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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

14
Out21

Bragança e o modelo


Pedro Azevedo

Olho para Daniel Bragança e vejo um jogador que assentaria que nem uma luva numa equipa treinada por Pep Guardiola, onde o passe-repasse (o célebre tiki-taka) é a ideia por detrás do sistema. Pep foi treinado por Cruijff e dele absorveu os princípios da escola holandesa de jogo posicional (espaço e tempo como lógicas primordiais, pré-definição da distância ideal entre jogadores e linhas, forma de orientação da pressão alta, desdobramento atacante, defesa em campo pequeno e ataque em campo grande, etc...) criados por Jany van der Veen nas escolinhas do Ajax, que combinados com o método Coerver (Will Coerver, antigo treinador do Feijenoord) dos 10.000 toques na bola diários forneceram a base técnico-táctica para o que Reynolds e Michels viriam a apresentar na equipa principal dos lanceiros. Porém, Guardiola imprimiu o seu toque pessoal, o qual, não deixando de se ter mostrado eficaz, retirou espectacularidade ao conceito de Futebol Total originário dos neerlandeses. Isso está bem patente aquando da recuperação de bola, com as equipas de Pep a procurarem a organização em detrimento da transição rápida, algo que acabou por se tornar enfadonho para parte dos adeptos. [O próprio treinador veio mais tarde a alterar alguns dos seus conceitos de forma a ajustar algumas características individuais de jogadores (elementos rápidos como Sterling, por exemplo) ao modelo.]

 

Entretanto, uma nova ideia de futebol surgiu associada a Jurgen Klopp. Este, que partilha com Pep a ousadia na aposta em jovens, desenvolveu o Gegenpressing, onde pressionar o portador da bola na tentativa de a recuperar em 5 segundos é a palavra de ordem, seguindo-se a recomposição da organização defensiva caso a bola não tenha sido ganha, uma ideia de jogo assente numa transição defensiva muito agressiva (e não na cultura de posse de bola) que visa explorar o espaço nas costas para contra-atacar o adversário através de motos de alta cilindrada que Klopp habitualmente escolhe para a linha avançada (Salah, Mané, Jota), deixando ao critério de um falso avançado centro (Firmino) a gestão do momento de descer no terreno ou de procurar a profundidade, dois movimentos antagónicos, um que visa atrair defesas para libertar os restantes avançados, outro que procura esticar o jogo e o adversário de forma a que surja o espaço livre entre sectores para atacar a segunda bola. (No Sporting, Paulinho é mais forte a descer, mas Tiago Tomás supera-o na exploração mais eficiente da profundidade, pelo que não temos o jogador ideal que reúna exemplarmente essas duas características independentes da capacidade goleadora.)

 

Ora, a meu ver  a ideia de jogo de Rúben Amorim, independentemente do sistema de 3-4-3 (ou, mais concretamente, de 3-4-2-1) preconizado, aproxima-se mais da de Klopp do que da de Guardiola, razão pela qual a música que é pedida aos médios é mais do tipo heavy-metal do que do género balada. Assim, Matheus Nunes e Palhinha são imprescindíveis. Não se trata por isso de não reconhecer que Bragança é um grande jogador, o problema é encaixá-lo e potenciá-lo dentro da ideia de jogo do nosso treinador. Admito, por isso, que Bragança só venha a sair da sombra em jogos mais exigentes e que exijam outro povoamento no meio-campo, contra os outros 2 grandes ou na Champions. Seja como for, quem não gostaria de ter uma arma que a qualquer momento possa ser utilizada para alterar a nossa forma de jogar? É que o Daniel dá essa variabilidade ao nosso jogo que mais ninguém lhe pode dar (com a possível excepção do camaleónico Pote). 

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15
Set21

A minha dúvida para hoje


Pedro Azevedo

Já que ninguém fala nisto, aqui ficam os meus cinquenta cêntimos para a discussão: irá Ruben Amorim manter a estrutura base do seu onze, optando por Jovane ou Sarabia na posição de interior direito, ou, alternativamente, mudará o sistema do 3-4-3 para um 3-5-2 e incluirá Daniel Bragança na equipa titular (libertando mais Matheus Nunes para as suas cavalgadas com bola)? 

11
Set21

Para Rúben Amorim


Pedro Azevedo

Escrevo propositadamente antes do jogo para vincar que a minha opinião não está dependente do nosso resultado contra o Porto. E faço-o para mostrar o meu apoio incondicional a Ruben Amorim e à forma como encara a constituição de um plantel. Bem sei que nós, adeptos, queremos sempre os cromos todos, o plano de contingência face à lesão simultânea de A e B, o mítico avançado cuja produtividade se expressa em golos, mais um defesa central, etc. Acontece que ao longo dos anos a tentativa de suprir todas as lacunas, associada ao despautério de aquisições sem nível para o Sporting, nos conduziu até a um buraco negro, de onde só se vislumbra sairmos se continuarmos a acreditar e a apoiar a política de Amorim. Este não inventou a roda - há anos que o Ajax trabalha assim -, mas soube conciliar a racionalidade dos custos com um projecto de aposta na Formação, perspectivando-se assim uma sustentabilidade futura. Por isso, os planteis são pouco profundos, a fim de se poder recorrer à Formação em caso de necessidade. Por que diabo havíamos de gastar dinheiro em jogadores das equipas B e Sub-23 para depois lhes fecharmos a porta de entrada na A?  Obviamente, havendo oscilações na qualidade entre gerações, nem sempre teremos uma substituição óbvia. Por exemplo, tenho dúvidas se Chico Lamba ou Skoglund algum dia poderão ser reais opções para as posições de central e de ponta de lança, razão pela qual Amorim poderá em certos momentos ser obrigado a promover adaptações e explorar a versatilidade de alguns elementos do actual plantel. Mas esses são os riscos inerentes a um projecto que não pode ser alimentado de gorduras que quando saturadas no banco ou na bancada provocam complicações no coração do clube/SAD (conta de exploração). Por isso, mesmo tendo eu algumas legítimas dúvidas sobre a eficácia de Paulinho ou o racional da dispensa de Pedro Marques (coisas de treinador de bancada), gostaria de aqui mandar um forte abraço ao treinador Ruben Amorim (sim, eu discordei dos valores envolvidos na sua contratação) e agradecer-lhe esta certeza que hoje tenho: enquanto estiver em Alvalade poderemos semore perder o próximo jogo , mas nunca perdemos (hipotecaremos) o futuro. Obrigado. 

