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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

17
Mai23

Até um dia


Pedro Azevedo

O Sporting é o meu grande amor fora da esfera familiar, mas, tal como alguns amores que são tóxicos, chega a altura em que o afastamento é a melhor solução. O amor continuará a estar lá, mas não poderei mais pactuar com quem não partilha dos mesmos valores. 

A decisão da administração da SAD de aumentar os seus salários, quando sabemos que Matheus foi vendido para "pagar coisas básicas" (Amorim dixit), não é só uma decisão economicamente (e desportivamente) contestável. Ela, principalmente, enferma de um flagrante conflito de interesses, na medida em que os seus proponentes são também os seus principais beneficiários. Proponentes que pegaram no voto do Sporting Clube de Portugal e tomaram-no a favor da sua proposta, sem prévia consulta aos associados. Errado do ponto de vista da higiene democrática e atentatório das regras de boa governance, nomeadamente no que concerne à prevenção de conflito de interesses. 

O Sporting entrou-me pelo ouvido, numa onda média (rádio), em criança, mas rapidamente virou um tsunami aquando da minha aparição em Alvalade. Tinha oito anos de idade. Todavia, nunca esquecendo a origem das coisas, foi mais tarde, com outra consciência, já adolescente, que me revi totalmente no clube, nos seus princípios e valores. E é a presente ausência de correspondência entre estes e os meus que me leva a dizer até já a este compagnon de route de uma vida (fiz-me sócio em 1980, com o dinheiro das minhas mesadas), algo que aliás já se vinha progressivamente materializando

 

O amor nunca acabará e o Sporting estará sempre no meu coração. Mas será sempre o meu Sporting, uma ilha na lua como diria o Rimbaud. Não este, que vende gato em palavras por lebre em acções e já não compagina com a diferenciação que eu tanto estimava. Tanto que pouco ou nada me interessa o que outros clubes façam nesta matéria, porque nós sempre nos afirmámos como diferentes. E, se não somos, não contem comigo para bater palmas. Como não quero contribuir para a verborreia que sinto irá crescer nos próximos tempos, permanecerei em silêncio. Voltarei no dia em que o Sporting coincida de novo com o meu Sporting. Até lá! 

PS1: Em 2018, com as listas de candidaturas ao Sporting já entregues, elaborei um plano estratégico para o clube, definindo aí 3 pilares fundamentais. Ofereci-o a todos os candidatos e a todos os Sportinguistas que se quisessem rever nele. Cheguei até, em tempo de calamidade, a pensar em ter um papel mais actuante, naquilo que pode ser considerado um momentâneo lapso de razão do qual muito me penetencio,. Esse documento dava particular ênfase a regras de boa governação, que continuam arredias ao clube. Assim sendo, entendo não haver interesse do mesmo em se tornar mais transparente e em conformidade com as melhores práticas de gestão. Deste modo, o meu afastamento fica plenamente justificado. 

PS2: Pedindo desde já desculpa pela omissão inicial que justifica esta tardia adenda, gostaria de deixar aqui o meu profundo agradecimento aos Sportinguistas e adeptos do desporto em geral que ao longo destes anos por aqui passaram, com o meu reconhecimento por sempre terem respeitado este espaço, concordando ou discordando das opiniões expressas pelo autor, enobrecendo-o pela riqueza de argumentos e urbanidade usada nos seus comentários. A todos desejo as maiores realizações no plano pessoal e profissional. Bem-hajam! 

PS3: A confirmar-se a presença massiva de benfiquistas em lugares de bancada de exclusiva atribuição a sócios e adeptos Sportinguistas, mesmo considerando questões ponderosas de constrangimento financeiro dos seus habituais titulares,  tal terá de ser encarado como muito triste e preocupante. O que nos deveria remeter para a origem ("Genesis") do nosso amor ao clube. Por falar nisso, os Genesis tiveram um álbum chamado Selling England by the Pound. Estaremos nós na iminência de vender a alma por um punhado de euros?

 

P.S.4. Para lerem sobre futebol puro e duro, podem consultar o meu novo blogue "A Poesia do Drible": apoesiadodrible.blogs.sapo.pt

15
Mai23

O tempo


Pedro Azevedo

O conceito de tempo no Sporting é diferente do que no Benfica e Porto. Enquanto em Alvalade nunca falta quem diga que "há que dar tempo ao tempo", nos nossos rivais há uma urgência mais compaginável com o provérbio "não deixes para amanhã o que podes fazer hoje". A consequência de tudo isto é no Sporting pedir-se tempo para depois o desperdiçar ingloriamente. O pior é que isto vem acontecendo desde o final dos anos 50 do século passado. E com uma progressão de razão geométrica. Senão vejamos: se nos anos 60, o clube desperdiçava 3 em cada 4 anos, a partir de meados dos anos 80 passou a queimar 18 ou 19 anos num total de 19 ou 20, descendo de um aproveitamento de 25% para um à volta de 5%, ou seja, cerca de 5 vezes inferior. E nem a sempre tão falada rotação de presidentes, ao contrário da maior estabilidade dos rivais, explica este facto, na medida em que o Sporting teve exactamente o mesmo número de presidentes quando a seca foi de 4 anos (espaço temporal entre 58 e 70) que no período superior de 19 anos: seis. Mais estranha ainda que a falta de urgência no Sporting é a ausência de endeusamento do presidente mais vezes campeão de sempre, Ribeiro Ferreira, 6 vezes ganhador em 7 anos de mandato. Fala-se muito de João Rocha - 3 campeonatos em 14 - e com muita justiça dada a sua visão de ecletismo para o clube - , mas muito pouco do presidente mais laureado de sempre no futebol. Mas, como "há que dar tempo ao tempo", um dia essa obra ainda merecerá o devido relevo. Sem urgência, claro, que, como o senhor já não está entre nós, um ano a mais ou menos no seu esquecimento não alterará o seu estado civil. E assim o tempo vai passando e o Sporting contemporizando. Contemporizar é aliás a nossa característica predilecta, só comparável à procrastinação. Singular, pois, sendo cada vez mais um "outsider", seria de pedir a um clube de semelhante dimensão histórica que ousasse, inovasse e tivesse uma atitude disruptiva face a um sistema que o comprime. Mas não. No Sporting as elites, a vanguarda, estão na retaguarda e a retaguarda está no Miguel Bombarda, à beira de um ataque de nervos, entre a auto-exclusão da sociedade e o estertor após umas passas de cannabis. Sobra assim a classe média, que deveria pegar no leão pela juba, mas esta divide-se entre o sebastianismo mais ou menos disfarçado e o mero conformismo. Assim, tudo fica para amanhã, que variações (Variações?) não poderia(m) ser para hoje. A boa notícia é que, adiando tudo, só podemos ter futuro, que presente não temos nenhum. Mas amanhã, quem sabe... [Se bem que as coisas hoje não são mais o que propunha o passado (há 2 anos) para o presente.]

14
Mai23

Tudo ao molho e fé em Deus

Restaurador Olex


Pedro Azevedo

No futebol, o que é natural e fica bem é cada um actuar de acordo com a sua vocação. Com Restaurador Olex, cada interveniente no jogo recupera a sua posição primitiva. Assim, o Coates pode concentrar-se na arte de marcar golos (em vez de os oferecer ao adversário), o Paulinho em evitá-los e o Tiago Martins em estender a passadeira vermelha ao novo campeão. (Já que o Rúben Amorim não se mostra, e bem, disponível para guardas de honra no contexto actual, convém haver um voluntário que as faça.)

