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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

11
Jun20

A cada novo Princípio de Peter, um castigo de Sísifo


Pedro Azevedo

Como é hoje em dia claro como a água, o Sporting colocou toda a responsabilidade do edifício do seu futebol em Ruben Amorim. Sem pôr minimamente em causa a competência do nóvel treinador leonino, não seria esse o meu modelo - todos sabem que advogo a existência de um Director Técnico, um COO com plenos poderes na gestão do futebol - e considero a decisão um erro. Repito, nada contra Amorim, a quem desejo as maiores felicidades (que serão também minhas), simplesmente na minha mente faz muito pouco sentido ser o treinador, alguém que pela inerência das suas funções estará sempre de passagem (o presidente é o primeiro a admiti-lo quando reconhece que terá em breve a cobiça de grandes clubes), o responsável pela ligação entre futebol profissional e Formação e gestão de carreira de jovens jogadores. Acresce que, se se confirmarem os bons augúrios de Frederico Varandas em relação ao treinador, este não permanecerá muito tempo entre nós, razão suficiente para perguntar o que se fará a partir desse momento com a Estrutura que o treinador deixará no clube e se ela resistirá à entrada de um novo treinador, com ideias possivelmente diferentes. 

 

A meu ver, um dos erros da gestão da política desportiva de Frederico Varandas é estar permanentemente a laborar no erro de promover o Princípio de Peter, submetendo os seus colaboradores a missões ou tarefas que os desfocam daquilo que são as suas competências naturais e para as quais não têm a preparação devida. Isso é particularmente notório desde a saída de José Peseiro, que motivou na altura a ascensão de Tiago Fernandes à equipa principal e consequente sua substituição nos sub-23 por Alexandre Santos, treinador proveniente do Estoril. Tal voltou a acontecer com a promoção de Leonel Pontes a treinador principal do clube, abandonando um trabalho 100% vitorioso que estava a realizar no escalão de sub-23, função essa à qual posteriormente viria a voltar mas já sem o "élan" anterior, marcado que ficou pela experiência pouco feliz nos séniores. Sem esquecer a contratação de treinadores que não revelaram o grau de maturação necessário e suficiente, ou a personalidade requerida, para comandar uma nau como a do Sporting. 

 

Com tudo isto, Frederico Varandas já teve 6 treinadores na equipa A e 4 na equipa de sub-23, o que em ano e meio em funções denota pouca estabilidade emocional e falta de convicções na gestão do dossier futebol por parte do presidente e faz com que estejamos sempre a recomeçar de novo, como se de um castigo de Sísifo se tratasse. Claro que o presidente tem procurado revestir cada nova mudança de um cariz estratégico, mas é notório para a maioria dos observadores não enviezados que tudo não tem passado de sucessivos balões de oxigénio com que Varandas vem procurando combater o ar cada vez mais rarefeito de Alvalade.   

 

Hoje ficámos a saber que Leonel Pontes deixará as suas funções. Tal acontece num momento em que existem legítimas expectativas positivas em relação ao trabalho de Ruben Amorim, fundamentalmente devido à aposta que tem estado a promover nos jovens. Ora, tendo esses jovens vindo a ser trabalhados por Pontes, a decisão de o dispensar não deixa de ser surpreendente. Mais, não querendo acreditar que as decisões no futebol do Sporting dependem de cumplicidades pessoais, será de admitir que Pontes e Amorim não compartilhavam das mesmas ideias no que diz respeito ao desenvolvimento dos jovens, ou que o trabalho que era feito nos sub-23 não estava em harmonia com o que Amorim pretende, o que parece algo a carecer de fundamentação à luz da pandemia que fez parar competições e treinos. Não deixa, no entanto, de ser mais uma decisão insólita do presidente, ainda mais atendendo a que na próxima temporada haverá mais uma equipa de última estação de formação, a B. Para além de que teremos mais uma indemnização a pagar a um treinador no horizonte, a juntar a um rol tão numeroso que se torna fastidioso acompanhar, sendo certo que o R&C de Março de 2020 indica um valor de quase 7 milhões de euros de indemnizações pagas nestes 9 meses de actividade, a que se devem juntar os 1,7 milhões de euros gastos no mesmo item em 18/19.

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28
Fev20

As 4 Estações de "Vivaldi"


Pedro Azevedo

Verão = Marcel Keizer

Outono = Leonel Pontes

Inverno = Jorge Silas

Primavera = O próximo(*)

 

As 4 Estações de "Vivaldi", sendo "Vivaldi" = Produções Viana&Varandas Ld Inc.

 

(*) A RTP acaba de anunciar que Silas sairá após o jogo com o Famalicão. E ainda houve José Peseiro (herdado) e Tiago Fernandes...

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27
Fev20

Tudo ao molho e fé em Deus - E tudo o vento levou


Pedro Azevedo

Campeonato Nacional... check!, Taça de Portugal... check!, Taça da Liga... check!, Liga Europa... check! Tudo conferido, deve ser a melhor época dos últimos 114 anos. De quem jogue contra nós, bem entendido. Algo que promete piorar sem Bruno Fernandes. É caso para dizer que o nosso Brexit (venda de Bruno) em termos práticos se materializou numa saída da Europa ainda mais rápida que a dos ingleses. 

 

Nem os turcos acreditavam, pelo menos a julgar pelo aspecto despido das bancadas, mas o Sporting conseguiu ser eliminado por uma equipa onde constam vários jogadores que segundo datações realizadas com Carbono-14 ainda são do tempo do império bizantino. É verdade, sob chuva e vento, os leões deslocaram-se a um parque geriátrico de Istambul e cedo começaram a ceder a vantagem que traziam da primeira mão. A tal ponto que ao intervalo a eliminatória estava perdida, cortesia de um golo de cabeça de Skrtel na sequência de um canto e de um livre directo batido por Aleksic cuja trajectória foi mal calculada por Max. 

 

Na antevisão do jogo, Silas dizia que ia surpreender os turcos. A coisa soou-me apocalíptica. Confesso que este desejo do treinador leonino de espantar cada novo adversário sempre me assustou, principalmente porque quem geralmente acaba por ser surpreendido sou eu (e todos os adeptos leoninos). É que a continuar assim, de experimentalismo em experimentalismo, arriscamo-nos a experimentar ficar fora da Europa também em 2020/21, um tipo de Experiência Sporting que certamente não estaria nos planos de Miguel Cal quando aceitou juntar o seu projecto comercial ao projecto(?) desportivo desta Direcção. Todavia, sendo camaleónico, Silas tem pelo menos a vantagem de se poder confundir com o verde, camuflando-se aos olhos dos adeptos leoninos perante os enormes erros de preparação e gestão de temporada da Estrutura liderada por Frederico Varandas que dirige o futebol do clube. 

 

O Sporting começou com Jovane como médio deslocado sobre a esquerda e Vietto no lugar de ponta de lança. Sporar estranhamente posicionava-se na ala canhota, a recrear o que Silas já tinha feito com igual inêxito com Pedro Mendes na Áustria. Porém, alguém ter-se-á esquecido de dizer a Bolasie para fechar um corredor direito leonino que se tornou uma via verde de fácil acesso para os jogadores do Basaksehir. Nesse transe, Battaglia desgastava-se em compensações a Ristovski e faltava num miolo do terreno onde Wendel voltou a adoptar o modo de samba carnavalesco. O intervalo chegou sem que o resultado pudesse ser considerado surpreendente. No segundo tempo o Sporting surgiu mais organizado, trocando mais a bola no meio campo turco e explorando as óbvias debilidades defensivas da equipa de Istambul. Assim, após um excelente centro de Acuña, Vietto surgiu no centro da área e repôs o Sporting dentro da eliminatória. Os leões tiveram então um período em que poderiam ter sentenciado a qualificação para a próxima fase, mas a deficiente qualidade da definição manteve tudo em aberto. Entretanto, Silas abriu nova autoestrada, agora no nosso flanco esquerdo, movendo para aí um inadapado Vietto (estava a ser influente ao centro) e deixando desamparado Acuña. Até que, já em tempo de compensação, novamente na sequência de uma bola parada, um golo de Visca obrigaria o jogo a ir para prolongamento, uma velha sina leonina já vivida no passado contra o Rapid de Viena ou o Casino Salzburgo. Com o prolongamento, o jogo partiu-se definitivamente. Ainda assim o Sporting foi sempre mais perigoso, muitas vezes faltando qualidade técnica de passe (Battaglia), remate (Vietto, Plata e Doumbia) ou recepção (Eduardo) para tirar partido de uma condição física melhor que a da veterana equipa turca. Até que um erro infantil de Vietto acabou por deitar tudo a perder, pois Visca não desperdiçou, de penálti, a oportunidade de bisar na partida e sentenciar a eliminatória a favor dos turcos, conseguindo assim estes cumprir o pleno de quatro golos marcados através de bola parada. E assim Basaksehir tornou-se "Basakseguir". Já nós, ficámos (por aqui). Acabou a "digressão europeia". E tudo o vento levou...

