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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

08
Mar21

À mulher de César...


Pedro Azevedo

A ANTF apresentou uma queixa em Março de 2020 e, 1 ano depois, a Comissão de Instrutores da Liga decidiu deduzir acusação contra a SAD do Sporting e o seu treinador Rúben Amorim por alegada fraude na inscrição do jovem técnico, o qual arrisca uma sanção entre 1 e 6 anos de suspensão de actividade. 

 

A notícia é hoje avançada pelos meios do Sporting e não pode deixar de merecer uma reacção de Castigo Máximo. Em primeiro lugar, ninguém terá dúvidas de que existe, neste como num número considerável de casos que adiante escalpelizaremos, uma habilidade por parte do clube no sentido de contornar o regulamento da Liga, o qual foi aprovado por todos os clubes. Acontece que a Liga, enquanto organizadora da competição, tendo na sua posse certamente inúmera documentação de prova no sentido de que o espírito do seu regulamento vem sendo deturpado pelos clubes, poderia simplesmente ter recusado esta e outras inscrições ab-initio. Não o fez e lá saberá porquê, não sendo dispiciendo (não sou jurista, mas...) pensar que um recurso aos tribunais por parte dos clubes poderia inverter a decisão com base em argumentação de que se estaria a vedar inconstitucionalmente o direito ao trabalho. A concorrer para isso, não pode a Liga ignorar que existe um problema com a formação de treinadores, que subverte a própria Lei da República. É que estando previsto na Lei 40/2012 (e posteriormente na Lei 106/2019) a possibilidade de outras entidades ministrarem cursos (a certificação final cabe sempre ao IPDJ), é a própria UEFA que mediante convenção com a FPF obriga esta a deter o exclusivo da formação de treinadores. Assim sendo, os cursos nem sempre estão abertos e é vedado ao aspirante a um determinado nível procurar outras entidades, em Portugal ou no estrangeiro, para esse fim. 

 

Como toda a (in)acção pressupõe uma reacção, a falta de celeridade nos vários degraus (4) do processo de certificação de um treinador acaba por conduzir ao habitual xico-espertismo luso. A questão é que isso está longe de ser um exclusivo do Sporting. Senão vejamos: em Fevereiro de 2007 bastaram 6 meses para Jorge Costa pendurar as chuteiras no FC Porto e iniciar uma carreira de treinador no Braga. Estava à época a começar o nível 2 do curso de treinadores. Uma situação análoga à que paralelamente vivia Paulo Bento no Sporting. Em 2012, havia 5 treinadores sem habilitação para tal. A saber: Marco Silva (Estoril), Nuno Espírito Santo (Rio Ave), Paulo Fonseca (Paços de Ferreira), Pedro Emanuel (Académica) e... Sérgio Conceição (Olhanense). Curiosamente, todos com trabalhos muito meritórios, mesmo sem o curso requerido. À epoca, ouvido sobre esta matéria, Conceição referiu: " Pela experiência que já adquirimos, quer como jogadores quer já como treinadores, era aconselhável que se criassem algumas excepções que permitissem a conclusão da formação e assim o exercício da actividade com o estatuto de treinador principal". Todos estes treinadores contornaram Lei e regulamento, apresentando-se como adjuntos. Em Março de 2018, 4 treinadores não tinham habilitações para treinar na Primeira Liga. Contudo, faziam-no, uma vez mais usando o expediente de sempre (falso treinador adjunto). Eram eles Pepa, Petit, Sérgio Vieira e Silas. Os dois primeiros acaberiam por completar o IV nível antes do final do ano. João Henriques entretanto treinou o Santa Clara em 2018 com o UEFA Pro - nível 3, Filipe Martins tinha apenas o nível 2 quando dirigiu o Feirense em 18/19. Em 19/20, Silas (B SAD e Sporting), Rúben Amorim (Braga e Sporting), Custódio e Artur Jorge (Braga) e Sandro (Setúbal) não preenchiam as condições para serem treinadores principais na Primeira Liga. Contudo, eram-no. 

 

Como se pode observar por esta longa lista, têm existido diversos clubes a aproveitar a possibilidade conferida pelo Regulamento de inscrever um treinador (principal) sem a habilitação requerida como adjunto na ficha de jogo. Todavia, sendo certo que é recorrente ver a ANTF a protestar, só na actual situação que envolve Rúben Amorim e o Sporting é que a Comissão de Instrutores da Liga decidiu actuar. É fá-lo num momento em que, curiosamente, Rúben Amorim já pode exercer livremente as suas funções, o que torna esta acusação e o momento em que se produz ainda mais insólitos (para não falar da circunstância de o Sporting comandar destacadamente a Liga, argumento favorável à plena competência para exercício de funções do seu treinador). É que por protocolo convencionado entre clubes e Liga, passou a ser possível aos treinadores inscritos no IV nível dirigir as suas equipas, algo que aproveitou a Rúben. O que ainda dá mais razão a quem questiona o timing e a arbitrariedade desta acusação. A velha história da mulher de César...

 

Sem prejuízo da acção do nosso departamento jurídico, há uma forma ideal de lidar com isto: ganhar ao Tondela. E assim sucessivamente. Não embarcando em distrações. O resto só servirá para alimentar o país do faz de conta onde vivemos, que, sempre selectivamente, de quando em vez gosta de exibir serviço (a quem manda?) a coberto de uma suposta virgindade há muito tempo perdida. O Eça é que nos topava bem...

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