 

Os últimos 10/15 minutos de ontem em Alvalade foram paradigmáticos da diferença que a aplicação de Restaurador Olex provoca no futebol português e no Sporting: para começar, o Autogolo voltou a evidenciar-se como o nosso melhor ponta de lança, o que não deixa de ser surpreendente num avançado que chegou a custo zero, não tem ordenado e nem sequer pode ser dado como um exemplo de amor à nossa camisola. Depois, o Coates mostrou o seu instinto matador, sendo ele o segundo no ranking dos nossos avançados-centro. De seguida, o árbitro desrespeitou o seu auxiliar e validou um golo irregular ao Marítimo. O Adán chamou-lhe a atenção para o pecado original e ficou de fora da recepção ao Benfica. Veio um insular desembestado e deu uma peitaça num nosso que até o virou. Não contente, procurou repetir a dose com o Coates, mas bateu na couraça da indiferença do uruguaio e acabou ele virado. Entretanto, virado, e do avesso, estava o Tiago Martins, que a muita insistência do nosso capitão lá se dignou a falar com o "bandeirinha". Para manter tudo como estava e insistir no erro. Até que o VAR devolvou a verdade ao marcador, ainda que não ao jogo (a expulsão de Adán jamais teria acontecido se o árbitro tem imediatamente validado a indicação do seu auxiliar). Finalmente, o Paulinho foi à baliza, para apurar um pouco mais as suas melhores características de defensor. Como diriam os Pink Floyd, foram dez/quinze minutos de momentâneo lapso de racionalidade, de uma insanidade total, com muitos amarelos, um vermelho, um golo anulado e outro marcado na própria baliza. Um clássico do Western Spaghetti luso - obrigado pela dica, Álamo - do tipo "Once upon a time in Alvalade", que bem poderia ter sido dirigido por um Sérgio leão para ilustrar o valor da nossa resiliência. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": o VAR

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09
Mai23

Tudo ao molho e fé em Deus

Móvel à Mata Real, Retális


Pedro Azevedo

Faz parte do imaginário popular de quem alguma vez tenha pisado o interior de um táxi a mítica expressão "Móvel à Rua da Buraca", muitas vezes entrecortada por "Retális", com que uma menina via rádio sinalizava o chofer de praça. Não sei se era difícil estacionar na referida rua, se lá existiam serviços camarários relevantes ou se a maioria dos seus moradores infelizmente não possuía carro, mas não me lembro de uma artéria de Lisboa com tantos pedidos de táxi como essa, talvez com a honrosa excepção da mais central Rua das Pretas. Lembrei-me disso ontem ao ver Rúben Amorim requisitar um móvel à Mata Real, que é como quem diz, um ataque móvel à Capital do Móvel. Habitualmente muito criticado por esta opção que entretanto havia caído em desuso, o Rúben tomou a decisão correcta face às circunstâncias, contrapondo mobilidade a um mobiliário que como se sabe não tem mobilidade nenhuma (ou tem, mas necessita de um empurrãozinho à maneira de Palma de Maiorca). Ainda mais, havendo, entre o mobiliário, alguns baús velhos e pesados como o Gaitán, o Luiz Carlos ou o Marafona. Nem de propósito, estes dois últimos deram uma de Coates e combinaram para um primeiro golo à ponta de lança. De seguida veio o Nuno Santos, que não é imaginativo na arte do drible mas é um criativo na arte do golo. E, já depois de não deixar cair em Braga e de ensinar uma letra ao Boavista, brindou-nos com um chapéu de aba larga: a bola subiu, subiu e subi...tamente desceu, como se tivesse furado pelo caminho. O Trincão não quis ficar atrás e teve um pormenor à Bergkamp no terceiro da noite. Faltava o Chermiti molhar a sopa. O açoriano havia marcado pela última vez após assistência de Arthur (Porto), um jogador com um tipo de futebol mais prático e que o favorece. Ontem houve uma reedição: finta e cruzamento do ex-estorilista, e Chermiti a mostrar faro de golo e a encostar os pitões à bola. Nada mais havendo a acrescentar, o móvel regressou à Rua Professor Fernando da Fonseca. Retális.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Nuno Santos 

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01
Mai23

Tudo ao molho e fé em Deus

Identidade e oportunidade


Pedro Azevedo

João Pedro Sousa não é um treinador qualquer. Não é fácil todos os anos sofrer uma revolução no plantel e ainda assim conseguir fazer do Famalicão um clube competitivo. Não se trata só da qualidade individual dos jogadores que compõem o plantel, como Sanca ou Jaime, há também rotinas de jogo muito apreciáveis e que ontem estiveram na origem de algumas dores de cabeça que o Sporting sofreu. Ainda assim, tivemos as nossas oportunidades, que a vontade de jogar para a frente dos minhotos foi sempre um incentivo para as nossas transições rápidas, principalmente quando se está habilitado de jogadores com inteligência no aproveitamento dos espaços entre-linhas como Pote (ontem apagado), Edwards ou Morita. Mas se João Pedro Sousa merece uma palavra de admiração, a Rúben devemos o facto de ter elevado a bitola do nosso futebol. Nem a estapafúrdia ideia do ataque móvel num clube grande belisca o facto de o Sporting ter uma boa ideia de jogo e com Amorim ter subido de patamar. Por isso agradeço o seu trabalho em prol do clube, desejando que continue. Quem já cá não está é o Paulo Freitas, que no hóquei muito nos ajudou no passado. Acontece que o Paulo foi indecentemente insultado por adeptos nossos no Sábado, gente sem gratidão e/ou cultura desportiva. Um clube que não é capaz de valorizar quem o serviu com distinção tem um problema de cultura corporativa: não tem memória, nem prestigia a sua história. Porque uma tribo do Sporting arregimenta-se por uma identidade comum que se alimenta de vitórias e de títulos, mas também por causas de acordo com os valores comportamentais que nos distinguem. E quando esses valores estão em crise na sociedade, mais ainda se justifica haver uma forte cultura de clube que eduque no sentido certo e assim filtre comportamentos que fiquem aquém dos mínimos olímpicos. 

 

O jogo em si serviu para provar duas grandes convicções de Rúben até aqui muito contestadas: o ponta de lança principal deve ser associativo (Chermiti, no segundo golo) e o de recurso deve ser um defesa e ter "killer instinct" (Coates, de volta aos golos). Também deu para ver que sem Ugarte ou Morita (se não estiver Pote) o meio campo do Sporting não é a mesma coisa. Como diz um amigo meu alentejano, 30 minutos é tanlongo para o argentino do Sporting... (O pior é que com o Buscapoulos ficamos a saber que não há ligação à corrente.) Mas os destaques vão inteirinhos para Edwards, Morita e Adán, sem esquecer o primeiro golo de carreira de Esgaio ao serviço da equipa principal do leão, uma década após a sua estreia: o inglês foi omnipresente nos golos e nas oportunidades, o nipónico um átomo a mais que se (nos) animou... e marcou, o espanhol garantiu a vitória com uma enorme estirada.