 

Crónica difícil. Agora é tempo de fechar o computador rapidamente e ir dormir, não vá o Silas me surpreender por aí e pregar-me mais um susto. Por falar em susto, talvez não fosse mau que quem tem a incumbência de zelar pelo futebol nacional pensasse na competitividade do campeonato português, seu número de equipas e condições mínimas, organização da competição e seu (bizarro) calendário. É só uma ideia... 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Acuña. Battaglia foi o segundo melhor (ou menos mau).

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13
Fev20

Felizmente, os Sportinguistas não são isto!


Pedro Azevedo

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Jornal Sporting

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Retirado da internet

 

Não, não é o Sporting! Mas poderia, por exemplo, pelo seu carácter demagógico e fundo preto, ser a propaganda de um movimento de extrema direita (não é o caso do infograma acima, de publicidade a um WebSite de partilha musical, com outra cor, que presumo terá servido de "inspiração"). Confundir o universo de sócios do Sporting com um grupo de pessoas com tendência para a violência é irresponsável. Pior ainda quando sobram as palavras e se calam os actos, e existe um CFD que, tanto quanto se sabe, ainda não teve tempo para completar o processo disciplinar aos invasores de Alcochete - aberto pela Comissão de Fiscalização que decretou a sua suspensão - nem a quem tem comportamentos impróprios nas AGs ou está envolvido no lançamento de tochas para o relvado e petardos que originam pesadas multas para o clube. 

 

O que isto é? Substantivamente, será ruído. Puro e duro, provavelmente destinado a desviar as atenções do universo sportinguista da impreparação a nível de política desportiva que levou ao descalabro desta época de futebol, entre outras coisas menos conseguidas neste mandato. O que o clube precisa é de acção concreta face aos infractores. À violência, lamentável, intolerável e por isso condenável em sociedade, responde-se com identificação dos seus autores, processos disciplinares internos que visem expulsão de sócio e participações a polícias e Ministério Público, também com reforço de policiamento e repressão se tal se tornar infelizmente necessário. Nunca com violência verbal em "prime-time" televisivo que vitimiza e só dá mais argumentos a quem quer alimentar a fogueira do ódio. Da mesma forma, ao niilismo (não acreditar em nada) não se responde com maniqueísmo (divisão entre o bem e o mal), mas sim com uma estratégia sólida e competente que vise preencher o vazio, atraia as pessoas para o centro e assim previna futura instabilidade. Tudo o que não passe por isto e intencionalmente misture a crítica legítima a um mandato com actos de violência e insubordinação, que qualquer cidadão de bom senso repudiará, apenas visará confundir, radicalizar e gerar ainda mais divisão entre sócios e adeptos, nomeadamente todos aqueles que com notável frieza de espírito se têm mantido fiéis desde sempre única e exclusivamente ao Sporting Clube de Portugal e não a proselitismos diversos.

 

A capa de hoje do jornal Sporting é das coisas que mais me entristeceram em 40 anos de sócio. O clube fundado por José de Alvalade é predominantemente uma instituição composta por gente do bem (não confundir com "gente de bem", o Sporting é um clube interclassista e assim transversal à sociedade portuguesa). Ao longo da sua história têm sido inúmeros os exemplos de verticalidade, integridade e de saber estar no desporto, factores diferenciadores que sempre foram vividos em comunhão por quase todos e são fonte de orgulho da maioria dos sportinguistas. Acresce que continuo sem compreender uma coisa: um dos elementos pré-anunciados na lista às eleições de 2018 de Frederico Varandas, indicado como responsável pelo pelouro dos sócios, foi ouvido numa gravação áudio destinada a uma claque dizendo que com ele finalmente atingiriam o topo. Tal deixa dúvidas sobre a convicção de Frederico Varandas em relação à retirada de privilégios às claques, no sentido em que indicia que se pretenderia fazer dessa claque uma guarda pretoriana do regime, prometendo-lhes poder. Ora, isto está em flagrante contradição com o que actualmente ouvimos de Frederico Varandas e fragiliza-o, dando assim azo a legítimas interpretações de que a contestação de que foi alvo face aos resultados da equipa de futebol terá tido peso no corte com as claques. (Mesmo que o conteúdo aúdio apenas visasse o apelo ao voto, o seu teor teria de ser entendido como uma tentativa de manipulação de uma claque visando um resultado eleitoral, algo que posteriormente motivaria uma reacção óbvia e de efeito "boomerang".)

 

Para concluir, da mesma forma que às claques cumpre exclusivamente apoiar os atletas e as equipas do Sporting, nas pistas, piscinas, estádios e pavilhões deste país - não sendo seu objecto constituírem-se como anti-poder ou contra-poder - , a um presidente do Sporting exige-se que saiba em todos os momentos proteger a imagem do seu clube. Em certos momentos isso poderá ser inconciliável até com o seu interesse pessoal, o qual em nenhum momento se poderá sobrepôr ao interesse do clube, o bem maior desta equação. Expôr uma e outra, e outra vez, pelas piores razões, o clube à devassa dos media e de todos os portugueses, onde se incluem adeptos do Benfica, do Porto e de outros clubes, não é um bom serviço prestado a uma instituição centenária que ostenta o lema "tão grande como os maiores da Europa" traçado pelo seu fundador. A roupa suja lava-se em casa e é chegado o tempo de com firmeza esta Direcção realizar esse trabalho nas suas instalações em detrimento do enxovalho público permanente a que submete o nome do nosso enorme Sporting Clube de Portugal. 


Não, à violência e seus perpetradores!
Sim, ao bom nome do Sporting e dos Sportinguistas! 

P.S. Desperdiçou-se a excelente oportunidade de a capa do Jornal Sporting reflectir, isso sim, o que é verdadeiramente o Sporting. Pela positiva, mostrando o esforço, dedicação e devoção de todos os que ao longo dos anos contribuíram para a glória de um clube que, paradoxalmente ou talvez não, é muito mais do que um clube, é uma forma de estar na vida e em sociedade. Assim saibamos todos estar à altura dele. 

11
Fev20

Justa Causa vs causa justa


Pedro Azevedo

A mesa da Assembleia Geral do clube anunciou hoje ter indeferido, por unanimidade, o pedido do Movimento Dar Futuro ao Sporting para a realização de uma Assembleia Geral de destituição dos actuais orgãos sociais. 

 

O facto do orgão máximo leonino não ter atendido ao pedido do referido Movimento, fundamentando-o em irregularidades formais e aduzindo que as razões apresentadas não configuram Justa Causa, não surpreende os mais atentos. De facto, estatutariamente falando, seria difícil enquadrar os fundamentos de destituição à acção destes orgãos sociais, razão pela qual nunca me associei a esta iniciativa. Mas o presumível facto de não haver Justa Causa não invalida que possa haver causa justa para que nomeadamente esta Direcção deixe de exercer as suas funções, pelo que sempre defendi que Varandas e seus pares deveriam apresentar a sua demissão e obrigar a uma clarificação por via da vontade expressa dos sócios em assembleia geral eleitoral. Fi-lo porque apesar de ter poder, por via dos votos de 2018, considero que a actual Direcção não tem neste momento autoridade (à luz de tantos erros cometidos) perante os sócios. Ademais, não existem no actual contexto figuras transversais ao universo leonino com peso, disponibilidade e aceitação suficientes para exercer um magistério de influência que promova um pacto de regime que assegure a paz e garanta o cumprimento sem problemas do tempo que falta para terminar esta legislatura. Cria-se assim o vazio, que como todos sabemos é fonte de crescimento desordenado de "ervas daninhas". Teme-se assim pelo futuro, razão pela qual defendo a realização urgente de eleições.   

