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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

19
Abr21

A Superliga Europeia


Pedro Azevedo

Doze clubes europeus de três países diferentes pretendem arrancar com a Superliga Europeia. O desejo não é novo e esteve até anteriormente na origem da cedência da UEFA que provocou uma maior assimetria de distribuição de dinheiro entre clubes históricos fora dos Big 5 e emblemas de Espanha, França, Itália, Alemanha e Inglaterra no que diz respeito à disputa da Champions League.

 

Escrevi na altura aqui que a cedência da UEFA havia sido um erro porque a via como uma ameaça à sustentabilidade do futebol. Primeiro nos países periféricos, depois mesmo no grupo dos Big 5. Eu entendo o que estes 12 clubes pretendem. No fundo querem replicar o modelo da NBA, controlarem eles próprios as suas receitas e eliminar a incerteza quanto aos seus proveitos decorrente de uma má prestação desportiva na competição doméstica. Imaginam assim um futuro onde não haverá uma UEFA a tomar-lhes parte dos proveitos e onde as receitas pingarão abundantemente com uma periodicidade anual. Até aqui parece-me tudo bem. Simplesmente, do que esses 12 clubes (e pelo menos outros 3 que se lhes associarão) estão a esquecer-se é que sem os clubes periféricos (actualmente já em queda acentuada devido à nova distribuição, provocada pela pressão anterior sobre o organismo, de clubes e dinheiros na Champions)  os ordenados e as transferências explodirão para valores estratosféricos que tornarão insustentável o negócio do futebol. E isso acontecerá, não tenhamos dúvidas, a partir do momento em que históricos como o Feijenoord, Anderlecht, Estrela Vermelha, Steaua Bucareste, PSV Eindhoven ou os nossos Sporting, Benfica e Porto, minados pela falta de receitas derivadas do abandono dos patrocinadores, fecharem as portas e, por conseguinte, deixarem de apostar na formação. Sem celeiro europeu para irem buscar o milho de que necessitam a preços em conta, aos clubes que vierem a integrar a tal Superliga restará a médio-prazo comprar jogadores entre si a preços exorbitantes.

 

Não tenho dúvidas de que a Superliga irá para a frente e temo que a UEFA acabe por ceder e reconhecer a competição. Tal aliás aconteceu no basquetebol europeu quando um grupo de clubes, onde curiosamente também constam Real Madrid e Barcelona, criaram a Euroliga, torneio organizado pela Euroleague Basketball. Também aqui a FIBA (a UEFA do basket) prometeu excluir esses clubes e não permitir que os seus jogadores integrassem as selecções nacionais, mas acabou por contemporizar com a existência dessa liga milionária que faz com que a sua Champions seja uma competição de terceiro nível (há um segundo escalão no certame da Euroleague).

 

Vejo a Superliga como um loose-loose, em que no fim os clubes e o futebol perderão. É que ao contrário da NBA, que no recrutamento se apoia nas universidades (não há custos de transferência), no futebol os maiores clubes europeus precisam dos não tão grandes. Porém, temo que no actual cenário a ganância venha a imperar e já não se possa parar este comboio desgovernado. E é pena, desde logo porque para tal também contribuiu o facto dos direitos dos clubes não estarem a ser salvaguardados quando os seus jogadores se encontram ao serviço das selecções nacionais. Não só os clubes não são devidamente remunerados pelo empréstimo como o risco de lesão dos jogadores aumenta. E aquilo a que se tem vindo a assistir é a uma progressiva densificação do calendário competitivo das selecções, a qual inversamente vem determinando cada vez maiores paragens dos jogos dos campeonatos nacionais. 

 

Em suma, tenho severas dúvidas sobre a sustentabilidade do próprio modelo da Superliga. E creio que os seus alicerces abanarão por completo a partir do momento em que aos custos descontrolados (mesmo admitindo a existência de um tecto este não será certamente baixo e os jogadores e seus representantes saberão jogar com a situação de dissidência deste lote de clubes) se somará o incremento das taxas de juro um pouco por todo o mundo (não ficarão para sempre em zero), aumentando os custos do elevadíssimo financiamento e criando a tempestade perfeita que penalizará os gananciosos. Infelizmente, haverá muito poucos clubes que se ficarão a rir. No fim, perderá o futebol, perderá o povo. 

PS: Haverá ainda a questão das regras pelas quais esses clubes se subordinarão, nomeadamente aspectos relacionados sobre o seu modelo de financiamento e entradas de capital de países que veem no futebol uma forma de melhoramento da sua imagem internacional, situações que até hoje têm passado incólumes é que vêm contribuindo para maiores assimetrias no futebol mundial. 

18
Abr21

Marxismo-Leoninismo


Pedro Azevedo

Não sei se o Leitor se apercebeu deste facto bastante incomum no futebol mundial, mas o Sporting apresentou-se de início em Faro com uma maioria de jogadores canhotos. Ora então anote lá: Antonio Adán, Gonçalo Inácio, Matheus Reis, Nuno Mendes, Daniel Bragança e Paulinho. Não sei se tal já havia ocorrido alguma vez na nossa história, ou mesmo nos anais do futebol mundial, mas por curiosidade aqui fica a devida nota acompanhada por título espirituoso a dar conta da primazia da esquerda no onze do Sporting.

