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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

30
Out20

Diego Armando faz 60 anos


Pedro Azevedo

O cidadão Diego Armando cumpre hoje 60 anos de idade. Já o seu alter ego, Maradona, não tem idade, é um mito. Se a Champions tem o majestoso Zadok the Priest, de Handel (em versão Tony Britten), para a história dos mundiais ficará sempre aquela maravilhosa jogada de uns quartos de final em que El Pibe fez do relvado do Estádio Azteca um campo de peladinha enquanto, como se não fosse nada com ele, ia driblando metade da selecção inglesa ao som da narração emocionada do uruguaio Victor Hugo Morales ("de que planeta vieste?). Poesia em movimento, um hino ao futebol!

 

Nesse dia, Maradona foi o génio da lâmpada que concedeu três desejos a Diego Armando: humilhar os ingleses, roubá-los indecentemente e qualificar a Argentina para as meias finais do Mundial de 86. Quatro anos após um conflito militar contra as tropas de Sua Majestade (Malvinas) que custou a vida a mais de seis centenas de argentinos, Diego foi nessa tarde o herói do povo, o Robin Hood dos argentinos, protagonizando "La Revancha del Tango". Já para os ingleses ele foi um provocador, um batoteiro, uma fraude, antítese que expressa na perfeição a heterogeneidade do seu ser. "Golo do Século" e "Mão de Deus" no mesmo jogo, uma dualidade sempre presente na vida de Diego. Como quando afrontou o poder da FIFA e expôs a corrupção que minava o organismo, ou no momento em que o seu vício finalmente abateu o Maradona que havia em si.

 

Suspeito porém que a história absolverá o homem e incensará o ídolo de multidões. Semanalmente, grupos de fiéis continuarão a comungar de cada cerimónia litúrgica realizada num campo de futebol, invocando os seus ídolos e defendendo a sua crença, porque o futebol é uma religião pagã com diversos profetas. Porém, lá longe, no seu Olimpo, haverá só um deus: Maradona, a.k.a. "d10s". Que outro daria a um pequeno clube do sul de Itália dois títulos de campeão contra os ricos do norte? Feliz Cumpleaños, Diego!

GOLO DO SÉCULO

(MARADÓ, MARADÓ)

(Manu Chao: LA VIDA ES UNA TOMBOLA)

(MARADONA vestido à SPORTING)

29
Out20

Tudo ao molho e fé em Deus

Um Sporting à Benjamin Button


Pedro Azevedo

O Sporting começou o jogo de uma forma lenta e muito previsível, foi-se revigorando à medida que os laterais passaram a ser alas puros e a saída via médios trocada pelo jogo em "U", e acabou rejuvenescido por um banho de golos sucessivos nos últimos 10 minutos que não expressa minimamente as dificuldades sentidas na maioria do tempo. Em suma, um Sporting à Benjamin Button que nasceu para o jogo com um Neto já avô e só deu a volta quando o avô deu lugar ao neto. 

 

Diga-se em abono da verdade que as dificuldades sentidas pelos leões se deveram à astúcia do treinador gilista. Sagaz, Rui Almeida bloqueou durante todo o tempo a saída de bola leonina pelo centro, dispondo para tal de um losango que enquadrava o par de médios do Sporting. Em permanente inferioridade numérica (2 contra 4) e sem centrais com qualidade técnica para conduzir a bola por entre as linhas da equipa de Barcelos e assim ajudar a diminuir a desproporção de homens no miolo, os leões viram-se bloqueados e sem soluções. Não se estranhou por isso que ao intervalo o resultado permanecesse inalterado. 

 

Para agravar a situação, uma desatenção imperdoável numa bola parada permitiu ao Gil Vicente adiantar-se no marcador logo após o reatamento. Ruben Amorim procurou mexer à hora de jogo, mas nenhuma das suas soluções resolveu o problema central e o Sporting continuou com apenas dois homens no meio-campo. Por essa altura (substituição de Neto), Nuno Mendes era o central pela esquerda, Pote recuara para fazer dupla com Palhinha e Nuno Santos já jogava mais como ala do que lateral. Porém, só aos 71 minutos, com a troca de Porro por Daniel Bragança, é que o Sporting conseguiu encontrar um antídoto para o espartilho em que o Gil Vicente o colocou. Não porque a equipa tivesse conseguido circular pelo meio - para tal recomendar-se-ia o 4-3-3, que além do mais nos teria exposto menos às transições adversárias que poderiam ter sido fatais assim houvessem tido uma melhor definição - , que continuava obviamente bloqueado, mas sim devido à adopção do 3-2-5. Ruben a imitar Herbert Chapman e a recriar o WM popularizado pelo Arsenal, com Tiago Tomás e Nuno Santos como extremos, Jovane e Pote como interiores e Sporar como avançado centro. Evidentemente, para além dos sistemas existem as dinâmicas, e de uma troca de posição entre Pote e Nuno Santos viria a surgir o golo do empate: o ex-famalicense cruzou, Nuno Santos antecipou-se a Jovane - estava com marcação - e apareceu ao primeiro poste a desviar a bola e Sporar cabeceou com êxito ao segundo pau. Estavam decorridos 82 minutos, um minuto que se viria a revelar de grande galo para os de Barcelos. Isto porque logo de seguida, o Sporting voltou a marcar: transição rápida, Sporar recuperou a bola e passou-a a Bragança, e o menino mete um passe frontal de grande classe a isolar Tiago Tomás que chutou no tempo certo e sem dar a possibilidade a Dennis de ser um pimentinha e estragar a noite aos Sportinguistas. Com dois golos num só minuto os gilistas desorientaram-se e, após uma perda de bola infantil dos de Barcelos, Pote encerraria a contagem com um passe à baliza de categoria. Foi um momento Art Deco, na medida em que misturou a exuberante beleza plástica da sua movimentação com o toque fino e suave que trouxe à memória a inteligência e a técnica rendilhada do ex-internacional português Deco. Ruben bem havia alertado que o jogo com o Gil seria a nossa Champions, e o golo de Pedro Gonçalves a fazer lembrar um moderno Deco foi o mais próximo que estivemos de ouvir a magistral composição de Handel. Música para os meus ouvidos, o único dos meus sentidos que por essa altura ainda parecia estar a funcionar após uma noite muito sofrida e em que as imagens que surgiam através do ecrã pareceram durante muito tempo inverosímeis.  

