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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

01
Nov21

Máquina de sonhos e de alguns pesadelos


Pedro Azevedo

Fernando Mamede perfaz hoje 70 anos. Atleta com condições físicas ímpares, pecou sempre pela impreparação psicológica nas grandes competições internacionais. Ainda assim, ninguém esquece aquele dia em Estocolmo. Na cidade sueca onde um dia morreu a "razão" (Descartes), renasceu a emoção de ser português. Graças e ele, Mamede, Fernando Mamede, recordista do mundo dos 10000 metros. Uma máquina(!), e um dos melhores atletas que um dia vestiram a camisola do nosso Sporting. Imaginem o que poderia ter sido se a mente tem sempre acompanhado o corpo...

Fmamede.jpg

15
Mar21

Histórias de Sporting

Fernando Mamede


Pedro Azevedo

Se Descartes foi o mestre que no seu tempo nos indicou a razão como única via segura para o conhecimento do mundo, Mamede involuntariamente aos nossos olhos surgiu como a cobaia que demonstrava que o processamento das emoções podia alterar a percepção da realidade e impactar com o somático até ao ponto de o bloquear. Dueto aparentemente improvável, mas com muito mais a ligá-los do que à primeira vista seria imaginável, ambos partiam do "penso", mas depois divergiam entre o "existo" do francês e o "desisto" do português. Caminhos diferentes, como se duas rectas paralelas se tratassem, e que no entanto num certo ponto se encontrariam. No infinito, como reza a geometria descritiva, para o efeito localizado em Estocolmo. Pelo menos para Descartes, que na capital sueca encontrou a eternidade enquanto trabalhava para a rainha Cristina. E se em Estocolmo se pode dizer, usando de alguma liberdade poética, que morreu a razão, também aí (re)nasceu a emoção de ser português quando Mamede bateu o recorde mundial dos 10 000 metros e entrou definitivamente para a história do atletismo mundial. (Ou como deixar de pensar pode ser uma forma de sublimar a existência.)

 

Vi sempre no Fernando Mamede um excelente atleta e um homem bom. E sempre pensei que o fardo que ele transportava dos seus fantasmas pessoais já era suficientemente pesado para que ainda o fosse sobrecarregar com a factura de uma madrugada mal dormida de Los Angeles. O Mamede tanto me fascinava como me inquietava. Tinha a resistência de um queniano e a velocidade de um jamaicano, o que lhe permitia aguentar o ritmo de um super-atleta como o Carlos Lopes para na última volta lhe fugir como um foguete. E mostrava-o. Na pista. Em competições nacionais. Em meetings internacionais. Aí não havia Lopes, Cova, quenianos ou etíopes que o conseguissem parar. E o nosso querido Professor Moniz Pereira sabia-o como ninguém. O pior acontecia nas grandes competições de atletismo, em jogos olímpicos, mundiais ou europeus. Então o seu corpo sofria um "shut-down" e era vê-lo desde as primeiras voltas na cauda do pelotão, à espera de encontrar a porta certa por onde fugir ao pesadelo vivido no estádio. Vendo-o nesse transe, já não se fazia de decepção o sentimento de um português. E quando a imprensa, que o achincalhava após cada nova desilusão, lhe arrancava palavra polémica, qualquer potencial ira nossa era trocada pela comiseração. No fundo, ele era um de nós, com as nossas fraquezas, o nosso medo de vencer. O outro, o Lopes, era de outro planeta. Adoptavamo-lo porque nos dava pedigree, mas até nos causava desconforto por mais realçar a nossa fragilidade. Com aquela inquebrantável confiança? Com aquela mentalidade de aço? Não, não podia ser um dos nossos. Mas era. (Grande Lopes, meu ídolo, fundista completo e campeão!!!)

 

Um dia um amigo chamou-me para conhecer o Mamede. Apresentou-se-me inconsolável, de lágrimas a escorrerem-lhe incontrolavelmente pela face. Havia estado minutos antes com um antigo presidente do Sporting e o estado de saúde debilitado deste ainda o perturbava. Senti-me esmagado pela sua sensibilidade, grandeza de alma. Lembrei-me então de 1987 e de um campeonato nacional de corta-mato disputado já na recta final da sua carreira. Nesse dia Mamede estava imparável. Não havia Regalo ou Pinto que o alcançassem. Passada após passada, volta após volta ao circuito, o seu avanço ia criando um fosso cada vez maior para o seus adversários. Entramos então na última volta e, subitamente, vejo-o a abrandar e olhar para trás e para o lado, preocupação inusitada para quem sabia ter a corrida perfeitamente controlada, com a meta à vista. E então entendo tudo: Dionísio Castro, um dos jovens e promissores gémeos Castro recentemente chegados a Alvalade, isolara-se na segunda posição e Mamede localizara-o no cotovelo oposto de um percurso com o seu quê de serpenteante e decidira esperar por ele. E assim viria a acontecer, com Mamede esperando largos segundos para que ele e Dionísio atravessassem a meta de mão dada, assim ainda mais realçando o domínio do Sporting. No fim até foi o Dionísio que acabou por ser declarado vencedor, mas o Mamede não ficou nada incomodado com a situação. O seu rosto apenas irradiava a satisfação de ter contribuído para a afirmação do clube do seu coração e, simultaneamente, haver ajudado o jovem colega a subir ao patamar da fama, mal sabendo aí que essa viria a ser a única vitória, e como tal ainda mais significativa, da carreira do Dionísio no Nacional de Crosse. Nesse dia, com a sua nobre atitude, com a sua generosidade, o Mamede foi o mais campeão dos campeões, razão pela qual o relembro aqui.

 

Nota: Fernando Mamede, nascido em Beja, chegou ao Sporting com 17 anos. Aí permaneceu por mais de 20 anos, ganhando 6 Campeonatos de Portugal em pista e 6 Campeonatos Nacionais de Corta-mato. Foi recordista nacional dos 4x400m, 800m, 1500m, 5000m e 10000m, entre muitas outras especialidades não-olímpicas. Recordista europeu dos 10000m por 3 vezes e recordista mundial dos 10000m, a sua única medalha individual em grandes competições acabou por ser o bronze no Campeonato do Mundo de Crosse de 1981. Com o Sporting sagrou-se por 9 vezes campeão europeu de corta-mato de clubes, em duas delas ganhando a prova individualmente.

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