03
Set21

O carteiro Pablo Sarabia


Pedro Azevedo

Formado nas escolas do Real Madrid e com passagens pelo também madrileno Getafe, Sevilha e Paris Saint-Germain, Pablo Sarabia é um virtuoso que usa a canhota como uma espada com que inteligentemente esgrime a diferença, estocada a estocada aproximando-se do âmago do adversário. Com uma recepção sempre orientada e a preocupação de rapidamente se posicionar de frente para a baliza adversária, Sarabia evidencia-se pela sua visão de jogo e velocidade com bola, qualidades que lhe possibiitam inúmeras assistências e golos. Nada egoísta, em terrenos perto da baliza procura sempre entregar a carta a Garcia, escolhendo com critério a solução com melhor probabilidade de golo, não se coibindo até de usar o seu pé direito, se essa for conjunturalmente a melhor solução de passe/remate. Em suma, não desprezando nunca o importante papel de Nuno Santos e de Jovane nas conquistas de Campeonato, Taça da Liga e Supertaça, estamos na presença de um jogador de grande classe, que certamente deliciará os nossos adeptos com pormenores de categoria. Se resistir ao vedetismo, respeitar as legítimas aspirações dos concorrentes ao seu lugar e se integrar no bom ambiente de balneário existente em Alvalade, então poderemos estar na presença de um caso muito sério, um candidato natural a melhor jogador da Liga. Médio de ataque ou extremo no sistema de 4x3x3, no esquema de Rúben Amorim deverá ocupar a posição de interior direito, passando Pote a ocupar uma franja de relvado compreendida entre a esquerda e o centro.

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18
Ago21

Flavia aurum, o ouro de Chaves


Pedro Azevedo

De entre os vários tesourinhos que o Sporting extraiu na mina de diamantes sita em Alcochete destacam-se Gonçalo Inácio, Nuno Mendes, Matheus Nunes (lapidado na última estação de produção da linha de montagem) e Jovane Cabral. Adicionalmente, Tiago Tomás e Daniel Bragança - o sistema de Rúben só o favorece quando o 3-4-3 transmuta num 3-5-2 - também vêm mostrando brilho, estando ainda em avaliação para apurar se são diamantes ou zircónia. Porém, é de um não formado em Alcochete que mais se fala entre os adeptos leoninos. Refiro-me a Pedro Gonçalves, ou simplesmente Pote, o Pote de Ouro do actual Sporting. O Pedro é um jogador extraordinário. Tão extraordinário que se pertencesse ao clube do outro lado da Segunda Circular já teria merecido inúmeras parangonas nos jornais envolvendo o interesse milionário de todos os gigantes deste mundo e do outro. Além da excelência que exprime em campo, o Pote é um jogador intrigante que deveria suscitar na crítica o interesse pela descodificação do seu ADN futebolístico. Afinal, estamos a falar de um avançado que pensa como um médio ou de um médio que age como um avançado? Eu diria que ambas as premissas são verdadeiras. Pote é essencialmente um mutante que remata como quem passa à baliza ou organiza o jogo desde trás, mas também serve apoios frontais ao portador da bola como se de um ponta de lança se tratasse e revela inteligência muito acima da média na leitura do espaço entre-linhas por onde melhor pode desequilibrar o adversário (típico de um categorizado "nove e meio"). Sim, se tivesse que destacar uma qualidade no Pote seria a sua inteligência superlativa. Os apoios frontais que oferece à continuidade das jogadas (vidé a sua primeira intervenção no segundo golo na Pedreira) ou a forma como estrategicamente desaparece do jogo para logo revelar a sua letalidade ao saber apresentar-se no momento certo assim o mostram à saciedade. 

 

Melhor marcador do último campeonato nacional, primeiro colocado na corrida pela Bola de Prata deste ano e já decisivo na conquista leonina da Supertaça, o que precisa mais Pote de fazer para ser unanimamente reconhecido como o jogador de referência do futebol jogado em Portugal? Na verdade nada, pois tudo o que depende dele merece a nota mais alta. Já o que depende de terceiros é outra conversa. Fernando Santos que o diga. E assim o Pote arrisca-se a ser visto como um engraçado jogador de um tempo em que um Rafa cai mais facilmente em graça...

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04
Ago21

Abre los ojos


Pedro Azevedo

Tenho apreço pelo jornalista Rui Dias e extraio dos seus textos uma qualidade que na minha modesta opinião o enquadra na esteira de um Pinhão, Miranda ou Vitor Santos. Todavia, creio ter ficado entre o laudatório e o envergonhado na análise que fez ao futebol de Matheus Nunes, iniciando a sua crónica, que extraí com a devida vénia do blogue Leoninamente, com um arrazoado de conclusões que o corpo do seu texto em boa parte até desmente.  

 

Começa o Rui por dizer que Matheus "não tem preocupações estéticas, não é o melhor em coisa alguma nem deslumbra pelo brilhantismo de execução". Estou em desacordo. Não vejo em Portugal ninguém que receba a bola de costas e seja capaz de se virar para qualquer um dos lados e simultaneamente tirar os adversários do caminho com a facilidade com que o médio brasileiro o faz. Acto contínuo, no início da construção esconde a bola com o mesmo enlevo que uma mãe galinha protege o seu ovo, obrigando os seus oponentes à infracção. A sua técnica é refinadíssima e envolve recepção, passe e progressão vertical vertiginosa com a bola em perfeito controlo. A técnica é muitas vezes confundida em Portugal com a habilidade, remetendo para aqueles alas pródigos no 1x1, mas o Matheus usa a ginga inerente à finta com o critério de quem sabe não poder perder a bola em zonas que facilitem a transição adversária. Todavia, quando Rúben Amorim o coloca como interior, o seu poder de drible logo se evidencia. Basta analisar a recepção leonina ao Braga (Liga 2020/21) para se compreender isso, lembrando-me eu nomeadamente de um lance em que no espaço de uma cabine telefónica ultrapassou o cerco de 3 braguistas. E com o Braga, desta vez a contar para a Supertaça, voltou a brilhar, com dois passes açucarados que estiveram na origem de duas flagrantes oportunidades de golo. Falo-vos de uma bola que isolou Nuno Mendes na esquerda para este poder centrar com à-vontade para Pote e de uma assistência para este último que veio a dar a nossa vitória. Sendo o futebol essencialmente tempo e espaço, a recepção, visão periférica e velocidade com bola de Matheus estão perfeitamente enquadradas com essa realidade. 

