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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

10
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

Jogar à sueca


Pedro Azevedo

Um jogo de Taça entre um grande e um pequeno dá sempre uma oportunidade a este último de jogar a cartada do tomba-gigantes. Nessa conformidade, o Tondela não quis ser uma carta fora do baralho e foi a jogo. Só que no "pano" verde de Alvalade agora joga-se à sueca e o Sporting tem sempre o Ás de trunfo. Acrescentar o Ás a outros trunfos importantes que o clube sempre teve, ajuda muito a que as vazas não terminam em "palha". E não terminando em "palha", vão-se somando pontos importantes para se ganharem campeonatos e outras competições. É preciso porém não olvidar que esse Às não deixa de ser um "Joker(es)", pelo que se o nosso adversário quiser especular com o jogo (Póquer) ou jogar as cartas todas que tem na mão (Canasta e Gin Rummy), as probabilidades continuarão a tombar para o nosso lado, havendo um "Joker(es)" que se pode fazer de qualquer outra carta para desempatar.  

 

Aquilo que mais impressiona no Gyokeres (chamemos-lhe assim), é mesmo a forma como substitui qualquer carta do baralho: que ele era um Ás na finalização, poucos teriam dúvidas, mas também é um rei, para os adeptos do Sporting, como foi rainha para os ingleses do Coventry. E um valete, ao serviço de Amorim. Ou uma manilha, quando acelera pela ala direita como um "7". E pinta com cada "sena"... Umas vezes vestindo traje de gala (terno), outras esfarrapando-se todo como se fosse a carta menos valiosa do baralho (duque). No fim, o adversário invariavelmente quina, pelo que sobre ele alguém ainda há-de escrever uma bela quadra. (Se quiserem que ele seja "8" ou "10", também se arranja, além de "9" como bem sabemos.)

 

Todavia, subsistiam ainda algumas dúvidas sobre o Gyokeres. É que por muito que se tenha algumas das melhores cartas do baralho, ainda assim os jogos ganham-se por vezes com a cabeça. Creio porém que desde ontem algumas dessas dúvidas se começaram a dissipar. "Ó Diacho!", dirão os seus adversários, pasmando-se ao vê-lo tanto correr, sem se esgotar ou lesionar. Pelo que se deverão sentir como os funcionários daquela Estação de Serviço retratada no célebre anúncio do Citroen Dyane: "E eu a vê-lo passar. Gasolina não precisa, oficina nem pensar!...". 

 

Não se esgotam porém em Gyokeres as boas notícias: ontem, o Pote voltou a atinar com o golo. Agora imaginem a cena: o Schmidt e o Conceição estavam à cata de Janeiro, a rasgarem os olhos à espreita da Taça da Ásia e com vontade de dançarem o CAN-can, e agora já não chegava aparecerem de repente todos viçosos o Bragança e o Quaresma, ainda o Pote desata a marcar e o Gyokeres até o faz de cabeça. Ganda melão, pá!!!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres

gyokeres tondela.jpeg

09
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

Gyokeres oxidou o Limão Mecânico


Pedro Azevedo

Se no cinema estamos habituados ao conceito de filmes de autor, realizados por visionários como Hitchcock, Tarantino, Scorsese, Almodóvar, Kurosawa, Godard ou Fellini que se destacam pela sua singularidade e inovação, no jogo da bola também existe o chamado futebol de autor, desenvolvido ao longo dos anos por revolucionários do jogo como Herbert Chapman, Helenio Herrera, Gusztáv Szebes, Rinus Michels, Johann Cruijff, Arrigo Sacchi ou Josep Guardiola. No futebol, o rótulo é atribuído a partir do momento em que se nota uma personalidade própria e muitas vezes disruptiva no trabalho do treinador. Porém, não só de equipas grandes se faz a história do futebol de autor, há também casos de sucesso que envolvem pequenos clubes que se tornam rapidamente de culto. Como a Atalanta, de Gasperini, ou o Brighton, de De Zerbi. Ou, em Portugal, o Estoril, de Vasco Seabra, com a conceptualização de um carrossel que se desenvolve a partir de um sistema base de 3-4-3. Dada a cor das camisolas, a escassez de recursos financeiros e a óbvia influência holandesa no seu jogo, para efeito desta crónica vou denominar o modelo canarinho como "O Limão Mecânico": Seabra baseou-se no princípio de que se a vida nos dá limões, então fazemos uma boa limonada. Assim, conseguiu reunir e potenciar um conjunto de muito razoáveis jogadores, adaptáveis ao seu sistema e modelo, que bem espremidos vêm batendo o pé aos Grandes, garantindo pontos e a admiração da comunidade futebolística em geral. O problema é que ontem o Estoril deparou-se com Gyokeres, o homem que veio do gelo. Com o contacto, o limão secou e a sua mecânica enferrujou, ou seja, Gyokeres oxidou o Limão Mecânico.  

 

Com o Belchior, o Baltasar e o Gaspar presos no trânsito caótico de uma sexta-feira ao fim da tarde na 2ª Circular, o Viktor desdobrou-se em vestir a pele de todos eles e de enfiada começou a distribuir presentes pela equipa, naquilo que foi o último ensaio geral para as festividades de um Dia de Reis comemorado à espanhola (ou não houvesse um dedo de Guardiola na forma como o Sporting joga e não deixa jogar o adversário). Como figurantes, os jogadores do Estoril, com defesas a atacar como avançados e avançados a organizar o jogo desde trás como se fossem defesas. Na antecâmara, a imprensa desportiva havia elogiado sobremaneira a melodia saída da imaginação do maestro e compositor Vasco Seabra, uma espécie de caixinha de música em forma de carrossel de Natal. Mais uma equipa de autor, mais um tremendo desafio para o Sporting de Ruben Amorim, dizia-se. No jogo, porém, a equipa da Linha não entoaria mais do que o som do silêncio ("Sound of Silence")... Para começar, o Gyokeres apareceu na esquerda, Pela frente, o Rodrigo Gomes, bom jogador e a última coqueluche do futebol nacional. Não demorou mais do que uns poucos segundos para que o Gyokeres desarticulasse o pobre do Rodrigo até entregar de presente ao Edwards. Não contente, o sueco passou para a direita. Recebe do Geny. Pela frente o Pedro Álvaro, já exaurido pelo sprint prévio. Faz que vai para dentro, mete por fora, o Pedro como se estivesse numa sauna, fora do caminho, e novo presente açucarado para o Edwards: 2-0 no marcador, os estorilistas foram apressadamente para o balneário à procura de um ortopedista que lhes voltasse a atarrachar as partes do corpo que se soltaram no relvado de Alvalade. Reinício do jogo e grande jogada de um apanha-bolas do Sporting: o miúdo repõe a bola rápida e sincronizadamente para o Gyokeres, que, acto contínuo, a lança à mão para o Nuno Santos. O remate ainda é deflectido, mas só para nas redes do Estoril. Mais um presente. De seguida, o Pote recupera a bola e avança. Tem dois adversários pela frente, mas o Gyokeres arrasta ambos numa diagonal e o Pote fica isolado e faz um daqueles célebres passes à baliza cujo resultado é o golo. Novo presente, ainda que indirecto. Depois, o sueco antecipa-se e serve Trincão. Novo golo, o suspeito do costume na assistência. Muita Parra e pouca uva depois, o pobre do Raul vê o Gyokeres passar como cão por vinha vindimada. O presente era, de novo, para o Edwards, mas um canarinho antecipa-se e o Geny na ressaca atira por cima. 

 

O resultado está mais ou menos feito. O Quaresma, grande exibição, salva o golo de honra do Estoril, substituindo-se ao Adán. Edwards e Geny isolam à vez o Gyokeres, mas o sueco está em noite de entregar presentes e não de desembrulhar os presentes dos outros como é seu timbre. Edwards ainda atira ao ferro, mais tarde Pote replicá-lo-á. Pelo meio, o Estoril marca: uma bola parada, que geralmente é defendida à zona. Mas o Sporting defende-a com zona, o que é uma outra coisa, infecção viral que afecta pele e corpo e contagia toda a equipa. Desta vez o portador é Paulinho, que assiste magistralmente um jogador do Estoril para golo - mais um triunfo do futebol associativo.

 

O jogo termina. Mais um teste vencido pelo Sporting de Ruben Amorim. Mais uma equipa com direitos de autor protegidos que não passou a sua musiquinha. Toda a gente conhece como o Sporting joga, poucos sabem como desmontar a forma como o Sporting joga. Da mesma forma que conhecimento é ter a noção de que o tomate é um fruto e  sabedoria é não misturá-lo numa salada de frutas. Compreender o Sporting é fácil. No papel tudo é lógico, tudo faz sentido: encaixam-se os nossos corredores num fecho-éclair, cava-se um dique para impedir a passagem da bola entre os centrais e os médios... Mas depois a bola entra directa no Gyokeres e este mostra ter a intuição que derruba qualquer lógica. Enquanto os outros pensam, ele acredita. E nós, também!!!