17
Abr21

Tudo ao molho e fé em Deus

Voando sobre um ninho de cucos


Pedro Azevedo

O edifício em que vive o futebol português é um autêntico manicómio. Não surpreende por isso que, face aos casos detectados e outros que estão sobre suspeita de match-fixing, ninguém se indigne por a Liga escolher como patrocinador principal um site de apostas. Ou que dois treinadores se envolvam numa rixa feia durante 10 minutos e a respectiva suspensão seja levada para as calendas gregas, como por exemplo (suponhamos) a véspera de um certo jogo na Luz ou o defeso (já se sabe, é muito duro estar de castigo na praia no Verão). Não, olhando para a imprensa, os problemas do futebol português são o Sporting e o Rúben Amorim. Assim, não admira que ultimamente joguemos como se estivéssemos dentro de uma camisa de forças. É que o Sporting, nos intervalos em que o deixam, voa sobre um ninho de cucos. Cucos, pardais, milhafres, mitológicos reptéis com asas, papoilas saltitantes que são o ópio do mundo da bola. A droga é dura e cria elevada dependência, há que ganhar custe o que custar. Pode, por exemplo, custar 15 dias a quem ousar se atravessar no caminho, ou pode não custar nada a bem da salvaguarda do ecossistema em que vivemos há para aí uns 40 anos. 

 

Ontem fomos a Faro. Do outro lado estava uma das equipas que melhor joga e menos pontos tem. Um jogo entre leões, do reino animal de Portugal e do Algarve, uma partida que curiosamente não ficou marcada pelos poderosos ataques mas sim pelas felinas defesas. De Adán e de Beto. Há também quem diga que o senhor Macron defendeu bem, mas esses são os mesmos que não atribuíram credibilidade ao (primeiro) penalty sobre o Jovane no jogo pretérito. Mais que perfeito ainda assim para se criar uma narrativa. Estou agora à espera do que se dirá quando o Carvalhal tiver de jogar contra um clube que equipar de Lacatoni. Será que lhe irá pesar a camisola? É estranho e pouco plausível o que se diz, nomeadamente quando antecipadamente se sabe que vamos mudar para a Nike. (O Hugo Miguel revela óbvias dificuldades físicas no acompanhamento dos lances, mas mantém durante o jogo um critério técnico e disciplinar uniforme que muito raramente se pode observar nos seus colegas de profissão.)

 

O Sporting apresentou-se nervoso, a falhar muitos passes. O sistema, o nosso que não o dos outros que é perene, voltou a mudar. Regressámos ao 3-5-2, expondo a indefinição entre o ataque rápido e transições que tão bons resultados nos trouxeram e a recém atracção amorinesca pelo ataque posicional. Talvez por isso sempre tenha transparecido que a equipa se quedava a meio-caminho de qualquer coisa. A meio-caminho de ter um goleador, que desce tanto que raramente se encontra na zona de golo ou revela instinto predador, ou a meio-caminho de controlar um jogo que de facto não raras vezes lhe fugiu das mãos. Valeu-nos este Adán que não come da árvore do conhecimento do bem e do mal, ele que busca a sabedoria somente a partir da experiência adquirida entre os postes e nos bancos das equipas por onde passou. E deu-nos jeito, mais uma vez, um Pote de Ouro, que esta coisa de saber enquadrar um remate não é para qualquer um. Ontem, pus-me a olhar para a sua movimentação no momento do golo: inicialmente, lá estava ele, naquele emaranhado de jogadores que atacou a primeira bola, porém, ao ver que o esférico o sobrevoara, logo recuou para o espaço livre, assim como quem dá uma linha de passe ao Paulinho ou espera um ressalto entre a densa floresta algarvia. Acabou por prevalecer a segunda hipótese, o décimo sétimo golo do Pedro Gonçalves neste campeonato. Será por acaso? Acaso somente me parece a sua ainda não inclusão na selecção principal de Portugal. Um jogador tão versátil, tão capaz de fazer várias posições em campo, tão ao jeito das metamorfoses tácticas em caos organizado do agrado do Engenheiro, com tanto golo, deverá ser sempre um elemento a contar na Equipa de Todos Nós. 

 

Faltam-nos sete finais. Haverá certamente por aí ainda alguns Pedro Henrique ou Gauld para nos darem água pela barba. Precisamos de serenidade, convicções e confiança. E de golos. Amorim e a equipa precisam de voltar a divertirem-se com o jogo, soltarem-se mais, focarem-se no que até agora foi feito de muito positivo e eliminarem da sua acção e pensamento a ansiedade e tudo o que é medíocre e pobre no futebol português, o que também é fonte de "diversão" para muita gente que por aí anda mas não é para nós. No momento em que querem fazer do Amorim o Jack Nicholson do "Voando sobre um ninho de cucos", libertemo-nos da camisa de forças e mostremos a todos que neste futebol somos o ente sano. Força, Sporting!!!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Adán

pote faro.jpg

11
Abr21

Cabeça fria e confiança


Pedro Azevedo

É preciso nesta fase evitarmos o "oito-oitentismo" que nos caracteriza e não entrarmos em pânico ou convulsão. Não é também altura para dúvidas, nossas (adeptos) ou da equipa técnica e jogadores. Estamos em primeiro lugar e ninguém nos entregou isso de mão beijada, foi seguramente conquistado com muito trabalho e mérito. Cerremos por isso os dentes, reforcemos ainda mais o espírito entre todos e tudo aquilo que dependa exclusivamente de nós. A ser assim, no final o título será nosso. Eu acredito!

09
Abr21

A arte de esconder a guerra


Pedro Azevedo

Rui Santos disse recentemente na Sic Notícias que o Sporting tem um futebol romântico e que se deveria preparar para a guerra (últimas jornadas do campeonato). Não deixando de compreender o pensamento por detrás desta opinião, tendo mais a discordar do que em concordar com ela. Vamos por partes.

