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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

01
Mar24

Tudo ao molho e fé em Deus

Morita e o Momento da Verdade


Pedro Azevedo

As crónicas dos jogos sucedem-se de sequela em sequela a uma velocidade furiosa, mas sem Michelle Rodriguez a quem recorrer em caso de conspícua falta de inspiração. A ansiedade do autor aumenta, temendo que um dia destes uma delas bata na trave como o Paul Walker e/ou desapareça no firmamento ao som do I'll Be Missing You, do Puff Daddy, Diddy ou Sean Combs (o homem muda de nome mais depressa do que o diabo da agulha esfrega o olho ao vinil). Tenho pesadelos e procuro o conforto do sindicato, mas descubro que este ainda não foi constituído por divergência de conceitos entre bloguers, blogueiros e bloguistas, o que põe em causa os direitos de autor de posts de receitas de tarte merengada, de desconto no pêssego em calda ou simplemente de contrariedades e ansiedades verificadas ao nível do pipi, entre outros eméritos candidatos a Pullitzer residentes nesta comunidade cujo potencial desaparecimento é temido como uma das terríveis ameaças que se perspectivam para o futuro da humanidade. Resignado, abrevio o tempo com um penteado à Vin Diesel e acelero teclado fora. Três são as rotações que a Terra promete sobre si própria até ao próximo jogo (Farense) e eu também preciso de dar umas quantas voltas à minha cachimónia para que entretanto me saia um texto minimamente em forma de assim-assim. 

 

Um jogo com o Benfica tem a vantagem de automaticamente resolver o problema da falta de assunto. Desde logo pelos casos e casinhos que o envolvem e quase sempre o prolongam bem para lá dos simples 90 minutos. Analisemos então um desses casos pela pena do humorista Duarte Gomes: o lance descreve-se brevemente por ter havido uma carga fora de tempo, simultanemente nas costas e numa perna, do João Neves sobre o Pote, que Fábio Veríssimo não sancionou. Tendo a falta ocorrido dentro da área do Benfica, logo deveria ter sido marcado um penálti. Mas o Duarte tem uma opinião  diferente: "Pedro Gonçalves, com a bola à sua mercê, direcionou a sua perna direita para o lado, para a trajetória de corrida de João Neves. O contacto - absolutamente evidente (NA: é Neves que toca em Pote e não o seu contrário) - não resultou de ação faltosa do médio encarnado, mas daquela opção do avançado do Sporting". Ou seja, para o inefável Duarte Gomes há uma lei que deve inibir um interveniente do jogo de se cruzar com outro numa esquina da área deste, especialmente se este último estiver a deslocar-se a grande velocidade. Já sobre a velocidade empregue ter sido impruente ou negligente, termos esses, sim, que constam das leis, nem uma palavra, ainda que o abalroamento tenha sido uma realidade. Acontece que 1 minuto depois o Pote marcou mesmo de verdade. E olhou para o Veríssimo como quem diz: "Karma is a bitch!". Estás a ver, Duarte? [O Duarte Gomes sabe bem do que fala, ele que um dia cismou interpor-se na trajectória da bola entre Ricardo Peres, adjunto de Paulo Bento no Sporting, e Rui Patrício, durante o aquecimento antes de um jogo, para depois imediatamente direccionar o seu corpo na direcção de Peres, promovendo o contacto (peitaça), terminando a sua acção a advertir o treinador de guarda-redes com um cartão amarelo perante a indignação geral de quem assistia a tão elucidativa lição de arbitragem.]

 

O Sporting ganhou o jogo no meio campo, produto da acção conjugada do requintado "Tsubasa" Morita e do sobrequalificado operário Hjulmand, que, quais Garrinchas de ocasião, meteram a dupla de Joões do Benfica no bolso. Pelo que a razão para a eliminatória ainda estar em aberto deve-se à má definição de Pote, Edwards e Geny, que desperdiçaram ingloriamente imensas jogadas promissoras. E se não fosse Gyokeres, que deixou Otamendi no passeio a anotar a matrícula do camião que o atropelou, poderíamos estar a lamentar um resultado muito aquém da exibição produzida. Porque a qualidade individual de Di Maria chegou a ameaçar sobrepor-se ao superior colectivo Sportinguista, mostrando à saciedade as vantagens de ter um fora de série. 


Evidenciando a vã ilusão do que é o controlo do jogo, em duas jogadas praticamente consecutivas o Benfica empatou. Fazendo pouco ou nada para tal, ou simplesmente, tendo Di Maria para tal. Mas se Diomande ficou a dormir no primeiro, o VAR estava bem acordado e viu a interferência do jogador benfiquista em fora de jogo que tapou a visão do nosso guarda-redes, Israel, que no fim comemorou com a Faixa de Ga(n)za situada na Superior, mostrando que o Sporting é de facto um clube diferente e cheio de sortilégios que nos aquecem e enriquecem a alma. 


Tempo ainda para Nuno Santos voltar a surpreender-nos com um Puskas, mas uma vez mais o galardão ficará adiado. Depois de uma letra, trivela e lob, agora foi um pontapé à Karaté Kid, mas o Momento da Verdade (também tinha um Morita) ficou adiado possivelmente para a segunda mão (ou demão, que a vitória de ontem foi o primário). 

Tenor "Tudo ao molho...": Hidemasa Morita 

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26
Fev24

Tudo ao molho e fé em Deus

E dois pontos o vento levou...


Pedro Azevedo

Para um clube de fidalgos, visitar a vila de um conde enquadrar-se-ia perfeitamente dentro da normalidade do protocolo habitual nessas circunstâncias. Mas o conde de que falamos não deveria frequentar muito as cortes, nem servir-se do cofre real, e o resultado foi que a sua gente teve de fazer pela vida e para sobreviver educou-se mais no conteúdo do que na forma, no pragmatismo ou realismo, o que no futebol se traduz correntemente em meia bola e força, bola para o mato que é jogo de campeonato: não é fácil jogar em Vila do Conde. Exige conhecimento amplo sobre ventos e por vezes marés, navegabilidades, a Arte da Guerra e quais as melhores caneleiras. Nem todas as equipas sabem bolinar por entre os ventos, nem todos os jogadores compreendem as trajectórias de um bom biqueiro na bola ou no lombo, só a frieza de leitura do jogo de um treinador faz perceber qual a pontão que sustenta a estrutura do adversário que é preciso abordar, se tiver a sorte de ter armas para isso ou dinheiro para gastar em Janeiro.  

 

Com o Geny à deriva e o Diomande a não responder à chamada de socorro ao náufrago, cenas da vida marítima, cedo o Umaro Embaló(u) a tempestade. Fazendo jus à lenda, logo o Narciso meteu água (lance precedido de falta sobre Pote) ao validar o golo, dando razão a quem acha que ele não é flor que se cheire (sabe-se que depois do Narciso se ter afogado, Afrodite transfomou-o numa flor). Na baliza, o Jhonatan mostrava-se na hora H, agá que para ele é antecipado desde que os seus pais registaram (mal) o seu nome. Devido a essa emergência, cedo começou a defender, negando o golo ao Gyokeres (duas vezes) e ao Trincão. Mas o Morita soltou-se e quando o Morita solta o seu perfume, os adversários ficam de olhos em bico e aparece o melhor Sporting. Na ressaca, o Hjulmand marcou um bonito golo. Quem também soltou, mas a bola, foi o Adán. Por sorte ou azelhice de um jogador do Rio Ave, não deu golo. Sorte, desta vez do Rio Ave, e azelhice (do árbitro) que se repetiram mais tarde, quando o Nóbrega, com os pitões em riste, aplicou um golpe de ninja em cima do Trincão e escapou sem a grande penalidade. Bola cá, bola lá, mais uma desatenção do nosso lado direito e bola no poste. Até que o Amine teve um atraso (mental) que correu mal e o Gyokeres explodiu com as redes do Rio Ave - foi o 30º golo do sueco e o 100º do Sporting na temporada. Estávamos finalmente em vantagem, ainda por cima com o intervalo a chegar. Só que o Nuno Santos ensarilhou os seus pés entre as pernas de um Costinha de frente para ele, oxímoro que melhor explica o absurdo do sarilho de um penálti e nova igualdade no marcador. 

 

Como o Diomande estava a meter água à direita, para o segundo tempo o Rúben decidiu que ele passaria a meter água pela esquerda a fim de equilibrar as contas (entrou Quaresma para central pela direita). Com isso saiu o Inácio, e com ele os passes rasos entre-linhas que são tão penalizadores para quem nos quer pressionar em cima. Pressão que o Rio Ave idealizou e realizou, desde o reatamento, impedindo que o Sporting partisse confortável para a frente. Desconforto que aumentou quando Quaresma se deixou sobrevoar e Adán hesitou como sempre em sair da baliza e acabou por colidir calamitosamente com o isolado avançado rioavista (Aziz). Do penálti consequente resultou a segunda vantagem do Rio Ave no marcador. Lá apareceu de novo o Morita, de surpresa. E o Coates, ainda sem a lança, empatou, mostrando que um simples central também pode marcar golos. Depois, o Amorim lá o investiu de Central de Lança, um provável resquício futeboleiro (quando não um tique) de um pós-25 de Abril em que os capitães eram graduados em generais. Até ao fim, o Gyokeres continuou a levar pancada. Curiosamente, à medida que o jogo se encerrava, o árbitro foi-se mostrando mais compreensivo com as perdas de tempo dos rioavistas, beneficiando-os com cartões amarelos e até um encarnado, tudo o que no fundo fizesse o relógio avançar e a falta de senso não compensar. Nesse transe, chegou a enviar para casa o Renato, que Pantalon (calças) não é farda que se apresente ao trabalho de um jogador de futebol. [Sim, o Pantalon não pode ter sido expulso à beira do fim por mais uma de muitas outras pauladas que o Gyokeres apanhou e passaram sem admoestação, quando não sem falta, durante todo o jogo.]

 

Pela primeira vez, senti a equipa pressionada. Como se, após o Carnaval, lhe tivesse caído a máscara da tranquilidade. Também não ajudou à festa que em tempo de Quaresma este tivesse ficado de fora, mas pode ter sido devido a uma qualquer penitência mais própria da quadra que vivemos a que Rúben se tenha sujeitado. O que é certo é que se queremos amêndoas docinhas na Páscoa, melhor será recuperarmos o foco. Porque alguma coisa teremos de recuperar, já que mais um interior ou ponta de lança serão irrecuperáveis até ao final da época. Até lá, seguimos crónica a crónica (que com a pressão também têm os seus dias).

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres. Hjulmand (se fosse só pela primeira parte, em que marcou 1 golo e recuperou ou antecipou inúmeras bolas, teria sido o melhor), Morita (esteve em 2 golos e no que poderia ter sido outro) e Coates bem. Pote, Edwards e Diomande: zero. Os outros: neutro.

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23
Fev24

Tudo ao molho e fé em Deus

As pequenas coisas


Pedro Azevedo

Daqui a alguns anos, quando olharmos para o ranking UEFA, não nos vamos lembrar deste empate contra o Young Boys. E, contudo, é à conta de deslizes assim - o Leitor recordar-se-á do Skenderbeu e dos jogos com o LASK... -, e da atitude de alguma indiferença que foi havendo perante a sua acumulação ao longo dos anos, que o Sporting tem poucos pontos na Europa e não participará no próximo Campeonato do Mundo de clubes (2025). Porque, se o diabo está nos detalhes, as pequenas coisas acabam por no fim fazer toda a diferença. Como foi ontem o caso do desacerto na finalização, que nos custou uma vitória mais do que certa. E por goleada. Amorim sentiu-o, muito, quando se apresentou na flash-interview a deitar fumo por dentro, sem necessidade de recorrer a truques circenses. Fez bem em dar esse sinal, porque o Sporting conseguiu o mais difícil, que foi manter um ritmo alto durante todo o tempo, e tinha de ter ganho o jogo. 

