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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

19
Jun20

Tudo ao molho e fé em Deus

Retrato de um Jovane


Pedro Azevedo

Em Alvalade há um pintor retratista de grande qualidade. Na semana passado já havia pintado uma tela representando Ricardo Ribeiro, ontem retratou Cláudio Ramos. Em qualquer dos casos bastaram poucos segundos de preparação, pelo que quando os modelos utilizados se mexeram já o quadro estava finalizado. Mas a vida de um artista não é fácil e Jovane teve de vencer o preconceito daqueles que achavam que ele só servia para pintar rodapés, tendo para tal contado com o valioso apoio do inspirador Mestre Bruno Fernandes. Agora, finalmente vencido o anátema da sua formação, ele é o mestre do renascimento leonino. 

 

Qual Ticiano, Jovane não se limita ao retrato, ele também é influente na ilustração de momentos mitológicos. Nesse sentido, "O Calcanhar" foi uma pincelada de génio que valeu um castigo máximo aos tondelenses que desacreditaram da sua arte e "O Roubo de Bola" tornou-se uma extravagante obra inacabada apenas por falta de definição final. Mas foi em dois instantes de representação da religiosidade pagã do futebol, nomeadamente em "Coroação com Espinhos" onde descreve um deus rodeado por um grupo de quatro homens que o açoita, que Jovane mostrou toda a qualidade do seu traço. 

 

Bem sei, Jovane não nasceu naquela Escola de Belas Artes do Seixal que costuma ser muito popular no Médio Oriente. Por isso será improvável que apareçam ofertas das mil e uma noites pelas suas telas. Em todo o caso o seu sucesso recente serve para relembrar os mais distraídos que ali na Pensínsula de Setúbal existe uma outra academia que certamente não por acaso ao longo dos anos vem fomando os melhores artistas do mundo, constatação que deveria sempre ser preservada de politiquices internas que nos deixam de bolsos vazios e só estimulam a promoção dos nossos concorrentes. Ontem, o mais novato do grupo, Nuno Mendes, de 17 anos, fez a sua primeira exposição colectiva, no que foi acompanhado inicialmente por mais 5 jovens que ainda receberam a visita de outros 2 na parte final da referida mostra. E passou com distinção. De forma que se quiserem transformar o ateliê  num caso de sucesso a 2-3 anos não tem nada que saber: dispensem (se possível, recebendo uma compensação) todos aqueles que os mais jovens destronaram e não cabem realisticamente no grupo de 18 (poupando assim nas tintas), mantenham cada um dos putos mais umas épocas (pelo menos até haver opções igualmente  interessantes provenientes das gerações abaixo) e todos os anos contratem só 2 (se sobrar algum, 3) grandes mestres para os enquadrar e melhorar. E guardem a experiência de Mathieu e a combatividade de Acuña para o casamento ser perfeito.

 

Ticiano do "Tudo ao molho...": Jovane Cabral (hat-trick para "Castigo Máximo"). Menções honrosas para Nuno Mendes, Eduardo Quaresma e Matheus Nunes. Camacho esteve um pouco abaixo do nível regular de toda a restante equipa.  

 

P.S. O Sistema? Continuamos com alguma dificuldade de penetração pelo meio, hoje resolvida pela pujança da Ala dos Namorados, a banda esquerda, com bonitas combinações entre os jovens Nuno Mendes, lateral/ala e Jovane, interior.

 

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18
Jun20

Tudo ao molho e fé em Deus

O Lampionato voltou!


Pedro Azevedo

O futebol português é muito divertido. Por exemplo, na conferência de imprensa após o jogo em Vila do Conde, os jornalistas indagaram Bruno Lage sobre as razões da reviravolta benfiquista. O tom geral entusiástico das perguntas fez-me por um momento acreditar que estariam a interrogar um Prémio Nobel da Física sobre a descoberta da radiação cósmica de fundo e seu contributo para um melhor conhecimento da estrutura do Universo. Em resposta, não perdendo a compostura, o próprio treinador benfiquista pareceu personificar o papel de laureado, valorizando muito as virtudes da tal Estrutura e das opções de fundo que tomou. Curioso, fui ver as imagens do jogo. Devo dizer que fiquei um bocadinho decepcionado. É que se por um lado confirmei, e por duas vezes, a (ir)radiação de fundo, vermelha por sinal, por outro verifiquei que ela deveria ter sido atribuída a Luis Godinho e não a Lage. E ainda apanhei o Carvalhal a dizer que já conhecia muito bem o futebol português. Qualquer adepto do Sporting também. Como tal, nem estranhei que o treinador vilacondense, certamente com medo de um castigo, não tenha apontado o dedo a ninguém. O problema é que, se o braço estiver sempre encostado ao corpo (*), não só apontar o dedo se torna humanamente impossível como o contorcionismo e o ilusionismo irão continuar. E, para completar o circo, os palhaços também. Diz(em) que é da educação (física, não cívica)... 

 

(*) O braço encostado ao corpo não cauciona que um jogador o use ostensivamente para desviar a trajectória da bola dentro da área. Na minha opinião, ficou um penálti por marcar a favor do Rio Ave quando o jogo estava empatado e os vilacondenses tinham menos 2 jogadores em campo. 

16
Jun20

Os jogos da minha vida (VII)


Pedro Azevedo

25.05.1980  Vitória de Guimarães - Sporting 0-1

 

A nossa equipa: Fidalgo; José Eduardo, Eurico, Bastos e Barão; Meneses, Ademar (Freire, aos 75 minutos) e Fraguito (Zezinho, aos 87 minutos); Manoel, Manuel Fernandes e Jordão.

 

O Sporting entrou pelos meus ouvidos em 1974 com um rugido tão sonoro que me foi impossível ignorar. Tudo se deveu à narração de um jogo a contar para o campeonato de 73/74 que a aparelhagem instalada no carro do meu pai reproduziu ao longo de uma viagem domingueira de automóvel. Nesse dia o Sporting recebia o Oriental e o relatador de serviço, de forma prolongada e estridente, um a um, ia assinalando cada novo golo de Yazalde (naquele tempo chamavam-lhe "Jázalde"). Despertou ainda a minha atenção o facto de, por sortilégio, ter calhado ao meu homónimo Azevedo a ingrata tarefa de dançar o tango com o argentino, mas à agressividade de Yazalde contrapôs o pobre guardião dos de Marvila a tristeza de por cinco vezes se ter de resignar submissamente a ir buscar a bola às suas redes. Um Tango de "mão-cheia"! O Sporting acabaria por aplicar ao Oriental uma chapa 8, o número do equilíbrio cósmico e das possibilidades infinitas que não deveria andar longe de ilustrar o meu sentimento nesse momento. Mais tarde, no início de 76, a onda média da rádio transformou-se num tsunami de emoções aquando da minha primeira visita ao José Alvalade. Jogo Grande, o Sporting como anfitrião do Porto de Gomes, Oliveira, Seninho e Cubillas. E ganhámos. E goleámos, numa reviravolta que terminou num cinco-a-um, dava Manuel Fernandes (1 golo) os seus primeiros passos no Sporting ao lado de um Fraguito (1 golo) que, sambando, pautava o nosso jogo. 