 

Na minha opinião, nos últimos jogos o Sporting trocou o "jogar bem" pelo "jogar bonito", privilegiando mais a densidade do seu meio-campo e a posse do que o ataque rápido e a transição que se revelaram tão letais nos dois terços iniciais do campeonato. Dito assim, até parece que estou de acordo com o comentador televisivo. Simplesmente, eu creio que tal mudança nada tem de romântico e decorre da assunção de Rúben Amorim de que há uma liderança a defender, constatação que o levou a adoptar uma estratégia de maior protecção assente na posse de bola. É, portanto, de um maior pragmatismo que falamos, não sendo neste momento indubitável que tal venha no final a jogar a nosso favor. Sendo certo que em número de oportunidades criadas a passagem do 3-4-3 para o 3-5-2 não alterou grandemente o cenário, também não deixa de ser verdade que essas oportunidades são hoje criadas em zonas onde a densidade de adversários é maior, ao contrário do passado em que os nossos jogadores apareciam frequentemente em zona de golo sem marcação. A meu ver, já o disse aqui, se o terceiro homem do meio campo fosse Matheus Nunes a transição de sistema seria muito mais suave por via das características particulares deste jogador (maior capacidade de chegar à área adversária).  

 

Quanto à questão da guerra, a mim parece-me que estamos em "guerra" desde a 1ª jornada. Ora, quando se fala em confronto logo se elude a Sun Tzu, Maquievel, Frederico ("O Grande") ou Clausewitz. E é exactamente a Sun Tzu que vou colher um pensamento que me parece estar na origem da estratégia adoptada por Rúben Amorim desde o momento em que o Sporting se isolou na primeira posição: "Quando o objectivo estiver próximo, faz com que pareça distante". Foi aliás neste faz de conta, expresso através do inteligente "jogo a jogo", que Amorim conseguiu encontrar uma válvula capaz de aliviar a pressão sobre a equipa. Ora, a meu ver, o pior que poderia acontecer seria o próprio Amorim cair agora na esparrela de vir enfatizar a guerra (não creio que o fará). Ela está aí, presente no subconsciente de todos, mas as atenções devem voltar-se apenas para a próxima batalha: a recepção ao Famalicão.

 

Foco então na próxima partida para dar conta que talvez seja o momento ideal para o regresso ao 3-4-3 (3-4-2-1). Para o justificar recorro de novo a Sun Tzu e a Clausewitz, que davam tanta importância ao planeamento quanto à adaptação das forças. Se há coisa em que Ivo Vieira difere da generalidade dos treinadores portugueses é na construção das suas equipas, as quais começam a ser trabalhadas pelo ataque e não pela defesa. Embora dessa visão sobre o jogo sempre tenha colhido mais vantagens que desvantagens, a verdade é que se tivermos de apontar uma debilidade comum às suas equipas ela é a transição defensiva. Isso aliás ficou bem patente na temporada passada quando o Vitória visitou Alvalade e encontrou um Sporting de Silas pouco seguro da sua própria identidade. Como consequência, o Vitória assumiu o controlo do jogo. E perdeu. Por 3-1. Por isso acredito que o 3-4-3, que mais potencia o ataque rápido e a transição, será mais eficaz que o 3-5-2, que apela ao jogo posicional de ataque. 

 

Em todo o caso será "só" mais um jogo. E é nesse faz de conta que deveremos continuar. Sem romantismos, mas também sem proteccionismo excessivo que retire a fluidez e os processos simples que estão na origem da tremenda eficácia do nosso jogo. 

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08
Abr21

Um futebol feito à medida


Pedro Azevedo

Um campo de futebol tem cerca de 100 metros de comprimento, o equivalente a 10 000 cm. Metade - não há foras de jogo antes do meio campo - são 5 000 cm, pelo que 2 cm são 0,04% do comprimento do campo sujeito à regra do fora de jogo. No acesso à Universidade, há quem fique de fora por 0,01 valores numa escala de 20, ou seja, 0,05%. Na F1, numa volta à pista efectuada em cerca de 90 segundos, há quem perca a pole-position por cerca de 1 milésimo de segundo (0,0011%). Estes exemplos servem para explicar que o detalhe está sempre presente nas nossas vidas, muitas vezes dele dependendo o sucesso ou o fracasso de uma determinada empreitada. Assim, não é o rigor dos 2 cm que me incomoda, o que me preocupa é a falta de escrutínio sobre quem efectua essas medições e os meios actualmente existentes para o efeito, que estão longe de oferecer garantias de acuidade (ao contrário do sistema electrónico/"transponder" usado no automobilismo ou das médias ponderadas que dão a nota final para o acesso à faculdade). E é sobre isso que deveria recair a reflexão neste momento, procurando perceber-se de que forma poderemos eliminar a suspeição sobre o VAR e assim dar ao espectador garantias de idoneidade do produto futebol. Porque já não há paciência para tanto ruído negativo e quem efectivamente gosta do jogo merece um futebol feito à medida de quem quer desfrutar dele pelos melhores motivos. É que a já estafada ideia de que o ruído é essencial ao futebol, acerrimamente defendido por quem vê interesse na continuação da suspeição e arbitrariedade do status-quo vigente, só ajudou a formar um adepto sem cultura desportiva, fanático pelo clube e sem verdadeiro gosto pelo jogo ou interesse em o discutir, conhecer ou aprofundar nas suas dimensões técnica, táctica, física ou mental. . 

07
Abr21

Transparência


Pedro Azevedo

Não existe neste momento tecnologia suficiente para determinar com um nível de significância alto se um jogador que à vista desarmada está em linha se encontra de facto em fora de jogo. Desde logo porque o ponto de contacto na bola no momento do passe é muito difícil de determinar com exactidão na medida em que há um atrito não negligenciável entre a superfície do corpo do jogador e a bola (para não falar da incerteza quanto ao efectivo momento em que a bola contacta com a superfície do corpo do jogador ou dela sai). Ora, esse atrito, de décimos de segundo, implica um número considerável de "frames", todos eles apontando para uma posição absoluta e relativa (face aos adversários) do jogador que recebe a bola diferente. Deste modo, torna-se impossível determinar com segurança se o "frame" escolhido é o correcto ou não. Assim, a aceitação da decisão final do VAR é essencialmente um acto de fé, o que nesta religião pagã de que comungam os adeptos do futebol geralmente não augura nada de bom.  