 

No dia em que oficialmente ficámos definitivamente fora da luta pelo título, o acesso à Champions também se complicou mais um bocadinho (a mesma distância, menos uma jornada). Resta-nos a oportunidade de tentar ganhar o futuro no presente, procurando hoje soluções para problemas com que nos depararemos amanhã. E isso urge, na medida em que todos já nos apercebemos que as saídas não se ficarão por Ugarte, e sem um lote razoável de jogadores influentes as nossas hipóteses serão só académicas. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Edwards

Sportingfamalicao1.jpg

26
Abr23

Tudo ao molho e fé em Deus

Tão grande como os maiores da Europa


Pedro Azevedo

O Sporting jogou em Guimarães, berço da nossa nacionalidade. O regresso às origens avivou-me a memória sobre a determinação demonstrada pelo nosso primeiro rei em obter o reconhecimento de um novo país, daqueles que em manifesta inferioridade numérica bateram o pé a Castela em Aljubarrota ou ainda dos que em cascas de noz partiram à aventura para dar novos mundos ao mundo, no fundo de todos os que não se resignaram à sua sorte e ousaram tudo perder para Portugal vencer. Ambição que também caracterizou o fundador do nosso Sporting, quando anunciou querer um clube tão grande quanto os maiores da Europa. E o que têm em comum Afonso Henriques, D. João I, D. Nuno Álvares Pereira, D.João II, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e José Alvalade? A falta de noção. Pelo menos a avaliar por o que diz o Pedro Boucherie Mendes, a propósito da derrota com a Juve, para quem uma Famel nunca poderá competir com um Fiat (nunca deve ter andado no trânsito de Lisboa), mas não se passa nada se perder para o carro dos Flinstones. Se dependesse de Boucherie, Portugal só pisaria terras de Vera Cruz através de um daqueles catamarans todos sofisticados da Volvo Ocean Race ou do paquete The World, neste último com ele a acompanhar a epopeia através de uma suite com vista para o bote salva-vidas, entre um mergulho na piscina e um pezinho no court de Tennis. Mas o que a Boucherie lhe sobeja em "noção", falta-lhe em rigor. Por isso é possível vê-lo a perorar por aí sobre os 10% do passe do Matheus que mantivemos ou da inundação extraordinária de liquidez que esse negócio significou para o Sporting, ainda que uma rápida consulta ao R&C do Sporting o contradiga terminantemente - o Sporting apenas tem 10% de uma futura mais-valia do Matheus e 26M€ da sua transferência ainda estavam por cobrar em Dezembro de 2022, dos quais cerca de 18M€ só serão recebidos após Dezembro de 2023, o que não torna o modo de pagamento de nenhuma forma melhor do que o que se pratica todos os dias por aí - , um exercício de adivinhação que logo o encorajou a aplaudir a poupança nos custos do factoring. Deve andar distraído e não ter tido ainda tempo de ver o efeito do serviço da dívida na Demonstração de Resultados, além do défice entre proveitos e custos antes de Champions e venda de jogadores, que atingiu um valor recorde porque os proveitos ordinários não descolam e os custos subiram. Sim, recorde, uma verdade indesmentível porque os números não mentem e a matemática, e não o futebol, ainda é uma ciência e exacta. Por falar em falta de noção... (Na dialética hegeliana há uma tese, uma antítese e uma síntese, mas a síntese nunca poderá beber da tese se esta for seca de virtude.)

 

Quando se é Sporting, há muito a perder se não se perceber que em cada jogo há sempre algo a ganhar. Mesmo quando matematicamente já não é possível o cumprimento de um objectivo, o que ainda não é o caso, há que defender o prestígio do Sporting e o respeito pela memória de todos os grandes atletas que nos serviram. Sim, porque muitos dariam tudo para um dia poder vestir a verde-e-branca, mas só alguns eleitos tiveram esse privilégio ao longo da nossa história. Teimosias e tergiversação da comunicação à parte, eu valorizo muito em Rúben Amorim a noção da camisola que veste e o que representa para milhões de Sportinguistas, a inovação que procura incutir nas suas equipas (apesar de algum excesso de experimentalismo) e a ambição com que parte para cada desafio, procurando sempre ver o copo meio-cheio e não se derrotando logo à partida com desculpas, qualidades que fazem dele na minha opinião um português renascentista. Para além do sistema e modelo de jogo, por vezes contestado, mas que eu considero servir os nossos melhores interesses. Tanto que não foi pelo sistema que perdemos este campeonato, mas sim por um início de temporada em que se perderam rotinas com a inesperada saída de Matheus e pela ausência de um matador que no mínimo ombreasse com Pote em golos na Liga, ele que estatísticamente está a realizar a sua melhor época de sempre em todas as competições, contabilizados golos e assistências, algo que na maioria das vezes não transparece para a opinião pública. 

 

Conforme iniciei esta crónica, ontem jogámos em Guimarães. E o jogo foi o paradigma de toda a época: mais uma vez, o Sporting dominou do princípio ao fim, teve inúmeras oportunidades para marcar e tudo se decidiu na inspiração ou não de Pote. Em dia afirmativo, o nosso Pedro Gonçalves agraciou-nos com mais um daqueles passes à baliza que são já um vintage de art-Deco, de tanto que me fazem lembrar a inteligência e requinte do ex-portista. No resto do tempo, entretivemo-nos a desperdiçar ingloriamente golos, com Morita a assegurar que o nosso caudal de jogo chegava ao último terço em condições de ter sucesso e o resto da equipa a não acertar na baliza ou a perder-se em rodriguinhos estéreis na área. Apesar de tudo, no segundo tempo houve um vislumbre de ponta de lança em Chermiti, a fazer-nos lembrar o que muito prometeu contra o FC Porto. Todavia, acabou por sair no seu melhor período no jogo, dando lugar a um Trincão que todos ultrapassou numa cabine telefónica para depois não conseguir encontrar a porta, ela que acabou por se escancarar aos pés de Arthur - assistido por Adán(!) - e mãos de manteiga de Celton Biai. 

 

O que fazer do resto da época? Se, a caminho da Índia, descobrimos o Brasil, pode ser que a caminho de coisa nenhuma encontremos um atalho para uma temporada de 23/24 muito melhor. À semelhança do ocorrido no último terço da campanha de 19/20, que serviu de teste para a época vitoriosa de 20/21.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pote

 

P.S. Um abraço ao Manuel Fernandes, um dos meus ídolos de infância, que teve uma merecida homenagem por ser o jogador com mais jogos e minutos na Primeira Liga. Num mundo ideal o Manuel deveria sempre ser consensual e estar acima, e ser preservado, de politiquices e da espuma do momento. Porque importante é o Sporting, e o Manuel não só publicamente nunca escondeu o seu sportinguismo como na prática o demonstrou ao recusar propostas de Benfica e Porto que lhe dariam a independência financeira. Bem-haja, Manuel!

