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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

09
Abr23

Pagar na mesma moeda


Pedro Azevedo

Ontem, em Wolverhampton, no Molineux, Wolves e Chelsea defrontaram-se. De um lado um ex-Sporting, Matheus Nunes, do outro um ex-Benfica, João Félix. No fim, ganharam os "Lobos" pela vantagem mínima (1-0), com o golo da vitória a ser marcado por Matheus Nunes. Um volley fulminante, a arma que curiosamente celebrizou Frank Lampard, o histórico jogador do Chelsea que regressava neste jogo ao banco dos "Blues" como técnico interino. 

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06
Abr23

Tudo ao molho e fé em Deus

Galo em vez de golo


Pedro Azevedo

Os pontas de lança precisam que a bola lhes chegue de uma forma auspiciosa, seja através de um passe de ruptura, de uma tabelinha a pedir desmarcação ou de um cruzamento executado com precisão. Ontem, o Chermiti não teve nada disso. Pelo contrário, foi ele que executou brilhantemente um movimento típico de um "10", rasgando a defesa com um passe milimétrico que isolou o Pote. Teria sido o momento do jogo, mas o VAR anulou o golo devido a um off-side do nosso ponta de lança no início do lance. As razões pelas quais o Chermiti não teve boas bolas para golo têm sido recorrentes esta época: os dois interiores jogam de pé trocado, invariavelmente vêm para o meio à procura de combinações ou de rematar e quando optam por cruzar fazem-no de uma forma que apanha os centrais contrários em vantagem, de frente para o lance. A solução seria os alas justificarem o seu nome, procurarem a linha e cruzarem, mas o Esgaio perde o timing do passe porque necessita sempre de parar primeiro a bola, não se dê o caso de acertar em algum navio de carga no alto mar, e o Arthur também parece ser fã do marxismo-leoninismo e alinha em puxar a bola para o pé esquerdo antes de cruzar. Do lado oposto, o Nuno Santos faz o que tem de ser feito, mas como não tem magia suficiente no drible precisa de quem crie indefinição e o ajude a arranjar espaço para centrar com eficácia. O problema adensa-se quando o Matheus Reis liga o complicometro e estraga todas as ligações possíveis de jogo, além de invariavelmente não acertar um único cruzamento para o homem que se desmarca isolado ao primeiro poste. Ontem, do seu cardápio constaram asneiras várias, desde o atropelamento a Pote que estragou uma promissora jogada da ataque até à finta mal sucedida à saída da nossa área que deu ao Gil uma possibilidade real de nos ferir. Pelo meio não foi capaz de descodificar um único passe de Inácio durante o primeiro tempo, o que não pode ser só responsabilidade do recém- internacional português. De tal forma que deveria ter ficado no balneário logo ao intervalo para poupar aos adeptos uma consulta de cardiologia, mas infelizmente foi o Inácio que já não regressou no segundo tempo. Depois, a falta de qualidade no cruzamento faz com que vamos tecendo interminavelmente o nosso jogo pelo meio, onde quase sempre nestes jogos estamos em inferioridade numérica, até o novelo se desfiar e termos de começar tudo de novo, vivendo então muitas vezes da inspiração de Pote. E quando o génio da lâmpada não sai, bye bye 2 ou 3 pontos. Especialmente contra equipas que se fecham bem, nos encurtam os espaços e estão preparadas para as movimentações-padrão dos nossos desequilibradores, concentrando os seus jogadores em posições centrais que habitualmente são procuradas pelos nossos. E o tempo vai passando, nós persistindo no estilo monocórdico e assim caindo no engodo. Muitas aproximações mas raras conclusões, a maior parte das jogadas perde-se por falta de expontaneidade no remate. E assim minam-se lances em catadupa. Há sempre um toque a mais na bola na hora de servir o jogador que ficaria isolado ou de rematar. Não sei se há alguma lei no futebol que obrigue um jogador que surge com espaço numa ala a travar e vir consecutivamente para dentro em vez de respeitar a movimentação do ponta de lança, mas no Sporting tal parece estar instituído. A tal ponto que por vezes dá a ideia que estamos a jogar ao lenço ou à barra fixa, e que o propósito do jogo para nós é entrar simultaneamente com jogador e bola para dentro da baliza do nosso adversário. Ora, é claro para todos, de cada vez que um jogador vai apressadamente  dentro da baliza do adversário buscar a bola, que este se sente incomodado com a violação de tal espaço. Quer dizer, a bola ainda é como o outro, mas aceitar que alguém entre pela baliza adentro é humilhação intolerável. Todavia, insiste-se nesse jogo miudinho até ao frémito, um paradigma da inconsequência. No fim, pede-se para fora que se dê tempo ao que estamos a fazer lá dentro, que não se deve trocar o futuro pelo presente, mas depois o Rodrigo Ribeiro não consta da ficha de jogo e tem de ser o Coates pela enésima vez a fazer de ponta de lança. Para não falar do Fatawu, que é uma espécie de pirilampo para Mister Amorim. Enfim, o meu receio é que se esteja a empolar o que se faz para se esconder o que não se faz, assim ao jeito do exponencial aumento de receitas ordinárias anunciado pelo presidente Varandas que nenhum R&C confirma (mas a gente gosta de ouvir). Justiça porém seja feita a Ruben Amorim: se é certo que é falso que estejamos menos dependentes de vendas de jogadores para equilibrar os Resultados e a tesouraria - nunca estivemos tão dependentes quanto agora - , não deixa de ser verdade que houve uma valorização do plantel que hoje permite que haja muitos jogadores com interesse para o mercado e que as putativas futuras vendas se possam processar por valores acima daquilo que era usual no clube, e isso sim é da sua quase exclusiva competência. Só que quando se vende e não se compensa a saída desse activo com outro, seja por correcta incursão ao mercado ou ascensão de alguém de valor da Formação, então o nosso trabalho assemelha-se ao de Sísifo, conforme esta época abundantemente ilustra. E se tal apenas ficou mais claro ontem em Barcelos, isso somente se deveu a em vez de golo ter havido galo, criatura que não deixa para amanhã o que pode fazer logo de manhã e nos desperta para que cedo possamos planear a forma de contornar os desafios que temos pela frente.  