 

Acresce que a própria representação do terreno de jogo em computador pode implicar um erro humano. Foi aliás o que aconteceu em Moreira de Cónegos aquando da deslocação do Braga. Nesse jogo, os bracarenses viram anulado um golo legal por alegado fora de jogo quando o seu jogador estava cerca de 130 centímetros em jogo. Na altura o erro foi imputado ao operador de imagem, mas estranhei não ter havido um inquérito rigoroso por parte da Liga que produzisse conclusões que pudessem sossegar os adeptos do futebol quanto à não recorrência deste tipo de erro. É que se avançamos para a tecnologia com a finalidade de evitar o erro, então deveremos por todos os meios assegurar que essa própria tecnologia não se torna uma fonte do próprio erro, manipulável e assim contribuinte para o adensar do clima de suspeição. E é nisto que eu me gostaria de focar: o que fazem as autoridades competentes no sentido da promoção da transparência? É certo que não se pode ser a favor da verdade desportiva e depois queixarmo-nos de um fora de jogo de 2 cm, mas mandaria o bom senso que houvesse uma espécie de caixa negra onde estes lances milimétricos seriam arquivados para posterior observação de um comité de análise independente, comité esse que depois tornaria pública a sua avaliação. 

 

Quanto à questão da margem de segurança nestas decisões de fora de jogo, o problema é exactamente determinar que tipo de margem deveria ser usada. Para tal, talvez fosse interessante determinar em média qual o impacto de um "frame" em centímetros, mas isso estará certamente dependente da velocidade de deslocamento de um jogador, variando assim consoante a situação específica. Por outro lado, admitindo que se daria uma margem de erro de 15 centímetros na determinação de um fora de jogo, logo apareceria gente a queixar-se se o fora de jogo fosse de 16 cm, insinuando que o tal centímetro adicional teria sido forjado.

 

Assim, não havendo possibilidade com a tecnologia presente de determinar com exactidão o momento em que a bola efectivamente sai do corpo do jogador (diferente do momento do primeiro contacto) que faz o passe, o que sugiro é que se aposte na transparência e que alguém mais tarde venha publicamente informar se a decisão foi bem ou mal tomada face aos óbvios constrangimentos existentes. Como deveria ser, na total salvaguarda da verdade desportiva possível, não dando azo a que o adepto pensasse em manipulação. O que não me parece bem é que o espectador em casa, que é quem paga o serviço televisivo que indirectamente, via DireitosTV, alimenta os clubes (e por conseguinte a Liga), não tenha acesso às medições de fora de jogo de outros dois lances ocorridos em Moreira de Cónegos. Isso não só aparenta ser um desprezo por quem efectivamente paga o futebol como também em nada contribui para a idoneidade do produto Futebol Português. 

 

Concluindo, de pouco serve dotarmos o futebol de um instrumento de apoio à verdade desportiva se depois nos esquecermos dessa finalidade primária e envolvermos o VAR numa opacidade absolutamente contrária ao princípio que o emanou. Nesse sentido, exige-se que haja quem controle à posteriori as decisões do VAR. E, já agora, que as comunicações entre VAR e árbitro sejam públicas, a bem da transparência. Teme-se o quê? Haverá bem maior na promoção de um produto que a sua idoneidade? Food for thought...

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06
Abr21

Tudo ao molho e fé em Deus

Regresso às aulas


Pedro Azevedo

Com o regresso às aulas voltaram também as lições de educação visual, trabalhos manuais e ciências. Nesse sentido, a régua, o esquadro e o microscópio foram muito utilizados pela sala do VAR, assim como a tesoura pela turma moreirense. A aplicação desta última sem a requerida cartolina (amarela, ou vermelha?) justificaria uma falta de material à classe arbitral, infração que já se sabe não constituir objecto de análise por parte do conselho disciplinar do colégio federativo. Restará assim a "jarra", se a associação de estudantes do apito não quiser passar uma borracha sobre o assunto.  

 