 

Com um início tão auspicioso, achava eu que isto ia ser uma maravilha. Mas o tempo foi passando e 4 anos depois, uma eternidade na vida de uma criança, continuávamos sem ganhar o campeonato. Até que se levantou a esperança, decorria a época de 79/80. Ganhámos ao Benfica por 3-1 e com isso o direito ao tudo ou nada. O cenário era o Estádio das Antas. O Conselho de Arbitragem, num esforço para eliminar o ruído à volta do jogo havia decidido salomonicamente nomear 3 árbitros internacionais, dois deles com a missão de pela primeira vez na vida fazerem de juízes de linha, coisa peregrina. O principal, António Garrido, apitaria o jogo. Não desfeita a igualdade até ao intervalo, logo no início do segundo tempo o Freire colocou-nos na frente. De pronto, o Manuel Fernandes marcou o segundo. Anulado. Por fora de jogo. Inexistente. Um clássico dentro do clássico. Pior, a um quarto de hora do fim, o Biffe fez-se ao bife, que é como quem diz ao penálti, e o Garrido fez-lhe a vontade, aquilo a que o José Maria Pedroto, sentado no banco do Porto, se fosse contra ele apelidaria de "roubo de igreja". Penalidade marcada e o Vaz defende. O Homem de Preto manda repetir e assim começa o nosso enterro. Quer dizer, o Vaz, que era de Setúbal e já chegou entradote a Alvalade, no meio daquela caldeirada ainda voltou a defender o penálti do Oliveira, mas Romeu, o Cenoura que ainda viria a jogar por nós, recargou para golo. Confesso que chorei, para um miúdo tinham sido emoções a mais, e o sabor a injustiça acelerou a minha perda da inocência. Foi aí que o meu pai se aproximou de mim, deu-me um abraço e disse-me que se porventura o Porto não ganhasse na Póvoa me levaria pela primeira vez a ver um jogo fora de casa, em Guimarães. Faltavam jogar 3 jornadas e esta promessa deu-me suficiente alento para não baixar definitivamente os braços e depositar ainda fé no Varzim. E os poveiros, gente briosa e habituada aos Adamastores que andam pelos mares, fincaram o pé a um gigante terreno e empataram (com) o Porto, pelo que eu iria a Guimarães com o Sporting na frente do campeonato.

 

A jornada começou pela manhã, no Comboio Verde (what else?), ali no Rego, para onde me desloquei com o meu pai e onde ele se reuniu com os amigos Sportinguistas. E lá fui eu, todo pimpão, cachecol ao pescoço, carruagem adentro, para ver o meu Sporting. Durante a viagem recordou-se o último campeonato, o de 74, e o Yazalde que eu já só vi pela televisão. Recordo que o comboio parou em Campanhã (Porto) e que aí tivemos de mudar de composição em direcção a Guimarães. Chegados à Cidade Berço, logo uma vimaranense me levou o cachecol. Corri, alcancei-a e recuperei o objecto da minha devoção como se dele dependesse a minha própria vida. O meu pai sorriu. Entrámos no estádio, que na altura se chamava Municipal, e posicionámo-nos atrás de uma baliza. Com o coração aos saltos, aguardei cheio de esperança o início da partida. 

 

O Sporting começou por atacar para a "minha" baliza. A todo o vapor, com Fraguito a puxar os cordelinhos, o Sporting era dominador e as oportunidades iam-se sucedendo. Porém, provavelmente devido à ansiedade, os nossos na hora da verdade não conseguiam desfeitear o Melo, guarda-redes que dois anos depois se juntaria a nós. Até que Manoel saltou com Manaca, a bola resvalou na nuca, ou nas costas, do nosso antigo campeão de 74 e, zás!, lá para dentro. Euforia da imensa mole humana que por amor ao Sporting se deslocou a Guimarães. O título estava já ali, agora era preciso segurá-lo. O intervalo permitiu regularizar o ritmo cardíaco, mas nada poderia preparar o meu coração para as emoções que ele viria a viver no segundo tempo. A bem da verdade, o Sporting teve mais do que chances para resolver o jogo, mas Manuel Fernandes e Jordão sempre falharam por uma unha negra. Negras não eram, mas ruídas já estavam as minhas (unhas) quando o Jordão é carregado para penálti. Se fosse o Manél tinha ficado no chão, mas qual Gazela de Benguela o Rui levantou-se, ainda isolado, correu e falhou um golo certo. Desespero geral, não havia maneira de matar o jogo. E o pior estava para vir: num último fôlego, o Vitória lança o Vítor Manuel, um avançado que tinha jogado no Sporting na época anterior. Cheio de ganas de mostrar o seu valor à sua antiga casa, começou a pôr a cabeça em água aos nossos defesas. Subitamente, arranca um remate seco, rasteiro, rente ao poste. Mesmo ali à minha frente, eu vi o golo. Ia ser golo, só podia ser golo, foi o que pensei nesses milésimos de segundo em que sustive a respiração. Mas, eis que, embora felino, o Fidalgo se lança já tarde. Tarde demais, pensei eu tal a potência do remate, enquanto o Fidalgo se espreguiçava todo e, espreguiçando-se, se esticava mais e mais, "frame a frame" na minha memória fotográfica em câmara lenta, tempo quasi-suspenso tal como o título ali à mão de semear. E o Fidalgo toca na bola e afasta-a do seu destino mais do que certo. E o Fidalgo bate com a cabeça no poste. E o Fidalgo parece perder os sentidos. E o Fidalgo volta de cabeça entrapada, brioso, voluntarioso, guerreiro, grandioso, a ocupar o seu lugar entre os paus. E o Fidalgo... para sempre será para mim o Homem do Título!

 

Ainda mal recarregadas as baterias dirigimo-nos para o comboio. Muitas, muitas emoções para digerir. O título estava mesmo ali. Nova paragem em Campanhã. Vou à janela, o João Rocha, grande presidente, vai entrar. Vai ser bonita a festa, mas ainda falta ganhar ao Leiria, penso. Penso, logo existo. Mas por pouco, um pedregulho enviado por algum relapso embate na quina da janela. O meu pai ordena-me, vocefera-me, grita-me desesperadamente que saia dali. Imediatamente. Nem tive tempo de processar, o título ali tão perto tinha prioridade. Faltava uma semana, uma semana que pareceram anos a contar os dias. E finalmente a catarse, o José de Alvalade cheio até às linhas que enquadravam o relvado. O Peão, orgulhoso, a ulular as bandeiras ao vento. E eu na bancada a ver o Jordão a desaparecer no meio de um magote de gente após um golo. Era nosso o título. Que emoção! (Foi há 40 anos, mas parece ter sido hoje.)

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15
Jun20

O futuro do futebol


Pedro Azevedo

Ao contrário do que muitos analistas têm vindo a antecipar, eu tenho as maiores dúvidas que o valor dos direitos económicos dos jogadores de futebol tenha uma descida pronunciada. E há boas razões para acreditar que tal não venha a ocorrer no horizonte próximo. Vou tentar explicar o porquê dessa minha convicção. 

 

Desde 2008, devido à crise financeira, os bancos centrais, um pouco por todo o mundo, têm perseguido uma política monetária expansionista a fim de estimularem o consumo e o crescimento económico. Esta política, dita Keynesiana, porque baseada em teoria expressa por John Maynard Keynes, tem implicado impressão de moeda, redução de juros e monetização da dívida (recompra de obrigações do Tesouro e de empresas) por parte dos bancos centrais. Com isso, os juros em todo o primeiro mundo desceram até O% (ou abaixo). Alguns dos bancos centrais, como o americano, já tinham iniciado o processo de reversão da descida dos juros, outros, como o BCE, ainda não, quando eis que se se instala a pandemia. Com os juros novamente em baixa, assistimos nos últimos 2 meses a subidas significativas dos índices accionistas e obrigacionistas. Para muitos pode parecer um absurdo, dadas as expectativas macroeconómicas de recessão (mínimo de 2 trimestres consecutivos de PIB negativo) para o 2º semestre do ano e perspectivas de aumento dos défices orçamentais, mas a verdade é que tal resulta de um efeito de dissociação entre activos financeiros e a economia e do intervencionismo dos bancos centrais inerente ao modelo keynesiano em curso. 

 

Como tal, e enquanto os mercados financeiros continuarem suportados (os analistas não põem de parte a possibilidade de o próprio FED poder comprar acções e uma antiga governadora da Reserva chegou a admiti-lo como cenário possível!!!), os investidores continuarão a apostar nos mercados financeiros em contraponto a depósitos que dão um rendimento nulo. Evidentemente, haverá sempre riscos no horizonte, pelo que a dado momento dar-se-á uma lógica de diversificação. O mercado imobiliário, por exemplo, sendo outro mercado que beneficia muito do crédito barato, será um destino possível para essa lógica de distribuição dos activos. Logicamente, nem todos os países ou cidades serão interessantes e alguns haverá que estarão sobreaquecidos. Não se sabe, por exemplo, como os preços das casas em Portugal e Lisboa aguentarão se os turistas que suportam o R&B não regressarem, os pedidos de residentes não  habituais diminuirem acentuadamente e os investidores estrangeiros se retraírem. 