 

Para terminar, gostaria de deixar a seguinte reflexão: os Estatutos não garantem um limite máximo de contratações por época nem uma quota mínima de jogadores da Formação que assegure a sustentabilidade da política desportiva. Adicionalmente, não previnem que Frederico Varandas possa, a cada conferência de imprensa ou entrevista, enxovalhar o nome de uma centenária instituição. Finalmente, também não evitam que um presidente do clube aumente livremente o seu ordenado na SAD, mesmo que contra a vontade de todos os outros accionistas presentes em AG da sociedade, sem que essa decisão tenha de ser previamente aprovada em AG do clube. Temos assim uma Direcção que do ponto de vista dos Estatutos, dos formalismos, está de pedra e cal. Qual então o efeito prático disso? Informalmente, o caos...

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08
Fev20

A Comunicação no Sporting


Pedro Azevedo

Castigo Máximo teve acesso aos bastidores da melindrosa preparação da entrevista presidencial ao Record. O Dept. de Comunicação reuniu-se para elaborar a narrativa oficial inerente ao balanço da época e vários obstáculos e contratempos decorrentes do caminho escolhido foram sendo ultrapassados até que o guião contendo o essencial da mensagem a comunicar chegou finalmente a Frederico Varandas. O resultado foi este que pode ver neste rigoroso exclusivo do nosso blogue. 

07
Fev20

Varandas ao Record


Pedro Azevedo

O mínimo que se pode dizer da entrevista de Frederico Varandas que hoje o Record deu à estampa é que o presidente perdeu uma boa oportunidade de dizer algo que mostrasse haver uma estratégia sólida por trás. Aliás, as tergiversações foram mais que muitas. Desde informar que precisou de 115 milhões de euros para sobreviver - ainda que isso lhe enfraquecesse definitivamente a equipa - , esquecendo-se que investiu 47 milhões de euros em jogadores que até ao momento não demonstraram a qualidade daqueles que foram vendidos. Também se congratula e diz que a forma como Bruno Fernandes saiu é a correcta ( com o que concordo), com a admiração de todos, mas acaba por concluir que a época correu mal porque o nosso capitão não foi vendido, ligando assim a sua permanência ao descalabro desportivo a que vamos assistindo. Pelo meio, Frederico Varandas diz que se gastaram 25 milhões de euros nos dois mercados (Inverno e Verão de 2019), quando na verdade, entre gastos com comissões e investimento, se consumiram cerca de 40 milhões de euros, algo facilmente comprovável pelos documentos enviados à CMVM e R&C. Alega que Dala, Geraldes e Ivanildo não jogaram nos clubes a que estiveram emprestados - isso provavelmente fala mais sobre o critério de emprestar jogadores a clubes turcos e gregos do que outra coisa - , mas acabou por trazer emprestados Jesé, Bolasie e Fernando, jogadores que poucos minutos tinham nos clubes detentores do seu passe. Preocupantemente, diz que Olsen é um bom jogador e não confirma nem desmente o interesse na sua contratação, o que é inquietante na medida em que Max recentemente adquiriu a titularidade e pode facilmente valorizar-se nos próximos anos, havendo ainda Renan - deu-nos duas taças - como segunda opção sólida e posições bem mais carenciadas de reforço do que a de guarda-redes. Sobre Keizer, assume que o treinador holandês sofreu na pele os erros de um mau planeamento. Logicamente, o entrevistador pergunta-lhe de seguida porque é que o despediu. Eis então que, em resposta, o presidente admite como provável que a decisão de despedimento tenha sido injusta. Extraordinário quando, mal ou bem, existe um treinador (Silas) em funções... De resto, perdemos os clássicos todos - "mesmo quando merecíamos ter ganho" - porque é futebol, foi relevante trazer a público uma conversa privada em que um treinador lhe referiu ser o Sporting um "clube de malucos" para os sócios saberem como nos veem de fora (nota do autor: ainda bem que ninguém diz que somos um clube de "serial killers"...) e espera fazer uma boa "digressão" pela Europa (referindo-se à presença na Liga Europa). Ilustrando que nunca conseguiríamos ir buscar um Plata de 25 anos, acaba por referir que o Sporting não tem capacidade para ir buscar um jogador feito (Bruno Fernandes e Dost custaram cerca de 10 milhões de euros cada um), esquecendo-se que gastou 47 milhões em contratações (inclui €7 milhões de Sporar) em 1 ano. Assume ainda que já contrariou várias vezes o seu princípio inicial de não entrar no balneário, inclui um miúdo de 21 anos (Matheus Nunes) que há muito deveria estar a jogar na equipa principal num leque de jogadores entre os 16 e os 18 anos e diz que não tinha jogadores da Formação como em 2013, olvidando que Leonardo Jardim deu a 1ª oportunidade a William, que estava no Cercle Brugge, e colocou Adrien no sítio certo (posição "8"), ele que curiosamente tinha estado em tempos emprestado a um clube (Maccabi Haifa) onde pouco jogara (o que pelos critérios com que Varandas avalia Dala, Geraldes e Ivanildo não auguraria nada de bom). O presidente informa ainda que vendeu Domingos Duarte porque se apercebeu que Bruno Fernandes não saíria, o que não faz sentido dado o negócio do jovem central ter ocorrido a 14 de Julho, ou seja, mais de 1 mês e meio antes do fecho de mercado. A entrevista termina com o presidente dizendo que o plano estratégico que definiu quando chegou ao Sporting implica o Sporting voltar a ser um candidato crónico à Champions. 

 

Acabada de ler a entrevista, aqui Vos passei os pontos que me chamaram mais a atenção. Agora, com a Vossa permissão, vou tomar dois Lexotan...

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09
Nov19

Rugido de leão?


Pedro Azevedo

À margem da Gala Rugidos de Leão, Frederico Varandas falou aos Sportinguistas presentes. E não resistiu, uma vez mais, a utilizar linguagem imprópria de um presidente do Sporting Clube de Portugal, um regresso a um passado recente que se julgava erradicado no nosso clube. Deixando de lado a mais do que óbvia estratégia política inerente ao seu posicionamento, o mundo que se pode observar através daquilo que diz Varandas é demasiado simples, nele coexistindo o bem (ele e os sócios que legitimamente assistem a tudo isto em silêncio) e o mal (um contingente não determinado de sócios Sportinguistas), um tipo de maniqueísmo absolutamente primário nos antípodas da promoção da união. Só isso (e o não saber estar) justifica que se aproveite uma ocasião festiva para brindar sócios do Sporting com epítetos como "velhos esqueletos de sempre", "papagaios", "patetas" ou "idiotas úteis". Se é isto que significa pôr o Sporting acima dos interesses pessoais...

 

Durante a sua alocoção Varandas defendeu a celebérrima Estrutura, dizendo que "foi a mesma que no mercado de Janeiro deste ano promoveu a saída de 3 jogadores e a contratação de 4, manobra absolutamente decisiva para as conquistas dos títulos de 2018/19". Ora, há aqui demasiadas imprecisões e uma importante revelação. Comecemos pela "promoção" da saída de 3 jogadores: então não tinha sido Nani a querer sair como a Comunicação do clube aliás pretendeu fazer passar? Depois, as imprecisões: Nani e Montero saíram após a conquista da Taça da Liga, troféu onde a acção do na época capitão leonino foi essencial, ele a quem Keizer no decorrer do jogo da final viu lhe serem atribuídas diversas funções no terreno, começando como ala e terminando a jogar por detrás do ponta de lança. Logo, quanto muito a acção no mercado terá redundado na conquista de 1 troféu. O resto é subjectivo e, como tal, não factual. Há quem possa considerar que foi devido a Ilori, Borja, Doumbia ou Luíz Phellype que se ganhou a Taça de Portugal, mas os números mostram que Bruno Fernandes, Bas Dost e Renan, jogadores que já estavam no clube, foram decisivos nessa caminhada. Para além de Raphinha, Coates, Mathieu, Acuña, Gudelj ou Ristovski, outros dos mais utilizados nessa campanha vitoriosa.