 

Feliz Dia de Reis!!!

 

P.S. Já toda a gente sabe que o Edwards é um bocadinho como o Sitting Bull: dentro do campo é um guerreiro a atacar, mas fora dele é sossegado, não fala, apenas murmura, pelo que é mais ou menos indiferente a língua em que lhe façam as perguntas. Sugestionado por isso, o jornalista da SportTV inventou um novo dialecto. Não havia necessidade, mas acabou por ser um momento televisivo "importanting"...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres

31
Dez23

Tudo ao molho e fé em Deus

Da Profundidade e da Altura


Pedro Azevedo

O futebol é um jogo que se disputa sobre, e não sob, um rectângulo. Ora, num rectângulo há comprimento e largura. E existe ainda uma terceira dimensão medida pela altura, porque o futebol joga-se com uma bola e esta circula tanto à flor da relva como pelo ar. Porém, o "futebolês" gosta de complicar e então inventou um novo conceito de "profundidade". Falar de profundidade é bem, parece até ser erudito e mostrar conhecimento do jogo, especialmente quando acompanhado pela basculação, outra patacoada empregue para comparar o levantamento de uma extremidade e concomitante abaixamento de outra com a mudança de sentido de jogo num campo de futebol onde não há relevo (talvez se justificasse nos campos de treino que Portugal usou em Saltillo). Toca então de a "ensinar" naqueles cursos magníficos de que aquele senhor com nome de gigantone ou cabeçudo das festas e romarias de Portugal tanto se orgulha (o nosso Rúben era o máximo quando não tinha nivel ou só o nível 2). De tal forma que já ninguém se interroga, o que é a reacção típica do povo a qualquer bacorada quando esta é dita com a maior eloquência. Tudo bem, antes tivemos por cá grandes craques do futebol ultramarino, venha então o futebol submarino, que estes "futeboleses" a inventar são dignos do Nemo, do Náutilus e das 20.000 Léguas do Júlio Verne. 

 

Se num campo de futebol não existe essa coisa da profundidade, não deixa de ser relevante a questão da altura. Nos manuais de estratégia militar aprende-se que quando a infantaria não progride, a cavalaria não flanqueia e a artilharia não vislumbra o alvo ao nível do solo, então é preciso bombardear com os meios aéreos disponíveis. Se isso é verdade para as forças armadas, também é real num jogo de futebol: em encontros como o de Portimão, em que o adversário se fecha todo cá atrás e não deixa espaço nas costas para lançar o Gyokeres, é fundamental haver avançados com bom jogo de cabeça. O problema é que esse não é o forte do sueco e Paulinho falha tanto em terra como no ar ou até no mar (só para alegrar os "gajos" da profundidade e do futebol associativo). [Alejo Véliz seria esse ponta de lança de que precisamos como plano de contingência, mas foi (aos 18 anos) do Rosário Central para o Tottenham por um valor de investimento perfeitamente acessível para nós.] Para agravar o problema, tivemos inúmeros cantos a favor, mas o Inácio e o Coates, os nossos jogadores com mais eficácia nas alturas, não estiveram no relvado por castigo ou lesão. Assim, restava-nos encontrar o espaço por onde entrar, só que Pote ocupou durante imenso tempo esse espaço (arrastando sistematicamente para aí um adversário) que deveria ter sido deixado livre para quem viesse de trás, não sendo à toa que Morita o tenha descoberto apenas quando Bragança entrou e veio jogar ao seu lado (e não mais adiantado, como Pote anteriormente). Antes, havíamos explorado uma vez o espaço mínimo existente entre o autopullman da Eva estacionado por Paulo Sérgio e a paragem do autocarro, com Gyokeres a antecipar-se ao "pica" e a conseguir finalmente encontrar a porta de saída desse espartilho e cumprir com o seu destino (goleador). Só que de uma faltinha à portuguesa - só por causa das tosses, em Portugal qualquer corrente de ar (excepto as tempestades que investem sobre o Gyokeres) é logo motivo para que um árbitro sopre o apito - resultou o fim do descanso de Adán e o golo portimonense. E, completamente contra a corrente de jogo, até poderiam ter vindo mais dois de enxurrada, um salvo por Quaresma (e não Adán, como Rúben erradamente referiu) e outro pelo nosso guarda-redes. Até que houve a tal jogada de Morita que Paulinho assistiu de calcanhar para o calcanhar de um algarvio e por fim até às redes. {Um golo de Paulinho geralmente envolve mais rituais e inuendos que um baile de debutantes.] Antes de tudo isto porém (ainda na primeira parte), o Neto havia mandado uma sarrafada num antigo jogador nosso (Gonçalo Costa) que o deixou com a mesma cara com que eu fiquei quando soube que ele iria a jogo e o Quaresma ficaria no banco. Dois ou três jogos no banco, desde que concentradíssimo (pode ser até que levite), o nosso jovem talvez ganhe a titularidade...

 

Bom Ano de 2024 a todos!!!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Hidemasa Morita 

24
Dez23

Tudo ao molho e fé em Deus

Le Duc


Pedro Azevedo

De Bragança a Tondela são 220 km de viagem, mas ao Daniel bastaram 17 minutos para chegar ao seu destino. Foi tudo tão rápido que só poderia ter sido produto de um overlap, com o médio a sobrepor-se aos avançados e assim aparecer isolado em frente à meta. Depois, fez a bola atravessá-la com pompa e circunstância, recorrendo para o efeito a uma acrobacia digna de qualquer um dos 2 Madjers que marcaram o futebol português (consta que o Tozé também tentou, mas ficou marreco no processo). Não ficou por aqui o Daniel: cerca de um quarto de hora depois, lá estava ele, no apoio frontal, com um toque de calcanhar delicioso que abriu caminho para o Paulinho disparar de pé direito para o segundo. Se o Gyokeres é o Rei e o Pote um Príncipe, este Bragança é um Duque, um senhor a jogar à bola! 

 

Enquanto 10 jogadores se envolviam num bonito "association" do qual resultaram dois belos golos, Trincão fazia um jogo à parte, como se com ele em campo houvesse duas bolas, uma só para ele e outra para o resto da equipa. Estaria muito bem, se ele fosse um Maradona ou Messi e lhe desse continuidade até ao fim. Assim não passa de um foção, um glutão que só vê bola e se esquece do contexto (jogo) e do modo envolvente (equipa e adversários).

 

Não gostei que o Quaresma não tivesse sido titular. Se o Rúben Amorim quer ter a certeza de que ele é capaz de fazer 2 ou 3 bons jogos consecutivos, então tem de o pôr a jogar de início e não fazê-lo entrar quando o resto da equipa já está em modo de descompressão, a trocar o jogo pela peladinha. A prová-lo, o Matheus Reis, desconcentrado e com sede a mais no pote, querendo antecipar aquilo que só o tempo certo dá. Ora, se, pelo contrário, o Quaresma soube esperar pela oportunidade ou momento certo, estreando-se a titular contra o Porto com uma grande exibição, agora seria de dar-lhe continuidade. Ou não? 

 

Com a vitória de ontem, o Sporting apurou-se para a Final Four da Taça da Liga. Segue-se Portimão e o regresso ao Campeonato, onde é ansolutamente necessário segurar a liderança. A Taça da Liga continuará lá para o fim de Janeiro, pelo que só jogo a jogo lá chegaremos mais fortes. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Daniel Bragança, "Le Duc"

 

P.S. No fim do jogo o Tozé Marreco foi ter com o Gyokeres para dizer-lhe que nunca tinha visto um ponta de lança assim em Portugal. Ficou-lhe bem a grandeza da atitude e o desportivismo inerente. Imaginem só o alívio que terá sentido ao não ver o sueco em campo, ao contrário da tristeza nutrida pelos Sportinguistas que se deslocaram a Tondela, mas estes jogos com equipas de escalões secundários parecem destinados para Paulinho encher as estatísticas com golos. Gyokeres voltará em Portimão. 