 

Por muito que o desemprego suba, que o poder de compra das famílias de classe média se reduza, a consequência imediata do keynesianismo será acentuar as assimetrias entre ricos e pobres, criando ao longo do tempo múltiplas bolhas especulativas à espera de uma desculpa para rebentarem. Ora, seja por uma lógica de diversificação do risco, por ser um nicho interessante a explorar, infeliz menor escrutínio dos capitais alocados ao futebol por oligarcas, visibilidade que o futebol dá que pode potenciar outros negócios, ou simplesmente por interesses geo-políticos e económicos de estados soberanos asiáticos, a verdade é que continuará a chegar ao futebol muito dinheiro. Sob a forma de entrada no capital de sociedades (capitais próprios) ou de empresas especializadas no financiamento da indústria/engenharia financeira (capitais alheios) que em breve tomarão a posição outrora da banca. Logicamente, devido ao cenário macro, serão de esperar no imediato menos receitas comerciais, a nível de publicidade e patrocínios directos. Também a nível de bilhética, acentuadas pelas regras de distanciamento social. Porém, não estou tão certo de vir a haver retracção no que diz respeito aos DireitosTV, opinião resguardada no recente acordo (1 semana) anunciado pela Liga alemã, que vendeu por um valor recorde de 1,4 mil milhões de euros por ano, a um consórcio formado por Sky, Eurosport e ZDF, os direitos de transmissão televisiva para as próximos 4 épocas, confirmando-se assim o futebol como um fenómeno muito atractivo para os operadores de TV mundiais e, indirectamente, para empresas que através da televisão publicitam os seus produtos. Simplesmente, também no futebol é expectável que as assimetrias entre grandes e pequenos venham a aumentar, aspecto que a não ser resolvido pela regulação da UEFA - fortemente pressionada pela possibilidade de uma Superliga - , através de regras como a limitação do número de jogadores inscritos, maior equidade no acesso à Champions entre Big Five e clubes de países fora desse círculo restrito e fundos de compensação para países periféricos, ir-se-á acelerar nos próximos tempos. É por isso mais do que nunca importante apostar no que se produz, isto é, na Formação. O investimento em pesquisa e desenvolvimento de jovens jogadores continuará a ser muito mais acessível que o mercado de transferências. E essa será sempre uma realidade que não deve ser desprezada por clubes de países adjacentes aos Big 5, que irão ainda mais constituir-se como o viveiro de jogadores dos principais campeonatos europeus, sob pena de, sem eles, a falência do negócio futebol ser inevitável dada a discrepância geral entre custos e proveitos e o valor de mercado dos jogadores das grandes Ligas. 

 

P.S. Antigamente havia uma dicotomia entre FED (continente americano) e Bundesbank em termos de política monetária que garantia um sistema com algum equilíbrio em que os mercados não tinham tanta vida própria quando comparados com a economia. A Reserva Federal americana, com o seu mandato dual, de controlo da inflação e promoção do pleno emprego, sempre teve um cariz mais expansionista, mais keynesiano. Por outro lado, o banco central alemão, perseguiu sempre uma política monetária adepta da escola austríaca, de Hayek, tomando apenas como referência o crescimento da massa monetária em circulação (M3) e sendo por isso mais austero na rapidez da descida dos juros. Essas duas visões diferentes, protagonizadas nas figuras de Alan Greenspan e de Hans Tietmeyer, não caucionavam tantos excessos nos mercados. Durante os primeiros anos do euro, esse equilíbrio manteve-se, com o BCE a herdar a filosofia do Bundesbank. Mas a crise financeira provocada pela dívida subprime e a subjacente crise da dívida soberana periférica europeia acabou por aproximar a política monetária europeia da americana, dando-se até o caso de hoje em dia ela própria ser mais expansionista, como já estava a ser notório antes da pandemia da Covid-19. Os ganhos de produtividade inerentes à revolução tecnológica a que temos vindo a assistir na nossa geração e a diminuição dos custos de produção por deslocalização dos factores produtivos para a Ásia (China, Índia,...) terão contribuído para conter a pressão inflacionista subjacente a uma política monetária expansionista e isso acabou por gerar uma dissociação entre o mercado accionista (a subir desde Março de 2009) e a própria economia, aumentando as assimetrias entre as populações por via de rendimentos extra que não provêm do trabalho e aparecimento de novos milionários provenientes essencialmente de empresas tecnológicas europeias e americanas, de companhias que exploram e gerem recursos naturais e de oligarquias do leste europeu e da Ásia, uns e outros beneficiando da especulação accionista e do forte investimento estratégico do novo gigante China em ambiente de juro zero.

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14
Jun20

Nobody expects the Spanish Inquisition(*)


Pedro Azevedo

(*) Inclui "Argument Clinic". Com um abraço ao Luís Ferreira e ao Sportinguista de 5 votos pela inspiração para o Post.

13
Jun20

Pensamento do dia


Pedro Azevedo

A intolerância combate-se com educação, cultura e inteligência, e não contrapondo igual intolerância. Num mundo povoado por maniqueístas sobrará o ódio e o ressentimento, faltará sempre a racionalidade e a nobreza de sentimentos e não haverá espaço para a criação de obra que perdure.   

13
Jun20

Tudo ao molho e fé em Deus

“Jovanotti”, o rap(az) da Formação a dar música em Alvalade


Pedro Azevedo

Três meses depois, o Sporting voltou a apresentar-se em Alvalade. Ou àquilo que as televisões garantiram ser Alvalade, podendo perfeitamente ter sido um estúdio na Venda do Pinheiro, que isto dos Reality Shows que apresentam a banalidade do quotidiano só precisa de um cenário a condizer. Com o suposto regresso a casa, retornou também a ladainha da inexperiência e juventude dos jogadores como causa próxima de uma exibição menos conseguida, reminiscência daquelas conferências de imprensa de Silas em que ele encontrava sempre uma boa justificação para a derrota na utilização de jovens da Formação. O problema destas coisas é termos memória e a alternativa aos jovens da Academia remeter-nos sempre para aqueles "gloriosos" meses vividos anteriormente com as cantorias de Jesé, os tropeções na bola de Bolasie e a enfermaria de Fernando. Aquilo é que (não) era! Para quem já se esqueceu, nada como o momento revivalista que consistiu na troca do jovem Matheus Nunes pelo Eduardo Pés de Barro, esse personagem tão vítima da sua própria inocência que mais parece saído de um filme de Tim Burton (Batman, o argentino, hoje não actuou) com enredo baseado num sonho do rei Nabucodonosor da Babilónia (*). Foi elucidativo!

 

(Verdade seja dita que pelo menos Ruben Amorim tem o mérito de ser consistente nas suas apostas, não desistindo dos jovens à primeira contrariedade e dando-lhes estabilidade e confiança para desempenharem o seu papel da melhor forma.) 

 

O Departamento da Defesa do Sporting voltou a ter a sua sede no Pentágono, realidade que só por si já faz de Ruben Amorim um líder NATO (ou será 'nato'?) em tempo de Guerra Fria em Alvalade. Hoje a missão era passo a Paços destruir o submarino amarelo. O Pentágono, como já se sabe, é compreendido por três centrais e dois trincos que jogam tão perto uns dos outros que o objectivo será certamente entre eles existir um "Ground Zero". Para complicar um pouco mais a tarefa, Mathieu, o Ministro da Defesa e aquele que tem mais saída de bola, não jogou. Valeu então a maior desinibição de Matheus Nunes face ao jogo de Guimarães e o regresso após lesão de Wendel para que o Sporting conseguisse ter algum jogo interior de aproximação à área adversária. Ainda assim, a circulação fez-se essencialmente em zonas muito recuadas do terreno, entrecortada por chutões para a frente (ou atrasos para Max) quando a pressão pacense era mais eficaz e deixava a nu a falta de saída com bola de Coates e Borja. Apesar do controlo geral das operações, os leões na primeira parte só conseguiram criar perigo numa desmarcação subtil de Vietto para Sporar que o esloveno desperdiçou em frente da baliza. Com esta acção, a sua única digna de registo, Vietto deu por terminada a participação no jogo, pois pouco depois sofreu o que pareceu ser uma luxação num ombro. Entrou Plata, e o Geraldes lá ficou a fazer contas aos 10 minutos da ordem que lhe haveriam de caber quando o jogo estivesse em desordem e a bola só andasse pelo ar. No fundo, àquilo que os especialistas designam de uma oportunidade perdida...