 

Tenor "Tudo ao molho...": St Juste

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05
Abr23

Em busca do milésimo golo

In search of the “Holy 1000”


Pedro Azevedo

Com o seu bis de ontem, Cristiano Ronaldo aumentou o seu recorde para 834 golos em jogos oficiais, mais 2 golos do que a soma que se obtém se analisarmos os números de Thierry Henry e Ronaldo "Fenómeno" em conjunto. Adicionalmente, os seus 15 golos (13 jogos!) até ao presente momento tornam-no no melhor marcador neste ano civil, em igualdade com o noruegês Haaland. A 166 golos de atingir o mítico número 1000, o "Cálice Sagrado" para qualquer ponta de lança, a título de curiosidade aqui Vos deixo a distribuição dos golos pelo seu corpo: 540 golos de pé direito, 151 de pé esquerdo e 142 de cabeça (1 foi marcado com o peito). Adaptando a gíria da NBA, estamos assim na presença de um triplo-duplo de carreira (mais de 100 golos marcados com qualquer um dos pés e cabeça) e a caminho de um triplo-triplo (mais de 150 nas mesmas condições, faltando assim apenas 8 golos de cabeça). Por fim, de realçar que Ronaldo precisou de 3 anos e meio para marcar os seus últimos 134 golos, pelo que, a manter a mesma média, o milésimo golo demorará ainda 52 meses, ficando assim agendado para Agosto de 2027, data em que Cristiano Ronaldo terá 42 anos e 6 meses de idade. 

 

With yesterday's brace, Cristiano Ronaldo leveraged his record to 834 official goals, 2 more than Thierry Henry and Ronaldo "Fenómeno" all together. Additionaly, his present 15 goals put him as the world top goalscorer of 2023, a record that he shares with the norwegian Haaland. Needing "only" 166 goals to achieve the mythical One Thousand mark, the "Holy Grail" of any striker, by curiosity I leave here his goal distribution: right foot - 540 goals; left foot - 151; head - 142 (plus 1 chest goal). Adopting NBA's statistical practices, in terms of goals we are in presence of a career triple-double (more than 100 goals scored with both feet and head) and approaching a triple-triple (more than 150 in the same conditions, lacking only 8 successful headers to fulfill it). To finalize, I would like to stress that Ronaldo needed 3 and a half years to score his last 134 goals, which indicates that, keeping the same pace, he will achieve his 1000 goal in around 52 months, by August 2027, being by then 42 and a half years old.  

 

Avec les deux buts hier, Cristiano Ronaldo a augmenté son record à 834 buts, 2 plus que Thierry Henry and Ronaldo "Fenómeno" ensemble. En plus, ses 15 buts rendent le l'exploit d'être le meilleur buteur de 2023, un record qu'il actuellement partage avec le norvegién Haaland. A besoin de "seulement" 166 buts pour obtenir  les mythiques Un Milliard de buts, le "Saint Grail" d'un centre avant, par curiosité, ici, je laisse son distribution de buts: pied droit - 540 buts; pied gauche - 151; tête - 142 (plus 1 but de torse). En adoptant les statistiques de la NBA, en termes de buts nous sommes en presénce d'un triple-double de carriére (plus que 100 buts inscrits avec chacun des pieds et tête) et se rapprochant d'un triple-triple (plus que 150 dans les mêmes conditions, manquant 8 buts inscrits de la tête pour l' atteindre). Pour terminer, je veux dire que Ronaldo a nécessité de 3 ans et demi pour marqué ses derniers 134 buts, ce qui indique, en conservant le même rythme, qu'il touchera les mille buts dans 52 mois, en août 2027, a l'âge de 42 ans et demi.  

 

Con la doppietta da ieri, Cristiano Ronaldo ha aumentato il suo record a 834 gol, due più che Thierry Henry and Ronaldo "Fenómeno" insieme. Ulteriormente, suo 15 gol fallo figurare come il  Capocannoniere mondiale de 2023, un record che condivide con il norvegese Haaland. Ad aver bisogno de "solo" 166 gol per ottenere la mitica meta di un miliardo, il "Sacro Graal" per ogni centravanti, per curiositá qui lascio la sua distribuzione di reti: piede destro - 540 goals; sinistro- 151; testa - 142 (un altro segnato di petto). Adottando le statistiche dalla NBA, in materia di reti siamo in presenza di un triple-double (più di 100 gol segnato con qualsiasi piede e testa) e avvicinandosi di un triple-triple (più de 150 alle stesse condizione, mancano solo 8 gol di testa per farlo). Per finire, Ronaldo ha richiesto di 3 anni e mezzo per segnare i suoi ultimi 134 gol, il che indica che, mantenendo lo stesso ritmo, lui colpirá i mille gol tra 52 mesi, nell'agosto 2027, all'età di 42 anni e mezzo.  

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03
Abr23

Tudo ao molho e fé em Deus

Massacrar para depois poder procrastinar


Pedro Azevedo

Perante o último classificado da Liga e com um calendario denso por diante, o Sporting precisava de resolver rapidamente este confronto para depois poupar energias que poderão vir a revelar-se cruciais no futuro. Como tal, recomendava-se atacar em força desde o apito inicial. Nada melhor para isso do que chamar a cavalaria: na ala direita, Arthur, nome que nos remete para os míticos tempos da Távola Redonda e, também, da velha aliança anglo-portuguesa; na Ala dos Namorados (esquerda), Dom Nuno, o Santos Contestável (somente para a Selecção Nacional). Por dentro, um quadrado imaginário, com Pote e um dos interiores circunstancialmente por detrás do outro interior e de Paulinho. Na rectaguarda, 3 defesas com grande propensão atacante e um Ugarte, qual Padeira de Aljubarrota, que foi pau (e pão) para toda a obra.

 

Com uma entrada em jogo demolidora, não tardou que o Sporting ganhasse uma vantagem de dois golos - um cabeceamento certeiro de Paulinho no seguimento de um livre apontado por Pote e uma recuperação rápida de bola de Edwards com assistência para Trincão - , que poderia ter sido maior se uma bola não tivesse ido à barra (Inácio) e outra sido vitima de uma ruizada (Paulinho): três pontos para Gales, diriam alguns não necessariamente amantes do rugby após a bola ter sobrevoado a barra da baliza açoreana. E três pontos de facto foram, mas para o Sporting, uma vitória reforçada com um bonito golo de Edwards após recuperação de bola e passe de Paulinho. Triunfo garantido cedo, seguiu-se um longo espreguiçar, procrastinação a bem da noção de que a equipa precisa de se apresentar na máxima força nos próximos encontros com a Velha Senhora.

 

A sensação que fica é que o melhor Sporting chegou agora ao Campeonato. Com algumas faltas de atraso no cadastro, como se verifica pela subtração de pontos na caderneta classificativa. Ainda iremos a tempo de ter um aproveitamento mínimo? Adicionalmente, chegaremos a horas ao encontro com a nossa história europeia?