Boas Festas!!!

daniel bragança.jpg

 

19
Dez23

Tudo ao molho e fé em Deus

Ciclone Gyokeres contra as altas pressões


Pedro Azevedo

Das histórias de quadradinhos do Walt Disney vêm-nos à memória vários personagens. Uns mais recorrentes no almanaque, como o Tio Patinhas, o Mickey, o Donald ou mesmo o Pateta, outros mais raros. Entre estes últimos destaco o Grilo Falante. Este falava frequentemente ao ouvido do Pinóquio, dando-lhe conselhos sábios e constituindo-se como a voz da sua consciência. Transferindo dos quadradinhos para o universo do futebol profissional, o Grilo Falante seria o VAR ideal de qualquer árbitro. O problema é que no nosso futebol há muitos Pinóquios - já o dizia o Pimenta Machado a propósito do que hoje é verdade, amanhã poder ser mentira - e poucos Grilos Falantes, abundando porém os Metralhas. Vem isto a propósito do Clássico de ontem, porque não é natural comentar um jogo contra o Porto em que o nosso maior adversário residiu no auricular instalado no ouvido do Nuno Almeida. A botar faladura, o Tiago Martins: aquando do seu anúncio, disseram-nos que o VAR era para ser usado em lances de flagrante delito do árbitro e seus auxiliares. Tomámos boa nota. O que ninguém nos preparou foi para um anti-ciclone Gyokeres a operar a partir da Cidade do Futebol, uma flor de estufa muito sensível a correntes de ar. Como resultado da acção desse centro de alta pressão (sobre o árbitro), foram anulados dois golos ao Sporting e os ânimos aqueceram na proporção das nuvens cinzentas que se desanuviaram sobre o Porto. No primeiro, o Quaresma veio da direita à esquerda para cortar um ataque perigoso do Porto. Embalado, tabelou com o Morita e foi apanhar a bola à frente. Enquanto o João Mário se contorcia no chão com dores de cotovelo, o Quaresma sacou do GPS e direccionou um cruzamento perfeito para o Gyokeres, que de cabeça disparou um míssil que passou por cima do Diogo Costa antes que este pudesse sequer ajeitar o cabelo para a fotografia. A anulação do golo foi um crime de lesa-futebol. No segundo, o Bragança chegou primeiro à bola - há uma imagem de uma câmara de frente que mostra o portista que o tenta desarmar ainda com o pé no ar - e tocou para o Paulinho, que marcou. O auxiliar anulou por fora de jogo que o VAR posteriormente viu não existir. Os portistas alegaram ter havido falta do Paulinho, que o VAR também viu não existir. Criou-se assim um impasse: consultadas as leis do jogo, a utilização do pé esquerdo não constituía infração por si só para anulação de um golo. A chuteira estava calçada, outro contratempo. Continuação do impasse. Até que o inefável Martins recorreu ao Telescópio James Webb para vislumbrar uma alegada falta do Daniel. O curioso é que o jogador que alegadamente sofreu a falta não protestou, ao contrário dos colegas que se dividiram entre um sem número de alegações cujo único propósito visava evitar a goleada.  

 

Não sei se o Sporting teve melhor organização colectiva do que o Porto, o que é claro é que os nossos jogadores ganharam os duelos individuais mais importantes. Nesse particular, o Gyokeres e o Quaresma destacaram-se: de tanto encostar o Pepe às cordas, o Gyokeres levou-o à exaustão física e mental, erosão que terá estado na origem de ter confundido o relvado com um ringue de boxe e concomitante expulsão por agressão a soco. E o Quaresma colou o cromo do Galeno numa caderneta e não o deixou sair de lá, tendo ainda tempo para uma jogada à Baresi ou à Beckenbauer, conforme a Vossa preferência. No golo, o Gyokeres choca contra o Pepe, ganha o ressalto com o peito e surpreende o Diogo Costa ao chutar para o primeiro poste. (Quem quer comparar este golo com o sofrido por nós em Guimarães engana-se, porque o jogador vimaranense conduz pela esquerda do seu ataque com o pé canhoto e tem pouquíssimo ângulo, enquanto o Gyokeres vem da esquerda, tem a bola no seu pé direito e assim o ângulo aberto.) O Sérgio Conceição logo alegou ter havido mão do sueco. Mas podia também ter alegado maus tratos a idosos e requerido a presença de uma assistente social no local para registar o facto, que ainda que fosse possível motivo para interditar o nosso lar de Alvalade não seria alibi para anular o golo. A cena repetiu-se aquando da anulação do segundo golo a Gyokeres: o árbitro não viu razão para infração e até advertiu por simulação o portista caído no chão. Mas logo se armou a tenda do circo, não faltando o anão da praxe e o médico que troca o juramento de Hipócrates pela hipocrisia de utilizar o seu estatuto para falar ao ouvido do bandeirinha: um outro tipo de Grilos Falantes. Após o intervalo, o Pepe foi expulso. O árbitro, de frente para o lance, não viu a agressão ao Matheus Reis. Chamado ao VAR, Nuno Almeida demorou um tempo infinito a constatar o óbvio ululante. Cheguei a pensar se não estaria a ser equacionado que o Matheus Reis teria agredido com a sua boca o punho cerrado do Pepe, mas o facto de as comunicações entre VAR e árbitro não serem divulgadas em tempo real inibiu o seu cabal esclarecimento. Após consulta exaustiva da Carta Universal dos Direitos do Homem, o direito à segurança pessoal (artigo 3º) prevaleceu sobre a presunção de inocência (artigo 11º) e Nuno Almeida mandou finalmente o Pepe ir tomar banho. No chão, Matheus Reis jorrava sangue... Com menos 1 em campo, os portistas concederam mais espaços ao Sporting. O Geny encontrou o Gyokeres com uma pista para acelerar e este não se fez rogado, oferecendo no fim o golo ao Pote. A celebração que se seguiu foi de baile de máscaras, como se o Pote tivesse reconhecido que o golo era todo construção do sueco e fosse necessário disfarçar a enorme superioridade leonina. Depois o Gyokeres voltou a isolar-se e a tocar novamente para o Pote, mas desta vez o Diogo Costa conseguiu defender. Novo vendaval sueco se seguiria, com o golo a ser novamente anulado como descrito acima. Pelo meio, uma cotovelada de Taremi a Inácio ou um pontapé deliberado de Varela a Catamo escaparam somente com o amarelo. 

 

No fim do jogo lá apareceram o Faustino e o Duarte Gomes na televisão. Afinal foi tudo normal: os golos anulados, a cotovelada do Taremi ao Inácio, o pontapé do Varela ao Catamo e o tempo que o Nuno Almeida demorou para tomar a decisão de expulsar o Pepe. É sempre pungente ver como funciona o corporativismo em Portugal. Em resumo, a arbitragem foi excelente, nós todos é que precisamos de ir urgentemente à Multiópticas. Como aliás já foi a Dª Dolores, a mãe do nosso Cristiano Ronaldo, que, Sportinguista orgulhosa, foi vista a festejar euforicamente a nossa grande vitória. Grande Dª Dolores! Do jogo fica ainda uma lição da matemática: como marcar 4 golos e só ganhar por 2 de diferença, sabendo-se que o adversário não marcou qualquer golo. É que a matemática é uma ciência exacta, excepto quando a bola rola em Portugal. Estamos na frente!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres. Grande jogo do Eduardo Quaresma e exibições acima da média do Hjulmand, do Diomande e do Inácio. 

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15
Dez23

Tudo ao molho e fé em Deus

Seguidores de Drucker


Pedro Azevedo

O economista e consultor de gestão Peter Drucker dizia que os resultados são obtidos através da exploração de oportunidades e não pela solução de problemas. E o Sporting levou a sua lição à letra: Trincão foi igual a si próprio, Esgaio idém, mas os leões globalmente fizeram um jogo sério e empenhado e souberam explorar bem a necessidade que o Sturm Graz tinha de ganhar o jogo a fim de se apurar para a Conference League sem ficar tão dependente do resultado do Rakow. 

 

Num jogo aberto, Sporting e Sturm Graz alternaram o domínio durante o primeiro tempo, período onde o equilíbrio foi notório. Curiosamente, quem se desequilibrou foi o árbitro, que caiu, levantou-se e correu com a bota mais à mão até ter de finalmente parar o jogo para se calçar - uma lição para quem acha que não se consegue "descalçar a bota" da arbitragem. Em contra-ciclo, quem nunca fica "descalço" com Gyokeres em campo é o Sporting. Mas já lá vamos... Se logo a abrir o Sporting teve uma oportunidade por Nuno Santos, os austríacos replicaram com uma ocasião ainda mais clara através de um cabeceamento parado por Israel com muita fotogenia. Até que o Matheus Reis tabelou com o Nuno Santos, deixou um defesa com os olhos à Marty Feldman (Mel Brooks) e cruzou exemplarmente para o Gyokeres empurar de pé esquerdo para golo. Grande jogada! Depois, o Gyokeres desarmou um adversário no nosso meio campo e soltou um vendaval até às imediações da área austríaca, passando então ao Paulinho. Este, primeiro, temporizou e depois centrou para o sueco cabecear de forma cruzada, testemunhando o guarda-redes a voar em contra-pé e a bola a esbarrar contra o poste. O suficiente para o Gyokeres, que merecidamente foi descansar para o banco. Para segunda-feira a Protecção Civil anuncia mais vento forte e possibilidade de precipitação... de golos (mas com o Pepe em campo, o "mau tempo" já era garantido).

