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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

03
Fev21

Análise ao Mercado de Inverno


Pedro Azevedo

Analisando do ponto de vista estritamente desportivo, o Sporting realizou em teoria um bom Mercado de Inverno. Nesse sentido, no papel, Paulinho é um "upgrade" face a Sporar, Matheus Reis uma melhoria em relação a Borja e João Pereira veio colmatar a ausência de um lateral/ala direito de raiz como alternativa a Porro. 

 

Começando pelo atacante comprado ao Braga, acredito que traga coisas ao futebol do Sporting que não tínhamos. Paulinho é mais forte nos apoios frontais que Sporar - envolvendo a equipa através de um bom passe de primeira, ou segurando a bola em zona de potencial perigo e permitindo assim aos interiores e "box to box" chegarem - e melhor dentro da grande área, revelando nesse particular melhor timing de ataque à bola e técnica de cabeceamento bem superior à do esloveno. Porventura não será tão forte quanto Sporar na exploração da profundidade e na transição, aspectos em que o esloveno, apesar de não muito rápido, se destacava pela inteligência de movimentação, mas a sua melhor relação com a bola e o golo pode ajudar simultaneamente as características de Nuno Santos, que embora adaptado como interior mantém o seu ADN de extremo que vai à linha e cruza à procura da referência na grande área, e de Jovane e Pote, jogadores que vindo de trás poderão beneficiar da fixação dos centrais que Paulinho faz tão bem. Acresce que Rúben Amorim conhece-o bem, tendo com ele trabalhado dois meses e duas semanas no Braga, tempo compreendido entre 23 de Dezembro de 2019 (data em que o treinador substituiu Sá Pinto) e 6 de Março de 2020 (ingresso no Sporting). Nesse período, Paulinho marcou 6 dos 25 golos obtidos na época, 5 deles no campeonato e 1 na Taça da Liga, competição que aliás o Braga de Rúben Amorim viria a conquistar. Dado esse conhecimento, mesmo pesando a incerteza como o atacante se irá adaptar a uma grande cidade e à exigência de um grande clube, será correcto pensar que Paulinho estará familiarizado com o sistema, as ideias e as dinâmicas de jogo do treinador, sendo esse menos um factor a necessitar de ambientação. Sendo certo que Paulinho é globalmente mais jogador do que Sporar, o risco aqui é o do esloveno vir a marcar mais do que o português, num cenário em que o Braga ainda não está totalmente afastado de disputar uma posição na tabela classificativa connosco. Isso, a acontecer, poderá criar algum ruído entre os adeptos leoninos, nomeadamente se o título nacional não for conquistado. Não é um cenário impossível de acontecer, o que não significará na minha opinião que a operação de mercado tenha sido incorrecta (do ponto de vista desportivo, insisto) da nossa parte. A concorrer para essa possibilidade está o facto de as equipas que defrontam o Braga não recorrerem a um bloco tão baixo como quando defrontam o Sporting, deixando espaços nas costas para as transições que tanto favorecem o esloveno. Todavia, a verdade é que o Braga já impõe um respeito nos adversários que não transforma esses espaços propriamente em avenidas. 

 

Em relação a Matheus Reis, é um jogador versátil que pode fazer duas posições (lateral esquerdo e central pela esquerda). Trata-se de um jogador que cresceu muito com Carlos Carvalhal no Rio Ave, treinador com quem se estreou em Portugal como central pela esquerda. Embora tenha actuado preferencialmente como lateral, Carvalhal utilizou-o como central em jogos de especial exigência, nomeadamente com Braga e Benfica. Não se pode dizer que a experiência tenha sido totalmente satisfatória na medida em que esses confrontos terminaram com duas derrotas (ambas por 2-0) para os vilacondenses. Viria a jogar de novo como central contra o Gil Vicente, mas o cenário manteve-se (derrota por 1-0), terminando aí o seu histórico como titular na Liga NOS nessa posição, aí voltando ocasionalmente como solução táctica alternativa durante os jogos. Porém, Matheus Reis viria a realizar uma boa época de 19/20 no Rio Ave, com 37 jogos, 1 golo marcado e 6 assistências. Destaca-se por ser um jogador com muita chegada à área adversária e bom entendimento do jogo, aspectos em que é um claro "upgrade" face a Borja, este último um jogador que como é do amplo conhecimento dos Leitores/Comentadores deste espaço não me convenceu desde o primeiro dia. Matheus poderá permitir gerir a condição física de Nuno Mendes e tornar-se a principal alternativa deste, até porque Antunes não parece ter sido um bom movimento do mercado anterior. Em relação à posição de central pela esquerda, acredito que Rúben Amorim dê primazia a Gonçalo Inácio como primeira alternativa a Feddal, podendo lançar o joker Matheus em momentos do jogo em que necessitemos de "pôr a carne toda no assador" (à semelhança de jogos como o do Gil Vicente em que Nuno Mendes passou a central pela esquerda e Nuno Santos recuou para lateral/ala). O único senão é estar há muito tempo parado (4 meses, desde a eliminatória com o Besiktas), mas isso não deverá ser muito problemático para um jogador de 25 anos.

