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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

14
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

A Revolta dos Patinhos Feios


Pedro Azevedo

Contra uma chuva persistente, que misturada com o calcário (carbonato de cálcio) que envolveu o jogo - a cal que limitava as linhas, misturada com o dióxido de carbono libertado na respiração dos jogadores - precipitava estalactites nos narizes dos jogadores, o frio siberiano e um terreno em condições quase ideais para a prática do cultivo de bivalves, o Sporting saiu de Chaves com os 3 pontos. Como é habitual nestes jogos com equipas ditas pequenas e estava em plena conformidade com o nome da cidade representada pelo clube em questão, o nosso adversário começou por se encerrar a 7 Chaves, recorrendo para tal a fechaduras, trancas, trincos e cadeados a fim de bloquear o acesso ao seu cofre-forte, não dispensando ainda interpor o autocarro (Steven) Vitória, que logo de início apanhou com duas boladas consecutivas à laia de tentativa de arrombamento. Só que o Sporting, a despeito do glorioso porco bísaro da região, desde cedo mostrou que não estava em Chaves para serrar presunto e insistiu em atacar. Até que logrou obter um primeiro golo, numa jogada típica de Harpastum, misto de pé e mão, um jogo precursor do futebol que chegou a Chaves ("Aquae Flaviae") e aí pelos vistos criou raizes por via dos romanos no tempo do imperador Vespasiano (Séc. I), césar que sucedeu a Nero e que com o jogo e a ideia de construção do Coliseu em Roma pretendeu entreter as suas tropas e o povo após um período marcado pela loucura e por um impasse de poder e guerras de sucessão. O marcador do golo foi o Paulinho, um homem apropriadamente habituado a atravessar o Rubicão (de criticas) e outros cursos em que costuma meter água.

 

Na TV insistiam que se tratava de um jogo de futebol, ainda que provavelmente só se chegasse a essa conclusão por negação de todas outras hipóteses relacionadas com diferentes desportos: não era curling, porque o objecto do jogo não deslizava; não era andebol porque a "basculação" se tornava impossível, o que muito terá desgostado o comentador Freitas Lobo (que basculou em floreado para outras bandas); não era basquetebol porque não havia cesto, embora naquele lodaçal as possibilidades de afundanço fossem imensas; não era hóquei, por muito que houvesse quem patinasse; não era rugby, futebol americano ou luta livre, ainda que contra Gyokeres pareça valer tudo menos tirar olhos. Pelo que o jogo foi uma coisa em forma de assim, como diria o O'Neill e constatou o João Correia quando atrasou a bola ao seu guarda-redes e a viu ficar presa na relva e à mercê de um isolado Pote. Mais uma vez, como aliás aconteceria amiúde durante a partida, Hugo Souza lá estava para atrasar o inevitável...

 

O segundo tempo começou logo com mais 2 golos: o relvado todo molhado ficou apropriado para a navegabilidade de outros 2 patinhos feios desta temporada, o Trincão (lindo golo) e o Pote, agora branquinhos (equipamento) que nem cisnes. Pelo que o resto do jogo se pode resumir a uma cruzada de Gyokeres na busca do golo, ora travada pelo guarda-redes, ora detida pelo estado do relvado, esforço infrutífero que resultou num ensinamento do tipo do Sermão de Santo António aos Peixes, do Padre António Vieira, em que foi censurado o vício (de golo) do colonizador em face dos direitos dos desprotegidos autóctones. Solidário, o Luís Godinho logo lhe deu um amarelo para o acalmar, ainda que não se vislumbrasse razão válida para tal que não fosse um(a) Baia que se formou nesse mar rodeado por relva e terra que se opunha a um cabo (no caso, da escola de praças do Regimento de Infantaria 19, sito ali ao pé).  

 

E assim terminou um jogo em que as chaves que desbloquearam o cofre flaviense não vieram do Areeiro mas sim de Braga. Abrindo assim antecipadamente uma vantagem sobre os nossos adversários directos que se hoje não for atenuada só pode ser vista mesmo por um "canudo" (telescópio), prática a que, por exemplo, os bracarenses já estão habituados a partir do Bom Jesus. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pedro Gonçalves

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10
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

Jogar à sueca


Pedro Azevedo

Um jogo de Taça entre um grande e um pequeno dá sempre uma oportunidade a este último de jogar a cartada do tomba-gigantes. Nessa conformidade, o Tondela não quis ser uma carta fora do baralho e foi a jogo. Só que no "pano" verde de Alvalade agora joga-se à sueca e o Sporting tem sempre o Ás de trunfo. Acrescentar o Ás a outros trunfos importantes que o clube sempre teve, ajuda muito a que as vazas não terminam em "palha". E não terminando em "palha", vão-se somando pontos importantes para se ganharem campeonatos e outras competições. É preciso porém não olvidar que esse Às não deixa de ser um "Joker(es)", pelo que se o nosso adversário quiser especular com o jogo (Póquer) ou jogar as cartas todas que tem na mão (Canasta e Gin Rummy), as probabilidades continuarão a tombar para o nosso lado, havendo um "Joker(es)" que se pode fazer de qualquer outra carta para desempatar.  

 

Aquilo que mais impressiona no Gyokeres (chamemos-lhe assim), é mesmo a forma como substitui qualquer carta do baralho: que ele era um Ás na finalização, poucos teriam dúvidas, mas também é um rei, para os adeptos do Sporting, como foi rainha para os ingleses do Coventry. E um valete, ao serviço de Amorim. Ou uma manilha, quando acelera pela ala direita como um "7". E pinta com cada "sena"... Umas vezes vestindo traje de gala (terno), outras esfarrapando-se todo como se fosse a carta menos valiosa do baralho (duque). No fim, o adversário invariavelmente quina, pelo que sobre ele alguém ainda há-de escrever uma bela quadra. (Se quiserem que ele seja "8" ou "10", também se arranja, além de "9" como bem sabemos.)

 

Todavia, subsistiam ainda algumas dúvidas sobre o Gyokeres. É que por muito que se tenha algumas das melhores cartas do baralho, ainda assim os jogos ganham-se por vezes com a cabeça. Creio porém que desde ontem algumas dessas dúvidas se começaram a dissipar. "Ó Diacho!", dirão os seus adversários, pasmando-se ao vê-lo tanto correr, sem se esgotar ou lesionar. Pelo que se deverão sentir como os funcionários daquela Estação de Serviço retratada no célebre anúncio do Citroen Dyane: "E eu a vê-lo passar. Gasolina não precisa, oficina nem pensar!...". 

 

Não se esgotam porém em Gyokeres as boas notícias: ontem, o Pote voltou a atinar com o golo. Agora imaginem a cena: o Schmidt e o Conceição estavam à cata de Janeiro, a rasgarem os olhos à espreita da Taça da Ásia e com vontade de dançarem o CAN-can, e agora já não chegava aparecerem de repente todos viçosos o Bragança e o Quaresma, ainda o Pote desata a marcar e o Gyokeres até o faz de cabeça. Ganda melão, pá!!!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres

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09
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

Gyokeres oxidou o Limão Mecânico


Pedro Azevedo

Se no cinema estamos habituados ao conceito de filmes de autor, realizados por visionários como Hitchcock, Tarantino, Scorsese, Almodóvar, Kurosawa, Godard ou Fellini que se destacam pela sua singularidade e inovação, no jogo da bola também existe o chamado futebol de autor, desenvolvido ao longo dos anos por revolucionários do jogo como Herbert Chapman, Helenio Herrera, Gusztáv Szebes, Rinus Michels, Johann Cruijff, Arrigo Sacchi ou Josep Guardiola. No futebol, o rótulo é atribuído a partir do momento em que se nota uma personalidade própria e muitas vezes disruptiva no trabalho do treinador. Porém, não só de equipas grandes se faz a história do futebol de autor, há também casos de sucesso que envolvem pequenos clubes que se tornam rapidamente de culto. Como a Atalanta, de Gasperini, ou o Brighton, de De Zerbi. Ou, em Portugal, o Estoril, de Vasco Seabra, com a conceptualização de um carrossel que se desenvolve a partir de um sistema base de 3-4-3. Dada a cor das camisolas, a escassez de recursos financeiros e a óbvia influência holandesa no seu jogo, para efeito desta crónica vou denominar o modelo canarinho como "O Limão Mecânico": Seabra baseou-se no princípio de que se a vida nos dá limões, então fazemos uma boa limonada. Assim, conseguiu reunir e potenciar um conjunto de muito razoáveis jogadores, adaptáveis ao seu sistema e modelo, que bem espremidos vêm batendo o pé aos Grandes, garantindo pontos e a admiração da comunidade futebolística em geral. O problema é que ontem o Estoril deparou-se com Gyokeres, o homem que veio do gelo. Com o contacto, o limão secou e a sua mecânica enferrujou, ou seja, Gyokeres oxidou o Limão Mecânico.  

