Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

14
Jul20

Entre as brumas da memória


Pedro Azevedo

Entre brumas ou nevoeiros, uma visita ao purgatório e o inferno de (Alder) Dante ali tão perto, no dia 18 de Outubro de 1975 o Sporting deslocou-se às Antas e venceu o Futebol Clube do Porto por 3-2. O Porto tinha acabado de ir buscar Alhinho e Dinis a Alvalade, situação que aqueceu os ânimos entre os clubes. Branko Stankovic estava no banco dos dragões, o imortal Júlio Cernadas Pereira (Juca) era o treinador do Sporting. Chico Faria (9 minutos), Manuel Fernandes (em época de estreia, aos 15 minutos) e Baltasar (aos 74) marcaram para nós, Murça (19) fez o golo legal do Porto. O outro (57 minutos), que momentaneamente empatou a partida, validado e atribuído a Fernando Gomes, foi efectivamente concretizado por um apanha-bolas (José Matos) que sorrateiramente, a coberto do intenso nevoeiro que se fazia sentir, introduziu a bola dentro das redes de Vítor Damas sem que o árbitro da partida vislumbrasse a infração. Pese esta vicissitude, o Sporting venceu a adversidade e saiu do Porto com uma vitória. Quarenta e cinco anos depois, que tal seja inspirador para os leões que amanhã pisarão a relva do Estádio do Dragão. Força rapazes!

13
Jul20

Venham mais cinco!


Pedro Azevedo

Venham mais cinco (milhões). O Manchester United, que recebe o Southampton, tem hoje a oportunidade de se colocar em posição que dê acesso à Champions. Se os Red Devils ganharem, passarão para o 3º lugar da Premier League. Força Bruno!

 

P.S. Bruno Fernandes leva 7 golos e 6 assistências na Premier League. Mais, qual vendaval que se soltou, onda que se alevantou ou átomo a mais que se animou (obrigado José Régio!), o United com ele parece outra equipa. O efeito de contágio é mesmo notório em prima-donnas como Paul Pogba, que está outro, alegre, envolvido no jogo, solidário. Nada contra a promoção que outros (que não jornalistas) façam de Félix ou Pizzi, a quem desejo tudo de bom menos quando jogarem contra o Sporting, mas o nosso antigo jogador é outra coisa. Top, top, top.

bruno united.jpg

13
Jul20

O Feddalismo


Pedro Azevedo

O Feddalismo é um sistema político, económico e social que vigora no Sporting há muitos anos. Deve a sua formação à desagregação do império (terrenos, equipamentos desportivos, influência por via do ecletismo, passivo zero, dinheiro em caixa) criado por João Rocha, lançamento da SAD, menor importância dada aos sócios, necessidade de contabilisticamente alimentar o activo (os jogadores da Formação entram a zero no Balanço) e geração de "turnover". A consequência directa da existência deste sistema é a ausência do título nacional em futebol, a indirecta é a falência técnica da sociedade desportiva que sustenta o projecto(?) futebolístico do Sporting. Tolerado por algumas elites e na sua última versão fortemente suportado pelo actual tudólogo do regime (numa qualquer televisão ao pé de si), o Feddalismo ameaça acabar com o clube. Cumpre por isso mudar de vida e substituir este sistema autoritário e altamente demagógico, frequentemente populista e nada popular, explorador das expectativas dos vassalos adeptos, de economia estagnada, finanças depauperadas e política caótica, sem critério ou flexibilidade para admitir as mudanças que seriam lógicas e nos afastariam do mau caminho (qualquer caminho se faz caminhando, até o do abismo), em que mesmo um óptimo sinal como a (tardia) aposta na Formação é imediatamente contradito pela falta de critério na roda do mercado que melhor poderia enquadrar os nossos jovens jogadores. Porém, os observadores dividem-se quanto à opção a seguir no futuro. Para uns a solução é o capitalismo puro e duro, para outros, nos quais me incluo, a competência, objectivos concretos e um sistema de governação que dê garantias das melhores práticas de gestão. Uma coisa parece certa: no Sporting ainda vamos ter durante algum tempo a figura do senhor Feddal. Ao que parece, tal como no Excel, há quem acredite que o clube suporta tudo...

feddalDR.jpg

12
Jul20

A Oeste do Éden(I)

Matthew Le Tissier


Pedro Azevedo

Nesta série que hoje se inicia irei apresentar futebolistas extraordinários já retirados e com carreiras bem sucedidas que por um motivo ou outro foram como deuses sem Olimpo, na medida em que muitos dos seus feitos permanecem ainda hoje desconhecidos para a maioria dos adeptos do futebol.