 

De seguida, o presidente leonino falou na necessidade de dizer a verdade e das dívidas que teve de pagar. No entanto, e volto a ser factual, olhando para o último R&C da sociedade verificamos que a rúbrica Fornecedores, referente a passivo corrente, aumentou para 48M€ em Junho de 2019 (44M€ em Jun 2018). Igualmente, a rúbrica Fornecedores referente a passivo não corrente (+ de 1 ano) cresceu para 14M€ em Junho de 2019 (+6,7M€ em Jun 2018), ou seja, em apenas 1 ano a dívida a Fornecedores subiu 11,3M€, pelo que se depreende facilmente que a constituição de nova dívida foi muito superior aos pagamentos de dívida antiga, mesmo após a antecipação de 65 milhões de euros de receitas da NOS (a propósito a conta DO apresentava apenas 3,3M€ em Junho de 2019). 

 

Varandas queixa-se também de ter tido de fazer um plantel com menos 10 milhões de euros do que custava o da época passada, algo que só se poderá atestar à medida que vierem a ser publicados os Relatórios trimestrais. Uma coisa é certa, omitiu que investiu 40M€ em novas aquisições desde Janeiro de 2019 (facto), um valor de investimento substancialmente mais elevado ao do período de Sousa Cintra (facto), comprando em quantidade à medida que se ia desfazendo de qualidade (subjectivo, mas apoiado nas estatísticas). 

 

Perante um investimento desta ordem de grandeza, o segundo maior da história do Sporting num só ano (só aquém dos 63,7M€ de BdC no decurso da temporada de 2017/18), Varandas lamentou "não ter podido reforçar o plantel como tinha inicialmente preparado", o que não deixa de ser extraordinário após 40 milhões de euros e 14 jogadores contratados. De seguida, o presidente leonino alegou que teve de optar pelo que era melhor para o Sporting em detrimento de ceder ao populismo, justificando assim não ter comprado um ponta de lança. Isto depois de ter investido 8,7M€ em metade do passe de Vietto  e cerca de 11M€ nos passes da dupla Rosier/Camacho (mais a oferta de Mama Baldé), para além de ter pago só pelo empréstimo do "avançado centro" Jesé a módica quantia de 2M€...

 

Voltou a repetir que a temporada passada foi a melhor dos últimos 17 anos, uma falácia. Isto é, tendo a época passada sido um motivo de alegria para todos os Sportinguistas, ou, pelo menos, para todos os Sportinguistas que vibram com o sucesso do clube independentemente das individualidades que o dirigem, ficou ainda assim aquém de uma temporada de Paulo Bento com Filipe Soares Franco como presidente (2007/08), em que o Sporting venceu Taça de Portugal e Supertaça e classificou-se em 2º lugar no campeonato nacional, apurando-se assim para a Champions. Isto para além de outras 3 temporadas do mesmo consulado em que o 2º lugar no campeonato foi sempre obtido e em que alternadamente Taça de Portugal ou Supertaça foram conquistadas, registando-se ainda a presença em duas finais da Taça da Liga, ambas perdidas nos mesmos penáltis que nos sorriram na época passada, sendo que uma ficou marcada pelo assinalar de uma inacreditável grande penalidade ao jogador Pedro Silva nos minutos finais de um jogo em que o Sporting se preparava para levantar o troféu. Ora, seja por via dos resultados desportivos, seja por via do impacto financeiro da presença da Champions (nunca menos de 25M€), está bom de ver que pelo menos uma dessas temporadas foi mais conseguida do que a época passada, sendo certo que pelo menos em 6 anos ficámos classificados em segundo lugar na prova de regularidade do calendário nacional, o campeonato. Sem esquecer que Varandas não atribuiu quaisquer méritos a Cintra e à Comissão de Gestão que deixaram o clube em 1º lugar (é certo que após apenas a 4ª jornada) e seguraram alguns importantes activos, ou à base de jogadores herdada da anterior Direcção. 

 

Chegou então a pior parte do discurso presidencial, aquela em que voltou a ser mal-educado para com os Sportinguistas. Falou nos "velhos esqueletos de sempre", em "papagaios que nunca fizeram nada na vida e que põem a sua agenda pessoal acima dos interesses do Sporting enquanto estão sentados ao lado de quem representa os nossos rivais". Disse ainda que os nossos rivais se riem "dos patetas e dos idiotas úteis que fazem o trabalho sujo que eles nem precisam de fazer". Bom, aqui estou em desvantagem em relação ao presidente do Sporting porque não me passa pela cabeça utilizar a linguagem despudorada usada por ele. Como tenho vindo a ser critico do presidente do Sporting, embora não enfie a carapuça sinto-me na necessidade de esclarecer algumas coisas à laia de declaração de interesses dado que já é comum Varandas fazer processos de intenção sem concretizar exactamente quem são os seus alvos, assim pondo todos os que não lhe prestem reverência no mesmo saco. Deste modo, importa dizer algumas coisas: ao contrário do actual presidente que, primeiro como médico, depois como director clínico e finalmente como presidente da SAD, tem vindo há vários anos a ser remunerado, este sócio há 39 anos do Sporting nunca recebeu um tostão do clube. Por outro lado, quem pelos vistos se senta com os rivais é o presidente, pois disso informou toda a nação leonina quando se referiu aos elogios que sistematicamente recebia dos nossos concorrentes, elogios esses que deveria ponderar se são genuínos. Tal como muitos outros sócios tenho um percurso profissional que não envergonha ninguém e que não se enquadra de todo no ofensivo "não ter feito nada na vida". Para além de sempre ter contribuído escrupulosamente para o Estado, impostos esses que permitiram reforçar a dotação para a Defesa Nacional e, concomitantemente, ajudar a pagar o curso de medicina que o Dr Varandas tirou na Academia Militar e que lhe permitiu exercer medicina privada fora do exército e ainda ter visibilidade e tempo para se candidatar a presidente do Sporting. 

 

Finalmente, uma nota: tenho na minha família diversas pessoas que serviram as forças armadas portuguesas. Dois deles passaram pelo cativeiro, sofrendo agruras em campos de concentração inimigos em cenários de guerra. Uns seguiram o serviço regular, outros foram milicianos, alguns foram condecorados pela bravura demonstrada, todos sempre demonstraram um elevado sentido do dever, orgulho patriótico e uma humildade e despojamento desarmantes. Através deles conheci outros militares que praticaram actos heróicos, todos igualmente com grande comedimento no que concerne a referirem-se a esses acontecimentos. Ao contrário do Dr Varandas, que não perde uma oportunidade de nos mostrar que foi um herói em terras afagãs...  

 

Repito o que disse há uns dias: são tantos os nós que Varandas ata para "unir" o Sporting que temo que o clube acabe estrangulado. Estranha forma de vida esta...

06
Nov19

Niilismo, maniqueísmo e conformismo, eis os males do Sporting


Pedro Azevedo

Não o conheço pessoalmente e nada tenho contra o cidadão Frederico Varandas. Adicionalmente, como Director Clínico, a ideia que ainda hoje retenho é de ter sido alguém muitíssimo competente no decurso suas funções no Sporting. Mas tenho de dizer que como presidente do clube tem falhado em toda a linha. E não falo apenas do que foi a canhestra preparação desta época desportiva e do impacto futuro que a política de aquisições, vendas (Bas Dost, Domingos Duarte) a preço de saldo e empréstimos com cláusulas de opção baixas por parte do clube comprador terá nas nossas já depauperadas finanças, acima de tudo preocupa-me o ambiente que se vive no clube e do qual não tenho memória em 39 anos de associado.