 

Com o Belchior, o Baltasar e o Gaspar presos no trânsito caótico de uma sexta-feira ao fim da tarde na 2ª Circular, o Viktor desdobrou-se em vestir a pele de todos eles e de enfiada começou a distribuir presentes pela equipa, naquilo que foi o último ensaio geral para as festividades de um Dia de Reis comemorado à espanhola (ou não houvesse um dedo de Guardiola na forma como o Sporting joga e não deixa jogar o adversário). Como figurantes, os jogadores do Estoril, com defesas a atacar como avançados e avançados a organizar o jogo desde trás como se fossem defesas. Na antecâmara, a imprensa desportiva havia elogiado sobremaneira a melodia saída da imaginação do maestro e compositor Vasco Seabra, uma espécie de caixinha de música em forma de carrossel de Natal. Mais uma equipa de autor, mais um tremendo desafio para o Sporting de Ruben Amorim, dizia-se. No jogo, porém, a equipa da Linha não entoaria mais do que o som do silêncio ("Sound of Silence")... Para começar, o Gyokeres apareceu na esquerda, Pela frente, o Rodrigo Gomes, bom jogador e a última coqueluche do futebol nacional. Não demorou mais do que uns poucos segundos para que o Gyokeres desarticulasse o pobre do Rodrigo até entregar de presente ao Edwards. Não contente, o sueco passou para a direita. Recebe do Geny. Pela frente o Pedro Álvaro, já exaurido pelo sprint prévio. Faz que vai para dentro, mete por fora, o Pedro como se estivesse numa sauna, fora do caminho, e novo presente açucarado para o Edwards: 2-0 no marcador, os estorilistas foram apressadamente para o balneário à procura de um ortopedista que lhes voltasse a atarrachar as partes do corpo que se soltaram no relvado de Alvalade. Reinício do jogo e grande jogada de um apanha-bolas do Sporting: o miúdo repõe a bola rápida e sincronizadamente para o Gyokeres, que, acto contínuo, a lança à mão para o Nuno Santos. O remate ainda é deflectido, mas só para nas redes do Estoril. Mais um presente. De seguida, o Pote recupera a bola e avança. Tem dois adversários pela frente, mas o Gyokeres arrasta ambos numa diagonal e o Pote fica isolado e faz um daqueles célebres passes à baliza cujo resultado é o golo. Novo presente, ainda que indirecto. Depois, o sueco antecipa-se e serve Trincão. Novo golo, o suspeito do costume na assistência. Muita Parra e pouca uva depois, o pobre do Raul vê o Gyokeres passar como cão por vinha vindimada. O presente era, de novo, para o Edwards, mas um canarinho antecipa-se e o Geny na ressaca atira por cima. 

 

O resultado está mais ou menos feito. O Quaresma, grande exibição, salva o golo de honra do Estoril, substituindo-se ao Adán. Edwards e Geny isolam à vez o Gyokeres, mas o sueco está em noite de entregar presentes e não de desembrulhar os presentes dos outros como é seu timbre. Edwards ainda atira ao ferro, mais tarde Pote replicá-lo-á. Pelo meio, o Estoril marca: uma bola parada, que geralmente é defendida à zona. Mas o Sporting defende-a com zona, o que é uma outra coisa, infecção viral que afecta pele e corpo e contagia toda a equipa. Desta vez o portador é Paulinho, que assiste magistralmente um jogador do Estoril para golo - mais um triunfo do futebol associativo.

 

O jogo termina. Mais um teste vencido pelo Sporting de Ruben Amorim. Mais uma equipa com direitos de autor protegidos que não passou a sua musiquinha. Toda a gente conhece como o Sporting joga, poucos sabem como desmontar a forma como o Sporting joga. Da mesma forma que conhecimento é ter a noção de que o tomate é um fruto e  sabedoria é não misturá-lo numa salada de frutas. Compreender o Sporting é fácil. No papel tudo é lógico, tudo faz sentido: encaixam-se os nossos corredores num fecho-éclair, cava-se um dique para impedir a passagem da bola entre os centrais e os médios... Mas depois a bola entra directa no Gyokeres e este mostra ter a intuição que derruba qualquer lógica. Enquanto os outros pensam, ele acredita. E nós, também!!!

 

Feliz Dia de Reis!!!

 

P.S. Já toda a gente sabe que o Edwards é um bocadinho como o Sitting Bull: dentro do campo é um guerreiro a atacar, mas fora dele é sossegado, não fala, apenas murmura, pelo que é mais ou menos indiferente a língua em que lhe façam as perguntas. Sugestionado por isso, o jornalista da SportTV inventou um novo dialecto. Não havia necessidade, mas acabou por ser um momento televisivo "importanting"...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres

21
Dez22

Ronaldo e Messi


Pedro Azevedo

No futebol, como na vida, há várias formas de procurar o sucesso. Messi e Ronaldo tiveram um acompanhamento díspar (Ronaldo, aos onze anos, sozinho em Lisboa, o adolescente Messi acompanhado pelos pais na capital catalã) mas uma formação semelhante, no Barcelona e no Sporting, que lhes moldou a arte e o engenho no um-para-um. Acontece que cedo Ronaldo migrou para Inglaterra, sob a influência de um treinador britânico que lhe depurou as qualidades de explosão e finalização e o fez abandonar o apêndice circense e tudo aquilo que não tivesse golo como código postal. Tornou-se assim um jogador diferente, ainda que diferenciado, produto da visão prática típica da cultura da Grã-Bretanha. O que teria sido, melhor ou pior, se em vez de Ferguson tem encontrado orientação num outro tipo de treinador, nunca o saberemos, mas nos livros de ouro do futebol mundial estará muito bem assim, ele que chegou ao United e apanhou uma equipa já oleada mas teve o mérito de ser a cereja no topo do bolo que fez toda a diferença no título europeu obtido pelos ingleses. Se Ronaldo foi desenvolvido para ser um motor altamente rotativo, Messi cresceu com um sistema de transmissão instalado da cabeça aos pés, incluindo embraiagem, mudanças, eixo cardan e diferencial. Produto de uma escola de futebol onde a vertigem é preterida pelo pensar do jogo, o seu futebol é feito de acelerações, travagens súbitas, mudanças de direcção, desmultiplicações e alta aderência em curvas sinuosas que só umas passagens de caixa perfeitas lhe poderiam dar. Mas também tem passe e repasse, tabelinha, controlo do jogo, sentido colectivo e uma cultura táctica superior que é herança dessa casa, cultura essa que associada à atractibilidade do clube lhe permitiu crescer sem pressão na sombra de Ronaldinho, Deco, Xavi ou Iniesta antes de se tornar o seu timoneiro. No fundo, o futebol de Messi foi desenvolvido para potenciar a ginga e esconder as limitações físicas, o que faz com que tenha a necessidade de pegar na bola mais atrás, em zonas onde o povoamento não é tão intenso, tendo desenvolvido no proceso qualidades de armador de jogo. Já Ronaldo também podia ter ido nesse caminho, mas Ferguson, ao deslumbrar-se com as suas características físicas, apontou-lhe um atalho. Durante anos, o seu futebol não necessitou de caixa de velocidades, era só pôr a potência no chão, independentemente da zona de onde partisse. Perdida alguma da explosão, adaptou-se, continuando a fazer a diferença pelo killer-instinct associado a características como a capacidade de impulsão ou a qualidade do remate, dentro ou fora da área, com o pé esquerdo ou o direito, quando não de cabeça. 