 

Tenor "Tudo ao molho...": Sporar

danielbragancasporar.jpg

27
Out20

Estatísticas da Liga 2020/21 (Jornada 5)


Pedro Azevedo

  1. Melhor rácio de CA p/ falta cometida: Paços (novo)  - 9,3% (18º Sporting - 22%)
  2. Pior Rácio de CA p/ falta cometida: Sporting - 22% 
  3. Menos Faltas com. por jogo: Benfica (novo) - 13 Faltas (7º Sporting - 14,8 Faltas)
  4. Mais Faltas com. por jogo: Boavista - 20,2 Faltas
  5. Menos CA por jogo: Paços - 1,6 (16º Sporting - 3,3)
  6. Mais CA por jogo: Marítimo e Nacional (novos) - 3,4
  7. Menos Golos Sofridos: Vitória SC e Gil Vicente  (-1 j) - 2 golos (3º Sporting - 3 golos)
  8. Mais Golos Sofridos: Boavista e Famalicão (novos) - 12 golos
  9. Mais Golos Marcados: Benfica - 15 golos [4º Sporting (-1j) - 8 golos]
  10. Menos Golos marcados: B SAD, Vitória SC e Gil Vicente (-1j) - 2 golos
  11. Menos Posse de bola: Marítimo - 39%
  12. Mais Posse de bola: Benfica - 58% (4º Sporting - 53,3%)
  13. O Sporting cometeu 59 faltas que se traduziram em 13 amarelos (rácio de 22%)
  14. Os jogadores do Sporting sofreram 73 faltas que deram 11 amarelos (rácio de 15,1%)
  15. Matheus sofreu 14 faltas, ou seja, 19,2% do total das faltas sofridas pelo Sporting

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25
Out20

Tudo ao molho e fé em Deus

Pote de ouro na casa de Matheus


Pedro Azevedo

Em nenhuma outra modalidade é tão possível o David bater o pé ao Golias como no mundo do ludopédio. Por isso, o futebol possui um sortilégio inigualável entre os diversos desportos. Muitas vezes a equidade provém da falta de eficácia do mais forte, outras vezes do engenho e da organização do mais fraco que permite que o todo valha muito mais que o somatório das partes. Na maioria dos casos porém esse equilíbrio é fruto das conjugação destes factores. Isto em condições de pressão e temperatura constantes do sistema, claro. Infelizmente, nas últimas décadas, em demasiadas ocasiões quando o Sporting joga, ou o termostato se avaria ou temos bar (e var?) aberto. Concomitantemente, o sistema desregula-se. E sempre que falha um sensor, nunca falta um censor.

 

Hoje à tarde, nos Açores, o Sporting podia e devia ter resolvido a contenda na primeira parte. Com Palhinha imperial no centro do campo, Matheus é como um elástico à sua volta que se vai esticando ou apertando consoante as necessidades da equipa. Durante o primeiro tempo esticou-se tanto que isso provocou suficientes desequilíbrios para matarmos o jogo. Faltou eficácia, que é como quem diz faltou um "Matador", um ponta de lança. Quem não tem cão, caça com gato, e Pote (a passe de Jovane) desfez a igualdade com um remate certeiro de pé esquerdo executado de ângulo difícil. Dir-se-ia que o pior já tinha passado, mas isso é coisa que nunca passa pela cabeça de um Sportinguista. Anos e anos de improbabilidades que se reverteram contra nós fazem com que em cada Sportinguista haja um ser muito desconfiado e cínico. Não se infira daí que temos medo de ser felizes. Nada disso. Aquilo que efectivamente tememos é voltarmos a ser apanhados desprevenidos. É que depois não haveria coração que aguentasse o Coates ensarilhar-se com a bola e abrir uma improvável autoestrada numa pequena ilha. Assim, lá fomos nós para o intervalo com mais uma daquelas vitórias morais do nosso passado recente.

 

No recomeço, o Sporting não voltou tão desenvolto. A relva, em péssimo estado, fofa e cada vez mais solta, também não ajudava. Mas fundamentalmente deixámos de controlar o meio-campo tão bem como no primeiro tempo. Para tal muito contribuiu o elástico ter-se partido. Esgaçado, tanto pelo uso (vai-vem constante) como pelo atrito (entradas a matar dos insulares), Matheus não conseguiu contribuir como anteriormente e a equipa ressentiu-se. O jogo tornou-se muito menos fluído e nem mesmo a entrada de João Mário o abanou suficientemente. Ainda assim tivémos duas soberanas ocasiões de golo, ambas ingloriamente desperdiçadas por Sporar (substituiu Jovane). Na primeira, o esloveno cabeceou sozinho e não acertou na baliza; na segunda a bola parece que o perpassou como se ele fora um holograma dos balcãs, efeito sobrenatural já avistado em duas ou três situações com idêntico protagonista em Alvalade. Porro e João Mário, respectivamente, fizeram as assistências com mel. Até que Pote, correspondendo a um passe longo de Feddal, beneficiou de um momento de apanhados em que o guarda-redes contrário se retirou a si próprio e a um defesa do lance e, novamente de pé esquerdo, marcou. 