 

Há, no entanto, aspectos a melhorar no futebol de Matheus. Desde logo no posicionamento defensivo, pormenor em que também não estou de acordo com o Rui. Não creio que o ex-Ericeirense seja um portento tacticamente, embora lhe reconheça uma enorme progressão desde que é comandado por Rúben Amorim. Mas não é incomum ser apanhado fora de posição ou chegar tarde aos lances, situações em que muito tem de melhorar. E com Palhinha ali por perto, difícil será não aprender devidamente. Também mentalmente há trabalho a fazer: um jogador com a sua capacidade de explosão, capaz de invadir o espaço entrelinhas e criar superioridade numérica e desequilíbrios, precisa de ter mais golo. E para ter mais golo, deve rematar mais vezes à baliza. Como tal, tem de afirmar-se mais, desafiar os seus limites. A técnica está lá, o físico idém, desenvolvendo-se táctica e mentalmente tornar-se-á um super jogador, um craque de eleição. Nisso estou totalmente de acordo com o Rui Dias: o Matheus é um projecto ainda em desenvolvimento. O que não impede que seja um dos nossos jogadores que desperta mais atenção lá fora, pensando eu que encaixaria que nem uma luva no futebol inglês ou alemão, latitudes onde técnica e habilidade não se confundem aos olhos dos observadores. Só espero é que o Sporting o consiga segurar por mais uns tempos. É que um jogador com estes predicados e uma montra da Champions pela frente pode valer muitos milhões no futuro e garantir uma rendibilidade semelhante à de Slimani, o argelino que também chegou ao Sporting sem escola e rapidamente se licenciou summa cum laude.  

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05
Jul21

Não há estrelas no céu da Dinamarca, mas...


Pedro Azevedo

Dizem alguns que à Dinamarca falta uma estrela. Contraponho que em 92 o Michael Laudrup amuou com o seleccionador da altura (Richard Moller Nielsen) e não foi à Suécia, o que não impediu os veraneantes dinamarqueses de chegarem à final e aí baterem sem espinhas a todo-poderosa Alemanha. É certo porém que o génio Laudrup ou o furacão Elkjaer Larsen dariam outro "élan" aos nórdicos. Quem não se recorda do amasso que deram ao Uruguai de Francescoli no Mundial de 86? E o Elkjaer até fumava muito, não prescindindo do seu cigarrito no intervalo e final dos jogos como o demonstrou um dos filmes desse Mundial disputado no México. Ao todo eram dois maços por dia, diz a lenda, intoxicação que não se notava no campo tal era o vigor aí patenteado. Era um colosso. Tanto que ao lado de um outro colosso (Briegel) fez do modesto Verona campeão de Itália (85), um feito que pede meças a Maradona e ao seu sucesso em Nápoles. O homem era um ciclone: recebia de costas, virava-se vertiginosamente e lá ia ele imparável, sempre escolhendo o caminho mais curto na direcção da baliza. Grande equipa essa, montada por Sepp Piontek, que também contava com o Soren Lerby, o Frank Arnesen e o Morten Olsen (capitão), entre outros (dava-se ao luxo de ter Allan Simonsen no banco) que levaram os críticos a dar-lhe apodos como "Dinamáquina" ou "Danish Dynamite". Todavia, essa selecção nada ganhou, demonstrando uma grande ingenuidade e perdendo de forma inglória face à Espanha de Butragueño já na fase a eliminar. Ora, o que me faz acreditar na Dinamarca de 2021 é o facto de ser uma equipa muito mais preparada para todos os momentos do jogo, contando nomeadamente com uma solidez defensiva assente no guarda-redes Kasper Schmeichel e num experiente trio de defesas liderado por Kjaer. Onde antes havia rock&roll e um romantismo provavelmente herdado dos movimentos beatnick e hippie dos anos 60 e 70, cabelos compridos e um purismo focado no golo que levou o dinamite a explodir-lhes nas mãos, agora subsiste uma ideia de futebol positivo mas assente numa organização táctica muito superior que os leva a procurar desequilíbrios apenas em zonas do terreno específicas que não comprometam a transição defensiva. E se a estrela Eriksen caiu no primeiro embate, felizmente sem as consequências que se chegaram a antevir para a sua vida, a mudança de sistema táctico de um 3-4-1-2 para um 3-4-2-1 veio até a beneficiar a Dinamarca, uma equipa que quando solta o vendaval lá na frente é muito difícil de parar tal o número de jogadores que consegue colocar em zona de finalização. Mérito do engenho do seu treinador, Kasper Hjulmand, um homem que também se mostra sagaz nas adaptações que vai promovendo durante os jogos. Quarta-feira há mais. O palco será de luxo (Wembley), veremos se os Vikings conseguirão tomar a Inglaterra.