 

Dois grandes jogadores, ícones da modalidade, que nasceram semelhantes e se desenvolveram em direcções diferentes, com Ronaldo mais aventureiro e sempre a procurar novos desafios e Messi mais acomodado na Cidade Condal. Pena foi que ao longo das suas carreiras nunca tenham jogado juntos, porque, egos à parte, teriam sido perfeitamente complementares no que respeita ao plano técnico, táctico, físico e mental do jogo. Ainda assim, tem sido um prazer vê-los a competir um com o outro, mas principalmente com eles próprios, ao longo dos últimos 15 anos. Tão, tão competitivos que bem dispensam médicos legistas e cangalheiros apressados. 

 

P.S. Durante o Mundial, Messi teve toda uma nação e uma equipa por detrás dele, acarinhando-o, dando-lhe força e impulsionando-o para que finalmente fosse coroado com o título mundial que lhe faltava. Enquanto isso, Ronaldo teve de lidar com a ingratidão dos portugueses e, por que não dizê-lo(?), do próprio seleccionador nacional. Ronaldo chegou em forma deficiente, faltando-lhe a pré-época, não foi utilizado no jogo de preparação com a Nigéria e não teve a rodagem suficiente em jogo para que conseguisse ganhar a confiança que lhe elevasse o patamar. Pelo contrário, foi sempre substituído, até perder a titularidade, apesar de ter sido importante dos 2 primeiros jogos e de, com ele em campo, a Selecção não se ter mostrado nunca inferior ao adversário no marcador (contra a Coreia saiu quando estavamos empatados, com Marrocos entrou com Portugal já a perder). Todas as polémicas - alegado toque na bola antes de golo, insatisfação ao sair prematuramente de campo, saída precoce após final dos jogos - foram canalizadas contra si e serviram para o ridicularizar perante o grande público, num julgamento primário que a todos devia envergonhar quando se trata de um ícone que nunca rejeitou a sua Selecção, antes por ela o vimos chorar com emoção ao som dos acordes do hino nacional. Não é perfeito? Não, longe disso. (Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.) Mas que se levantem então esses paladinos da perfeição, num país iminentemente corrupto e pouco meritocrático, de filiações, afiliados e afiliações, e cheio de falsos moralistas que logo se desenganam mal passam o adro da igreja.

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06
Dez22

Telé 2.0


Pedro Azevedo

Do futebol se diz ser a coisa mais importante entre as coisas verdadeiramente não importantes da(s) nossa(s) vida(s), uma frase pelo menos tão batida quanto cada um dos escassos relvados disponibilizados pela organização deste campeonato do mundo. Todavia, de 4 em 4 anos, o futebol aparenta mesmo ser a coisa mais importante de todas as coisas verdadeiramente importantes. Fruto da mega encenação que a FIFA constrói para o evento, cria-se a percepção de que a pátria se decide à volta do jogo da bola, com os generais de ocasião, um corrupio de políticos, a acompanharem de perto cada nova "batalha", como se do desfecho da nação se tratasse. 

 

De todas as selecções presentes em competição a que mais me agradou até ao momento foi o Brasil. Nesse sentido, Tite apresenta-se como o Telé versão 2.0, uma evolução que não desprezando o futebol sambado o compatibiliza com a preocupação de ter o esférico rapidamente recuperado. Ontem, ao olhar para este Brasil, tive a ilusão de estar novamente a ver o Zico, o Sócrates, o Falcão e o Éder, em suma, a brilhante gesta de 82. Os novos craques chamam-se agora Vinícius, Neymar, Richarlison ou Raphinha, e recuperam-nos a ideia de que é possível ganhar e jogar bonito, agradar simultaneamente ao cérebro e ao coração. Por isso este Brasil faz bem ao futebol, não escondendo que o desastre canarinho de 82 conduziu na minha opinião o ludopédio no caminho oposto, para anos de trevas. Evidentemente, um dos segredos deste novo Brasil parece residir nos equilíbrios que se estabelecem quando a equipa não está em posse. Aqui, para além da importância do polvo Casimiro, Tite conseguiu uma solidariedade defensiva entre todos, que faz com que Vinícius, Richarlison e Raphinha rapidamente recuperem posições e briguem pela bola. O próprio Neymar desce e ocupa um espaço, ainda que com um atitude mais passiva que os demais. Não há assim lugar para um Ganso (Paulo Henrique, ex-colega de Neymar no Santos e actual craque do Fluminense), mas obviamente não se despreza a oportunidade de ter um Pombo (Richarlison). Mas é com bola que a equipa delicia: a classe com que Vinícius colocou a bola no primeiro golo ou assistiu para o quarto, o virtuosismo de Neymar a congelar o guarda-redes coreano no segundo ou o momento zoomarine de Richarlison no terceiro foram inolvidáveis. E depois há 2 centrais brasileiros que mais parecem jogadores da posição "10", com uma visão de jogo e um timing de passe insuperáveis para os seus pares de outras selecções. De forma que há muito tempo não me divertia tanto com um jogo de futebol. 

 

Não sei se o Brasil ganhará a "guerra", mas admito que a sua vitória contribuiria para um melhor futebol, um jogo que efectivamente entusiasmasse as pessoas, com menos especulação e mais fantasia, menos negócio e mais espectáculo. Porque o futebol também pode fazer sonhar. E o que o Escrete ontem fez, naquele seu jeito de exportar o futebol da rua para o mundo inteiro, deixou-me a sonhar com as palavras proferidas por Júlio César ao passar o Rubicão: Alea jacta est. Os dados foram lançados e já sabemos que a bola lhes obedece como a ninguém, veremos se o Senado do futebol mundial estará de acordo com esta nova ordem que o tomou de surpresa. Veni, vidi, vici? (Se não puder ganhar Portugal, eu assinarei por baixo.)

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24
Nov22

A ver o Mundial (II)

Kaput!!


Pedro Azevedo

A revolta da bola quadrada prossegue em bom estilo no Mundial do Qatar e ontem a vítima foi a Alemanha. Mais do que derrotados, os germânicos foram derretidos pelas constantes acelerações nipónicas. Muito mérito para Moriyasu, o treinador japonês, que, primeiro, fez entrar mais um central de forma a adiantar os laterais e, depois, lançou o irrequieto Asano (olho para este jogador e vejo a falta que potencialmente Vitinha, o do Braga, pode vir a fazer à nossa Selecção) para dinamitar os panzers alemães. A reviravolta foi concluída em lance onde foi evidente que o cansaço físico dos teutónicos teve consequência a nivel da rapidez de raciocínio, produzindo-se assim um erro básico que custaria a derrota aos alemães.

 

Surpreendente, ou talvez não (fez uma óptima campanha de qualificação), foi a prestação do Canadá face à Bélgica. Com um impressionante primeiro tempo, período em que os belgas raramente conseguiram passar o seu meio campo, os canadianos tiveram inúmeras oportunidades de sentenciar o jogo. Todavia, em termos de finalização foi um Canada Dry, o que associado a uma única desatenção defensiva (por parte do nosso bem conhecido Steven Vitória, que em tudo o mais foi irrepreensível) lhes viria a ser fatal. Registe-se, porém, a estatística de 21 tentativas de golo contra apenas 9 dos belgas, números que em condições normais teriam sido mais do que suficientes para garantir a vitória canadiana. Além do mais, os norte-americanos não tiveram sorte com o árbitro, zambiano por sinal, ficando duas grandes penalidades por marcar a seu favor. Para lá dos já bem conhecidos Alphonse Davis (Bayern, falhou em penalty), Jonathan David (Lille) e Eustáquio, nos canadianos igualmente destacou-se o ala Buchanan, uma dor de cabeça constante para os belgas. Estes acabaram salvos pelo desacerto na decisão por parte do Canadá e por mais uma grande exibição de Courtois, um polvo na baliza. 