 

Vitória justíssima do Sporting, ainda que tanta caridade cristã, embora neste caso com a atenuante de ser com (o) Santa Clara, não seja recomendável no futuro a não ser que também se pretenda fazer um voto de pobreza. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pedro Gonçalves ("Pote")

pote santa clara.jpg

23
Out20

Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay


Pedro Azevedo

Sancho Pança dizia ao seu mestre "yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay". Com esta frase, Cervantes colocou na boca do fiél escudeiro de D. Quixote um sentimento por muitos partilhado: não sendo racional acreditar na existência de bruxas, a superstição acaba por fazer temer esses míticos seres do oculto. 

 

O que dizer então da 3ª eliminatória da Taça de Portugal onde o sortilégio colocou frente-a-frente o Fafe e o Vilar de Perdizes? De um lado o Bruxo de Fafe, do outro a aldeia mais mística de Portugal, o jogo (aguardado para o dia 22 de Novembro) promete atrair à cidade do distrito de Braga curiosos interessados em ver bruxos e bruxas, diabos e mafarricos. Todos na esperança de literalmente observarem dentro das 4 linhas aquilo que um adepto Sportinguista figurativamente já há muito se apercebeu: é que, no relvado, o futebol português é solo fértil para o sobrenatural.  

21
Out20

Sabia que... (2)


Pedro Azevedo

... nos 3 jogos já disputados para a Primeira Liga, os jogadores do Sporting cometerem 50 faltas e sofreram 55? Às 50 faltas cometidas pelos nossos jogadores corresponderam 12 amarelos (24% amarelos/falta), enquanto as 55 faltas cometidas pelos nossos adversários tiveram como consequência a amostragem do cartão amarelo em 8 ocasiões (14,5% amarelos/falta). 

 

Dado curioso: atendendo que o Sporting utilizou até ao momento 21 jogadores e que foram cometidas 55 faltas sobre eles, tal representaria uma distribuição equalitária de 2,6 faltas sofridas por jogador. No entanto, salta à vista a discrepância observada em relação ao Matheus Nunes, jogador que só à sua conta já viu jogadores adversários entrarem à margem das leis sobre si em 11 vezes. Assim sendo, Matheus Nunes sofreu 20% do total de faltas cometidas sobre jogadores do Sporting. Importante interiorizar isto, nomeadamente quando se afirma que Matheus dá pouco ao ataque. Pudera, as suas iniciativas são geralmente travadas através de falta logo na saída para o ataque. Não admira portanto que, com 1 jogo ainda por realizar, o brasileiro figure no 8º lugar do ranking dos jogadores da Primeira Liga que sofreram mais faltas até à data, tendo à sua frente apenas médios ofensivos e avançados. Será caso para escrever #deixemjogaromatheus?

21
Out20

Craque da semana (6)

Agustín Palavecino


Pedro Azevedo

Prosseguimos a divulgação semanal de jogadores que se destacam em diversos campeonatos periféricos com um craque que actua na Colômbia: Agustín Palavecino. Palavecino, de 23 anos, é um médio ofensivo argentino (1,73m) em evidência nos colombianos do Deportivo de Cali. Com 8 golos e 4 assistências é actualmente o melhor marcador dos "cafeteros" na Primera A, o campeonato colombiano. 

 

Destro, com grande visão de jogo, drible vertical e facilidade de remate, este jogador proveniente dos argentinos do Platense, clube onde realizou a sua formação, deu esta temporada um salto de qualidade que confirmou as melhores expectativas deixadas em 2019. 

 

Com um valor de mercado de apenas 1,3M€ pelo Transfermarket, Palavecino não ficará certamente por muito mais tempo em Cali. O México, que costuma ser o destino preferencial dos jogadores que se destacam na Colômbia, Brasil ou a Europa deverão ser o passo seguinte na sua ainda curta, porém auspiciosa, carreira.

20
Out20

Estatísticas da Liga 2020/21 (Jornada 4)


Pedro Azevedo

  1. Melhor rácio de CA por falta cometida: Rio Ave - 6,4% (18º Sporting - 24%)
  2. Pior Rácio de CA por falta cometida: Sporting - 24% 
  3. Menos Faltas com. por jogo: Rio Ave - 11,8 Faltas (12º Sporting - 16,7 Faltas)
  4. Mais Faltas com. por jogo: Boavista - 20,3 Faltas
  5. Menos CA por jogo: Rio Ave - 0,8 (18º Sporting - 4)
  6. Mais CA por jogo: Sporting - 4
  7. Menos Golos Sofridos: Vitória SC e Gil Vicente  (-1 j) - 1 golo (3º Sporting - 2 golos)
  8. Mais Golos Sofridos: Tondela - 11 golos
  9. Mais Golos Marcados: Benfica - 13 golos [5º Sporting (-1j) - 6 golos]
  10. Menos Golos marcados: Rio Ave, B SAD, Vitória SC e Gil Vicente (-1j) - 2 golos
  11. Menos Posse de bola: Marítimo - 38,5%
  12. Mais Posse de bola: Benfica - 58% (8º Sporting - 51%)