Hoje temos diversas soluções para a zona central da defesa, algo reforçado pela contratação de Diomande e a recuperação física de St Juste. Nas alas, a entrada de Arthur traz uma solução atacante diferente, especialmente interessante quando acompanhada por uma leitura do jogo defensivo que o faz fechar por dentro como em dois lances perigosos do Santa Clara. No ataque, a inclusão de Chermiti trouxe de volta o Paulinho trabalhador, ele que no passado recente chegou a aliar a má relação com a baliza com um compromisso com a equipa menos de acordo com o que nos havia habituado. Pelo que onde ainda não é nítida uma evolução é no meio campo. Não que Ugarte ou Morita não sejam bons jogadores, ou que Pote não disfarce em certos jogos, mas faz-nos falta mais um 8 (o Tanlongo é mais um 6) capaz de queimar linhas do adversário e que permita um reforço de competitividade no(s) jogo(s) quando os titulares começarem a dar sinais de cansaço. 

Tenor "Tudo ao molho...": Pote 

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01
Abr23

Haja chuva, vento ou lama…


Pedro Azevedo

Por que é que há jogadores a quem a bola obedece com reverência e outros com os quais parece ganhar vontade própria? Por que razão a relva escorregadia, de raiz frágil ou mal plantada não parece afectar a qualidade de recepção. passe e remate de uns e serve de justificação para a improdutividade de outros? Pedro Gonçalves é daqueles que faz a diferença em todas as condições. Haja chuva, vento e lama, como na Choupana no ano do nosso último título de campeão nacional, ou sol, brisa ligeira e um belo tapete verde, o nosso Pote afirma da mesma forma a sua categoria. Não o perca hoje, a partir das 20:30, quando o Sporting entrar em campo para defrontar o Santa Clara. 

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01
Abr23

Uma verdade inconveniente


Pedro Azevedo

Informação útil para os dogmáticos da idade que se extrai do bilhete de identidade e restantes detractores de CR7: o cidadão Cristiano Ronaldo marcou 67 dos seus 122 golos (54,9%) ao serviço da Selecção Nacional após completar 31 anos. Mais, tendo no total 122 golos em 198 jogos por Portugal (0,616 golos/jogo), a sua média de golos pela “Equipa de todos nós” cresce exponencialmente se considerarmos apenas os seus números depois dos 31 anos: são 67 golos em 75 jogos, média de 0,893 golos/jogo. E se eliminarmos o ano de 2022, em que foi acometido de diversos problemas pessoais e profissionais que impactaram na sua forma, essa média sobe para mais de 1 golo por jogo (64 golos em 63 golos), números de acordo com os registados no Real Madrid. É só isto que eu queria dizer, para agora nos concentrarmos devidamente na recepção ao Santa Clara. Esperando que a realidade factual dos números não tenha provocado alergia a alguém. (Em caso de azia, é favor tomar nota que qualquer medicamento que a combata terá um efeito menos duradouro que cada novo feito de Ronaldo. É lidar.)

 

PS: Em 2016, com 31 anos, Ronaldo ajudou Portugal a vencer o seu primeiro grande troféu internacional (Campeonato da Europa). Em 2019, aos 34 anos, com ele a marcar 3 golos na meia final (3-1 à Suíça), Portugal ganhou a Liga das Nações. 

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27
Mar23

Tudo ao molho e fé em Deus

O Lux(o) de ter Ronaldo


Pedro Azevedo

Vivemos na era do homem que mordeu o cão. Numa época destas, o acessório ganha prioridade sobre o essencial, o que traduzido para a Selecção significa que o debate sobre a qualidade e forma como sopra o ar torna-se de maior relevância que os 198 jogos e 122 golos de Cristiano Ronaldo, ambos recordes mundiais. Por isso discute-se epistemologicamente o que é uma lufada de ar fresco (tese) em contraposição a uma aragem de transição (antítese), dialética hegeliana logo rematada com a conclusão (síntese) de que o Ronaldo está a mais e os colegas estão fartos dele, o melhor mesmo é estarmos eternamente gratos ao Engenheiro pelo único título de relevo conquistado por Portugal. Ora, eu penso que se calhar também deveríamos estar um pouco reconhecidos ao Ronaldo, não sei. É que não me lembro do Bernardo, do Bruno ou do Felix em França, mas posso estar enganado. Do que eu me recordo é de Portugal ter obtido os seus melhores resultados internacionais (1º e 2º lugares em Campeonatos da Europa) com Ronaldo na equipa, além de igualmente com ele termos repetido uma meia-final e atingido uns quartos e dois oitavos-de-final no Campeonato do Mundo. Com vários treinadores diferentes. Para quem sofre com o labéu posto por alguns portugueses de que só se preocupa com os seus feitos individuais, não me parece que o que atingiu colectivamente seja pouco. E já nem falo das 5 Champions que ajudou o Real e o United a conquistar. Apesar dele, segundo os detractores, ainda que sem ele ambos os clubes tivessem curiosamente passado a ganhar muito menos. (Comigo, os detractores "vão de carrinho"; ou de tractores, se assim o preferirem.)

 

Quem conhece minimamente o Ronaldo sabe que o seu forte nunca foram as palavras. Como bom português, ele vai aguentando as provocações, uma após outra, até que explode na pior altura e da pior forma, com uma arrogância que disfarça a frustração de periodicamente ser posto em causa. E quando a isso junta o reconhecimento do prazer que lhe dá regressar a uma certa casa, então o caldo está entornado com uma certa intelligentsia escarlate invejosa e orfã de um menino prodígio que pulula em jornais e televisões. Sim, porque são esses que não conseguem despir a camisola e permanentemente confundem a prima do mestre de obras com a Obra-prima do Mestre, levando alguns incautos, politicamente correctos e sedentos de mostrar imparcialidade, por arrasto. Vimos isso durante o Mundial. Não é que Ronaldo não se tenha posto a jeito ou estivesse isento de culpas no cartório, mas não merecia ter sido o bombo da festa e vítima da maior tentativa de assassinato mediático de que um futebolista foi alvo em mais de 100 anos de futebol em Portugal. Após uma perseguição pidesca, inédita em 48 anos de democracia, em que cada seu esgar facial foi analisado até à exaustão, recorrendo-se até à leitura labial. E é isto, tão isto, o que fazemos a um dos nossos maiores de todos os tempos, o português mais conhecido no mundo. A quem exigimos fora do campo a perfeição que nenhum de nós tem, como se das suas imperfeições - e não das suas virtudes - bebessemos o nectar essencial para seguirmos em frente e assim justificarmos o nosso próprio congénito inconseguimento. 

