar-se como o melhor marcador. Continuando nesse transe de astronómico crescimento, no ano seguinte José María Minella convoca-o para a selecção argentina e chega a jogar pela Celeste no Maracanã num tanto quanto possível amistoso contra o Brasil. Nesse mesmo ano e no de 69 continua entre os melhores marcadores na Argentina, mas o título de campeão foge-lhe. Chega então o ano de 1970 e Yazalde volta a ganhar um campeonato argentino, desta vez o Metropolitano. O título teve tanto de glória como de dramatismo, com Independiente e River Plate a acabarem empatados em quase tudo, desde pontos (27) até à diferença de golos (18). Um campeonato que se assemelhou portanto ao célebre Campeonato do Pirolito ganho pelo Sporting ao Benfica, só que com Hector Yazalde a fazer as vezes de Fernando Peyroteo. O independiente acabaria por ser declarado vencedor devido ao terceiro critério de desempate, os golos marcados (43 contra 42 do River). Para chegar aí, o Rei de Copas teve de superar o rival Racing na última jornada. Com o jogo empatado a 2, viria a ser Yazalde a resolver nos minutos finais, assegurando a vitória no jogo e campeonato e obtendo o seu 12º golo da competição. Em consequência, seria eleito o Jogador do Ano (1970), distinção mais tarde também atribuída a craques como Passarella, Fillol, Kempes, Maradona (4 vezes), Francescoli, Riquelme, Tévez, Verón ou Messi.

 

Desperto sobre o valor de Yazalde, Abraão Sorin, dirigente do Sporting, iniciou então negociações pelo seu concurso. E em Janeiro de 1971, o Chirola assinava pelo nosso clube. Para trás haviam ficado 72 golos em 112 jogos realizados pelo Independiente de Avellaneda. Lisboa esperava-o. Antes, porém, uma despedida em beleza: a Argentina convida o Bayern de Munique, de Maier, Beckenbauer e Muller, e a 30 de Dezembro de 1970 vence os bávaros por 4-3. Yazalde bisa. Há também uma última homenagem: o histórico bandoneonista Ernesto Baffa compõe um tango a que chama "Para vos Chirola".

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(*) Publicado originalmente pelo autor neste blogue em 18 de Fevereiro de 2021

18
Jun22

Um quarto de século de saudade

Hector Yazalde morreu há 25 anos


Pedro Azevedo

Hector Casimiro Yazalde, o nosso Chirola, deixou-nos há 25 anos. Em sua memória celebrarei aqui a sua vida, republicando o conjunto de crónicas que Castigo Máximo aqui apresentou entre os dias 18 e 24 de Fevereiro de 2021. Porque as pessoas só morrem efectivamente para nós quando deixamos de falar nelas, e Yazalde nunca morrerá para os Sportinguistas.  

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16
Jun22

De pequenino é que se torce o pepino


Pedro Azevedo

Diz-se que de pequenino é que se torce o pepino, se educa. A metáfora náo é evidente, na justa medida em que voltear um fruto tão rijo não se revelará fácil sequer para um adulto. Será por isso mais crível associar a expressão à planta em si do que ao fruto. Porque o pepineiro assenta num suporte, normalmente umas estacas. E necessita de ser tutorado, de forma a produzir melhor, fazendo desenvolver o tronco central para que cresça se retorcendo pelas estacas. Como não há coincidências, o pepino é verde. Tal como o nosso Sporting. Que acaba de se sagrar campeão nacional de iniciados de futebol pela 15ª vez, ultrapassando o FC Porto como o clube mais titulado neste escalão. O tutor chama-se Bernardo Bruschy, e de entre os pequeninos destaca-se Gabriel Silva. Com 45 golos em 30 jogos (média de 1,5 golos/jogo), o jovem avançado leonino promete. Mas deve continuar a crescer assente em boas estacas, porque Peyroteo só houve um e exemplos de promissores miúdos que se perderam abundam por aí. A estrutura de futebol juvenil e os seus treinadores procurarão que continue viçoso, sempre enquadrado num tronco central (a equipa).