 

Se na primeira parte o jogo foi repartido, na etapa complementar o Sporting dominou por completo. O recém-entrado Morita contribuiu bastante para isso, na medida em que mostrou uma percentagem de sucesso no seu passe de primeira bem superior à de Hjulmand, o que melhorou a fluência do nosso jogo e nos permitiu ganhar tempo e encontrar espaços por onde ferir os austríacos. Além de que as suas características compatibilizam-se melhor com as de Bragança em jogos em que o adversário não mostra grande intensidade e o Sporting tem mais posse, ambos privilegiando um jogo de passe rápido e desmarcação constantes que foi baralhando as marcações dos austríacos, que nunca encontravam o momento certo de atacar a bola. Quando o meio campo funciona bem, logo aparecem espaços entre-linhas e nas alas e melhor se realçam as virtudes do modelo de jogo em boa hora implementado por Rúben Amorim. Assim também aconteceu ontem, embora a má definição na área nos tenha impedido de alargar a vantagem dessa forma, pelo que os golos acabariam por chegar no seguimento de pontapés de canto, com Inácio, que também só entrou no segundo tempo, a bisar. Pouco mais haverá a destacar, com a excepção da oportunidade concedida ao jovem Essugo de jogar fora da sua posição natural. Um clássico de Rúben Amorim, mas, enfim, também ninguém é perfeito, não é verdade?

 

Para quem já viu uma Valsa em Linz, que mais parecia uma Tragédia Grega, e Ópera Bufa em Viena e Salzburgo, este ensaio geral com a (S)turma de Graz até não correu nada mal. Aproxima-se agora o jogo grande que os Sportinguistas acreditam ser aquele em que a equipa se vai finalmente mostrar à altura do lema do seu fundador, respeitando o adversário mas segura do seu valor. Se jogador por jogador e mesmo colectivamente vejo o Sporting como superior, não se pode descurar o peso que os duelos individuais poderão ter. Principalmente quando as forças começarem a ceder e houver menos compensações. Pelo que na forma como Esgaio (e o Diomande na dobra) lidará com Galeno, ou Edwards conseguirá ou não desequilibrar pelo centro-direita, dependerá muito provavelmente o resultado final do jogo. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Hidemasa Morita. (Matheus Reis merece uma menção especial pela jogada do primeiro golo, Gyokeres teve 1 minuto de sonho que valeu pelo jogo todo e Gonçalo Inácio já leva 3 golos nos últimos 2 jogos.) 

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01
Set23

Via Crúcis


Pedro Azevedo

Palhinha, instrumental no título de campeão nacional dos leões, foi durante anos relegado para segundo plano na Selecção. Matheus Nunes, considerado por Pep Guardiola como um dos melhores médios do mundo, só foi chamado após Tite o ter convocado para a Canarinha. Bruno Fernandes demorou uma eternidade a chegar à "Equipa de Todos Nós", mesmo com números astronómicos ao serviço do Sporting. O que nos diz isto?

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17
Jul23

Esclarecimento


Pedro Azevedo

Interrompo circunstancialmente uma hibernação voluntária apenas para contrariar uma ideia que com enfado vou lendo e ouvindo em jornais e televisões: o ADN do Sporting não é a Formação, é vencer, é ser "tão grande como os maiores da Europa". A Formação é, sim, um meio (sustentabilidade) complementar para se atingir um fim, desejando todos nós que não seja instrumentalizada politicamente, descaracterizada da essência própria do clube ou despovoada de competências específicas. Uma linha de montagem (de competências) deste tipo deve compreender diversas estações e nela conter artífices com a experiência, a vocação e o conhecimento suficientes para que o produto final não perca as suas características inatas e apure outros atributos. Como se de um diamante e sua lapidação se tratasse. Tudo o que não obedeça a estes princípios, sirva para a promoção de carreira de treinadores jovens com ambição de orientar seniores, desvirtue o talento natural ou indiferencie (formate) o jogador não serve.  

17
Mai23

Até um dia


Pedro Azevedo

O Sporting é o meu grande amor fora da esfera familiar, mas, tal como alguns amores que são tóxicos, chega a altura em que o afastamento é a melhor solução. O amor continuará a estar lá, mas não poderei mais pactuar com quem não partilha dos mesmos valores. 

A decisão da administração da SAD de aumentar os seus salários, quando sabemos que Matheus foi vendido para "pagar coisas básicas" (Amorim dixit), não é só uma decisão economicamente (e desportivamente) contestável. Ela, principalmente, enferma de um flagrante conflito de interesses, na medida em que os seus proponentes são também os seus principais beneficiários. Proponentes que pegaram no voto do Sporting Clube de Portugal e tomaram-no a favor da sua proposta, sem prévia consulta aos associados. Errado do ponto de vista da higiene democrática e atentatório das regras de boa governance, nomeadamente no que concerne à prevenção de conflito de interesses. 

O Sporting entrou-me pelo ouvido, numa onda média (rádio), em criança, mas rapidamente virou um tsunami aquando da minha aparição em Alvalade. Tinha oito anos de idade. Todavia, nunca esquecendo a origem das coisas, foi mais tarde, com outra consciência, já adolescente, que me revi totalmente no clube, nos seus princípios e valores. E é a presente ausência de correspondência entre estes e os meus que me leva a dizer até já a este compagnon de route de uma vida (fiz-me sócio em 1980, com o dinheiro das minhas mesadas), algo que aliás já se vinha progressivamente materializando

 

O amor nunca acabará e o Sporting estará sempre no meu coração. Mas será sempre o meu Sporting, uma ilha na lua como diria o Rimbaud. Não este, que vende gato em palavras por lebre em acções e já não compagina com a diferenciação que eu tanto estimava. Tanto que pouco ou nada me interessa o que outros clubes façam nesta matéria, porque nós sempre nos afirmámos como diferentes. E, se não somos, não contem comigo para bater palmas. Como não quero contribuir para a verborreia que sinto irá crescer nos próximos tempos, permanecerei em silêncio. Voltarei no dia em que o Sporting coincida de novo com o meu Sporting. Até lá! 

PS1: Em 2018, com as listas de candidaturas ao Sporting já entregues, elaborei um plano estratégico para o clube, definindo aí 3 pilares fundamentais. Ofereci-o a todos os candidatos e a todos os Sportinguistas que se quisessem rever nele. Cheguei até, em tempo de calamidade, a pensar em ter um papel mais actuante, naquilo que pode ser considerado um momentâneo lapso de razão do qual muito me penetencio,. Esse documento dava particular ênfase a regras de boa governação, que continuam arredias ao clube. Assim sendo, entendo não haver interesse do mesmo em se tornar mais transparente e em conformidade com as melhores práticas de gestão. Deste modo, o meu afastamento fica plenamente justificado. 

PS2: Pedindo desde já desculpa pela omissão inicial que justifica esta tardia adenda, gostaria de deixar aqui o meu profundo agradecimento aos Sportinguistas e adeptos do desporto em geral que ao longo destes anos por aqui passaram, com o meu reconhecimento por sempre terem respeitado este espaço, concordando ou discordando das opiniões expressas pelo autor, enobrecendo-o pela riqueza de argumentos e urbanidade usada nos seus comentários. A todos desejo as maiores realizações no plano pessoal e profissional. Bem-hajam! 

PS3: A confirmar-se a presença massiva de benfiquistas em lugares de bancada de exclusiva atribuição a sócios e adeptos Sportinguistas, mesmo considerando questões ponderosas de constrangimento financeiro dos seus habituais titulares,  tal terá de ser encarado como muito triste e preocupante. O que nos deveria remeter para a origem ("Genesis") do nosso amor ao clube. Por falar nisso, os Genesis tiveram um álbum chamado Selling England by the Pound. Estaremos nós na iminência de vender a alma por um punhado de euros?