 

Marrocos esteve também em bom plano, merecendo amplamente o empate contra a vice-campeã mundial Croácia. A falta de um ponta de lança um pouco melhor do que El Nesyri terá custado a vitória aos magrebinos, apesar das boas intenções de Ziyech de assistir para golo. Com dois laterais muito rápidos e empreendedores (Hakimi e Mazraoui), um médio de inesgotável energia e elevado sentido posicional (Amrabat) e outro de enorme qualidade técnica (a revelação Amallah), os marroquinos deixaram água na boca. Nos croatas, Modric destacou-se como quase sempre.

 

O Espanha-Costa Rica não teve história. Os centro-americanos são provavelmente a equipa mais fraca da competição, pelo que não surpreendeu que a Espanha não tivesse encontrado oposição. Todavia, tenho a expectativa de os ver contra o Japão, uma equipa capaz de produzir as acelerações que poderão desorganizar o jogo cerebral dos "nuestros hermanos". 

 

Revelação: Marrocos, Japão, Canadá

 

Confirmação: Espanha

 

Desilusão: Alemanha, Bélgica

 

A rever: Croácia

 

Mais fraco: Costa Rica

 

Desequilibradores: Asano (Japão), Buchanan (Canadá)

 

Homens-golo: Ferran Torres, Batshuayi 

 

Revelação jogador: Amellah (Marrocos)

 

Jogo a seguir hoje: Portugal-Gana

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23
Nov22

A ver o Mundial (primeiras impressões)

O triunfo da bola quadrada


Pedro Azevedo

Os primeiros dias do Qatar 2022 confirmaram o que eu havia antecipado aqui. Uma bola que passe a 1 cm do pé é uma bola perdida, e de um modo geral notam-se grandes dificuldades individuais na marcação e em receber no espaço. Adicionalmente, do ponto de vista colectivo, não se vê uma pressão efectiva no campo todo, pelo menos nada que minimamente se compare com o que estamos habituados nos principais campeonatos europeus. A equipa mais agressiva até agora foi a americana, mas rebentou no segundo tempo. A nível de jogadores, comprova-se que este Mundial favorece quem tem explosão com bola, pelo que Saka, Sterling, Rashford, Dembélé e Mbappé deram fortemente nas vistas. Nesse sentido, preocupa-me que Portugal, do meio campo para a frente, tenha apenas Matheus Nunes e Rafael Leão como jogadores capazes de quebrar linhas em velocidade de progressão. Sendo certo que a lesão de Jota foi uma infelicidade que se abateu sobre a nossa Selecção, já pouco compreensível foi não levar Gonçalo Guedes (substituto natural do auto-excluído Rafa) e Renato Sanches. A meu ver temos um lote indiscutível de grandes jogadores, porém muitos funcionam a diesel. Só que estamos no golfo, as condições de temperatura e de humidade são muitos especiais e, por isso, temo que este seja o Mundial dos motores de combustão, a gasolina. Assim sendo, não estou muito confiante na nossa prestação, mas oxalá esteja redondamente enganado. 

 

A grande surpresa até agora da competição foi a derrota da Argentina (estava há 36 jogos invicta) aos pés da Arábia Saudita, uma grande contrariedade para Messi no seu último Mundial e uma alegria esfusiante para uns sauditas que logo decretaram feriado nacional. O triunfo da bola quadrada, como diria o saudoso Carlos Pinhão. De destacar o grande golo de Al Dawsari, o melhor do certame até agora. Corajosos, os pupilos do aventureiro Renard, uma espécie de Corto Maltese do futebol mundial, mantiveram sempre as linhas muito juntas, reduzindo assim os espaços aos sul-americanos, ainda que para tal tivessem tido que correr o risco de dispor o bloco defensivo praticamente em cima do traço divisório do meio campo. Em bom plano esteve igualmente a Tunísia, que impôs um empate a uma das selecções que mais entusiasmara até aqui (qualificação para o Mundial e último Europeu), a Dinamarca, mostrando uma bela organização de jogo, frescura física e jogadores capazes de fazer a diferença, como Msakni (*), Jebali e Sliti, este último uma descoberta do português Rui Almeida quando treinou o parisiense Red Star. Na linha aliás do que já havia mostrado o Senegal, a quem apenas terá faltado Mané para dar sequência ao bom caudal de jogo dos africanos. 

 

Hoje ficou também a saber-se que Cristiano Ronaldo e o Manchester United terminaram a sua ligação. Ainda a propósito de CR7, e já que a competição se desenrola em terra onde o petróleo é rei, pode ser que aquele que alguns (não eu) já dão como fóssil venha a fazer uma gracinha. A sua explosão, ainda que já somente em espaços curtos, está lá, pelo que resta-nos aguardar. A ver vamos. (Continuo a pensar que este será o Mundial dos jogadores, aquele em que as acções individuais decisivas terão uma preponderância maior do que aquilo a que estamos habituados.)

 

Revelação: Arábia Saudita, Tunísia 

 

Confirmação: Inglaterra, França

 

Desilusão: Argentina 

 

Interessante: EUA, Dinamarca, México 

 

A rever: Equador, Senegal, Países Baixos, Polónia, Gales

 

Mais fracos: Qatar, Irão, Austrália 

 

Desequilibradores: Mbappé, Saka

 

Homens-golo: Taremi, Giroud

 

Jogo do dia: Marrocos-Croácia

 

(*) Como curiosidade, Msakni partilha o segundo lugar na lista de goleadores do campeonato do Qatar com o ex-portista Brahimi (5 golos). O melhor marcador é... Gelson Dala (8 golos em 7 jogos). 

 

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14
Nov22

Tudo ao molho e fé em Deus

Mixórdia de temáticas


Pedro Azevedo

Caro Leitor, a semana começou com o sorteio da Liga Europa e eu conheci o nome do nosso oponente antes da cerimónia em si. Não, não foi em sonhos nem teve a ver com o "sortilégio" ou manha das bolas quentes e frias, embora o clube dinamarquês que nos calhou em sorte fosse o mais desejado. Acontece que há uns dias atrás eu havia tido uma consulta no meu oftalmologista. E o senhor doutor pôs-me a olhar para uma parede iluminada onde se projectava um amontoado de letras soltas. Às tantas, pediu-me para eu as soletrar, uma a uma: M I D T J Y L L A N D. Foi então que tive a epifania. Entretanto, se o meu diagnóstico foi 20/20, o nosso só pode ser a passagem aos oitavos. Mas como é conhecida a nossa miopia de cada vez que nos é pedido para ver mais longe, o melhor mesmo é continuarmos a olhar de perto, jogo a jogo, assim Deus nos livre da hipermetropia que nos acomete de cada vez que o Braga e o Porto estão mesmo ali ao dobrar da esquina.  

 

Ainda durante a semana foram anunciados quase todos os convocados do Sporting para as selecções que vão disputar o Mundial do Qatar. Assim, teremos o Coates e o Ugarte pelo Uruguai e presumivelmente o Fatawu pelo Gana, ambos do grupo de Portugal. E o Morita alinhará pelo Japão. Por Portugal é que nada, nem um dos nossos. O meu medo é que os futuros jogadores lusos do Sporting comecem logo a pensar naturalizar-se por outro país no acto da assinatura de contrato. Por exemplo, arranjando uma canária para poderem jogar por Espanha. Ou, crescendo para umas suiças, de forma a alinharem pelo país da banca e do chocolate. Como não se chamam Otávio ou Pepe, não correriam o risco de virem a ser chamados pelo Engenheiro. Sim, porque o Coates teria que nascer 100 vezes para tirar o lugar ao António Silva - "Ó Evaristo, tens cá disto?". (O Fernando Santos como cómico - apesar daqueles trejeitos de pescoço e da fantástica rábula do IRS - também teria de nascer 100 vezes para tirar o lugar ao António Silva.)