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12
Jun22

O Mundial dos mundiais


Pedro Azevedo

Vem aí o Mundial do Qatar e Portugal estará presente numa fase final pela sexta vez consecutiva. Este facto, corriqueiro para as novas gerações, nunca fez sequer parte do imaginário de um jovem habituado a ver os outros em competição no maior certame do mundo de seleções. Nesse tempo o número de países presentes era bem menor (16) e os jogos ainda passavam na TV a preto e branco. Até que, já na minha adolescência, o Brasil me apareceu a sambar a cores na televisão. Por esse motivo, pela categoria e qualidade de jogo de muitas equipas presentes, nível superlativo de vários jogadores, drama, exotismo e magia de certos momentos, o Mundial de Espanha de 82, o primeiro com alargamento para 24 equipas, continua a ser para mim o melhor de sempre. Desde logo pela cor, mas também por ter juntado o génio de Zico, Sócrates, Platini, Rummenigge, Littbarski, Madjer, Conti, Boniek, Panenka, Kempes e Maradona, naquele que foi o último mundial dos jogadores, estes ainda razoavelmente libertos de pesados esquemas tácticos.  Foi também o mundial da raiva causada pela agressão bárbara de Schumacher a Battiston, do exotismo de um scheick do Kuwait ter retirado a sua equipa do campo ou da quebra de protocolo protagonizada pelo eufórico Sandro Pertini na tribuna de honra do Bernabéu. Nada disso, porém, ofuscou o nível altíssimo dos participantes. Como esquecer o último samba brasileiro protagonizado por Zico, Sócrates, Falcão, Leandro, Junior ou Eder? Ou o perfume africano dos surpreendentes Camarões de N'Kono e Roger Milla? Ou de uma Polónia que juntou numa mesma equipa craques como Boniek, Deyna, Lato ou Szarmach? E, claro, sem esquecer a França de Michel Hidalgo, com um meio campo de sonho onde um pequeno sósia de Asterix (Giresse) tocava em dueto com a gazela Tigana sob a batuta do maestro Platini. Mas houve mais, muito mais. Desde a cortina de ferro protagonizada por uma muito ucraniana União Soviética de Blokhine, Baltacha, Demianenko, Protasov ou Rats (e Dasaev), ou a Checoslováquia de Panenka e Nehoda, até à Áustria de Krankl, Prohaska, Pezzey e Schachner, passando pela Argélia de Madjer e Belloumi, a Escócia de Gemmill, Gray, Dalglish, Souness, Archibald ou Strachan, ou a campeã em título Argentina, de Kempes, Ardilles, Tarantini, Passarella e... Diego Armando Maradona. Todos ficando pelo caminho, que à final chegariam uma muito odiada Alemanha de serviços mínimos, apoiada no repentismo de Rummenigge e em dois laterais todo-o-terreno (Briegel e Kaltz), e a Squadra Azurra de Bearzot, o fleumático italiano sempre inseparável do seu cachimbo, qual Corto Maltese aventureiro que, contra tudo e contra todos, haveria de levar o barco a bom porto. Num Mundial que ficaria muito marcado pela elevadíssima qualidade de jogo da Canarinha, chega a ser injusto olvidar gente como Zoff, Scirea, Cabrini, Tardelli, Antognoni, Altobelli, Conti ou Rossi, os campeões. Este último, Paolo Rossi, ausente dos relvados durante dois anos após envolvimento no escândalo do Totonero, viria a ser a grande figura do Mundial. Uma história de sonho, de conto de fadas, ou não tivesse esse Mundial ficado na história pelos seus pózinhos mágicos. 

30
Mai22

“Hala Madrid… y nada más”