O Sporting também voltou ao campeonato. Não se pode dizer que o regresso tenha sido auspicioso, pois empatou. Para melhor tentar explicar aquilo que vi (não é axiomático) vou deixar a sátira de lado e concentrar-me na análise que me parece curial fazer nesta circunstância. Assim, mais preocupante que o resultado é a indefinição que se nota quanto ao melhor sistema de jogo a aplicar quando nos aproximamos do último quarto da competição. O sacrifício de um dos interiores (Nuno Santos ou Jovane) teve consequências na falta de apoio observado por Matheus Reis na altura de fechar o espaço a Walterson aquando do golo do Moreirense. Por outro lado, o transporte de bola em segurança de João Mário parece-me claramente sobrevalorizado num clube que quer ganhar todos os jogos, na medida em que retira imprevisibilidade à equipa e não proporciona os desequilíbrios que quem lute por títulos tem de provocar no adversário. A equipa parece estar a viver uma pequena crise de indentidade, dispersa entre o ataque rápido e transição que deram tantos dividendos no passado e os fundamentos do jogo de ataque posicional. A introdução de Bragança traz qualidade de passe e fluidez de jogo, mas se queremos um terceiro médio que contraste com estas características então Matheus Nunes, um dinamitador de linhas, seria uma melhor solução do que João Mário, amortecendo os efeitos da passagem abrupta do 3-4-3 para o 3-5-2. Por outro lado, os poucos minutos de jogo de Jovane são um mistério. O jogador foi progressivamente apagando-se nas preferências de Amorim depois de ter sido instrumental na imposição do jovem técnico em Alvalade no final da época passada. Esta temporada voltou a ter um papel importante quando reapareceu a tempo de evitar o terceiro resultado negativo consecutivo da equipa, ajudando assim a ganhar a Taça da Liga e a criar a confiança necessária que alavancou o nosso desempenho no campeonato. A sua escassa utilização desde esse momento não deixa de surpreender, ainda mais pelo facto de o jogador continuar a mostrar-se influente mesmo jogando muito pouco tempo. Ontem nem sequer foi a jogo, optando Amorim por manter um Paulinho claramente desgastado e ainda a acusar alguma falta de ritmo resultante da lesão que o impediu de realizar uma série de jogos. Ao contrário daquilo que vem sendo habitual, desta vez Amorim não conseguiu esconder os pontos fracos individuais dos jogadores. Assim, Porro mostrou-se desatento ao avanço de Abdu Conté nas suas costas e Feddal foi imprudente na abordagem ao lance fatal, procurando improvisar com o calcanhar sem ter o virtuosismo para tal requerido de um outro magrebino que imortalizou tal gesto técnico no Porto e na Europa, tudo situações que habitualmente não se revelam quando o Sporting está no relvado e que por falta de estrelinha desta vez vieram a redundar em golo no único remate enquadrado da equipa de Moreira de Cónegos. No plano positivo, Paulinho marcou finalmente um golo e mostrou bons pormenores que lhe podiam ter rendido um outro e uma assistência. No entanto, precisa de melhorar o timing de ataque à bola na área, aspecto em que ficou aquém após primorosa assistência de Porro que poderia ter resolvido o encontro. Bragança esteve em excelente plano, rodando a bola com rapidez, incorporando-se no ataque com critério e proporcionando uma excelente assistência para golo a Paulinho. Evidentemente, a avaliação é contínua e a equipa tem créditos acumulados que permitem antecipar uma óptima nota final, mas será importante voltar a estabilizar uma ideia de jogo clara e dar oportunidades a jogadores que façam efectivamente a diferença. A equipa parece viciada nos equilíbrios, mas é importante que haja também quem desequilibre. Igualmente, a manutenção de um elevado ritmo de jogo que não permita aos adversários reentrarem nas partidas parece-me chave para um final de época sem sobressaltos. Nesse sentido, noto que à semelhança do jogo com o Rio Ave estivemos longe de esgotar as 5 substituições possíveis. Mas há que aprender a lição e andar para a frente. Acreditemos, porque Amorim e a equipa merecem-nos esse capital de confiança. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Daniel Bragança

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05
Abr21

Mais uma vez bem, caro Amorim


Pedro Azevedo

Saúdo o discurso de Rúben Amorim na antevisão do Moreirense-Sporting de hoje, o qual vem ao encontro de um Post que aqui publiquei recentemente. Reitero a importância de abandonarmos a ilusão dos milhões e de nos focarmos numa estrutura de custos eficiente e assente na Formação que assegure um ciclo virtuoso do clube, com estabilidade no núcleo duro do plantel, uma equipa vitoriosa em Portugal e capaz de dar cartas na Europa. Nesse sentido, o ciclo recente do Ajax (finalista da Liga Europa em 2016/17 e semi-finalista da Champions em 2018/19) deve servir de inspiração para  o que virá a seguir. Bom, mas isso será o futuro, hoje há que bater o Moreirense. Força, Leões!

04
Abr21

João Capela e o “limpinho, limpinho”


Pedro Azevedo

"Era (foi) um jogo que necessitava de video-arbitro. A minha carreira teria sido diferente, se tivesse havido VAR nesse jogo" - declarações do ex-árbitro João Capela a A Bola no âmbito do celebérrimo Benfica-Sporting em que ficaram várias penalidades por marcar a favor do Sporting, o mesmo que Jorge Jesus, à época treinador do Benfica, classificou como "limpinho, limpinho" do ponto de vista da influência da arbitragem no resultado final. 

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01
Abr21

Neste dia nasceu...


Pedro Azevedo

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... Arrigo Sacchi (Fusignano, 1946), treinador bicampeão europeu pelo AC Milan, o homem da revolução copérnica do futebol rossonero. Tendo impressionado Berlusconi enquanto treinador do Parma, chegou a Milão em 87 e rompeu com o habitual catenaccio italiano, seguindo os princípios da pressão alta e do jogo posicional que foi buscar ao Ajax da década de 70. O seu onze base era aliás composto por italianos e holandeses (os 3 estrangeiros permitidos pelos regulamentos de então). A época de 88/89 terá sido a mais impressionante da sua carreira, destacando-se a recuperação (20 anos depois) do ceptro europeu pelo Milan após destruição do Real Madrid (5-0) nas meias-finais e goleada ao Steaua Bucareste (4-0) na final. Neste último jogo, disputado em Barcelona, o AC Milan alinhou com: Galli; Tassotti, Baresi, Costacurta e Maldini; Ancelotti, Rijkaard, Donadoni e Colombo; Gullit e van Basten.

01
Abr21

1º de Abril


Pedro Azevedo

A Bola assinala a data com a notícia de que Tomás Araújo encanta Jesus. A novidade é que se trata de um jovem da Formação do Benfica. Mais à frente o periódico adianta que ainda é cedo para a tomada de decisões, mas esclarece que o jogador marcou pontos. 

O ponto que vejo é o da limpeza de imagem do treinador...

 

O mesmo jornal dá como certo o regresso de Simão à Luz. As funções é que ainda estarão por definir.

Arranjem-me nomes, depois logo se vê como encaixam...

 

Diz o Carlos Júnior (Santa Clara) ao Record que o irmão ganhou uma ovelha num torneio e a vendeu para o ajudar.