 

Tenho por hábito viajar ao filtro das pessoas, aquilo que na gíria se designa como colocar-me nos sapatos do outro. Desse modo, muitas vezes dou por mim a pensar o que faria se estivesse no lugar do presidente do Sporting e sentisse a contestação dos adeptos. Devo dizer que contestação por contestação não seria nunca motivo suficiente para abdicar das minhas convicções. Penso até que seria uma atitude algo irresponsável demitir-me nessas circunstâncias. Acontece que contestação é uma coisa, o ambiente que se vive no clube é outra. Sendo certo que algum do actual extremismo que se vive no Sporting deriva do radicalismo de linguagem que Bruno de Carvalho introduziu no clube (aquilo a que chamei de "exuberância irracional") quando errónea e despropositadamente trocou o inimigo externo pelo inimigo interno, também não deixa de ser verdade que Frederico Varandas nada fez para alterar esse "status-quo". Pior, do meu ponto de vista acentuou a separação entre sócios do Sporting. Do plebiscito referendário que ditou a destituição do anterior presidente resultou um 71%/29% em votos e uma assimetria ligeiramente menor em nº de votantes. Dado o clima que conduziu à destituição e ao "day after", em que ninguém poupou no verbo (ou melhor, no adjectivo), o radicalismo continuou a grassar. Quando Varandas começou a exercer funções cada um destes grupos já se encontrava confortavelmente barricado na sua trincheira, como se tal fosse o "novo normal" do Sporting. Ora, em vez de procurar um discurso assente no futuro, de reconciliação entre sócios e de aproximação destes ao centro da discussão como aliás havia prometido em campanha eleitoral, o presidente do Sporting não resistiu ao conforto ilusório de gerir a desunião, usando os primeiros opositores como escudo ou justificação para um eventual fracasso, ciente de que a maioria silenciosa estaria consigo. Na minha modesta opinião, um líder não parte para uma batalha com divisionismo nas suas hostes e a preparar uma derrota. Não, um líder arregimenta ao máximo à sua volta as suas tropas e com o foco exclusivo na vitória, ponto. Mais a mais após um acontecimento traumatizante para o clube que recomendava especial atenção e bom senso na colagem dos cacos, algo do género que o Marquês de Pombal exemplarmente quis fazer passar com a célebre expressão "cuidar dos vivos". Acresce que a obsessão com denegrir ainda mais o nome do anterior presidente sempre me pareceu desproporcionada. Uma coisa é eu sentir que Bruno já não tinha as condições psicológicas para gerir o Sporting, que na parte final do seu mandato já confundia o clube com ele próprio, etc, outra é não saber viver com quem partilhe uma opinião diferente ou deixar que se alimente a calúnia, insinuação e um tipo de ataques "ad-hominem" que não gostaria que fossem praticados contra mim. Esse, para mim, foi o primeiro grande erro de Varandas. No meio da exaltação de alguns seus próximos, Varandas nunca soube usar da liderança de forma a suavizar o discurso institucional e assim evitar radicalizar ainda mais o dos saudosos do antigo regime, pensando como um estadista preocupado com a próxima geração e não como um político a preservar a sua eleição. Não, durante uns tempos viveu-se um período de delito de opinião, próximo da "caça às bruxas" de um "macarthismo" bacoco que ignorou algumas realizações do anterior presidente que granjearam legitimamente simpatia nos sócios, mesmo naqueles que não lhe perdoaram a deriva dos últimos meses . Ora, se nós estamos absolutamente seguros da força das nossas convicções não devemos temer as opiniões dos outros, não é assim? À medida que os resultados desportivos mostravam a ponta do icebergue de uma política desportiva incompreensível, Varandas cometeu o seu segundo grande erro: começou o discurso truculento voltado para dentro, primeiro com um alvo definido (Cintra) depois para quem quisesse enfiar a carapuça ("esqueletos", "cientistas", "malucos", "cães que ladram"...), o regresso de uma linguagem imprópria que se julgava erradicada do clube e que ainda ontem se ouviu, imagine-se, em Dias da Cunha ("o bronco", assim se referiu ele a BdC, sendo certo que tem como atenuante já não exercer qualquer cargo no Sporting). Só que já se cumpriu um período de nojo razoável em relação aos acontecimentos de Alcochete e a gestão do futebol de Varandas é algo exogéno a esse dia negro, pelo que os sócios do Sporting, nomeadamente as bases e os moderados, deixaram de bater palmas a esse tipo de maniqueísmo primário e começaram a preocupar-se essencialmente com as consequências da estratégia delineada pela Estrutura para o futebol. Sentindo que a contestação subia de tom e que a fragilidade dos orgãos sociais era mais evidente, logo líderes de algumas claques aproveitaram para mostrar os dentes e vingarem a perda de privilégios. A Direcção respondeu como devia, mas num timing que a fragilizou dado o contexto da equipa de futebol. Entretanto, foi apresentado o 5º treinador da era Varandas, protestou-se um jogo bem perdido contra um clube da terceira divisão, depois de 40 milhões investidos desde Janeiro em contratações a equipa encontra-se à décima jornada a dez pontos do Benfica, não se vê aposta notória na Formação, a Comunicação do clube continua a não acertar uma, as Assembleias Gerais redundantemente vão terminando em arruaça e o Congresso Leonino, espaço onde todos os Sportinguistas podiam finalmente, de uma forma salutar e construtiva, discutir entre si ideias que visassem a melhoria do Sporting, foi adiado com o argumento (dado pela Comissão Organizadora) de que o momento não era o ideal para a reflexão sobre o clube. Convenhamos que é obra! Paralelamente, a equipa de futebol não tem qualquer protecção nos relvados deste país, algo que vem sendo exacerbado pela criatividade dos vídeo-árbitros que nos têm calhado em "sorte". Sobre isto a Direcção também não diz nada. Cria-se assim a sensação de vazio, desconhecendo-se para e por onde se caminha (se é que se caminha) e por que valores lutamos. É a nossa identidade que está em causa quando o niilismo Sportinguista entra em cena e deixamos de acreditar seja no que for e o ressentimento, paralisia e incapacidade de seguir em frente tomam conta do clube. O declínio sente-se a chegar. E é aqui que entra o terceiro grande mal que assola o Sporting: o conformismo. Dado o contexto, tudo hoje em dia no Sporting é visto como uma fatalidade, uma inevitabilidade. É por isso que Frederico Varandas deve repensar o seu futuro no Sporting. Volto a viajar ao filtro do presidente e interrogo-me: se o objectivo de um presidente é fazer os seus felizes, que ilação posso eu tirar de ver toda a gente infeliz e cada vez maior desagregação à minha volta? É aqui que o Sportinguismo do presidente deve, no meu entendimento, prevalecer sobre a ambição pessoal e o natural desejo de inverter o rumo dos acontecimentos, não esquecendo que Varandas tem toda a legitimidade democrática para se manter em funções. Se tomar uma atitude agora, dando o seu acordo para um pacto de regime que viabilize a realização de eleições assim que termine este campeonato, estará a prestar um serviço relevante ao clube, permitindo que projectos alternativos possam ser apresentados aos sócios e por eles devidamente escrutinados com a calma, serenidade e ponderação que não existiu no pretérito período eleitoral, evitando-se assim decisões puramente emocionais ou uma daquelas mudanças que deixem tudo igual ou pior. Se não o fizer, fiél ao seu slogan eleitoralista, continuará a "unir o Sporting". Temo é que os nós usados para o unir acabem por deixar o clube estrangulado.      

11
Out19

Este clube não é para democratas?


Pedro Azevedo

Quem troca o legítimo direito à crítica pelo permanente insulto, confundindo assim democracia com anarquia, não está a prestar um bom serviço ao Sporting. De assembleia em assembleia, de presidente em presidente, os Sportinguistas vão provando que não lidam bem com a democracia. Diga-se de passagem que não é só nas assembleias, a linguagem usada nas redes sociais é bastas vezes inqualificável, o mesmo se passando muitas vezes nas televisões. Há mais de 1 ano atrás alertei para o perigo de extremismo gerado aquando da destituição de Bruno de Carvalho. Tendo eu deixado de apoiar o antigo presidente após o tumulto ("exuberância irracional" como defini) que marcou os últimos 6 meses da sua presidência, não me pude no entanto rever na verdadeira caça ao homem superveniente nem no ambiente macarthista, de "caça às bruxas" (delito de opinião) que se lhe seguiu. Essencialmente, temi, e escrevi-o (para além de considerações de carácter humanista), que esse clima ainda extremasse mais a posição contrária, a dos defensores do anterior regime, e que tal recriasse o PREC no clube de Alvalade. Não estava errado e tudo o que tem vindo a acontecer desde aí prova-o. 