Pote guimarães.jpg

21
Abr23

Tudo ao molho e fé em Deus

Edwards e Ugarte contra o passeio dos Allegri


Pedro Azevedo

O futebol tem tanto de imprevisível como de injusto. Aquando do sorteio, poucos na Europa não deram o favoritismo à Juventus, clube com inúmeros troféus continentais, não faltando até quem perspectivasse um passeio dos Allegri (mas sem o Júlio Isidro, que como se sabe é dos nossos). Só que o futebol joga-se dentro das 4 linhas e não nos museus, e no relvado o Sporting foi menos competente no capítulo especifico da finalização mas revelou-se melhor equipa que a Juventus em cada um dos jogos da eliminatória. E se na primeira mão foi Morita a empunhar a batuta, ontem Ugarte encheu o campo. Depois, o perigo veio de Edwards, que revelou a calma suficiente para explorar os espaços que o caos provocado pelos seus arranques e recuos ia abrindo na defesa italiana. Faltou eficácia na finalização, que é como quem diz, um ponta de lança que pusesse a bola lá dentro, porque do outro lado pouco mais houve que Rabiot e a Táctica do Cuadrado (sempre perigoso na ala direita). Inquirido sobre o assunto em conferência de imprensa, o Amorim defendeu-se, argumentando que Liedson, Derlei ou Slimani, todos reconhecidos como bons ponta de lança, nunca tinham sido campeões no Sporting, ao contrário de TT e Paulinho, omitindo porém que o ex-braguista, no ano do título, tinha chegado com o Sporting já 10 pontos à frente (finalizou com 5). Eu compreendo o Rúben, mas se fossemos levar estas palavras à letra então concluiríamos que com pontas de lança assim-assim estaríamos mais perto de ser felizes do que com pontas de lança bons, o que não parece ser um grande silogismo aristotélico: "O Sporting tinha pontas de lança assim-assim, o Sporting foi campeão, logo pontas de lança assim-assim são campeões". E a negativa: "O Sporting tinha pontas de lança bons, o Sporting não foi campeão, logo pontas de lança bons não são campeões". É claro que parece simplista de mais. Desde logo porque despreza o enorme volume de jogo que o autoritário Sporting treinado por Amorim apresenta (o que não era o caso no ano do título, quando se jogava mais em transição e o que se pedia ao ponta de lança era que esticasse na profundidade), o qual muito beneficiaria de um bom ponta de lança. E é esse o grande drama: ao insistir, teimosa ou obstinadamente, em não contratar um ponta de lança bom, usando como argumento Liedson, Derlei e Slimani, Amorim ignora que Liedson e Derlei nunca foram treinados por ele e que Slimani foi por ele devolvido à precedência sem poder mostrar todo o seu potencial. Ou seja, Amorim ignora a sua própria influência num Sporting dominador e controlador dos jogos como nunca, agarrando-se a um conjunto de premissas débeis para chegar a uma conclusão frágil. Porque, com este volume de jogo, um ponta de lança faria toda a diferença. Ou serei só eu a ver que o Liedson de outros tempos, o tipo de ponta de lança móvel de que o Amorim gosta, assentaria que nem uma luva neste Sporting? Recusando-se a ver o óbvio, Amorim está a ser humilde ao ponto de não ver o impacto que tem na qualidade de jogo do Sporting, impacto esse que seria ainda maior com um grande goleador. Pelo que a pergunta que se impõe é esta: até quando será Rúben Amorim o maior inimigo dele próprio? E resistirá o Sporting a isso? E se o ponta de lança finalmente chegar, mas no lugar de Amorim já estiver alguém com bem pior ideia de jogo? Quem foi capaz de miraculosamente esbater bastante as saídas simultâneas de Palhinha e de Matheus e de rearranjar a ala direita pós-venda de Porro, merecia que um bom ponta de lança fizesse o resto do trabalho por si. Ou não? 

 

Quási

"Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dôr! - quási vivido...

Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
Quási o princípio e o fim - quási a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ansias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indicios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sôbre os precipícios...

Num impeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Um pouco mais de sol - e fôra brasa,
Um pouco mais de azul - e fôra além.
Para atingir, faltou-me um golpe de aza...
Se ao menos eu permanecesse àquem..." - Mário de Sá Carneiro

 

P.S.1. Mário Jardel, Beto Acosta, Manuel Fernandes, Rui Jordão e Hector Yazalde foram excelentes pontas de lança e... campeões! 

P.S.2. O Liedson e o Derlei, com o Paulo Bento, e o Slimani nunca ficaram em quarto. 

 

Tenor "Tudo ao molho": Marcus Edwards

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20
Abr23

Mecânica Quântica


Pedro Azevedo

Na mecânica quântica, a energia de um fotón é directamente proporcional à frequência da radiação. Porém, na determinação do seu valor, é necessário multiplicar a radiação pela constante de Planck. Por esta altura o Leitor estará a indagar o que isto terá a ver com o Sporting, a poucas horas da recepçao à Velha Senhora. É simples, se considerarmos o nível de aproveitamento dos remates uma constante física, e não é crível que tal tenha remédio iminente, então a solução para haver mais golos passará por (ainda) mais remates. Tudo o resto que se queira equacionar será um "wishful thinking"... (O futebol está longe de ser uma ciência, mas uma constante há-de ser sempre uma constante.)

 

P.S. Na primeira mão, realizámos 15 remates (contra 9 da Juventus), 6 dos quais à baliza (3), para uma eficácia nula, ou, se quiserem, de "blanck" (em branco), que se espera não vir a ser uma constante.

17
Abr23

Tudo ao molho e fé em Deus

Nem pintos, nem pontos


Pedro Azevedo

Se o Arouca tem um Evangelista que proclama a boa nova às gentes aveirenses, no Sporting há anos que se evangeliza sobre Alcochete. Quer dizer, dá sempre jeito ter Alcochete à mão, ou ao pé da boca, seja por via de colchões, relvados ou jogadores, para que sócios e adeptos possam enfiar, ano após ano, o barrete verde. No modernismo leonino, a Formação está centrada nos jogadores: não interessam os resultados das equipas afluentes à principal, o que importa é o desenvolvimento individual do jogador. Por isso, pomo-los a jogar um escalão acima, que é para queimar etapas e ver se se desenvolvem mais depressa, assim a modos como se faz com os pintos num aviário (um dia ainda iremos ler que a Academia se mudou para o Freixial). O problema é que queimar etapas só deveria servir para alunos sobredotados, para os quais o patamar de ensino já não constituísse um desafio, número que estatisticamente nunca é relevante. Para todos os outros, a aceleração de processos só irá apressar o... desemprego. Tendo como outras contra-indicações uma sobrecarga de conteúdos tácticos e físicos em detrimento do estímulo do talento natural dos adolescentes, a única arma que efectivamente um dia lhes permitiria fazer a diferença no futebol adulto. Mas dizem-lhes que o objectivo é chegarem à equipa principal, ainda que hoje apenas 1 tenha começado de início. E hão-de dizer-nos mais tarde que o insucesso da época se deveu à aposta na Formação e não às contratações cirurgícas, ainda que o Rodrigo Ribeiro, o tal que seria alternativa a Paulinho, seja correntemente suplente da equipa B, e que o Fatawu seja uma espécie de Matheus Pereira do JJ para o Rúben Amorim e só esteja reservado para os grandes jogos. Tal como o Essugo. Se explicam aos jovens que o objectivo do acelerador de partículas sito em Alcochete é chegarem ao topo, não admira que, com o passar do tempo, a acumulação de derrotas (formar a perder) e a falta de oportunidades gerem desmotivação. Talvez por isso a nossa equipa B esteja à beira de ir formar jogadores para o Campeonato de Portugal (quarta divisão nacional) e para o convívio com históricos como o Atlético, o Fabril (antiga CUF) e um Oriental que tanto me traz à memória o Yazalde (9 golos à equipa de Marvila em 73/74). Só derbies... Mais tarde surgirá a narrativa de que o Campeonato de Portugal é que é ideal para formar, ainda que melhor mesmo seriam os distritais, o regresso à Academia do Pelado e, quiçá, aos jogadores extraordinários (diferenciado é cada ser humano). Pode ser que então se acorde para a realidade... E assim chegámos ao final de Domingo, com a equipa A a 7 pontos do Braga e do acesso à pré-eliminatória da Champions e a B só com um ponto a separá-la da zona de despromoção. Claro que Nª Senhora de Fátima ainda pode aparecer numa azinheira em Alcochete, o Sporting aceder à Champions por via da Liga Europa e os três pastorinhos que comandam o futebol do Sporting virem a rir-se das atribulações desta época desportiva e assim adiarem tomar as ilações devidas, mas o futuro não parece nada risonho. 