Pedro Azevedo

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A Champions League e o Real Madrid andam de mãos dadas desde que o jornal L'Equipe lançou as sementes da criação da extinta Taça dos Clubes Campeões Europeus. Era então o tempo dos astros Di Stefano e Puskas, mas também de Gento, o veloz ala espanhol, tão rápido que cedo se tornou o jogador que mais vezes (6) levantou a "Orelhuda", feito ainda hoje não igualado. Depois, entre outros porventura menos marcantes, houve os ciclos de Zidane e Figo e de Cristiano Ronaldo. Até que chegou a décima quarta, quiçá a mais sofrida de sempre, a fazer lembrar as "remontadas" dramáticas dos loucos anos 80 do Real, onde coabitavam o pequeno Juanito e o grande Santillana com a "Quinta del Buitre", esta última dedicada ao  "abutre" Butrageño e aos seus quatro "compagnons de route" (Michel, Sanchis, Martin Vasquez e Pardeza). Sem esquecer um mexicano malabarista de circo, acrobata da "chilena" e dos pontapés de moinho, que dava pelo nome de Hugo Sanchez. Juanito disse um dia que 90 minutos no Bernabeu podem ser muito longos, e esta época foi paradigma da visão do malogrado ícone do Real. Tudo começou numa reviravolta contra o PSG, continuou quando a eliminatória parecia perdida face ao Chelsea e terminou com a "remontada" epica que deu a vitória com o Manchester City. Por 3 vezes a velha mística do Real encontrou no sortilégio do Bernabeu o antídoto face ao novo-riquismo de clubes adubados com dinheiro proveniente do Qatar, Rússia ou Emirados. A vitória da patine. Todavia, havia ainda que derrotar o Liverpool, uma equipa temível e que, no dizer dos seus adeptos, nunca caminha sozinha. A condizer, os "Reds" fizeram deslocar uma extensa comitiva a Paris, a cidade encontrada pela UEFA para substituir a banida São Petersburgo. E atacaram desde o primeiro minuto. Porém, na final, se ao Real faltou o Bernabeu, sobrou Courtois. O belga foi um polvo na baliza dos merengues e com os seus tentáculos só a Salah tirou 4 golos cantados. No fim, o Madrid fez a festa. Como quase sempre. Dizem que é da mística, mas a mística é ganhar. E o Real fá-lo como ninguém. Mesmo quando claramente não é o mais forte. Ainda que Vini Jr vá a caminho de uma carreira galáctica e que Benzema tenha tido uma época de sonho. Ou que Modric, mesmo que no ocaso da sua carreira, continue a mostrar um futebol de filigrana. Sem esquecer Ancelotti, o Senhor Champions, um fleumático italiano, contradição nos termos que no Real mais do que resultou. Afinal, esse também foi o clube dos zidanes e pavones, que mais contradição quererão vós? 

30
Abr22

Tudo ao molho e fé em Deus

Xeque-mate


Pedro Azevedo

Eu ainda sou do tempo em que ir ao Bessa era mais ou menos como tentar atravessar o Cabo das Tormentas. Como consequência, invariavelmente acabávamos naufragados, excepto naquele ano em que o Sousa Cintra apresentou o "novo Eusébio", o Careca, o jogador com os apodos mais enganadores de que tenho memória, por não ser nenhum Pantera Negra nem sofrer de alopécia. Nessa temporada triunfámos por 3-0, exactamente o mesmo resultado com que os brindámos aqui há uns dias atrás. E com toda a naturalidade do mundo, diga-se, que por defeitos que queiram meter no Ruben Amorim - quem não os tem, eu também os aponto -, a grande verdade é que com ele passou a ser natural o Sporting vencer em qualquer relvado do território nacional. É verdade, e por isso é importante que ninguém se esqueça de tomar o Memofante. A não ser que se queira mudar tudo outra vez, correndo-se o risco de se ficar com umas trombas do tamanho de um elefante. Não, tal não seria prudente, diria até que seria suicidário, pelo que longos anos mantenham o Ruben Amorim, o da Boa Esperança, entre nós. Quem provavelmente não teremos no futuro é o Matheus Nunes, o eleito do Guardiola. Eu tenho pena, e lamento o que vejo escrito por aí. É que o Matheus não é um jogador qualquer, e no Bessa até desbloqueou o marcador. Com classe, tal como contra a Turquia. Infelizmente, o Matheus é um mal amado para uma certa estirpe de adeptos. Mas é um craque. E abriu o activo no Bessa, com classe. Sem ponta de lança, caçámos com o que havia mais à mão. Mobilidade e tal, estão a ver... Não houve Paulinho a servir de pivô nem. tão pouco Slimani à procura da profundidade, mas sem ponta de lança goleámos o Boavista. Um xeque-mate no reduto do xadrez, é bom de ver. Com rei (Amorim) e rock, está claro. 