 

Posto isto, Portugal foi ontem a campo contra o Luxemburgo. Já se sabe que nestes jogos marcar cedo é fundamental. E o Ronaldo adiantou-nos no marcador. Parece fácil, não é(?), mas o nosso craque fez o mais difícil. A partir daí abriu-se o ketchup, para ele e para os outros. E foi bonito de ver o Bernardo marcar e assistir, o Felix concluir, o Palhinha nada deixar florir à sua volta e ainda ter tempo para meter um passe de 30 metros com GPS cujo destino final foi o golo. Depois, com espaço, entrou o Leão e pintou a manta, como se de uma palanca se tratasse, a todos envolvendo num turbilhão de velocidade e porte altivo. No final, foram meia-dúzia, que somados aos quatro com o Liechtenstein dão dez. Deixemos por isso o ar fresco para outras bandas - em Varsóvia as temperaturas são tão frias que um Czech-mate a mais ou a menos nem faz diferença -  e constatemos o óbvio: após dois jogos disputados, Portugal já lidera isolado o seu grupo de qualificação para o Europeu. Ainda e sempre com Ronaldo.

 

Podium - Ouro: João Palhinha; Prata: Ronaldo; Bronze: Bernardo.

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24
Mar23

Tudo ao molho e fé em Deus

Bob, o Construtor


Pedro Azevedo

O Liechtenstein é um país minúsculo, tão mínimo que, se e a sua população inteira comprasse uma gamebox no José Alvalade ainda sobrariam 11.000 lugares de lotação do estádio para venda ao público em geral. Se o número de habitantes do Liechtenstein é pequeno para Alvalade, Ronaldo ainda é suficientemente grande para caber no Onze de Portugal. Como ontem ficou amplamente demonstrado, marcando dois golos e falhando outros tantos onde ainda assim o seu domínio nas alturas ou recepção imaculada da bola se destacaram dos demais. Nada mau, aos 38 anos de idade, para este Lawrence das Arábias português que aproveitou a oportunidade para bater o recorde mundial de internacionalizações por selecções (197) e reforçar o já por si detido máximo de golos (agora 120, 830 em toda a carreira). Portugal estreava Roberto Martinez, e este inaugurava a linha de 3 defesas. Com Inácio a ter a sua primeira internacionalização a jogar (e bem, com muita personalidade!) nessa linha pela esquerda, os laterais Cancelo e Guerreiro foram mais extremos no primeiro tempo e mais interiores no segundo. João Palhinha foi o polvo que tudo compensou no meio, Félix e Bernardo partiam das alas, com o jogador do Chelsea a frequentemente procurar espaços entre-linhas mais interiores e assim transformando o nosso bem conhecido (dos Sportinguistas) 3-4-3 num 3-5-2. Bruno Fernandes procurava a ligação com os jogadores do ataque. Apesar de ter marcado cedo, num remate às 3 tabelas de Cancelo cuja última carambola envolveu Ronaldo, Portugal deparou-se com um Liechtenstein somente interessado em perder por poucos. Por isso continuou fechado lá atrás, procurando não deixar espaços para que Portugal ligasse por dentro, obrigando-nos a circular em "U". Mas isso aconteceu na primeira parte, porque após o reatamento viu-se o dedo do treinador, com Guerreiro e, principalmente, Cancelo a jogarem por dentro e Félix e Bernardo a dissuadirem pelas alas. Não tardaria assim que Portugal voltasse a marcar, com Ronaldo a dar nova vida à metáfora do ketchup (agora dos golos de livre directo). Foram 15 minutos de futebol avassalador, com 3 golos (1 de Bernardo e 2 de Cristiano), muitas oportunidades desperdiçadas e Cancelo (mas também Palhinha) frequentemente envolvido na construção. 

No final foram só quatro. Mas poderia ter sido uma dúzia, o que até viabilizaria um bom trocadilho - "va douze" - aplicado ao regresso dos jogadores do Liechtenstein à sua capital. Quanto a Roberto Martinez, Bob, para os ingleses, e Construtor de uma nova filosofia de jogo, para os portugueses, os primeiros sinais foram encorajadores, aproximando-o das opções do homem comum não-contaminado e assim escalonando de início o Inácio e o Palhinha, dois jogadores que pouca ou nenhuma atenção mereceram do pretérito (e mais galardoado de sempre) treinador nacional. Com Portugal entre a nobreza europeia, a um Principado seguir-se-á um Grão-Ducado (Luxemburgo), provavelmente já com Nuno Mendes no Onze. 

 

Podium - Ouro: Cancelo; Prata: Palhinha; Bronze: Ronaldo.

 

P.S. Tenho algumas dúvidas sobre a eficácia da aposta de Danilo (mais tarde, também Palhinha) como central pela direita, afastando-o do centro do jogo, mais parecendo um peixe fora de água. Se por um lado a ideia parece ser não colidir o defesa com o espaço de intervenção do médio mais defensivo, dando a oportunidade de com bola e adversários fracos termos um duplo-pivô no meio, por outro seria mais natural que Danilo ocupasse um lugar central na defesa.  Mas, provavelmente, com a entrada de Pepe, tal questão não se colocará no futuro, jogando Martinez com Rúben e Inácio como complemento ao central portista.

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(O amarelo e o vermelho espanhóis presentes na indumentária de Bob)

20
Mar23

Pote ou Cântaro?


