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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

21
Out20

O Pantera Cor-de-Rosa


Pedro Azevedo

Eu sei, é o quarto Post que faço sobre João Almeida, mas o ciclista português está cada vez mais perto de realizar um dos maiores feitos de sempre do desporto nacional. Amanhã será o Dia D para o João no Giro de Itália. A cumprir a sua terceira semana numa grande volta, o ciclista português está em território inexplorado. Não só é estreante nestas andanças velocipédicas como não se saberá de que forma o seu corpo reagirá à acumulação de tantos quilómetros. As grandes competições por etapas - Tour, Giro e Vuelta - são essencialmente provas de endurance que privilegiam ciclistas com muitos Kms nas pernas, pelo que geralmente o pico deste tipo de atletas atinge-se por volta dos 30 anos. Ora, o nosso João Almeida só tem ainda 22 anos e está no Giro somente devido ao incidente que afastou Renko Evanpoel, o jovem prodígio belga que estava destinado a ser chefe-de-fila da Deceuninck-QuickStep nesta prova. Ao mesmo tempo, enfrenta (Ca)Nibali, o italiano que já venceu as 3 Grandes Voltas, e o compatriota deste, o ainda mais veterano Domenico Pozzovivo. Mas não só destes tricolores transalpinos se faz a concorrência. O holandês Wilco Kelderman, segundo na geral a magros 17 segundos, e os jovens lobos Hindley (australiano) e Geoghegan Hart (americano) parecem especialmente ameaçadores sempre que a estrada empina.

 

Numa volta com estas características não pode haver um dia mau. A regularidade é importantíssima, a experiência também, a gestão do desgaste idém. Conseguirá o João levar a rosa até ao fim? Sobre isso tenho sentimentos contraditórios. Por um lado, o desgaste que sofreu na etapa de Domingo, sozinho durante 7 Km, exposto ao vento, sem ninguém para o ajudar - Masnada, seu colega de equipa, pela segunda vez, optou por seguir na roda e gerir a sua corrida em vez de num último esforço procurar cobrir o espaço que a Sunweb conseguiu abrir para o João - constituiu o tipo de erosão que geralmente se paga mais tarde com juros numa grande volta. Por outro, bastante mais animador, os sinais que ficam do João após os dias de descanso: tal como na segunda semana, nesta terceira semana do Giro o João apareceu renascido como a fénix, de cambaleante no Domingo para desafiante de toda a concorrência na terça-feira. Adicionalmente, hoje não deu um sinal fraqueza numa etapa em que os ciclistas tiveram de ultrapassar 3 contagens de montanha de 1ª categoria e uma de 3ª.

 

Amanhã há uma etapa muito importante do Giro, dir-se-ia a etapa rainha da prova. Classificada como de 5 estrelas, a ligação entre Pinzolo e Laghi di Cancano (207 Km) contém 1 contagem de montanha de 2ª categoria logo a abrir (Km 14), duas montanhas de 1ª categoria (Km 66 e Km 207), a última a coincidir com a meta, e ainda um prémio de montanha de categoria extra situado ao Km 169 em que os corredores ascenderão até aos 2758 metros. Com todas estas dificuldades, não será de admirar que provoque diferenças entre os principais competidores que ajudarão a definir a classificação final. Sendo o Giro uma prova por eliminação progressiva, seria importante e moralizador para João Almeida continuar a resistir no primeiro lugar da classificação geral. Se o conseguir, acredito que ultrapassará também bem o dia de Sábado, a última grande etapa montanhosa do Giro que se disputará na véspera do final desta grande competição velocipédica, a qual se concluirá com um contra-relógio de 15,7 Km com chegada a Milão. Aconteça o que acontecer, os momentos que o nosso jovem ciclista tem vindo a protagonizar já não poderão ser apagados da nossa memória, entrando num tipo de registo por nós não vivido desde os tempos do saudoso Joaquim Agostinho. Ao mesmo tempo desafiando todos os peritos, probabilidades e casas de apostas. O milagre já esteve mais longe de acontecer, mas seja como for ninguém tirará a João Almeida o epíteto de heroi improvável desta edição do Giro. Força no pedal, João!

 

P.S. Resultou no fim de semana passado, pelo que o fundo deste blogue permanecerá com o fundo rosa em homenagem ao João Almeida enquanto este for líder da classificação geral do Giro. Esperamos que tal possa acontecer até ao final do dia de Domingo.  