 

Entre tantos falhanços à frente da baliza, difícil será destacar qual foi o mais bizarro ou caricato,  desde o pé direito de Edwards que travou o remate de pé esquerdo de... Edwards que se encaminhava para a baliza deserta até ao pontapé desferido por Bragança na pequena área que acertou no único pedaço de baliza coberto pelo guarda-redes suiço, para já não falar do traço de humanidade revelado pelo deus Gyokeres no momento em que falhou uma grande penalidade ou de uma outra perdida clamorosa do Daniel. 

 

Ainda assim houve um golo, um grande golo, marcado por Gyokeres num movimento soberbo em que rodou sobre 2 adversários e rematou de forma indefensável, por alto. No resto do tempo, a boa dinâmica leonina foi alargando os buracos no queijo suiço por onde surgiram as tais grandes oportunidades. Mas na hora de comermos o queijo, a gula demasiada levou a que a sofreguidão se impusesse ao discernimento e acabámos por cear mal e ir dormir com fome, que comer de penálti também não ajuda à correcta ingestão dos alimentos. (Continuamos sob o signo da temporada de 73/74: depois de uns 8-0 ao Casa Pia que evocaram igual resultado contra o Oriental, este jogo fez-me recordar a aziaga recepção ao Magdeburgo.)

 

Seguem-se os Oitavos e de novo a Atalanta. Um reencontro, pois então. E a possibilidade de corrigir velhas falhas para não incorrer em novos erros (Confúcio). Para que no fim a dor de partir não emerja sobre a alegria de um reencontro bem sucedido. A fazer lembrar a igualmente (à de 73/74) épica época de 63/64 (sempre a acabar em 4), em que dois jogos não bastaram para pôr fora do caminho a briosa equipa de Bérgamo no nosso rumo até Antuérpia (finalíssima), cidade onde levantámos por fim o caneco. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres

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20
Fev24

Tudo ao molho e fé em Deus

Arrasador !!!


Pedro Azevedo

Ontem à noite, vi o jogo na SportTV. O Sporting foi arrasador, como se os Leões tivessem montado uma rede assente entre as laterais do rectângulo de jogo e aquela equipa das camisolas esquisitas fosse constituída por um conjunto de mesatenistas que viam a bola permanentemente embater nela e ser devolvida. Nesse transe, cedo o Frimping-pong atirou a bola contra o Morita, para ela depois ricochetear para dentro da sua própria baliza. Enquanto o VAR analisava o lance, o Rui Orlando pareceu querer limitar os danos, ignorando durante todo o tempo que a bola havia batido primeiramente na mão do neerlandês e depois afanosamente apontando à tese do auto-golo, como se de um auto-golo fosse de esperar menos golo do que um golo marcado de outro modo, no que constituiu um raro momento de niilismo televisivo, que o pobre do Carlos Brito ainda procurou refrear, caracterizado por uma visão céptica e pessimista em relação à realidade como (quase) todos a vimos. [Pensando bem, se o estilhaço de uma explosão cósmica levou 100 milhões de anos até atingir a Terra (Yucatán) e extinguir os dinossauros, por que não pode o Rui Orlando demorar 90 minutos a perceber o que é um ricochete? Pode, claro.] 

 

O jogo também me marcou pela novidade de o ter visto na companhia de um amigo benfiquista. Tratou-se de uma experiência única e enriquecedora, na medida em que me trouxe outro ponto de vista sobre o jogo. Passo a explicar: enquanto eu procurava a acção no campo, o meu amigo entretinha-se com uma espécie de "Onde está o Wally?", tentando identificar o Boaventura no túnel, numa esquina, junto ao balneário, enfim um pouco por todo o lado, manifestando-se por fim muito surpreendido e triste pelo facto de não ter conseguido ver um filantropo assim em Moreira de Cónegos. Em contraste, estava eu centrado no meu ponto de vista quando o Geny foi por ali fora e soltou para o Trincão no tempo certo. Este deixou correr a bola até à linha e depois fê-la filantropicamente bolinar na direcção do Pote. Seguiu-se o habitual passe à baliza e estava feito o dois a zero. [Brincadeirinha minha, que o meu amigo é um tipo às direitas.]

 

Se Amorim é grande adepto de Guardiola, as semelhanças do futebol do Sporting com as ideias de Klopp não deixam de ser reais. No Gegenpressing (Gyokeres, Morita, Hjulmand e Nuno Santos foram extraordinários), na transição rápida, na energia contagiante com que os jogadores estão em campo, como se a equipa fosse uma banda de heavy-metal itenerante. Todavia, por contraste, já se sabe que dos metaleiros se podem esperar as mais belas baladas, pelo que nos são dadas a ver nuances da mais pura filigrana. Como as que apresenta o Kaiser Quaresma, um defesa com pés de bailarino clássico, destreza de ilusionista e espírito de aventureiro, novamente em destaque em Moreira de Cónegos. Para não falar em Pote e na sua delicada execução do já famoso passe à baliza, Art-Deco do melhor que já se viu por cá. Pensei nisto tudo enquanto decorria o intervalo... No segundo tempo, o Sporting manteve a pressão sobre o Moreirense. Embora menos concludente no que fazer com ela, a equipa soube não conceder espaços aos minhotos. De tal forma que a única oportunidade de golo do Moreirense ocorreu já nos descontos, um ar de graça final depois de um jogo inteiro de privações. Como o último suspiro de um moribundo. [Seguimos jogo a jogo, se a Polícia deixar.]

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pote

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16
Fev24

Tudo ao molho e fé em Deus

Sintético a dobrar


Pedro Azevedo

Caro Leitor, isto de ser analítico a comentar o sintético já de si é uma contradição nos termos. Acresce que sintético não foi só o relvado, artificial. Não, sintético foi também o Rúben Amorim na dosagem de esforço dos mais utilizados, gerindo a condição física dos jogadores e simultaneamente a disposição anímica do balneário. Doravante, socorramo-nos então do dobro do sintético para nos aproximarmos de algo que se assemelhe a uma análise, substituindo a relva e o Amorim por Kant e Hegel em busca de uma síntese filosófica que explique o que se passou ontem em Berna.

 

A síntese filosófica é um processo que deriva do simples para o composto, do elemento para o todo, das causas para as consequências, com o objectivo último de defender uma ideia através da argumentação. Como tal, comecemos pelo mais simples, o elemento, o jogador: Coates e Paulinho foram poupados a um piso demolidor para as articulações e ficaram em Lisboa. Trincão, que pegou de estaca e muito tem jogado (e jogado muito, também) desde que o novo ano brotou, e Morita, em acção recente na Taça de Ásia, não iniciaram o jogo por gestão da sua condição física. Se estas foram as causas, tudo isto conjugado deu a oportunidade a Edwards, Bragança, Matheus Reis e, mais tarde, aos estreantes Nel e Koba de jogarem, solidificando a união do balneário, pelo que a única consequência negativa para o todo (a equipa) foi um desempenho menos bom do nosso meio-campo. Tratou-se de um risco, creio que calculado, que o nosso treinador assumiu correr, mas a verdade é que a dupla Bragança-Hjulmand não funcionou, não conseguindo controlar os tempos de jogo e dando demasiado espaço (por vezes, avenidas) aos nossos adversários no miolo do terreno. Então, o que nos valeu? Bom, desde logo a excelente acção dos nossos 3 centrais, em especial de Eduardo Quaresma e de Gonçalo Inácio, que numas vezes deram o corpo ao manifesto e noutras fizeram valer a antecipação para evitarem males maiores. E depois a acção de Edwards e de Gyokeres na frente (Pote esteve muito activo, mas desinspirado na definição), que puserem sempre em sentido as pretensões helvéticas de avançar mais as suas linhas, com o "plus" do sueco ter arrancado desde cedo um cartão amarelo ao seu marcador directo (quando mais tarde ficámos a jogar contra 10, senti-me um voyeur a espreitar o que é jogar como o Benfica), ele que foi carregado à margem das leis tantas vezes quantas as que ousou transformar a defesa do Young Boys num queijo suíço. [Emmental (que até é de Berna), meu caro Watson.] 

 

No fim, gerindo até ao limite (os nossos dois melhores jogadores, Gyokeres e Pote, foram descansar com um quarto de hora mais descontos por cumprir), Amorim venceu a triplicar: o jogo, a condição física dos jogadores e o balneário. Especulou e foi feliz, que o controlo esteve à beira de se descontrolar em momentos como o do "frango" de Adán ou dos golos anulados ao Young Boys e o golo inaugural do jogo foi na realidade um auto-golo. Não que o Sporting não fosse muito superior aos suiços, mas porque Amorim quis ganhar em Berna a pensar em Moreira de Cónegos. Legítimo, evidentemente, mas não necessariamente sinónimo de uma menor ambição europeia, espera-se. Pelo menos a fazer fé no lema do nosso fundador: "TÃO GRANDES COMO OS MAIORES DA EUROPA". 

 

Um dia, num treino do Varzim, o Joaquim Meirim, que tinha tanto de filósofo como de psicólogo e louco, disse a um guarda-redes espanhol que lá treinava, Jose Luis de seu nome, que era o melhor da Europa. Quando este então o inquiriu sobre a razão por que não jogava, Meirim respondeu-lhe que o Benje era o melhor do Mundo. O Sporting pode até ganhar a Liga Europa, mas a condição de melhor equipa da Europa paradoxalmente não lhe garante o título máximo doméstico. Por isso há que fazer pela vida, externa e internamente. E ser objectivo, que é como quem diz, sintético. Serve como análise? (Deu para "dobrar" os suiços.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Eduardo Quaresma. Edwards, Inácio e Gyokeres estiveram em bom plano. 

P.S. (Sobre o excesso de futebol nas televisões.) À hora a que termino esta crónica está a começar mais um jogo no 11, canal sempre na vanguarda da promoção do futebol exótico. Parece que é em casa (casota?) do São Bernardo. Não ouvi o adversário, mas suspeito que seja o Pastor Alemão. Ou então o Serra da Estrela, o que daria um belo clássico de montanha.

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12
Fev24

Tudo ao molho e fé em Deus

Muita largura de banda e mobilidade 5G


Pedro Azevedo

O Braga é uma equipa que futebolisticamente foi montada da frente para trás, o que na construção, sector caro para o seu presidente (e possivelmente caríssimo para os credores da Britalar), significa edificar uma casa pelo telhado, sem fundações. Improvisando, Artur Jorge procurou limitar o prejuízo ao colocar 2 ou 3 pilares como escora a fim de evitar que o furacão Gyokeres soprasse e o tecto ao cair lhe reabrisse a moleirinha já fechada em bebé. Ora, já diz o povo na sua infinita sabedoria, quando a manta é curta, tapa-se a cabeça e descobrem-se os pés. E o Braga, ao proteger-se da acção superior de Gyokeres, ficou exposto à intensa ventania produzida pela restante equipa do Sporting que lhe escancarou o hall de entrada. Na verdade, foi um suicídio, como nos livros do Ásterix quando o chefe dos piratas afunda o navio só para não sofrer com a abordagem do Óbelix. É que o Gyokeres parece ter caído no caldeirão da poção mágica em pequenino, tal a sua potência, e o medo que inspira nos adversários ficou bem expresso na forma como mobilizou a atenção do treinador dos bracarenses, dando razão a John Locke quando disse que "as acções dos homens são as melhores intérpretes dos seus pensamentos". Pelo que, sagaz e consciente, o Artur Jorge, na preparação do jogo, perante a inevitabilidade da derrota, escolheu a forma como quis perder. Deixando assim o aviso à navegação, restando tentar entender de que forma quererão os treinadores nossos adversários perder no futuro: se fazendo brilhar o colectivo do Sporting ou se promovendo mais uma epopeia do nosso deus sueco. A mim, dá-me igual.