Pedro Azevedo

Pote voltou a ficar de fora das opções de um seleccionador nacional. Diz-nos Roberto Martinez que a concorrência é muito forte e há um excesso de muito bons jogadores para as posições que Pote pode ocupar no relvado. Mas depois olhamos para o Vitinha, com zero golos e duas assistências na época, e não compreendemos o que levou Martinez a preferi-lo a Pote. Bem sei, a produção invisível em termos de números de Vitinha há muito que se tornou distintiva para uma nouvelle vague de comentadores e paineleiros que vê no jogador uma oportunidade de afirmar uma superioridade intelectual assente num seu pretenso olho clínico não alcançável pelo comum dos mortais. Em contraposição, eu, que sobre estas coisas tenho um olho mais cínico do que clínico, não escondo que o actual jogador do PSG cose bem o jogo e tem um tricotado interessante. Mas com ele a esta hora ainda estariam os marroquinos a bocejar à espera que Portugal lhes fizesse cócegas. Porque para um médio atacante de nível elevado a Vitinha falta assertividade no remate e mais aproximações à área, qualidades que não são dispiciendas na hora de enfrentar adversários muito mais fracos e que se prevê irem-se enclausurar em bunkers. Ora, facilidade de remate e chegada são exactamente algumas das qualidades de Pote, aliadas a uma apurada visão de jogo, aproveitamento do espaço livre entre-linhas e suprema inteligência. Todavia, é raro vê-lo dar um petardo. Pelo contrário, privilegia a colocação de bola. A força da técnica contra a técnica da força. Exactamente como Vitinha, mas com números (17 golos e 8 assistências esta temporada). Poder-se-á contudo argumentar que Vitinha pode jogar a 8. Mas também Bruno Fernandes o pode fazer, e tem golo. E, com outra intensidade, o Matheus Nunes e o Otávio o farão. Assim sendo, não se compreende o argumento de Roberto Martinez, a quem porém ainda dou o benefício da dúvida (e desejo sucesso). Não deixando também de notar que para os jogos com o Liechtenstein e Luxemburgo foram convocados poucos pontas de lança, perdendo-se a oportunidade de juntar ao grupo jogadores que nos podiam trazer coisas diferentes, como o outro Vitinha (Marselha) ou Beto (Udinese). E se o ex-Braga ainda está em fase de ambientação a novo clube e nova realidade, o que pode explicar a sua agora não inclusão, não se entende tão bem o motivo pelo qual um dos melhores marcadores da Serie A continua afastado dos trabalhos da Selecção. Voltando a Pote, o seu mal é não ser Cântaro. Se o fosse, tantas vezes iria à fonte até que lá deixaria uma asa. E ter asas, mostra-nos o histórico das convocatórias, é meio caminho andado para chegar lá. (Já outros, como o Bruno Fernandes, precisaram de realizar os 12 trabalhos de Hércules e ter uma indomável força mental, que a sucessiva rejeição deixa marcas, para finalmente a porta se abrir.)

 

Força, Pote!

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17
Mar23

Tudo ao molho e fé em Deus

Contra os Canhões marchar, marchar


Pedro Azevedo

Desde que o Arsenal nos coube em sorteio que alguma coisa me dizia que iríamos passar. À primeira vista, tal pensamento seria puramente emocional, de um emocional nada confundível com o conceito de inteligência relacionado que Goleman, Boyatzis e McKee anunciaram ao mundo e, portanto, potencialmente néscio. Mas, à medida que ia descascando as camadas epidérmicas dessa emoção, ia descobrindo razões além da não-razão evidente, e assim acalentando o sonho. Que o Arsenal liderava (e lidera) o melhor campeonato do mundo era um facto conhecido de todos e razão suficiente para ponto final, parágrafo, a eliminação do Sporting estar entregue ao Criador. Mas depois havia o histórico favorável do Sporting contra equipas inglesas e a sensação de que tendo uma grande equipa - só uma máquina bem oleada poderia dominar uma Liga onde coexistem os gigantes do noroeste de Inglaterra (United, City e Liverpool) - e muito bons jogadores, não possuía aquele tipo de craques à escala planetária, ditos fora de série, capazes de só por si desequilibrarem um jogo renhido. Ou seja, via mais o Arsenal como uma equipa consistente do que de galácticos, e assim mais de Campeonato do que de Taça(s). Ainda assim, tudo teria de correr extraordinariamente bem para que tivessemos uma hipótese de discutir a eliminatória. E correu! Quer dizer, uma pessoa vive mais de 50 anos na esperança de que aquele chapéu do Pelé ao Viktor (Mundial de 70) finalmente entre na baliza checa e de repente vê o Pote de Ouro a fazê-lo com aquela inconsciência típica dos predestinados e fica sem fôlego. Aquilo foi o pináculo da perfeição, a Capela Sistina transposta para um campo de futebol, um traço de sagrado em algo que é iminentemente pagão. E, por isso, rimo-nos, esse sorriso reproduzindo uma faculdade só concedida entre todas as espécies aos humanos, quiçá também esse um rabisco de sagrado atribuído por Deus aos mortais e assim oferecido a nós, Sportinguistas, naquele preciso momento. A um golo que mais pareceu ter sido gerado no Céu teria de corresponder um Adán de nome bíblico e actuação imaculada, sem pecado original porque é de Redenção que aqui falamos. Dele e do Sporting, novamente a brilhar na Europa numa época em que domesticamente as coisas não têm estado a correr nada bem. Mas não foram só Pote e Adán a iluminar a noite londrina: St Juste, o nosso Flying Dutchman, tirou bilhete de primeiríssima classe e voou baixinho no Emirates, muitas vezes escapando aos radares ingleses; Diomande, qual veterano, fez soar os carrilhões de Mafra sobre os britânicos de cada vez que estes se abeiravam da nossa linha defensiva (a ele competiu o papel habitualmente desempenhado pelo capitão Coates) e Ugarte, bem, Ugarte foi o Atlas que transportou o mundo leonino às costas nos bons e maus momentos, organizando e procurando sempre jogar pelo chão, que não é por acaso que não há relva no Céu. Havendo justiça no futebol, o Sporting deveria ter ganho a eliminatória no tempo regulamentar. Mas tivemos de ir a prolongamento, onde a falta de profundidade e traquejo do nosso plantel se fez sentir um bocadinho. Sobrevivemos e fomos para penáltis. Aí ajudou bastante termos um guarda-redes que também é craque a jogar à moeda, primeiro escolhendo a baliza e depois a bola, pelo que seria perante os nossos adeptos que haveria de negar o golo a Martinelli, garantindo uma vitória entretanto alicerçada na destreza de 5 jogadores que apontaram certeiramente às redes. No fim, tudo acabou em bem. Foi um dia de glória para o Sporting e para a "leoninidade", neologismo à medida de um tempo em que é preciso agregar (o "aggiornamento") e empolgar a enorme maioria silenciosa de adeptos. Agora, há que aproveitar os ecos desta retumbante vitória e construir um edifício sólido europeu assente nesta primeira pedra. É essa a responsabilidade que herdamos, mostrando que a eliminação do Arsenal não foi um fogacho mas sim um meio para atingirmos um fim só por uma vez alcançado há 59 anos. Eu acredito!

 

Contra os Canhões (Gunners) marchar, marchar...