 

P.S.4. Para lerem sobre futebol puro e duro, podem consultar o meu novo blogue "A Poesia do Drible": apoesiadodrible.blogs.sapo.pt

15
Mai23

O tempo


Pedro Azevedo

O conceito de tempo no Sporting é diferente do que no Benfica e Porto. Enquanto em Alvalade nunca falta quem diga que "há que dar tempo ao tempo", nos nossos rivais há uma urgência mais compaginável com o provérbio "não deixes para amanhã o que podes fazer hoje". A consequência de tudo isto é no Sporting pedir-se tempo para depois o desperdiçar ingloriamente. O pior é que isto vem acontecendo desde o final dos anos 50 do século passado. E com uma progressão de razão geométrica. Senão vejamos: se nos anos 60, o clube desperdiçava 3 em cada 4 anos, a partir de meados dos anos 80 passou a queimar 18 ou 19 anos num total de 19 ou 20, descendo de um aproveitamento de 25% para um à volta de 5%, ou seja, cerca de 5 vezes inferior. E nem a sempre tão falada rotação de presidentes, ao contrário da maior estabilidade dos rivais, explica este facto, na medida em que o Sporting teve exactamente o mesmo número de presidentes quando a seca foi de 4 anos (espaço temporal entre 58 e 70) que no período superior de 19 anos: seis. Mais estranha ainda que a falta de urgência no Sporting é a ausência de endeusamento do presidente mais vezes campeão de sempre, Ribeiro Ferreira, 6 vezes ganhador em 7 anos de mandato. Fala-se muito de João Rocha - 3 campeonatos em 14 - e com muita justiça dada a sua visão de ecletismo para o clube - , mas muito pouco do presidente mais laureado de sempre no futebol. Mas, como "há que dar tempo ao tempo", um dia essa obra ainda merecerá o devido relevo. Sem urgência, claro, que, como o senhor já não está entre nós, um ano a mais ou menos no seu esquecimento não alterará o seu estado civil. E assim o tempo vai passando e o Sporting contemporizando. Contemporizar é aliás a nossa característica predilecta, só comparável à procrastinação. Singular, pois, sendo cada vez mais um "outsider", seria de pedir a um clube de semelhante dimensão histórica que ousasse, inovasse e tivesse uma atitude disruptiva face a um sistema que o comprime. Mas não. No Sporting as elites, a vanguarda, estão na retaguarda e a retaguarda está no Miguel Bombarda, à beira de um ataque de nervos, entre a auto-exclusão da sociedade e o estertor após umas passas de cannabis. Sobra assim a classe média, que deveria pegar no leão pela juba, mas esta divide-se entre o sebastianismo mais ou menos disfarçado e o mero conformismo. Assim, tudo fica para amanhã, que variações (Variações?) não poderia(m) ser para hoje. A boa notícia é que, adiando tudo, só podemos ter futuro, que presente não temos nenhum. Mas amanhã, quem sabe... [Se bem que as coisas hoje não são mais o que propunha o passado (há 2 anos) para o presente.]

14
Mai23

Tudo ao molho e fé em Deus

Restaurador Olex


Pedro Azevedo

No futebol, o que é natural e fica bem é cada um actuar de acordo com a sua vocação. Com Restaurador Olex, cada interveniente no jogo recupera a sua posição primitiva. Assim, o Coates pode concentrar-se na arte de marcar golos (em vez de os oferecer ao adversário), o Paulinho em evitá-los e o Tiago Martins em estender a passadeira vermelha ao novo campeão. (Já que o Rúben Amorim não se mostra, e bem, disponível para guardas de honra no contexto actual, convém haver um voluntário que as faça.)

 

Os últimos 10/15 minutos de ontem em Alvalade foram paradigmáticos da diferença que a aplicação de Restaurador Olex provoca no futebol português e no Sporting: para começar, o Autogolo voltou a evidenciar-se como o nosso melhor ponta de lança, o que não deixa de ser surpreendente num avançado que chegou a custo zero, não tem ordenado e nem sequer pode ser dado como um exemplo de amor à nossa camisola. Depois, o Coates mostrou o seu instinto matador, sendo ele o segundo no ranking dos nossos avançados-centro. De seguida, o árbitro desrespeitou o seu auxiliar e validou um golo irregular ao Marítimo. O Adán chamou-lhe a atenção para o pecado original e ficou de fora da recepção ao Benfica. Veio um insular desembestado e deu uma peitaça num nosso que até o virou. Não contente, procurou repetir a dose com o Coates, mas bateu na couraça da indiferença do uruguaio e acabou ele virado. Entretanto, virado, e do avesso, estava o Tiago Martins, que a muita insistência do nosso capitão lá se dignou a falar com o "bandeirinha". Para manter tudo como estava e insistir no erro. Até que o VAR devolvou a verdade ao marcador, ainda que não ao jogo (a expulsão de Adán jamais teria acontecido se o árbitro tem imediatamente validado a indicação do seu auxiliar). Finalmente, o Paulinho foi à baliza, para apurar um pouco mais as suas melhores características de defensor. Como diriam os Pink Floyd, foram dez/quinze minutos de momentâneo lapso de racionalidade, de uma insanidade total, com muitos amarelos, um vermelho, um golo anulado e outro marcado na própria baliza. Um clássico do Western Spaghetti luso - obrigado pela dica, Álamo - do tipo "Once upon a time in Alvalade", que bem poderia ter sido dirigido por um Sérgio leão para ilustrar o valor da nossa resiliência. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": o VAR

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09
Mai23

Tudo ao molho e fé em Deus

Móvel à Mata Real, Retális


Pedro Azevedo

Faz parte do imaginário popular de quem alguma vez tenha pisado o interior de um táxi a mítica expressão "Móvel à Rua da Buraca", muitas vezes entrecortada por "Retális", com que uma menina via rádio sinalizava o chofer de praça. Não sei se era difícil estacionar na referida rua, se lá existiam serviços camarários relevantes ou se a maioria dos seus moradores infelizmente não possuía carro, mas não me lembro de uma artéria de Lisboa com tantos pedidos de táxi como essa, talvez com a honrosa excepção da mais central Rua das Pretas. Lembrei-me disso ontem ao ver Rúben Amorim requisitar um móvel à Mata Real, que é como quem diz, um ataque móvel à Capital do Móvel. Habitualmente muito criticado por esta opção que entretanto havia caído em desuso, o Rúben tomou a decisão correcta face às circunstâncias, contrapondo mobilidade a um mobiliário que como se sabe não tem mobilidade nenhuma (ou tem, mas necessita de um empurrãozinho à maneira de Palma de Maiorca). Ainda mais, havendo, entre o mobiliário, alguns baús velhos e pesados como o Gaitán, o Luiz Carlos ou o Marafona. Nem de propósito, estes dois últimos deram uma de Coates e combinaram para um primeiro golo à ponta de lança. De seguida veio o Nuno Santos, que não é imaginativo na arte do drible mas é um criativo na arte do golo. E, já depois de não deixar cair em Braga e de ensinar uma letra ao Boavista, brindou-nos com um chapéu de aba larga: a bola subiu, subiu e subi...tamente desceu, como se tivesse furado pelo caminho. O Trincão não quis ficar atrás e teve um pormenor à Bergkamp no terceiro da noite. Faltava o Chermiti molhar a sopa. O açoriano havia marcado pela última vez após assistência de Arthur (Porto), um jogador com um tipo de futebol mais prático e que o favorece. Ontem houve uma reedição: finta e cruzamento do ex-estorilista, e Chermiti a mostrar faro de golo e a encostar os pitões à bola. Nada mais havendo a acrescentar, o móvel regressou à Rua Professor Fernando da Fonseca. Retális.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Nuno Santos 

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01
Mai23

Tudo ao molho e fé em Deus

Identidade e oportunidade


Pedro Azevedo

João Pedro Sousa não é um treinador qualquer. Não é fácil todos os anos sofrer uma revolução no plantel e ainda assim conseguir fazer do Famalicão um clube competitivo. Não se trata só da qualidade individual dos jogadores que compõem o plantel, como Sanca ou Jaime, há também rotinas de jogo muito apreciáveis e que ontem estiveram na origem de algumas dores de cabeça que o Sporting sofreu. Ainda assim, tivemos as nossas oportunidades, que a vontade de jogar para a frente dos minhotos foi sempre um incentivo para as nossas transições rápidas, principalmente quando se está habilitado de jogadores com inteligência no aproveitamento dos espaços entre-linhas como Pote (ontem apagado), Edwards ou Morita. Mas se João Pedro Sousa merece uma palavra de admiração, a Rúben devemos o facto de ter elevado a bitola do nosso futebol. Nem a estapafúrdia ideia do ataque móvel num clube grande belisca o facto de o Sporting ter uma boa ideia de jogo e com Amorim ter subido de patamar. Por isso agradeço o seu trabalho em prol do clube, desejando que continue. Quem já cá não está é o Paulo Freitas, que no hóquei muito nos ajudou no passado. Acontece que o Paulo foi indecentemente insultado por adeptos nossos no Sábado, gente sem gratidão e/ou cultura desportiva. Um clube que não é capaz de valorizar quem o serviu com distinção tem um problema de cultura corporativa: não tem memória, nem prestigia a sua história. Porque uma tribo do Sporting arregimenta-se por uma identidade comum que se alimenta de vitórias e de títulos, mas também por causas de acordo com os valores comportamentais que nos distinguem. E quando esses valores estão em crise na sociedade, mais ainda se justifica haver uma forte cultura de clube que eduque no sentido certo e assim filtre comportamentos que fiquem aquém dos mínimos olímpicos. 

