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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

07
Jun20

Pedras na engrenagem encarnada


Pedro Azevedo

A  semana do Benfica ficou marcada pela pedrada. Tudo começou na demissão do seu presidente da AG, uma pedrada no charco, ou melhor, um canhão de Nazaré, abrindo uma onda de contestação à Direcção que foi logo surfada por putativos candidatos à presidência do clube. Seguiu-se-lhe mais um episódio canalha de violência no futebol português novamente perpetrada contra os profissionais do chuto na bola. Da pedrada alegórica passou-se (o que "passou-se"?) para a literal, com um ataque ao autocarro do Benfica do qual resultou ferimentos em dois jogadores (Zivkovic e Weigl). Um momento de terror para os visados, pelo menos a atestar pelas declarações da mulher de Weigl, que se encontrava a falar telefonicamente com o marido quando o incidente ocorreu. Finalmente, o jornal Público denunciou alegados "acordos de dependência" entre o clube da Luz e o Desportivo das Aves que o Benfica classificou de "legais e normais no futebol e em outras sociedades comerciais", ficando a ideia que do ponto de vista estrictamente da ética as explicações se assemelharam a um 'quem nunca pecou que atire a primeira pedra'. 

weigl.jpg

01
Out19

Tudo ao molho e fé em Deus - Sorte ao Quadrado


Pedro Azevedo

Se o campeonato é uma maratona, um jogo vitorioso é um passo na direcção da meta, pragmatismo que marca a minha análise à estreia de Silas como treinador do Sporting. E não poderia ser de outra forma, dado o pouco tempo de trabalho do nóvel técnico dos leões. Ainda assim notaram-se algumas ideias: na saída de bola, a equipa dispôs-se num 2-4-2-2, com os dois centrais a iniciarem a construção, uma linha à sua frente formada por um duplo-pivô e os dois laterais (recuavam para a linha defensiva quando a equipa perdia a bola), dois médios de ataque (Bruno e Vietto) e dois avançados móveis, sendo que no centro do campo Silas recuperou o quadrado dos últimos tempos de Keizer; voltou também o "bitoque" dos primeiros tempos do treinador holandês, notando-se a preocupação de jogar a dois toques e desgastar o adversário através de posse e circulação de bola, mas com os jogadores da frente procurando mais a desmarcação (o espaço) e menos a aproximação à bola (diferença face a Keizer), ao mesmo tempo que os sectores cuidavam de estar o mais juntos possível de forma a dar menos espaço às transições ofensivas adversárias. Em suma, um misto de duas fases diferentes de Keizer (com algumas nuances), pois ainda não houve tempo de introduzir um cunho mais pessoal do nosso novo "Mona Lisa" que esta noite já esboçou um sorriso (se bem que ainda timido).  

 

Evidentemente, com poucos treinos, notaram-se várias insuficiências: a circulação foi lenta e não desmontou a teia montada por Inácio no miolo avense, notando-se nomeadamente a ausência de mudança de flanco (basculação) rápida, ferramenta essencial para desequilibrar um adversário muito povoado ao centro, provavelmente por a segurança ter imperado sobre o risco; a equipa continuou a mostrar-se permeável nas bolas paradas, quase sofrendo dois golos provenientes de cantos marcados de forma rasteira(!); os laterais não deram profundidade ao jogo ofensivo leonino, o que, se é tão certo como a morte e os impostos no que concerne a Borja, foi insólito em Rosier (também pouco concentrado nos pontapés de canto).   

 

Surpreendeu-me a entrada de Borja em detrimento de Acuña, estava à espera que Wendel desse o lugar a Eduardo, não só pelo abaixamento de forma do ex-Fluminense como pelo conhecimento que Silas tem do ex-jogador da SAD antigamente conhecida como "Os Belenenses" (coisa fina, à Prince, e com Revolution pelo meio). Fundamentalmente, fiquei com a ideia de que a equipa irá melhorar muito, mas que com estes jogadores hoje titulares vai ser muito difícil atingir os objectivos enunciados no início da época. E depois há outros problemas: Vietto contra o Famalicão e Jesé esta noite (nova exibição frouxa), provavelmente imaginando tempos de glória outrora vividos, protestaram aquando das substituições. Disciplina precisa-se, outra tarefa que aguarda Silas. 

 

A primeira parte foi muito monótona: Rosier quase marcava um auto-golo (acertou no poste), mas Coates é que é o especialista, e Eduardo enviou dois mísseis de Santo Tirso que teriam entrado na baliza em Vila das Aves se a companhia de Jesus tivesse estado com ele, o que teria colocado os pupilos de Inácio em caldinhos (ou, no caso, caldinhas). Nothing (more) to declare, as equipas voltaram ao balneário. 

 

No início da etapa complementar, o Aves podia ter marcado por duas vezes. Na primeira, a nossa defesa foi pela primeira vez apanhada descompensada, bola metida nas costas de Coates, remate prensado em Mathieu (também não tem a "sorte" do uruguaio), guarda-redes para um lado, bola para o outro, mas a tocar nas redes exteriores da baliza de Renan. Canto marcado, carambola de matraquilhos, Renan batido e a bola a sair a rasar o poste. O Sporting recuperou do susto e Bolasie, que procura compensar as deficiências técnicas com muita movimentação, também teve uma boa oportunidade, mas atrapalhou-se e não acertou bem na bola. Renan ainda defendeu um livre bem marcado por Welinton Jr, até que Bolasie recebeu um passe de Acuña (entrara aos 77 minutos para o lugar de Borja), ganhou espaço na área, ultrapassou um defesa e foi atropelado por Beaunardeau. Na conversão do penalty, Bruno Fernandes (trabalhou muito) deu a vitória aos leões.