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18
Out20

Tudo ao molho e fé em Deus

O “worst case scenario” do Sporting


Pedro Azevedo

O "worst case scenario" é um conceito de gestão de risco inerente ao planeamento de uma determinada estratégia que contempla o pior cenário que se pode perspectivar com razoabilidade a uma determinada situação a fim de melhor se poderem acomodar eventuais futuras contingências relacionadas com eventos muito improváveis. Muito aplicado na banca, empresas e forças armadas, ainda assim ontem voltou a ficar provado que o "worst case scenario" não serve ao Sporting. Acham que estou a exagerar? Imaginemos hipoteticamente o seguinte: um defesa do Porto põe a mão continuamente em cima do ombro de um avançado do Sporting que se isola na área e na sequência dessa acção cai. Perante esta situação, considerando a mais recente jurisprudência resultante do golo anulado a Coates em Portimão por mínima pressão (não continuada no tempo) com a mão, se eu fosse treinador do Sporting e estivesse a planear o jogo, na antevisão de um lance desses daria 95% de probabilidade a ser marcada uma grande penalidade contra o Porto e expulsão do jogador portista (último defesa). Todavia, na realidade - a hipótese formulada aconteceu mesmo em campo - tal vir-se-ia a revelar insuficiente, pois embora o efeito prático da decisão do árbitro tenha sido o mesmo, o jogador não viu o vermelho mas sim o amarelo (no caso, o segundo). Assim sendo, esta observação apontaria para uns 99% de probabilidade (mínimo: grande penalidade e cartão amarelo), intervalo de confiança para a gestão de risco que na história da humanidade só não resistiu ao 11 de Setembro de 2001 e à crise do subprime. Dir-se-ia então razoavelmente imbatível. Eis então que, consultado o VAR, não só o "penalty" é revertido como também o segundo amarelo. Nesse estádio, a probabilidade de contingência em termos de risco para essa situação específica já era equiparável à de um massivo ataque terrorista (ou à de uma emissão de obrigações hipotecárias tóxicas). Mas não ficaria por aí, pois o treinador do Sporting foi expulso por alegados protestos que não terão caído bem ao árbitro que anteriormente havia observado a grande elevação dos responsáveis do banco portista que no português mais irrepreensível e sem vislumbre de qualquer vernáculo lhe haviam pedido por favor, por entre tratamento de V.Exª., digníssimo e ilustríssimo, para consultar o revolucionário amperímetro com que ligado à corrente o VAR na Cidade do Futebol mede a intensidade. Conclusão: no futebol português nem o "worst case scenario" nos acode. Perante o que acabo de descrever, o empate final registado no marcador acabou por ser uma contingência menor em termos globais face a uma situação não-razoável que ocorreu durante o jogo, circunstância essa que me fez evocar os tempos de um certo treinador croata que por cá passou e tão boa impressão deixou pela coragem de apostar nos jovens e estoicismo cavalheiresco com que aguentou os sucessivos atropelos às regras da arbitragem que acabariam por desviar da rota do título uma equipa que no campo exibia um belo futebol.

 

O jogo? O Sporting foi mais equipa e o Porto teve melhores jogadores. A uma boa organização leonina responderam os portistas com as individualidades Luis Diaz e Corona. Matheus Nunes falhou à primeira e Nuno Santos não perdoou à segunda oportunidade. Numa diagonal entre os centrais, Uribe empatou. Luis Diaz ia semeando o pânico na direita da defesa leonina e, após um contra-ataque rápido mal desfeito pelo jovem Nuno Mendes, Corona espalhou o vírus do seu futebol no marcador com toda a defesa leonina em isolamento forçado. Em cima do intervalo, o "worst case scenario" descrito em cima.

 

No reatamento, a toada mantinha-se igual por entre terços e até rosários rezados de cada vez que a bola assomava a Neto. Até que ao fim do segundo terço (do jogo), Sérgio Conceição trocou Diaz e Marega por Martinez e Anderson e o Sporting aproveitou para tomar conta das operações. O Porto limitava-se ao tão enganador quanto ilusório "controlo do jogo", expressão do futebolês que já se sabe não augura nada de bom e precede um imediatamente posterior ar de estupefacção do treinador tuga com uma "batata" com que não estava a contar enquanto alegremente especulava com o jogo, ou seja, entregava a bola ao adversário. Simultaneamente, o Sporting ia progressivamente arriscando mais e mais a partir do banco. Até que uma transição dos dragões virou numa ainda mais rápida transição leonina - ou não tivesse vindo do carrinho de Palhinha - e Vietto empatou a partida após defesa de Marchesin a um toque de calcanhar do entretanto regressado Sporar. 

 

O segredo do Sporting esteve na labuta do miolo do terreno, onde Palhinha (segundo tempo) e Matheus Nunes (primeira parte) estiveram em bom plano e Pedro Gonçalves deu uma ajuda preciosa. Palhinha foi para mim o melhor em campo, por sozinho ter assumido a secção de metais e a percussão quando Ruben Amorim precisou de violinistas para as cordas com que subtilmente agarrou a equipa ao jogo face aos tocadores de bombo que vieram do Norte. Quanto ao brasileiro, voltou a ser massacrado com inúmeras faltas que, para além de nunca resultarem no cartão amarelo correspondente, acabam por o enfraquecer durante o jogo. Exemplo do que acabo de escrever foi a inacreditável inacção disciplinar do árbitro numa acção grave de um portista onde o Ma theus ficou partido em duas sílabas de dor numa palavra aguda, em lance que viria a terminar num remate de Porro a rasar o poste. Quanto a Pote, andou sempre abaixo e acima, defendendo e atacando, recuperando bolas, rematando sempre que pôde e cruzando como no lance do qual resultou o empate final que se viria a registar no marcador. Relevo ainda para a estreia de João Mário, um regresso a casa ao fim de 3 anos de ausência.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Palhinha

palhinha.jpg

(Imagem: A Bola)

15
Out20

Tudo ao molho e fé em Deus

A moto Jota contra o Auto Sueco


Pedro Azevedo

Ao contrário do que autoridades sanitárias e comentadores descreveram, o Ronaldo esteve ontem no relvado do Sporting. Pelo menos no subconsciente dos suecos, os quais andaram sempre à procura do "Melhor do Mundo" de cada vez que os portugueses se acercavam da sua área. Debalde, pois foi como se perseguissem um holograma, deixando espaço para que o DJ de serviço aquecesse a noite fria de Alvalade.