 

Matthew Le Tissier é o exemplo acabado do parágrafo anterior, razão mais do que suficiente para muitos poderem ficar boquiabertos ao saberem que foi eleito este ano como o "Melhor Jogador de Sempre da Premier League" numa votação levada a cabo pelo Eurosport. 

 

Quem é então este mítico jogador de futebol? Le Tissier nasceu em Guernsey, uma ilha localizada no Canal da Mancha que embora sob dependência da coroa britânica não faz parte do Reino Unido. Estreou-se como profissional aos 17 anos no Southampton e por lá ficou até ao final da sua carreira, devoção ao clube que lhe terá custado um outro reconhecimento nacional e internacional. Porém, não lhe faltaram oportunidades para mudar de ares, pois durante os anos em que esteve no activo foi uma constante obsessão de Sir Alex Ferguson, que tentou levá-lo para o Manchester United em múltiplas ocasiões. Para além dos "Red Devils", os londrinos Chelsea e Tottenham também o cobiçaram sem sucesso, mesmo tendo feito ofertas que o tornariam o futebolista mais valioso da época. Menos mal, a sua lealdade aos "Saints" valeu-lhe a adoração dos adeptos do clube do sul de Inglaterra e o espirituoso epíteto de "Le God" que cruza o seu apelido de origem gaulesa com o requinte divino do seu futebol.  

 

Centrocampista, Matthew Le Tissier foi o sexto jogador a atingir a marca dos 100 golos na Premier League, o primeiro se considerarmos apenas os jogadores de meio-campo. No total obteve 161 golos em 443 jogos no campeonato inglês e 209 golos em 540 jogos pelo Southampton em todas as competições, tendo sido grandemente responsável pelo facto de os "Saints" nunca terem descido de divisão. Tal aliás esteve perto de acontecer numa mão cheia de vezes, mas "Le God" evitaria sempre tal desígnio. Numa dessas ocasiões, em 94/95, obteria 30 golos na temporada, marca só recentemente ultrapassada por Bruno Fernandes (32 golos) e que durante muitas épocas foi o recorde de golos para um centrocampista. 

 

Número 7 nas costas, Le Tissier foi um predestinado que enchia de magia o relvado do antigo "The Dell", a velhinha casa do Southampton. Dotado de uma grande visão de jogo que lhe permitia colocar a bola à distância em companheiros bem colocados ou inesperadamente enganar guarda-redes adiantados à linha de baliza, aliava essa característica a uma técnica de remate que era um misto de força e colocação. Além disso, a sua habilidade natural permitia-lhe recrear-se com a bola em fintas e simulações que faziam as delícias da multidão que pagava para o ver jogar. Todas estas qualidades permitiram-lhe ao longo dos anos disfarçar a sua pouca intensidade sem bola e falta de resistência ou velocidade. Ele era mais do tipo artista que com uma pincelada de génio pintava uma bela tela.

 

O facto de nunca ter jogado num grande inglês fez-se sentir nas convocatórias da selecção inglesa. Muitas vezes sentiu-se injustiçado, especialmente quando Glenn Hoddle não o convocou para o Mundial 98. Ainda assim, realizou 8 jogos pela equipa de Sua Majestade. 

 

Tendo vivido em Inglaterra, acompanhei de perto a carreira de Le Tissier e senti o respeito que os adeptos do mundo do futebol britânico tinham por ele, algo que se estendia a treinadores e jogadores da Premier League. Se pensam que estou a exagerar, nada como verem o vídeo que deixo em baixo. Enjoy!

11
Jul20

Tudo ao molho e fé em Deus

Jovane resolve!