Tem sorte o Carlos, há quem tenha ovelhas negras na família e não as possa vender (ou dar)...

 

Ainda segundo o Record, diz o Júlio César, antigo guarda-redes e hoje empresário, que sente a missão de trazer David Luiz para o Benfica.

Show me the money...

 

Segundo O Jogo, na Sérvia, o árbitro Srdjan Obradovic foi acusado de abuso de poder pelo departamento de prevenção contra a corrupção de Novi Sad após assinalar um penálti inexistente num jogo disputado em 2018. Como consequência, o árbitro foi condenado a cumprir 15 meses de prisão. 

Novas SADs já temos, se isto faz jurisprudência por cá... 

31
Mar21

Wonderful tonight


Pedro Azevedo

Maravilhoso jogo de Portugal este fim de tarde com a Suiça, na última jornada do Grupo D do Campeonato da Europa de sub-21. Uma vitória por 3-0 e uma exibição quase imaculada. Pedro Gonçalves é a conclusão prática da tese de René Descartes - cogito, ergo sum - no futebol, o homem fez prova da formulação do filósofo francês em cada acção no campo (até parado). Deve ter um quociente de inteligência semelhante ao Einstein, vê coisas que outros nem imaginam. Deu 3 bolas de golo ao TT, mas este não antecipou devidamente duas delas (a outra foi defendida pelo guarda-redes), ninguém provavelmente o conseguiria. Daniel Bragança é uma máquina, a caixa de ritmos da equipa, o passe-vite que vai esmifrando os miolos aos adversários que ficam esmagados perante tanta classe. Uma cabine telefónica para ele é um latifúndio. Precisa de melhorar apenas na acção de cobertura defensiva: deu de borla um livre ao adversário à entrada da nossa área e isso na alta competição por vezes paga-se caro. O Vitinha e o Fábio Vieira são também excelentes, tal como o Trincão. O TT esteve sempre em movimento e com acelerações de fazer prender a respiração - quem tem o azar de o apanhar pela frente deve julgar-se na montanha russa - , deve porém aprimorar o timing de entrada aos lances na área que se reflecte em instinto de ponta de lança. Foi decisivo no segundo golo. A defesa, a Quinta dos Diogos (hiper-inflação descarada) com Thierry como convidado especial, esteve muito segura. Ah!, e ainda houve tempo para o puto Conceição entrar e marcar um golo digno dos desenhos animados. Há muito tempo que não me divertia tanto a ver um jogo de futebol. O nosso passe-repasse foi deixando os helvéticos cada vez mais desconfortáveis, ao ponto de no segundo tempo já baterem em tudo o que apanhavam à mão. Foi um vendaval de bom futebol, às tantas dei por mim a pensar estar a ver o Brasil de 82. A sério!! Parabéns aos jogadores e, naturalmente, à equipa técnica encabeçada pelo Rui Jorge.

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31
Mar21

Tudo ao molho e fé em Deus

A braçadeira não caiu, a braçadeira não cairá


Pedro Azevedo

Portugal foi até ao Grão-Ducado do Luxemburgo onde um dia Siegfried, o da Brunilda de Wagner, mandou edificar uma fortaleza que durante muito tempo chegou a dar ares de aguentar as investidas do tradicional caos organizado que o exército de Fernando Santos montou a partir de um cerco. É curioso falar aqui de Siegfried porque a sua história tem semelhanças evidentes com a de Aquiles, ainda que a fragilidade do nórdico proviesse do ombro e não do calcanhar ou tornozelo. Ora, o nosso Aquiles é o Félix. A julgar pelo jornal da Queimada ambos até terão sido banhados em rios sagrados: o Aquiles já se sabia que no Estige e o Félix dizem-nos que no Judeu, ali para os lados do Seixal. O mesmo periódico que antes de cada jogo de Portugal embala o Félix como o Aquiles que transporta o escudo nacional, o guerreiro épico que fará a diferença na peleja. Só que depois as profecias saem todas furadas - deve ser do efeito nas águas das descargas poluentes na Baía do Seixal que o PAN atribui à inércia da autarquia - e o Jotinha que se destaca no ataque é aquele que o Klopp, qual Wagner, foi um dia buscar a Wolverhampton para dar um novo impulso à "cavalgada das valquírias" do seu Liverpool. Ontem, por exemplo, a única semelhança entre o Aquiles e o Félix foi a vulnerabilidade do tornozelo. Só que enquanto o Aquiles, ferido mortalmente por uma flecha de Páris, só viria a perecer após se encher de uma glória homérica com a conquista de Troia (que não a da Península de Setúbal onde acontece outra "guerra" que Alcochete neste momento lidera), a lesão no tornozelo de Félix foi como um sacrifício que os santinhos afectos ao Fernando congeminaram para que o onze de Portugal tivesse a oportunidade de vencer a Batalha do Luxemburgo. Foi de tal modo que diz-se por aí que como pagamento da dívida aos santinhos e expiação do pecado perante os inquisidores o Ronaldo irá permanecer 3 dias e 3 noites na fortaleza. E no fim, qual Mestre Afonso Domingues, proferirá: "A braçadeira não caiu, a braçadeira não cairá". Desengane-se porém quem pense que morrerá de seguida, que o Cristiano tem mais vidas que um gato e ainda vão ter de levar com ele mais uns anitos. É tomarem Rennie, a poção mágica dos Invejosix, o povo sedentário ocupante da fracção mais ocidental da Península Ibérica que não se governa nem se deixa governar ou dá valor ao real mérito.