 

Antes porém, os suecos foram ameaçadores. Com uma potência propulsionada por vários cavalos de força, o motor sueco encontrou durante algum tempo uma autoestrada no meio do campo lusitano. Porém, à medida que os portugueses foram construindo portagens e assim encurtando os espaços de circulação, os vikings deixaram de poder desenvolver todo o vigor da sua máquina e os seus problemas de afinação emergiram. Numa dessas pequenas cabines, Bruno Fernandes atrai dois suecos e encontra Jota solto. Este, nada egoísta, serve Bernardo e Portugal adiantava-se no marcador. Manietados, os suecos viam-se agora obrigados a acelerar em espaços de reduzida mobilidade. Em consequência, começaram a bater de frente e de lado e a desorganizarem-se. Pressentindo isso, Cancelo, sem ninguém a pressioná-lo, lançou a bola para as costas da defesa sueca onde a moto Jota acelerou mais do que toda a frota sueca e dilatou a vantagem portuguesa. Portugal ia para o intervalo com dois golos à maior. 

 

No reatamento, Portugal controlou totalmente o jogo. Com Pepe investido como Ministro da Defesa, todos os avanços suecos esbatiam na boa organização defensiva lusa. Simultaneamente, abriam-se espaços na frente por onde contra-atacar. Numa dessas ocasiões, Bruno Fernandes isolou Felix, mas o promissor avançado embora estivesse sozinho frente a Olsen encontrou pela frente um batalhão de comentadores que diariamente o pressionam até ao limite do surreal e falhou. Quem não desperdiçaria nova oportunidade seria Jota. Servido por William, entrou em altíssima rotação pelo lado direito da defesa sueca, mandou uma mudança abaixo, flectiu para dentro e apanhou em contramão o desamparado guarda-redes escandinavo. Estava feita a história do jogo. Começando a diesel, aos poucos a selecção de Fernando Santos foi boicotando as máquinas a combustão suecas, cansando-as e levando-as para terrenos onde os cavalos não conseguiam fazer a diferença, caminhos esses mais propícios a quem tem moto. Chamam-lhe Jota. Fixem-lhe o nome.

 

Um dos grandes méritos do engenheiro é este: sem dramas, quando não tem cão Fernando Santos caça com gato. Ou, como quem diz, sem Ronaldo, craque e inspirador desta nova geração, dá palco aos jotinhas. E Portugal continua a ganhar. 

jota.jpg

13
Out20

Pedro Gonçalves bisa


Pedro Azevedo

O nosso jogador Pedro Gonçalves, vulgarmente conhecido por Pote, marcou hoje por duas vezes na vitória da selecção portuguesa de sub-21 no rochedo de Gibraltar (3-0). Parabéns ao Pedro, extensíveis à selecção comandada pelo nosso antigo jogador Rui Jorge.

 

PS: Pedro Gonçalves a confirmar uma vez mais ter sido uma excelente contratação e a reavivar a questão que deverá andar na mente de Ruben Amorim por estes dias acerca da melhor forma de o compatibilizar no onze do Sporting com o regressado João Mário. Dado aquilo que têm sido as ideias que Ruben tem mostrado neste início de época, médio centro e interior esquerdo serão as posições em aberto a preencher por estes dois.

12
Out20

Craque da semana (5)

Dennis Man


Pedro Azevedo

Avaliado em 5M€ pelo Transfermarket, Dennis Man é um esquerdino romeno que actua pelo lado direito do ataque ou como segundo ponta de lança no nosso velho conhecido Steaua de Bucareste. 

 

De apenas 22 anos (1.83m), Man é, à semelhança de Alexandru Cicaldau (23 anos, médio, Universitatea Craiova), uma já certeza do futebol da Roménia. Internacional A em 4 ocasiões, Man parte usualmente da direita através de diagonais para o centro onde alia velocidade, controlo da bola e remate letal.  

 

Dado o seu dinamismo e capacidade concretizadora, as características do "Canhoto da Transilvânia" adequar-se-iam quase na perfeição ao esquema que Ruben Amorim implementou para os 3 jogadores da frente. 

10
Out20

Panenka


Pedro Azevedo

Antonin Panenka, o médio que fez "czech-mate" à Alemanha na final do Euro 76, recuperou do estado crítico e encontra-se agora estável, embora ainda a necessitar de respiração assistida. Sendo, conjuntamente com Cruijff, um dos dois únicos heróis sem passado no Sporting dos muitos que serviram de inspiração a este blogue, Castigo Máximo não pode deixar de se associar a todos aqueles que à volta do mundo têm vindo a manifestar preocupação com o seu estado de saúde. Na esperança, ou ela não fosse bem Sportinguista, que Panenka invente contra a Covid-19 o mesmo tipo de Ovo de Colombo com que um dia deixou Sepp Maier impotente.

08
Out20

Imortal!

Vítor Damas nasceu há 73 anos


Pedro Azevedo

In memoriam do grande Vítor Damas, hoje republico dois textos que originalmente "deram à estampa" neste blogue em 18 de Janeiro e em 6 de Setembro de 2019. Nós, Sportinguistas, jamais o esqueceremos.  