Tenor " Tudo ao molho...": Edwards 

23
Abr22

Tudo ao molho e fé em Deus

À espera de São Jorge


Pedro Azevedo

Na vida, o timing das coisas é essencial. Para ser perfeito, não convém que a acção se desenrole cedo ou tarde demais. Se uma declaração de amor a uma mulher entretanto já comprometida pode enquadrar-se num exemplo de uma acção tardia, a visita do Sporting ao Porto deve ser considerada no lote das acções prematuras. E porquê? Porque ir ao Dragão nunca poderia ter ocorrido na Quinta-feira, dia 21 de Abril, mas sim hoje, Sábado, dia 23 de Abril, uma data em que se comemora São Jorge, o cavaleiro proveniente da Capadócia que com sucesso enfrentou e venceu o Dragão. Não, não tivemos Jorge e do plantel quem mais perto havia estado dessa região da Anatólia chama-se Slimani (Istambul/Fenerbahçe), que nem ao banco foi, o que não foi nada "católico" por revelar um comportamento do jogador desadequado com o espírito de grupo sempre tão louvado na época passada. Não houve Slimani, mas houve o habitual Paulinho, que nem cócegas fez ao Dragão. Sobre o Paulinho já muito se falou do seu compromisso defensivo, de como recua para organizar e ligar o jogo, blá, blá, blá... Sobre ser um Matador é que nada, e por isso o Dragão esteve sempre descansado. Acresce que o Paulinho que liga o jogo colide com os terrenos que Pote na época passada tornou férteis, prejudicando a acção deste. E, de certa forma, sobrepõe-se até ao espaço antigamente usado por Matheus Nunes para cavalgar a galope. Matheus que agora recebe de lado e sobre a esquerda, e não de costas e ao centro. Só que o luso-brasileiro tinha tanta facilidade em receber de costas que com uma simulação tirava logo um ou dois adversários do caminho, derrubando assim a usual superioridade dos adversários nessa zona nevrálgica do campo. Criando logo ali um bom ponto de partida para dinamitar a linha de defesa adversária. Agora não, é outro tipo de jogador, limitando-se muitas vezes a atrair adversários, que se empilham à sua volta, para tentar libertar alguém. Não é a mesma coisa, e o Sporting ressente-se disso. Como se ressente de não haver quem explore a profundidade como o TT e o Sporar faziam. Não teria sido melhor termos contratado alguém com essas características, de preferência com bastante mais técnica do que esses dois? Bom, o Slimani até acelera nas rectas e melhorou a sua técnica e tudo, mas esta coisa de o Paulinho ter lugar cativo deve ter-lhe rebentado com os fusíveis. E sem sinapses, fez asneira. Curioso porém é verificar que a única vez em que foi titular sem Paulinho até bisou, aliás os únicos golos leoninos nessa partida. Enfim, a crónica já vai longa, mas só para terminar gostaria de expressar o desejo de que no futuro próximo não cheguemos tarde. À Europa. Pode ser? 

07
Abr22

Lusos goleadores na Europa


Pedro Azevedo

Os 4 principais campeonatos europeus têm como denominador comum haver jogadores portugueses entre os seus 10 melhores marcadores. Começando pela Bundesliga, o campeonato alemão, André Silva, do Red Bull Leipzig, ocupa o nono lugar com 10 golos. Seguidamente, na La Liga, o campeonato espanhol, Gonçalo Guedes, do Valência, está no oitavo lugar com 11 concretizações (João Félix é o décimo quinto, com 8 tentos). Já na Premier League, o campeonato inglês, existem dois lusos no "Top Ten": Diogo Jota é o segundo melhor marcador da competição, com 14 golos, e Cristiano Ronaldo o quarto, com 12 golos (Bruno Fernandes é décimo terceiro, com 9 golos). Finalmente, na Serie A, o campeonato italiano, Beto, um jogador que tal como Pauleta escapou ao crivo dos 3 grandes, ocupa o nono lugar, com 11 golos. Tantos portugueses entre os melhores goleadores dos principais campeonatos europeus não é habitual, razão mais do que suficiente para aqui ser dado o devido destaque a esse facto. Paradoxalmente, na nossa Primeira Liga temos apenas dois jogadores lusos entre os 10 melhores marcadores. São eles Ricardo Horta (segundo classificado), do Braga, com 15 golos, e Paulinho (sétimo colocado), do nosso Sporting. Mostrando assim que santos da casa não fazem milagres. 

05
Abr22

Tudo ao molho e fé em Deus

A pele de Ugarte contra os Castores


Pedro Azevedo

Jogar de cadeirinha com um assento de Palhinha quando à volta há muitos castores tem tudo para dar mau resultado. A não ser que os roedores decidam "não mexer uma palha", o que anteontem não foi de todo o caso, ou que se mude o tampo (tampão?) para pele de Ugarte, uma espécie uruguaia verdadeiramente predadora de castores. Foi quanto bastou para que o Sporting levasse de vencida a equipa que viajou da Capital do Móvel, porque até aí a exibição leonina esteve muito longe de um cenário das mil e uma noitas, por muito que Paulinho tenha procurado ao máximo emular o persa Taremi enquanto estendia o tapete ao VAR de serviço. No fim, ganhámos como quase sempre. Depois de batermos 3 vezes na madeira. Os postes aparentemente resistiram, ou não fossem de Paços de Ferreira. Já quanto ao Ugarte... ninguém resiste. Nem o mercado, temo. 