 

Ontem, o figurino não se afastou do habitual. Houve os equívocos estratégicos do costume quando necessitamos de fazer poupanças - o ala Bellerín, de guião trocado, a atacar por dentro - , as absurdas substituições e explicações usuais - mais trocas e baldrocas de centrais e Nuno Santos a sair mais cedo porque Amorim desta vez não queria dele o que quis na semana passada de Arthur, isto é, que cruzasse com o seu pé natural -  , um banco onde em 9 só havia uma solução atacante (Rochinha), o Coates a ponta de lança e bolas nos postes e falhanços inacreditáveis em ambas as áreas que nos custaram o que seria uma merecidíssima vitória, tudo erros de palmatória que contrastam com a brilhante ideia de jogo, comunicação e mais do que óbvia capacidade de liderança do nosso treinador. E acabámos a dever o empate ao árbitro, o que é algo tão contra-natura como ver um incendiário a limpar o lixo numa floresta e só nos acontece quando já não contamos para o Totobola. Mas está tudo bem, os seres pensantes que comandam o nosso futebol dizem-nos que a próxima época já está a ser planeada há muito tempo, o que é um enorme alívio na medida em que nos transmitiram exactamente o mesmo na Primavera passada. Como adenda, questionado sobre o seu futuro, o Amorim disse que estava tudo em aberto, um tipo de planeamento jogo-a-jogo muito sui-generis e mais dependente dos humores do momento (como a venda do Matheus por parte da Direcção). Conclusão: nem Academia, nem Aviário, isto caminha é para um Manicómio... (Mas Quinta há jogo e pode ser que na Sexta troquemos a camisa de forças por mais uma voltinha na montanha russa.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Morita

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14
Abr23

Tudo ao molho e fé em Deus

Muita parra para nenhuma uva


Pedro Azevedo

Vecchia Signora? Não, uma Senhora com "vaca".

 

No que diz respeito a sentimentos, Deus poupou-me na inveja e carregou-me no orgulho. Devido a isso, admiro o mérito dos outros e sou fã número 1 de todos os que, em concorrência leal e no respeito por valores e princípios em que me revejo, fazem a diferença nas mais diversas profissões e sectores de actividade. Exactamente por isso, senti-me orgulhoso com a exibição de ontem do Sporting. E o mérito é todo de Rúben Amorim, o treinador que vai criando o Sporting com maior personalidade europeia de que eu tenho memória. Dominando, em Turim ou em Londres, colossos do Velho Continente. Dirão que o Sporting não ganhou, que no fim do dia até perdeu. É uma forma de analisar as coisas, mas sinceramente não é a minha. Porque assim como o resultado positivo muitas vezes esconde um processo negativo, por vezes resultados negativos escondem processos muito positivos. Por isso tantas vezes discordo da critica desportiva enviezada pelos resultados. Que, no caso do futebol, olvida que se trata de um jogo e assim tem uma componente de aleatoriedade inerente, de sorte ("vaca") ou azar, que não pode ser desprezada ou até explicada. Sim, muitos agora dirão que a explicação está na ausência de um ponta de lança de créditos firmados, procurando uma razão científica para um resultado percepcionado como amplamente injusto. Mas eu, que até tenho sido especialmente crítico de não termos um matador, rebato com o facto de as melhores oportunidades de ontem terem ido parar aos pés ou cabeça de Pote, Morita (duas), Nuno Santos e Bellerin. Sendo que Pote é há 3 épocas consecutivas o nosso melhor marcador. Assim, atribuo muito mais a nossa derrota de ontem à falta de experiência a este nível, o que na hora da verdade faz tremer um pouco, razão pela qual falhámos tantos golos e perdemos tantas jogadas no último terço por má definição na finta ou passe, oportunidades em barda proporcionadas por um meio campo que distribuiu e recuperou inúmeras bolas e municiou vezes sem conta o ataque. Não esquecendo que do outro lado não estavam propriamente uns bidões, mas sim jogadores de um clube que foi duas vezes finalista da Champions nos últimos oito anos. E que, para cúmulo, beneficiou de um erro grosseiro de Adán - o erro individual faz igualmente parte do jogo, mas é muito mais evidente aos olhos do público que o erro colectivo - para ganhar o jogo.

 

Se Rúben Amorim é o principal responsável pela revolução de mentalidades que vem permitindo este upgrade competitivo do Sporting na Europa, a ele também devem ser assacadas responsabilidades por alguns erros e défice de motivação na frente doméstica. É certo que perdeu inesperadamente Matheus Nunes e as soluções em qualidade para o meio campo não abundam, mas a opção em relação à posição específica de ponta de lança é dele e muitos golos se perderam em jogos em que massacrámos adversários claramente inferiores por ausência de um matador certificado. Esta época e na anterior. (Além de que a opção por inventar centrais onde havia alas nos custou pontos.) E houve outros jogos, menos, onde a equipa apareceu estranhamente apática, a deixar correr o marfim, a tal questão motivacional. Bom, mas isso é tema para outro dia. Hoje gostaria ainda de realçar o enorme jogo de Morita, um jogador que eu vejo sistematicamente ser subvalorizado pela crítica, eventualmente por vir de um país que não é uma potência no futebol. Pois o Morita ontem colocou no bolso o Rabiot, o motor e grande ligador do jogo da Juve. E ainda teve disponibilidade e iniciativa para ir lá à frente criar perigo em duas ocasiões. No resto do tempo encheu o campo, deliciando-nos com um posicionamento perfeito, recepções imaculadas, passes precisos e cortes preciosos. Ainda por cima jogando fora da sua posição natural. Um manual de bom futebol, este nosso Tsubasa!

 

Se o verdadeiro sucesso está relacionado com as escolhas que fazemos para o tentar alcançar, então curiosamente o Sporting teve maior sucesso que o Benfica nesta jornada europeia. É certo que ambos perderam. Porém, enquanto o Sporting foi infeliz mas fez quase tudo para ganhar, o Benfica transmitiu a sensação de que especulou demasiadamente com o jogo e deixou muito por fazer. Ou seja, nesta jornada em particular, o Sporting mostrou mentalidade de clube grande e o Benfica ficou aquém da sua história, mostrando-nos que no futebol a realidade está em permanente mutação e que até treinadores que revolucionam o futebol de um clube, como Schmidt, têm ciclos menos positivos. Tal como Amorim. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Morita. Destaques especiais para Coates e Pote.