 

"O Leão Branco"

 

Há um antes e um depois de Vítor Damas. Nas peladas de rua ou em terrenos baldios, nos relvados do futebol profissional.

Antes dele, quando um grupo de rapazes traquinas se juntava para "jogar à bola" ninguém queria ir à baliza. Os garotos eram Figueiredo (mais tarde, Peres) ou Eusébio, mais remotamente, Peyroteo ou Espírito Santo, mas nunca guarda-redes. Por isso, o engenho dos rapazolas criou a figura do guarda-redes avançado, limitando os danos de quem era incumbido de tão maçadora, quão castradora, missão. Mais tarde, nova engenhoca dos petizes e o "keeper" ia rodando entre todos os compinchas para não penalizar por muito tempo qualquer um deles.

Até que surgiu Damas. Como outrora dizia Comte, "tudo na vida é relativo, e isso é o único valor absoluto". Damas foi o maior porque enorme era Eusébio e vice-versa, tal "yin" e "yang", dois seres que se complementavam e davam corpo à sua existência, em que o "yin" era Damas, com a sua elegância e sapiência na baliza que transmitiam grande tranquilidade à equipa e aos adeptos, e o "yang" era Eusébio, com a sua vigorosa acção criativa digna de um Rei. Se Eusébio era o Pantera Negra (cientificamente, uma mutação genética da Panthera que se designa por "melanismo"), Damas era o Leão Branco ("Panthera Leo", mutação genética oposta ao melanismo que se designa por "leucismo").

Quando em 9 de Novembro de 1969, Damas realizou a "parada do campeonato", ajudando o Sporting a ser campeão com uma defesa por instinto após cabeçada de Eusébio, não foi só o Pantera Negra que, já festejando de braços abertos, ficou incrédulo. O estádio inteiro "se levantou" para aplaudir, consciente de que tinha assistido a uma impossibilidade física, como se outra dimensão tivesse penetrado no nosso Sistema Planetário. Eusébio teve consciência desse momento e imediatamente, como grande desportista que era, correu a abraçá-lo, contribuindo para elevá-lo à imortalidade.

Este duelo perduraria até Eusébio "pendurar as botas", o que, acto contínuo, foi seguido por a saída de Damas do Sporting, rumo a Espanha, quiçá por falta de motivação ao sentir que o grandioso combate jamais se repetiria.

Assim acabariam 9 anos de expoente máximo, de fábula, de encantamento, embora Damas ainda tenha regressado, anos depois, para cumprir 5 boas épocas.

Outro momento de Ouro, viveu-o em Wembley, ao serviço da Selecção Nacional, em 20 de Novembro de 1974, aguentando estoicamente, com 6 grandes defesas, um empate a zero do Portugal "dos pequeninos" (Octávio, Alves, Osvaldinho,...) contra os super-favoritos ingleses. Uma dessas defesas ficou conhecida nos "media" britânicos como "a defesa do Século " (Vídeo abaixo) e foi mais ou menos assim: perda de bola na esquerda da nossa defesa, por Osvaldinho, contra-ataque inglês, bola em Gerry Francis, isolado na área, pela direita, simulação de remate e cruzamento para trás onde apareceu David Thomas a encostar, a meia altura, para a baliza deserta (Damas ficara a tapar o primeiro poste e a hipótese de remate). Eis que surge então Damas, felino, o Leão Branco, em extensão inimaginável, a sacudir a bola na exacta projecção dos postes perante a incredulidade do jogador inglês.

Com a emergência de Damas, nas peladas, em balizas improvisadas com malas da escola, já todos queriam ser Damas e imitar o ídolo, o mito, a sua elegância, agilidade, elasticidade, diria até, plasticidade entre os "postes".

E nos relvados do futebol profissional, todos os guarda-redes se inspirariam nele, herdando o seu estilo proactivo em detrimento de uma doutrina antiga mais reactiva, passando a ser mais intuitivos, instintivos e antecipativos, procurando adivinhar o movimento do avançado adversário.

Que saudades de ver Vítor Damas, o Eusébio do Sporting nas sábias palavras de outro grande: Carlos Pinhão. Damas já não está entre nós, mas como todos os grandes virou mito e passou à eternidade nas estorinhas que se haverão de contar de avô para neto, de quem o viu jogar e de quem se porá a imaginar como ele era. Tal como sucedeu comigo a propósito de Peyroteo, a lenda alimentar-se-á da descrição dos mais velhos e dos sonhos das crianças. Para sempre! 

 

"O Guarda-redes"

 

Se o objectivo (goal, em inglês) de um jogo de futebol é o golo - o equivalente a um orgasmo, para o bi-bota Fernando Gomes -, impedi-lo é o anti-climax, pelo que o guarda-redes é um desmancha-prazeres por natureza. Talvez por isso, as regras estabelecidas em 1848, na Universidade de Cambridge, não contemplavam a figura do "keeper", posição que só passou a existir em 1871. 

 

Por tudo isto, existe uma não confessada má-vontade contra o guarda-redes, ele é um mal-amado. Se é perdoado a um ponta-de-lança perder um golo de baliza aberta, a um extremo falhar um drible ou um centro, a um médio errar um passe e a um defesa fracassar no desarme, nada é consentido a um guarda-redes. Se der um "frango" e daí resultar a derrota da sua equipa, bem pode efectuar uma mão-cheia de defesas impossíveis que nem assim será absolvido pelo tribunal dos adeptos.