 

Regressados do balneário, os leões voltaram a ter em Jovane um dinamitador do jogo. Logo a abrir, o cabo-verdiano entrou em aceleração pela esquerda, driblou dois pacenses sem passo para o acompanhar e serviu um desmarcado Sporar para um golo que teria sido fácil caso o esloveno não tivesse tentado antecipar a jogada dando um passo a mais. Não conseguindo assistir, Jovane procurou resolver por ele próprio: chamado a cobrar um livre directo à entrada da área, o avançado arrancou um míssil indefensável que bateu na quina da barra e ressaltou para dentro da baliza. Matheus Nunes ainda recargou para golo, mas, como a transmissão televisiva esclareceu, a bola já tinha entrado. O Sporting apanhou-se merecidamente na frente do marcador, mas nos últimos 20 minutos, com a substituição de Matheus por Eduardo, acabaria por perder o controlo das operações a meio-campo. Os pacenses começaram a explorar debilidades nossas, como a falta de velocidade de Coates, o deficiente posicionamento de Borja, ou as perdas constantes de bola de Camacho - Quaresma foi de longe o nosso defesa mais competente - , e tiveram uma óptima oportunidade nos pés de João Amaral. Max esteve à altura e defendeu, mas Rui Costa apitou penálti por alegada falta cometida pelo colombiano Borja. O VAR acabou por aconselhar a mudança de decisão e nos lares Sportinguistas por todo o mundo respirou-se de alívio. Até ao final do jogo, os leões não conseguiram segurar a bola, com Plata a ligar o complicómetro vezes de mais para o pobre coração de um adepto, pelo que o resultado esteve sempre incerto. Acuña, fora de forma, saiu e deu lugar a mais uma estreia a assinalar, a do jovem Nuno Mendes. Max, por duas vezes, voltou a evitar o pior na melhor fase do Paços de Ferreira. No entanto, o jogo não terminaria sem que mais uma magistral arrancada de Jovane criasse sensação de golo. Infelizmente, a bola estrelou na barra, tal a fervura aplicada no remate.

 

Enfim, ganhámos! E à falta de nota artística (por exemplo, Benfica e Porto têm sido de uma pobreza franciscana), três pontos e sete jovens da Formação lançados (não considero Camacho, que custou 5,6 milhões de euros e saiu da Academia com, creio, 13 anos) merecem uma boa nota técnica. Só espero é que a necessidade de "nota" para pagar tantas contratações cirúrgicas (ouro, prata, bronze, ferro e... barro, muito barro) não leve a que alguns saiam prematuramente, não concretizando o seu potencial desportivo connosco. Em especial o Jovane, o mal-amado de que tanto gosto.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Jovane Cabral (2º jogo consecutivo). Menções honrosas para Eduardo Quaresma, Max, Wendel e Matheus Nunes. Pela negativa destacaram-se Camacho, Borja, Plata e Eduardo. Os restantes estiveram num nível mediano.  

 

(*) O sonho de Nabuconodosor continha uma estátua de um homem imóvel (de ouro, prata, bronze, ferro e barro), que seria a interpretação da manutenção do seu império até ao final dos tempos. Mas, devido à fragilidade do barro, bastaria uma pedra para destruir o sonho do rei e 24 anos após a sua morte a Babilónia haveria de ser conquistada pelos persas de Ciro, o Grande. 

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12
Jun20

Primeiras impressões


Pedro Azevedo

Gosto:

  • da comunicação assertiva de Ruben Amorim.
  • do seu discurso ambicioso, de acordo com a grandeza do clube.
  • da confiança que Ruben Amorim transmite aos jovens. 
  • da insistência em Matheus Nunes, não o deixando cair após uma estreia menos conseguida.
  • dos laterais/alas de propensão atacante.
  • do papel dado a Jovane como dinamitador das linhas de defesa adversárias.
  • com dois enganches por detrás, dos espaços que se abrem para Sporar inteligentemente explorar. 
  • de ver Ruben Amorim assumir as coisas menos boas, sem desculpas.

 

Não gosto:

  • da forma como Ruben Amorim tem gerido publicamente o dossier Mathieu, porque creio que nunca esteve em causa o comprometimento do francês com o clube, trata-se tão-somente de uma opção (ou não) de final de carreira de um jogador que ainda poderia ser muito útil para a próxima época não só pelo que joga como também pela experiência acumulada que passaria a jovens como Eduardo Quaresma e Gonçalo Inácio.
  • da "Táctica do Pentágono", sistema de defesa da nação leonina em que 2 trincos se posicionam em cima de 3 centrais ("congestionamento"), proporcionando carambolas em situação de evidente superioridade numérica do tipo da que resultou no segundo golo vimaranense.
  • da ausência de um "8" bem definido, o que elimina os movimentos verticais de aproximação à linha atacante, tornando o nosso jogo mais previsível e de colocação constante das bolas nas costas dos defesas contrários, táctica que dificilmente resultará com equipas posicionadas em bloco baixo e que leva a muitas perdas de bola. 
  • da inexistência de um "10" (Vietto neste sistema é um dos segundos avançados), o que a somar à falta de um "8" faz com que o nosso jogo interior, de construção desde trás, seja substituído por transições constantes. Está a faltar quem pense o jogo e lhe dê temporizações, a fim de que a equipa não se parta tanto em campo.
  • de Mathieu, elemento mais rápido e experiente da defesa, não ser o central de referência pelo meio, expondo-nos demasiadamente a contra-ataques rápidos. 

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11
Jun20

A cada novo Princípio de Peter, um castigo de Sísifo


Pedro Azevedo

Como é hoje em dia claro como a água, o Sporting colocou toda a responsabilidade do edifício do seu futebol em Ruben Amorim. Sem pôr minimamente em causa a competência do nóvel treinador leonino, não seria esse o meu modelo - todos sabem que advogo a existência de um Director Técnico, um COO com plenos poderes na gestão do futebol - e considero a decisão um erro. Repito, nada contra Amorim, a quem desejo as maiores felicidades (que serão também minhas), simplesmente na minha mente faz muito pouco sentido ser o treinador, alguém que pela inerência das suas funções estará sempre de passagem (o presidente é o primeiro a admiti-lo quando reconhece que terá em breve a cobiça de grandes clubes), o responsável pela ligação entre futebol profissional e Formação e gestão de carreira de jovens jogadores. Acresce que, se se confirmarem os bons augúrios de Frederico Varandas em relação ao treinador, este não permanecerá muito tempo entre nós, razão suficiente para perguntar o que se fará a partir desse momento com a Estrutura que o treinador deixará no clube e se ela resistirá à entrada de um novo treinador, com ideias possivelmente diferentes. 

 

A meu ver, um dos erros da gestão da política desportiva de Frederico Varandas é estar permanentemente a laborar no erro de promover o Princípio de Peter, submetendo os seus colaboradores a missões ou tarefas que os desfocam daquilo que são as suas competências naturais e para as quais não têm a preparação devida. Isso é particularmente notório desde a saída de José Peseiro, que motivou na altura a ascensão de Tiago Fernandes à equipa principal e consequente sua substituição nos sub-23 por Alexandre Santos, treinador proveniente do Estoril. Tal voltou a acontecer com a promoção de Leonel Pontes a treinador principal do clube, abandonando um trabalho 100% vitorioso que estava a realizar no escalão de sub-23, função essa à qual posteriormente viria a voltar mas já sem o "élan" anterior, marcado que ficou pela experiência pouco feliz nos séniores. Sem esquecer a contratação de treinadores que não revelaram o grau de maturação necessário e suficiente, ou a personalidade requerida, para comandar uma nau como a do Sporting. 