 

P.S. Enquanto não ganhamos a Liga Europa, vamos coleccionando candidatos ao Prémio Puskas. Depois de Nuno Santos e de Pote, no espaço de 4 dias, já só falta a FIFA escolher o terceiro golo a concurso. Fica então o hat-trick marcado para 2 de Abril, data em que receberemos o Santa Clara. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Antonio Adán

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16
Mar23

Crença


Pedro Azevedo

Por vezes o futebol desafia a lógica, e é para esses momentos que vivemos enquanto adeptos. A nossa história já foi de hegemonia, mas num dado momento perdemo-nos no caminho. Tivemos de aceitar a derrota e procurar vencer novamente, insistir e perseverar. Não tem sido fácil, mas após cada soco atordoante temo-nos conseguido levantar e procurar o golpe vitorioso. Já ganhámos aos pontos, como em 20/21, hoje necessitamos de um KO. Não resolverá todo o futuro, mas dar-nos-á um suplemento de alma e crença no que está para vir. Força, Sporting! 

15
Mar23

O Jogo (*)


Pedro Azevedo

Eu não entendo por que pessoas que escrevem sobre futebol procuram tanto repudiar a opinião dos outros sobre o jogo. A não ser que o seu interesse não seja escrever sobre futebol mas apenas usar o jogo como uma forma de aparecerem e assim parecerem relevantes. Ou para procurarem colectivizar o pensamento, e assim servir um qualquer interesse obscuro ou oculto. Porque, na verdade, no futebol não há verdades absolutas. Por isso é fascinante trocar opiniões com pessoas de diferentes faixas etárias ou condição social e daí retirar mais perspectiva e conhecimento. Antes de mais, o futebol é um jogo repetido muitas vezes. Daí a sensação de angústia que por vezes nos perpassa a ver um jogo, como se subitamente fôssemos invadidos por um sentimento de "dejá vue". No fundo, um jogo é a continuação de muitos jogos anteriores, uma representação do passado com cambiantes do presente introduzidas por actores que frequentemente fogem ao guião. (Se o futebol pertencesse só aos treinadores, os jogos repetir-se-iam de uma forma totalmente monótona, é a auto-determinação, o grito de liberdade dos futebolistas e por vezes o acaso que o projecta para algo mais do que o teatro clássico.) Sendo o futebol um espectáculo, ele só faz sentido com uma multidão a enquadrá-lo. É o público que justifica o jogador profissional e o sublima, não o seu contrário. E esse público é geralmente bastante inteligente, conhecedor  e informado acerca do jogo, especialmente se liberto do fanatismo que por vezes lhe tolda as ideias. Essa inteligência à volta do jogo não deixa de ser intrigante, ainda que real e bem intuitiva, na medida em que indivíduos que fora dos estádios não revelam uma capacidade intelectual elevada são capazes de mostrar sabedoria ao analisar as tácticas, a disposição das equipas em campo e do que uma equipa está a precisar num dado momento do tempo. Por isso, ao mesmo tempo que fico entusiasmado com essa inteligência, fico aborrecido com a ignorância daqueles que desprezam essa inteligência e a remetem para o pejorativo "treinadores de bancada", como se as convicções de alguém abalassem as certezas de outrém e isso lhes causasse medo. (A inteligência deve ser vivida e partilhada, não reprimida.) Eu gosto muito de futebol. Mas não me esqueço de que é um jogo, um jogo onde a bola é uma marionete, ou talvez o boneco do ventríloquo, e o jogador, se for bom e mostrar perícia, é o Master Puppeteer, a puxar os cordelinhos. Não espero nem mais nem menos do jogo. No fim, voltaremos para os nossos trabalhos, as nossas famílias, os nossos amigos, mas teremos sempre uma próxima repetição desse teatro de identidade a que chamamos futebol, onde encontraremos, uma e outra vez, a nossa tribo e aqueles por quem o nosso coração bate, numa osmose que se pretende perfeita entre o apolíneo e o dionísico, entre a perfeição que pedimos aos jogadores e os cânticos e murmúrios que emanam das bancadas. Por que razão deveria o jogo ser um espaço de confronto entre os nossos, se em tudo ele é essencialmente uma comunhão? 

 

(*) Inspirado por textos de Galeano e Critchley

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14
Mar23

O silêncio também é ouro


Pedro Azevedo

A infeliz polémica que estalou entre Nelson Évora e Pablo Pichardo dá-nos conta de um país pequenino. Tão pequenino que não consegue albergar em simultâneo dois grandes campeões. O ouro, tão brilhantemente conquistado em duras competições que empolgaram uma Nação, constará do espólio de medalhas de cada um. Mas há um outro ouro que infelizmente ambos insistem em alienar, o que equivale ao valor do silêncio, assim se vulgarizando num bate-boca que é objectivamente um loose-loose. Porque quem vive no Olimpo dos deuses tem de estar acima de questiúnculas mundanas, caso contrário arrisca-se a (triplo-)saltar de lá como o Hefesto. 

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13
Mar23

Tudo ao molho e fé em Deus

Quando o futebol é arte


Pedro Azevedo

Uma letra vale mais do que mil palavras...

 

Nos últimos anos surgiu uma corrente de pensadores universitários, logo seguida por um movimento de treinadores, que pretendeu afirmar o futebol como uma ciência. Quem não se lembra, por exemplo, do Mestre da Táctica e das suas jactantes elucubrações baseadas no denodado trabalho de investigação do Professor Manuel Sérgio? Mas é indubitavelmente como arte que o futebol se reconcilia com o espectador e este com o jogo. Porque mesmo numa era em que ao marketing é requerido que envelope a assistência a um jogo como uma experiência, ninguém que se desloque a um estádio está à espera que essa experiência envolva pipetas, tubos de ensaio ou o azul de tornassol. [Exceptuando o Luis Filipe Vieira, que acusou azul no papel tornassol quando exposto a condições básicas (Alverca) e depois mudou para vermelho (Benfica) e ficou com uma certa acidez.] E até os incendiários, que também os há infelizmente nos campos de futebol, optam pelo very-light ou petardo antes de se comoverem com a chamazinha que emana do Bico de Bunsen. 