 

Ontem terminámos o nosso aquecimento para o campeonato nacional em Famalicão. Para não variar o Amorim fintou toda a gente e lá inventou uma equipa capaz de dar cabo do Placard ao apostador mais ousado. O Edwards e o Arthur, que haviam sido os melhores contra o Casa Pia, foram para o banco. E o St Juste fez os 90 minutos. O caso do neerlandês então é paradigmático: o homem andava a jogar a espaços, porque havia perdido a pré-época por lesão e alegadamente precisava da paragem para o campeonato do mundo para recuperar a melhor condição física. E o que aconteceu? Agora que a paragem está à porta, abrindo-lhe essa janela a possibilidade de poder ser totalmente recuperado sem risco de recidivas em competição, pela primeira vez jogou o tempo todo. (Ao Gabinete de Performance o que é do Gabinete de Performance, ou ainda alguém se lembra de convocar para aqui os laboratórios Azevedos.) Felizmente nada de mais aconteceu para além de um golo do Famalicão. Podia ter sido um tiro no pé, assim foi só um auto-golo. (Azares à parte, a defesa foi de longe o nosso melhor sector, com Inácio a salvar um golo certo, Coates imperial sobre a terra e sobre o ar e o Jeremias igualmente bem.)

 

O Morita ganhou uma bola que o Paulinho endereçou para a baliza deserta. Só que o Trincão intrometeu-se e sobre a linha sacou o golo ao nosso necessitado ponta de lança. Conclusão: eles até podem ter sido colegas em Braga, mas cá para mim o Trincão é um amigo de Peniche. Para o Paulinho, que não para o Pote que aproveitou um penalty saído dos pés do ex-culé. Depois, o Morita viria a marcar um golo. A coisa na televisão pareceu limpinho, limpinho. Até o Freitas Lobo, meio resignado, o confirmou. O Euclides, o Euler e o Gauss também. Mas depois veio o VAR. E comeu-o. E lá foram o Pai Natal e o palhaço no combóio ao circo. Enfim, (terão sido só) fantasias de Natal...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Seba Coates

 

PS: Outra fantasia de Natal é haver árbitros portugueses no Qatar. O Lineker é que não conhece bem isto, se não saberia que em Portugal o futebol são onze contra onze e no fim ganha o amarelo (também onze, ontem em Famalicão). 

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19
Out22

As causas das coisas


Pedro Azevedo

Quando se fala do actual momento da equipa de futebol do Sporting é possível fazer uma súmula das principais críticas efectuadas por sócios e adeptos. Estas são: 1) A protecção que alegadamente Amorim dá a certos jogadores do plantel; 2) A ausência de um ponta de lança matador; 3) A falta de aposta na Formação; 4) A venda não devidamente compensada (desportivamente) de Matheus Nunes; 5) A menor qualidade dos reforços; 6) A imutabilidade do sistema táctico. 

 

A meu ver as críticas fazem sentido nos 4 primeiros pontos, são apenas em parte justificadas no ponto 5 e duvido que tenham nexo de causalidade no 6º ponto. Adicionalmente, creio haver um 7º ponto, que correlaciona com o 4º, não tão falado e que eventualmente estará a ter mais peso nos resultados e exibições que quaisquer dos outros comumente apontados por sócios e adeptos. 

 

Vou passar a explicar: é certo que a insistência em Esgaio e Paulinho parece carecer de meritocracia. O lateral/ala tem cometido arros sucessivos (Braga, Boavista, Santa Clara, Marselha cá e lá...) que na sua esmagadora maioria custaram pontos e o ponta de lança ainda só marcou 1 golo (ainda que importante, contra o Tottenham) desde o início da época. Se no caso de Esgaio tal mais realça o enigma do empréstimo do jovem Gonçalo Esteves ao Estoril (ainda mais sabendo-se do histórico de lesões musculares de Porro), no que concerne a Paulinho questiona-se a razão pela qual a ida ao mercado para buscar uma alternativa não foi equacionada. Poderia ter sido para dar oportunidades a Rodrigo Ribeiro, mas não, pelo que num e noutro caso emerge a falta de aposta na Formação: não só o jovem e promissor lateral/ala deixou o plantel como a única alternativa a Paulinho (Rodrigo Ribeiro) não tem tido possibilidade de jogar. Rúben alega que o momento não é o melhor para lançar jovens, mas sendo o momento de uma equipa uma situação imprevisível no mundo do futebol pergunta-se porque então foi entendido ser Rodrigo a única alternativa a Paulinho. É-se alternativa para nunca jogar? Claro, pode sempre invocar-se a opção pelo ataque móvel como justificação, mas no ponto 7 procurarei explicar que essa opção trouxe mais inconvenientes que vantagens à equipa do Sporting. Ainda no que respeita aos jovens, só à luz de pura propaganda se entende a aposta não continuada em Dario Essugo ocorrido na época passada. Já no que se refere a Mateus Fernandes é difícil de perceber o motivo de ainda não ter sido opção, dado o actual elenco de médios. (Uma nota: Rúben diz que o momento não é o melhor para lançar jovens, mas curiosamente a única oportunidade que concedeu a Rodrigo Ribeiro ocorreu quando o Sporting já perdia por 2 a 0, em casa, contra o Chaves.) Esta tergiversão no que respeita à Formação, bem como a insistência no mesmo ponta de lança e a protecção a jogadores "preferidos", tem tido impacto nos resultados desportivos. Mas, mais até do que nos resultados, tem tido repercussão no estado de espírito de sócios e adeptos, o que faz com que o que ontem seria impensável (haver já quem veja o treinador mais como um problema do que como uma solução) hoje esteja a ser equacionado. Do meu ponto-de-vista precipitadamente, até porque não trocaria um treinador que ainda recentemente nos deu um campeonato e mostrou consistência numa segunda época completa por outro (Abel Ferreira) que pode ter ganho duas Libertadores e vir a ser campeão brasileiro esta época mas não me dá a garantia de triunfos similares no Sporting. Além disso, se li bem o que se tem passado, o que está mais a constrangir a equipa nem é da responsabilidade directa de Rúben. Passo a explicar: para mim, a saída de Matheus Nunes, pelo que individualmente valia e pela compatibilidade com o jogo da equipa/características dos colegas, não foi devidamente colmatada e está na origem directa de um jogo ofensivamente arrastado e sem acelerações e de uma maior exposição dos nossos defesas. Não é que Morita não tenha imensa qualidade (e aqui entramos no tema dos reforços), mas embora partilhe com o luso-brasileiro a técnica apurada não tem o motor nem a presença física deste. Já o jovem grego (Alexandropoulos) tem apenas o transporte de bola em comum com Matheus, pois fica bastante aquém na capacidade técnica (passe, recepção, remate, drible), explosão no arrranque (Matheus era especialmente imprevisível quando recebia de costas para a baliza adversária, rodando com igual facilidade para a esquerda ou direita) e decisão (timing de largar a bola). St Juste é um central com técnica e velocidade, qualidades que lhe permitiriam facilmente ocupar a posição de lateral. Infelizmente, cada vez mais se assemelha a um homem de cristal (lembram-se do Jeffren?) e a gestão do seu estado físico aparenta ser pouco coerente. (Apressa-se o seu regresso para depois numa perspectiva conservadora jogar o mínimo de tempo possível e ser substituído, mas muitas vezes nem a perspectiva conservadora o salva e sai novamente lesionado.) Depois há o Edwards, que é claramente o malabarista desta equipa, um jogador com grandes recursos ofensivos mas com carências que explorarei no tal 7º ponto. O inglês destaca-se de Trincão por jogar de cabeça levantada, ter um drible mais imprevisível e uma melhor decisão. Com Edwards e Trincão na equipa, Fatawu parece redundante. E ainda chegou Arthur, que impressionou no pouco tempo que esteve em campo com o Tottenham e só voltou a jogar com o Santa Clara, desaparecendo depois. Quantos aos outros, o Marsá pode vir a fazer a diferença, o Israel nem tanto. Em resumo, não creio que globalmente os reforços sejam maus. Por exemplo, o Morita é um excelente jogador de futebol e o Edwards é um extraordinário jogador de bola (futebol de rua), a precisar de mais compromisso com a equipa e o jogo. O St Juste sem lesões será muito útil e o Marsá tem uma saída de bola que impressiona. Outros há que parecem não aquecer nem arrefecer, sendo de questionar se não haveria na Formação igual ou melhor. Já Trincão não tem justificado até agora o racional da sua contratação, seja em termos absolutos ou por via da comparação com Sarabia.   