 

Com tudo isto, Frederico Varandas já teve 6 treinadores na equipa A e 4 na equipa de sub-23, o que em ano e meio em funções denota pouca estabilidade emocional e falta de convicções na gestão do dossier futebol por parte do presidente e faz com que estejamos sempre a recomeçar de novo, como se de um castigo de Sísifo se tratasse. Claro que o presidente tem procurado revestir cada nova mudança de um cariz estratégico, mas é notório para a maioria dos observadores não enviezados que tudo não tem passado de sucessivos balões de oxigénio com que Varandas vem procurando combater o ar cada vez mais rarefeito de Alvalade.   

 

Hoje ficámos a saber que Leonel Pontes deixará as suas funções. Tal acontece num momento em que existem legítimas expectativas positivas em relação ao trabalho de Ruben Amorim, fundamentalmente devido à aposta que tem estado a promover nos jovens. Ora, tendo esses jovens vindo a ser trabalhados por Pontes, a decisão de o dispensar não deixa de ser surpreendente. Mais, não querendo acreditar que as decisões no futebol do Sporting dependem de cumplicidades pessoais, será de admitir que Pontes e Amorim não compartilhavam das mesmas ideias no que diz respeito ao desenvolvimento dos jovens, ou que o trabalho que era feito nos sub-23 não estava em harmonia com o que Amorim pretende, o que parece algo a carecer de fundamentação à luz da pandemia que fez parar competições e treinos. Não deixa, no entanto, de ser mais uma decisão insólita do presidente, ainda mais atendendo a que na próxima temporada haverá mais uma equipa de última estação de formação, a B. Para além de que teremos mais uma indemnização a pagar a um treinador no horizonte, a juntar a um rol tão numeroso que se torna fastidioso acompanhar, sendo certo que o R&C de Março de 2020 indica um valor de quase 7 milhões de euros de indemnizações pagas nestes 9 meses de actividade, a que se devem juntar os 1,7 milhões de euros gastos no mesmo item em 18/19.

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10
Jun20

Chana


Pedro Azevedo

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Antes ainda do futebol, o Sporting chegou aos meus ouvidos através do hóquei, por via dos relatos que passavam na rádio. Naquele tempo destacava-se um jovem nascido e criado na Linha (de Cascais), cuja formação incluía os Salesianos do Estoril. Foi aí, por influência do Padre Miguel, que Vítor Manuel dos Santos Carvalho, dito Chana, nasceu para o hóquei na Juventude Salesiana. 

Chegado ao Sporting em 71, vi-o jogar pela primeira vez no antigo Pavilhão dos Desportos, hoje "Carlos Lopes", onde o Sporting realizava os seus jogos antes da construção do seu próprio pavilhão, que se viria a situar ao lado do campo pelado. 


O Chana impressionou-me logo, não só pela quantidade de golos que marcava mas também pela elevada execução técnica empregue em cada lance. Em especial, o poder de finta e a codícia com que colocava a bola por cima do ombro dos guarda-redes, o seu ponto de maior vulnerabilidade, muitas vezes de ângulo dir-se-ia impossível, quando não por trás da baliza. 

No início era ele e o Rendeiro, embora o Salema também fosse um jogador a ter em conta. Depois, chegou o Ramalhete e a equipa ganhou outra segurança. Entretanto, o Chana lá ia brilhando, no Sporting como na seleção nacional, sempre como o melhor marcador. Eis então que João Rocha consegue adicionar a essa equipa as "pedradas" de Sobrinho, outro produto da escola salesiana, e Antonio Livramento.

 

Juntar a qualidade ímpar de patinagem e a técnica do "4" com a habilidade especial e a capacidade de remate do "8" hoje aqui evocado fez as delícias dos apaniguados Sportinguistas. O Sporting ao reuni-los conseguiu impor-se a todos os poderosos adversários que se lhe depararam no caminho. Um a um, todos foram caindo, desde o Benfica de Casimiro, Garrancho, Fernando Pereira, José Carlos, Jorge Vicente, Virgilio, Picas e Piruças, passando pelo Porto de Cristiano e Chalupa, o Infante de Sagres dos irmãos Gomes da Costa, ou o Oeiras dos irmãos Rosado, do Salema (ex-Sporting) e do Carvalho que corria e não deslizava sobre os patins e ainda viria a ser nosso.

 

O mesmo aconteceria na Taça dos Campeões, com o Sporting a trazer pela primeira vez na história do hóquei português a taça para o nosso país. Em noites memoráveis, com o Pavilhão de Alvalade a abarrotar, o Sporting começou por dar a volta ao campeão Voltregá (8-3;2-5), de Nogué e Ferrer, para depois desembaraçar-se com facilidade do Villanueva, de Carlos Trullols - o melhor guarda-redes da sua época, que depois do jogo de Alvalade afirmaria ter realizado a melhor exibição da sua carreira - , por 6-0 e 6-3. 

Já no final da sua carreira, recordo ainda dois grandes momentos de Chana. O primeiro, pela seleção nacional, em 82, no Mundial disputado em Barcelos, onde foi preponderante na vitória de Portugal sobre a Espanha, realizando uma exibição memorável com golos de sonho. Outro grande momento já havia vivido na final da Taça das Taças realizada no ano anterior. Após uma derrota em Oviedo, por 4-1, na primeira mão da final, o Sporting precisava de vencer por mais de 3 golos de diferença na segunda mão para arrecadar o troféu. Acresce que as coisas cedo se complicaram ainda mais, quando o Cibelles se colocou em vantagem por 2-1, totalizando uma diferença de 6-2 no cômputo das duas mãos. Eis então que Chana entrou em acção e com 2 golos de rajada voltou a pôr o Sporting na frente no jogo. Ainda assim faltavam 2 golos para empatar a final quando se iniciou o segundo tempo. Chana ainda voltaria a marcar (terceiro golo consecutivo) e com outro golo os leões conseguiram chegar ao final do tempo regulamentar empatados na final (1-4; 5-2). Foi então preciso recorrer-se a um prolongamento. No pavilhão, o calor era imenso e tal já se fazia sentir não só nos espectadores como também em todos os jogadores. Assim, a primeira parte serviu para recarregar baterias. A hipótese dos penaltis começou a parecer cada vez mais real, mas Chana, sempre ele, tinha outras ideias para a segunda parte: primeiro, com um golo soberbo, colocou o Sporting na frente pela primeira vez; depois, serviu primorosamente o regressado Salema para o 7-2 final (8-6 no total). No banco, Livramento, recém-empossado treinador do clube, exultava de alegria. 

Cinco vezes campeão nacional, em duas ocasiões conquistaria também a Taca de Portugal. A nível internacional acumulou Taça dos Campeões e Taça das Taças. Pela seleção nacional jogou 117 vezes e marcou 226 golos, sagrando-se por duas vezes Campeão do Mundo e por três vezes Campeão da Europa. 

Para mim, que vi jogar os dois, é muito difícil dizer quem foi melhor, se Livramento ou Chana. Na verdade, ambos foram extraordinários. No entanto, o meu coração pende para Chana, que venceu mais coisas pelo Sporting e, talvez por nunca ter jogado no nosso rival, sempre me pareceu um pouco injustiçado e sem o reconhecimento devido da imprensa, distinção essa que seria colocarem-no no mesmo patamar de Antonio Livramento. 

09
Jun20

Os Predadores


Pedro Azevedo

O Universo move-se de ordem e estrutura para desordem e desestrutura, tal como é enunciado pela 2ª Lei da Termodinâmica (Lei da Entropia). Apesar disso, em especiais condições, o Universo consegue criar complexidade. À medida que o sistema vai ficando mais complexo, aumenta o risco de vulnerabilidade e fragilidade. Há momentos em que o equilíbrio se torna de tal forma instável que o mundo passa a ser diferente daquele que conhecemos até aí. Assim aconteceu há 65 milhões de anos atrás, quando a queda de um asteróide na Província de Yucatán criou uma espécie de fenómeno nuclear que matou os maiores predadores existentes no planeta Terra, os dinossauros. Tal acabou por ser uma oportunidade para a evolução do que são hoje os seres humanos, o Homo Sapiens. 