 

O jogo em si serviu para provar duas grandes convicções de Rúben até aqui muito contestadas: o ponta de lança principal deve ser associativo (Chermiti, no segundo golo) e o de recurso deve ser um defesa e ter "killer instinct" (Coates, de volta aos golos). Também deu para ver que sem Ugarte ou Morita (se não estiver Pote) o meio campo do Sporting não é a mesma coisa. Como diz um amigo meu alentejano, 30 minutos é tanlongo para o argentino do Sporting... (O pior é que com o Buscapoulos ficamos a saber que não há ligação à corrente.) Mas os destaques vão inteirinhos para Edwards, Morita e Adán, sem esquecer o primeiro golo de carreira de Esgaio ao serviço da equipa principal do leão, uma década após a sua estreia: o inglês foi omnipresente nos golos e nas oportunidades, o nipónico um átomo a mais que se (nos) animou... e marcou, o espanhol garantiu a vitória com uma enorme estirada.

 

No dia em que oficialmente ficámos definitivamente fora da luta pelo título, o acesso à Champions também se complicou mais um bocadinho (a mesma distância, menos uma jornada). Resta-nos a oportunidade de tentar ganhar o futuro no presente, procurando hoje soluções para problemas com que nos depararemos amanhã. E isso urge, na medida em que todos já nos apercebemos que as saídas não se ficarão por Ugarte, e sem um lote razoável de jogadores influentes as nossas hipóteses serão só académicas. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Edwards

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26
Abr23

Tudo ao molho e fé em Deus

Tão grande como os maiores da Europa


Pedro Azevedo

O Sporting jogou em Guimarães, berço da nossa nacionalidade. O regresso às origens avivou-me a memória sobre a determinação demonstrada pelo nosso primeiro rei em obter o reconhecimento de um novo país, daqueles que em manifesta inferioridade numérica bateram o pé a Castela em Aljubarrota ou ainda dos que em cascas de noz partiram à aventura para dar novos mundos ao mundo, no fundo de todos os que não se resignaram à sua sorte e ousaram tudo perder para Portugal vencer. Ambição que também caracterizou o fundador do nosso Sporting, quando anunciou querer um clube tão grande quanto os maiores da Europa. E o que têm em comum Afonso Henriques, D. João I, D. Nuno Álvares Pereira, D.João II, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e José Alvalade? A falta de noção. Pelo menos a avaliar por o que diz o Pedro Boucherie Mendes, a propósito da derrota com a Juve, para quem uma Famel nunca poderá competir com um Fiat (nunca deve ter andado no trânsito de Lisboa), mas não se passa nada se perder para o carro dos Flinstones. Se dependesse de Boucherie, Portugal só pisaria terras de Vera Cruz através de um daqueles catamarans todos sofisticados da Volvo Ocean Race ou do paquete The World, neste último com ele a acompanhar a epopeia através de uma suite com vista para o bote salva-vidas, entre um mergulho na piscina e um pezinho no court de Tennis. Mas o que a Boucherie lhe sobeja em "noção", falta-lhe em rigor. Por isso é possível vê-lo a perorar por aí sobre os 10% do passe do Matheus que mantivemos ou da inundação extraordinária de liquidez que esse negócio significou para o Sporting, ainda que uma rápida consulta ao R&C do Sporting o contradiga terminantemente - o Sporting apenas tem 10% de uma futura mais-valia do Matheus e 26M€ da sua transferência ainda estavam por cobrar em Dezembro de 2022, dos quais cerca de 18M€ só serão recebidos após Dezembro de 2023, o que não torna o modo de pagamento de nenhuma forma melhor do que o que se pratica todos os dias por aí - , um exercício de adivinhação que logo o encorajou a aplaudir a poupança nos custos do factoring. Deve andar distraído e não ter tido ainda tempo de ver o efeito do serviço da dívida na Demonstração de Resultados, além do défice entre proveitos e custos antes de Champions e venda de jogadores, que atingiu um valor recorde porque os proveitos ordinários não descolam e os custos subiram. Sim, recorde, uma verdade indesmentível porque os números não mentem e a matemática, e não o futebol, ainda é uma ciência e exacta. Por falar em falta de noção... (Na dialética hegeliana há uma tese, uma antítese e uma síntese, mas a síntese nunca poderá beber da tese se esta for seca de virtude.)

 

Quando se é Sporting, há muito a perder se não se perceber que em cada jogo há sempre algo a ganhar. Mesmo quando matematicamente já não é possível o cumprimento de um objectivo, o que ainda não é o caso, há que defender o prestígio do Sporting e o respeito pela memória de todos os grandes atletas que nos serviram. Sim, porque muitos dariam tudo para um dia poder vestir a verde-e-branca, mas só alguns eleitos tiveram esse privilégio ao longo da nossa história. Teimosias e tergiversação da comunicação à parte, eu valorizo muito em Rúben Amorim a noção da camisola que veste e o que representa para milhões de Sportinguistas, a inovação que procura incutir nas suas equipas (apesar de algum excesso de experimentalismo) e a ambição com que parte para cada desafio, procurando sempre ver o copo meio-cheio e não se derrotando logo à partida com desculpas, qualidades que fazem dele na minha opinião um português renascentista. Para além do sistema e modelo de jogo, por vezes contestado, mas que eu considero servir os nossos melhores interesses. Tanto que não foi pelo sistema que perdemos este campeonato, mas sim por um início de temporada em que se perderam rotinas com a inesperada saída de Matheus e pela ausência de um matador que no mínimo ombreasse com Pote em golos na Liga, ele que estatísticamente está a realizar a sua melhor época de sempre em todas as competições, contabilizados golos e assistências, algo que na maioria das vezes não transparece para a opinião pública. 

 

Conforme iniciei esta crónica, ontem jogámos em Guimarães. E o jogo foi o paradigma de toda a época: mais uma vez, o Sporting dominou do princípio ao fim, teve inúmeras oportunidades para marcar e tudo se decidiu na inspiração ou não de Pote. Em dia afirmativo, o nosso Pedro Gonçalves agraciou-nos com mais um daqueles passes à baliza que são já um vintage de art-Deco, de tanto que me fazem lembrar a inteligência e requinte do ex-portista. No resto do tempo, entretivemo-nos a desperdiçar ingloriamente golos, com Morita a assegurar que o nosso caudal de jogo chegava ao último terço em condições de ter sucesso e o resto da equipa a não acertar na baliza ou a perder-se em rodriguinhos estéreis na área. Apesar de tudo, no segundo tempo houve um vislumbre de ponta de lança em Chermiti, a fazer-nos lembrar o que muito prometeu contra o FC Porto. Todavia, acabou por sair no seu melhor período no jogo, dando lugar a um Trincão que todos ultrapassou numa cabine telefónica para depois não conseguir encontrar a porta, ela que acabou por se escancarar aos pés de Arthur - assistido por Adán(!) - e mãos de manteiga de Celton Biai. 

 

O que fazer do resto da época? Se, a caminho da Índia, descobrimos o Brasil, pode ser que a caminho de coisa nenhuma encontremos um atalho para uma temporada de 23/24 muito melhor. À semelhança do ocorrido no último terço da campanha de 19/20, que serviu de teste para a época vitoriosa de 20/21.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pote

 

P.S. Um abraço ao Manuel Fernandes, um dos meus ídolos de infância, que teve uma merecida homenagem por ser o jogador com mais jogos e minutos na Primeira Liga. Num mundo ideal o Manuel deveria sempre ser consensual e estar acima, e ser preservado, de politiquices e da espuma do momento. Porque importante é o Sporting, e o Manuel não só publicamente nunca escondeu o seu sportinguismo como na prática o demonstrou ao recusar propostas de Benfica e Porto que lhe dariam a independência financeira. Bem-haja, Manuel!