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30
Mar21

Sporting em alta também na Selecção


Pedro Azevedo

Na primeira parte dei por mim a pedir a entrada de Palhinha, naquela fase em que Portugal não tinha controlo do jogo no meio campo e parecia que faltava intensidade e pressão sobre a bola à Equipa de Todos Nós. No segundo tempo entrou... e marcou. A jornada tripla acabou por ser muito importante para a valorização dos activos do Sporting. Palhinha e Nuno Mendes estrearam-se como internacionais e não deixaram os seus créditos por mãos alheias. Se Palhinha fez 1 golo, o nosso lateral/ala esquerdo destacou-se por este parecer ser o seu habitat natural, não se perturbando com o peso da responsabilidade. Foi titular em dois jogos, fez a assistência para o golo (da "vitória") incorrectamente não validado na Sérvia e hoje protagonizou um lance (52 minutos) que não terá escapado ao olhar atento e conhecedor dos grandes clubes europeus. Oxalá o consigamos manter por mais algum tempo, sendo certo que havendo propostas deveremos ser irredutíveis em relação ao valor da cláusula de rescisão, porque precisamos do Nuno, como do João e de todos os outros jovens que se vêm afirmando, para finalmente impormos um ciclo de Sporting que se assemelhe ao que mediou entre 46 e 54. Bom, mas isso já sou eu a sonhar, a realidade agora são os 10 jogos de campeonato que ainda temos pela frente, os quais teremos de ir superando um a um. Cada coisa a seu tempo, ainda que o futuro não só traga água na boca como deva ser encarado com grande responsabilidade e precisão de ourives. 

30
Mar21

Exemplo devem ser os pais


Pedro Azevedo

Toda esta polémica à volta de Cristiano Ronaldo parece-me cabotina. Não só quando apressada e irreflectidamente se procuram argumentos para lhe retirar o privilégio de capitanear a Equipa Nacional, mas também ao invocar-se que o jogador deve ser um exemplo para os mais jovens em todas as suas atitudes. Atenção, eu compreendo que as agências de publicidade, os gabinetes de comunicação e as empresas de marketing procurem projectar uma determinada imagem ou narrativa que mais favoreça as pretensões das marcas que patrocinam CR7 e que este tacitamente assim o consinta, mas quem escreve ou fala sobre estas coisas deveria ter o afastamento suficiente para não se deixar contagiar nem perder a noção da realidade ou inverter as coisas. Quem deve, isso sim, constituír um exemplo na vida de um jovem e nunca se pode demitir da responsabilidade de o educar são primeiramente os seus pais, a quem cabe incutir princípios, valores e atitudes comportamentais, pelo que talvez fosse bom que esses críticos se focassem prioritariamente nas suas próprias casas e verificassem se estão a cumprir com as suas obrigações. Ademais, a um desportista, ainda mais de alta competição, compete ganhar, e isso, no calor da luta e fisica e mentalmente exausto, infelizmente nem sempre será possível compatibilizar com o melhor exemplo ou postura. Tal como ocorreu no pretérito Sábado. Desfrutemos pois até ao fim do extraordinário desportista Ronaldo e saibamos retirar apenas o essencial que o cidadão nos traz: no campo, o esforço contínuo e titânico na busca da superação, excelência e perfeição; fora dele a solidariedade para com os mais desfavorecidos. Isso, sim, será um legado de CR7, uma inspiração que qualquer jovem ou adulto retirará para a sua vida. Agora, perder tanto tempo com braçadeiras só assiste mesmo a quem não sabe nadar.

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29
Mar21

Ingratidão 3D


Pedro Azevedo

Leio em A Bola 3D, um canal de conteúdos digitais exclusivos para assinantes, o seguinte título sobre Garrincha: "Queria o Sporting quando já só era acompanhante de sambista (e bêbado)". Escrevo sobre isto porque tenho pena que se trate assim um dos maiores do jogo de todos os tempos. Quem gosta de futebol deve proteger aqueles que mais contribuíram para a afirmação do jogo. E haveria certamente formas mais simpáticas (e não desrespeitosas) de assinalar o declínio do Anjo das Pernas Tortas ("o seu melhor já tinha passado" teria sido suficiente), ainda que o contexto se reportasse ao período posterior ao da sua glória. Acresce que "acompanhante de sambista" aqui foi usado como pejorativo e preconceituoso (se fosse acompanhante de uma manequim da Victoria Secret serviria para este título?), demonstrando profundo desconhecimento dos factos, o que muito desvaloriza o papel que Elza Soares, deusa do culturalmente relevante samba (importante não esquecer), teve na vida de Garrincha, ela que foi provavelmente a única pessoa que verdadeiramente o amou e compreendeu, e que durante o tempo que esteve com ele conseguiu atenuar o efeito da progressiva dependência do jogador com o alcool. Mané Garrincha foi um dos melhores jogadores de todos os tempos. Aos grandes de todos os tempos devemos não só muita da nossa paixão pelo jogo como respeito. Da mesma forma que o que ficou de Baudelaire, Rimbaud ou Oscar Wilde foi a sua obra, a exploração vulgar da decadência de Garrincha passa ao lado do essencial: os milhões de pessoas a quem num qualquer dia de Domingo arrancou um sorriso com as suas intrépidas fintas. E isso é o que perdurará no tempo. Lembram-se do Brasil de 62? Viva Garrincha, viva o futebol! 

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26
Mar21

A ilusão do $upporter


Pedro Azevedo

Há um certo tipo de adepto do futebol português para quem o milhão exerce muito mais fascínio que o golão. Para este $upporter, a Formação é vista como o porco que é preciso apressadamente entoirir até ao cachaço para a matança, afiando o dente de cada vez que a imprensa o encandeia ao dar eco de valores miríficos que até as melhores lavandarias ou estratégias geopolíticas de estados soberanos têm pudor em acompanhar. A coisa cria alguma perplexidade, desde logo por não se entender que o adepto pretira a degustação de um menu de Guia Michelin ao deslumbramento sobre um evento onde não tem sequer lugar à mesa. É que no dia da matança quem habitualmente se empaturra à grande e à inglesa (o equivalente à francesa quando o menu é futebolístico) nem é afecto ao clube (empresários de jogadores), apenas quer ter um "Good Year". Sendo assim, em termos de analogias que envolvam recos eu prefiro a do porquinho-mealheiro. Não há nada como ir poupando cêntimo a cêntimo e não ter de vender. Não gastando superfluamente em compras na Feira de Carcavelos, não se endividando, tirando rendimento daquilo que desde cedo se foi produzindo com um controlo de qualidade que ao longo do tempo se foi monitorizando e atestando. 

