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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

14
Out21

Bragança e o modelo


Pedro Azevedo

Olho para Daniel Bragança e vejo um jogador que assentaria que nem uma luva numa equipa treinada por Pep Guardiola, onde o passe-repasse (o célebre tiki-taka) é a ideia por detrás do sistema. Pep foi treinado por Cruijff e dele absorveu os princípios da escola holandesa de jogo posicional (espaço e tempo como lógicas primordiais, pré-definição da distância ideal entre jogadores e linhas, forma de orientação da pressão alta, desdobramento atacante, defesa em campo pequeno e ataque em campo grande, etc...) criados por Jany van der Veen nas escolinhas do Ajax, que combinados com o método Coerver (Will Coerver, antigo treinador do Feijenoord) dos 10.000 toques na bola diários forneceram a base técnico-táctica para o que Reynolds e Michels viriam a apresentar na equipa principal dos lanceiros. Porém, Guardiola imprimiu o seu toque pessoal, o qual, não deixando de se ter mostrado eficaz, retirou espectacularidade ao conceito de Futebol Total originário dos neerlandeses. Isso está bem patente aquando da recuperação de bola, com as equipas de Pep a procurarem a organização em detrimento da transição rápida, algo que acabou por se tornar enfadonho para parte dos adeptos. [O próprio treinador veio mais tarde a alterar alguns dos seus conceitos de forma a ajustar algumas características individuais de jogadores (elementos rápidos como Sterling, por exemplo) ao modelo.]

 

Entretanto, uma nova ideia de futebol surgiu associada a Jurgen Klopp. Este, que partilha com Pep a ousadia na aposta em jovens, desenvolveu o Gegenpressing, onde pressionar o portador da bola na tentativa de a recuperar em 5 segundos é a palavra de ordem, seguindo-se a recomposição da organização defensiva caso a bola não tenha sido ganha, uma ideia de jogo assente numa transição defensiva muito agressiva (e não na cultura de posse de bola) que visa explorar o espaço nas costas para contra-atacar o adversário através de motos de alta cilindrada que Klopp habitualmente escolhe para a linha avançada (Salah, Mané, Jota), deixando ao critério de um falso avançado centro (Firmino) a gestão do momento de descer no terreno ou de procurar a profundidade, dois movimentos antagónicos, um que visa atrair defesas para libertar os restantes avançados, outro que procura esticar o jogo e o adversário de forma a que surja o espaço livre entre sectores para atacar a segunda bola. (No Sporting, Paulinho é mais forte a descer, mas Tiago Tomás supera-o na exploração mais eficiente da profundidade, pelo que não temos o jogador ideal que reúna exemplarmente essas duas características independentes da capacidade goleadora.)

 

Ora, a meu ver  a ideia de jogo de Rúben Amorim, independentemente do sistema de 3-4-3 (ou, mais concretamente, de 3-4-2-1) preconizado, aproxima-se mais da de Klopp do que da de Guardiola, razão pela qual a música que é pedida aos médios é mais do tipo heavy-metal do que do género balada. Assim, Matheus Nunes e Palhinha são imprescindíveis. Não se trata por isso de não reconhecer que Bragança é um grande jogador, o problema é encaixá-lo e potenciá-lo dentro da ideia de jogo do nosso treinador. Admito, por isso, que Bragança só venha a sair da sombra em jogos mais exigentes e que exijam outro povoamento no meio-campo, contra os outros 2 grandes ou na Champions. Seja como for, quem não gostaria de ter uma arma que a qualquer momento possa ser utilizada para alterar a nossa forma de jogar? É que o Daniel dá essa variabilidade ao nosso jogo que mais ninguém lhe pode dar (com a possível excepção do camaleónico Pote). 

bragança1.jpg

21
Mar21

Tudo ao molho e fé em Deus

Cinderella Man


Pedro Azevedo

Imaginem um clube com sorte madrasta, durante anos tratado como o enteado pobre do futebol português. Desprezado pelos dois filhos do sistema, que nunca perdiam uma oportunidade de dele troçarem, viu-se obrigado a desde cedo trabalhar na regeneração do nosso futebol. Um trabalho na sombra, anos e anos a fio convertido em retalhos por acção directa dos filhos do sistema e assim condenado a nunca emergir no baile de gala de encerramento da época desportiva, um motivo de redobrado sofrimento para todos os que dele gostavam.