 

Com o Artur Jorge em modo de "onde vai o Gyokeres, vão todos" - ainda assim o todo não chegou para impedir que o sueco marcasse o 27º golo da época -, não houve grandes obstáculos às transmissões de bola entre os restantes jogadores. Porém, a vitória leonina só começou a consolidar-se através de uma pressão fortíssima sobre o portador da bola, estratégia que viria a resultar no primeiro golo, marcado pelo Trincão. Depois, o Quaresma imitou o Beckenbauer ou o Baresi e foi campo adentro, começando por fintar dois bracarenses com a maestria de um extremo. continuando a tebelar com o Trincão como se de um médio se tratasse e terminando a cheirar uma bola perdida com o instinto de um matador - um hat-trick de predicados num único golo! Para o segundo tempo o Amorim decidiu esperar pelo Braga. Longa se tornou a espera: o resultado foi que durante longos minutos viu-se Braga por um canudo, que o medo dos minhotos de destapar as costas se sobrepôs à ambição de ser feliz. Como eles não vinham com tudo, houve algum adormecimento dos nossos. Até que numa bola parada o Adán mostrou que não era um holograma a fazer figura de corpo presente. E depois o Álvaro Djaló desperdiçou a única grande oportunidade dos bracarenses no jogo. Tal teve o condão de despertar os leões da letargia, voltando ao ataque. Logo, o Quaresma descobriu o Trincão na ala direita. Este flectiu para dentro e levantou por cima da defesa. O Gyokeres agradeceu a liberdade condicional ou saída precária e atirou à meia-volta sobre o Matheus. De seguida, o Pote serviu o Bragança para o quarto. E ainda houve tempo para um bonito golo de trivela do "Puskas" Santos que passou o risco de baliza do Braga antes que o seu guarda-redes se mexesse. 

 

Com muita largura de banda dada por Nuno Santos e o Geny(o) Catamo, o Sporting conseguiu uma mobilidade 5G (cinco golos) que facilitou as comunicações de Trincão, Quaresma, Gyokeres, Bragança e Nuno Santos com a baliza do Braga. Entretanto, no outro jogo que fez parte da cimeira de Domingo entre Lisboa e o Minho, o Benfica empatou em Guimarães. Ainda que contra 10, como é impositivo nos jogos que envolvem a equipa da águia. [Tal como as Top Models dos anos 80, que não saíam da cama se o cachet não atingisse um determinado faraónico valor, enquanto a todas as outros equipas do campeonato se aplicam as regras do jogo, aos benfiquistas são concedidas "rules of engagement" sem as quais nem pensem que eles ousam meter os pés num relvado. É o Benfica, o glorioso, o PIB e coiso, pá!] 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Eduardo Quaresma. Trincão seria a minha alternativa. 

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08
Fev24

Tudo ao molho e fé em Deus

O Estádio Policial e os Calcanhares de Aquiles


Pedro Azevedo

O jogo de futebol era muito simples na minha meninice: num rectângulo, nem sempre relvado, dispunham-se duas equipas de 11 jogadores, 1 trio de árbitros, duas balizas e uma bola. À medida que fui crescendo, adicionou-se complexidade: o nº de jogadores, de balizas e de bolas curiosamente permaneceu o mesmo, contudo a equipa de arbitragem foi aumentando, primeiro com o 4º árbitro, depois com VAR, AVAR, técnicos especializados, cabos hertzianos, equipamentos vídeo e uma roulotte anormalmente não nómada porque sita na Cidade do Futebol. Até que na semana passada me dei conta de que, em Portugal, o XV da Polícia também ia a jogo. Ou, mais precisamente, que quando o XV não quiser, não haverá jogo. Conclusão: o futebol português vive num excesso de "Estádio Policial". [Um dia o ladrão, sindicalizado, entrará em greve por falta de condições de trabalho e todos acharão bem que lute pelos seus direitos e lhe sejam facultadas melhores condições. Até que, com tanto respeito pelos direitos de todos, no fundo nada nem ninguém no país será respeitado, sendo esse o calcanhar de Aquiles de um mal (perda de autoridade do Estado) sem direito a protesto.]

 

 

Aquiles era filho de Peleu, o rei dos mermidões (Tessália). Um dia, sua mãe, Tétis, banhou-o no rio Estige a fim de torná-lo imortal. Só que ao segurá-lo pelo calcanhar, este ficou vulnerável. Em consequência, morreu na Guerra de Tróia após uma flecha disparada por Páris lhe ter acertado no calcanhar. Gyokeres tem a mesma pinta de guerreiro mítico, tanto que muitas vezes é comparado a Thor, o filho do deus nórdico Odin. A sua vulnerabilidade era o jogo de cabeça, dizia-se, mas ontem marcou 2 golos com a testa que mostram que o sueco está gradualmente a transformar essa fraqueza numa força. Pelo que tendo nós o nossa Tróia, que curiosamente se situa na mesma península (de Setúbal) que Alcochete e o Seixal, para o futuro cresceu a esperança de que esse calcanhar de Aquiles não se venha a tornar mortal às nossas aspirações ao triunfo nesta "Guerra  Peninsular" que se perspectiva até ao final da temporada. 

 

 

O Sporting ganhou ao União de Leiria por três bolas a zero. Desses três golos, o Gyokeres marcou 2 e assistiu em outro. Mas não ficou satisfeito. Pelo menos a avaliar pelos seu protestos para com o árbitro na sequência deste só ter dado 1 minuto de desconto e assim violado o seu direito de correr mais e de tentar obter um hat-trick. Com trabalhadores destes, arriscamo-nos a ganhar sempre o próximo jogo. Ou o outro a seguir, se a Polícia não deixar fazer o primeiro. (Vamos jogo-a-jogo que a Polícia deixar fazer.)

 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres. (Pote muito bem, Hjulmand idem e Quaresma também. Nuno Santos esteve em 2 golos e Morita regressou ao seu nível.)

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04
Fev24

Tudo ao molho e fé em Deus

O jogo de uma crónica adiada


Pedro Azevedo

O período de aquecimento antes dos jogos serve o propósito de as equipas desentorpecerem os músculos. As equipas da PSP e da GNR falharam o aquecimento. Em consequência, o cassetete ("casse-tête") não trabalhou os abdominais. Sem ameaça de cassetete das autoridades a dobrar por perto, os adeptos mais radicais fizeram o seu próprio aquecimento. Nesse transe, a pedra substituiu a bola perante o delírio de uns ultras que nestas ocasiões ficam sempre de cabeça a andar à nora. Partiram-se cabeças, havendo até traumatismos cranianos a registar para desenjoar do insustentável traumatismo ucraniano causado pela ofensiva imperial russa. A polícia não entrou em campo, não luziu o seu crachá, contribuindo assim para o estado de sítio em Famalicão. Reforços provenientes do Porto foram aguardados como quem espera por Godot. Clínicos gerais e psiquiatras desdobraram-se a passar baixas médicas a agentes das forças de segurança que deveriam ter estado em Famalicão, sem que tal movesse qualquer comunicado ou inquérito por parte da Ordem dos Médicos. O MAI imitou os Trabalhadores do Comércio: "Chamem a Polícia, que eu não pago". No fim, o Sporting não jogou. Depois da greve dos árbitros no final dos anos 90, do amuo de televisão e rádios nos 80s, agora o boicote informal da polícia... (Se um dia a Associação de Adeptos do Futebol decidir por um protesto, já sabemos com quem tomarão uma posição. O mesmo será válido para stewards, apanha-bolas, etc, não sendo de descurar a possibilidade de a própria cal que limita o campo se encantar e tomar uma posição contrária aos interesses do Sporting.)

 

Entretanto, à hora marcada, enquanto colegas seus mantiveram a baixa para Famalicão, agentes de segurança estiveram em alta no Dragão para a recepção do Porto ao Rio Ave, que o respeitinho é muito bonito e até uma associação sindical que insiste em negligenciar a imagem de perda de autoridade por parte dos seus profissionais sabe que não pode ultrapassar certos limites. Ironicamente, a autoridade mostrada em campo pelos pupilos de Sérgio Conceição foi do mesmo nível da das forças da autoridade, e os vilacondenses roubaram 2 pontos aos portistas sem que ninguém os levasse presos. E assim terminou um jogo (táctico, de pressão, influência e poder) cuja crónica ficará adiada para um outro tempo, no mínimo até após o Benfica passar para primeiro à condição. (O título de "Crónica de um jogo adiado" perpassou-me as sinapses, mas não reflectiria tão bem a realidade ontem vivenciada.)

 

O estado a que isto chegou... Ou melhor, o Estado a que isto chegou...

 

Tenor "Tudo ao molho...": A Polícia Judiciária 

 

P.S. O Benfica conseguiu finalmente ser líder. O PIB irá subir (mesmo em contra-ciclo) e já se poderá pagar melhor à Polícia. Tudo na santa paz do Senhor, portanto...

 

P.S.2 Já se sabia que o futebol português eram 11 contra 10 e no final ganhava o Benfica. O que não se sabia é que era também 20 contra 19 (jornadas) e no fim o líder é o... Benfica. 

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30
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

Levantados do chão (com molas)


Pedro Azevedo

Quem me lê há algum tempo sabe que a minha primeira recordação do Sporting é de um jogo no José Alvalade contra o Oriental que ganhámos por 8-0 (5-0 ao intervalo), em que o Yazalde (meu primeiro ídolo) marcou 5 golos a um guarda-redes da equipa de Marvila chamado Azevedo (sim, por coincidências da vida, houve um homónimo a encaixar oito bolas associado à minha primeira memória futebolística e do Sporting). Esse jogo vivi-o pela telefonia, que ainda não tinha idade para ir ao futebol, pelo que o que começou numa onda média (da rádio) só se transformou verdadeiramente num tsunami (de emoções) quando entrei no nosso estádio pela primeira vez (5-1 ao Porto, época de 75/76). Pois bem, quis o sortilégio que ontem, data do meu aniversário, o Sporting me brindasse com um presente de dimensão em tudo igual à do supracitado jogo de 73/74, evocando-me, 50 anos depois, a memória dessa onda (verde) em crescendo. Uma obra também do Gyokerismo, a doutrina que o sueco trouxe para Portugal e que a todos no Sporting parece estar a tomar de encantamento. 

 

Se existe o paradigma de um novo normal em Alvalade que se pode associar a Gyokeres, outras coisas há que são cíclicas. Como o central de lança Coates, o nosso capitão, que ontem reapareceu para desbloquear o marcador e tornar fácil aquilo que de outro modo poderia ter-se complicado. Aberta a rolha do champagne, no refluxo o Pote recebeu um passe de ruptura (magnífico) do Inácio, isolou-se na meia esquerda e serviu em bandeja de prata o Gyokeres para o segundo. Depois, o Hjulmand desmarcou o Pote e este deu uma raquetada na bola que passou o guarda-redes. Seguiu-se um momento de Gyokeres que fez lembrar uma jogada do Eusébio contra a Coreia do Norte, tal a demonstração de técnica, força e velocidade. Como no Mundial de 66, a coisa acabou em penálti, que convertido (pois claro!) pelo próprio daria o quarto da noite. Destaque para o túnel prévio escavado por Nuno Santos que fez desabar por completo as pretensões dos Gansos. E antes do intervalo ainda houve mais um golo, com o Trincão a mostrar que estes são como o ketchup e a chutar com o pé mais à mão (o direito), depois do Edwards ter fintado dois dentro de uma cabine telefónica antes de chocar com a porta de saída. 