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13
Abr23

Estrabismo futeboleiro


Pedro Azevedo

"Três, dois crónicos candidatos ao título porque o Sporting ganha de 19 em 19 anos e não é assim bem, bem um crónico candidato, crónico ganhador de títulos em Portugal" - Diamantino Miranda

 

Diamantino Miranda, que como jogador fazia as delícias de qualquer adepto de futebol, enquanto comentador tem uma visão estrábica sobre o futebol. Por isso, confunde a beira da estrada com a Estrada da Beira, não se coibindo de permanentemente apequenar o Sporting nos seus dichotes futeboleiros. Porque a candidatura ao título de campeão nacional não é um dado que se possa alicerçar em factos de um passado recente, não só pelo peso institucional do Sporting e elevado investimento no seu plantel como também devido a constrangimentos vários que decorrem de uma verdade desportiva tantas vezes colocada em causa nas mais recentes investigações judiciárias. Se para Diamantino os fins (campeonatos ganhos) justificam os meios (candidatura) e a isso se agarra para pôr o Sporting fora de futuras corridas ao título máximo do futebol português, para os Sportinguistas tal constitui um absurdo. Todavia, mais à frente o próprio comentador mostra ao que vai, quando sentencia que o Braga está cada vez mais próximo de Benfica e Porto (sobre o Sporting, nada) e mais perto de ganhar o campeonato.

 

Há muito tempo que observo uma estratégia de retirar importância ao nosso clube em função de outros interesses, nomeadamente os económicos. O nosso mercado é pequeno, a necessidade de receitas é grande, há um clube afluente que quer chegar lá acima, alguém tem de ficar pelo caminho para que o quinhão individual seja maior ou não se reduza. Ver Diamantino a corporizar tal estratégia é triste, porém digno de uma fiél Testemunha de Janelá e da cartilha de João de Deus para os pobres de espírito. Desrespeitoso, ainda mais na véspera de um importante desafio europeu para o Sporting e futebol português, provavelmente consequência decorrente da nunca curada azia de uns 7-1 que observou de perto no campo. Enfim, o paradigma do que é não saber estar, da falta de cultura desportiva e de parcialidade evidente no comentário. Em suma, um caso perdido de estrabismo futeboleiro. 

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13
Abr23

Mais difícil ainda do que o Arsenal


Pedro Azevedo

A meu ver a Juve é um osso mais duro de roer que o Arsenal pelos seguintes motivos: 1 -Não assume tanto o jogo, é mais cínica; 2 - Tem jogadores do restrito topo do futebol mundial, como Di Maria, capazes de resolver um jogo sozinhos. Ora, sabendo-se que a genialidade é geralmente intermitente, a sua presença é mais relevante numa competição a eliminar do que numa prova de regularidade (excelentes equipas vencem campeonatos, excelentes jogadores podem ser o detalhe necessário para ganhar Taças); 3 - Tem mais historial nas competições europeias; 4 - Pertence a uma escola de futebol com que tradicionalmente as equipas portuguesas não encaixam bem; 5 - Tem um impacto superior junto dos diversos agentes do futebol.   

 

Dito isto, o jogo iniciar-se-á com um zero-a-zero e a "bagagem" ficará no balneário ou autocarro. Do nosso lado tem de haver um espírito de equipa indomável, motivação no máximo (são estes jogos que ambicionamos disputar, Turim será uma grande montra para os nossos jogadores e clube) e a percepção de que nos encontramos perante uma oportunidade histórica de seguir rumo à glória. Serão 5 finais, e Turim apenas a primeira. Força, Leões!

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12
Abr23

A tentação de provar do veneno alheio


Pedro Azevedo

Na antevisão da nossa deslocação a Turim, é factual observar que, nas provas europeias, o histórico das equipas portuguesas contra as suas congéneres italianas não é nada famoso. Já com equipas inglesas, o desempenho português pode ser considerado bastante bom, o que nos aguça a curiosidade sobre a razão que justifica a tradicional boa performance das equipas de Sua Majestade quando defrontam times provenientes da pátria de Garibaldi, algo que contraria o simples silogismo aristotélico. Conclusão: parece-me evidente que as equipas portuguesas caem na tentação de tentar bater as italianas no seu próprio jogo feito de cinismo e de especulação, e que o resultado dessa aposta é tradicionalmente negativo (como ainda ontem se viu). Já as equipas inglesas, geralmente descomplexadas quando se trata de assumir o domínio do jogo e com o foco nas suas próprias qualidades, não mudam os seus princípios contra as italianas e têm sucesso. Talvez seja importante reflectir nisto, 24 horas antes do importante duelo com a Juve... (O Ruben não costuma alterar o seu modelo de jogo seja contra que adversário for, e isso contra a Juve pode revelar-se positivo para nós.)

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10
Abr23

Tudo ao molho e fé em Deus

Hat-Tri(n)cão


Pedro Azevedo

O Ruben Amorim é treinador de futebol. Dos bons, quero eu dizer. Mas é hiperactivo, e um hiperactivo não se conforma com o que tem ou com situacionismos, precisa de estar sempre a alterar alguma coisa. Por isso, o Amorim mudou totalmente a forma de jogar do Sporting depois do clube ter sido campeão ao fim de 19 anos. Deitando fora a fórmula vencedora e procurando uma outra mais de acordo com o estatuto de clube grande, ainda que porventura em desacordo com as vitórias. Relacionado com esse desassossego, troca de centrais a cada jogo e durante um jogo como quem muda de roupa interior. Nem sempre por insatisfação com o que tem, muitas vezes por aparente gestão do desgaste de competição ou para dar uso ao roupeiro. Para o Ruben a inacção não é prudente mas sim radical. Estivesse ele em casa, em vez de em Alcochete, e andaria a arrastar os móveis de um lado para o outro, mudando-os de lugar ou trocando-os por outros novos, dispondo a Sala de Estar em 3-4-3 para assim melhor enquadrar o Feng-Shui. (O Ruben é o Scouting, que outro além dele seria capaz de descobrir um avançado chinês assim?) Se bem que há jogadores que são mais substituídos que outros. O Esgaio, por exemplo, é quase sempre titular. Alguns esperariam ver ontem o Bellerin. Mas o dia ideal para os Vegan foi a Sexta-feira Santa, o Domingo de Páscoa seria sempre de ressurreição para alguém nascido na Nazaré. Como tal, o Esgaio ganhou uma outra vida. Quem também regressou ao mundo dos vivos foi outro ex-braguista. A novos começos podem corresponder novas identidades, por isso para já tratem-no por Hat-Tri(n)cão. E, claro, não poderia haver trocas e baldrocas sem o mínimo de organização, razão pela qual o camaleónico Pote é fundamental. Num mundo de mudanças, não haverá muitos Urbanos capazes de realizar tantas funções ao mesmo tempo, desde carregador de piano até motorista que sabe como ninguém dar acelerador, travão ou embraiagem ao nosso jogo. Só não concordo com esta coisa de o ponta de lança Coates jogar como central durante 75 minutos. Ontem tal poderia ter-nos custado caro, tantas foram as tentativas de antecipação falhadas que nos custaram golos. Mentalidade de avançado centro, é o que é. Se pensasse como central, reflectiria duas vezes antes de procurar adivinhar e se comprometer assim nos lances. Canto do cisne a jogar com os Gansos? Boa semana, com especial ênfase na Quinta-feira! 


