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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

11
Dez22

Crónica do Marrocos-Portugal


Pedro Azevedo

Portugal foi eliminado do Mundial do Qatar. Perdemos, mas podíamos ter empatado ou até mesmo ganho, o que decorre da forma como sistematicamente especulamos com o jogo quando defrontamos equipas teoricamente inferiores a nós, expondo-nos assim aos detalhes ou à Santinha. Só que, na ocasião, os detalhes não estiveram connosco e a Santinha, compreensivelmente, teve de se haver com outros males do mundo que não lhe permitiram atenuar os nervosos esgares de pescoço do Engenheiro, razão pela qual já estamos a fazer as malas. Aliás, contrariando o adágio popular que nos diz que as coisas boas vêm aos pares, os detalhes desfavoráveis para nós surgiram em dúo: por duas vezes remates indefensáveis de Bruno falharam o alvo por um fio de cabelo, Bono teve uma parelha de defesas a roubar o golo a Félix e a dupla Ramos e Pepe não teve cabeça para meter a bola nas redes de Marrocos. Já para não falar do momento do jogo, em que Rúben Dias se encolheu a ver En Nesyri saltar e Diogo Costa acertou com os punhos na atmosfera. Caricato, no mínimo.

 

Portugal desperdiçou ingloriamente uma parte da partida a jogar xadrez, algo particularmente imprudente tendo a amostra do que havia acontecido a Espanha. Além disso a escolha do médio defensivo a quem coube o início da construção foi desastrosa. Não é que Rúben Neves não seja um bom jogador, simplesmente a disposição sem bola dos magrebinos pedia um outro tipo de abre-latas. Por exemplo, alguém que saísse em posse com facilidade da pressão e criasse superioridade numérica no miolo (Matheus Nunes), ou que tivesse a qualidade de meter um passe rasteiro e vertical entre-linhas (William), ou que se constituisse como um tampão aos contra-golpes adversários e assim libertasse a criatividade dos restantes colegas do meio-campo (Palhinha). Sem nenhum jogador nessa posição crucial com as características adaptadas ao jogo de Marrocos, Portugal limitou-se a circular a bola pela frente dos africanos. Uma circulação em "U", sem risco nem capacidade de entrar dentro da equipa marroquina, a que se somou negativamente a quase ausência de movimentos 1x1, o não ir para cima do seu adversário directo, uma falta de criatividade da qual só Félix esteve isento. Mas, lá está, quando se escolhe um médio que não tem nenhuma das qualidades supracitadas e nem sequer tem liberdade para aplicar a sua melhor arma (remate), o resultado é ter de recuar Bernardo ou Bruno para posições onde ficam demasiadamente longe da baliza adversária, que é como quem diz afastados do objectivo do jogo (o golo). Como também não faz sentido meter Ronaldo no relvado, a equipa melhorar e depois fazer sair o outro avançado, não potenciando assim as segundas bolas que o choque do 5 vezes Bola de Ouro com os defesas propiciaram. Aliás, nunca houve a aproximação devida do resto da equipa ao seu ponta de lança. Porque a maioria dos jogadores trazia a cartilha errada. Vidé os inúmeros cruzamentos da direita que apanharam Rafael Leão aberto na esquerda, quando deveria ir ao encontro da bola na área, ou as bolas que CR7 amorteceu em zona perigosa e às quais não acolheu ninguém, exceptuando João Félix numa ocasião.

 

Portugal não tem uma identidade, não assume a sua teórica superioridade nos jogos. Os jogadores são bons, habituados a jogar em grandes equipas e grandes palcos, embora me pareça que a selecção final para este certame descurou características como velocidade (Guedes), irreverência e combatividade (Vitinha, do Braga) ou qualidade no ar (Beto) que nos poderiam ter sido úteis. Então qual é o problema? A meu ver o comandante, que faz fracas as fortes gentes, cozinhando uma equipa com medo da própria sombra, o que obriga jogadores que podiam ser decisivos a desgastarem-se fora das suas posições naturais, onde não molestam os adversários. As peças são ordenadas e desordenadas de uma forma algo caótica, o que por vezes surpreende a oposição como no tal Euro que permitiu a Fernando Santos elevar-se a Grande Mestre. Mas o Engenheiro não é um Alekhine, Karpov, Fischer ou Kasparov, longe disso, embora por vezes lhe saia um Éder da cartola. Simplesmente, a ideia com que se fica é que as apostas são tão aleatórias e as convicções tão ténues que em qualquer outra ocasião o próprio ilusionista mata o número do coelho. Com tudo a ficar entregue ao improviso do momento, se a fantasia não sai dos pés dos jogadores, mais se nota a desorganização latente. 

 

Antes do jogo muito se falou de vingar Alcácer-Quibir, como se uma hipotética vitória em 90 minutos de futebol compensasse 60 anos de perda de soberania. Não compensaria. Ainda assim, perdemos. Agora só nos resta esperar pelo dia de nevoeiro em que regressará El Rei... D. Ronaldo. Acreditem ou não, ainda vai ser necessário alimentar o mito. (Será sempre mais autêntico do que alimentar o mito de que sem Cristiano a Selecção fará melhor nos próximos anos. Querem apostar? Eu creio que ainda iremos chorar baba e ranho a sua aposentadoria.)

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