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04
Jul21

Com bons ovos se fazem Hamlets


Pedro Azevedo

A Dinamarca está a fazer história no Euro 2020. Tal como a própria competição, também os nórdicos chegaram tarde. Os seus dois primeiros jogos resultaram em outras tantas derrotas e ninguém dava uma coroa pelo seu futuro na prova. Todavia, uma leitura mais próxima da realidade permitiria antecipar que circunstâncias especiais haviam provocado essa falsa partida: o desfalecimento em campo de Christian Eriksen afectou muito a equipa no jogo com a Finlândia e só a pouca fortuna obstou a que terminassem a primeira parte do jogo contra a Bélgica com uma vantagem muito mais robusta no marcador. Pelo que não foi propriamente surpreendente a reacção dinamarquesa face aos russos, jogo onde os pupilos de Kasper Hjulmand confirmaram todo o seu valor. Na verdade, os Vikings possuem uma coluna vertebral sólida e destacam-se pela condição física que lhes permite constantes desmarcações que dão ao portador da bola diferentes opções de passe. Se cá atrás, o filho do nosso bem conhecido Schmeichel é garantia de defesas de grande aparato, a tripla de centrais formada por Christensen, Kjaer e Vestergaard dá segurança às acções defensivas e permite aos laterais/alas Larsen e Maehle, especialmente este último (revelação deste Euro, jogando de pé trocado), aventurarem-se no ataque. No centro do meio-campo, Hojberg (jogador do Tottenham) e Delaney (Borussia Dortmund) providenciam o equilíbrio entre as acções ofensivas e defensivas, deixando para os três da frente (Damsgaard, Dolberg e Braithwaite) o carrossel na direcção à baliza. Nesse trio, Damsgaard é o elemento que se destaca pela sua qualidade, sendo Dolberg um matador frio e com boa associação com a restante equipa. Para Braithwaite está reservado o papel de espalha-brasas: não tem grande qualidade de definição, mas corre muito e assim desgasta bastante os adversários e abre espaços por onde Dolberg geralmente penetra. Depois, ainda há Poulsen, um avançado muito rápido, Cornelius, ponta de lança possante e de boa técnica, com uma carreira interessante em Itália, o lateral Wass ou o médio Norgaard, tudo jogadores que mantém as rotações altas. Uma palavra ainda para Hjulmand, que no jogo com a República Checa mostrou sagacidade na forma como mexeu na equipa e evitou um czech-mate que a reacção no início do segundo tempo da equipa onde pontefica Schick (igualado com Ronaldo no topo da lista dos melhores marcadores) chegou a alimentar nos espectadores. 

 

Há que contar com estes dinamarqueses. Não escondo que torço por eles e pela sua ideia de jogo. Dez golos nos últimos 3 jogos são um excelente cartão de visita, pelo que aguardo com expectativa o embate face aos pupilos de Southgate. E creio que terão de ser os ingleses a a procurarem adaptar-se aos Vikings. Caso contrário, tal como no Século IX, eles arrombarão e tomarão de assalto a Inglaterra. 

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28
Jun21

Tudo ao molho e fé no Euro21 (ou 20)

Sorte e Hazard...


Pedro Azevedo

A sorte e o azar fazem parte do jogo, mas quando a preparação encontra a oportunidade certa estamos mais perto de ser felizes. Há 5 anos atrás, no prolongamento do jogo dos oitavos-de-final contra a Croácia, Rui Patrício viu a bola beijar o poste direito da sua baliza. No contra-ataque que lhe sucedeu, Ricardo Quaresma marcou o golo que nos qualificou para o mata-mata seguinte. Ninguém acentuou a tónica na sorte lusa ou no azar croata, a imprensa essencialmente assinalou que Portugal ia em crescendo, sendo que a aposta de Fernando Santos em Adrien (secou Modric) para acompanhar William e João Mário - criando-se assim uma coluna vertebral com centro nevrálgico no Sporting - foi dada como determinante para a difícil vitória obtida. A mesma sensação de progressão de Portugal como equipa, já sentida anteriormente aquando do jogo com a França, ficou bem patente ontem em Sevilha. É por isso duro aceitar que tenhamos ficado pelo caminho nestas circunstâncias. Todavia, olhando mais friamente para o processo, é seguro dizer-se que ficámos a meio caminho de uma renovação que nos poderia ter levado ao triunfo. Não deixando de realçar aqui e dar crédito ao facto de a nível do meio-campo ter havido um atempado ajuste - nenhum dos 3 jogadores ontem titulares havia entrado de início nos dois primeiros jogos deste Europeu - , parece-me que a insistência de Fernando Santos num Bernardo Silva em má forma em detrimento de Pote (melhor marcador do nosso campeonato e jogador com passe, golo e inteligência na exploração do espaço entrelinhas) ou mesmo André Silva (circustância em que Ronaldo partiria marcadamente a partir de uma ala, o que defensivamente nos colocaria adicionais problemas perante uma selecção com alas todo-o-terreno) tirou acutilância ao nosso ataque e nem sequer deu uma protecção defensiva adicional à nossa Selecção (Bernardo chegou visivelmente atrasado ao encontro com Thorgan Hazard aquando do golo belga). Assim, não se pode dizer que a vitória belga tenha acontecido por acaso. Pelo contrário, se um jogo é feito de pequenos erros, o atraso de Bernardo na abordagem ao lance provocou o desequilíbrio que na sua origem vir-se-ia a revelar fatal para as nossas aspirações. Não se trata de crucificar Bernardo, até porque a abordagem de Patrício ao lance foi defeituosa (teria bastado um passo em frente ou para a sua esquerda para defender uma bola que entrou sensivelmente a meio da baliza), mas vistas à lupa as coisas são como são. 

 

O principal problema das fases finais das grandes competições mundiais de selecções é o cansaço acumulado que se verifica por saturação de jogos nos melhores jogadores. Por isso, o histórico destes campeonatos é marcado pelo aparecimento de revelações e não tanto pela afirmação dos grandes craques. A frescura torna-se um elemento essencial e não será despeciendo pensar que um dos últimos grandes jogadores que brilharam numa fase final de uma grande competição, Van Basten, beneficiou de ter vindo de uma lesão que lhe poupou grande parte do desgaste da época no AC Milan. Como tal, torna-se fundamental aproveitar o momento de forma de cada jogador e não valorizar excessivamente o seu estatuto. Nesse sentido, Fernando Santos foi procurando adaptar-se progressivamente a esse contexto, mas fica a sensação de que poderia ter feito mais alguma coisa. Ainda assim, a Equipa de Todos Nós perde um jogo que poderia facilmente ter ganho, assim a eficácia tivesse sido razoável. Diogo Jota, por duas vezes, Raphael Guerreiro, Rúben Dias ou André Silva desperdiçaram 5 boas oportunidades e Courtois negou-nos o golo em 3 ocasiões, pelo que Portugal sai do Euro deixando uma boa imagem. Simplesmente, ontem Nª Senhora de Fátima meteu folga. Concomitantemente, Ronaldo, que até fez um muito bom Europeu, não teve oportunidades para marcar, as bolas para golo caíram nos pés e cabeça de outrém, sendo que esse até foi provavelmente o nosso grande azar. Ou Hazard, se quiserem.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Renato Sanches. Criou a primeira grande oportunidade do jogo logo aos 6 minutos, após arrancada perpendicular aos centrais belgas que permitiu a Jota uma situação privilegiada para alvejar a baliza de Courtois. Noutra ocasião, passou De Bruyne e Witsel num misto de força e velocidade e abriu exemplarmente na direita, criando um desequilíbrio a que faltou a continuidade dos outros jogadores. No segundo tempo voltaria a levar Portugal para a frente. Já muito cansado, acabaria rendido a pouco mais de 10 minutos do fim. Deu tudo o que tinha.

 

P.S. Optei por um "Tudo ao molho..." mais analítico. O meu sentido de humor ainda não se reencontrou após as "moules" com batata frita que me custaram a engolir ontem.

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30
Nov20

Ranking GAP


Pedro Azevedo

Nesta temporada de 2020/2021, o Sporting disputou até agora 11 jogos - 8 para o Campeonato Nacional, 2 para a Liga Europa e 1 para a Taça de Portugal -, obtendo 9 vitórias (81,8%), 1 empate (9,1%) e 1 derrota (9,1%), com 30 golos marcados (média de 2,73 golos/jogo) e 10 golos sofridos (0,91 golos/jogo).

 

A nível individual, eis os resultados (estatísticas ofensivas):

 

1) Ranking GAP (medalheiro): Pedro Gonçalves (9,1,3), Nuno Santos (4,7,0), Jovane (3,2,0);

2) MVP: Pedro Gonçalves (32 pontos), Nuno Santos (26), Sporar e Jovane (13); 

3) Influência: Pedro Gonçalves (13 contribuições), N. Santos (11), Sporar (8 contribuições);

4) Goleador: Pedro Gonçalves (9 golos), Nuno Santos (4), Jovane, TT e Coates (3);

5) Assistências: Nuno Santos (7), Porro, Vietto, Feddal, Matheus Nunes e Jovane (2).

 

Algumas notas complementares:

  • Pote e Nuno Santos juntos contribuíram para 80% dos golos do Sporting. Considerando apenas a acção directa (golos, assistências), o seu contributo conjunto é de 70% do total dos golos do Sporting;
  • Pote lidera todos os parâmetros de análise (GAP, MVP, Influência, Goleador), excepto o de assistências;
  • Já 17 jogadores contribuíram para os 30 golos obtidos esta época.
  • Nos 11 jogos da época passada, Ruben Amorim obteve 6 vitórias, 3 empates e 2 derrotas. Somando esses números à substancial melhoria verificada esta temporada, o treinador leonino contabiliza 22 jogos, 15 vitórias, 4 empates e 3 derrotas, ou seja, um total de 68,2% de vitórias, aproximando-se assim do Top 5 dos treinadores do Sporting com melhor percentagem de vitórias pelo clube. Top 5: 1º Robert Kelly 79,2%, 2º Cândido de Oliveira 75.3%, 3º Alexander Peics 73,1%, 4º Joseph Szabo 72,2%, 5º Randolph Galloway 70,5%. Últimos treinadores do Sporting: Marcel Keizer (66,7%), Leonardo Jardim (65,7%), José Peseiro (64,3%, 18/19), Jorge Jesus (63,9%), Jorge Silas (60,7%) e Marco Silva (60,4%). Nota 1: antes desta última vitória, a percentagem de vitórias de Ruben Amorim era exactamente igual à de Marcel Keizer, pelo que assim ultrapassou o técnico holandês; Nota 2: na sua melhor época (15/16), Jorge Jesus obteve 70,6% de vitórias, ficando a um triz de vencer o campeonato (79,4% de vitórias); Nota 3: a Europa tem sido uma fonte de descida das % de vitórias de todos os treinadores (Leonardo não teve Europa e Amorim apenas teve 2 jogos).

 

Ranking GAP (Golos, Assistências, Participação decisiva em golo):

RANKING GAP 8.png

25
Nov20

Ranking GAP


Pedro Azevedo

Nesta temporada de 2020/2021, o Sporting disputou até agora 10 jogos - 7 para o Campeonato Nacional, 2 para a Liga Europa e 1 para a Taça de Portugal -, obtendo 8 vitórias (80%), 1 empate (10%) e 1 derrota (10%), com 28 golos marcados (média de 2,8 golos/jogo) e 9 golos sofridos (0,9 golo/jogo).

 

A nível individual, eis os resultados (estatísticas ofensivas):

 

1) Ranking GAP (medalheiro): Pedro Gonçalves (7,1,3), Nuno Santos (4,6,0), Jovane (3,2,0);

2) MVP: Pedro Gonçalves (26 pontos), Nuno Santos (24), Sporar e Jovane (13); 

3) Influência: Pedro Gonçalves (11 contribuições), N. Santos (10), Sporar (8 contribuições);

4) Goleador: Pedro Gonçalves (7 golos), Nuno Santos (4), Jovane, TT e Coates (3);

5) Assistências: Nuno Santos (6), Porro, Vietto, Feddal, Matheus Nunes e Jovane (2).

 

Algumas notas complementares:

  • Pote e Nuno Santos juntos contribuíram para 75% dos golos do Sporting. Considerando apenas a acção directa (golos, assistências), o seu contributo conjunto é de 64,3% do total dos golos do Sporting;
  • Pote lidera todos os parâmetros de análise (GAP, MVP, Influência, Goleador), excepto o de assistências;
  • Já 17 jogadores contribuíram para os 28 golos obtidos esta época.

 

Ranking GAP (Golos, Assistências, Participação decisiva em golo):

ranking gap 251120.png

11
Nov20

Ranking GAP (após 9 jogos)


Pedro Azevedo

Nesta temporada de 2020/2021, o Sporting disputou até agora 9 jogos - 7 para o Campeonato Nacional e 2 para a Liga Europa -, obtendo 7 vitórias (77,8%), 1 empate (11,1%) e 1 derrota (11,1%), com 21 golos marcados (média de 2,33 golos/jogo) e 8 golos sofridos (0,89 golo/jogo).

 

A nível individual, eis os resultados (estatísticas ofensivas):

 

1) Ranking GAP (medalheiro): Pedro Gonçalves (7,1,3), Nuno Santos (3,4,0), TT (3,0,1);

2) MVP: Pedro Gonçalves (26 pontos), Nuno Santos (17), Sporar (12); 

3) Influência: Pedro Gonçalves (11 contribuições), N. Santos e Sporar (7 contribuições);

4) Goleador: Pedro Gonçalves (7 golos), TT e Nuno Santos (3);

5) Assistências: Nuno Santos (4), Porro, Vietto e Feddal (2).

 

Algumas notas complementares:

  • Nesta época, Pote foi até agora influente em 52,4% dos golos do Sporting;
  • Influência de Bruno Fernandes no total dos golos do Sporting - 2018/19: 59,3%; 2017/18: 49,1% (épocas completas);
  • Pote lidera todos os parâmetros de análise (GAP, MVP, Influência, Goleador), excepto o de assistências;
  • Já 14 jogadores contribuíram para os 21 golos obtidos esta época.
  • Indicadores de Porro: 6º Ranking GAP, 5º MVP, 4º Influência, 6º Goleador, 2º Assistências.

 

Ranking GAP (Golos, Assistências, Participação decisiva em golo):

ranking gap 7.png

03
Nov20

Ranking GAP


Pedro Azevedo

Nesta temporada de 2020/2021, o Sporting disputou até agora 8 jogos - 6 para o Campeonato Nacional e 2 para a Liga Europa -, obtendo 6 vitórias (75%), 1 empate (12,5%) e 1 derrota (12,5%), com 17 golos marcados (média de 2,125 golos/jogo) e 8 golos sofridos (1 golo/jogo).

 

A nível individual, eis os resultados (estatísticas ofensivas):

 

1) Ranking GAP (medalheiro): Pedro Gonçalves (5,0,3), TT (3,0,1), Nuno Santos (2,4,0);

2) MVP: Pedro Gonçalves (18 pontos), Nuno Santos (14), Sporar e TT (10); 

3) Influência: Pedro Gonçalves (8 contribuições), N. Santos (6 contribuições), Sporar (5);

4) Goleador: Pedro Gonçalves (5 golos), TT (3), N. Santos e Sporar (2);

5) Assistências: Nuno Santos (4), Vietto e Feddal (2).

 

Algumas notas complementares:

  • Nesta época, Pote foi até agora influente em 47,1% dos golos do Sporting;
  • Influência de Bruno Fernandes no total dos golos do Sporting - 2018/19: 59,3%; 2017/18: 49,1% (épocas completas);
  • Pote lidera todos os parâmetros de análise (GAP, MVP, Influência, Goleador), excepto o de assistências;
  • Já 12 jogadores contribuíram para os 17 golos obtidos esta época.

 

Ranking GAP (Golos, Assistências, Participação decisiva em golo):

ranking gap 202021.png

14
Set20

Há um Sporting em destaque na Bélgica


Pedro Azevedo

Na Bélgica, cumpridas que estão 5 jornadas da Jupiter Pro League, a grande sensação é o Sporting Charleroi. Contando por vitórias os jogos realizados, este clube da província de Hainaut está em território inexplorado face aos seus pergaminhos históricos. Numa competição habitualmente dominada pelos clubes da Flandres e de Bruxelas - Anderlecht e Club Brugges têm em conjunto 50 títulos - , o Sporting Charleroi nunca foi além de um segundo lugar na já longínqua época de 68/69, classificação que partilha com as duas finais perdidas da Taça da Bélgica como os maiores feitos de um percurso iniciado há 116 anos. 

 

Porém, esta época, o Sporting Charleroi lidera isolado o campeonato, mantendo os sempre favoritos Anderlecht e Club Brugges a 6 pontos e o Standard de Liege a 5. Mais próximo (3 pontos) está o Beerschot, clube que se destacou entre as Grandes Guerras (7 campeonatos) e que desde aí não mais regressou aos tempos de glória. Com a melhor defesa da Liga (1 golo sofrido) e o quarto melhor ataque (9 golos marcados), o Charleroi é uma equipa equilibrada que se dispõe num 4-2-3-1 e tem no iraniano Ali Gholizadeh o seu melhor jogador. Gholizadeh é um ala direito canhoto de boa técnica que pensa como um "10", pelo que os seus movimentos interiores destinam-se mais a solicitar as desmarcações dos companheiros nas costas dos defesas contrários do que a procurar o remate ou o cruzamento. Na outra ala, o nipónico Morioka procura igualmente o jogo interior, pelo que a profundidade é assegurada pelos laterais Busi (direita) e Kayembe (esquerda), este último um velho conhecido dos portugueses após passagens por Rio Ave e FC Porto. Kayembe é menos estereotipado do que Busi, alternando a verticalidade junto à linha com diagonais poderosas em contra-ataque. A equipa encontra geralmente mais dificuldades em compensar as saídas de Busi quando em transição defensiva, sendo esse o seu ponto fraco mais facilmente detectável. O guarda-redes Penneteau, francês, é competente entre os postes, mas evidencia algumas dificuldades a jogar com os pés. Os centrais Willems e Dessoleil são experientes e conhecem-se bem pois estão no clube há muito tempo, algo que mitiga alguma falta de qualidade extra. Os dois pivôs do meio campo são Ilaimaharitra (Madagáscar) e o veterano belga (36 anos) Gillet, recém chegado ao clube, jogador com uma carreira interessante que teve o seu ponto mais alto no Anderlecht e passou por Nantes, Olympiacos e Lens. Todavia, é no quarteto da frente que se pode encontrar o poder desta equipa: se os alas Gholizadeh e Morioka são no fundo interiores e os pensadores do jogo, o jamaicano Nicholson é muito mais um segundo avançado do que um "10", procurando muitas vezes as deslocações para fora da área (e concomitantes arrastamentos) do outro iraniano da equipa, o ponta de lança Rezaei, para encontrar espaços vazios por onde ferir o adversário. Complementando-se dessa forma, Nicholson e Rezaei partilham a liderança dos melhores marcadores da equipa (3 golos cada) enquanto Ali Gholizadeh já assistiu em 3 ocasiões. 

 

Não sendo nada certo que consigam aguentar este balanço, a verdade é que as "Zebras" orientadas por Karim Belhocine - um francês da diáspora argelina que foi futebolista no Sporting de Espinho (2001-2002) - montaram um sistema que funciona e parecem estar a retirar dividendos na mais recente moda do futebol mundial, a aposta nos mercados japonês e iraniano. A ter em atenção, especialmente se o sortilégio de um sorteio futuro os vier a colocar no caminho do nosso Sporting na Liga Europa.

ali gholizadeh.jpg

13
Nov19

Perguntar não ofende


Pedro Azevedo

Porque é que há unanimidade em como o Sporting começou o jogo com a Belenenses SAD num 3-5-2, quando sem bola a equipa se dispunha em 5-3-2, e se diz que terminou o mesmo jogo em 4-4-2 clássico, quando com bola efectivamente a equipa se organizava em 4-2-4? Não há aqui uma incongruência? Será pelo facto de o 4-2-4 ser uma táctica em desuso desde os anos 70 e isso condicionar as análises? Se é por isso, então ainda há melhor: é que eu juro que vi no início da segunda parte contra o Lask a equipa em posse num 3-5-2, o famoso WM de Herbert Chapman, uma táctica à anos 50.   

17
Set19

Nada é inevitável num clube


Pedro Azevedo

"There's no time but the present" or "there's no time like the present"?

 

O Sporting encontra-se num dilema: nem tem um modelo económico de negócio que lhe garanta a sustentabilidade financeira nem obtém resultados desportivos de acordo com a grandeza do clube e com o que gasta. A esse propósito devo já dizer que me interessa muito menos o resultado do próximo jogo do que a próxima geração proveniente da Academia (visto que a anterior a demos polemicamente por perdida). Do mesmo modo, também me interessa muito menos a próxima geração da Academia do que a próxima geração de sócios do Sporting. 

 

A perenidade do clube é o que mais me importa neste momento. Pensei nisto ao observar que para além dos resultados desportivos serem desapontantes também não estamos a preparar de forma conveniente o futuro do clube, essencialmente por aquilo que tem sido na prática, e não em teoria, a fraca aposta em jovens na equipa principal. Mas isso, sendo mau, não é o pior. O que mais me preocupa quando olho para as últimas 3 décadas do clube e para o presente é vêr que em  certos momentos tudo se apresentou perante os nossos olhos como inevitável. Ora, no meu entendimento, nada é inevitável, o importante é que mudemos de rumo.

 

Há muitos anos atrás, recebi uma guitarra como herança de um avô entretanto falecido. Ao longo dos anos, mais do que apenas usá-la, preocupei-me em preservá-la para a geração seguinte, a dos meus filhos. Dei um tratamento à madeira, pus-lhe cordas novas, afinei-a. E o ano passado ofereci-a à minha filha mais velha, não deixando de lhe dar a recomendação que aqui Vos deixo. Da mesma forma que o fazemos nas nossas vidas privadas, quem lidera um clube deve ter o cuidado de preservar um bem comum e de o fazer chegar em bom estado às gerações vindouras, preocupação esse que deve ser infinitamente superior ao privilégio de deter o poder no clube. É por isso também, pelo sentido de bem comum, que deve haver um reporte contínuo aos sócios, de forma a que estes possam percepcionar e avaliar o racional do que está a ser feito. Isso não demonstra só respeito pelos actuais sócios, mas também respeito por todos aqueles já desaparecidos que criaram o clube e o ajudaram a manter, por futuras gerações de sócios e, principalmente, pelo clube em si. 

 

Se quem lidera começar a pensar mais na próxima geração do que na próxima eleição e se os sócios souberem acolher tal opção, rapidamente todos irão compreender que nada é inevitável e que, afinal, tudo é possível. O que é mais curioso nesta forma de vêr as coisas é que quem geralmente pensa mais no futuro do que no presente obtém os melhores resultados. E resultados sustentáveis, não revertíveis por uma daqueles desculpas esfarrapadas em que os menos bons gestores são férteis e que são elucidativas das suas "capacidades". Por isso, do que precisamos é de "sentido de estado" no Sporting. É que pequena política com o foco na perpectuação nos cargos já sabemos no que dá e nós queremos ter um futuro. E brilhante, por sinal. Sinal verde, claro. 

22
Jan19

Ala, que se faz tarde! (2)


Pedro Azevedo

Ontem, mostrei aqui uma comparação estatística relativa à eficácia ofensiva dos alas leoninos Nani, Diaby, Raphinha e Jovane. Mas, o futebol não é só feito de números. Pelo contrário, ele vive essencialmente de momentos, fragmentos, instantâneos que agitam corações e que, capturados, fazem a nossa memória guardá-los para sempre, produzindo-se assim o elo emocional que transforma o desporto-rei num fenómeno à escala planetária. Por isso, hoje, vou repetir a comparação anteriormente feita, só que, desta vez, baseando-me naquilo que os meus olhos viram até agora. 

Comecemos então: 

  • Nani - dos 4 alas, é o que tem melhor leitura dos vários momentos do jogo. Já não tem a velocidade que caracterizou a sua primeira passagem pelo clube - aspecto em que actualmente fica a perder para qualquer um dos seus concorrentes -, mas ainda consegue vencer sprints a jogadores como Corona, como se pôde verificar no último Clássico. É especialmente letal quando recebe a bola de frente para a baliza, podendo encontrar um apoio na zona frontal com quem iniciar uma tabelinha ou, simplesmente, aplicar o seu remate forte e colocado. Não tão forte quando recebe a bola posicionado paralelamente à linha de fundo, demora algum tempo a encontrar a solução adequada ao jogo interior, motivo que leva alguns adeptos a confundi-lo com recreio com a bola, acusando-o de excessiva temporização. Com a idade tem refinado a sua relação com o golo, aparecendo muitas vezes em zonas de finalização, inclusivé fazendo uso do seu bom jogo de cabeça (notável para um jogador relativamente baixo), aspecto onde vence declaradamente a concorrência. Com espaço é letal nas alas, destacando-se pela colocação e tensão dos seus cruzamentos. Mas a característica porventura mais importante para a equipa é a sua capacidade de sentir quando é necessário imprimir aceleração ou, pelo contrário, quando importa pôr gelo e acalmar o jogo, aspectos que tem vindo a refinar com a experiência. Numa fase difícil do clube aceitou regressar. É o nosso capitão e um dos líderes do balneário, e o seu ar desconsolado após o jogo em Tondela mostrou bem o seu grau de comprometimento com o clube. Para mim, é um dos indiscutíveis do plantel leonino;
  • Diaby - é um jogador que faz da velocidade a sua principal arma e que tem boa leitura de jogo interior. Infelizmente, a sua fraca qualidade técnica limita-o bastante, tanto na ligação do jogo por dentro (tabelinhas que não lhe saem por passe deficiente) como na procura da profundidade, onde a recepção de bola nem sempre é a melhor. Lançado em corrida, através de um passe rasteiro nas costas da defesa, é temível, podendo aí aplicar as suas melhores qualidades: velocidade e remate colocado de primeira. Mas se a bola vem por alto e é preciso orientar a recepção, então começam aí os seus problemas. Também não tem um bom jogo de cabeça, já tendo perdido golos "cantados" devido a essa insuficiência. No entanto, é um jogador talhado para o tipo de jogo que Keizer quer impôr no Sporting, pelos seus constantes movimentos de aproximação à bola e disponibilidade física nas movimentações constantes, que ajudam a baralhar as marcações contrárias. A maioria dos seus golos surge quando os jogos já estão resolvidos, aspecto que me leva a pensar que será uma solução a usar a partir do banco quando os jogos já estão partidos e o Sporting lidera confortavelmente;
  • Raphinha - tem uma boa relação com o golo, mas a lesão sofrida numa fase prematura da época limitou a sua progressão. Ainda não tirei totalmente a dúvida se Raphinha é um jogador de ataque continuado ou, essencialmente, de transição. A seu favor tem o facto de a maior parte das suas oportunidades surgirem de lances por si criados a partir da ala direita, mostrando que, sem a ajuda da equipa, desequilibra muito mais do que, por exemplo, Diaby. Contra si, pesa a evidência de que tem poucos golos marcados esta época, estando ainda longe daquilo que mostrou no Vitória de Guimarães. Em Santa Maria da Feira teve um ou outro lance em que mostrou uma variação face ao habitual movimento de diagonal a partir da ala, nomeadamente procurando a linha de fundo para cruzar com o pé contrário (esquerdo), algo que deverá estimular para aumentar a incerteza no adversário. No último jogo (Moreirense), mostrou saber posicionar-se correctamente de forma a poder beneficiar de uma transição rápida, aproveitando depois a sua velocidade e capacidade de finta para marcar um golo ingloriamente invalidado pelo árbitro auxiliar. Jogador muito interessante e com elevada margem de progressão, necessita de estar mais concentrado e conectado com o jogo, aspectos nem sempre presentes no seu desempenho e que o vêm impedindo de brilhar mais;
  • Jovane - para além dos golos e das assistências, é um dos artesãos responsáveis pela criação de inúmeras oportunidades de golo. O jogo em Alvalade, para a Taça de Portugal, contra o Rio Ave, mostrou-o em abundância, quando visou Acuña em dois passes açucarados de ruptura que, posteriormente, permitiram ao argentino fazer duas assistências para golo. Adicionalmente, alguns golos nasceram de roubos de bola deste cabo-verdiano (naturalizado português), aspecto que nem sempre é devidamente realçado ou captado por comentadores especializados e espectadores em geral. Criou-se o mito de que é mais importante para a equipa quando proveniente do banco, mas já fez grandes jogos a titular (Marítimo e Rio Ave). Tem faro de golo e facilidade de remate, destacando-se a potência e colocação do seu tiro de fora da área. Será, porventura e ainda mais do que Raphinha, o mais rectilíneo de todos os alas leoninos. Tem de melhorar a sua concentração e compreensão dos espaços onde pode perder a bola sem deixar a equipa descompensada, mas é um Mustang (adaptando o que de Quaresma dizia Boloni) e um projecto estimulante para qualquer treinador. O mais imprevisível ala leonino do momento. 

 

Bom, estas são as sensações que retiro daquilo que os meus olhos viram até agora. Abro assim este espaço para diferentes pontos-de-vista de adeptos do nosso clube (ou de outros) que queiram divergir/convergir/acrescentar elementos a esta análise que aqui deixo. A todos, o meu obrigado pela atenção dispensada. 

nani e diaby.jpeg

jovane e raphinha.jpg

21
Jan19

Ala, que se faz tarde!


Pedro Azevedo

As posições que suscitarão maiores dúvidas nos adeptos leoninos serão as dos alas (esquerdo e direito). Habitualmente, Nani e Diaby são os homens chamados à titularidade, mas tal não é consensual para a bancada. Há quem peça por Raphinha e quem queira ver Jovane de novo no relvado. A maioria não compreende a fixação de Keizer em Diaby, alguns insistem, incompreensivelmente, em assobiarem Nani com o argumento de que se agarra muito à bola. Nestas coisas, quando grassa a dúvida, nada como nos agarrarmos às estatísticas. Assim sendo, realizei um estudo com duas vertentes: numa primeira, porventura mais simples, fui ver os minutos de utilização de cada jogador e depois dividi-os pelo número de golos obtidos; numa segunda análise, mais fina, dividi os minutos de utilização de cada jogador pela sua contribuição (Golos, Assistências, Participação importante) para os golos.

Os resultados apurados apontam para uma conclusão definitiva: tanto por um critério como pelo outro, Nani e Jovane têm os melhores indicadores de desempenho, pelo que deveriam ser eles a compôr a dupla ideal. Por isso, ala que se faz tarde, Diaby tem de ceder rapidamente o seu lugar na equipa a fim de que o desempenho colectivo da equipa melhore.

 

 GAPminutosG/min.Influência/min.
Diaby6131448241145
Jovane44989922553
Nani9541980220110
Raphinha314967322121

 


jovaneenani.jpg

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