Tenor "Tudo ao molho...": Hat-Tri(n)cão

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09
Abr23

Pagar na mesma moeda


Pedro Azevedo

Ontem, em Wolverhampton, no Molineux, Wolves e Chelsea defrontaram-se. De um lado um ex-Sporting, Matheus Nunes, do outro um ex-Benfica, João Félix. No fim, ganharam os "Lobos" pela vantagem mínima (1-0), com o golo da vitória a ser marcado por Matheus Nunes. Um volley fulminante, a arma que curiosamente celebrizou Frank Lampard, o histórico jogador do Chelsea que regressava neste jogo ao banco dos "Blues" como técnico interino. 

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06
Abr23

Tudo ao molho e fé em Deus

Galo em vez de golo


Pedro Azevedo

Os pontas de lança precisam que a bola lhes chegue de uma forma auspiciosa, seja através de um passe de ruptura, de uma tabelinha a pedir desmarcação ou de um cruzamento executado com precisão. Ontem, o Chermiti não teve nada disso. Pelo contrário, foi ele que executou brilhantemente um movimento típico de um "10", rasgando a defesa com um passe milimétrico que isolou o Pote. Teria sido o momento do jogo, mas o VAR anulou o golo devido a um off-side do nosso ponta de lança no início do lance. As razões pelas quais o Chermiti não teve boas bolas para golo têm sido recorrentes esta época: os dois interiores jogam de pé trocado, invariavelmente vêm para o meio à procura de combinações ou de rematar e quando optam por cruzar fazem-no de uma forma que apanha os centrais contrários em vantagem, de frente para o lance. A solução seria os alas justificarem o seu nome, procurarem a linha e cruzarem, mas o Esgaio perde o timing do passe porque necessita sempre de parar primeiro a bola, não se dê o caso de acertar em algum navio de carga no alto mar, e o Arthur também parece ser fã do marxismo-leoninismo e alinha em puxar a bola para o pé esquerdo antes de cruzar. Do lado oposto, o Nuno Santos faz o que tem de ser feito, mas como não tem magia suficiente no drible precisa de quem crie indefinição e o ajude a arranjar espaço para centrar com eficácia. O problema adensa-se quando o Matheus Reis liga o complicometro e estraga todas as ligações possíveis de jogo, além de invariavelmente não acertar um único cruzamento para o homem que se desmarca isolado ao primeiro poste. Ontem, do seu cardápio constaram asneiras várias, desde o atropelamento a Pote que estragou uma promissora jogada da ataque até à finta mal sucedida à saída da nossa área que deu ao Gil uma possibilidade real de nos ferir. Pelo meio não foi capaz de descodificar um único passe de Inácio durante o primeiro tempo, o que não pode ser só responsabilidade do recém- internacional português. De tal forma que deveria ter ficado no balneário logo ao intervalo para poupar aos adeptos uma consulta de cardiologia, mas infelizmente foi o Inácio que já não regressou no segundo tempo. Depois, a falta de qualidade no cruzamento faz com que vamos tecendo interminavelmente o nosso jogo pelo meio, onde quase sempre nestes jogos estamos em inferioridade numérica, até o novelo se desfiar e termos de começar tudo de novo, vivendo então muitas vezes da inspiração de Pote. E quando o génio da lâmpada não sai, bye bye 2 ou 3 pontos. Especialmente contra equipas que se fecham bem, nos encurtam os espaços e estão preparadas para as movimentações-padrão dos nossos desequilibradores, concentrando os seus jogadores em posições centrais que habitualmente são procuradas pelos nossos. E o tempo vai passando, nós persistindo no estilo monocórdico e assim caindo no engodo. Muitas aproximações mas raras conclusões, a maior parte das jogadas perde-se por falta de expontaneidade no remate. E assim minam-se lances em catadupa. Há sempre um toque a mais na bola na hora de servir o jogador que ficaria isolado ou de rematar. Não sei se há alguma lei no futebol que obrigue um jogador que surge com espaço numa ala a travar e vir consecutivamente para dentro em vez de respeitar a movimentação do ponta de lança, mas no Sporting tal parece estar instituído. A tal ponto que por vezes dá a ideia que estamos a jogar ao lenço ou à barra fixa, e que o propósito do jogo para nós é entrar simultaneamente com jogador e bola para dentro da baliza do nosso adversário. Ora, é claro para todos, de cada vez que um jogador vai apressadamente  dentro da baliza do adversário buscar a bola, que este se sente incomodado com a violação de tal espaço. Quer dizer, a bola ainda é como o outro, mas aceitar que alguém entre pela baliza adentro é humilhação intolerável. Todavia, insiste-se nesse jogo miudinho até ao frémito, um paradigma da inconsequência. No fim, pede-se para fora que se dê tempo ao que estamos a fazer lá dentro, que não se deve trocar o futuro pelo presente, mas depois o Rodrigo Ribeiro não consta da ficha de jogo e tem de ser o Coates pela enésima vez a fazer de ponta de lança. Para não falar do Fatawu, que é uma espécie de pirilampo para Mister Amorim. Enfim, o meu receio é que se esteja a empolar o que se faz para se esconder o que não se faz, assim ao jeito do exponencial aumento de receitas ordinárias anunciado pelo presidente Varandas que nenhum R&C confirma (mas a gente gosta de ouvir). Justiça porém seja feita a Ruben Amorim: se é certo que é falso que estejamos menos dependentes de vendas de jogadores para equilibrar os Resultados e a tesouraria - nunca estivemos tão dependentes quanto agora - , não deixa de ser verdade que houve uma valorização do plantel que hoje permite que haja muitos jogadores com interesse para o mercado e que as putativas futuras vendas se possam processar por valores acima daquilo que era usual no clube, e isso sim é da sua quase exclusiva competência. Só que quando se vende e não se compensa a saída desse activo com outro, seja por correcta incursão ao mercado ou ascensão de alguém de valor da Formação, então o nosso trabalho assemelha-se ao de Sísifo, conforme esta época abundantemente ilustra. E se tal apenas ficou mais claro ontem em Barcelos, isso somente se deveu a em vez de golo ter havido galo, criatura que não deixa para amanhã o que pode fazer logo de manhã e nos desperta para que cedo possamos planear a forma de contornar os desafios que temos pela frente.  

 

Tenor "Tudo ao molho...": St Juste

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03
Abr23

Tudo ao molho e fé em Deus

Massacrar para depois poder procrastinar


Pedro Azevedo

Perante o último classificado da Liga e com um calendario denso por diante, o Sporting precisava de resolver rapidamente este confronto para depois poupar energias que poderão vir a revelar-se cruciais no futuro. Como tal, recomendava-se atacar em força desde o apito inicial. Nada melhor para isso do que chamar a cavalaria: na ala direita, Arthur, nome que nos remete para os míticos tempos da Távola Redonda e, também, da velha aliança anglo-portuguesa; na Ala dos Namorados (esquerda), Dom Nuno, o Santos Contestável (somente para a Selecção Nacional). Por dentro, um quadrado imaginário, com Pote e um dos interiores circunstancialmente por detrás do outro interior e de Paulinho. Na rectaguarda, 3 defesas com grande propensão atacante e um Ugarte, qual Padeira de Aljubarrota, que foi pau (e pão) para toda a obra.