 

A alegada imutabilidade do sistema táctico muitas críticas tem valido a Rúben Amorim. Mas aqui estou com ele. Os sócios e adeptos dizem não haver um Plano B, mas a verdade é que já vi o Sporting terminar a jogar em 3-2-5, o célebre WM (exemplo: Gil Vicente, em casa, no ano do título). Além disso, várias nuances têm vindo a ser adicionadas ao nosso tradicional 3-4-3: Paulinho chegou a jogar a partir da esquerda com Slimani no meio, a lembrar o que Mourinho fez com Derlei e McCarthy  no Porto campeão europeu; Matheus passou para a meia-esquerda e Pote ficou a jogar de perfil com Palhinha; a dado momento da época passada houve uma clara intenção de dar mais dinâmica atacante à equipa, com Amorim a preterir Palhinha em detrimento de Ugarte. Em todas essas alterações notou-se a preocupação de Amorim em melhorar a equipa e/ou torná-la menos previsível, porém nem sempre resultaram. (Ainda hoje não sei se não teríamos ganho o campeonato, se o Matheus tem continuado a jogar a partir do centro e não derivado mais para a esquerda.) De notar que com o plantel actual o 4-3-3, o 3-5-2 ou mesmo o 4-4-2 seriam sistemas ainda mais desadequados a um único ponta de lança e com as características de Paulinho. Por fim, cumpre lembrar a todos os  que gostam de mudanças de sistema operadas durante os jogos que o nosso antigo treinador, Silas, mudava de sistema como quem substitui um jogador. Com os resultados conhecidos... (E é difícil alterar um sistema à terceira jornada de um campeonato e quando se trabalhou na pré-época a contar que Matheus ficasse e ajudasse a mitigar os possíveis desequilíbrios defensivos que jogadores entretanto adquiridos com menor propensão para pressionar na frente poderiam previsivelmente causar.)

 

Analisados os principais pomos de discórdia, entro agora no tal enigmático ponto 7 que imediatamente desvendarei: defensivamente a equipa comporta-se muito pior do que em 20/21 ou 21/22 por motivos muito concretos. Senão vejamos: o Sporting de 20/21 tinha Sporar como ponta de lança. Ofensivamente falhava golos incríveis, mas defensivamente trabalhava que nem um mouro. O Sporting pressionava muito à frente, no que também Tiago Tomás era bastante útil (e o raçudo Nuno Santos, que nessa era jogava lá na frente, como interior). Depois havia Palhinha, que era um polvo e disfarçava a menor intensidade de João Mário. Este acabava quase sempre substituído por Matheus Nunes, que trazia a força que começava a faltar ao meio-campo e ainda como "plus" marcava golos decisivos como contra o Benfica, em Alvalade (onde foi titular), ou ao Braga (cá e lá). Com a substituição de Sporar por Paulinho e o gradual apagamento de TT, o Sporting começou a ser mais permável defensivamente. Tal pode ser atestado pelo maior número de golos sofridos nessa segunda volta, mas também pelo desempenho na época seguinte. Ainda assim, os números eram perfeitamente razoáveis e dignos de um sério candidato ao título. Todavia, este ano tudo mudou. Para pior. E a meu ver há uma razão para isso. Com o ataque móvel passámos a ter dois dianteiros (Edwards e Tricão) que não defendem, a que acresce um Pote menos lutador que em anos anteriores. Isso poderia ter sido mitigado havendo Palhinha e Matheus Nunes. Ambos porém foram vendidos, o que justifica o mal-estar que Amorim não se coibiu de exibir publicamente. Aliás, em defesa do treinador é preciso dizer que estava bem consciente do desequilíbrio que a saída de Matheus poderia provocar, nomeadamente quando antes da sua saída afirmou preferir manter todos os jogadores a ir ao mercado. Ora, não estando em causa a valia de Ugarte ou de Morita, nenhum deles consegue impôr tanto o corpo, esticar o jogo, desgastar os adversários e regressar á posição inicial (como se estivesse ligado à equipa por um elástico) tantas vezes num jogo como o Matheus Nunes. E se o adversário tem fôlego e encontra menos oposição, então tem a sua vida facilitada, o que é inversamente proporcional à vida da nossa defesa. Acresce que o nosso jogo ofensivo também se tornou mais pastoso após a saída de Matheus, facto aliás reconhecido pelo olho certeiro de vários Leitores deste blogue. É que o Menino do Rio tirava rapidamente a bola da zona de pressão e em duas/três passadas já ameaçava a área contrária. Morita é um belíssimo jogador, mas é mais de passe e menos de transporte, o que significa que tem dificuldade em produzir jogo atacante se não tiver referências de passe, mas Matheus estava num patamar superior. Havia melhorado muito o passe frontal e o remate à baliza (aspectos da "decisão") e conciliava agilidade com técnica irrepreensível e velocidade de condução de bola. Sem ele, hoje em dia há uma inglória sobreutilização dos flancos e dos cruzamentos para um ponta de lança com características mais eufemisticamente ditas de associativas e menos de finalização nata, o qual fica a parecer pior do que é precisamente devido ao menor fluxo de jogo interior (a lentidão no transporte de bola leva ao reposicionamento do adversário e congestão da zona central, restando as alas para tentar criar o desequilíbrio). Por isso digo que a saída de Matheus desestabilizou treinador e equipa e dou mérito ao treinador por imediatamente ter percebido a falta que o Menino do Rio viria a fazer, não esquecendo que se não fosse Rúben o Matheus provavelmente ainda andaria a bater à porta da equipa A (ideia peregrina anunciada por Silas aquando da sua passagem pelo Sporting). 

 

Olhando para todos os aspectos aqui considerados e pensando eu que a serenidade voltará à acção e ao discurso de Rúben, não tenho dúvidas de que apesar da sua quota de responsabilidade na nossa actual crise ainda é o treinador que nos dá mais garantias no presente. E para o futuro, caso retorne a interrompida aposta na Formação. Creio é que os sócios e adeptos estão fartos de assistir a este jogo de espelhos, de fontes luminosas, novas ou pereira de melo citadas por jornais, por onde Direcção e treinador vêm vendendo as suas razões. Entendam-se! (É que os jogadores também assistem a estas coisas e a autoridade de quem os lidera não se pode perder.) 

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13
Out22

Tudo ao molho e fé em Deus

Atração pelo abismo


Pedro Azevedo

A noite de ontem trouxe-me à memória um velho hábito dos mineiros que consistia em preventivamente transportarem consigo para as minas um canário numa gaiola. Se o pássaro morresse, então tal seria encarado como um sinal cabal de ar rarefeito e recomendaria que se evacuasse imediatamente o local. Na vida também há momentos em que parece que nos falta o oxigénio, mas tal deve-se muitas vezes apenas a termo-nos esquecido de respirar. Como tal, a solução afigura-se simples, só que nem sempre é assim tão fácil. Na minha modesta opinião, Rúben Amorim precisa de respirar, de ganhar afastamento dos problemas e assim mais facilmente encontrar as soluções. Nesses momentos, um bom amigo (o "canário"), um daqueles que nos dizem sempre a verdade nua e crua na cara, pode ajudar. Porque só querem o nosso bem e nos dizem muitas vezes aquilo que não queremos ouvir, o que a carapaça que erguemos como defesa não permite enxergar. Essa carapaça tem a vantagem de reforçar a nossa resistência ou resiliência e o inconveniente de obrigar a sublimar as nossas convicções de uma forma em que ocasionalmente os malfadados orgulho e ego se irão sobrepor à virtuosa auto-estima. Ora, é aí que os verdadeiros amigos nos podem ser muito úteis, porque nos querem bem e nos trazem a perspectiva de quem observa de longe, e portanto de forma não contaminada pelo "ruído", e por isso capta um espectro muito mais alargado do que quem está tão tão de perto, que vê tudo desfocado. 