 

Com cinco golos de vantagem, terá havido quem pensasse que no segundo tempo o Sporting tiraria o pé do acelerador. Mas não, a equipa queria vingar a derrota na Taça da Liga e emitir um "statement" destinado à concorrência, pelo que não abrandou. (Não sei se o Amorim será milagreiro, mas não se via uma recuperação assim desde que Jesus ordenou a Lázaro que se levantasse e andasse.)

 

Levantado do chão, com molas, o Sporting continuou a procurar a baliza do Casa Pia. Nesse sentido, o Geny entrou para alargar a margem. Sábio, o Rúben lançou também o Paulinho. Mas aí o motivo foi a contenção dos danos infligidos aos casapianos, que o Coates e o Trincão estavam imparáveis e era preciso evitar a todo o custo que o Sporting atingisse o duplo digito e com isso ficasse na lua e pudesse não voltar a assentar os pés em terra firme. A missão era difícil, desde logo porque o Gyokeres fumegava que nem um touro enraivecido e não parava de correr. A solução foi começar a lançar o Paulinho em profundidade ou solicitar a sua comparência ao primeiro poste para encostar, tudo coisas que no fundo não favorecem o seu associativismo. Pelo que a custo lá ficámos nos 8, o número da sorte para os chineses, o infinito ali de lado, que de infinitas possibilidades se fazem os sonhos em que tudo é possível. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres

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24
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

Eficiência vs Eficácia


Pedro Azevedo

Para quem se preocupa com o rendimento, o jogo de ontem do Sporting mostrou a diferença entre a eficiência e a eficácia. Quer dizer, o Sporting foi eficiente, na medida em que com os recursos disponíveis - havia jogadores importantes na dinâmica da equipa ausentes pela participação nas taças da Ásia e de África - conseguiu dominar o jogo e ter as melhores oportunidades. Mas não concretizou essas oportunidades, e nessa medida não foi eficaz. Depois, há quem analise o jogo do ponto de vista etéreo. Por exemplo, para as "viúvas" do Paulinho, a sua exclusão do onze inicial teve como consequência a derrota, ainda que tenha tido 23 minutos (mais 4 de descontos) para fazer a diferença e nem sequer se tenha dado por ele. São os mesmos que agora desenvolvem a teoria de que o Gyokeres beneficia muito da presença do Paulinho, quando o sueco tem tantos golos marcados (11) com o português em campo como fora dele (já a influência positiva de Gyokeres no rendimento de Paulinho é visível pelos 9 golos que o português marcou com o sueco em campo, contra apenas 4, dois deles com o Dumiense, sem ele presente). E, finalmente, há ainda os amantes do esoterismo, os supersticiosos: para eles, o Sporting foi também vítima da evolução do jogo, ou melhor, da evolução das infraestruturas adjacentes ao jogo: no futebol de antigamente, três pancadinhas na madeira teriam dado sorte; na era do pós-revolução industrial e dos postes metálicos, malhar três vezes no ferro produziu um manifesto azar. São os mesmíssimos que acham que os eventos do Esgaio não dar andamento pela faixa direita e lhe ter parado o cérebro no golo do Braga estão relacionados com uma tremenda falta de sorte ou com uma intervenção nefasta do bruxo Nhaga. 

 

A ideia da sorte ou azar num qualquer tipo de jogo não é totalmente descabida. Diria até que a sorte e o azar fazem parte do jogo. Todavia, aquilo a que chamamos de sorte acontece mais quando a oportunidade certa encontra a preparação correcta, e ontem mesmo os espíritos preparados não conseguiram concretizar as oportunidades que tiveram (bolas a rasar os postes, de Pote, Gyokeres e Quaresma). Pelo que as melhores oportunidades (as bolas nos postes) surgiram mais de boa preparação (remates colocados, de longe) do que de situações reais em que um jogador aparece isolado em frente ao guarda-redes. Ou seja, nessas circunstâncias, foi mais a boa preparação do jogador que criou a oportunidade e não a oportunidade criada pela dinâmica da equipa que esperou a preparação certa. E quando a dinâmica da equipa criou a oportunidade, a bola saiu ao lado. Depois, após sofrido o golo, a equipa perdeu o tino, por quebra anímica ou substituições que não produziram efeito, mostrando-se impreparada para a situação e não vendo na ameaça a oportunidade de fazer algo épico como dar a volta ao jogo. 

 

De lado ficaram também as aspirações do Sporting de vencer a Taça da Liga, falhando assim o primeiro objectivo da época. Sendo esta claramente a competição menos importante daquelas em que estamos inseridos, tal não será muito grave. Gravíssimo seria a equipa desmoralizar e os adeptos desmobilizarem, porque há ainda coisas muito importantes para ganhar esta temporada. Como o Campeonato, a Taça de Portugal e mesmo a Liga Europa, esta última uma prova que o Sporting precisa de encarar com uma ambição condizente com o lema do seu fundador. Num certo sentido, esta derrota até se poderá traduzir em algo positivo, capaz de se vir a reflectir em muitas vitórias futuras. É, todavia, imperial que se aprenda com os erros e se corrija o que está mal. Porque não podemos ter uma ala direita coxa, que não dê andamento atacante e comprometa defensivamente. Pelo que ou se vai ao mercado, ou se adapta St Juste, Quaresma ou mesmo o Afonso ali, como está é que não se pode manter (o Geny deveria ser mais uma solução como interior, ou extremo num 4-2-3-1 com, por exemplo, Quaresma a fazer de lateral). Se tal acontecer, então poder-se-á esperar sermos ainda mais eficientes, melhorando ainda mais as tarefas desempenhadas pelos recursos disponíveis ao disponibilizar melhores recursos para o processo. E sendo ainda mais eficientes, estaremos mais perto de ganhar. Porque mais oportunidades surgirão. E os golos também, por mais ou menos eficácia que haja. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Eduardo Quaresma (Nuno Santos, que fez um jogo de raça, à leão, seria a minha 2ª opção). O nosso central esteve simplesmente magnífico, mostrando a sua refinada técnica (ser bom na roleta num jogo de sorte ou azar é sempre uma mais-valia) e impressionante velocidade. 

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19
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

O Fantasma da Oprah


Pedro Azevedo

Caro Leitor, a noite passada tive uma branca (e verde), um momento digno dos contos do imprevisto, uma visão paranormal e hitchcockiana imprimida no meu cérebro ao jeito de um quadro de Dali (havia também pelo menos um rinoceronte que levava tudo à frente) que me transportou para uma janela nas minhas sinapses que eu julgava estar calafetada e subitamente se abriu. Pelo que não sei se sonhei, se estava acordado, ou até se sonhei acordado, mas juro que vi o Bryan Ruiz em Vizela. Sim, só podia ser ele, pois na minha memória recordo ainda aquele remate de baliza aberta em que a bola não entrou, reminiscência de um outro mais antigo atribuído a ele que ainda hoje me causa pesadelos. Agora, se era o Ruiz em carne e osso não sei, a mim pareceu-me mais o fantasma do Bryan. Mas também há que dizer que há fragmentos da primeira parte para mim confusos, tanto que por causa do Esgaio estivemos a Soro e só mesmo nas urgências se começou a resolver o problema. De forma que quando voltei a olhar para o ecrã já não vi mais o Ruiz, era o Gyokeres que eu conheço que estava a marcar um grande golo e a festejar de máscara. Um golo em forma de swing, que abriu novas perspectivas, tal como uma boa tacada de abertura de um buraco por parte de um golfista. [A alusão ao golfe aqui não é dispicienda, porque o que Gyokeres rodou o seu corpo nesse lance teria sido de fazer inveja ao Tiger Woods que conhecemos antes das múltiplas operações às hérnias discais e à ciática, handicap que dizem as más linguas ter sido provocado por múltiplos embates com mulheres de grau de dificuldade (sinuosidade) superior ao par do campo.]

 

Estava eu ainda a recompor-me daqueles achaques do primeiro tempo que alimentariam um bom programa da Oprah (Winfrey) quando o Gyokeres assustou o guarda-redes do Vizela. Diz-se do medo que este é paralisante, e o pobre do Buntic provou-o ao ficar quedo perante a iminência da aproximação do colosso sueco. O resultado foi que a bola entrou directa, impelida por um renascido Trincão. O mesmo que pouco depois serviu Paulinho na perfeição para o terceiro. (Pausa para checar a pulsação, para ver se era mesmo verdade aquilo que os meus olhos diziam e a razão não queria acreditar.) Após este último golo veio uma quebra de adrenalina. O Amorim também descomprimiu e tirou o Hjulmand do relvado antes que este fosse expulso. Não que este receio encontrasse lógica na acção do jogador, mas devido à habilidosa dualidade de criterios do árbitro. Um árbitro que no entanto se mostrou particularmente judicioso no que respeita a Gyokeres, sempre preocupado em testar os seus sinais vitais após cada novo embate com Anderson, um defesa abençoado pelos deuses do apito ao ponto de ter permanecido em campo os 90 minutos. Até que o Essende lá fez umas das suas diagonais, o Quaresma (mais um grande jogo!!!) desta vez não estava por perto para fazer de SOS e o Coates ficou a pedir uma falta de pernas e a ver a bola entrar na nossa baliza. Logo se reavivaram os fantasmas do passado, as perdidas do Ruiz e a derrota no União da Madeira, um bate-boca com o consócio ao lado sobre o vício do desperdício e os porquês da saída do dinamarquês e assim. Foi curto porém esse revivalismo, porque o nosso capitão foi à área contrária mostrar que o que não lhe falta é cabeça e voltou a alargar a nossa vantagem. E depois o Gyokeres mandou mais uma pedrada e igualou o seu melhor registo goleador no Coventry, quando ainda vamos a meio da temporada. 

 

Cinco golos marcados, 3 anulados (2 a Gyokeres e 1 a Paulinho) e inúmeros falhados depois (mais uns tantos penaltis a favor por assinalar) - além do supramencionado, aquele em que o Pote se isola, hesita em chutar e falha o passe para o Gyokeres é também digno daqueles apanhados de fim de ano - , o Sporting segue líder do campeonato. Com o Gyokeres individualmente em grande evidência mas também muito importante pelo efeito de contágio que anima a própria equipa. É que com o Gyokeres em campo os adversários concentram-se nele e abrem espaços para os demais. Além de que com a sua atitude e comprometimento aumentou o nível de exigência para todos os outros, colocando a fasquia muito alta e projectando assim o Sporting para outros vôos. Porque com o Gyokeres veio também o Gyokerismo, uma nova doutrina que seria importante para o futuro que fizesse escola em Alcochete. Isso, sim, seria holístico. [E mais produtivo do que os habituais desabafos desiludidos de sofá (da Oprah) à conta de fantasmas do passado.]