 

O sofrimento como marca de existência e uma resiliência a dar razão a Schopenhauer quando classificava o sofrimento como positivo porque não inebriante ou ilusório como a felicidade e portanto revelador da condição humana. "Sofro, logo existo", como paradigma do ser Sportinguista. Até que um dia surgiu uma fada que tudo encantou. De uma abóbora fez uma carruagem dourada, seis ratinhos foram transformados em majestosos cavalos, um rato maior tornou-se cocheiro. Uns sapatinhos feitos à medida de campeão apareceram como que por encantamento, calçando-o para o baile. Logo todos os que gostavam dele se interrogaram se seria real. Poderão anos e anos de sofrimento terminarem com um passe de magia? O nosso receio, o que nos inquieta à noite, é que a carruagem se volte a transformar em abóbora.

 

Vem esta alegoria a propósito do papel de Rúben Amorim na afirmação deste novo Sporting. Amorim é o nosso "Cinderella Man", capaz de mostrar que é de ouro que se fazem os produtos da nossa Academia. Com ele, a nossa existência passou a ser um transcender de liberdade, aquilo que Jaspers ensina que abre caminhos. Como a caminho entre Alcochete e Alvalade, aberto por Amorim quando colheu 6 dos semeados por Aurélio Pereira e seus seguidores e os exibiu na grande montra de ontem. Com outros dois a preencherem a segunda parte. À semelhança de outros jogos em que fomos reganhando a nossa identidade. Dando assim um sentido às coisas. E logo quando tudo parecia perdido, o que dá à emergencia de Amorim um toque de transcendental, como na parábola de Kierkegaard onde um homem determinado a pôr fim ao seu sofrimento e prestes a atirar-se ao Tamisa (o Tejo, para o efeito) é salvo por uma picada de um mosquito que lhe interrompe o movimento. Abençoada picada, certamente. E encantado mosquito.

 

E que bonito é observar os nossos produtos de Alcochete. Com simplicidade, tudo se poderia reduzir à iluste Casa de Bragança, senhorial na arte da posse, douta em conhecimentos aprofundados de geometria e impenetrável às vagas de ataque do "inimigo", onde coexistem o tiki-taka do João e do Daniel, o GPS do Inácio, o rochedo Palhinha, o colosso Tomás - dois fins de semana consecutivos a mandar centrais para o estaleiro com caîbras aos 60 minutos de jogo - e a serpente Mendes, mas também o belo cisne Cabral e o bebé Essugo. Não sei como esta bela aventura irá terminar, mas volto a Kierkegaard para recuperar os seus 3 estádios da existência humana: tendo nós sempre desprezado o estético, em que o prazer momentâneo do belo e de um desejo imediatista (a "facilidade") é garantia de felicidade, encontrámos nas leis da moral e da conduta universais um patamar melhor para a nossa existência. Porque a ética é universal, ao contrário do ser que é único e individual. E assim, arregimentados por um valor comum, contra ventos e marés procuramos a nossa verdade comum. O que nos leva ao último estádio, o do compromisso com a nossa fé. De ser Sportinguista, de ser (Ser?) Sporting.  

 

P.S. Espero que o senhor José Pereira da Inspecção do Trabalho não nos multe por fraude na atribuição de contrato de trabalho ao jovem Dário.  

 

Tenor "tudo ao molho...": João Palhinha. Gonçalo Inácio, Daniel Bragança, Tiago Tomás, Pote e Jovane mostraram pormenores distintivos. E estreou-se o jovem Dário Essugo, 16 aninhos acabados de perfazer, com dedicatória para todos os papás de meninos que querem jogar futebol ao mais alto nível e tudo. Uma palavra final para a estupenda arbitragem de Tiago Martins, um árbitro não poucas vezes traído pela vaidade mas que ontem deixou o palco para os músicos e permitiu que sobressaísse a qualidade das partituras. Grande trabalho!

DarioEssugo.jpg

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