 

João Pereira é um jogador que apesar dos seus 36 anos chega com ritmo do jogo. Disso é evidência o facto de ter realizado 47 jogos na última época e meia. Não tem tido muitas lesões, exceptuando uma curta paragem devido a um problema na virilha e uma rotura que o fez perder 3 semanas no início desta temporada. Vem suprir a ausência de um lateral/ala direito de raiz que substitua Porro, dado que Plata era uma adaptação. Segundo a imprensa, irá integrar os quadros técnicos de Alcochete na próxima época. É conhecido de Rúben Amorim, tem muita experiência e regressa para uma terceira volta no clube de José Alvalade, pelo que não necessitará de tempo de adaptação. Se Porro não se lesionar entretanto, a sua utilização visará a gestão da forma física do espanhol. À partida parece-me recomendável uma solução desta natureza em detrimento de um investimento no mercado, na medida em que só estamos envolvidos no campeonato, a prova europeia há muito que ficou pelo caminho e há um titular óbvio para a posição. 

 

Em termos de dispensas, Ilori (Lorient), Camacho (Rio Ave), Pedro Marques (Gil Vicente), Pedro Mendes (Nacional) e Ivanildo (Almeria) saíram por empréstimo, Ristovski (1M€, Dínamo de Zagreb) e João Silva (custo zero, Alavés) deixaram-nos a título definitivo. Sporar e Borja foram incluídos no negócio de Paulinho, sendo que o esloveno foi emprestado (cláusila de opção de €7,5 Milhões) e os direitos económicos do colombiano passaram para o Braga. Creio serem interessantes os empréstimos de Camacho e de Pedro Marques, que poderão crescer em competição. Camacho precisa de melhorar a tomada de decisão, Marques necessitava de um novo desafio num espaço competitivo de maior dificuldade. Esse espaço poder-lhe-ia o Sporting ter dado, mas a verdade é que a prioridade era Paulinho e ao nosso jovem ponta de lança nunca foi dada a oportunidade de mostrar continuidade de rendimento face ao demonstrado contra o Sacavenense. Tenho pena que Pedro Marques não tivesse ido para o Farense, nossa filial nº 2, que bem precisado está de um ponta de lança com faro de golo (Stojiljkovic tem outras características, mais de combate e de procura da profundidade), mas nem sequer sei se o clube de Faro mostrou algum interesse. Ao Gil sempre pensei faltar um homem com faro de golo, pelo que creio poder encaixar bem em Barcelos. As outras dispensas são de outros jogadores sem espaço neste plantel, tendo Ilori desperdiçado inúmeras oportunidades até. 

 