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres

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14
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

A Revolta dos Patinhos Feios


Pedro Azevedo

Contra uma chuva persistente, que misturada com o calcário (carbonato de cálcio) que envolveu o jogo - a cal que limitava as linhas, misturada com o dióxido de carbono libertado na respiração dos jogadores - precipitava estalactites nos narizes dos jogadores, o frio siberiano e um terreno em condições quase ideais para a prática do cultivo de bivalves, o Sporting saiu de Chaves com os 3 pontos. Como é habitual nestes jogos com equipas ditas pequenas e estava em plena conformidade com o nome da cidade representada pelo clube em questão, o nosso adversário começou por se encerrar a 7 Chaves, recorrendo para tal a fechaduras, trancas, trincos e cadeados a fim de bloquear o acesso ao seu cofre-forte, não dispensando ainda interpor o autocarro (Steven) Vitória, que logo de início apanhou com duas boladas consecutivas à laia de tentativa de arrombamento. Só que o Sporting, a despeito do glorioso porco bísaro da região, desde cedo mostrou que não estava em Chaves para serrar presunto e insistiu em atacar. Até que logrou obter um primeiro golo, numa jogada típica de Harpastum, misto de pé e mão, um jogo precursor do futebol que chegou a Chaves ("Aquae Flaviae") e aí pelos vistos criou raizes por via dos romanos no tempo do imperador Vespasiano (Séc. I), césar que sucedeu a Nero e que com o jogo e a ideia de construção do Coliseu em Roma pretendeu entreter as suas tropas e o povo após um período marcado pela loucura e por um impasse de poder e guerras de sucessão. O marcador do golo foi o Paulinho, um homem apropriadamente habituado a atravessar o Rubicão (de criticas) e outros cursos em que costuma meter água.

 

Na TV insistiam que se tratava de um jogo de futebol, ainda que provavelmente só se chegasse a essa conclusão por negação de todas outras hipóteses relacionadas com diferentes desportos: não era curling, porque o objecto do jogo não deslizava; não era andebol porque a "basculação" se tornava impossível, o que muito terá desgostado o comentador Freitas Lobo (que basculou em floreado para outras bandas); não era basquetebol porque não havia cesto, embora naquele lodaçal as possibilidades de afundanço fossem imensas; não era hóquei, por muito que houvesse quem patinasse; não era rugby, futebol americano ou luta livre, ainda que contra Gyokeres pareça valer tudo menos tirar olhos. Pelo que o jogo foi uma coisa em forma de assim, como diria o O'Neill e constatou o João Correia quando atrasou a bola ao seu guarda-redes e a viu ficar presa na relva e à mercê de um isolado Pote. Mais uma vez, como aliás aconteceria amiúde durante a partida, Hugo Souza lá estava para atrasar o inevitável...

 

O segundo tempo começou logo com mais 2 golos: o relvado todo molhado ficou apropriado para a navegabilidade de outros 2 patinhos feios desta temporada, o Trincão (lindo golo) e o Pote, agora branquinhos (equipamento) que nem cisnes. Pelo que o resto do jogo se pode resumir a uma cruzada de Gyokeres na busca do golo, ora travada pelo guarda-redes, ora detida pelo estado do relvado, esforço infrutífero que resultou num ensinamento do tipo do Sermão de Santo António aos Peixes, do Padre António Vieira, em que foi censurado o vício (de golo) do colonizador em face dos direitos dos desprotegidos autóctones. Solidário, o Luís Godinho logo lhe deu um amarelo para o acalmar, ainda que não se vislumbrasse razão válida para tal que não fosse um(a) Baia que se formou nesse mar rodeado por relva e terra que se opunha a um cabo (no caso, da escola de praças do Regimento de Infantaria 19, sito ali ao pé).  

 

E assim terminou um jogo em que as chaves que desbloquearam o cofre flaviense não vieram do Areeiro mas sim de Braga. Abrindo assim antecipadamente uma vantagem sobre os nossos adversários directos que se hoje não for atenuada só pode ser vista mesmo por um "canudo" (telescópio), prática a que, por exemplo, os bracarenses já estão habituados a partir do Bom Jesus. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pedro Gonçalves

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10
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

Jogar à sueca


Pedro Azevedo

Um jogo de Taça entre um grande e um pequeno dá sempre uma oportunidade a este último de jogar a cartada do tomba-gigantes. Nessa conformidade, o Tondela não quis ser uma carta fora do baralho e foi a jogo. Só que no "pano" verde de Alvalade agora joga-se à sueca e o Sporting tem sempre o Ás de trunfo. Acrescentar o Ás a outros trunfos importantes que o clube sempre teve, ajuda muito a que as vazas não terminam em "palha". E não terminando em "palha", vão-se somando pontos importantes para se ganharem campeonatos e outras competições. É preciso porém não olvidar que esse Às não deixa de ser um "Joker(es)", pelo que se o nosso adversário quiser especular com o jogo (Póquer) ou jogar as cartas todas que tem na mão (Canasta e Gin Rummy), as probabilidades continuarão a tombar para o nosso lado, havendo um "Joker(es)" que se pode fazer de qualquer outra carta para desempatar.  

 

Aquilo que mais impressiona no Gyokeres (chamemos-lhe assim), é mesmo a forma como substitui qualquer carta do baralho: que ele era um Ás na finalização, poucos teriam dúvidas, mas também é um rei, para os adeptos do Sporting, como foi rainha para os ingleses do Coventry. E um valete, ao serviço de Amorim. Ou uma manilha, quando acelera pela ala direita como um "7". E pinta com cada "sena"... Umas vezes vestindo traje de gala (terno), outras esfarrapando-se todo como se fosse a carta menos valiosa do baralho (duque). No fim, o adversário invariavelmente quina, pelo que sobre ele alguém ainda há-de escrever uma bela quadra. (Se quiserem que ele seja "8" ou "10", também se arranja, além de "9" como bem sabemos.)

 

Todavia, subsistiam ainda algumas dúvidas sobre o Gyokeres. É que por muito que se tenha algumas das melhores cartas do baralho, ainda assim os jogos ganham-se por vezes com a cabeça. Creio porém que desde ontem algumas dessas dúvidas se começaram a dissipar. "Ó Diacho!", dirão os seus adversários, pasmando-se ao vê-lo tanto correr, sem se esgotar ou lesionar. Pelo que se deverão sentir como os funcionários daquela Estação de Serviço retratada no célebre anúncio do Citroen Dyane: "E eu a vê-lo passar. Gasolina não precisa, oficina nem pensar!...". 

 

Não se esgotam porém em Gyokeres as boas notícias: ontem, o Pote voltou a atinar com o golo. Agora imaginem a cena: o Schmidt e o Conceição estavam à cata de Janeiro, a rasgarem os olhos à espreita da Taça da Ásia e com vontade de dançarem o CAN-can, e agora já não chegava aparecerem de repente todos viçosos o Bragança e o Quaresma, ainda o Pote desata a marcar e o Gyokeres até o faz de cabeça. Ganda melão, pá!!!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres

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09
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

Gyokeres oxidou o Limão Mecânico


Pedro Azevedo

Se no cinema estamos habituados ao conceito de filmes de autor, realizados por visionários como Hitchcock, Tarantino, Scorsese, Almodóvar, Kurosawa, Godard ou Fellini que se destacam pela sua singularidade e inovação, no jogo da bola também existe o chamado futebol de autor, desenvolvido ao longo dos anos por revolucionários do jogo como Herbert Chapman, Helenio Herrera, Gusztáv Szebes, Rinus Michels, Johann Cruijff, Arrigo Sacchi ou Josep Guardiola. No futebol, o rótulo é atribuído a partir do momento em que se nota uma personalidade própria e muitas vezes disruptiva no trabalho do treinador. Porém, não só de equipas grandes se faz a história do futebol de autor, há também casos de sucesso que envolvem pequenos clubes que se tornam rapidamente de culto. Como a Atalanta, de Gasperini, ou o Brighton, de De Zerbi. Ou, em Portugal, o Estoril, de Vasco Seabra, com a conceptualização de um carrossel que se desenvolve a partir de um sistema base de 3-4-3. Dada a cor das camisolas, a escassez de recursos financeiros e a óbvia influência holandesa no seu jogo, para efeito desta crónica vou denominar o modelo canarinho como "O Limão Mecânico": Seabra baseou-se no princípio de que se a vida nos dá limões, então fazemos uma boa limonada. Assim, conseguiu reunir e potenciar um conjunto de muito razoáveis jogadores, adaptáveis ao seu sistema e modelo, que bem espremidos vêm batendo o pé aos Grandes, garantindo pontos e a admiração da comunidade futebolística em geral. O problema é que ontem o Estoril deparou-se com Gyokeres, o homem que veio do gelo. Com o contacto, o limão secou e a sua mecânica enferrujou, ou seja, Gyokeres oxidou o Limão Mecânico.  

 

Com o Belchior, o Baltasar e o Gaspar presos no trânsito caótico de uma sexta-feira ao fim da tarde na 2ª Circular, o Viktor desdobrou-se em vestir a pele de todos eles e de enfiada começou a distribuir presentes pela equipa, naquilo que foi o último ensaio geral para as festividades de um Dia de Reis comemorado à espanhola (ou não houvesse um dedo de Guardiola na forma como o Sporting joga e não deixa jogar o adversário). Como figurantes, os jogadores do Estoril, com defesas a atacar como avançados e avançados a organizar o jogo desde trás como se fossem defesas. Na antecâmara, a imprensa desportiva havia elogiado sobremaneira a melodia saída da imaginação do maestro e compositor Vasco Seabra, uma espécie de caixinha de música em forma de carrossel de Natal. Mais uma equipa de autor, mais um tremendo desafio para o Sporting de Ruben Amorim, dizia-se. No jogo, porém, a equipa da Linha não entoaria mais do que o som do silêncio ("Sound of Silence")... Para começar, o Gyokeres apareceu na esquerda, Pela frente, o Rodrigo Gomes, bom jogador e a última coqueluche do futebol nacional. Não demorou mais do que uns poucos segundos para que o Gyokeres desarticulasse o pobre do Rodrigo até entregar de presente ao Edwards. Não contente, o sueco passou para a direita. Recebe do Geny. Pela frente o Pedro Álvaro, já exaurido pelo sprint prévio. Faz que vai para dentro, mete por fora, o Pedro como se estivesse numa sauna, fora do caminho, e novo presente açucarado para o Edwards: 2-0 no marcador, os estorilistas foram apressadamente para o balneário à procura de um ortopedista que lhes voltasse a atarrachar as partes do corpo que se soltaram no relvado de Alvalade. Reinício do jogo e grande jogada de um apanha-bolas do Sporting: o miúdo repõe a bola rápida e sincronizadamente para o Gyokeres, que, acto contínuo, a lança à mão para o Nuno Santos. O remate ainda é deflectido, mas só para nas redes do Estoril. Mais um presente. De seguida, o Pote recupera a bola e avança. Tem dois adversários pela frente, mas o Gyokeres arrasta ambos numa diagonal e o Pote fica isolado e faz um daqueles célebres passes à baliza cujo resultado é o golo. Novo presente, ainda que indirecto. Depois, o sueco antecipa-se e serve Trincão. Novo golo, o suspeito do costume na assistência. Muita Parra e pouca uva depois, o pobre do Raul vê o Gyokeres passar como cão por vinha vindimada. O presente era, de novo, para o Edwards, mas um canarinho antecipa-se e o Geny na ressaca atira por cima. 