 

Se isto é uma realidade para o Universo, também o é para as empresas e, em particular, para os clubes. Em específico, o futebol ao longo dos anos foi adquirindo uma progressiva complexidade, nomeadamente a partir do momento em que deixou de ser visto como um espectáculo para passar a ser um negócio de transferências milionárias. Nessa metamorfose surgiram uma série de espécies diferentes de temíveis predadores que subjugaram os clubes, hoje em dia reféns de uma vasta teia de interesses que se estabeleceram à sua volta e que em quase nada os beneficia. Acontece que essa subserviência ameaça claramente a sustentabilidade do próprio futebol e, nesse equilíbrio instável, bastaram 3 meses de uma pandemia para o mostrar à evidência. Entretanto, o adepto no estádio, que já estava em decadência, foi substituído pelo adepto no sofá. E o futebol finalmente lembrou-se que precisa dos adeptos para sobreviver. Ainda que persistindo em não actuar sobre as suas próprias vulnerabilidades e fragilidades, permitindo que o adepto continue a ser "engolido" por aquilo que lhe é oferecido. Talvez a solução esteja na erradicação dos predadores, isso sim seria uma oportunidade para nova evolução do ser humano (desportivo). E, concomitantemente, do futebol.

08
Jun20

Jovane, para seu pesar


Pedro Azevedo

Há jogadores que caem no goto do adepto, outros são como patinhos feios sem que exista propriamente uma razão forte para tal. Geralmente, a coisa começa com um preconceito, algo a que Einstein, conhecido por não ser totalmente desprovido de intelecto, se referia como sendo mais difícil de desintegrar do que um átomo. 

 

No caso de Jovane Cabral, o facto de ter ajudado a resolver jogos partindo do banco criou a ideia pré-concebida (por falta de oportunidades de provar ter valor para ser um dos indiscutíveis da equipa) de ser uma "arma secreta", alguém que traria mais rendimento à equipa se utilizado mais tarde, uma espécie de Juary do Sporting. Entretanto, o cabo-verdiano lá foi provando a sua utilidade como titular na recepção aos turcos do Besaksehir e na visita a Famalicão. Até que chegou a deslocação a Guimarães e Jovane pintou a manta. 

 

Sejamos francos, o Sporting não tem nenhum jogador com a coragem de enfrentar o adversário nos olhos e partir para cima dele como Jovane. Ele traz velocidade, imprevisibilidade e golo ao jogo dos leões, algo que qualquer equipa grande não pode desprezar. Acresce que, cada vez que o campeonato retoma, Jovane apresenta-se num nível superlativo, uns bons furos acima dos colegas. Sinal de que se cuida e trabalha bem, com profissionalismo, e assim potencia as evidentes qualidades físicas que possui. 

 

Autofagia para mim é isto: tivesse Jovane nascido Jovanic, Jovanek ou Jovanowski e haveria toda uma outra tolerância consigo. De treinadores e adeptos. Não esquecer também o pouco destaque que vem merecendo da imprensa. Só isso, aliás, pode explicar que num jogo onde esteve a um nível altíssimo, diria até a léguas de todos os outros jogadores, não tenha obtido a unanimidade aquando do julgamento do melhor em campo. Não sei mesmo o que será preciso um jogador fazer a mais num campo de futebol, na medida em que uma assistência, três passes claros para golo - que culpa tem ele que Vietto, por duas vezes, e Sporar tenham falhado golos cantados? - , duas fintas de cabine telefónica, uma expulsão cavada, várias movimentações de ruptura e uma velocidade a mais que qualquer outro dos presentes não foram argumentos suficientes para o destacar dos restantes. Ah, falhou também ele um golo! (Pecado mortal entre tantos "matadores", ainda que tenha sido o único que, falhando, enquadrou o remate com a baliza.)

 

Cabe agora a Jovane provar, a cada nova oportunidade, a razão pela qual deve ser titular deste Sporting. Mas não deveria ser assim, poderia haver uma margem de erro que lhe transmitisse outra confiança. A verdade é que no passado um mau jogo foi suficiente para voltar a relegá-lo para o banco de suplentes, para gáudio de todos os Velhos do Restelo, que também os há em Alvalade, que nestas coisas estão sempre à espreita da oportunidade de provar um ponto, mesmo que olhando para as estatísticas não se compreenda como apenas 6 jogos a titular esta época permitiram sentenciar de forma tão definitiva que o jogador não merece alinhar de início. Outros jogadores há que nem de início nem no fim, mas isso já são contas de outro rosário. Afinal, o muro de lamentações mais à mão é sempre o da Formação. E o Jovane já tem 21 anos, o que pelo nosso calendário, pouco gregoriano, faz dele quase um veterano...

 

P.S. "Filomeno, para meu pesar", inspiração para o título do Post, é um grande romance de Gonzalo Torrente Ballester, autor também de "Don Juan" e do excelente "Crónica do Rei Pasmado". 

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07
Jun20

Pedras na engrenagem encarnada


Pedro Azevedo

A  semana do Benfica ficou marcada pela pedrada. Tudo começou na demissão do seu presidente da AG, uma pedrada no charco, ou melhor, um canhão de Nazaré, abrindo uma onda de contestação à Direcção que foi logo surfada por putativos candidatos à presidência do clube. Seguiu-se-lhe mais um episódio canalha de violência no futebol português novamente perpetrada contra os profissionais do chuto na bola. Da pedrada alegórica passou-se (o que "passou-se"?) para a literal, com um ataque ao autocarro do Benfica do qual resultou ferimentos em dois jogadores (Zivkovic e Weigl). Um momento de terror para os visados, pelo menos a atestar pelas declarações da mulher de Weigl, que se encontrava a falar telefonicamente com o marido quando o incidente ocorreu. Finalmente, o jornal Público denunciou alegados "acordos de dependência" entre o clube da Luz e o Desportivo das Aves que o Benfica classificou de "legais e normais no futebol e em outras sociedades comerciais", ficando a ideia que do ponto de vista estrictamente da ética as explicações se assemelharam a um 'quem nunca pecou que atire a primeira pedra'. 

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06
Jun20

Formar para rendimento


Pedro Azevedo

O lançamento por Ruben Amorim de vários jovens da nossa Formação tem de ser encarado como um sinal de esperança. No entanto, para que esse presságio se venha a mostrar consistente ao longo do calendário gregoriano é necessário mudar de paradigma. Não podemos formar jovens para os vender antes do tempo em nome da urgência de suprir o défice substancial da Demonstração de Resultados, o que acabará por suscitar novas investidas ao mercado como forma de reposição de activos e concomitantes custos associados. Não, esse paradigma está totalmente errado. O que deverá ser promovido, isso sim, é o aproveitamento desses jovens em nome do seu rendimento desportivo individual e contribuição para o rendimento desportivo colectivo.

 

Nos primeiros anos, o custo em salários desses jovens é reduzido. Isso ajuda a manter a folha de pagamentos da SAD em níveis sustentáveis. Tendo esse jogador rendimento desportivo, a sua relação custo/benefício será muito interessante para nós. Acresce que, dado o tempo passado connosco, o conhecemos bem. Sabemos como treina, como se comporta extra-futebol, o que precisa de ser desenvolvido. Logo, vender esse jogador prematuramente será um erro, ainda que possa proporcionar um proveito no imediato. Acresce que a nossa história está cheia de exemplos de má utilização do dinheiro proveniente da venda de jovens promissores, geralmente usado em "contratações cirúrgicas" que são como operações de coração aberto ao leão. Por isso, formar para rendimento (desportivo) deve ser o nosso paradigma. Depois, sim, a partir do momento em que o jogador mostre um rendimento superlativo e atraia a cobiça de grandes clubes, deveremos equacionar a venda. Nesse estádio do seu desenvolvimento o ordenado poderá já ser pesado para nós e haverá novas soluções na linha de produção prontas a serem testadas, pelo que um proveito extraordinário será bem-vindo. Igualmente, será uma forma de proporcionar a oportunidade de independência financeira a esse produto da nossa formação. 

 

A aposta na Formação tem de ser estratégica e não aquilo a que se recorre quando já falharam todas as outras soluções. Se for este último o caso, verão que tal aposta não perdurará no tempo. Desde logo, porque será necessário vender rapidamente para fazer dinheiro e assim colmatar o buraco de tesouraria (e da conta de exploração) deixado por políticas anteriores. Também porque acabarão por chegar jogadores de fora para substituir os nossos formandos, voltando-se à situação inicial.