Tenor "Tudo ao molho...": Nuno Santos, pela regularidade a alto nível durante todo o tempo, e Ugarte, por ter mudado a face do jogo. 

30
Mar22

Tudo ao molho e fé em Deus

Macedónia sem Norte


Pedro Azevedo

Ao princípio eles queriam ser só Macedónia, orgulhosamente assim evocando os tempos de glória de Alexandre, O Grande. Mas os gregos vetaram e sugeriram que fossem à procura do Norte. Como a história muitas vezes se recria, voltaram agora desejosos de emular de novo a Grécia antiga, desta vez a do não assim tão longínquo ano de 2004, que contra todas as previsões fez furor nesse Europeu. Para tal deixaram pelo caminho a nóvel campeã europeia, a Itália, de Garibaldi, herdeira de um Império Romano que, curiosamente, teve a Macedónia como sub-divisão administrativa, depois de já terem causado um escândalo ao imporem a terceira derrota em casa - a primeira foi sonhada por Torres e concretizada nos pés de Carlos Manuel em Estugarda - da história à tetra-campeã mundial Alemanha, em jogos a contar para a qualificação de campeonatos do mundo de futebol. E assim vieram até Portugal, desejosos de voltarem a surpreender. Só que do outro lado encontraram uns lusos hesitantes e que não assumiram o ataque relâmpago. Incrédulos, os macedónios (do norte) viram-se em zonas do terreno habitualmente por si inexploradas. E tomaram-lhe o gosto, vivenciando um inusitado conforto com bola. Afinal, foi só uma ilusão, e o surpreendente acabou surpreendido. Bastaram para tal dois contra-ataques fulminantes que permitiram um igual número de pontapés certeiros de Bruno Fernandes. Isso, bem como uma exibição imaculada de Pepe, o General, imperial em todas as suas acções. No fim, os portugueses celebraram Fernando, o Grande (O Único, a nível de selecções nacionais). E ainda há quem diga que Santos da casa não fazem milagres... (Se bem que milagre, milagre era estas gerações de grandes jogadores que confluíram aqui ficarem fora deste Mundial, o quinto de Cristiano Ronaldo.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pepe. Menção honrosa para Bruno Fernandes pelos golos (melhorou a sua exibição no segundo tempo)

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25
Mar22

Tudo ao molho e fé em Deus

Valeu o último terço... do campo


Pedro Azevedo

"Matheus, jogas muito pá!!!!!!!" - ele (Porro, nas redes sociais) sabe-o, eu também por aqui, embora uma leitura rápida do que se escreve por aí até faça crer que o luso-brasileiro não tem compromisso com o jogo e que o Guardiola não percebe nada disto. O jogo estava a pedir o Matheus desde o 2-0, mas Fernando Santos hesitou, hesitou, correndo o risco de ficar fora do Mundial. Ideal para as transições que a necessidade turca de chegar ao empate iriam originar, Matheus finalmente foi a campo nos minutos finais. E matou o jogo com uma recepção de bola de grande classe e um remate efectuado com a frieza de um matador. Antes, desmarcara-se como um Mustang pelo centro do terreno e não pela meia esquerda onde vem actuando no Sporting, beneficiando ainda de um meio campo a 3 que lhe permite sempre o resguardo de 2 homens nas suas costas. É isso que ultimamente a análise dos sábios às suas prestações no Sporting muitas vezes descura: num meio campo a 2, Matheus não arrisca tanto na frente porque precisa cuidar do seu posicionamento para reagir ao momento da perda da bola numa equipa que joga quase sempre em inferioridade numérica nessa zona nevrálgica do relvado.  Isto é que o condiciona, e não qualquer coisa que tenha subido à cabeça de um miúdo que aliás sempre deu mostras de ser humilde, atitude que lhe permitiu subir das profundezas das divisões distritais para a Selecção Nacional em apenas 3 anos. (Não é a toa que a exibição mais marcante do luso-brasileiro tenha ocorrido contra um Benfica que no tempo de JJ também jogava com apenas dois médios centrais, o que deu azo a que Matheus tenha tido oportunidade de jogar e arrasar no 1x1 contra Weigl inúmeras vezes.)