 

O resultado está mais ou menos feito. O Quaresma, grande exibição, salva o golo de honra do Estoril, substituindo-se ao Adán. Edwards e Geny isolam à vez o Gyokeres, mas o sueco está em noite de entregar presentes e não de desembrulhar os presentes dos outros como é seu timbre. Edwards ainda atira ao ferro, mais tarde Pote replicá-lo-á. Pelo meio, o Estoril marca: uma bola parada, que geralmente é defendida à zona. Mas o Sporting defende-a com zona, o que é uma outra coisa, infecção viral que afecta pele e corpo e contagia toda a equipa. Desta vez o portador é Paulinho, que assiste magistralmente um jogador do Estoril para golo - mais um triunfo do futebol associativo.

 

O jogo termina. Mais um teste vencido pelo Sporting de Ruben Amorim. Mais uma equipa com direitos de autor protegidos que não passou a sua musiquinha. Toda a gente conhece como o Sporting joga, poucos sabem como desmontar a forma como o Sporting joga. Da mesma forma que conhecimento é ter a noção de que o tomate é um fruto e  sabedoria é não misturá-lo numa salada de frutas. Compreender o Sporting é fácil. No papel tudo é lógico, tudo faz sentido: encaixam-se os nossos corredores num fecho-éclair, cava-se um dique para impedir a passagem da bola entre os centrais e os médios... Mas depois a bola entra directa no Gyokeres e este mostra ter a intuição que derruba qualquer lógica. Enquanto os outros pensam, ele acredita. E nós, também!!!

 

Feliz Dia de Reis!!!

 

P.S. Já toda a gente sabe que o Edwards é um bocadinho como o Sitting Bull: dentro do campo é um guerreiro a atacar, mas fora dele é sossegado, não fala, apenas murmura, pelo que é mais ou menos indiferente a língua em que lhe façam as perguntas. Sugestionado por isso, o jornalista da SportTV inventou um novo dialecto. Não havia necessidade, mas acabou por ser um momento televisivo "importanting"...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres

21
Dez22

Ronaldo e Messi


Pedro Azevedo

No futebol, como na vida, há várias formas de procurar o sucesso. Messi e Ronaldo tiveram um acompanhamento díspar (Ronaldo, aos onze anos, sozinho em Lisboa, o adolescente Messi acompanhado pelos pais na capital catalã) mas uma formação semelhante, no Barcelona e no Sporting, que lhes moldou a arte e o engenho no um-para-um. Acontece que cedo Ronaldo migrou para Inglaterra, sob a influência de um treinador britânico que lhe depurou as qualidades de explosão e finalização e o fez abandonar o apêndice circense e tudo aquilo que não tivesse golo como código postal. Tornou-se assim um jogador diferente, ainda que diferenciado, produto da visão prática típica da cultura da Grã-Bretanha. O que teria sido, melhor ou pior, se em vez de Ferguson tem encontrado orientação num outro tipo de treinador, nunca o saberemos, mas nos livros de ouro do futebol mundial estará muito bem assim, ele que chegou ao United e apanhou uma equipa já oleada mas teve o mérito de ser a cereja no topo do bolo que fez toda a diferença no título europeu obtido pelos ingleses. Se Ronaldo foi desenvolvido para ser um motor altamente rotativo, Messi cresceu com um sistema de transmissão instalado da cabeça aos pés, incluindo embraiagem, mudanças, eixo cardan e diferencial. Produto de uma escola de futebol onde a vertigem é preterida pelo pensar do jogo, o seu futebol é feito de acelerações, travagens súbitas, mudanças de direcção, desmultiplicações e alta aderência em curvas sinuosas que só umas passagens de caixa perfeitas lhe poderiam dar. Mas também tem passe e repasse, tabelinha, controlo do jogo, sentido colectivo e uma cultura táctica superior que é herança dessa casa, cultura essa que associada à atractibilidade do clube lhe permitiu crescer sem pressão na sombra de Ronaldinho, Deco, Xavi ou Iniesta antes de se tornar o seu timoneiro. No fundo, o futebol de Messi foi desenvolvido para potenciar a ginga e esconder as limitações físicas, o que faz com que tenha a necessidade de pegar na bola mais atrás, em zonas onde o povoamento não é tão intenso, tendo desenvolvido no proceso qualidades de armador de jogo. Já Ronaldo também podia ter ido nesse caminho, mas Ferguson, ao deslumbrar-se com as suas características físicas, apontou-lhe um atalho. Durante anos, o seu futebol não necessitou de caixa de velocidades, era só pôr a potência no chão, independentemente da zona de onde partisse. Perdida alguma da explosão, adaptou-se, continuando a fazer a diferença pelo killer-instinct associado a características como a capacidade de impulsão ou a qualidade do remate, dentro ou fora da área, com o pé esquerdo ou o direito, quando não de cabeça. 

 

Dois grandes jogadores, ícones da modalidade, que nasceram semelhantes e se desenvolveram em direcções diferentes, com Ronaldo mais aventureiro e sempre a procurar novos desafios e Messi mais acomodado na Cidade Condal. Pena foi que ao longo das suas carreiras nunca tenham jogado juntos, porque, egos à parte, teriam sido perfeitamente complementares no que respeita ao plano técnico, táctico, físico e mental do jogo. Ainda assim, tem sido um prazer vê-los a competir um com o outro, mas principalmente com eles próprios, ao longo dos últimos 15 anos. Tão, tão competitivos que bem dispensam médicos legistas e cangalheiros apressados. 

 

P.S. Durante o Mundial, Messi teve toda uma nação e uma equipa por detrás dele, acarinhando-o, dando-lhe força e impulsionando-o para que finalmente fosse coroado com o título mundial que lhe faltava. Enquanto isso, Ronaldo teve de lidar com a ingratidão dos portugueses e, por que não dizê-lo(?), do próprio seleccionador nacional. Ronaldo chegou em forma deficiente, faltando-lhe a pré-época, não foi utilizado no jogo de preparação com a Nigéria e não teve a rodagem suficiente em jogo para que conseguisse ganhar a confiança que lhe elevasse o patamar. Pelo contrário, foi sempre substituído, até perder a titularidade, apesar de ter sido importante dos 2 primeiros jogos e de, com ele em campo, a Selecção não se ter mostrado nunca inferior ao adversário no marcador (contra a Coreia saiu quando estavamos empatados, com Marrocos entrou com Portugal já a perder). Todas as polémicas - alegado toque na bola antes de golo, insatisfação ao sair prematuramente de campo, saída precoce após final dos jogos - foram canalizadas contra si e serviram para o ridicularizar perante o grande público, num julgamento primário que a todos devia envergonhar quando se trata de um ícone que nunca rejeitou a sua Selecção, antes por ela o vimos chorar com emoção ao som dos acordes do hino nacional. Não é perfeito? Não, longe disso. (Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.) Mas que se levantem então esses paladinos da perfeição, num país iminentemente corrupto e pouco meritocrático, de filiações, afiliados e afiliações, e cheio de falsos moralistas que logo se desenganam mal passam o adro da igreja.

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06
Dez22

Telé 2.0


Pedro Azevedo

Do futebol se diz ser a coisa mais importante entre as coisas verdadeiramente não importantes da(s) nossa(s) vida(s), uma frase pelo menos tão batida quanto cada um dos escassos relvados disponibilizados pela organização deste campeonato do mundo. Todavia, de 4 em 4 anos, o futebol aparenta mesmo ser a coisa mais importante de todas as coisas verdadeiramente importantes. Fruto da mega encenação que a FIFA constrói para o evento, cria-se a percepção de que a pátria se decide à volta do jogo da bola, com os generais de ocasião, um corrupio de políticos, a acompanharem de perto cada nova "batalha", como se do desfecho da nação se tratasse. 

 

De todas as selecções presentes em competição a que mais me agradou até ao momento foi o Brasil. Nesse sentido, Tite apresenta-se como o Telé versão 2.0, uma evolução que não desprezando o futebol sambado o compatibiliza com a preocupação de ter o esférico rapidamente recuperado. Ontem, ao olhar para este Brasil, tive a ilusão de estar novamente a ver o Zico, o Sócrates, o Falcão e o Éder, em suma, a brilhante gesta de 82. Os novos craques chamam-se agora Vinícius, Neymar, Richarlison ou Raphinha, e recuperam-nos a ideia de que é possível ganhar e jogar bonito, agradar simultaneamente ao cérebro e ao coração. Por isso este Brasil faz bem ao futebol, não escondendo que o desastre canarinho de 82 conduziu na minha opinião o ludopédio no caminho oposto, para anos de trevas. Evidentemente, um dos segredos deste novo Brasil parece residir nos equilíbrios que se estabelecem quando a equipa não está em posse. Aqui, para além da importância do polvo Casimiro, Tite conseguiu uma solidariedade defensiva entre todos, que faz com que Vinícius, Richarlison e Raphinha rapidamente recuperem posições e briguem pela bola. O próprio Neymar desce e ocupa um espaço, ainda que com um atitude mais passiva que os demais. Não há assim lugar para um Ganso (Paulo Henrique, ex-colega de Neymar no Santos e actual craque do Fluminense), mas obviamente não se despreza a oportunidade de ter um Pombo (Richarlison). Mas é com bola que a equipa delicia: a classe com que Vinícius colocou a bola no primeiro golo ou assistiu para o quarto, o virtuosismo de Neymar a congelar o guarda-redes coreano no segundo ou o momento zoomarine de Richarlison no terceiro foram inolvidáveis. E depois há 2 centrais brasileiros que mais parecem jogadores da posição "10", com uma visão de jogo e um timing de passe insuperáveis para os seus pares de outras selecções. De forma que há muito tempo não me divertia tanto com um jogo de futebol. 

 

Não sei se o Brasil ganhará a "guerra", mas admito que a sua vitória contribuiria para um melhor futebol, um jogo que efectivamente entusiasmasse as pessoas, com menos especulação e mais fantasia, menos negócio e mais espectáculo. Porque o futebol também pode fazer sonhar. E o que o Escrete ontem fez, naquele seu jeito de exportar o futebol da rua para o mundo inteiro, deixou-me a sonhar com as palavras proferidas por Júlio César ao passar o Rubicão: Alea jacta est. Os dados foram lançados e já sabemos que a bola lhes obedece como a ninguém, veremos se o Senado do futebol mundial estará de acordo com esta nova ordem que o tomou de surpresa. Veni, vidi, vici? (Se não puder ganhar Portugal, eu assinarei por baixo.)

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24
Nov22

A ver o Mundial (II)

Kaput!!


Pedro Azevedo

A revolta da bola quadrada prossegue em bom estilo no Mundial do Qatar e ontem a vítima foi a Alemanha. Mais do que derrotados, os germânicos foram derretidos pelas constantes acelerações nipónicas. Muito mérito para Moriyasu, o treinador japonês, que, primeiro, fez entrar mais um central de forma a adiantar os laterais e, depois, lançou o irrequieto Asano (olho para este jogador e vejo a falta que potencialmente Vitinha, o do Braga, pode vir a fazer à nossa Selecção) para dinamitar os panzers alemães. A reviravolta foi concluída em lance onde foi evidente que o cansaço físico dos teutónicos teve consequência a nivel da rapidez de raciocínio, produzindo-se assim um erro básico que custaria a derrota aos alemães.