 

Condenado a observar o jogo à distância, isolado, apenas com dois postes e uma barra como companhia, é como um prisioneiro solitário numa cela, somente aguardando a sua própria execução. E quando lhe aparece um adversário sózinho pela frente e sai ao seu encontro, parece percorrer o corredor da morte (Dead man walking) à espera de um indulto de última hora. Isso talvez justifique porque o mais famoso guarda-redes de sempre (Lev Yashin) e alguns dos melhores da história do nosso Sporting (Azevedo, Carlos Gomes e Vítor Damas) escolheram equipar-se de preto: o luto era adequado a quem sabia que a coisa, provavelmente, ia acabar mal.

 

Curiosamente, e em contra-ciclo, à medida que o futebol se foi tornando mais cinzento, cínico, burocrático, cerebral e os treinadores sacrificaram o objectivo do jogo à estratégia e à táctica, os equipamentos dos guarda-redes foram ganhando cor, como se agora acreditassem que tudo vai correr bem. Mas é um engano. Barbosa, arqueiro do Brasil no Mundial de 1950, batido pelo uruguaio Ghiggia na final, resistiu 50 anos como um condenado, tendo de conviver com desconsiderações várias, punido por adeptos, que até, certa noite, furtivamente, lhe colocaram a baliza daquele dia no Maracanã no seu jardim. Para que nunca se esquecesse! Meio-Século pagando por um crime que não cometeu (Barbosa foi considerado o melhor guardião desse Mundial), num país onde a pena máxima para qualquer tipo de crime é de 30 anos...

damas.jpg

07
Out20

Sabia que...


Pedro Azevedo

... Matheus Nunes é o jogador do Sporting que mais faltas sofre (8) e o nono no ranking geral de mais faltas sofridas da Primeira Liga? Numa tabela liderada pelo vimaranense André "ao Quadrado" (16 faltas) e em que Thiago Santana e Otávio ocupam as restantes posições de pódio, o brasileiro já aparece no Top Ten quando a sua equipa ainda tem um jogo a menos. A ter em atenção, em especial quando pelo menos duas acções faltosas de jogadores do Portimonense no último jogo passaram em claro em sede de acção disciplinar. Não deixa também de ser curioso que um médio cuja percepção generalizada no universo leonino seja a de ter um pendor mais defensivo (mito?) apareça numa lista onde no Top Ten só constam médios de ataque e avançados, o que pode evidenciar a preocupação que os treinadores adversários têm em condicionar as arrancadas para o ataque da jovem promessa leonina. 

 

#deixemjogaromatheus

matheus nunes.jpg

06
Out20

O regresso do "Pés de Veludo"


Pedro Azevedo

Saúdo o regresso de João Mário, aquele tipo de jogador capaz de entrar de caras no onze titular que configura o género de contratação/empréstimo que sempre preconizei. Enquanto as compras em quantidade vêm sempre a repercutir-se como um custo e um loose-loose no binómio económico/desportivo, uma aposta em qualidade deste género (empréstimo) é à partida uma garantia de rendimento desportivo. Nesse sentido, o João é um claro "upgrade" para esta equipa do Sporting, um campeão europeu formado nas nossas escolas que retorna numa idade (27 anos) em que os jogadores atingem o pico da sua carreira em termos físicos, técnicos, tácticos e de maturidade. Acresce que o João com a sua versatilidade táctica pode ocupar diferentes posições no terreno, desde actuar como um dos dois médios do sistema de Ruben Amorim até partir de qualquer uma das alas (talvez mais a direita, na medida em que já temos Jovane, Pote - caso não jogue como médio - ou mesmo Nuno Santos sobre a esquerda), o que me parece muito interessante para a equipa. Além destes predicados, João Mário é também um jogador cuja contratação não fractura a massa associativa do Sporting, pormenor que me parece da maior importância à luz do que tem vindo a ser o ambiente maniqueísta e niilista presente no clube. Em todas a entrevistas que concedeu após a sua saída de Alvalade, o João soube sempre colocar o Sporting acima de pessoas e do seu interesse próprio, nunca tendo aproveitado conjunturas específicas para dizer algo que o beneficiasse perante nomenclaturas (aquilo que os brasileiros denominam de "puxa-saco") ainda que pudesse dividir os adeptos, traço de carácter que me caiu particularmente bem. Por tudo isto, vejo com muito bons olhos o regresso do nosso "Pés de Veludo". Seja muito bem-vindo, João Mário!

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06
Out20

Estatísticas da Liga 2020/21


Pedro Azevedo

  1. Melhor rácio de CA por falta cometida: FC Porto - 5,5% (17º Sporting - 21,9%)
  2. Pior Rácio de CA por falta cometida: Farense - 22,2% 
  3. Menos Faltas com. por jogo: Rio Ave e Benfica - 11 Faltas (9º Sporting - 16 Faltas)
  4. Mais Faltas com. por jogo: Paços de Ferreira - 20,7 Faltas
  5. Menos CA por jogo: Rio Ave - 0,7 (18º Sporting - 3,5)
  6. Mais CA por jogo: Sporting - 3,5
  7. Menos Golos Sofridos: Santa Clara, Sporting (-1 j) e Gil Vicente (-1j) - 0 golos
  8. Mais Golos Sofridos: Tondela - 10 golos
  9. Mais Golos Marcados: Benfica e FC Porto - 10 golos [5º Sporting (-1j) - 4 golos]
  10. Menos Golos Marcados: Vitória, Portimonense, Paços de Ferreira e Gil (-1j) - 1 golo
  11. Menos Posse de bola: Marítimo - 35,7%
  12. Mais Posse de bola: Benfica - 59,3% (10º Sporting - 49,5%)