 

Amorim perde-se em sucessivos erros de casting. Pior, isso cada vez mais repercute-se na deriva da sua comunicação, outrora uma das suas competências mais fortes e aglutinadoras usada com maestria para passar mensagens quer de dentro para fora quer de fora para dentro. Senão vejamos: a propósito da sucessiva insistência em Esgaio, o treinador vem falar-nos de uma massa de adeptos que tem um suposto preconceito contra jogadores provenientes do Braga. Ora, eu já ando neste mundo há tempo suficiente para saber que coisas como essa existem, simplesmente tal não reflecte o sentimento da maioria. E, se não reflecte o sentimento da maioria, não é importante, não deve ser assumido, desde logo porque, se assumido, tomará a nuvem por Juno e terá um efeito Boomerang na tal maioria de adeptos que não têm esse preconceito, logo a mensagem torna-se mais desagregadora que agregadora, ou seja, não deve ser dita ou repetida por não trazer nada de positivo para a união. O que verdadeiramente preocupa os sócios e adeptos não é os jogadores virem do Braga, mas sim o não serem suficientemente bons para o nível do Sporting ou serem demasiado caros face ao seu desempenho no campo e a nossa realidade económico/financeira (a mesma que nos é vendida como justificação para a alienação dos passes de Matheus Nunes ou Palhinha). Além disso, Rúben Amorim comete um erro básico de comunicação quando nos diz que esses jogadores são sua aposta. Porque num plantel de cerca de 25 jogadores todos devem ser sua aposta, e não apenas estes dois. O que leva à legítima interrogação da razão pela qual é tão fácil para o treinador deixar cair um Vinagre ou um Jovane e não um Esgaio ou um Paulinho. Não deveriam ser todos iguais e estar a sua menor ou maior utilização dependente dos méritos demonstrados em campo? E não mereceriam todos por igual a possibilidade de redenção, caso tivessem uma exibição menos conseguida? Porque é que um Jovane, providencial na primeira meia-época de Amorim e instrumental na conquista do seu primeiro título no Sporting (Taça da Liga) e na Supertaça, tem tão poucas oportunidades? Não está o cabo-verdiano liberado pelo departamento médico há mais de 1 semana? Então, porque razão nem para o banco vai, com Amorim simultaneamente a perorar ardilosamente sobre a sua ansiedade, enquanto o mal-recuperado Porro aí tem lugar ainda que sabendo o treinador que só pode fazer 25 minutos? Eu poderia até juntar aqui as recidivas constantes de St Juste ou de Coates e pôr em causa a gestão de esforço e a forma como certos atletas são lançados em competição após lesões, mas volto a focar-me na comunicação: não se concebe que na véspera de uma deslocação a Marselha o treinador reagite a bandeira de um Sporting Europeu para depois conceder o jogo ao fim de 30 minutos. E menos ainda se entende que após admitir, em conferência de imprensa de antevisão do jogo de retorno, que a saída prematura de Edwards em Marselha foi um erro venha um dia depois a repetir a dose. O que nos faz aqui cruzar os erros comunicacionais com os erros tácticos, o terceiro problema. Para além de o nosso jogador mais criativo estar sempre a ser sacrificado e dessa punição nada resultar de bom para a equipa (vidé dois jogos com o Marselha e o jogo com o Santa Clara), também não se entende a razão pela qual Morita saiu precocemente neste último jogo para 13 minutos depois entrar o bem menos competente e experiente Alexandropoulos, uma demonstração de que o treinador se equivocou inicialmente quando operou a primeira substituição. Resistindo sempre a alterar a linha defensiva para 4, o treinador pura e simplesmente entregou os pontos, voltando mais tarde a mexer com a recorrente e incompreensível entrada de Nazinho, como se a bandeira da tardia aposta na Formação o salvasse do disparate ululante para as massas. Nem está em causa o Nazinho, mas não foi o próprio treinador que anunciou que os jovens devem ser lançados com critério? É um bom critério lançar um jovem para a fogueira? E o que se passa com os mais promissores Mateus Fernandes, Essugo ou Rodrigo Ribeiro? Será que o Mister vai continuar a invocar (Amorim dixit) o quão difícil se tornou em dois anos entrar na equipa? Realmente, dado o "altíssimo" rendimento observado a Esgaio ou Paulinho (mas poderia também aqui falar de Pote, a quem parece faltar um banho de humildade no banco ou na bancada), os nossos jovens vão ter de nascer 100 vezes para terem uma oportunidade... (Súbita e inesperadamente, as parecenças com o Mestre da Táctica realçam-se.)

 

Amorim está numa encruzilhada, mas ainda tem o crédito do campeonato nacional que deu aos Sportinguistas. Estes são na sua maioria gratos e não esquecem quem lhes deu alegrias. Mas é importante que o nosso treinador redescubra o caminho. O seu, o nosso, o do Sporting. Por isso, dirijo-me directamente ao treinador para lhe enviar um voto de confiança e uma recomendação: reflicta, procure dialogar com os mais próximos e os que gostam de si e arrepie caminho enquanto é tempo. Ninguém o vai crucificar por erros pontuais, mas por favor não repita erros básicos reiteradamente, é preciso cabeça fria e a noção de que o todo é sempre mais importante que o nosso umbigo. O seu melhor, o melhor de Rúben Amorim foi a melhor coisa que aconteceu ao Sporting nos últimos 20 anos. Esse Rúben dava-nos o presente e o futuro. Reencontre-o dentro de si e faça-nos ( e  a si) felizes de novo. Eu acredito!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Manuel Ugarte (um leão!!!)

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09
Out22

Tudo ao molho e fé em Deus

Elegia a Nuno Santos num dia em que Adán deu o que Adán tirou


Pedro Azevedo

Caro Leitor, eu quero reparar aqui a injustiça que tenho cometido com um jogador, iniquidade essa produto de uma mente orientada para valorizar em excesso o génio em detrimento do trabalho. Esta falha, de que me penetencio, teve na sua origem o meu conceito de equipa grande, que sempre associei a jogadores que façam a diferença. E foi aqui que errei, porque não é só a genialidade que faz a diferença, o compromisso com a equipa e a não aceitação da derrota também têm de ser características diferenciadores em quem vista a camisola verde-e-branca. Por isso, hoje venho aqui em modo de elegia a um jogador. Não, não se trata de Adán, de quem nunca duvidei das qualidades (bem como dos defeitos), que ontem foi o melhor em campo e o garante dos 3 pontos que trouxemos dos Açores. Não, o jogador de que Vos quero falar, de quem já Vos devia ter falado há muito tempo e justamente enaltecido aqui é o Nuno Santos. Mas hoje vou reparar este meu descuido. A verdade é que se estivessemos em guerra e eu alistado numa qualquer fileira em prol da lusa pátria e me entregassem uma missão quase suicidária e de baixa probabilidade de sobrevivência para a qual teria de nomear um combatente para me ajudar eu escolheria o Nuno Santos. E escolheria bem, porque sei que ele daria tudo para vencer, nunca se resignaria à sua sorte. Como pude subvalorizar isto ao longo destes últimos 2 anos e meio é que não sei, ou melhor, até sei e já o expressei em cima. Por isso é que desde cedo admirei o Matheus Nunes - até chegar ao Liverpool, um desperdício imenso de talento neste purgatório que constitui os Wolves (qualquer dúvida, recomendo visionamento de um lance ocorrido aos 20 minutos da partida de ontem em Stanford Bridge), ele que tanto nos poderia ter ajudado até ao Mercado de Inverno - e o Pote, como hoje valorizo o Edwards ou o Morita, tudo jogadores de uma classe à parte. Mas depois há o Nuno Santos, que é sólido, fiável e competente. Eu sei, pode não ter a estética de um bólide italiano, mas é seguro como um familiar alemão. Falando de teutónicos, diria até que não há um jogador tão germano como ele no futebol português desde os tempos de Maniche. Senão atente-se: ele recebe bem, passa bem (até de letra), chuta bem e tem uma mentalidade vencedora. Ok, não é inventivo nos dribles, não deslumbra no 1x1, não se perde em rodriguinhos para a bancada e para quem confunda habilidade com técnica até pode passar despercebido. Mas numa equipa onde muitos se acham melhores do que verdadeiramente o são, dá sempre jeito ter alguém que é muito melhor do que o olho mal treinado pode observar. E isso é tão válido para o Sporting como para a nossa Selecção, que talvez precise de gente pouco aburguesada e ainda com muita fome de ganhar. Porque uma equipa campeã também se faz desta massa que lhe dá consistência. Por isso, será bom não esquecer que por detrás de cada Pirlo há um Gattuso, por cada Figo ou Zidane um Makelele, por cada Ronaldo um Casemiro. E essa é tanto a essência do futebol como da própria vida.  