 

Surpreendente, ou talvez não (fez uma óptima campanha de qualificação), foi a prestação do Canadá face à Bélgica. Com um impressionante primeiro tempo, período em que os belgas raramente conseguiram passar o seu meio campo, os canadianos tiveram inúmeras oportunidades de sentenciar o jogo. Todavia, em termos de finalização foi um Canada Dry, o que associado a uma única desatenção defensiva (por parte do nosso bem conhecido Steven Vitória, que em tudo o mais foi irrepreensível) lhes viria a ser fatal. Registe-se, porém, a estatística de 21 tentativas de golo contra apenas 9 dos belgas, números que em condições normais teriam sido mais do que suficientes para garantir a vitória canadiana. Além do mais, os norte-americanos não tiveram sorte com o árbitro, zambiano por sinal, ficando duas grandes penalidades por marcar a seu favor. Para lá dos já bem conhecidos Alphonse Davis (Bayern, falhou em penalty), Jonathan David (Lille) e Eustáquio, nos canadianos igualmente destacou-se o ala Buchanan, uma dor de cabeça constante para os belgas. Estes acabaram salvos pelo desacerto na decisão por parte do Canadá e por mais uma grande exibição de Courtois, um polvo na baliza. 

 

Marrocos esteve também em bom plano, merecendo amplamente o empate contra a vice-campeã mundial Croácia. A falta de um ponta de lança um pouco melhor do que El Nesyri terá custado a vitória aos magrebinos, apesar das boas intenções de Ziyech de assistir para golo. Com dois laterais muito rápidos e empreendedores (Hakimi e Mazraoui), um médio de inesgotável energia e elevado sentido posicional (Amrabat) e outro de enorme qualidade técnica (a revelação Amallah), os marroquinos deixaram água na boca. Nos croatas, Modric destacou-se como quase sempre.

 

O Espanha-Costa Rica não teve história. Os centro-americanos são provavelmente a equipa mais fraca da competição, pelo que não surpreendeu que a Espanha não tivesse encontrado oposição. Todavia, tenho a expectativa de os ver contra o Japão, uma equipa capaz de produzir as acelerações que poderão desorganizar o jogo cerebral dos "nuestros hermanos". 

 

Revelação: Marrocos, Japão, Canadá

 

Confirmação: Espanha

 

Desilusão: Alemanha, Bélgica

 

A rever: Croácia

 

Mais fraco: Costa Rica

 

Desequilibradores: Asano (Japão), Buchanan (Canadá)

 

Homens-golo: Ferran Torres, Batshuayi 

 

Revelação jogador: Amellah (Marrocos)

 

Jogo a seguir hoje: Portugal-Gana

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23
Nov22

A ver o Mundial (primeiras impressões)

O triunfo da bola quadrada


Pedro Azevedo

Os primeiros dias do Qatar 2022 confirmaram o que eu havia antecipado aqui. Uma bola que passe a 1 cm do pé é uma bola perdida, e de um modo geral notam-se grandes dificuldades individuais na marcação e em receber no espaço. Adicionalmente, do ponto de vista colectivo, não se vê uma pressão efectiva no campo todo, pelo menos nada que minimamente se compare com o que estamos habituados nos principais campeonatos europeus. A equipa mais agressiva até agora foi a americana, mas rebentou no segundo tempo. A nível de jogadores, comprova-se que este Mundial favorece quem tem explosão com bola, pelo que Saka, Sterling, Rashford, Dembélé e Mbappé deram fortemente nas vistas. Nesse sentido, preocupa-me que Portugal, do meio campo para a frente, tenha apenas Matheus Nunes e Rafael Leão como jogadores capazes de quebrar linhas em velocidade de progressão. Sendo certo que a lesão de Jota foi uma infelicidade que se abateu sobre a nossa Selecção, já pouco compreensível foi não levar Gonçalo Guedes (substituto natural do auto-excluído Rafa) e Renato Sanches. A meu ver temos um lote indiscutível de grandes jogadores, porém muitos funcionam a diesel. Só que estamos no golfo, as condições de temperatura e de humidade são muitos especiais e, por isso, temo que este seja o Mundial dos motores de combustão, a gasolina. Assim sendo, não estou muito confiante na nossa prestação, mas oxalá esteja redondamente enganado. 

 

A grande surpresa até agora da competição foi a derrota da Argentina (estava há 36 jogos invicta) aos pés da Arábia Saudita, uma grande contrariedade para Messi no seu último Mundial e uma alegria esfusiante para uns sauditas que logo decretaram feriado nacional. O triunfo da bola quadrada, como diria o saudoso Carlos Pinhão. De destacar o grande golo de Al Dawsari, o melhor do certame até agora. Corajosos, os pupilos do aventureiro Renard, uma espécie de Corto Maltese do futebol mundial, mantiveram sempre as linhas muito juntas, reduzindo assim os espaços aos sul-americanos, ainda que para tal tivessem tido que correr o risco de dispor o bloco defensivo praticamente em cima do traço divisório do meio campo. Em bom plano esteve igualmente a Tunísia, que impôs um empate a uma das selecções que mais entusiasmara até aqui (qualificação para o Mundial e último Europeu), a Dinamarca, mostrando uma bela organização de jogo, frescura física e jogadores capazes de fazer a diferença, como Msakni (*), Jebali e Sliti, este último uma descoberta do português Rui Almeida quando treinou o parisiense Red Star. Na linha aliás do que já havia mostrado o Senegal, a quem apenas terá faltado Mané para dar sequência ao bom caudal de jogo dos africanos. 

 

Hoje ficou também a saber-se que Cristiano Ronaldo e o Manchester United terminaram a sua ligação. Ainda a propósito de CR7, e já que a competição se desenrola em terra onde o petróleo é rei, pode ser que aquele que alguns (não eu) já dão como fóssil venha a fazer uma gracinha. A sua explosão, ainda que já somente em espaços curtos, está lá, pelo que resta-nos aguardar. A ver vamos. (Continuo a pensar que este será o Mundial dos jogadores, aquele em que as acções individuais decisivas terão uma preponderância maior do que aquilo a que estamos habituados.)

 

Revelação: Arábia Saudita, Tunísia 

 

Confirmação: Inglaterra, França

 

Desilusão: Argentina 

 

Interessante: EUA, Dinamarca, México 

 

A rever: Equador, Senegal, Países Baixos, Polónia, Gales

 

Mais fracos: Qatar, Irão, Austrália 

 

Desequilibradores: Mbappé, Saka

 

Homens-golo: Taremi, Giroud

 

Jogo do dia: Marrocos-Croácia

 

(*) Como curiosidade, Msakni partilha o segundo lugar na lista de goleadores do campeonato do Qatar com o ex-portista Brahimi (5 golos). O melhor marcador é... Gelson Dala (8 golos em 7 jogos). 

 

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14
Nov22

Tudo ao molho e fé em Deus

Mixórdia de temáticas


Pedro Azevedo

Caro Leitor, a semana começou com o sorteio da Liga Europa e eu conheci o nome do nosso oponente antes da cerimónia em si. Não, não foi em sonhos nem teve a ver com o "sortilégio" ou manha das bolas quentes e frias, embora o clube dinamarquês que nos calhou em sorte fosse o mais desejado. Acontece que há uns dias atrás eu havia tido uma consulta no meu oftalmologista. E o senhor doutor pôs-me a olhar para uma parede iluminada onde se projectava um amontoado de letras soltas. Às tantas, pediu-me para eu as soletrar, uma a uma: M I D T J Y L L A N D. Foi então que tive a epifania. Entretanto, se o meu diagnóstico foi 20/20, o nosso só pode ser a passagem aos oitavos. Mas como é conhecida a nossa miopia de cada vez que nos é pedido para ver mais longe, o melhor mesmo é continuarmos a olhar de perto, jogo a jogo, assim Deus nos livre da hipermetropia que nos acomete de cada vez que o Braga e o Porto estão mesmo ali ao dobrar da esquina.  

 

Ainda durante a semana foram anunciados quase todos os convocados do Sporting para as selecções que vão disputar o Mundial do Qatar. Assim, teremos o Coates e o Ugarte pelo Uruguai e presumivelmente o Fatawu pelo Gana, ambos do grupo de Portugal. E o Morita alinhará pelo Japão. Por Portugal é que nada, nem um dos nossos. O meu medo é que os futuros jogadores lusos do Sporting comecem logo a pensar naturalizar-se por outro país no acto da assinatura de contrato. Por exemplo, arranjando uma canária para poderem jogar por Espanha. Ou, crescendo para umas suiças, de forma a alinharem pelo país da banca e do chocolate. Como não se chamam Otávio ou Pepe, não correriam o risco de virem a ser chamados pelo Engenheiro. Sim, porque o Coates teria que nascer 100 vezes para tirar o lugar ao António Silva - "Ó Evaristo, tens cá disto?". (O Fernando Santos como cómico - apesar daqueles trejeitos de pescoço e da fantástica rábula do IRS - também teria de nascer 100 vezes para tirar o lugar ao António Silva.)

 

Ontem terminámos o nosso aquecimento para o campeonato nacional em Famalicão. Para não variar o Amorim fintou toda a gente e lá inventou uma equipa capaz de dar cabo do Placard ao apostador mais ousado. O Edwards e o Arthur, que haviam sido os melhores contra o Casa Pia, foram para o banco. E o St Juste fez os 90 minutos. O caso do neerlandês então é paradigmático: o homem andava a jogar a espaços, porque havia perdido a pré-época por lesão e alegadamente precisava da paragem para o campeonato do mundo para recuperar a melhor condição física. E o que aconteceu? Agora que a paragem está à porta, abrindo-lhe essa janela a possibilidade de poder ser totalmente recuperado sem risco de recidivas em competição, pela primeira vez jogou o tempo todo. (Ao Gabinete de Performance o que é do Gabinete de Performance, ou ainda alguém se lembra de convocar para aqui os laboratórios Azevedos.) Felizmente nada de mais aconteceu para além de um golo do Famalicão. Podia ter sido um tiro no pé, assim foi só um auto-golo. (Azares à parte, a defesa foi de longe o nosso melhor sector, com Inácio a salvar um golo certo, Coates imperial sobre a terra e sobre o ar e o Jeremias igualmente bem.)

 

O Morita ganhou uma bola que o Paulinho endereçou para a baliza deserta. Só que o Trincão intrometeu-se e sobre a linha sacou o golo ao nosso necessitado ponta de lança. Conclusão: eles até podem ter sido colegas em Braga, mas cá para mim o Trincão é um amigo de Peniche. Para o Paulinho, que não para o Pote que aproveitou um penalty saído dos pés do ex-culé. Depois, o Morita viria a marcar um golo. A coisa na televisão pareceu limpinho, limpinho. Até o Freitas Lobo, meio resignado, o confirmou. O Euclides, o Euler e o Gauss também. Mas depois veio o VAR. E comeu-o. E lá foram o Pai Natal e o palhaço no combóio ao circo. Enfim, (terão sido só) fantasias de Natal...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Seba Coates

 

PS: Outra fantasia de Natal é haver árbitros portugueses no Qatar. O Lineker é que não conhece bem isto, se não saberia que em Portugal o futebol são onze contra onze e no fim ganha o amarelo (também onze, ontem em Famalicão). 

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19
Out22

As causas das coisas


Pedro Azevedo

Quando se fala do actual momento da equipa de futebol do Sporting é possível fazer uma súmula das principais críticas efectuadas por sócios e adeptos. Estas são: 1) A protecção que alegadamente Amorim dá a certos jogadores do plantel; 2) A ausência de um ponta de lança matador; 3) A falta de aposta na Formação; 4) A venda não devidamente compensada (desportivamente) de Matheus Nunes; 5) A menor qualidade dos reforços; 6) A imutabilidade do sistema táctico. 

 

A meu ver as críticas fazem sentido nos 4 primeiros pontos, são apenas em parte justificadas no ponto 5 e duvido que tenham nexo de causalidade no 6º ponto. Adicionalmente, creio haver um 7º ponto, que correlaciona com o 4º, não tão falado e que eventualmente estará a ter mais peso nos resultados e exibições que quaisquer dos outros comumente apontados por sócios e adeptos. 