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05
Out20

Tudo ao molho e fé em Deus

Solar dos Nunos


Pedro Azevedo

Há muitas formas de sofrer a ver um jogo de futebol. A mais radical implica ouvir os comentários da SportTV quando em campo está o Sporting, momento em que a experiência adquire contornos de uma realidade paralela que nos deixa em constante sobressalto. Vou dar-vos alguns exemplos: uma pessoa vê o Matheus Nunes e o Pote a serem ceifados como o trigo e é obrigada a esfregar os olhos várias vezes até concluir necessitar com urgência de uma consulta oftalmológica quando ouve o inefável comentador a defender que não há espiga e, por conseguinte, amarelo. Numa outra ocasião, até fui arrancado do sofá. O brasileiro é pisado no pé e de dentro do aparelho surge o som: - "Quem anda à chuva, molha-se!" - , sentencia um orgulhoso Sousa. Assim mesmo, figurativamente, porque precipitação só mesmo na cabeça do senhor e a "chuva" a que ele se refere é de pitóns de alumínio que literalmente incidem sobre o pobre do Matheus e só "molha" os tolos que ainda se dão ao trabalho de manter o som da televisão ligado. Mais à frente, o Coates tem uma entrada perigosa que é logo apelidada de "duríssima". Depreende-se assim que a chuva quando cai não é para todos. Mas quando um algarvio se pendura num dos nossos, logo surge um "É bem!". Faz sentido, quem anda à chuva molha-se, especialmente se não tiver uma sombrinha. Às tantas o Portimonense ia atacando cada vez mais e o bom do comentador saiu-se com um "É um massacre!". Concordei e tirei o som ao aparelho...

 

Comi qualquer coisa ao pé do televisor e o que vi, ao contrário do que ouvi, não foi um calvário. Calvário onde fica o Solar dos Nunes, que por acaso nem é calvário nenhum mas sim um paraíso epicurista. Só que a noite foi mais de "Solar dos Nunos", do Mendes e do Santos, o berço onde nasceu a nossa vitória. O primeiro, o Mendes, caiu mesmo agora do berço e já marca golos deste mundo e do outro como se fora Rei do reino de Aquém e Além Dor, local imaginário onde não há sofrimento dos adeptos Sportinguistas. Pelo que o jogo, em vez do proverbial "Florbela" espanca-me, começou por oferecer uma flor bela do canteiro de Alcochete cujo aroma nos inspirou. E tanto assim é que ainda mal refeitos estávamos da emoção e eis que o Santos aparece à matador e de cabeça, qual lilliputiano investido de Gulliver, faz o segundo. Surpreendidos? Quem anda à chuva, molha-se!

 

Não queiram saber a choradeira que houve antes do jogo. "Ai que o Wendel isto, ai que o Wendel aquilo", segundo a crítica agora é que estávamos feitos ao bife. Acontece que o Wendel para mim sempre foi como os anos bissextos, que acontecem de quatro em quatro. Assim era ele, em jogos. Quando o calendário era comum, o Wendel tornava-se um caminhante. E um contemplativo. Um indivíduo que partia sozinho, sem destino, por estradas secundárias. Parando aqui e ali para observar a paisagem. Eu não percebia bem para onde e por onde ia ele, mas os peritos diziam que ele cumpria a importantíssima função de transporte. Enfim, para essa missão eu até preferia aquela miúda do gás Pluma da Galp, mas com tanta gente a cair-me em cima às tantas conformei-me. Só que o Matheus começou a aparecer na equipa principal e eu, que o tinha visto nos sub-23, achava-o muito atado e longe do que já lhe tinha visto antes do senhor Sousa me levar a crer que precisava de óculos. Se a mim se me oferecia estar atado, para alguns peritos ele era de uma irrelevância total, a velha dicotomia entre o estar e o ser que pendia contra ele (e mim). Até que o Wendel foi para São Petersburgo e o Matheus com toda a sede ao Pote fez-se finalmente ao caminho. Porém, em vez de picadas escolheu vias rápidas, mais directas. E nunca parou. Entregando sempre (não perdeu uma bola) e voltando de seguida para recolher mais inventário. Às tantas o Sousa até disse estar surpreendido por não conhecer essa faceta do Matheus. E não é que quando acabou o jogo fiquei a pensar nisso? Bom, até recuperei o som da SportTV e tudo. Arrependido, porque afinal o senhor até mostrou sabedoria e honestidade intelectual ao não hesitar dar valor a alguém que anteriormente havia desvalorizado e eu calei-o. Olhe, caro Sousa, é como você para os árbitros: para a próxima prometo ter um critério mais largo consigo.

 

Os primeiros 30 minutos foram muito bons, depois a equipa acusou o desgaste físico e psíquico do jogo de Quinta. Primeiro físico, deixando de se desdobrar tanto ofensivamente. Depois psíquico, procurando apenas afastar a bola da sua área, sem critério. Naturalmente, chegado esse momento, os jogadores mais experientes resistiram melhor. Quase todos, com a única excepção de Feddal. Assim, Neto fez provavelmente o seu melhor jogo de leão ao peito, cortando imensas jogadas de perigo. Mesmo cansado, com a bola nos pés não se lhe afiguraram mil novecentas e seis alternativas sobre que destino dar-lhe, mostrando que nem sempre a falta de irrigação do cérebro causada pela falta de oxigenação é contraproducente. Coates foi o colosso a que nos vem habituando e Adán à falta de ter de orientar a barreira foi ele próprio uma barreira às intenções dos algarvios. Nos mais novos, Porro foi um queniano, Pote mostrou qualidade de passe e disciplina no posicionamento à frente da defesa e o TT desta vez fechou mais espaços do que os que abriu. Vietto deu-se ao jogo enquanto durou, perdoando-se-lhe o já habitual desacerto na hora da finalização pela assistência que deu para golo. E, claro, os Nunos foram decisivos.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Matheus Nunes

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