Pedro Azevedo

Em "Repeated games with incomplete information", os matemáticos Robert Aumann, Michael Maschler e Richard Stearns, que contratados por uma agência governamental americana elaboraram estudos e estabeleceram padrões úteis nas negociações sobre desarmamento durante a Guerra Fria, explicam que quando as pessoas interagem, elas usualmente já o fizeram no passado e é esperado que o voltem a fazer no futuro. Este elemento de continuidade é estudado na Teoria dos Jogos Repetidos e visa prever fenómenos como cooperação, altruísmo, secretismo, confiança, castigo ou vingança. O ponto principal do livro é que há informação vital que pode ser retirada da acção de um jogador, sendo certo no entanto que por vezes o jogador pode esquivar-se a tomar certas acções de forma a evitar essa revelação (exemplo típico do póquer). Sendo altamente provável que Aumann, Maschler e Stearns não conheçam o futebol português, desconhecerão por certo que as conclusões do seu trabalho se aplicariam na perfeição à arbitragem portuguesa a ao Coates ("os jogadores"). Ao uruguaio, na medida em que erroneamente interpretou o sinal de que nada lhe serviria cair ao chão após um agarrão (Moreira de Cónegos) e no jogo de ontem libertou-se de quem o agarrava e cabeceou a bola para logo ser sancionado pelo árbitro, sendo assim sempre prejudicado independentemente do comportamento adoptado. Aos árbitros, porque transmitem informação contraditória e enganadora, ora não punindo um agarrão ao Coates e sua posterior queda na grande área do Moreirense, ora punindo o Coates por se ter libertado de um agarrão na grande área do Santa Clara. Tudo isto traz à colação a atitude tomada por Lorde Rothschild na Bolsa de Londres, em que, antecipadamente sabendo por um dos seus informadores da vitória do Duque de Wellington na Batalha de Waterloo, mandou o seu homem de confiança vender acções (criando a percepção nos especuladores de que os ingleses haviam perdido a batalha e provocando o pânico de venda no mercado) enquanto simultaneamente encomendava a múltiplas pessoas cuja ligação a si era por todos desconhecida que comprassem em baixa o máximo possível de títulos accionistas. Conclusão: em Portugal há sempre um vasto conjunto de agentes que contribuem para que os jogos do Sporting se repitam sempre com informação incompleta, aquilo a que os comentadores do fenómeno depois traduzem por critérios. Por isso, se calhar a solução é o Coates posicionar-se à entrada da área, fingindo que vai participar no lance e concentrando em si as atenções, para posteriormente alhear-se enquanto outros colegas atacam a bola. É que não temos Lorde Rothschild, mas fomos fundados por um visconde...

 

A primeira parte foi sofrível, de um futebol quase sem balizas. O Sporting devia ter marcado por Doumbia - o costa-marfinense quase era herói, ele que lateralizou e passou a bola para trás 99% do tempo - naquele lance em que Coates esteve envolvido, e o Sporar voltou a falhar escandalosamente um golo cantado pelo Jovane, à semelhança do já ocorrido com o Paços. O Santa Clara pouco fez também, mas quase se adiantou no marcador mesmo no fim da primeira parte. O intervalo chegou sem mais nada a registar. No regresso, tomámos o controlo das operações. Por duas ou três vezes o Quaresma isolou o Ristovski na direita e por duas ou três vezes o macedónio cruzou mal. Até que acertou, mas o excesso de altruísmo do Nuno Mendes acabaria por resultar em falta de eficácia. O Jovane lá ia criando os envolvimentos dentro da área, mas na hora da verdade sempre aparecia um pé açoriano a desviar a bola. Eis então que o Wendel faz um passe longo para as costas da defesa açoriana, a cair sobre a quina da pequena área. A bola parecia perdida, mas o Jovane, mesmo apertado, ataca-a e com o pé esquerdo põe a bola junto ao ângulo superior da baliza. Um golão! 

 

O Jovane marcou assim o seu quinto golo pós-desconfinamento. Dos seus pés saiu ainda uma assistência para um golo em Guimarães e o toque subtil de calcanhar de onde resultou uma penalidade e golo contra o Tondela, num total de 7 acções preponderantes para os 11 golos marcados pelo Sporting (63,6% de participação nos golos) neste período. Isto para além de uma série de passes para golo ingloriamente desperdiçados pelos seus colegas (só entre Vietto e Sporar já se perderam meia-dúzia). Por isso, quando as bancadas do José Alvalade puderem voltar a estar repletas de público, é possível que o espírito de Liedson se possa reviver num cartaz que diga "Jovane resolve!" (repeated games). Essa seria a única informação (completa) em que poderíamos confiar.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Jovane Cabral. Menções honrosas para Wendel, Quaresma, Nuno Mendes e Acuña. O argentino ajudou a ligar o jogo desde trás, experimentando mais uma posição no onze, mas acabaria uma vez mais por ser vítima da sua própria impetuosidade e vai ficar fora do jogo no Dragão (para um jogador do Sporting "à bica" do quinto amarelo o que parece sempre é, e essa é a informação vital que se pode retirar da acção de outros "jogadores").