 

Vou passar a explicar: é certo que a insistência em Esgaio e Paulinho parece carecer de meritocracia. O lateral/ala tem cometido arros sucessivos (Braga, Boavista, Santa Clara, Marselha cá e lá...) que na sua esmagadora maioria custaram pontos e o ponta de lança ainda só marcou 1 golo (ainda que importante, contra o Tottenham) desde o início da época. Se no caso de Esgaio tal mais realça o enigma do empréstimo do jovem Gonçalo Esteves ao Estoril (ainda mais sabendo-se do histórico de lesões musculares de Porro), no que concerne a Paulinho questiona-se a razão pela qual a ida ao mercado para buscar uma alternativa não foi equacionada. Poderia ter sido para dar oportunidades a Rodrigo Ribeiro, mas não, pelo que num e noutro caso emerge a falta de aposta na Formação: não só o jovem e promissor lateral/ala deixou o plantel como a única alternativa a Paulinho (Rodrigo Ribeiro) não tem tido possibilidade de jogar. Rúben alega que o momento não é o melhor para lançar jovens, mas sendo o momento de uma equipa uma situação imprevisível no mundo do futebol pergunta-se porque então foi entendido ser Rodrigo a única alternativa a Paulinho. É-se alternativa para nunca jogar? Claro, pode sempre invocar-se a opção pelo ataque móvel como justificação, mas no ponto 7 procurarei explicar que essa opção trouxe mais inconvenientes que vantagens à equipa do Sporting. Ainda no que respeita aos jovens, só à luz de pura propaganda se entende a aposta não continuada em Dario Essugo ocorrido na época passada. Já no que se refere a Mateus Fernandes é difícil de perceber o motivo de ainda não ter sido opção, dado o actual elenco de médios. (Uma nota: Rúben diz que o momento não é o melhor para lançar jovens, mas curiosamente a única oportunidade que concedeu a Rodrigo Ribeiro ocorreu quando o Sporting já perdia por 2 a 0, em casa, contra o Chaves.) Esta tergiversão no que respeita à Formação, bem como a insistência no mesmo ponta de lança e a protecção a jogadores "preferidos", tem tido impacto nos resultados desportivos. Mas, mais até do que nos resultados, tem tido repercussão no estado de espírito de sócios e adeptos, o que faz com que o que ontem seria impensável (haver já quem veja o treinador mais como um problema do que como uma solução) hoje esteja a ser equacionado. Do meu ponto-de-vista precipitadamente, até porque não trocaria um treinador que ainda recentemente nos deu um campeonato e mostrou consistência numa segunda época completa por outro (Abel Ferreira) que pode ter ganho duas Libertadores e vir a ser campeão brasileiro esta época mas não me dá a garantia de triunfos similares no Sporting. Além disso, se li bem o que se tem passado, o que está mais a constrangir a equipa nem é da responsabilidade directa de Rúben. Passo a explicar: para mim, a saída de Matheus Nunes, pelo que individualmente valia e pela compatibilidade com o jogo da equipa/características dos colegas, não foi devidamente colmatada e está na origem directa de um jogo ofensivamente arrastado e sem acelerações e de uma maior exposição dos nossos defesas. Não é que Morita não tenha imensa qualidade (e aqui entramos no tema dos reforços), mas embora partilhe com o luso-brasileiro a técnica apurada não tem o motor nem a presença física deste. Já o jovem grego (Alexandropoulos) tem apenas o transporte de bola em comum com Matheus, pois fica bastante aquém na capacidade técnica (passe, recepção, remate, drible), explosão no arrranque (Matheus era especialmente imprevisível quando recebia de costas para a baliza adversária, rodando com igual facilidade para a esquerda ou direita) e decisão (timing de largar a bola). St Juste é um central com técnica e velocidade, qualidades que lhe permitiriam facilmente ocupar a posição de lateral. Infelizmente, cada vez mais se assemelha a um homem de cristal (lembram-se do Jeffren?) e a gestão do seu estado físico aparenta ser pouco coerente. (Apressa-se o seu regresso para depois numa perspectiva conservadora jogar o mínimo de tempo possível e ser substituído, mas muitas vezes nem a perspectiva conservadora o salva e sai novamente lesionado.) Depois há o Edwards, que é claramente o malabarista desta equipa, um jogador com grandes recursos ofensivos mas com carências que explorarei no tal 7º ponto. O inglês destaca-se de Trincão por jogar de cabeça levantada, ter um drible mais imprevisível e uma melhor decisão. Com Edwards e Trincão na equipa, Fatawu parece redundante. E ainda chegou Arthur, que impressionou no pouco tempo que esteve em campo com o Tottenham e só voltou a jogar com o Santa Clara, desaparecendo depois. Quantos aos outros, o Marsá pode vir a fazer a diferença, o Israel nem tanto. Em resumo, não creio que globalmente os reforços sejam maus. Por exemplo, o Morita é um excelente jogador de futebol e o Edwards é um extraordinário jogador de bola (futebol de rua), a precisar de mais compromisso com a equipa e o jogo. O St Juste sem lesões será muito útil e o Marsá tem uma saída de bola que impressiona. Outros há que parecem não aquecer nem arrefecer, sendo de questionar se não haveria na Formação igual ou melhor. Já Trincão não tem justificado até agora o racional da sua contratação, seja em termos absolutos ou por via da comparação com Sarabia.   

 

A alegada imutabilidade do sistema táctico muitas críticas tem valido a Rúben Amorim. Mas aqui estou com ele. Os sócios e adeptos dizem não haver um Plano B, mas a verdade é que já vi o Sporting terminar a jogar em 3-2-5, o célebre WM (exemplo: Gil Vicente, em casa, no ano do título). Além disso, várias nuances têm vindo a ser adicionadas ao nosso tradicional 3-4-3: Paulinho chegou a jogar a partir da esquerda com Slimani no meio, a lembrar o que Mourinho fez com Derlei e McCarthy  no Porto campeão europeu; Matheus passou para a meia-esquerda e Pote ficou a jogar de perfil com Palhinha; a dado momento da época passada houve uma clara intenção de dar mais dinâmica atacante à equipa, com Amorim a preterir Palhinha em detrimento de Ugarte. Em todas essas alterações notou-se a preocupação de Amorim em melhorar a equipa e/ou torná-la menos previsível, porém nem sempre resultaram. (Ainda hoje não sei se não teríamos ganho o campeonato, se o Matheus tem continuado a jogar a partir do centro e não derivado mais para a esquerda.) De notar que com o plantel actual o 4-3-3, o 3-5-2 ou mesmo o 4-4-2 seriam sistemas ainda mais desadequados a um único ponta de lança e com as características de Paulinho. Por fim, cumpre lembrar a todos os  que gostam de mudanças de sistema operadas durante os jogos que o nosso antigo treinador, Silas, mudava de sistema como quem substitui um jogador. Com os resultados conhecidos... (E é difícil alterar um sistema à terceira jornada de um campeonato e quando se trabalhou na pré-época a contar que Matheus ficasse e ajudasse a mitigar os possíveis desequilíbrios defensivos que jogadores entretanto adquiridos com menor propensão para pressionar na frente poderiam previsivelmente causar.)

 

Analisados os principais pomos de discórdia, entro agora no tal enigmático ponto 7 que imediatamente desvendarei: defensivamente a equipa comporta-se muito pior do que em 20/21 ou 21/22 por motivos muito concretos. Senão vejamos: o Sporting de 20/21 tinha Sporar como ponta de lança. Ofensivamente falhava golos incríveis, mas defensivamente trabalhava que nem um mouro. O Sporting pressionava muito à frente, no que também Tiago Tomás era bastante útil (e o raçudo Nuno Santos, que nessa era jogava lá na frente, como interior). Depois havia Palhinha, que era um polvo e disfarçava a menor intensidade de João Mário. Este acabava quase sempre substituído por Matheus Nunes, que trazia a força que começava a faltar ao meio-campo e ainda como "plus" marcava golos decisivos como contra o Benfica, em Alvalade (onde foi titular), ou ao Braga (cá e lá). Com a substituição de Sporar por Paulinho e o gradual apagamento de TT, o Sporting começou a ser mais permável defensivamente. Tal pode ser atestado pelo maior número de golos sofridos nessa segunda volta, mas também pelo desempenho na época seguinte. Ainda assim, os números eram perfeitamente razoáveis e dignos de um sério candidato ao título. Todavia, este ano tudo mudou. Para pior. E a meu ver há uma razão para isso. Com o ataque móvel passámos a ter dois dianteiros (Edwards e Tricão) que não defendem, a que acresce um Pote menos lutador que em anos anteriores. Isso poderia ter sido mitigado havendo Palhinha e Matheus Nunes. Ambos porém foram vendidos, o que justifica o mal-estar que Amorim não se coibiu de exibir publicamente. Aliás, em defesa do treinador é preciso dizer que estava bem consciente do desequilíbrio que a saída de Matheus poderia provocar, nomeadamente quando antes da sua saída afirmou preferir manter todos os jogadores a ir ao mercado. Ora, não estando em causa a valia de Ugarte ou de Morita, nenhum deles consegue impôr tanto o corpo, esticar o jogo, desgastar os adversários e regressar á posição inicial (como se estivesse ligado à equipa por um elástico) tantas vezes num jogo como o Matheus Nunes. E se o adversário tem fôlego e encontra menos oposição, então tem a sua vida facilitada, o que é inversamente proporcional à vida da nossa defesa. Acresce que o nosso jogo ofensivo também se tornou mais pastoso após a saída de Matheus, facto aliás reconhecido pelo olho certeiro de vários Leitores deste blogue. É que o Menino do Rio tirava rapidamente a bola da zona de pressão e em duas/três passadas já ameaçava a área contrária. Morita é um belíssimo jogador, mas é mais de passe e menos de transporte, o que significa que tem dificuldade em produzir jogo atacante se não tiver referências de passe, mas Matheus estava num patamar superior. Havia melhorado muito o passe frontal e o remate à baliza (aspectos da "decisão") e conciliava agilidade com técnica irrepreensível e velocidade de condução de bola. Sem ele, hoje em dia há uma inglória sobreutilização dos flancos e dos cruzamentos para um ponta de lança com características mais eufemisticamente ditas de associativas e menos de finalização nata, o qual fica a parecer pior do que é precisamente devido ao menor fluxo de jogo interior (a lentidão no transporte de bola leva ao reposicionamento do adversário e congestão da zona central, restando as alas para tentar criar o desequilíbrio). Por isso digo que a saída de Matheus desestabilizou treinador e equipa e dou mérito ao treinador por imediatamente ter percebido a falta que o Menino do Rio viria a fazer, não esquecendo que se não fosse Rúben o Matheus provavelmente ainda andaria a bater à porta da equipa A (ideia peregrina anunciada por Silas aquando da sua passagem pelo Sporting). 

 

Olhando para todos os aspectos aqui considerados e pensando eu que a serenidade voltará à acção e ao discurso de Rúben, não tenho dúvidas de que apesar da sua quota de responsabilidade na nossa actual crise ainda é o treinador que nos dá mais garantias no presente. E para o futuro, caso retorne a interrompida aposta na Formação. Creio é que os sócios e adeptos estão fartos de assistir a este jogo de espelhos, de fontes luminosas, novas ou pereira de melo citadas por jornais, por onde Direcção e treinador vêm vendendo as suas razões. Entendam-se! (É que os jogadores também assistem a estas coisas e a autoridade de quem os lidera não se pode perder.) 

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