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21
Abr23

Tudo ao molho e fé em Deus

Edwards e Ugarte contra o passeio dos Allegri


Pedro Azevedo

O futebol tem tanto de imprevisível como de injusto. Aquando do sorteio, poucos na Europa não deram o favoritismo à Juventus, clube com inúmeros troféus continentais, não faltando até quem perspectivasse um passeio dos Allegri (mas sem o Júlio Isidro, que como se sabe é dos nossos). Só que o futebol joga-se dentro das 4 linhas e não nos museus, e no relvado o Sporting foi menos competente no capítulo especifico da finalização mas revelou-se melhor equipa que a Juventus em cada um dos jogos da eliminatória. E se na primeira mão foi Morita a empunhar a batuta, ontem Ugarte encheu o campo. Depois, o perigo veio de Edwards, que revelou a calma suficiente para explorar os espaços que o caos provocado pelos seus arranques e recuos ia abrindo na defesa italiana. Faltou eficácia na finalização, que é como quem diz, um ponta de lança que pusesse a bola lá dentro, porque do outro lado pouco mais houve que Rabiot e a Táctica do Cuadrado (sempre perigoso na ala direita). Inquirido sobre o assunto em conferência de imprensa, o Amorim defendeu-se, argumentando que Liedson, Derlei ou Slimani, todos reconhecidos como bons ponta de lança, nunca tinham sido campeões no Sporting, ao contrário de TT e Paulinho, omitindo porém que o ex-braguista, no ano do título, tinha chegado com o Sporting já 10 pontos à frente (finalizou com 5). Eu compreendo o Rúben, mas se fossemos levar estas palavras à letra então concluiríamos que com pontas de lança assim-assim estaríamos mais perto de ser felizes do que com pontas de lança bons, o que não parece ser um grande silogismo aristotélico: "O Sporting tinha pontas de lança assim-assim, o Sporting foi campeão, logo pontas de lança assim-assim são campeões". E a negativa: "O Sporting tinha pontas de lança bons, o Sporting não foi campeão, logo pontas de lança bons não são campeões". É claro que parece simplista de mais. Desde logo porque despreza o enorme volume de jogo que o autoritário Sporting treinado por Amorim apresenta (o que não era o caso no ano do título, quando se jogava mais em transição e o que se pedia ao ponta de lança era que esticasse na profundidade), o qual muito beneficiaria de um bom ponta de lança. E é esse o grande drama: ao insistir, teimosa ou obstinadamente, em não contratar um ponta de lança bom, usando como argumento Liedson, Derlei e Slimani, Amorim ignora que Liedson e Derlei nunca foram treinados por ele e que Slimani foi por ele devolvido à precedência sem poder mostrar todo o seu potencial. Ou seja, Amorim ignora a sua própria influência num Sporting dominador e controlador dos jogos como nunca, agarrando-se a um conjunto de premissas débeis para chegar a uma conclusão frágil. Porque, com este volume de jogo, um ponta de lança faria toda a diferença. Ou serei só eu a ver que o Liedson de outros tempos, o tipo de ponta de lança móvel de que o Amorim gosta, assentaria que nem uma luva neste Sporting? Recusando-se a ver o óbvio, Amorim está a ser humilde ao ponto de não ver o impacto que tem na qualidade de jogo do Sporting, impacto esse que seria ainda maior com um grande goleador. Pelo que a pergunta que se impõe é esta: até quando será Rúben Amorim o maior inimigo dele próprio? E resistirá o Sporting a isso? E se o ponta de lança finalmente chegar, mas no lugar de Amorim já estiver alguém com bem pior ideia de jogo? Quem foi capaz de miraculosamente esbater bastante as saídas simultâneas de Palhinha e de Matheus e de rearranjar a ala direita pós-venda de Porro, merecia que um bom ponta de lança fizesse o resto do trabalho por si. Ou não? 

 

Quási

"Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dôr! - quási vivido...

Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
Quási o princípio e o fim - quási a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ansias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indicios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sôbre os precipícios...

Num impeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Um pouco mais de sol - e fôra brasa,
Um pouco mais de azul - e fôra além.
Para atingir, faltou-me um golpe de aza...
Se ao menos eu permanecesse àquem..." - Mário de Sá Carneiro

 

P.S.1. Mário Jardel, Beto Acosta, Manuel Fernandes, Rui Jordão e Hector Yazalde foram excelentes pontas de lança e... campeões! 

P.S.2. O Liedson e o Derlei, com o Paulo Bento, e o Slimani nunca ficaram em quarto. 

 

Tenor "Tudo ao molho": Marcus Edwards

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20
Abr23

Mecânica Quântica


Pedro Azevedo

Na mecânica quântica, a energia de um fotón é directamente proporcional à frequência da radiação. Porém, na determinação do seu valor, é necessário multiplicar a radiação pela constante de Planck. Por esta altura o Leitor estará a indagar o que isto terá a ver com o Sporting, a poucas horas da recepçao à Velha Senhora. É simples, se considerarmos o nível de aproveitamento dos remates uma constante física, e não é crível que tal tenha remédio iminente, então a solução para haver mais golos passará por (ainda) mais remates. Tudo o resto que se queira equacionar será um "wishful thinking"... (O futebol está longe de ser uma ciência, mas uma constante há-de ser sempre uma constante.)

 

P.S. Na primeira mão, realizámos 15 remates (contra 9 da Juventus), 6 dos quais à baliza (3), para uma eficácia nula, ou, se quiserem, de "blanck" (em branco), que se espera não vir a ser uma constante.

17
Abr23

Tudo ao molho e fé em Deus

Nem pintos, nem pontos


Pedro Azevedo

Se o Arouca tem um Evangelista que proclama a boa nova às gentes aveirenses, no Sporting há anos que se evangeliza sobre Alcochete. Quer dizer, dá sempre jeito ter Alcochete à mão, ou ao pé da boca, seja por via de colchões, relvados ou jogadores, para que sócios e adeptos possam enfiar, ano após ano, o barrete verde. No modernismo leonino, a Formação está centrada nos jogadores: não interessam os resultados das equipas afluentes à principal, o que importa é o desenvolvimento individual do jogador. Por isso, pomo-los a jogar um escalão acima, que é para queimar etapas e ver se se desenvolvem mais depressa, assim a modos como se faz com os pintos num aviário (um dia ainda iremos ler que a Academia se mudou para o Freixial). O problema é que queimar etapas só deveria servir para alunos sobredotados, para os quais o patamar de ensino já não constituísse um desafio, número que estatisticamente nunca é relevante. Para todos os outros, a aceleração de processos só irá apressar o... desemprego. Tendo como outras contra-indicações uma sobrecarga de conteúdos tácticos e físicos em detrimento do estímulo do talento natural dos adolescentes, a única arma que efectivamente um dia lhes permitiria fazer a diferença no futebol adulto. Mas dizem-lhes que o objectivo é chegarem à equipa principal, ainda que hoje apenas 1 tenha começado de início. E hão-de dizer-nos mais tarde que o insucesso da época se deveu à aposta na Formação e não às contratações cirurgícas, ainda que o Rodrigo Ribeiro, o tal que seria alternativa a Paulinho, seja correntemente suplente da equipa B, e que o Fatawu seja uma espécie de Matheus Pereira do JJ para o Rúben Amorim e só esteja reservado para os grandes jogos. Tal como o Essugo. Se explicam aos jovens que o objectivo do acelerador de partículas sito em Alcochete é chegarem ao topo, não admira que, com o passar do tempo, a acumulação de derrotas (formar a perder) e a falta de oportunidades gerem desmotivação. Talvez por isso a nossa equipa B esteja à beira de ir formar jogadores para o Campeonato de Portugal (quarta divisão nacional) e para o convívio com históricos como o Atlético, o Fabril (antiga CUF) e um Oriental que tanto me traz à memória o Yazalde (9 golos à equipa de Marvila em 73/74). Só derbies... Mais tarde surgirá a narrativa de que o Campeonato de Portugal é que é ideal para formar, ainda que melhor mesmo seriam os distritais, o regresso à Academia do Pelado e, quiçá, aos jogadores extraordinários (diferenciado é cada ser humano). Pode ser que então se acorde para a realidade... E assim chegámos ao final de Domingo, com a equipa A a 7 pontos do Braga e do acesso à pré-eliminatória da Champions e a B só com um ponto a separá-la da zona de despromoção. Claro que Nª Senhora de Fátima ainda pode aparecer numa azinheira em Alcochete, o Sporting aceder à Champions por via da Liga Europa e os três pastorinhos que comandam o futebol do Sporting virem a rir-se das atribulações desta época desportiva e assim adiarem tomar as ilações devidas, mas o futuro não parece nada risonho. 

 

Ontem, o figurino não se afastou do habitual. Houve os equívocos estratégicos do costume quando necessitamos de fazer poupanças - o ala Bellerín, de guião trocado, a atacar por dentro - , as absurdas substituições e explicações usuais - mais trocas e baldrocas de centrais e Nuno Santos a sair mais cedo porque Amorim desta vez não queria dele o que quis na semana passada de Arthur, isto é, que cruzasse com o seu pé natural -  , um banco onde em 9 só havia uma solução atacante (Rochinha), o Coates a ponta de lança e bolas nos postes e falhanços inacreditáveis em ambas as áreas que nos custaram o que seria uma merecidíssima vitória, tudo erros de palmatória que contrastam com a brilhante ideia de jogo, comunicação e mais do que óbvia capacidade de liderança do nosso treinador. E acabámos a dever o empate ao árbitro, o que é algo tão contra-natura como ver um incendiário a limpar o lixo numa floresta e só nos acontece quando já não contamos para o Totobola. Mas está tudo bem, os seres pensantes que comandam o nosso futebol dizem-nos que a próxima época já está a ser planeada há muito tempo, o que é um enorme alívio na medida em que nos transmitiram exactamente o mesmo na Primavera passada. Como adenda, questionado sobre o seu futuro, o Amorim disse que estava tudo em aberto, um tipo de planeamento jogo-a-jogo muito sui-generis e mais dependente dos humores do momento (como a venda do Matheus por parte da Direcção). Conclusão: nem Academia, nem Aviário, isto caminha é para um Manicómio... (Mas Quinta há jogo e pode ser que na Sexta troquemos a camisa de forças por mais uma voltinha na montanha russa.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Morita

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14
Abr23

Tudo ao molho e fé em Deus

Muita parra para nenhuma uva


Pedro Azevedo

Vecchia Signora? Não, uma Senhora com "vaca".

