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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

06
Nov19

Niilismo, maniqueísmo e conformismo, eis os males do Sporting


Pedro Azevedo

Não o conheço pessoalmente e nada tenho contra o cidadão Frederico Varandas. Adicionalmente, como Director Clínico, a ideia que ainda hoje retenho é de ter sido alguém muitíssimo competente no decurso suas funções no Sporting. Mas tenho de dizer que como presidente do clube tem falhado em toda a linha. E não falo apenas do que foi a canhestra preparação desta época desportiva e do impacto futuro que a política de aquisições, vendas (Bas Dost, Domingos Duarte) a preço de saldo e empréstimos com cláusulas de opção baixas por parte do clube comprador terá nas nossas já depauperadas finanças, acima de tudo preocupa-me o ambiente que se vive no clube e do qual não tenho memória em 39 anos de associado.

 

Tenho por hábito viajar ao filtro das pessoas, aquilo que na gíria se designa como colocar-me nos sapatos do outro. Desse modo, muitas vezes dou por mim a pensar o que faria se estivesse no lugar do presidente do Sporting e sentisse a contestação dos adeptos. Devo dizer que contestação por contestação não seria nunca motivo suficiente para abdicar das minhas convicções. Penso até que seria uma atitude algo irresponsável demitir-me nessas circunstâncias. Acontece que contestação é uma coisa, o ambiente que se vive no clube é outra. Sendo certo que algum do actual extremismo que se vive no Sporting deriva do radicalismo de linguagem que Bruno de Carvalho introduziu no clube (aquilo a que chamei de "exuberância irracional") quando errónea e despropositadamente trocou o inimigo externo pelo inimigo interno, também não deixa de ser verdade que Frederico Varandas nada fez para alterar esse "status-quo". Pior, do meu ponto de vista acentuou a separação entre sócios do Sporting. Do plebiscito referendário que ditou a destituição do anterior presidente resultou um 71%/29% em votos e uma assimetria ligeiramente menor em nº de votantes. Dado o clima que conduziu à destituição e ao "day after", em que ninguém poupou no verbo (ou melhor, no adjectivo), o radicalismo continuou a grassar. Quando Varandas começou a exercer funções cada um destes grupos já se encontrava confortavelmente barricado na sua trincheira, como se tal fosse o "novo normal" do Sporting. Ora, em vez de procurar um discurso assente no futuro, de reconciliação entre sócios e de aproximação destes ao centro da discussão como aliás havia prometido em campanha eleitoral, o presidente do Sporting não resistiu ao conforto ilusório de gerir a desunião, usando os primeiros opositores como escudo ou justificação para um eventual fracasso, ciente de que a maioria silenciosa estaria consigo. Na minha modesta opinião, um líder não parte para uma batalha com divisionismo nas suas hostes e a preparar uma derrota. Não, um líder arregimenta ao máximo à sua volta as suas tropas e com o foco exclusivo na vitória, ponto. Mais a mais após um acontecimento traumatizante para o clube que recomendava especial atenção e bom senso na colagem dos cacos, algo do género que o Marquês de Pombal exemplarmente quis fazer passar com a célebre expressão "cuidar dos vivos". Acresce que a obsessão com denegrir ainda mais o nome do anterior presidente sempre me pareceu desproporcionada. Uma coisa é eu sentir que Bruno já não tinha as condições psicológicas para gerir o Sporting, que na parte final do seu mandato já confundia o clube com ele próprio, etc, outra é não saber viver com quem partilhe uma opinião diferente ou deixar que se alimente a calúnia, insinuação e um tipo de ataques "ad-hominem" que não gostaria que fossem praticados contra mim. Esse, para mim, foi o primeiro grande erro de Varandas. No meio da exaltação de alguns seus próximos, Varandas nunca soube usar da liderança de forma a suavizar o discurso institucional e assim evitar radicalizar ainda mais o dos saudosos do antigo regime, pensando como um estadista preocupado com a próxima geração e não como um político a preservar a sua eleição. Não, durante uns tempos viveu-se um período de delito de opinião, próximo da "caça às bruxas" de um "macarthismo" bacoco que ignorou algumas realizações do anterior presidente que granjearam