 

Ontem ficámos a dever a vitória a Adán, mas também a Nuno Santos. Porque apesar de o espanhol ter sido um gigante entre os postes, foi a inquietação contra a moleza ou molenguice de um jogador que nos garantiu um segundo golo providencial. Sim, foi de moleza ou molenguice que se viveu no segundo tempo, e não pode haver campeões com esse espírito. Por isso a nossa chama foi ficando cada vez mais pequenina, quase se apagando quando Morita e Edwards foram mal substituídos, valendo-nos na parte final o Bico de Bunsen do Nuno Santos, um homem que parece sempre estar preparado para uma semana de campo a dormir numa tenda, a comer ração e beber de um cantil e a rastejar em cantos lodacentos por baixo do arame farpado. E como de arame farpado vamos estar sempre rodeados, que o diga mais uma exibição para esquecer do melhor árbitro internacional não reconhecido pela FIFA para os seus certames quadrienais, o Nuno Santos altamente recomenda-se. Tenho dito.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Antonio Adán

 

P.S. Gostei muito do St Juste (que até mostrou dotes de poder ser um bom substituto para o Porro), mas ainda anseio pelo dia em que o verei fazer os 90 minutos...

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10
Ago22

Eterno


Pedro Azevedo

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Quando um jogador é muito bom, mesmo que pertencente à um clube rival, ele passa a ser de todos os adeptos. Essa, aliás, é uma das raras ocasiões em que a clubite cede ao gosto pelo futebol, esmagada que fica pela excelência do futebolista. Foi exactamente isso que se passou com Fernando Chalana, a quem um dia Neves de Sousa (o seu a seu dono) apelidou de O Pequeno Genial, um apodo mais do que justo para quem surpreendeu o mundo como um meteoro no Euro-84 e inspirou futuros craques como Paulo Futre. Com o seu bigode farfalhudo e jeito de homem simples, humilde e bom, Chalana virou após esse Europeu um ícone, o Chalanix, consequência da sua transferência para Bordéus e da semelhança fisionómica com o herói gaulês criado pelo traço de Uderzo. Mas os seus melhores tempos haviam ficado para trás. Lançado na equipa principal do Benfica com 17 anos acabados de perfazer, Chalana cedo chamou a atenção pela imprevisibilidade do seu drible, finta estonteante que executava muitas vezes parado. Raras aliás eram as vezes em que os adversários não ficavam no chão, bastando-lhe o desarmante ulular dos braços para produzir esse efeito. Além disso possuía a visão de jogo de um "10", um entendimento do jogo muito superior ao habitual num extremo. Tudo alicerçado numa técnica apuradíssima que lhe permitia jogar com igual rendimento com qualquer um dos pés. Mestre na arte do engano no terreno de jogo, até nisso Chalana foi diferente: destro, levou a maioria das pessoas ainda hoje a pensar que era um canhoto natural. Um grande. E, como grande, eterno. 

25
Nov21

Tudo ao molho e fé em Deus

A alegria do povo


Pedro Azevedo

De Mané Garrincha se dizia ser a "Alegria do Povo". Com o estádio cheio e contra adversários difíceis, Garrincha jogava como se estivesse numa peladinha entre amigos. Nunca acusava a pressão, nem tão pouco temia o circunstancial opositor de um determinado dia. Todos para ele eram "Joões", fossem eles do Flamengo, Fluminense, Vasco, ou da Checoslováquia ou Suécia. Movia-se por puro instinto, e só isso. Todos conheciam a sua finta, mas ninguém o conseguia deter.

 

Penso em Garrincha quando olho para Pedro Gonçalves. Troco apenas o instinto e a arte da revienga de um pela inteligência e assertividade no remate do outro. Quanto ao semi-alheamento comum a ambos, o do Mané tinha mais a ver com a falta de noção enquanto o do Pedro parece propositado e visar melhor enganar o adversário. Partilham porém o facto de ambos serem "cool as a cucumber", imperturbáveis de uma forma quase arrogante, absolutamente confiantes e seguros do seu papel desequilibrador no campo. 

 

Durante meia-hora não se viu o nosso Pote de Ouro no relvado. Mas da primeira vez que se deu por ele foi golo. De uma forma prática, sem adornos desnecessários, a um só toque, sabendo encontrar o espaço ideal para melhor ferir o adversário. Como se de um duende, um leprechaun se tratasse, escondendo-se entre a vegetação (relva) para aparecer de repente, traquino e astuto. Com esse golo, Pedro Gonçalves incendiou um José Alvalade até aí inquieto, possuído pelas dúvidas. É que a forte pressão alemã a meio-campo conseguiu durante muito tempo ofuscar a entrada pressionante dos leões e chegou a temer-se o pior. Mas Coates e Inácio estiveram imperiais na defesa, Matheus e Palhinha correram muito para esbater a inferioridade numérica a meio-campo e o Sporting conseguiu aguentar-se no jogo. Até que apareceu o Pote, uma e outra vez. Da segunda vez a concluir uma brilhante jogada colectiva: Matheus Nunes avançou pela direita, Paulinho amorteceu e deixou para Matheus Reis, este visou a zona de penálti onde Matheus Nunes segurou de costas como um ponta de lança, Sarabia tocou suavemente para a entrada da área e Pote rematou colocado e com uma violência dir-se-ia impossível para um golpe desferido com a parte de dentro do seu pé direito. O Sporting ia para o intervalo com a vantagem ideal que lhe permitia a qualificação imediata para a fase seguinte da Champions. Faltavam, porém, 45 minutos para carimbar essa passagem.

 

Entrámos bem no segundo tempo e uma combinação entre Pote e Sarabia poderia ter dado o terceiro golo não fora o cansaço já evidente do espanhol. Mas acabariam por ser os alemães a cometer o hara-kiri quando Emre Can se fez expulsar por agressão a Porro. Em noite de Pedros, a importância de Porro não se ficaria por aqui, surgindo a recarregar com êxito um penálti desperdiçado por Pote e ganho por Paulinho.  Com o 3-0 e mais um homem no terreno veio uma descompressão que se poderia ter revelado fatal. O jovem Nazinho foi lançado às feras em jogo internacional, os alemães reduziram, a inexperiência nestas andanças veio ao de cima e durante alguns minutos os leões deixaram de trocar a bola com critério, pelo que a ansiedade tomou conta de todos, espectadores incluídos, até ao silvo final do árbitro. Seguiu-se a festa, bem merecida.

 

O Sporting cometeu o feito de se apurar para os oitavos-de-final da Champions, algo que não acontecia desde 2008/09 com Paulo Bento, e o grande arquitecto de tudo isto é o Rúben Amorim. Depois de um início titubeante, quem diria que à quinta jornada já estaríamos apurados? Na vida estanos sempre a aprender, e o Amorim aprende muito depressa. Sagaz, inteligente e de comunicação assertiva, corajoso no lançamento de jovens e providencial na preparação do futuro, Rúben Amorim está na sua cadeira de sonho. Ou melhor, na nossa, porque enquanto ele por cá andar estaremos sempre bem sentados. Sonhando, e dormindo descansados.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pote

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