 

Devo dizer que o clima que se tem vivido em sucessivas assembleias gerais é inadmissível. Numa democracia, a contestação deve fazer-se através de argumentos, não de insultos. A situação actual é consequência da crise de Cultura do mundo Sporting, de uma identidade que está em risco e, como tal, vulnerável a tudo o que venha de fora. Ora, há questões que se prendem com a crise de valores da sociedade portuguesa, desenraizamento de vários jovens, falência da família e da escola como pilares de ADN educativo e cultural que estão a montante do Sporting, mas que são infiltradas dentro do Sporting à medida que se vai percepcionando o vazio, esses elementos por vezes (alegadamente) tacticamente recebendo acolhimento de quem dirige o clube (o que transmitia "Barbini" no áudio divulgado na campanha?), outras vezes sendo instrumentalizados ao serviço de outros interesses. Por outro lado, verifica-se uma impreparação ou falta de sensibilidade do actual poder executivo leonino no que respeita ao tratamento que se deve dar a esta questão da Cultura Sporting. Sejamos francos, têm havido erros a mais na gestão do futebol do clube, mas o principal problema do clube é a ausência de uma estratégia que vise a união. Na minha óptica, tem sido muito mais fácil à actual Direcção apontar o dedo à anterior do que reconhecer os seus próprios erros e, emendando-os, seguir em frente. Ora, isso denota maior preocupação com uma linha de defesa e de preservação pessoal do que com o progresso e a resolução dos problemas. Nesse sentido, todos aqueles que vêm recorrendo ao insulto sistemático para com os actuais Orgãos Sociais têm sido um seguro de vida para quem dirige, permitindo assim a vitimização que esconde as insuficiências que se sentem no seu mandato e que, elas sim, carecem de ser discutidas de uma forma séria por sócios de uma linha moderada. Acresce que, Frederico Varandas, inabilmente, criou desnecessariamente outras frentes de batalha num ambiente já de si explosivo. Mostrando falta de cultura democrática, ele próprio se virou contra outros sócios, começando em José de Sousa Cintra e continuando nos "esqueletos", "cientistas" e "cães que ladram", numa linguagem completamente fora daquilo que deve ser a solenidade de um presidente de uma instituição como o Sporting e que lembra o pior (da comunicação) de Bruno de Carvalho, infelizmente sem um conjunto de realizações que para alguns vagamente relembre o melhor do ex-presidente. Isso tem consequências.

 

Alguns sócios do Sporting crêm que a melhor solução para o clube é estarem calados, outros entendem que há razões para criticar o rumo seguido (se é que existe). Pelo meio, entretêm-se, uns e outros, a julgarem-se entre si. Na verdade, a história mostra-nos que a atitude de um Sportinguista é perfeitamente indiferente. É assim há anos, mas o silêncio cúmplice tem ajudado à materialização de vários erros e a critica construtiva tem sido sempre desvalorizada e olhada com desprezo pelos sucessivos dirigentes do clube. Ora, eu penso que apoiar o clube é ser solidário com os seus Orgãos Sociais, desejando que o melhor para eles seja o melhor para o clube, repudiando acontecimentos como os de ontem. Mas uma coisa é ser solidário, outra bem diferente é ser cúmplice. Quando o rumo seguido nada tem a ver com o programa eleitoral, os sócios têm o direito de pedir explicações. Se nenhuma sociedade cotada no mundo inteiro deixa de ser escrutinada numa base diária, por que razão querem os administradores da SAD do Sporting carta branca dos sócios do maior accionista?  Convive-se mal com a democracia no clube e isso começa na sua Direcção. Várias medidas têm sido tomadas sem disso ter sido dado esclarecimento aos sócios. Algumas das mais recentes prendem-se com aquilo que foi submetido a votação na AG da SAD. No meu entendimento, fosse eu presidente da SAD, faria essas propostas descerem primeira à AG do clube, a fim de auscultar os sócios, ainda mais em matéria em que me dizia respeito e em que era parte interessada (independentemente da proposta ter partido da Comissão de Accionistas), regra que considero elementar de bom "governance", ou boas práticas de gestão, ou prevenção de conflitos de interesse. Pelo contrário, entendeu Frederico Varandas levar a reunião magna da SAD uma proposta de aumento salarial da sua administração e de cooptação de 2 novos administradores, outro acto não explicado aos sócios do clube. Mais, fê-lo em sentido contrário às poupanças que preconizou em termos de plantel e que provocaram o seu flagrante enfraquecimento, das quais se destacam as saídas de Nani e de Bas Dost, processos aliás muito nebulosos e que foram tratados sem a dignidade institucional merecida. Dado o ruído que a proposta de aumento de ordenados suscitou - segundo constou na CS, a proposta mereceu o voto contra de todos os accionistas que não o Sporting - o presidente não a retirou. Fê-la aprovar, usando o voto do Sporting no sentido favorável às suas pretensões, apenas indicando que durante um determinado período de tempo iria suspender a sua aplicação, uma forma subtil de mais tarde obter o que deseja e que revelou uma elementar falta de bom senso. 

 

Perante tudo isto, está bom de ver que o Sporting navega nas margens do caos. À falta de respeito que certos sócios manifestam pela Direcção e concomitantemente pelo clube - se querem marcar a sua posição, organizem-se e usem os mecanismos regulamentares existentes, não ofendam a ordem - responde o senhor presidente com um evidente desprezo pelas criticas e pelos criticos. No entretanto, a equipa de futebol vai mal, o défice de qualidade é agora mais evidente do que em qualquer momento nos últimos 7 anos, a propalada aposta na Formação não se traduz na prática em algo palpável, a situação de tesouraria é debilitada e o modelo estratégico para o futebol parece mais catastrófico a cada dia que passa. Perante isto, o que faz Varandas? Dispara em todas as direcções e não inverte o rumo. E a banda continua a tocar a mesma música, navegando à beira dos icebergues. Assim vai o Titanic leonino... 

30
Set19

A importância do sujeito na comunicação


Pedro Azevedo

Na comunicação, o sujeito é mais importante que o objecto (assunto). Torna-se por isso importante saber viajar até ao filtro do(s) interlocutor(es). A cultura portuguesa é conflitual, não confronta no imediato. As coisas vão ficando por dizer até que há uma explosão. Da mesma forma (perdoe-se a imagem) que quem não espreme uma borbulha pode acabar com um furúnculo putrefacto, quem não ataca os problemas - e aqui houve um conflito inicial latente com certas franjas de Sportinguistas que passou a manifesto, independentemente da má vontade dessa oposição, pela forma inábil como Varandas foi pondo todas as responsabilidades na sua herança (nunca reconhecendo alguns méritos), em vez de encerrar o assunto (o passado não se pode mudar, o futuro sim) e caminhar para a frente - e passa a vida a queixar-se dos seus interlocutores (no caso, os sócios do Sporting) é especialista em criar conflitos, transformando assim um confronto de opiniões numa guerra. No caso concreto actual, vis-a-vis a desastrosa - não sou muito de adjectivos, mas as coisas são o que são - preparação desta época desportiva, o que Frederico Varandas deveria ter feito desde o início era mostrar que sabia escutar, procurando entender a mensagem e perceber o que lhe estavam a transmitir. Após isso, então sim, acusar a recepção do estado de espírito dos seus interlocutores, valorizando-os dessa forma, mostrando empaticamente que percebeu, tomou boa nota do que lhe transmitiram, aprendeu com os erros e vai procurar corrigir. 