 

Alegorias à parte, formar para ganhar e nesse processo manter custos controlados deve ser o paradigma. Formar, pensando na lógica da venda posterior, é apenas uma construção falaciosa e novo-riquista que como abundantemente se tem visto não garante a sustentabilidade no futuro nem cria no jogador um compromisso com o clube. Um jogador de futebol contabilisticamente é um activo. Tem um valor (preço, aquando da compra/venda), um rendimento e uma data de expiração. Mas não é uma acção, uma obrigação ou um sobreiro, tem pensamento próprio, expectativas. Saber gerir o momento de saída de um jogador será uma ciência. Mas a venda deverá sempre ser suscitado por ser uma boa oportunidade para ambas as partes e haver quem substitua o atleta com um custo salarial igual ou menor, e não por a tesouraria necessitar da venda para pagar salários. Até porque os jogos ganham-se com os melhores e a economia está cheia de exemplos que nos mostram que a produção não é infinita e há custos de oportunidade. Para além de que o que verdadeiramente mata do ponto de vista financeiro os clubes é o desequilíbrio entre custos e proveitos ordinários, e isso é uma ilusão pensar-se que se resolve sucessivamente com vendas de jogadores. A história está aí para o provar, pelo que nenhum clube será capaz de sobreviver a médio/longo prazo se não tiver custos de estrutura eficientes e um sólido crescimento dos proveitos fora da actividade de trading de futebolistas. Esse aliás é o único caminho para a perenidade de equipas competitivas no plano desportivo. E para continuar a vencer no futuro. 

P.S. A única equipa fora das Big5 que se conseguiu apurar para umas meias-finais da Champions (esteve a 1 segundo da final) desde 2010 foi o Ajax. A época foi a de 18/19. Dois anos antes o mesmo Ajax havia sido finalista da Liga Europa contra o Manchester United de Mourinho. A base da equipa era a mesma. 

25
Mar21

O homem que via o futuro

Johan Cruijff


Pedro Azevedo

Johan Cruijff deixou-nos há 5 anos atrás. Visionário, ele foi sempre um homem à frente do seu tempo. Inspirado pelo seu mentor Jany van der Veen, que havia absorvido os fundamentos da ideia do Futebol Total do inglês Jack Reynolds - o britânico que treinou os "lanceiros" nos anos da 2ª Guerra Mundial e foi preso após a anexação holandesa pelos alemães - , Cruijff encontrou em Rinus Michels o homem ideal para dar continuidade a essa revolucionária ideia de futebol na equipa principal do Ajax, constituindo-se como o prolongamento do treinador em campo. Assim, ao lado de futebolistas como Johan Neeskens, Ruud Krol, Piet Keizer, Wim Suurbier, Arie Haan ou Johnny Rep, Cruijff e o seu Ajax encantaram o mundo com um estilo de jogo apoiado que fazia da mobilidade dos jogadores o seu grande trunfo. Ele era o cérebro e a força motriz de tudo. Após 3 vitórias consecutivas na Taça dos Campeões, Cruijff migrou então para Espanha, onde ao serviço do Barcelona se viria a sagrar campeão espanhol logo no primeiro ano. No banco estava Michels, um feliz reencontro. 

 

Depois de uma temporada passada nos EUA, Cruijff regressou já veterano à Holanda para recriar e aprimorar a ideia de Futebol Total no Ajax. Primeiro ainda como jogador, no Ajax e Feijenoord, depois como treinador dos "lanceiros". Oscilando entre um 3-4-3 e um 4-3-3, com Rijkaard como o líbero capaz de transformar o sistema dentro do campo, Cruijff venceria então a Taça das Taças de 87 com uma nova geração de meninos formados no clube onde se destacavam Marco van Basten, o seu delfim, os extremos Van't Schip e Witschge e o médio Winter, a que se juntava a experiência de Danny Blind, Muhren e do próprio Rijkaard. Replicando o seu percurso enquanto futebolista, Cruijff foi então para Barcelona criar o "Dream Team". Na Cidade Condal venceria 4 títulos consecutivos entre 91 e 94, uma Taça das Taças e a tão desejada Taça dos Campeões. 

 

Em Barcelona teria ocasião de aprimorar os fundamentos do Futebol Total, trabalhando alguns princípios do jogo posicional como a distância ideal entre jogadores e linhas, formas ideais de pressionar o adversário e a ideia de que o jogador que define o passe é quem se desmarca e não o portador da bola (procura constante do passe entre-linhas). Tendo abandonado os bancos de futebol cedo, em 96, Cruijff dedicar-se-ia então à sua Fundação e ao Ajax, procurando neste último a criação de uma estrutura formada por antigos jogadores que garantisse a perpetuação de uma forma identitária de jogar futebol.

 

Johan Cruijff deixou-nos há 5 anos, mas a sua forma de ver o jogo influenciar-nos-á para sempre, observe-se a longa lista de treinadores que em si encontraram inspiração. Génio, e como tal tantas vezes incompreendido, a sua marca no jogo é indelével. Afinal, a ele e aos seus mentores devemos a melhor ideia de futebol que alguma vez passou à face da Terra. Obrigado por tudo, Johan!

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