jovane 5.jpg

09
Jul20

Ped Talks

Sustentabilidade


Pedro Azevedo

O futebol, pese a sua idiossincrasia, do ponto-de-vista da gestão tem semelhanças com outros negócios, outras indústrias. Veja-se o caso da indústria farmacêutica: a maioria dos recursos são alocados a R&D ("research&development", pesquisa e desenvolvimento). Ora, o modelo de sustentabilidade que preconizo para o Sporting, que assenta na Formação, pressupõe o necessário investimento nesses vectores de crescimento como forma de obtenção de rendimento desportivo e, simultaneamente, resultados financeiros. Pesquisa é encontrar desde cedo um conjunto de jogadores muito jovens com algo de distintivo, um dom diferenciador, que possam integrar as nossas escolinhas/escalão de infantis. Para isso, precisaremos de técnicos com especiais características de detecção de talento. César Nascimento ou Osvaldo Silva eram homens com uma sensibilidade especial para isso e, literalmente, fizeram escola. Adicionalmente, tem de se criar uma base alargada de contactos, de forma a que se possa chegar primeiro. Nesse processo, uma boa rede de olheiros é necessária. A utilização de antigos jogadores que vivam nos diversos distritos do país, o aproveitamento do conhecimento no terreno dos núcleos regionais e a informação proveniente das várias escolinhas (franchisadas) do clube é essencial. Detectado o talento, segue-se o contacto com o jovem e seus pais. É necessário convencer os progenitores de que o Sporting é a melhor opção para o futuro do seu filho. Não é de ânimo leve que um pai entrega um filho a um clube, principalmente quando o agregado familiar vive muito longe de Alcochete. Há a questão dos estudos, a dor do afastamento para quem vive longe, a questão da mobilidade para quem está mais próximo, a escolha do melhor clube. O Senhor Aurélio Pereira sempre se destacou pelas garantias que oferecia aos pais, capacidade de persuasão e sentido de responsabilidade, para além das suas capacidades organizativas e dons de prospecção de talento. Certamente tem feito escola, mas o Sporting tem vindo a atrasar-se face à concorrência essecialmente devido à escassez de recursos alocados aos olheiros e rede de prospecção, mas também devido ao isolamento de Alcochete face à rede de transportes. Enquanto o Seixal está a 15 minutos de barco de Lisboa, o acesso a Alcochete é bem mais complicado. Menos mal, finalmente parece haver uma aposta nos jovens na equipa principal, algo que poderá trazer benefícios ao clube também por via de uma alteração da percepção que os pais terão sobre as oportunidades que serão dadas aos seus filhos de virem a jogar pela equipa principal.

 

Bem sei que a primeira lei económica enuncia que os recursos são escassos, mas é exactamente por isso que se devem estabelecer estratégias de gestão desses recursos. Se há investimento que possa ter elevado retorno é o efectuado na Formação. Temos de investir para podermos detectar primeiro. Por outro lado, há que pensar noutras opções para além de Alcochete. Este é um local físico (os terrenos, inclusivé, ter-se-ão valorizado com a perspectiva do aeroporto e procura imobiliária geral), importante é a propriedade intelectual que temos nos nossos quadros, pelo que me agradaria uma solução alternativa eficiente do ponto-de-vista de transportes e escolas, que não roubasse tanto tempo aos jovens e suas famílias.

 

Adicionalmente, cumprida a fase da pesquisa, entramos no Desenvolvimento. O Sporting tem de ter um conjunto de técnicos com capacidade formadora, tanto a nível futebolistico como humano. A Cultura Sporting começa aqui. Nas atitudes, nos comportamentos, na divulgação do que é o Sporting, a sua história, os seus heróis, os valores do clube. O rendimento escolar também deve ser monitorizado regularmente. Entrando na questão desportiva, é fundamental que haja um plano de desenvolvimento por jogador. Que passe pela componente física (uma previsão de crescimento pode dar dicas sobre a posição a ocupar futuramente no terreno), táctica (só nos escalões competitivos) e técnica. Nesta última vertente, verificamos que poucos jovens chegam a idade adulta com boa técnica de remate, com o pé ou de cabeça. É mais vulgar vermos aparecer jogadores com velocidade e capacidade de finta, com recepção orientada e passe, mas bons rematadores escasseiam. Existem exercícios específicos que visam melhorar o desempenho de remate, seja com os pés ou a cabeça. A correcta orientação do corpo e a distância do pé para a bola saem beneficiados dos conhecimentos existentes sobre física, exercícios de foot-volley que estimulem o último toque de cabeça (de cima para baixo, junto à rede) ajudarão a aprimorar a técnica do cabeceamento (popular na escola do Ajax), pelo que haverá, certamente, trabalho a desenvolver nessa área. Mais uma vez, é curial dotar recursos. Precisamos dos melhores técnicos, dos melhores formadores e temos de reforçar essa equipa e não estar permanentemente a perder referências para o nosso rival de Lisboa.