 

Quando um presidente de um enorme clube decide comunicar à sua gente, deve fazê-lo com abertura e eficácia. Como tal, deve renunciar à necessidade quase doentia de mostrar que tem razão, a qual ontem se assemelhou a uma atitude infantil e birrenta, certamente não a forma ideal de procurar a absolvição junto dos Sportinguistas que o contestam, hoje em número bem maior do que aquele grupo mais ortodoxo de defesa do ex-presidente que durante algum tempo, curiosamente, lhe serviu de seguro de vida (estratégia de visão curta, interessante do ponto de vista da preservação pessoal mas lesiva para o clube) para manter os moderados do seu lado. Ao escolher esse caminho de defesa, a que adicionou um tom sempre recriminativo para com os Sportinguistas (facto que não ocorre pela primeira vez), Varandas mostrou que não os valoriza, e isso, mais do que um erro de comunicação, expôs um traço de personalidade que não augura nada de bom para o futuro. 

04
Set19

Varandas à SportingTV


Pedro Azevedo

O MELHOR:

 

  • Discurso muito bem trabalhado do ponto de vista comunicacional;
  • Assertividade e boa imagem;
  • Foco;
  • O Balanço das Transferências: positivo financeiramente. Ideia bem passada;
  • O ter conseguido manter Bruno Fernandes, o nosso grande capitão (procurou capitalizar essa ideia);
  • Os elogios públicos a Bruno Fernandes. Não são de mais. Muito bem! (NA: Adoraria que pudessemos assinar um contrato vitalício com Bruno.)
  • Passou bem a ideia de um maior equilíbrio das contas;
  • Assegurou que Bruno Fernandes não está vendido para a próxima época, ao contrário do que Rui Pedro Braz insiste em dizer na TVI24;
  • Mostrou-se informado sobre a estabilidade pessoal do jogador Jese, avalizando assim a sua contratação, a qual terá um custo para o clube de aproximadamente 2 milhões de euros (1/3 do valor do seu contrato com o PSG, segundo os jornais), a quem classifica como um "avançado centro" (menos 1 ala, presumo);
  • Mostrou-se convicto sobre o rendimento que Bolasie irá apresentar;
  • Informou que 3 ou 4 jogadores da Formação "com muito talento" serão opção do plantel principal na próxima época;

 

 

O PIOR:

 

  • Já vem do passado, mas este modelo soviético da SportingTV, que já foi Bruno TV e agora é Frederico TV, não serve os interesses do clube. Servirá certamente o interesse de quem governa circunstancialmente o clube, mas é com pesar que digo não se ter visto o mínimo de contraditório por parte do jornalista (Sérgio Sousa, um bom jornalista até) encarregue da tarefa de entrevistar o presidente, com destaque natural para o silêncio observado aquando dos dictats "contratações cirúrgicas" e "aposta na Formação";
  • Absolutamente lamentável, deselegante e muito pouco elevado usar um orgão de comunicação do Sporting, logo de todos nós, para criticar um conjunto de sócios do clube, acabando até por não nomear ninguém e assim incluir todos;
  • Para médico, Varandas deve ter um bisturi de corte largo, só assim se compreende que defina 14 compras em 9 meses, mais de metade do actual plantel, como "contratações cirúrgicas";
  • Falar em "aposta na Formação", quando apenas a aplicação prática ao Sporting da celebérrima Teoria do Caos (lesões diversas, impedimentos, adaptação desastrosa de um central) permitiu a Thierry Correia actuar pela equipa principal, é simples demagogia. Os alas dos sub-23 como poderão ser opção na equipa principal, quando ainda agora recebemos mais 3 (a juntar aos outros 5 que já lá estavam)?;
  • Se ao primeiro desaire não deve haver contestação à Direcção, então isso também não deveria ser válido para Keizer?;
  • Desnecessária e, penso que, ilegal divulgação pública do salário de alguns jogadores excedentários. Teria bastado dar os números por grosso daquilo que se poupou. Não é correcto uma entidade patronal expôr assim publicamente os seus ex-colaboradores (seria de esperar mais cuidado após o episódio da divulgação pública da Auditoria);
  • Para quem tanto critica a sua herança - e nalgumas coisas com propriedade - , esqueceu-se de revelar que todos os jogadores que vendeu foram herança que recebeu de Bruno de Carvalho e de Sousa Cintra (resgatou Bas Dost);
  • Voltou a enxovalhar o Sporting por pelo menos 3 vezes, sempre aludindo ao facto de não haver treinadores que queiram ir para o clube;
  • A expressão "lastro fora", referindo-se aos excedentários, embora compreensível na ideia que procurava transmitir, é muito pouco digna da solenidade institucional que um presidente deve ter e do respeito que os jogadores devem merecer por parte de Direcção e sócios do clube. Também fez um ataque ao jogador Mattheus Oliveira, que tem um contrato livremente assinado entre as partes, diabolizando assim outra vez um jogador. Um acto irresponsável!;
  • A propósito de Podence, acabou por desnecessariamente abrir o jogo sobre a fragilidade da posição do Sporting havendo ainda o dossier Rafael Leão por resolver. Isso, simplesmente, nunca se faz numa negociação;
  • Finalizar com o "Rambo" Varandas, cães a ladrar e tiros. Enfim, tiros nos pés, decerto. Longe do objectivo(?) da união. 

 

 

Afinal, ao contrário do que diz, o presidente Varandas, ou alguém por ele, lê alguns blogues. Para bom entendedor...

23
Fev19

Somos diferentes!?


Pedro Azevedo

Somos diferentes...

 

  1. sobrepondo as nossas razões à razão do clube?
  2. no radicalismo com que dois polos opostos expõem as suas opiniões?
  3. expondo um campeão europeu de selecções e vencedor da Champions, formado no clube, na praça pública?
  4. virando as costas ao clube quando ele mais precisa de nós?
  5. desvalorizando a nossa Formação?
  6. usando a Comunicação como um escudo em vez de veículo promotor da união?
  7. querendo que o nosso próprio clube perca?
  8. não sabendo sair do palco?
  9. afastando os sócios e adeptos moderados que estão cansados de tanto ruído?
  10. trazendo a Molaflex e a Moviflor, passe a publicidade, para comunicações institucionais? 
  11. tácticamente mantendo o silêncio à espera que tudo definitivamente desabe para aparecer?
  12. fazendo ouvidos moucos às críticas construtivas?
  13. sucessivamente, mandato após mandato, abusando da demagogia?
  14. utilizando permanentemente linguagem grosseira?
  15. não tendo aparentemente um manual de procedimentos e/ou código de conduta que incida na prevenção de conflito de interesses?
  16. apoiando o nosso clube nos estádios mediante contrapartidas financeiras?
  17. mudando tudo para quase tudo ficar na mesma?
  18. dividindo para reinar?
  19. trocando dichotes e acusações em público?
  20. constantemente trazendo problemas aos sócios em vez de soluções?
  21. multiplicando a nossa identidade sportinguista (a única) entre "sportingados", "croquetes" ou "brunistas"?
  22. não respeitando a nossa história e a razão de estarmos aqui?
  23. afastando os sócios que não querem confusões em vez de os envolver numa cultura renascentista (participativa, inspiradora, de fluência de ideias, inovadora)?
  24. confundindo "ser" presidente com "estar" presidente? 
  25. contribuindo para uma divisão maniqueísta dos sócios?
  26. fazendo "cavas" na roleta da fortuna na tentativa de ganharmos campeonatos?
  27. sacrificando o estrutural ao conjuntural?
  28. baixando os braços perante as arbitrariedades constantemente vividas nos campos de futebol?
  29. sistematicamente gastando mais do que os proveitos gerados?
  30. não tendo uma oferta para jovens sócios e adeptos que não passe pelas claques?
  31. quando nos movemos por ódio, ou por interesse, em vez de por amor ao clube?

 

À atenção de Frederico Varandas, Bruno de Carvalho e sócios e adeptos deste ENORME Sporting Clube de Portugal, deixando ainda para reflexão duas frases lapidares: a primeira, de Platão, que lembra que "a parte que ignoramos é muito maior do que tudo quanto sabemos"; a segunda, de Voltaire, "o orgulho dos pequenos consiste em falar de si próprios; o dos grandes, em nunca falar de si". Dedicadas aos egocêntricos que tudo julgam saber e raramente têm dúvidas. Sim, dúvidas, aquela interrogação consciente que os textos judaicos consideram ser a fonte da sabedoria.