 

Se é o futebol-arte que nos anima a alma, ninguém que tenha visto a recepção do Sporting ao Boavista pode ter dado o seu tempo como mal-empregue. E a razão principal tem um nome: Nuno Santos. O destaque dado ao Nuno é curioso, porque aqui e noutros fora tanto lhe tem sido gabado o empenho e concentração competitiva como reclamada a falta de criatividade. Mas uma coisa é a técnica, que o Nuno tem de sobra, outra a habilidade específica no 1x1 (o drible), que não é a especialidade do nosso jogador. Embora a base de um bom jogador seja a recepção, o passe e o remate, por vezes a revienga, o engano, salta mais à vista. Mas são mais olhos que barriga. A verdade é que a técnica também pode ser criativa, e o Nuno ontem provou-o abundantemente. Candidato ao Prémio Puskas, o seu remate de letra foi arte pura, pelo que de uma certa forma o jogo terminou aí, as suas restantes ocorrências, do mesmo modo que a hora ou o local onde foi disputado, apenas servindo para enquadrar esse glorioso momento que tanto prestigiou (justificou?) o futebol. E como a esmerada expressão artística é também uma sublime forma de inteligência, a execução do Nuno mostrou uma inteligência prática. Porque, se o futebol é tempo e espaço, o nosso ala esquerdo poupou o tempo que demoraria a puxar a bola para a sua canhota e aproveitou o pouco espaço disponível com aquele toque de magia. Depois de há uns tempos atrás já nos ter deliciado com uma assistência para golo executada com igual perícia. Inspirado, ainda lhe saiu uma trivela na direcção da baliza, mas os deuses devem ter achado que já era de mais - além do golo épico, adicione-se uma assistência para... autogolo - e fizeram subir ligeiramente a bola. 

 

Gostei bastante da atitude do Sporting durante todo o tempo. O resultado só não foi superior porque continuamos a falhar nos detalhes, especialmente na precisão dos cruzamentos e no timing de soltar a bola por parte dos médios, que por vezes engasgam desnecessariamente o jogo. Apesar de algumas limitações técnicas, estou convencido de que temos um grande ponta de lança em construção em Alvalade. O Chermiti dá apoios frontais, como no lance do primeiro golo, procura a profundidade, desloca-se lateralmente, pressiona alto, nunca está parado. E arrasa uma defesa com as suas movimentações, abrindo espaços para os colegas. O nosso jogo torna-se muito mais fluido, alegre e produtivo. Só lhe faltam mais golos para ser o "Cherminator". Ah, e o Paulinho marcou. Pelo terceiro jogo consecutivo, provando-se que a concorrência é um bem em qualquer actividade. E quem o serviu, quem foi? O Esgaio. Terá sido a revolta dos "patinhos feios"? Ainda vamos a tempo de os ver como cisnes? Que continuem, que por mim está bem assim!

 

Tal como o Herman, parodiando o Baptista Bastos a propósito do 25 de Abril, no futuro muitos Sportinguistas entre si perguntar-se-ão onde estavam no dia em que o Nuno Santos fez "aquela" obra de arte. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Nuno Santos. Who else? Edwards e Ugarte continuam em grande nível. Coates está a subir de forma. Diomande impressiona no passe e condução de bola. Israel revelou atenção entre os postes e bom jogo de pés. 

 

P.S. No dia da obra prima do Mestre, a prima do mestre-de-obras que é a "apitagem" portuguesa voltou a pintar... a manta. De negro. Penálti claro por marcar sobre Trincão. 

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11
Mar23

Saint Obikwelu


Pedro Azevedo

O Record dá hoje à estampa que Saint Juste atingiu a velocidade máxima de 37,7 Km/h durante o longo sprint que lhe permitiu tirar o pão da boca a Gabriel Martinelli. Para terem uma ideia de valor, se convertermos os 37,7 Km/h em metros por segundo, obteremos 10,472 m/s. Ou seja, se o Saint Juste corresse os 100 metros à velocidade constante de 37,7 Km/h, tal significaria que completaria a distância em 9,55 segundos, abaixo do actual recorde mundial (Usain Bolt; 9,58s). Bem sei, neste cálculo adoptámos a velocidade máxima atingida como uma constante e não incluímos o tempo de inércia de reacção nos blocos (os sprinters geralmente só atingem o pico de velocidade entre os 50m e os 60m), mas já dá para ficarem com uma ideia da rapidez d'O Expresso de Groningen. A fazer lembrar o nosso Francis Obikwelu, medalhado olímpico. 

PS: Aquando do seu recorde mundial, Bolt atingiu uma velocidade máxima de cerca de 44 Km/h. Considerando um tempo de reacção ao tiro de partida proporcionalmente superior ao de Bolt, e o jamaicano era particularmente lento nesse item, Saint Juste faria no mínimo um tempo de 11,18s nos 100 metros (em relva e não tartan, e com chuteiras), ainda assim uma marca da qual só a elite do hectómetro se pode orgulhar (p.e. um amador praticante regular de corrida atinge uma velocidade máxima de 24 Km/h).

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09
Mar23

Tudo ao molho e fé em Deus

Canhões de pólvora seca


Pedro Azevedo

O Johan Cruijff, que sabia uma coisa ou outra sobre o jogo e não consta que tivesse uma doença oftalmológica, costumava dizer que nunca tinha visto um saco de dinheiro ganhar uma partida de futebol. Produto das escolas do Ajax, ele havia visto crescer uma equipa da formação do clube que para os obcecados do Transfermarket não teria qualquer hipótese na Europa. Porque o país não tinha história no futebol mundial, e assim a cotação dos miúdos era perto de zero. Até que a equipa se mostrou ao continente, marcando desportivamente a década de 70 e influenciando as décadas futuras. Ora, por falar em décadas, é "décadente" tanto se ouvir falar de orçamentos. Na antevisão do jogo, na televisão ou rádio, todo o papagaio falava que o plantel do Arsenal valia 3 ou 4 vezes mais do que o do Sporting. Evidentemente, isso não levava em linha de conta que no futebol inglês as cotações estão muito inflacionadas, daí a progressão geometrica que se verifica na cotação dos nossos quando se começa a falar em transferências para Inglaterra. Em todo o caso, o assunto era dado como encerrado: o Sporting estava condenado, faltando saber por quantos golos perderia. Custa a crer como nos demos ao trabalho de ir a jogo...  

 

Bom, mas isto aconteceu antes do jogo. Ou foi o pré-jogo, o jogo falado, aquele que precede o jogo propriamente dito e serve como barómetro da mentalidade do nosso clube e dos nossos adeptos. Porque, depois, olhos nos olhos e equipa adversária bem estudada, o Sporting teve tudo para ganhar. Bastaria para tal que o Paulinho tivesse marcado o terceiro e o Morita não fosse alvo de uma carambola provavelmente concebida nas trevas. Sim, esse minuto 62 marcou a transição entre a ilusão de tocar no céu e a ameaça de descida ao inferno. Ficámos então pelo purgatório, o que é um meio termo. Até à próxima quinta-feira, o que apesar de tudo é um prazo razoável para uma vida estar em suspenso. 

