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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

08
Set19

Clássicos "Castigo Máximo" - Cântico Verde


Pedro Azevedo

No futebol, o Sporting entrou num "bear market" (ciclo recessivo) há mais de 30 anos. Por vezes, algumas sementes de recuperação criam a ilusão de que o clube entrou num novo ciclo, mas há sempre aquilo a que um dia um ex-presidente da Reserva Federal americana (Alan Greenspan) chamou de exuberância irracional a puxar-nos para baixo. 

 

Nos anos 80, o Miguel Esteves Cardoso escreveu um livro notável, em jeito de sátira, sobre os portugueses. Chamava-se "A Causa das Coisas" e expunha a alma lusa nas suas contradições e idiossincrasias. Não sei o que o MEC hoje diria sobre nós enquanto povo e sobre os sportinguistas em particular, mas tenho por certo que os meus consócios deste tempo se preocupam muito mais com as coisas do que com as causas, pelo que uma reedição do livro dedicada a nós dever-se-ia chamar de "As Coisas da causa", assim mesmo, com causa com "c" pequeno, tal o desprezo que actualmente mostramos pela nossa identidade ou cultura corporativa, que deveria ser a razão de aqui estarmos.

 

Um clube de futebol como o nosso - que é muito mais do que só futebol e deveria ser muito mais do que um clube - não é um circo e, como tal, nele não deveriam coabitar trapezistas, contorcionistas, ilusionistas, palhaços ou adestradores de leões (este último, vulgo plantar de "Comunicação"). Também não deveria ser um clube de danças de salão, embora por exemplo o tango tenha um compasso binário semelhante à tanga do futebol português, onde o Sporting está condenado a perder mais do que ganha. Aliás, na actual conjuntura da Champions, a dança é acompanhada ao som do bandoneon (pequeno acordeão argentino usado no tango), em que os clubes que asseguram a fase de grupos estão num lado do fole e quem não o consegue fica no lado diametralmente oposto, estando o instrumento esticado até ao limite e assim proporcionando enormes assimetrias "rítmicas". 

 

Por tudo isto, hoje ouvimos dizer que somos um "high yield", um elevado risco, mas também elevada perspectiva de retorno caso não haja "default" (incumprimento), para um investidor, coisa que era capaz de deixar o Visconde de Alvalade à beira de um ataque de nervos se voltasse ao mundo dos vivos. Do clube "tão grande como os maiores da Europa" para o "senhor Orlando e os colchões da academia", rotação de cento e oitenta graus de uma peculiar forma de enaltecimento de uma instituição (um nobre até pode ficar sem dinheiro, não perde nunca é a dignidade). E que Instituição!!!

 

Precisamos como nunca de voltar às origens, de procurar as nossas referências. Os mais novos e os rapazes da minha geração que me desculpem, mas este é um tempo de nos sentarmos e ouvirmos os menos jovens, aqueles que são tão pouco rendibilizados nos nossos dias. De recolhermos lições das suas histórias, inspirarmo-nos nas suas memórias, bebermos da sua experiência, vivenciarmos e celebrarmos o sportinguismo, entendermos de onde vinha aquela mística ganhadora. Um clube como o Sporting precisa deles como nunca, como precisa de todos, não pode funcionar em circuito fechado. Apostar no que é nosso e feito de (e por) nós, em vez de importar "novo riquismo". Quando temos dúvidas sobre um caminho, nada como recuar às origens de tudo. Tal permitir-nos-á, como diria José Régio, saber por onde não ir, saber para onde não ir. É que tantos anos de desilusão provocam erosão e nos nossos olhos já há ironias e cansaços. Mas atenção, ao contrário do enunciado pelo poeta, não cruzamos (nem cruzaremos) os braços, porque este cântico pode parecer negro mas é verde. De esperança!

 

Nota do Autor: Qualquer pessoa sabe que o dinheiro custa muito a ganhar, nomeadamente se for obtido de uma forma legítima, sem batota. Já perdê-lo, é fácil. Basta gastá-lo, ou investi-lo sem critério.

 

P.S. Texto publicado originalmente em 2 de Março de 2019

06
Set19

Clássicos "Castigo Máximo" - O Guarda-redes


Pedro Azevedo

Se o objectivo (goal, em inglês) de um jogo de futebol é o golo - o equivalente a um orgasmo, para o bi-bota Fernando Gomes -, impedi-lo é o anti-climax, pelo que o guarda-redes é um desmancha-prazeres por natureza. Talvez por isso, as regras estabelecidas em 1848, na Universidade de Cambridge, não contemplavam a figura do "keeper", posição que só passou a existir em 1871. 

 

Por tudo isto, existe uma não confessada má-vontade contra o guarda-redes, ele é um mal-amado. Se é perdoado a um ponta-de-lança perder um golo de baliza aberta, a um extremo falhar um drible ou um centro, a um médio errar um passe e a um defesa fracassar no desarme, nada é consentido a um guarda-redes. Se der um "frango" e daí resultar a derrota da sua equipa, bem pode efectuar uma mão-cheia de defesas impossíveis que nem assim será absolvido pelo tribunal dos adeptos.

 

Condenado a observar o jogo à distância, isolado, apenas com dois postes e uma barra como companhia, é como um prisioneiro solitário numa cela, somente aguardando a sua própria execução. E quando lhe aparece um adversário sózinho pela frente e sai ao seu encontro, parece percorrer o corredor da morte (Dead man walking) à espera de um indulto de última hora. Isso talvez justifique porque o mais famoso guarda-redes de sempre (Lev Yashin) e alguns dos melhores da história do nosso Sporting (Azevedo, Carlos Gomes e Vítor Damas) escolheram equipar-se de preto: o luto era adequado a quem sabia que a coisa, provavelmente, ia acabar mal.

 

Curiosamente, e em contra-ciclo, à medida que o futebol se foi tornando mais cinzento, cínico, burocrático, cerebral e os treinadores sacrificaram o objectivo do jogo à estratégia e à táctica, os equipamentos dos guarda-redes foram ganhando cor, como se agora acreditassem que tudo vai correr bem. Mas é um engano. Barbosa, arqueiro do Brasil no Mundial de 1950, batido pelo uruguaio Ghiggia na final, resistiu 50 anos como um condenado, tendo de conviver com desconsiderações várias, punido por adeptos, que até, certa noite, furtivamente, lhe colocaram a baliza daquele dia no Maracanã no seu jardim. Para que nunca se esquecesse! Meio-Século pagando por um crime que não cometeu (Barbosa foi considerado o melhor guardião desse Mundial), num país onde a pena máxima para qualquer tipo de crime é de 30 anos...

 

P.S.: Primeira crónica escrita em Castigo Máximo, no dia 29 de Setembro de 2018, numa fase ainda experimental do blogue (arranque a sério já no ano de 2019). "In memoriam" de Andrada - guarda-redes do Vasco da Gama que sofreu o milésimo golo de Pelé, falecido no dia de ontem - , e de Vítor Damas, admiração eterna.

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