 

 

23
Fev19

Surfar na maionese


Pedro Azevedo

Gostaria de dar relevo aqui a duas notas extraídas da conferência de imprensa que o Sporting hoje promoveu e que, na minha opinião, mostram que não mudou tanto assim (não me refiro a situações conhecidas, ou outras potencialmente supervenientes, que caberá à justiça determinar) da Direcção de Bruno de Carvalho para a de Frederico Varandas, para além de questões de estilo e/ou educação (em que me revejo), que são importantes mas não assegurarão a perenidade do clube. A primeira tem a ver com a dívida a fornecedores, de cerca de 40 milhões de euros, da qual Salgado Zenha (de quem até tenho boas referências) se queixa que ficou quase toda para pagar este ano, naquilo que foi uma "cava" promovida por Bruno de Carvalho no sentido de tentar ganhar o campeonato. Ora, como Zenha bem sabe, nenhum clube do mundo compra a pronto e, naturalmente, há um plano de pagamentos do qual ele deveria ser antecipadamente conhecedor (igualmente terá dinheiro a receber, herdado de vendas efectuadas no mandato anterior), dadas as reuniões mantidas com a Comissão de Gestão. Na altura, inclusivé, em campanha eleitoral Varandas disse não temer a situação financeira. No entanto, admito o desconforto de Zenha, mas o que me causa apreensão é, noutro passo do seu discurso, vir dizer que os sensivelmente 14 milhões de euros (números apresentados à CMVM) que custaram os jogadores contratados na janela de Inverno beneficiaram de um plano de pagamentos favorável, ou seja, serão pagos no futuro, isto é, alguém os terá de pagar lá para a frente, exactamente a situação que Zenha diz lhe desagradar no presente. A segunda nota tem a ver com a declaração de Varandas de que não comprarão jogadores para a B e Formação, dando como comparação os 38 jogadores que Bruno de Carvalho comprou em 5 anos para a equipa B. Ora, na janela de Inverno chegaram Plata, Matheus Nunes (jogador de que gosto), o albanês Lico, o brasileiro ex-Alverca Ronaldo e o Wang, ou Tang, ou lá o que é, contratado pelo Wolves à equipa B de um clube espanhol cuja equipa A milita na 3ª divisão espanhola. É que, fazendo umas contas rápidas, como cada temporada tem 2 janelas de transferências, a manter-se este ritmo, em 5 anos teremos 50 jogadores para a B...

 

Há ainda uma terceira nota que deixei propositadamente para o fim e que se prende com a aposta na Formação que Varandas preconiza. Gostaria só de lembrar que em Setúbal tivemos pela primeira vez, em quinhentos e tal jogos, zero jogadores da Formação a alinhar de início num jogo da equipa principal do nosso clube. Diz Varandas que é por não haver qualidade. Admito-o, duvido é que Miguel Luís e Jovane estejam de acordo. Para além do mais, esta afirmação valida a declaração na altura polémica de Tiago Djaló, que nos trocou pelo Milan, de que sentiu que não teria hipóteses de jogar na equipa principal do clube. A ter em atenção num momento em que surgem rumores de que alguns jogadores influentes dos juniores terminam contrato em Junho, informação que li nas redes sociais mas não consegui ainda confirmar.

 

Conclusão: não me parece que nestes aspectos nada de substancial se tenha alterado desde a saída de Bruno de Carvalho. Os erros produzidos até se assemelham, o que não augura nada de bom para o futuro. Adicionalmente, compreendendo perfeitamente o agastamento desta Direcção para com algumas tiradas públicas demagógicas de Bruno de Carvalho que inevitavelmente criam erosão a quem está a trabalhar, não me parece prudente assentar a comparação deste mandato com o período iniciado em 2013. É que antes houve 4 anos em que o Sporting perdeu 160 milhões de euros em Resultados Financeiros, mas isso não foi referido, enviesamento argumentativo que na minha opinião só vem contribuir mais para o adensamento do ambiente maniqueísta entre os adeptos leoninos e produção de mais ruído e atentados à Cultura e identidade do clube e ao património de referências dos sportinguistas (que não "sportingados", "croquetes" ou "brunistas", denominações que só enfraquecem a nossa Cultura).

 

E assim vai o Sporting. Há anos!!!

16
Fev19

O Rei vai nu


Pedro Azevedo

"O fraco Rei faz fraca a forte gente" - Luís de Camões

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Será a última vez que me debruçarei directamente sobre o presidente Frederico Varandas neste seu mandato. A razão que vejo numa crítica, a única que para mim faz sentido, é a de despertar consciências no sentido de as coisas melhorarem. (É tão mais fácil, mas seguramente muito menos sportinguista, alguém esperar tacticamente que tudo se desmorone para depois dizer das suas razões.) Quando isso não acontece e os comportamentos não se alteram, a crítica perde razão de ser. A dado momento, ela dá lugar à frustração, a que se segue a desilusão que vem acompanhada de uma sentença pessoal: tenho a convicção de que Frederico Varandas mostrou à evidência, até à data, não reunir todas as competências necessárias para o desafio que tem pela frente. E já nem me refiro a questões relacionadas com Política Desportiva. Muitos poderão dizer que é prematuro, extemporâneo afirmar-se isto e, naturalmente, estarão no seu inteiro direito de formular essa opinião. Até por isso, e porque sempre coloquei o Sporting em primeiro lugar, não serei no futuro mais um factor de desestabilização do clube que amo. Não deixo no entanto de emitir esta minha derradeira opinião aqui e agora, a qual tem muito a ver com as feridas de um passado recente e com a necessidade imperiosa e urgente de alguém romper com isso e conseguir devolver uma identidade única ao clube. Sabendo por onde não se quer ir, para onde não se quer ir (lições do passado), mas também qual o caminho que se escolheu percorrer em conjunto e seu destino (visão do futuro). E a todos o comunicar, convocar e entusiasmar, de forma a que dele possam vir a fazer parte. Com respeito e regras, evidentemente, mas também com o orgulho de fazer parte de uma gesta gloriosa, em que todos saibam a razão de Ser Sporting, o porquê de estarmos aqui, o tal elo identificador que une pessoas de proveniências, experiências, extractos sociais tão díspares. Algo que simplesmente não vejo Frederico Varandas ter condições para esboçar e implementar. É que não se obtém união por pedi-la, mas sim por um conjunto de actos, atitudes, comportamentos e procedimentos que acabam por a desencadear. E eu penso que o Sporting deve afirmar-se como um clube renascentista, com uma capacidade criadora, reformadora, de mudança de paradigma (o status-quo) e que valorize os seus sócios e as suas opiniões (não podemos querer discutir tudo externamente e internamente reduzir a discussão), com respeito pela integridade das competições, o objectivo de promover um desporto melhor, mais justo, equilibrado e íntegro, tudo assente numa cultura de excelência (que inclua exigência, compromisso e superação, mas também urbanidade e e tolerância), de acordo com o nosso ideário de "esforço, dedicação, devoção e glória", e sem nunca, em circunstância alguma, importar modelos que funcionem com outros, mas que não respeitem a nossa idiossincrasia (Formação, ecletismo) e/ou os nossos valores e que criem um choque com o que são os valores tradicionais sportinguistas, pois a Cultura (identidade) de uma organização deste tipo não pode estar nos antípodas do que é a personalidade e o carácter dos seus colaboradores e sócios. Um clube que promova a inovação constante e não o imobilismo, que compre tempo e não se queixe do tempo, que aja e não reaja. Ora, o que eu vejo é um afastamento progressivo dos sócios e a redução da discussão a uma escala de concepção maniqueísta. E tudo isso me desencanta. Como tal, vencido mas não convencido, assentarei praça nas origens do meu sportinguismo: na bancada, de cachecol ao pescoço, incensando os jogadores que me encantam e o futebol que me dá ilusão e, posteriormente, nas crónicas, tentando traduzir esse sentimento em palavras. E assim será, até ao fim deste mandato, sem outra opção que não seja a de servir o meu clube e alimentar a paixão pelo jogo, e isso o continuar a transmitir a filhos e quiçá futuros netos, queira o senhor que tudo sabe assegurar a perenidade do clube até lá. 

 

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