 

No que diz respeito a sentimentos, Deus poupou-me na inveja e carregou-me no orgulho. Devido a isso, admiro o mérito dos outros e sou fã número 1 de todos os que, em concorrência leal e no respeito por valores e princípios em que me revejo, fazem a diferença nas mais diversas profissões e sectores de actividade. Exactamente por isso, senti-me orgulhoso com a exibição de ontem do Sporting. E o mérito é todo de Rúben Amorim, o treinador que vai criando o Sporting com maior personalidade europeia de que eu tenho memória. Dominando, em Turim ou em Londres, colossos do Velho Continente. Dirão que o Sporting não ganhou, que no fim do dia até perdeu. É uma forma de analisar as coisas, mas sinceramente não é a minha. Porque assim como o resultado positivo muitas vezes esconde um processo negativo, por vezes resultados negativos escondem processos muito positivos. Por isso tantas vezes discordo da critica desportiva enviezada pelos resultados. Que, no caso do futebol, olvida que se trata de um jogo e assim tem uma componente de aleatoriedade inerente, de sorte ("vaca") ou azar, que não pode ser desprezada ou até explicada. Sim, muitos agora dirão que a explicação está na ausência de um ponta de lança de créditos firmados, procurando uma razão científica para um resultado percepcionado como amplamente injusto. Mas eu, que até tenho sido especialmente crítico de não termos um matador, rebato com o facto de as melhores oportunidades de ontem terem ido parar aos pés ou cabeça de Pote, Morita (duas), Nuno Santos e Bellerin. Sendo que Pote é há 3 épocas consecutivas o nosso melhor marcador. Assim, atribuo muito mais a nossa derrota de ontem à falta de experiência a este nível, o que na hora da verdade faz tremer um pouco, razão pela qual falhámos tantos golos e perdemos tantas jogadas no último terço por má definição na finta ou passe, oportunidades em barda proporcionadas por um meio campo que distribuiu e recuperou inúmeras bolas e municiou vezes sem conta o ataque. Não esquecendo que do outro lado não estavam propriamente uns bidões, mas sim jogadores de um clube que foi duas vezes finalista da Champions nos últimos oito anos. E que, para cúmulo, beneficiou de um erro grosseiro de Adán - o erro individual faz igualmente parte do jogo, mas é muito mais evidente aos olhos do público que o erro colectivo - para ganhar o jogo.

 

Se Rúben Amorim é o principal responsável pela revolução de mentalidades que vem permitindo este upgrade competitivo do Sporting na Europa, a ele também devem ser assacadas responsabilidades por alguns erros e défice de motivação na frente doméstica. É certo que perdeu inesperadamente Matheus Nunes e as soluções em qualidade para o meio campo não abundam, mas a opção em relação à posição específica de ponta de lança é dele e muitos golos se perderam em jogos em que massacrámos adversários claramente inferiores por ausência de um matador certificado. Esta época e na anterior. (Além de que a opção por inventar centrais onde havia alas nos custou pontos.) E houve outros jogos, menos, onde a equipa apareceu estranhamente apática, a deixar correr o marfim, a tal questão motivacional. Bom, mas isso é tema para outro dia. Hoje gostaria ainda de realçar o enorme jogo de Morita, um jogador que eu vejo sistematicamente ser subvalorizado pela crítica, eventualmente por vir de um país que não é uma potência no futebol. Pois o Morita ontem colocou no bolso o Rabiot, o motor e grande ligador do jogo da Juve. E ainda teve disponibilidade e iniciativa para ir lá à frente criar perigo em duas ocasiões. No resto do tempo encheu o campo, deliciando-nos com um posicionamento perfeito, recepções imaculadas, passes precisos e cortes preciosos. Ainda por cima jogando fora da sua posição natural. Um manual de bom futebol, este nosso Tsubasa!

 

Se o verdadeiro sucesso está relacionado com as escolhas que fazemos para o tentar alcançar, então curiosamente o Sporting teve maior sucesso que o Benfica nesta jornada europeia. É certo que ambos perderam. Porém, enquanto o Sporting foi infeliz mas fez quase tudo para ganhar, o Benfica transmitiu a sensação de que especulou demasiadamente com o jogo e deixou muito por fazer. Ou seja, nesta jornada em particular, o Sporting mostrou mentalidade de clube grande e o Benfica ficou aquém da sua história, mostrando-nos que no futebol a realidade está em permanente mutação e que até treinadores que revolucionam o futebol de um clube, como Schmidt, têm ciclos menos positivos. Tal como Amorim. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Morita. Destaques especiais para Coates e Pote.

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13
Abr23

Estrabismo futeboleiro


Pedro Azevedo

"Três, dois crónicos candidatos ao título porque o Sporting ganha de 19 em 19 anos e não é assim bem, bem um crónico candidato, crónico ganhador de títulos em Portugal" - Diamantino Miranda

 

Diamantino Miranda, que como jogador fazia as delícias de qualquer adepto de futebol, enquanto comentador tem uma visão estrábica sobre o futebol. Por isso, confunde a beira da estrada com a Estrada da Beira, não se coibindo de permanentemente apequenar o Sporting nos seus dichotes futeboleiros. Porque a candidatura ao título de campeão nacional não é um dado que se possa alicerçar em factos de um passado recente, não só pelo peso institucional do Sporting e elevado investimento no seu plantel como também devido a constrangimentos vários que decorrem de uma verdade desportiva tantas vezes colocada em causa nas mais recentes investigações judiciárias. Se para Diamantino os fins (campeonatos ganhos) justificam os meios (candidatura) e a isso se agarra para pôr o Sporting fora de futuras corridas ao título máximo do futebol português, para os Sportinguistas tal constitui um absurdo. Todavia, mais à frente o próprio comentador mostra ao que vai, quando sentencia que o Braga está cada vez mais próximo de Benfica e Porto (sobre o Sporting, nada) e mais perto de ganhar o campeonato.

 

Há muito tempo que observo uma estratégia de retirar importância ao nosso clube em função de outros interesses, nomeadamente os económicos. O nosso mercado é pequeno, a necessidade de receitas é grande, há um clube afluente que quer chegar lá acima, alguém tem de ficar pelo caminho para que o quinhão individual seja maior ou não se reduza. Ver Diamantino a corporizar tal estratégia é triste, porém digno de uma fiél Testemunha de Janelá e da cartilha de João de Deus para os pobres de espírito. Desrespeitoso, ainda mais na véspera de um importante desafio europeu para o Sporting e futebol português, provavelmente consequência decorrente da nunca curada azia de uns 7-1 que observou de perto no campo. Enfim, o paradigma do que é não saber estar, da falta de cultura desportiva e de parcialidade evidente no comentário. Em suma, um caso perdido de estrabismo futeboleiro. 

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13
Abr23

Mais difícil ainda do que o Arsenal


Pedro Azevedo

A meu ver a Juve é um osso mais duro de roer que o Arsenal pelos seguintes motivos: 1 -Não assume tanto o jogo, é mais cínica; 2 - Tem jogadores do restrito topo do futebol mundial, como Di Maria, capazes de resolver um jogo sozinhos. Ora, sabendo-se que a genialidade é geralmente intermitente, a sua presença é mais relevante numa competição a eliminar do que numa prova de regularidade (excelentes equipas vencem campeonatos, excelentes jogadores podem ser o detalhe necessário para ganhar Taças); 3 - Tem mais historial nas competições europeias; 4 - Pertence a uma escola de futebol com que tradicionalmente as equipas portuguesas não encaixam bem; 5 - Tem um impacto superior junto dos diversos agentes do futebol.   

 

Dito isto, o jogo iniciar-se-á com um zero-a-zero e a "bagagem" ficará no balneário ou autocarro. Do nosso lado tem de haver um espírito de equipa indomável, motivação no máximo (são estes jogos que ambicionamos disputar, Turim será uma grande montra para os nossos jogadores e clube) e a percepção de que nos encontramos perante uma oportunidade histórica de seguir rumo à glória. Serão 5 finais, e Turim apenas a primeira. Força, Leões!

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