Se do ponto de vista desportivo estou satisfeito com o movimento no mercado, do ponto de vista financeira redobrei no meu cepticismo quanto ao futuro. Se, antes da pandemia, precisávamos de cerca de €70 milhões em vendas de jogadores para zerar os nossos Resultados anuais, o actual contexto sem Europa, receitas de bilheteira e previsível descida dos proveitos de merchandising veio ainda piorar mais a situação. Tal aliás explica em parte as dificuldades que temos sentido para pagar Rúben Amorim ao Braga e torna mais insustentável o argumento para a contratação de Paulinho, operação que mesmo considerando zero o valor de Borja (a venda poduziu-se por €3 milhões, ainda assim abaixo do valor de contratação, ao passo que a compra de Paulinho terá sido de €16 milhões) deverá ficar por 13 milhões de euros mais cerca de 2 milhões (segundo ouvi num telejornal) da diferença de ordenado de Borja até ao final do contrato (Junho de 2024) mais talvez 0,5 milhões de ordenados de Sporar até 30 de Junho. Um total de cerca de 15,5 milhões de euros por 70% do passe, que poderá ainda vir a ser acrescido de mais 7,5 milhões caso surja uma proposta de compra de 25 milhões pelo jogador que a SAD do Sporting venha a recusar, cenário em que o Sporting teria de comprar os restantes 30% do passe. E isto sem falar de possíveis comissões pagas, ou de um valor entre 10% a 15% que o Braga ainda poderá vir a buscar pela promoção ("vitrine") de Sporar caso este venha a ser vendido (o Braga também terá direito a comprá-lo no fim da época por 7,5 milhões de euros). 

 

Não é à toa que o Mercado de Inverno a nível internacional foi muito mais fraco que em anos anteriores. Os clubes, dada a queda pronunciada de receitas e o cenário de incerteza futura, compreensivelmente moderaram-se. Um pouco em contra-ciclo, o Sporting fez uma cava de roleta. Se ganhar o campeonato, argumentar-se-á que o jogador foi influente nesse triunfo, se se apurar directamente para a Champions a coisa será vista como assim-assim, se nenhum destes dois objectivos for alcançado então a operação poderá ser vista como um desastre. Acresce que o jogador tem 28 anos e o mercado está retraído, o que dificultará a sua revenda futura com alguma mais-valia. Adicionalmente, é preciso não esquecer que a banca deixou de apoiar os clubes portugueses, seja via financiamento, seja por via da tomada firme de empréstimos obrigacionistas (temos um que finda para o ano), o que nos deverá obrigar a descontar mais receitas da NOS. Este é um aspecto que considero nocivo à nossa sustentabilidade futura, como também o são quaisquer compromissos que passem o termo do mandato dos actuais orgãos sociais, algo tão criticado na gestão anterior e que até se tem vindo a agravar entre aumento da dívida a fornecedores e novos compromissos estabelecidos no tempo. A propósito, a quantos anos ficou estabelecido pagar Paulinho ao Braga? Compreendo, no entanto, que fosse difícil negar este desejo a Rúben Amorim. O treinador entrou em Alvalade numa altura crítica e com tudo a desmoronar-se. Inteligente, soube precaver-se e tirar partido disso e justamente reivindicar poderes alargados em matéria de contratações. Sinal disso foi nunca mais se ter ouvido que ao treinador caberia treinar e à Estrutura escolher os jogadores, modelo tantas vezes repetido no tempo de Marcel Keizer. Ora, depois de um trabalho fantástico em que tem vindo a conciliar resultados desportivos com apostas que num cenário normal de mercado teriam valorizado já em muito tanto os jogadores da nossa Formação como alguns contratados no Mercado de Verão, é explicável que a Direcção se sinta impelida a dar um presente ao seu treinador. O problema é que o Sporting continua a viver muito acima das suas possibilidades. A única novidade é que já não está só acompanhado pelo Porto nesse particular, porque o Benfica, após uma péssima gestão dos proveitos inerentes à venda de João Felix, passou de uma situação privilegiada para um estado igual ou pior. E, se na época passada ganhou cerca de €40 milhões de euros, isso aconteceu depois de vendas de jogadores de cerca de €130 milhões e Champions. Esta temporada, sem vendas significativas e sem Champions, como será? Obviamente, para o Sporting tentar ir à Champions também deverá ser um desígnio. Todavia, a sucessiva irrelevância na Europa conduziu-nos a um cenário em que o prémio de presença na fase de grupos é pouco mais do que metade dos de Porto e Benfica, razão pela qual deveríamos ter como principal preocupação o equilíbrio dos Resultados Operacionais, não considerando como actividade operacional aquio que é cada vez mais incerto (as vendas). Acresce que estamos a fortalecer economicamente todos os anos o Braga, o clube que em Portugal indiscutivelmente melhor tem lidado com o mercado e o contexto da crise sanitária e económica. 

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