 

Quanto ao jogo jogado, o elevador de St Juste esteve sempre lá em cima, foi o melhor em campo. O meio campo aguentou-se como pôde, e se não pôde mais foi porque o plantel não tem jogadores que ofereçam garantias ao treinador nesse sector do campo para poderem entrar a substituir os titulares. Edwards impressionou enquanto teve pilhas, constando na ficha dos nossos dois golos, e o Trincão voltou à sua irrelevância. O Paulinho marcou um golo de oportunidade, mas falhou outro cantado, isolado perante o guarda-redes. Tive pena de não ver o Chermiti mais cedo em campo, mas, como o Transfermarket só lhe atribui 3 milhões de euros de valor, os nosso adeptos devem ter ficado aliviados por lhes terem poupado a humilhação de o mostrar muito tempo àqueles colossos bem-valorizados que o Arsenal aqui mostrou. Uma palavra para o Matheus Reis, que condicionou bem o Saka. E outra para o Inácio, com os cumprimentos ao Fernando Santos (parece que já o estou a ver a marcar por Portugal à Polónia...).

 

O Arteta não ponha o Odegaard e o Trossard, não, e vamos ver a  surpresa que a segunda mão lhe reservará. Enquanto houver vida, haverá esperança. E Transfermarket, respirem fundo os negacionistas (da história do clube) do costume. (Os nossos jogadores acreditam, e serão eles que irão a jogo.)

 

P.S.1: O Diomande jogou com a mesma naturalidade com o Arsenal e o Portimonense, não se intimidou com nomes. Aí está o exemplo de alguém que não é puxa-saco (de dinheiro)...


P.S.2: O Maguire custou quase 100 milhões de euros ao Manchester United e eu não trocaria uma perna do Gonçalo Inácio por ele.  

Tenor "Tudo ao molho...": St Juste

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09
Mar23

Contra os Canhões, marchar, marchar


Pedro Azevedo

Hoje há jogo grande em Alvalade, um daqueles desafios que fazem justiça à história do nosso clube. O Sporting nasceu para isto, para os grandes palcos, os duelos de suster a respiração, o medir forças com os maiores da Europa. Não será fácil, obviamente, mas a ambição expressa no lema do nosso fundador tem de estar lá, razão pela qual nada devemos temer. 

 

Este Arsenal faz muito lembrar o nosso Sporting de 2020/21. Na Premier League é o "underdog", mas não se tem dado nada mal. Assim, lidera um campeonato onde tem como contendores os 2 gigantes do noroeste inglês, Manchester United e Liverpool, um dos principais novos-ricos do futebol mundial, o Manchester City, e os rivais londrinos, Chelsea e Tottenham. O segredo do seu sucesso está na sociedade das nações que se estabeleceu a meio campo entre o músculo de Partey, o cérebro de Xhaka e a criatividade de Odegaard, uma parceria em que o ganês faz com que todos à sua volta sejam melhores, o suiço traz intensidade e caixa de rirmos e o norueguês encontrou o habitat certo para quem é um mestre em descobrir espaço entre-linhas por onde solta o génio da sua lâmpada. Um caso paradigmático da máxima de que o todo é superior à soma das individualidades, três jogadores que estavam a ficar aquém do talento que cedo lhes apontaram mas ligaram instantaneamente nos "Gunners" (canhões). Não se pense, porém, que o Arsenal se fica por aí. Não, a equipa torna-se especialmente perigosa quando a bola chega aos pés de Saka, um ala imprevisível, veloz, habilidoso e com golo. Também as movimentações radiais de Trossard são temíveis, assim como o vai-vem constante de Martinelli no corredor. (Do meio campo para a frente, esta é a melhor equipa do Arsenal, mas com a luta na Premier ao rubro é possível que haja alguma gestão do plantel.)

 

Para vencer o Arsenal, o Sporting tem de ter bola. Apesar de fazer falta no ataque, a eventual inclusão de Pote no meio campo permitir-lhe-á estabelecer um dueto central de jogadores cerebrais com Morita, reforçando a inteligência do nosso jogo. A chave estará aí, na conjugação da leitura de jogo dos nossos médios com a fogosidade dos alas Nuno Santos e Bellerin. A forma como se conseguirem articular, com e sem bola, será determinante no desfecho da partida, num jogo onde os interiores terão necessariamente de fechar os flancos. Assim, não podendo deixar de contar com os desequilíbrios de Edwards, é possível que Rúben Amorim venha a incluir Arthur no Onze devido ao seu maior compromisso defensivo. E, num jogo onde teremos de estar permanentemente ligados à electricidade e dar tudo, a energia contagiante de Chermiti poderá ser determinante, pelo que talvez Amorim aposte na sua titularidade.

 

Força, Sporting!!!

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08
Mar23

Além de Alvalade

O regresso de um velho nobre


Pedro Azevedo

Estreio esta nova rúbrica para Vos falar de uma história de encantar que está a ocorrer em França. E o protagonista não é o novo-rico Paris Saint Germain mas sim o velho nobre Stade de Reims, finalista da Taça dos Campeões Europeus em 1956 e 1959 (3-4 e 0-2, respectivamente, sempre contra o Real Madrid) e seis vezes vencedor do campeonato gaulês entre 1949 e 1962. Pelo clube fundado por Melchior de Polignac, um marquês que financiou a construção do edifício-sede, outrora passaram grandes jogadores como Jean Vincent, Roger Piantoni ou Just Fontaine (recordista de golos numa fase final de um campeonato do mundo, Suécia 58). Mas o jogador mais emblemático da história do clube ainda é Raymond Kopa, que jogou as duas referidas finais europeias, curiosamente uma por cada clube (Reims em 56, Real em 59). Desde os anos 60 afastado dos grandes títulos, o Reims tem protagonizado esta temporada um ressurgimento espectacular. Depois de um início titubeante em que o espectro de despromoção esteve mesmo em cima da mesa, o clube decidiu trocar o espanhol Oscar Garcia por um inexperiente belga, Will Still, de 30 anos, que nunca havia sido treinador principal na sua ainda curta carreira. E a realidade é que, 16 jogos depois, o Reims continua invicto para o campeonato, fruto de 8 vitórias e 8 empates, prolongando uma série de 18 jogos sem perder iniciada ainda pelo antigo treinador (2 empates antes de Still ter pegado na equipa), forma recente que lhe daria o terceiro lugar, a apenas 1 ponto do Marselha e a 3 do PSG, se considerassemos só a última quinzena de jogos disputados já com Still ao leme. Uma história para continuar a seguir com interesse, não só pelo regresso do Stade Reims à ribalta como também pela ascensão meteórica do Nagelsmann belga que o dirige no campo. 

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