 

O Sporting conseguiu sair com os 3 pontos da Vila das Aves e isso foi o mais importante. Silas, que ressuscitou a Táctica do Quadrado, teve sorte na estreia, vencendo e vendo a sua equipa a não sofrer golos pela primeira vez esta época (sorte ao Quadrado), mostrando não ser "pé frio". Que assim continue! (E que se torne uma lenda e um dia alguém relembre que Silas, na estreia, ganhou com Castigo Máximo.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Yannick Bolasie

Bolasie2.jpg

14
Abr19

Tudo ao molho e fé em Deus - The Big Day


Pedro Azevedo

"The Big Year" é um filme de 2011, em que 3 homens - personagens interpretadas por Owen Wilson, Jack Black e Steve Martin - em crise de identidade, mas com uma paixão comum por aves, decidem entrar numa competição que tem como objectivo identificar o maior número possível de espécies num ano. Esta fita veio-me à memória, porque foi mais ou menos isto que hoje foi proposto aos Sportinguistas. Mas com uma grande diferença: descobrir o máximo de Aves, sim, mas num só dia! Tudo começou às 3 da tarde, com o jogo dos sub-23 no Aurélio Pereira, e terminou "comme il faut", na própria Vila das Aves, no jogo dos séniores que é o objecto desta crónica. 

 

Logo aos 3 minutos, Mathieu e Renan foram umas andorinhas e deixaram uma águia - Luquinhas, jogador comprado pelo Benfica, embora nunca tenha jogado pelos encarnados -  interpor-se. Para evitar que atingisse o seu território, Renan fez falta e foi expulso, avistando-se logo corvos a pairarem sobre os leões.

 

A jogar com menos um, Keizer encostou Bruno Fernandes à esquerda e teve de mandar sair Jovane a fim de que Salin ocupasse o lugar deixado vago pelo infortunado guarda-redes leonino. Com estas trocas, o Sporting não ficou desasado, e de uma combinação entre Bruno e Acuña na esquerda resultou um centro consoante as intenções de Phellype, um patinho feio que está progressivamente a transformar-se num belo cisne, embora ainda lhe falte a segunda velocidade. O Sporting colocava-se em vantagem, mas Gudelj ficou a observar as Aves e Luquinhas aproveitou para acelerar, buscar o apoio e entrar vertiginosamente na área leonina. Salin chegou tarde e fez penálti. Na conversão, o olho de Falcão avistou o objectivo e não perdoou perante carne fresca mesmo ali à frente. Os leões não desarmaram e Bruno esteve prestes a desfazer a igualdade na jogada seguinte. Até que na sequência de um livre, o capitão leonino preparava-se para rematar quando um pardalito avense - um Felipe com menos consoantes - foi procurar um poste onde descansar, proporcionando a 3 jogadores leoninos observá-lo de perto dentro das regras. Vendo que a ideia das Aves trazia água no bico, Bruno optou por colocar a bola na área, onde Coates a amorteceu, Wendel a maltratou, aparecendo Mathieu a desviá-la para a baliza, redimindo-se assim da falha conjunta no lance em que Renan foi expulso.  

 

A etapa complementar iniciou-se com uma combinação entre Bruno e Acuña terminada com um remate do argentino que Beunardeau defendeu com os pés. O jogo estava bom e, logo de seguida, um avense fez Fariña sobre Coates, mas Ristovski levou a coisa a peito e evitou males maiores. Wendel recuperou uma bola a meio-campo, foi por ali fora e à entrada da área serviu Raphinha que voltou a encontrar as pernas do guarda-redes avense. O jogo estava electrizante, um pouco partido, uma boa propaganda para o futebol. Na esperança de que os espectadores não vejam a InácioTV, a SportTV não se cansava de mostrar Inácio na TV. O Aves atacava, mas numa transição Acuña preparava-se para passar um Galo quando este se interpôs. Já estava amarelado e deveria ter ido para cativeiro, mas Soares Dias armou-se aos cucos e mostrou o amarelo, isso sim, ao argentino, por protestos. A habitual cena da arbitragem em Portugal. De seguida, Diaby (rendeu Phellype), desmarcado por Doumbia (entrado para o lugar de Gudelj), foi um maçarico na área. O Sporting procurava o golo da tranquilidade e viria a obtê-lo: Bruno Fernandes (28º da época), de cabeça, mostrou perceber os pássaros e voar como o Jardel sobre os centrais, respondendo a um centro do macedónio Ristovski. O Aves ainda voltaria ao jogo, num lance de outra águia (Derley), na minha opinião incorrectamente invalidado, pois Coates está a agarrar o braço do brasileiro e este, ao tentar libertar-se, acerta-lhe. Mas confesso que não ouvi os "especialistas" do costume, pois já tinha desligado o som do televisor para poupar os tímpanos à gralha do comentador.

 

E assim terminaria uma noite chuvosa na Vila das Aves, onde no fim quem mais trinou foi o verdilhão. Quem diria que a observação das Aves podia ser uma actividade tão excitante? Pelo menos, quando comparada com aquela aula de técnicas de normalização de documentos de que se revestira o nosso jogo anterior.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Acuña. Menções honrosas para o incontornável Bruno Fernandes e para Ristovski, o qual foi intransponível na defesa e assistiu Bruno para o terceiro da noite.

 

Aves avistadas neste dia: andorinhas, águias, corvos, pato, cisne, falcão, pardal, galo, cucos, maçarico, gralha, verdilhão e passarinhos diversos. 

 

P.S. Vejam o jogo do menino Matheus Nunes, nos sub-23. Velocidade, técnica e muita facilidade na saída de pressão, passe com a parte de dentro ou de fora de qualquer um dos pés... Um craque em potência!

bruno aves.jpg

(Imagem: A Bola)

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