 

Com uma entrada em jogo demolidora, não tardou que o Sporting ganhasse uma vantagem de dois golos - um cabeceamento certeiro de Paulinho no seguimento de um livre apontado por Pote e uma recuperação rápida de bola de Edwards com assistência para Trincão - , que poderia ter sido maior se uma bola não tivesse ido à barra (Inácio) e outra sido vitima de uma ruizada (Paulinho): três pontos para Gales, diriam alguns não necessariamente amantes do rugby após a bola ter sobrevoado a barra da baliza açoreana. E três pontos de facto foram, mas para o Sporting, uma vitória reforçada com um bonito golo de Edwards após recuperação de bola e passe de Paulinho. Triunfo garantido cedo, seguiu-se um longo espreguiçar, procrastinação a bem da noção de que a equipa precisa de se apresentar na máxima força nos próximos encontros com a Velha Senhora.

 

A sensação que fica é que o melhor Sporting chegou agora ao Campeonato. Com algumas faltas de atraso no cadastro, como se verifica pela subtração de pontos na caderneta classificativa. Ainda iremos a tempo de ter um aproveitamento mínimo? Adicionalmente, chegaremos a horas ao encontro com a nossa história europeia?


Hoje temos diversas soluções para a zona central da defesa, algo reforçado pela contratação de Diomande e a recuperação física de St Juste. Nas alas, a entrada de Arthur traz uma solução atacante diferente, especialmente interessante quando acompanhada por uma leitura do jogo defensivo que o faz fechar por dentro como em dois lances perigosos do Santa Clara. No ataque, a inclusão de Chermiti trouxe de volta o Paulinho trabalhador, ele que no passado recente chegou a aliar a má relação com a baliza com um compromisso com a equipa menos de acordo com o que nos havia habituado. Pelo que onde ainda não é nítida uma evolução é no meio campo. Não que Ugarte ou Morita não sejam bons jogadores, ou que Pote não disfarce em certos jogos, mas faz-nos falta mais um 8 (o Tanlongo é mais um 6) capaz de queimar linhas do adversário e que permita um reforço de competitividade no(s) jogo(s) quando os titulares começarem a dar sinais de cansaço. 

Tenor "Tudo ao molho...": Pote 

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01
Abr23

Haja chuva, vento ou lama…


Pedro Azevedo

Por que é que há jogadores a quem a bola obedece com reverência e outros com os quais parece ganhar vontade própria? Por que razão a relva escorregadia, de raiz frágil ou mal plantada não parece afectar a qualidade de recepção. passe e remate de uns e serve de justificação para a improdutividade de outros? Pedro Gonçalves é daqueles que faz a diferença em todas as condições. Haja chuva, vento e lama, como na Choupana no ano do nosso último título de campeão nacional, ou sol, brisa ligeira e um belo tapete verde, o nosso Pote afirma da mesma forma a sua categoria. Não o perca hoje, a partir das 20:30, quando o Sporting entrar em campo para defrontar o Santa Clara. 

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24
Mar23

Tudo ao molho e fé em Deus

Bob, o Construtor


Pedro Azevedo

O Liechtenstein é um país minúsculo, tão mínimo que, se e a sua população inteira comprasse uma gamebox no José Alvalade ainda sobrariam 11.000 lugares de lotação do estádio para venda ao público em geral. Se o número de habitantes do Liechtenstein é pequeno para Alvalade, Ronaldo ainda é suficientemente grande para caber no Onze de Portugal. Como ontem ficou amplamente demonstrado, marcando dois golos e falhando outros tantos onde ainda assim o seu domínio nas alturas ou recepção imaculada da bola se destacaram dos demais. Nada mau, aos 38 anos de idade, para este Lawrence das Arábias português que aproveitou a oportunidade para bater o recorde mundial de internacionalizações por selecções (197) e reforçar o já por si detido máximo de golos (agora 120, 830 em toda a carreira). Portugal estreava Roberto Martinez, e este inaugurava a linha de 3 defesas. Com Inácio a ter a sua primeira internacionalização a jogar (e bem, com muita personalidade!) nessa linha pela esquerda, os laterais Cancelo e Guerreiro foram mais extremos no primeiro tempo e mais interiores no segundo. João Palhinha foi o polvo que tudo compensou no meio, Félix e Bernardo partiam das alas, com o jogador do Chelsea a frequentemente procurar espaços entre-linhas mais interiores e assim transformando o nosso bem conhecido (dos Sportinguistas) 3-4-3 num 3-5-2. Bruno Fernandes procurava a ligação com os jogadores do ataque. Apesar de ter marcado cedo, num remate às 3 tabelas de Cancelo cuja última carambola envolveu Ronaldo, Portugal deparou-se com um Liechtenstein somente interessado em perder por poucos. Por isso continuou fechado lá atrás, procurando não deixar espaços para que Portugal ligasse por dentro, obrigando-nos a circular em "U". Mas isso aconteceu na primeira parte, porque após o reatamento viu-se o dedo do treinador, com Guerreiro e, principalmente, Cancelo a jogarem por dentro e Félix e Bernardo a dissuadirem pelas alas. Não tardaria assim que Portugal voltasse a marcar, com Ronaldo a dar nova vida à metáfora do ketchup (agora dos golos de livre directo). Foram 15 minutos de futebol avassalador, com 3 golos (1 de Bernardo e 2 de Cristiano), muitas oportunidades desperdiçadas e Cancelo (mas também Palhinha) frequentemente envolvido na construção. 

No final foram só quatro. Mas poderia ter sido uma dúzia, o que até viabilizaria um bom trocadilho - "va douze" - aplicado ao regresso dos jogadores do Liechtenstein à sua capital. Quanto a Roberto Martinez, Bob, para os ingleses, e Construtor de uma nova filosofia de jogo, para os portugueses, os primeiros sinais foram encorajadores, aproximando-o das opções do homem comum não-contaminado e assim escalonando de início o Inácio e o Palhinha, dois jogadores que pouca ou nenhuma atenção mereceram do pretérito (e mais galardoado de sempre) treinador nacional. Com Portugal entre a nobreza europeia, a um Principado seguir-se-á um Grão-Ducado (Luxemburgo), provavelmente já com Nuno Mendes no Onze. 

 

Podium - Ouro: Cancelo; Prata: Palhinha; Bronze: Ronaldo.

 

P.S. Tenho algumas dúvidas sobre a eficácia da aposta de Danilo (mais tarde, também Palhinha) como central pela direita, afastando-o do centro do jogo, mais parecendo um peixe fora de água. Se por um lado a ideia parece ser não colidir o defesa com o espaço de intervenção do médio mais defensivo, dando a oportunidade de com bola e adversários fracos termos um duplo-pivô no meio, por outro seria mais natural que Danilo ocupasse um lugar central na defesa.  Mas, provavelmente, com a entrada de Pepe, tal questão não se colocará no futuro, jogando Martinez com Rúben e Inácio como complemento ao central portista.

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(O amarelo e o vermelho espanhóis presentes na indumentária de Bob)

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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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