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10
Out20

João Almeida, o nome da rosa


Pedro Azevedo

Gosto muito de ciclismo e sou um grande fã das grandes voltas velocipédicas (Giro, Tour e Vuelta), em especial das suas etapas de alta montanha. Vivenciei o ocaso de Merckx e a emergência de Hinault, os duelos entre Fignon e Lemond, o domínio de Indurain e a ascensão e queda de Armostrong. Nesse sentido, a edição deste ano do Giro não me tem passado ao lado. Hoje, Castigo Máximo surgirá durante o dia com um fundo rosa em homenagem a João Almeida, ciclista português que acaba de igualar o recorde de Joaquim Agostinho do ciclista português que mais dias se manteve na liderança de uma grande Volta. Deste modo, realçar o feito de João Almeida é também evocar o "Tino de Brejenjas", o melhor ciclista luso de todos os tempos e grande vulto da história do nosso Sporting Clube de Portugal. Acontece que Agostinho, para além de dois pódios consecutivos no Tour, liderou durante 5 dias a Vuelta de 74, corrida que haveria de perder por apenas 11 segundos para o espanhol José Manuel Fuente entre acusações de erro dos cronometristas. Ora, com o fim da etapa de hoje (a 8ª da prova), João Almeida, ciclista de apenas 22 anos, termina assim o seu quinto dia consecutivo na posse da "maglia rosa", a camisola que distingue o líder do Giro de Itália, uma competição inspirada pelo jornal Gazzetta dello Sport que é célebre pela sua impressão em papel cor de rosa. A fazer a sua primeira grande volta, o ciclista das Caldas da Rainha é a mais recente esperança de Portugal voltar a ter um especialista em provas de 3 semanas. É certo que até já tivemos um campeão do mundo, Rui Costa, mas o ciclista que actualmente representa a UAE nunca mostrou a necessária resistência em provas longas. Característica, aliás, que ninguém pode jurar que João Almeida tenha, na medida em que nunca foi testado em competições que durassem para lá de 1 semana. Ainda assim, a liderança do Giro fica-lhe muito bem e será bonita enquanto durar. Parabéns ao João, eterno saudade pelo Agostinho. 

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10
Mai19

O Grande Tinô


Pedro Azevedo

Faz hoje 35 anos que morreu Joaquim Agostinho, o maior ciclista português de todos os tempos. Descoberto pelo também ciclista João Roque numa prova popular disputada em Barro, que venceu com 1 volta de avanço sobre o segundo classificado, foi imediatamente convidado para ingressar no Sporting. Já tinha 25 anos e ele próprio não tinha grandes ambições, mas logo na sua 1ª Volta a Portugal (1968) acabou em segundo lugar, compensando a falta de tecnica em cima da bicicleta com uma potência (força multiplicada pela velocidade) de pedalada incrível. Não era chefe-de-fila e a aposta da sua equipa era em Leonel Miranda, o qual acabaria por não ganhar (3º). Esta indefinição terá custado a Agostinho a sua primeira vitória na prova máxima do ciclismo nacional. Nos 5 anos seguintes, entre 1969 e 1973, venceu todas as edições da Volta a Portugal. Desclassificado, já depois de terminadas as provas, em 69 e 73, reteve os triunfos nos outros anos. Na primeira vitória que lhe foi homologada, em 1970, bateu a concorrência por mais de 7 minutos de diferença.  

 

 

Mas foi na Volta a França que o seu nome se tornou maior. Logo na estreia, emprestado pelo Sporting à Frimatic, de Jean de Gribaldy, obteve um oitavo lugar final, cometendo ainda a proeza de vencer duas etapas, a primeira com chegada a Mulhouse, a segunda em Ravel. No total, viria a atingir por oito vezes uma posição entre os 10 primeiros da melhor volta do mundo, tendo terminado no pódio (3º lugar) em dois anos consecutivos (1978 e 1979). Nesse último ano ganhou a mítica etapa do Alpe D`Huez que pode vêr no vídeo abaixo, com 3 minutos e 17 segundos de diferença para Bernardo Hinault e Joop Zoetemelk, os ases do pelotão na época. Ciclista muito popular, carinhosamente tratado por Tinô pelos gauleses, destacava-se pelas suas prestações na montanha e nos contra-relógios. Fora da estrada, as suas conversas de rescaldo de cada etapa com Carlos Miranda do jornal "A Bola" faziam as delícias dos amantes do ciclismo e do bem escrever em português (em rodapé, a conversa com o referido jornalista após a vitória em Ravel, 1969).