 

Não nos podemos esquecer que o Sporting é um clube, pelo que a prioridade deve ser dada ao desempenho desportivo. Nesse sentido, a filosofia deve ser formar para ganhar e não formar para vender. Se tivermos custos controlados, o que advirá de uma aposta na Formação, a pressão sobre a venda será muito menor, pelo que o clube só terá de vender mediante uma vantagem considerável para si e para o jogador.

 

Olhando para o nosso R&C e desde a entrada em cena do contrato com a NOS verificamos que o valor das nossas Vendas e Prestação de Serviços andará actualmente à volta dos 75 milhões de euros. Ultimamente a entrada na Champions tem-se tornado mais difícil dada a descida no ranking da UEFA de Portugal. Todavia no final da próxima época voltarão a qualificar-se automaticamente dois clubes portugueses para a fase de grupos da Champions, havendo ainda a possibilidade de um terceiro clube se qualificar caso ultrapasse duas eliminatórias. Ainda assim não deveremos em termos orçamentais dar por adquirida a entrada na Champions, pelo que os custos devem por uma questão de prudência ser indexados apenas à participação na Liga Europa. Assim, considerando 75 milhões como o total dos Proveitos, discriminando teríamos cerca de 25 milhões de DireitosTV, 15 milhões de bilheteira e bilhetes de época, 15 milhões de publicidade e patrocínios e 10 milhões como receitas de distribuição da Loja Verde e outros e 10 milhões da Liga Europa como principais itens. De seguida, indexaria os Custos Operacionais aos Proveitos Operacionais, adoptando uma política de Resultado Operacional ZERO. Atendendo a que gastamos cerca de 30 milhões anuais em Fornecimentos e Serviços Externos (FSE), mais 5 milhões são consumidos em Provisões e cerca de 70 milhões são gastos em Custos com Pessoal, torna-se claro que teremos de apertar o cinto. Deste modo proponho um corte nos FSEs para 20 milhões e uma descida dos Custos com Pessoal para 45 milhões, que se juntariam a custos de mercadorias vendidas e depreciações de cerca de 10 milhões. Este valor de Custos com Pessoal parecendo baixo, ainda assim estaria em linha com o valor gasto na melhor época de Jorge Jesus no Sporting (15/16, 2º lugar, 48,8 milhões) e quase o dobro do que foi gasto no tempo de Leonardo Jardim (2º lugar, 25 milhões) ou Marco Silva (3º lugar, 25,1 milhões). Estou certo de que com a eliminação da recorrente redundância na contratação de jogadores em quantidade, que implicam investimento elevado (50 milhões num ano) e aumentam os custos salariais, bem como com uma maior aposta na Formação (no seu primeiro contrato, os jovens usufruem de uma retribuição relativamente baixa), a poupança face à extravagância que foi o custo anual incorrido nestas últimas 3 épocas nos permitirá encaixar os Custos com Pessoal num patamar de Sustentabilidade, sem prejuízo de continuarmos competitivos (não reduziria os custos com as modalidades). Assim, regressariam alguns dos jogadores emprestados, pelo que só iríamos ao mercado buscar 2-3 jogadores de qualidade indiscutível (proponho até que estatutariamente haja um limite ao número de contratações, o que não só nos faria poupar recursos financeiros como promoveria as compras em qualidade em vez de aquisições por catálogo e a grosso). Teremos de fazer mais, mas principalmente melhor, com o orçamento que temos, ainda assim, repito, quase o dobro do disponibilizado a Leonardo Jardim, técnico que se classificou em segundo lugar no campeonato nacional. Partindo de uma Resultado Operacional zero, e mesmo contando com um valor de amortizações anuais (15/20 milhões) do plantel e custos financeiros que têm vindo a subir, seria possível a obtenção de consistentes resultados de exercício positivos, recorrendo a alguma venda quando não atingido o objectivo da Champions, pelo menos até que não se consiga elevar os Proveitos provenientes das vendas de gamebox e do merchandising das lojas do clube. Com esta política e também afectando parte dos rendimentos anuais do contrato da NOS, estou convencido de que se conseguiria uma redução do Passivo em cerca de 25% bem como a recompra total das VMOCs, objectivos que seriam materializados nos próximos 4 anos.  