legitimamente simpatia nos sócios, mesmo naqueles que não lhe perdoaram a deriva dos últimos meses . Ora, se nós estamos absolutamente seguros da força das nossas convicções não devemos temer as opiniões dos outros, não é assim? À medida que os resultados desportivos mostravam a ponta do icebergue de uma política desportiva incompreensível, Varandas cometeu o seu segundo grande erro: começou o discurso truculento voltado para dentro, primeiro com um alvo definido (Cintra) depois para quem quisesse enfiar a carapuça ("esqueletos", "cientistas", "malucos", "cães que ladram"...), o regresso de uma linguagem imprópria que se julgava erradicada do clube e que ainda ontem se ouviu, imagine-se, em Dias da Cunha ("o bronco", assim se referiu ele a BdC, sendo certo que tem como atenuante já não exercer qualquer cargo no Sporting). Só que já se cumpriu um período de nojo razoável em relação aos acontecimentos de Alcochete e a gestão do futebol de Varandas é algo exogéno a esse dia negro, pelo que os sócios do Sporting, nomeadamente as bases e os moderados, deixaram de bater palmas a esse tipo de maniqueísmo primário e começaram a preocupar-se essencialmente com as consequências da estratégia delineada pela Estrutura para o futebol. Sentindo que a contestação subia de tom e que a fragilidade dos orgãos sociais era mais evidente, logo líderes de algumas claques aproveitaram para mostrar os dentes e vingarem a perda de privilégios. A Direcção respondeu como devia, mas num timing que a fragilizou dado o contexto da equipa de futebol. Entretanto, foi apresentado o 5º treinador da era Varandas, protestou-se um jogo bem perdido contra um clube da terceira divisão, depois de 40 milhões investidos desde Janeiro em contratações a equipa encontra-se à décima jornada a dez pontos do Benfica, não se vê aposta notória na Formação, a Comunicação do clube continua a não acertar uma, as Assembleias Gerais redundantemente vão terminando em arruaça e o Congresso Leonino, espaço onde todos os Sportinguistas podiam finalmente, de uma forma salutar e construtiva, discutir entre si ideias que visassem a melhoria do Sporting, foi adiado com o argumento (dado pela Comissão Organizadora) de que o momento não era o ideal para a reflexão sobre o clube. Convenhamos que é obra! Paralelamente, a equipa de futebol não tem qualquer protecção nos relvados deste país, algo que vem sendo exacerbado pela criatividade dos vídeo-árbitros que nos têm calhado em "sorte". Sobre isto a Direcção também não diz nada. Cria-se assim a sensação de vazio, desconhecendo-se para e por onde se caminha (se é que se caminha) e por que valores lutamos. É a nossa identidade que está em causa quando o niilismo Sportinguista entra em cena e deixamos de acreditar seja no que for e o ressentimento, paralisia e incapacidade de seguir em frente tomam conta do clube. O declínio sente-se a chegar. E é aqui que entra o terceiro grande mal que assola o Sporting: o conformismo. Dado o contexto, tudo hoje em dia no Sporting é visto como uma fatalidade, uma inevitabilidade. É por isso que Frederico Varandas deve repensar o seu futuro no Sporting. Volto a viajar ao filtro do presidente e interrogo-me: se o objectivo de um presidente é fazer os seus felizes, que ilação posso eu tirar de ver toda a gente infeliz e cada vez maior desagregação à minha volta? É aqui que o Sportinguismo do presidente deve, no meu entendimento, prevalecer sobre a ambição pessoal e o natural desejo de inverter o rumo dos acontecimentos, não esquecendo que Varandas tem toda a legitimidade democrática para se manter em funções. Se tomar uma atitude agora, dando o seu acordo para um pacto de regime que viabilize a realização de eleições assim que termine este campeonato, estará a prestar um serviço relevante ao clube, permitindo que projectos alternativos possam ser apresentados aos sócios e por eles devidamente escrutinados com a calma, serenidade e ponderação que não existiu no pretérito período eleitoral, evitando-se assim decisões puramente emocionais ou uma daquelas mudanças que deixem tudo igual ou pior. Se não o fizer, fiél ao seu slogan eleitoralista, continuará a "unir o Sporting". Temo é que os nós usados para o unir acabem por deixar o clube estrangulado.      

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