 

Apesar de tanta hesitação, as santas e os santinhos estão com o Engenheiro. É pelo menos uma explicação possível para os factos de o penálti falhado pelos otomanos ter evitado um banho turco ou os campeões da Europa terem ficado inesperadamente pelo caminho contra uma Macedónia à procura da glória perdida dos tempos de Alexandre Magno. Curiosamente, para combater os macedónios aos italianos terá faltado alguém também com nome de imperador, um Otávio, decisivo na vitória lusa de ontem à noite. Assim, nem foi preciso o Ronaldo de sempre, ontem particularmente inspirado na ligação de jogo a um só toque mas menos bem na finalização, substituído como matador por Jota, a moto de alta cilindrada que desestabilizou a organização turca. O sofrimento final é que não era de todo necessário, mas o futebol tem destes sortilégios e quando Fonte se juntou a Guerreiro, Danilo e Dalot, que tinham perdido bolas no primeiro terço durante a primeira parte, e fez uma falta desnecessária dentro da grande-área abriu o bar (ou VAR) para a entrada turca no jogo. Valeu-nos então a desinspiração do Yilmaz perante um Diogo Costa que revelou grande personalidade e bom jogo de pés, numa altura em que o Fernando Santos já estava envolto em banho-Maria, indeciso e à espera que Nossa Senhora o ouvisse no terço. Mas isso são contas de outro rosário, que no fim o Engenheiro até trocou o terço pelo cigarro em pleno relvado tal eram os nervos expostos naqueles já seus usuais tiques que abundantemente mostrou nos minutos finais da querela. 

 

Venha a Macedónia! E depois o Qatar. Se tudo correr bem, o Engenheiro fica. Para ganhar o Mundial? Se Nossa Senhora assim o quiser. É que um Rosário são 3 Terços, tantos quantos os que dividem estrategicamente um campo de futebol. Haja fé! Avé Maria, cheia de graça, o Senhor é conVosco...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Otávio

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21
Mar22

Tudo ao molho e fé em Deus

Reviver o passado no Condado Portucalense


Pedro Azevedo

Ir ao Afonso Henriques ver o Sporting é tarefa que requer um kit medieval de protecção pessoal e uma fleuma britânica (por oposição à ira "brutânica" que se vai encontrar) a condizer. Os preparativos para tão grande empreendimento deixam qualquer um exaurido, envolvendo indispensáveis decisões sobre a elasticidade da malha de ferro que se irá utilizar para proteger o corpo, tipo de armadura e escudo de defesa contra pedras e/ou cadeiras, além da complexa escolha entre Prozac, Lexotan, Xanax ou Valium como garantia de imunidade e total impassibilidade perante as circunstâncias. Há ainda que pensar num Plano B que obrigue à tão indesejável acção como último recurso de sobrevivência pessoal, o que conduz ao extenuante esforço de esfregar as meninges à procura de soluções do tipo de como fazer passar uma espada, de 5 kg (semelhante à usada pelo Fundador), de lâmina bem afiada pela segurança das instalações com a mesma facilidade com que se de um petardo de tratasse. Provavelmente devido a todo o desgaste físico e emocional prévio à deslocação, só lá fui por duas vezes na minha vida. A primeira, o meu baptismo de fogo, ocorreu em 80, era eu um menino. Levado pelo meu querido Pai, viajei no Combóio Verde rumo ao título nacional.  A segunda deu-se em 87, na jornada a seguir aos célebres 7-1 com que desasámos as águias em Alvalade. Dessa vez fui de véspera, num combóio regular, com pernoita antecipada no Porto para visitar família e amigos de infância. Recordo-me que nos fizeram a cama, perdão, N'Kama, e tudo. N'Kama (golo de meio campo), mas também N'Dinga, Basaúla, Roldão, Basílio, Miguel e as estrelas Ademir e Paulinho Cascavel, este último que viria a ser nosso mais tarde. E um guarda-redes pequenino e muito elástico que dava pelo nome de Jesus. Com o Marinho Peres no banco e o Autuori como adjunto, e o Veiga Trigo como o circunstancial reforço dessa tarde invernosa que fez vista grossa a um penálti do tamanho do Castelo de Guimarães sobre o Silvinho que nos daria o momentâneo 2-0 (acabámos por perder por 1-3). Nunca tinha pensado maduramente no assunto, mas anteontem dei-me conta de que esta associação das deslocações a Guimarães a combóios era tudo menos inocente. Pelo menos a avaliar pelo facto de que sem o Alfa (Semedo) dificilmente teríamos saído de lá com a vitória. Foi no que deu ser pendular, ainda que para tal tenha tido de usar os braços como equilíbrio para se manter na linha. Mas a surpresa da noite consistiu na constatação de que afinal há um André Almeida que joga à bola e não à canela, o que num cenário bélico não deixou de ser reconfortante. Pelo menos enquanto houve jogo, até porque às tantas o zelo em excesso do Veríssimo levou à expulsão de tantos treinadores e adjuntos do Vitória que eu penso que o massagista assumiu o controlo da equipa. Deve ter sido isso mesmo, porque a partir daí os vimaranenses só conseguiram fazer cócegas e massajar o ego aos nossos jogadores. E num reflexo o Edwards matou o jogo. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pedro Gonçalves ("Pote"). Quando Amorim compreendeu que ao ponta de lança faltava apoio frontal, mais do que lateral, o jogo mudou de cara. Excelente exibição também de Adán. E o Paulinho marcou o golo da reviravolta, de Letra (C), ainda que para tal primeiro tenha tido de desperdiçar as oportunidades de letras A e B só com o guarda-redes pela frente.