 

Uma Sociedade com este tipo de performance financeira (e, estou em crer, também desportiva) será altamente atractiva para investidores. Defendo que o Sporting deve ter uma boa relação com todos os stakeholders, mas também que deve aumentar ao máximo a sua participação por via da recompra das VMOCs. Para a Holdimo, entre ter 30% da actual realidade ou ter 10% de uma sociedade bem gerida e com resultados de exploração interessantes, certamente seria mais vantajosa a segunda opção. Estas coisas devem ser conversadas, olhos nos olhos, numa relação que se pretende sadia entre as partes, mas sempre tendo em consideração o superior interesse do Sporting Clube de Portugal.

 

Adicionalmente, é para mim importante que o Sporting seja visto como um clube que aplica boas práticas e transparente, pelo que gostaria de erradicar todo o ruído históricamente existente à volta das transferências de jogadores e credibilidade de entidades que se relacionem com o clube. Assim, constituiria um Comité de Compliance, independente, composto por personalidades com provas dadas, que pudesse analisar "in loco" todas essas questões (que só chegam ao Conselho Fiscal e Disciplinar mais tarde), emitir o seu parecer e as suas recomendações e inclusivé ter o poder de veto em determinadas negociações. Para além disso, caberia a esse Comité rever todo o tipo de procedimentos existentes no clube, códigos de conduta (colaboradores, sócios, claques) e propor medidas que ajudem à transformação do futebol português (código de ética do agente desportivo...), algo que tenho vindo a abordar em Posts anteriores.

 

Penso que a visão para o clube e para a SAD deve ser comum. Por isso, entende que o presidente do clube deve, também, ser o presidente da SAD. Com a criação de orgãos que vão reforçar a transparência da(s) instituição(ões), julgo que ficam asseguradas as condições para que tudo corra pela normalidade. Adicionalmente, proporia em Assembleia Geral uma limitação de mandatos do presidente do clube a 2 mandatos e uma maioria absoluta como condição necessária para eleger um presidente (hipótese de uma 2ª volta). Com isso pretenderia evitar o sempre problemático apego ao poder e estimularia o trabalho em equipa e, correndo bem os mandatos, a preparação de novas lideranças, sujeitas obviamente ao escrutínio dos sócios. Por outro lado, uma maioria absoluta daria a um presidente outras condições de governabilidade. Um clube onde haja muita dispersão de votos é um clube fragilizado. Gostaria também que fosse claro que não me revejo na forma como sucessivos presidentes veem ideias diferentes. O clube é de todos e quem lidera "está" presidente, não "é" presidente. Defendo um clube renascentista, em que fluam as ideias e a participação dos sócios. Nesse sentido, convidaria todos os candidatos eleitorais, bem como profissionais que efectivamente se destaquem pela sua competência e seriedade em diversos sectores de actividade, para um Conselho Consultivo que se reuniria com uma periodicidade trimestral (igual à publicação das contas). A ideia seria envolver mais pessoas num bem que é comum, de todos, de forma a haver uma efectiva representatividade do Universo Leonino, procurando também trazer para o seio do clube sangue novo

 

O Sporting precisa de maiores proveitos e entendo como importante a dinamização dos núcleos nesse sentido. Estes são um bom canal de vendas (para além da bilhética) e potenciadores de negócios para o clube. Estão nas regiões e devem estar ligados ao tecido económico das mesmas. Poderão servir para aumentar o número de associados, incrementar as vendas de produtos e serviços do clube e como polo aglutinador de patrocinadores para o clube através do conhecimento das forças vivas da região e suas necessidades de promoção das marcas. Deveriam ter Promotores comerciais, pagos à comissão, na venda de produtos/serviços, num modelo que poderia atribuir um "fee" maior ao núcleo, ficando estes responsáveis pelo pagamento dos comerciais, ou um "fee" menor, assumindo o Sporting os compromissos com esses comerciais. Gostaria que um dia nos fosse mostrada uma discriminação dos proveitos obtidos na Loja Verde, Rua Augusta, "on-line sales" e outros canais, de forma a perceber de que forma se podem melhorar as vendas nos diversos canais de distribuição. Nos escrutínios eleitorais, os sócios espalhados pelo país poderiam votar directamente num núcleo próximo da sua residência (haveria um pré-determinado número de núcleos envolvidos no processo eleitoral), recenseando-se junto deste para o efeito. Um voto electrónico presencial, com delegados das várias listas presentes, observadas as necessárias garantias de fiabilidade e integridade do sistema. 