 

Também viria a brilhar na Volta a Espanha, tendo-se classificado em 2º lugar na Vuelta de 74, a escassos 11 segundos de José Manuel Fuente, algo que na época motivou grande controvérsia, com acusações de que os cronometristas teriam ajudado o espanhol a triunfar.

 

Regressado a Portugal, com o intuito de levar o Sporting a correr a Volta a França de 84, acabaria por falecer na sequência de um acidente causado por um cão que atravessou a estrada durante a realização da Volta ao Algarve. Por ironia do destino, morreu da mesma forma que viveu a maioria do seu tempo no Sporting: de amarelo vestido, pois liderava a volta algarvia naquele momento fatídico.

 

Joaquim Agostinho, "O Maior", morreu há 35 anos. Mas continuará a viver entre nós como um dos maiores símbolos de sempre do Sporting Clube de Portugal.

À conversa com Carlos Miranda (notável noção do "tempo" certo deste jornalista, que nos envolvia na narrativa como se estivessemos dentro da corrida):

- Aquilo vinha tudo a passo de caracol...

- E o Agostinho resolveu fugir?

- Não, senhor. Nunca me passou tal coisa pela cabeça. Eu vinha muito bem dentro do pelotão, vinha sossegado. Queria sossego, estava tudo dito...

- Mas, afinal...

- Ainda havia outro motivo para que não pensasse em fugir... Dentro daqueles primeiros quilómetros da etapa. tinham-se registado várias tentativas, vários ataques, haviam fulanos que queriam sair. Pois logo que isso acontecia, os belgas da equipa de Eddy Merckx [5 vezes vencedor do Tour] iam buscá-los. Pensei cá para comigo: isto hoje está mau. Ninguém tem ordem para fugir.

- Mas acabaram por sair...

- Claro, houve uma altura em que o grupo atacou. Como aconteceu estar bem colocado, fui com eles.

- Era o princípio...

- A fuga, no entanto, estava condenada a não dar nada. Porque andámos uns seis ou sete quilómetros com o pelotão sempre à vista. Sabe como são estas coisas... Quando um fulano não consegue, logo de entrada, distanciar-se, quando o pelotão se conserva sempre à vista, não há nada a fazer...

- Nesse caso...

- Os sujeitos que iam comigo resolveram abrandar e esperar pelo pelotão. Mas houve uma coincidência...

- Qual foi?

- Isso aconteceu precisamente na altura em que era a minha vez de ir para a frente marcar o passo... E eu impus um andamento forte, bastante forte. Nessa altura, não sei o que sucedeu...

- ...

- Das duas uma: ou os outros fulanos não aguentaram o andamento que eu impus ou o pelotão estava a menos de trezentos metros e eles resolveram não prosseguir no esforço...

- Fosse como fosse...

- Fosse como fosse, quando olhei para trás, estava sózinho. Então, ainda carreguei mais nos pedais. Dei tudo o que podia, mas a verdade é que o pelotão continuava à distância. Tive a sorte, então, de apanhar umas curvas. Empreguei-me a fundo, no sentido de me distanciar do pelotão. A coisa correu-me bem. Porque, cinco quilómetros depois, eu já tinha cerca de dois minutos de avanço.

- Surgia a perspectiva de ganhar a etapa...

- Bem, nessa altura pensei que a coisa podia suceder.

- Tinha conhecimento de que tinham saído mais dois ciclistas atrás de si?

- Pois sabia. Mas ia calmo, sabe?

- Porquê?

- Ora, porque aquele desejo de ganhar uma etapa já tinha passado. Quando foi em Mulhouse é que sofri que me fartei com a ideia que me podiam apanhar. Agora as coisas eram diferentes: eu só tinha que dar tudo o que podia, andar para a frente. Se visse que eles vinham em cima de mim, que estavam quase a apanhar-me, aguentava e esperava por eles.

- Esta vitória acabou por ser mais fácil do que a primeira...

- Claro. Não tive, como da outra vez, aquela perseguição movida pelo Merckx e pelo Gimondi [campeão italiano, ganhou as 3 voltas mais importantes], mas isso não quer dizer que não tenha tido dificuldades...

- A principal...

- O vento. Um fulano andar sózinho, açoitado pelo vento, é qualquer coisa de deixar um homem bem atrapalhado. Foi o diabo... [Nos derradeiros quilómetros, Agostinho ainda conseguiria aumentar o seu avanço, demonstrando ser um corredor com muita força.]

 

E assim, naquele seu jeito de quem não quer a coisa, Agostinho lá ganhou mais uma etapa de uma das maiores competições desportivas do Universo. Na sua estreia!

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