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15
Mar22

Tudo ao molho e fé em Deus

Slimani contra a seca... de golos


Pedro Azevedo

O erro faz parte do futebol. Quer dizer, à partida o erro deveria fazer parte do futebol. Só que por vezes o erro é mitigado por acção de terceiros. Foi o que aconteceu ontem em Moreira de Cónegos quando um Pinheiro se confundiu com um eucalipto e quase secava tudo à sua volta. A coisa começou quando um defensor moreirense desafiou todos os cânones do bem jogar e, vindo de fora para dentro da sua pequena área, despachou a bola rasteira para a zona central. Por milagre, Edwards, posicionado à entrada da grande área, não captou logo a bola, mas um segundo jogador do Sporting conseguiu-o e avançou com perigo. Subitamente, ouviu-se um silvo. Era o Pinheiro a descascar uma "falta" de Slimani sobre o tal trôpego defensor. Revistas as imagens, o Slimani levou com um pontapé no joelho, consequência reflexiva do alçar de perna do moreirense no momento do chuto. Não sei que regra do International Board o Pinheiro terá rotulado (o joelho e tal...), mas até acho que neste estado de coisas foi uma sorte o argelino não ter levado um cartão amarelo. Sorte que, por exemplo, o Ugarte pouco tempo depois não teve quando numa disputa de bola encostou o seu ombro no ombro de um adversário, o que está bom de ver logo mereceu uma punição disciplinar ao pobre do uruguaio. Punido foi também o Edwards, culpado por reagir a uma falta nítida não assinalada sobre si. E, por falar em nitidez de faltas, o Pinheiro lá viu o Pablo a destruir uma arrancada promissora do Matheus Nunes. O (segundo) amarelo e consequente expulsão é que ficou para um outro dia. Posto isto, o Pinheiro é uma exportação nacional, um internacional com insígnias e tudo. E é também uma comédia, um nonsense que o Flying Circus itinerante de Fontelas Gomes promove pelo mundo. Pena é não ficar por lá, pelo menos a atestar pela sua ausência de uniformidade de critério técnico e pelos 20 cartões amarelos já exibidos a jogadores do Sporting em apenas 4 jogos por si apitados. 

 

O que valeu ao Sporting foi ter um ponta de lança, essa figura que no Sporting já se julgava ser uma lenda da mitologia do mundo da bola. Até que (res)surgiu o Slimani no clube e afinal chegámos à conclusão que um ponta de lança até dá jeito. É o que se conclui quando um jogador recém-chegado contribui com 4 dos últimos 5 golos da equipa. E de todas as maneiras e feitios: 2 de cabeça, 1 com o pé esquerdo, outro com o direito. Não deixando de combinar bem com a equipa, apesar de não ter a técnica mais apurada do avançado centro Paulinho. Dando, porém, outras coisas ao nosso jogo. Como a profundidade ou a capacidade de luta, que o homem mesmo nos seus 33 anos, continua rápido e resistente como um daqueles ases quenianos da dupla-légua. Além disso, a sua actual excelente forma parece ter espicaçado o seu colega Paulinho, ontem autor do outro golo após um belo bailado que envolveu Edwards e Porro. Tudo boas notícias, portanto, razão mais do que o suficiente para eu não querer dar muito relevo àquela segunda parte enfadonha que mais uma vez me fez invocar aquela frase do Bobby Robson em que este afirmava que ao Sporting faltava "killer instinct". (E quando assim é ficamos mais expostos ao "killer instinct" de outros.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Islam Slimani. Completam o pódio o Edwards e o Porro. 