 

Gostaria que o Conselho Directivo do clube tivesse um Pelouro da Juventude. Para quem não pratica desporto federado no clube e é jovem, a oferta é pouco mais do que umas idas ao estádio ou pavilhão para apoiar as equipas do clube. A juventude não são só as claques (muitos deles já avôs) e temos de estimulá-los. Olhando para as novas tendências e para a emergência dos desportos radicais, o Sporting poderia abrir as portas para quem se quisesse iniciar em modalidades como o kite-surf, escalada, paraquedismo, à semelhança do já ocorrido com o surf (também alvo de proposta minha em Julho de 2018), actividades pagas e com um custo mais baixo para novos associados, iniciativa que creio iria contribuir para chegarmos a mais sócios e mais cedo. Adicionalmente, e em conjunto com a Fundação Sporting, estimularia programas de voluntariado para jovens, em acções de responsabilidade social.

 

Em relação à relação do clube com os seus sócios, proporia o seguinte:

  •  CRM Sporting: os sócios têm diferentes competências, trabalham em diferentes sectores de actividade, têm skills que podem ser úteis ao clube e à sua Direcção. A partir do momento em que é extinto o Conselho Leonino, ainda mais importante é explorar o conhecimento que estes sócios têm sobre matérias específicas, podendo e devendo a Direcção pedir-lhes apoio na implementação de certos projectos ou, simplesmente, via algum conselho que possa ser dado, sempre em complemento das equipas de colaboradores do Sporting. Para que a Direcção possa conhecer melhor os seus sócios tem de promover um novo cadastramento dos mesmos (os dados preenchidos aquando da adesão são insuficientes). Proponho que se olhe para as melhores práticas da banca, a qual tem hoje em dia um formulário obrigatório denominado Know Your Customer (KYC), que inclui dados complementares (profissionais e áreas de interesse). Depois é adaptá-lo à relação entre um clube e seus sócios (os dados patrimoniais já seriam talvez intrusivos) e lançá-los numa plataforma CRM. No passado, criei uma de raíz através do Microsoft Dynamics, a custo muito baixo. Outro aspecto relevante é esta ferramenta também permitir fazer uma segmentação dos sócios, por "bucket" etário, geografia, profissão, interesses, etc, adaptando a nossa oferta de produtos/serviços a cada segmento. Preocupação que tenho nesta matéria: Protecção de dados. Associado ao CRM, geralmente existem diferentes níveis de prioridade de acesso aos dados do cliente/sócio. Alguns dados deveriam permanecer confidenciais para todos os colaboradores e só poderiam ser acedidos pelo Conselho Directivo/Conselho de Administração e pelo Director de Marketing. Tenho um exemplo muito desagradável no passado, com outra Direcção, quando, através de um Contact Center, uma determinada companhia de seguros começou a ligar-me diariamente e às horas mais impróprias (durante reuniões e/ou à hora do jantar) no sentido de que lhes comprasse um  determinado produto. Isto durou meses - todos os dias ligavam-me pessoas diferentes - apesar de, desde o início, ter referido não estar interessado. Quando lhes perguntei como tinham obtido os meus dados referiram-me que o Sporting lhes tinha vendido a base de dados dos seus sócios. Fiquei indignado é só não tomei uma providência por ser o meu clube do coração (já não me recordo - sou sócio há 40 anos - se aquando da filiação havia algum campo que permitisse a transmissão de dados, mas sendo eu menor na altura duvido que isso fosse legalmente permitido). 
  •  Provedor do Sócio/Secretário Geral: não sei se existe; no site, em lugar de destaque, não consta. Como podem os sócios encaminhar sugestões para o clube? Ou queixas sobre um determinado abuso por parte do clube? Seria importante, em ambiente fechado ou aberto a outros sócios, os sócios terem um espaço onde pudessem apresentar sugestões de melhoria de determinados serviços ou ideias, visões, para o futuro do clube. O tipo de conteúdo é diferente de uma Linha de Apoio, pelo que deveria haver um canal próprio, "on line", criado para o efeito.  