 

Uma política desportiva estrategicamente assente na Formação assegura custos controlados. Esse é um ponto de partida muito importante. Depois, permite que se vá ao mercado apenas procurar qualidade extra (2-3 contratações) e não comprar em quantidade. Tal manterá os custos com pessoal em níveis saudáveis/sustentáveis, fará baixar as Amorizações e reduzirá os custos financeiros inerentes ao Passivo ou a operações de antecipação de receitas (proveitos). Também tornará gerível a dívida a Fornecedores. Além disso, esse núcleo duro de jogadores que conhecemos bem, mesclado com a qualidade importada, com alguns anos de amadurecimento poderá assegurar o sucesso desportivo. Ora, o segredo do negócio é a manutenção de custos controlados, pois é isso que nos permitirá ir consolidando, ano após ano, uma equipa e não ter a pressão de alienar direitos económicos de jogadores. Vendendo prematuramente e não deixando crescer os nossos leõezinhos, não será possível que o seu crescimento individual se traduza no crescimento da nossa equipa de futebol e nos seus resultados desportivos. Por isso, formar para rendimento (e para ganhar) é a opção. Formar para venda, aquilo que se retira de cada nova intervenção pública dos nossos dirigentes, será redutor e acabará por traduzir toda a aposta desde cedo (na Academia) na Formação num castigo de Sísifo. E já nem toco aqui com desenvolvimento no efeito nefasto para a nossa Cultura ou identidade de se enraizar nos nossos jovens a ideia de que estão a prazo e que o Sporting é apenas um trampolim para outros voos, o que talvez justifique uma relação dos nossos formandos com o clube que os adeptos gostariam que fosse de outra forma. 

 

P.S. Se muitos ficaram surpreendidos com o valor de venda de Thierry Correia, talvez o sentimento não tenha sido o mesmo após a chegada, por empréstimo, de Fernando, Bolasie e Jesé. Façam as contas todas, ordenados, comissões e pagamentos a clubes incluídos, e depois vejam qual foi o resultado líquido (financeiro) destas operações, já que quanto ao resultado desportivo estamos conversados.

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05
Jun20

Tudo ao molho e fé em Deus

Um Jovane à solta no berço da nação


Pedro Azevedo

Um maradoniano Jovane, um irrequieto e oportuno Sporar e um Camacho finalmente revelado na posição certa não foram suficientes para o Sporting sair do Afonso Henriques com os três pontos. O que faltou? Desde logo, eficácia - Vietto, por duas vezes, Sporar e Jovane perderam golos cantados na cara de Douglas - , mas também um meio campo que não funcionou - Battaglia muito trapalhão e Matheus Nunes inibido e escondido do jogo - , erros individuais (Max) e má sorte (ressalto que deu o segundo golo do Vitória). Além disso, Marcus Edwards foi sempre um diabo à solta, explorando o espaço existente entre Acuña e Mathieu, conseguindo assim constrangir a subida no terreno dos leões após terem ficado em superioridade numérica. 

 

O Sporting empatou no presente, mas, ao contrário do que tinha vindo a ser habitual, não empatou o seu futuro, e isso foi o melhor que se tirou de um jogo onde a equipa leonina se apresentou desde o início com Max, Quaresma e Matheus Nunes (duas estreias) e Jovane Cabral, jovens da Formação, e durante a partida ainda recorreu a Plata (Camacho fez parte da sua formação em Alcochete, mas custou 5,6M€ para ser resgatado ao Liverpool). 

 

Jovane esteve num nível superlativo, com uma assistência, três passes para golo, a expulsão provocada por uma acção de ruptura sua e um irrequietismo permanente que pôs a cabeça em água à defesa dos Conquistadores. Além disso, protagonizou dois momentos de pura magia numa cabine telefónica (junto à linha de fundo), um em cada parte, só ao alcance de predestinados. Apresentando-se com uma disponibilidade física superior à da maioria dos jogadores presentes no relvado, as suas movimentações abriram imensos espaços no último reduto vimaranense. Infelizmente, na frente, só Sporar (dois golos) o acompanhou a bom nível, na medida em que Vietto voltou a exibir a sua esmerada arte de perdoar em frente da baliza. A actuação do cabo-verdiano esteve muito perto de merecer a nota máxima, tendo apenas lhe faltado o golo para atingir a perfeição.  

 

Quanto a Ruben Amorim, esteve na globalidade bem. Apostou nos miúdos e lançou dois jogadores nos corredores com grande propensão ofensiva (Camacho e Acuña, este último ontem a meio-gás), ambos suportados no sistema de 3 centrais, mostrando assim uma ideia de futebol em consonância com o clube grande (enorme) que representa. Sendo certo que a genialidade de Edwards expôs que a mecanização entre os laterais/alas e os centrais ainda está longe de ser a necessária e que ao miolo do terreno faltou clarividência e maior assumpção do jogo, a verdade é que o Sporting revelou trabalho no regresso à competição. Como sinal menos a entrada de Doumbia, o que viria a impedir posteriormente uma melhor definição das posições "6" e "8" a partir do momento em que os leões passaram a ter mais 1 jogador em campo. Aliás, o duplo-pivot à frente de 3 centrais parece-me ser o grande equívoco deste sistema de Ruben Amorim - quando em postura defensiva (linha defensiva de 5), enquanto nas alas o lateral do lado da bola sai e a defesa fica a 4, no centro não parece haver essa rotina (saída à bola de um dos centrais) - , notando-se claramente a ausência de um médio centro capaz de transportar verticalmente a bola desde trás. Na ausência de Wendel, Matheus Nunes poderia e deveria ter sido esse jogador (tem qualidade para isso), mas a verdade é, que muito amarrado (pelo sistema e/ou por o que pareceu ser medo cénico e inexperiência), pouco ou nada ousou. De todo o modo, nota positiva para o treinador leonino, que viu a sua equipa sofrer 2 golos fortuitos que impediram o que teria sido uma justa vitória. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Jovane Cabral (parte consecutivamente para cima dos adversários, procurando o 1x1, sem complexos).

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04
Jun20

A álgebra do futebol


Pedro Azevedo

Quando oiço falar em Sistema Táctico vejo isso sempre explicado através de linhas estáticas no terreno. Bem sei, os treinadores sempre vêm avisando que o futebol é dinâmica, mas o adepto comum tem tendência a simplificar as coisas como elas se desenham no papel. 

 

Em boa verdade o futebol é um jogo matricial em que se torna necessário preencher várias zonas do relvado a que vou chamar de pontos. Nesse sentido, esses pontos não advêm só de linhas mas também de colunas (corredores), pois o futebol é largura e comprimento. (A profundidade a meu vêr é erradamente chamada à colação, a não ser que estejamos a falar de jogo de toupeiras.)

 

Imaginemos, por exemplo, uma equipa que jogue em 4-4-2 clássico, ou, mais concretamente, num 4-1-3-1-1, com um "6", um "8", um "meia ponta" e um "ponta de lança". Se pensarmos em termos de colunas, teremos uma formação disposta em 2-1-4-1-2, onde, da direita para a esquerda, existirão lateral e ala direito, central pela direita, posição 6, 8, meia ponta e ponta de lança, central pela esquerda, lateral e ala esquerdo. Ora, conjugando com as 5 linhas, teremos como resultado final uma matriz de 5 por 5, isto é, de 5 linhas e 5 colunas, onde há 25 pontos de intersecção que representam espaços a preencher. 

 

Continuando no mesmo exemplo, o espaço (1,1) seria o do lateral direito, (1,2) seria o do central do lado direito, (1,3) não estaria ocupado, (1,4) seria o do central pela esquerda e (1,5) seria o do lateral esquerdo. Avançando nas linhas, (2,3) seria o espaço da posição 6, ficando (2,1), (2,2), (2,4) e (2,5) por preencher. Na terceira linha teríamos (3,1) equivalente ao espaço do ala direito, (3,3) a posição 8 e (3,5) o ala esquerdo, não sendo ocupados (3,2) e (3,4). As quartas e quintas linhas seriam apenas ocupadas pelas posições (4.3) e (5,3).  Como se pode comprovar, as 10 posições à frente do guarda-redes estão preenchidas por esses pontos de intersecção. Ficam, no entanto, por ocupar 15 pontos estratégicos. Como resolver isso?