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10
Mar22

Tudo ao molho e fé em Deus

Citizens vs Partisans


Pedro Azevedo

No futebol, quando a equipa teoricamente mais fraca traça um plano de jogo realista a diferença entre as forças tende a esbater-se. Foi o que aconteceu ontem no Etihad, onde os poderosos Citizens foram travados pelos resistentes Partisans. Definindo a zona de pressão em cima da linha de meio campo, e não à saída da grande área adversária como na primeira mão, os leões conseguiram evitar que o City tivesse os habituais latifúndios por onde jogar entre-linhas. Todavia, durante todo o primeiro tempo os leões apenas conseguiram condicionar onde e como o City jogava, nunca criando constrangimentos defensivos ao seu adversário. As acções sucessivas de sabotagem das linhas do opositor estiveram guardadas para a segunda parte, com Marcus Edwards como o elemento da resistência que pôs em constante sobressalto o último reduto dos ingleses, obrigando o City a reorganizar-se e a não sair já com tantos homens para o ataque. Paulinho teve então a melhor oportunidade de golo de todo o jogo, mas a bola embateu no muro chamado Scott Carson, o veterano guarda-redes que substituíra pouco tempo antes o titularíssimo Ederson. Em conclusão, Ruben Amorim mostrou ter aprendido a lição da primeira mão e a equipa cresceu e deu uma outra imagem de si. Porque há ainda um longo caminho a percorrer até poder enfrentar olhos nos olhos um adversário deste calibre. E, sendo assim, mais vale não ter mais olhos que barriga. (Principalmente quando do outro lado está um "Citizen Kane" catalão que tem o mundo dos petrodólares a seus pés.)

Tenor "Tudo ao molho...": Edwards. Menções honrosas para Neto e Slimani.

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06
Mar22

Tudo ao molho e fé em Deus

A Vida Natural e a unanimidade de Slimani


Pedro Azevedo

David Attenborough orienta o seu cameraman para captar a acção de um mamífero da família dos Pepus Sanguíneus. Nesse preciso momento, o predador ataca um Casquero em plena savana. Usando as suas patas posteriores, primeiro pontapeia-o, depois, com este já imobilizado no chão, pisa-o barbaramente ao longo da coluna vertebral, finalizando a sua acção com um golpe desferido pelas suas patas anteriores na nuca da presa. É um episódio fulcral da galardoado série "Life in Cold Blood" do consagrado realizador britânico, estrela do canal televisivo BBC. Anos mais tarde, Sir David regressa à savana de Castela, mas o Pepus Sanguínius já migrou para Norte. Incansável, segue o seu trilho até o encontrar. E descobre-o, constatando uma notável evolução da espécie. É que o Pepus é agora um animal domesticado cujas incursões no solo substituíram a imobilização das presas pela captura de bolas de golfe. Um verdadeiro "menino do coro". Nómada, o Pepus por vezes migra até ao sul. E a sua última aparição pública dá-se na pretérita quarta-feira em Alvalade. Simultaneamente nostálgico e entusiasmado, Sir David não resiste e interroga: ficaremos felizes em supor que os nossos netos nunca conseguirão ver um Pepus, excepto no Clube Estela ou em vídeos evocativos do comportamento do Homem de Neandertal? Surpreendentemente, ou talvez não, os avós Sportinguistas respondem que sim...

 

Bom, mas isto foi na quarta-feira. Como a vida não é só história natural, no Sábado o Sporting recebeu o Arouca em mais uma jornada da Primeira Liga, competição outrora também designada por Lampionato e que nos dias de hoje pretende glorificar uma espécie mitológica a que se dá o nome de Dragão (o nosso Campeonato é em si próprio uma figura da mitologia contemporânea). Foi dia de eleições em Alvalade e o mínimo que se pode dizer é que Islam Slimani - os futebolistas quando passam a dirigentes ganham sempre mais um nome - recolheu a unanimidade. Primeiro com cabeça, depois com os membros inferiores (a ausência de partes do corpo humano faz habitualmente a retórica do discurso dos presidentes do clube), Slimani conquistou definitivamente a exigente massa associativa leonina. Mostrando que não só os ponta de lança marcam golos (ah, espera...). Já agora, dizem-me que o Matheus Nunes jogou qualquer coisita, mas ainda não consegui confirmá-lo nas minhas leituras habituais. Será que estão com a cabeça no lugar? Ah, e o Essugo estreou-se a titular aos 16 anos. Uma história natural para os jovens enquanto Amorim estiver ao leme. Das boas, não é Sir David? 

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