  • Sócios - iniciativa Glória do mês: iniciativa que visaria homenagear mensalmente um atleta que pelo seu palmarés e comportamento social tenha sido uma referência dos valores que apregoamos. Do futebol ao atletismo, do hóquei ao basquetebol, do andebol ao futsal e restantes modalidades seria prestada homenagem a essas figuras, o que permitiria aos mais jovens tomar consciência de quem foram essas pessoas e aos mais antigos recordá-las com saudade. Armando Marques (tiro), vice-campeão olímpico (quem conhece?), Chana (hóquei, campeão do mundo, para mim, ainda melhor que Livramento, quem conhece?), Rita Villas-Boas (trampolins, vários títulos, quem conhece?). Isso permitiria às pessoas, durante esse mês, tomar contacto com a história desse atleta e da sua modalidade, com peças na SportingTV, jornal do Sporting, Site do clube e iniciativas próprias no Estádio José Alvalade e no Pavilhão João Rocha antes dos jogos das nossas equipas, reforçando o orgulho de ser Sporting e o "awareness" sobre uma modalidade específica.  
  • Stock-out Loja Verde: mensalmente, haveria um dia com preços bastante mais baixos, com colecções "retro" de outras épocas, vendidas a preço muito acessível. 
  • Dia de Sporting: trabalho de pré-época, de conjugação dos calendários dos jogos no Pavilhão com os jogos no Estádio, permitindo maior afluência de público, envolvendo famílias. Criação do Pack Dia do Sporting, de bilhete único para utilizar no estádio e pavilhão, no mesmo dia. 
  • Sócio do mês: em todos os jogos em Alvalade, o Conselho Directivo (por mérito ou por sorteio, critério a definir) escolheria alguns sócios, os quais teriam direito a assistir aos jogos em Alvalade com a sua família (4 pessoas, p.e.), entrar em campo com as equipas, dar um pontapé de saída simbólico, receber uma bola autografada por todos os jogadores e treinadores, efectuar uma visita guiada a Academia e Museu, participar nas homenagens ao atleta do mês (Glória), entrevistas a SportingTV e Jornal do clube dando conta da sua experiência de envolvimento com o clube. Nota: poucos sócios reunem condições para terem a familia com eles nos jogos durante toda a época. Só aqui em casa somos cinco, pelo que se torna incomportavel caso não queiramos naturalmente discriminar qualquer dos filhos. 
  • Colecção de cromos GLÓRIAS do SPORTING: uma colecção de cromos digital (com um chip que possa ser lido em aplicativo) com os craques de todos os tempos do nosso clube e vendida na Loja Verde;
  • Site do Sporting: carece de urgente reformulação. Paupérrimo em termos de conteúdos e da sua actualização (procurar as equipas de Formação é um exercício surrealista). É muito pobre, tem muito poucas referências à nossa história e à dos nossos atletas e é pouco funcional e interactivo (a não ser para pagamentos de quotas ou gamebox). Aqui há tempos, um nosso comentador (JHC) deu conta de um site brasileiro, "Esquadrão Imortal", que faz mais jus à carreira de Peyroteo e dos 5 Violinos do que qualquer publicação leonina (exceptuando os livros de Fernando Correia). No mês dedicado a um atleta, poderiam ser incluídos no site peças diárias sobre todos os relevantes atletas dessa modalidade onde o homenageado se destacou. 

 

Há muita a fazer a nível de merchandising do clube. O merchandising é um elemento essencial na afirmação de uma marca. Na minha opinião, não faz sentido o Sporting abrir uma loja na Rua Augusta, de dimensão bem mais reduzida do que a que o Benfica tem na mesma rua, apenas dois quarteirões abaixo. Aquilo que deveria ser considerado como muito positivo – abertura de uma loja numa zona com enorme circulação de pessoas, muitas delas de cidadania estrangeira, aspecto importante na internacionalização da marca – acaba por ficar indelevelmente marcado pela comparação pela negativa face a um rival, algo facilmente percepcionado por qualquer transeunte e que põe em causa a imagem do Sporting como a maior potência desportiva nacional. Se queriam competir na mesma zona não poderiam ter arranjado um espaço pelo menos de dimensões idênticas às do rival? Estas coisas têm de estar integradas com a estratégia de afirmação do clube e serem transversais a todos os pelouros atribuídos no CD/CA. Outro aspecto que tem vindo a ser negligenciado: os estágios de pré-época na Suiça não têm sido aproveitados para divulgar a nossa marca internacionalmente, nem para satisfazer a procura dos emigrantes portugueses. