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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

15
Jan20

O meu Sporting


Pedro Azevedo

O meu baptismo de fogo em Alvalade ocorreu no dealbar de 1976 quando Sporting e FC Porto se defrontaram num sempre eterno clássico. Até aí o meu amor ao clube foi sendo estimulado pela rádio, uma onda média face ao tsunami que me invadiu quando pisei pela primeira vez o solo sagrado daquela que viria a ser a minha segunda casa. Pode-se por isso dizer com propriedade que na minha meninice o Sporting passou de ser ouvido para ser vivido, de imaginado para testemunhado, sem que nada do sortilégio inicial se tivesse perdido mas sim reforçado. Curiosamente, a primeira recordação que tenho do Sporting é de um relato que ouvi durante uma viagem com os meus pais. O adversário era o Oriental, cujo guarda-redes curiosamente dava pelo nome de Azevedo. Do nosso lado estava o Yazalde, o índio com cara de anjo, o imortal Chirola, homem preocupado com o seu semelhante como ninguém. Menos na hora de atacar as balizas, está bom de ver, como nessa tarde em Alvalade se voltou a comprovar, com o argentino a deixar a sua marca por 5 vezes numa goleada do Sporting por 8-0. Desse ano (74), recordo-me ainda da inglória eliminação na meia-final da Taça das Taças frente ao Magdeburgo, equipa da hoje extinta República Democrática Alemã. Dois jogos que não nos correram nada bem, o de Alvalade com uma grande penalidade falhada entre um ror de oportunidades desperdiçadas e um auto-golo concedido, o da Alemanha de Leste com Tomé a desperdiçar o golo da qualificação em cima do gongo para terminar o jogo. Em ambos os jogos não pudemos contar com Yazalde, lesionado, o matador que nessa época fez abanar as redes em 50 ocasiões nas várias competições em que estivemos inseridos. Tenho também presente um derby contra o nosso rival que perdemos, mas em que Chirola fez um golo do outro mundo com um cabeceamento a 20 centímetros do chão que foi responsável por uma das últimas vidas do popular Zé Gato dos lampiões, logo de seguida substituído por Bento. Por fim, lembro-me de uma vitória saborosa no Jamor contra o Benfica, com um golo no último minuto de Chico (mais tarde Faria) que nos levou a prolongamento e a pincelada final de Marinho. Se não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão, ter começado a acompanhar o Sporting numa época em que fizemos uma dobradinha não poderia ser mais auspicioso na minha relação com o clube. O mesmo se poderia dizer da minha estreia em Alvalade. Não é todos os dias que se ganha por 5-1 ao Porto e eu estive lá a vê-lo ao vivo, numa época em que já não havia Yazalde mas ainda havia Chico e nascia a lenda de Manuel Fernandes. 

 

Ao contrário dos muitos jovens que hoje são adeptos ou sócios do clube, eu comecei a acompanhar o futebol numa altura em que o Sporting mostrava um ADN vencedor. E logo com uma das melhores equipas da história pós-revolucionária do clube, a qual só teria paralelo com a que Malcolm Allison formou em 82, ou com o "dream team" que Robson montou e do qual foi inusitadamente desbancado em 94. Talvez isso me tenha permitido carregar duradouras baterias de sportinguismo sem necessitar do lítio acinzentado dos nossos dias, baterias essas que me têm permitido navegar o meu sportinguismo para longe da espuma do momento e do surfar delirante na maionese que não condiz com a realidade do clube nem faz justiça ao seu passado de glória.

 

Num tempo em que o sentido colectivo das coisas se perdeu, o Sporting é o exemplo paradigmático de como as estratégias pessoais se sobrepuseram ao interesse comum e foram degradando o ADN do clube. Efectivamente, o Sporting é hoje em dia um clube onde as razões individuais se impõem à razão de um todo como se daí adviesse algo de positivo para o mundo sportinguista, em que os Melquiades de ocasião nos impingem miríficas loções de conhecimento empírico e conhecimento puro enquanto nos preparam para cem anos de solidão, e se denota a cada passo falta de sabedoria. Por isso, hoje em dia sou forçado a expressar a minha revolta vivendo única e exclusivamente o meu Sporting, aquele que é composto pelas minhas experiências e memórias, o que não se resigna, tem ídolos e referências intemporais, valoriza as ideias dos sócios e é empreendedor e renascentista, ganhando ou perdendo. O outro, o actual, não passa de um retrato de Dorian Gray, desfigurado e envelhecido pelo tempo enquanto tantos outros se revigoram. Retrato, que uma e outra vez "apunhalado", vai consumindo os sucessivos perpetradores. Até que um dia, terminado o infernal ciclo destes, possa enfim regressar definitivamente a todo o seu esplendor.  

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