 

O futebol é um jogo de estratégia que tem as suas semelhanças com o xadrez. Não se trata só de ocupar o espaço da melhor maneira sabendo de antemão que a dimensão do "tabuleiro" de jogo é grande de mais para o número de "peças", mas também pensar para (e por) onde queremos desviar (dissuadir) as "peças" do adversário para melhor podermos ocupar espaços futuros de conquista. Porém, independentemente da estratégia definida por um treinador, o futebol não é só ocupação de espaço, ou dinâmica. É também tempo. Assim, tal como numa partida de "rápidas" de xadrez, executar rápido e bem torna-se decisivo. E essa é a razão pela qual recepção e passe são o mais importante num jogo de futebol. Quando conjugados com a qualidade de remate, então tornam-se letais. 

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04
Jun20

Dia de Sporting


Pedro Azevedo

Hoje é Dia de Sporting. Do Sporting que faz sentido, aquele que vai a campo e nos tocou no coração quando éramos crianças. É certo que sem ninguém nas bancadas, o que já não faz nenhum sentido e parece até entrar em contradição com a origem deste amor. Desta vez, o amor vai ser mesmo fogo que arde sem se ver... no estádio.

 

Mas, finalmente, quase 3 meses depois, a bola vai recomeçar a rolar e a nossa paixão sublimar. Quando o árbitro apitar para o início do jogo, todas as nossas diferenças se dissiparão. Essa é uma premissa que um adepto tem sempre em mente, a simbiose que se estabelece com quem veste de verde-e-branco. O contrário seria parasitismo, indigno de um leão. 

 

Espero que o Sporting ganhe e que faça um bom jogo. Igualmente, desejo que o Ruben Amorim confirme os sinais positivos dados nos treinos, os quais têm chegado até nós pela imprensa. Esta visita a Guimarães recorda-me a minha primeira experiência no então Municipal da cidade berço. Jogava-se a penúltima jornada do campeonato de 79/80 e o Sporting precisava de ganhar para se manter na liderança. Viajei desde Lisboa no Comboio Verde com o meu pai, mudei de composição em Campanhã e lá cheguei a Guimarães. O jogo foi renhido e marcado por dois momentos em que estiveram envolvidos ex-jogadores do nosso clube. Um deles, o Manaca, foi particularmente infeliz quando saltou entre 2 jogadores nossos e com o cocuruto fez o auto-golo que nos adiantou no marcador. O outro, Vítor Manuel, avançado, obrigou o Fidalgo a uma defesa incrível que custou ao nosso corajoso guarda-redes o embate com a cabeça contra o poste esquerdo da baliza. Curiosamente, na semana seguinte festejámos em Alvalade contra uma equipa, União de Leiria, também com muitos antigos jogadores nossos. Entre eles o Dinis, o brinca-na-areia. Nesse dia tínhamos de ganhar, e ganhámos por 3-0. E o Porto tinha de ganhar e esperar que o Sporting perdesse, e perdeu duas vezes. No que dependia de si, em Espinho, contra o Sporting local, treinado pelo Manuel José. Mas voltando a Guimarães lembro-me da alegria do regresso com o título quase no bornal. E do calafrio em Campanhã, quando alguém atirou um paralelipípedo que por pouco falhou a janela do nosso compartimento. Infelizmente, por via disso, neste regresso ao passado, ao contrário do futebol do Sporting que já teve melhores dias, a forma como alguns adeptos estão no desporto não saiu beneficiada.

03
Jun20

The roof is on fire


Pedro Azevedo

Ler Parábola , do José Navarro de Andrade, em És a nossa FÉ.

 

Alternativamente: uma obra começou pelo telhado e não pelas fundações. O telhado está a arder. O Chefe dos Bombeiros escolhe ignorar os sinais de fumo. O Presidente, o da Junta, opta por não pôr água na fervura. O povo divide-se entre os que não veem o fogo, quem o quer atear (o que também não está certo) e aqueles que desejariam combatê-lo mas não têm como. Os teólogos desta religião pagã não põem as barbas de molho e preferem discutir o que é um incêndio. Como diria Rimbaud, isto é como viver uma temporada no inferno, em que todos os sonhos inspiradores se desvanecem e os demónios aterrorizantes aparecem. Mas estamos a discutir o telhado? Este Sporting cada vez mais se assemelha ao escárnio de "Uma Ilha na Lua", do Blake, ou a um castigo de Sísifo, um sem-propósito. Há lá obra que se sustente pelo telhado!? Que se dane o telhado, bom seria tratar-se das fundações! Querem pôr as mãos à obra? Pelo Sporting, e só pelo Sporting? Deixando os maniqueísmos de lado e pensando no bem maior? Todos? Ontem, já seria tarde... 

02
Jun20

Em frente Sporting!


Pedro Azevedo

Os jogadores do Saint-Étienne haviam feito furor cantando "Allez les Verts" em 1976. Seis anos depois, Luís Filipe Barros, radialista da Comercial, lança o repto a João Rocha e os pupilos de Allison reunem-se nos Estúdios Musicorde para gravarem "Em frente Sporting" e assim celebrarem o título recém-conquistado. 

 

Outros tempos: o disco, em vinil verde, foi pago pelos próprios jogadores e a receita reverteu a favor do Sporting. Comprei-o no dia da final da Taça de Portugal, mesmo à entrada do Estádio Nacional. Foi auspicioso, pois nessa tarde o Sporting goleou o Braga, de Quinito, por 4-0. 

02
Jun20

Something in the air


Pedro Azevedo

Por entre o habitual "barulho das luzes" que sempre marca o nosso clube, alguma coisa me diz que andam aí no ar os primeiros sinais de uma disputa pelo controlo da SAD do Sporting, confronto para já liderado por lugares-tenente e onde poderão vir a estar envolvidos no final 2 Bolas de Ouro (entre outros investidores). Nesse sentido, o recente artigo de opinião do Tomás Froes terá servido para marcar território, mostrando haver mais caminhos. Será que o Tomás sabe algo que nós não sabemos? Quem será o agiota que é preciso evitar de que fala no seu artigo? Bom, eu tenho uma pista...

 

Entretanto, por aqui continuarei a defender o controlo da SAD por parte do Sporting. Nada contra o Tomás, pessoa estimável e de óptimo trato, empresário e profissional de sucesso no mundo da publicidade que teve a coragem de trazer a público um assunto que tenho dúvidas (admito que seja especulativo, é apenas intuição) que não possa estar a ser cozinhado, com outros protagonistas, nos bastidores, mas o simples facto de mudarmos de accionista maioritário da SAD não seria nunca garantia de uma melhor gestão. Poderia ser, sim, um incentivo para mais investimento numa política desportiva que sucessivamente se tem vindo a revelar desastrosa, o que levaria a níveis de Passivo insustentáveis que seriam a estocada final no Sporting. Além disso, sinto o Sporting como um facho que recebi de meu pai e entreguei aos meus filhos, continuando a exercer "parental guidance". Gostaria, como tal, de ver o clube chegar ao tempo dos meus (futuros) netos como sempre o conheci e me foi apresentado por meu pai. 

 

Porém, nada tenho contra a entrada de um investidor minoritário. Simplesmente, nunca se deve vender em baixa, pelo que o "timing" não é este. É preciso primeiro acertarmos na política desportiva e, conjuntamente com a reposição da Cultura Sporting como ela deve ser e a implementação de boas práticas de gestão e seu controlo, colocarmos o clube num rumo virtuoso. Ao mesmo tempo, concluir a reestruturação financeira. A partir do momento em que começarmos a conciliar os resultados desportivos com a sustentabilidade financeira que advirá dos Proveitos Ordinários (e não da venda de jogadores) e de custos racionais e controlados, então sim estaremos em condições de procurar um parceiro (a meu ver internacional e com experiência de condução de "franchises" desportivos) que, para além do encaixe financeiro, nos ajude a alavancar e internacionalizar a marca, crescer em receitas de merchandising e atrair mais e melhores patrocínios, continuando o Sporting como maioritário com pelo menos 50% + 1 voto.  

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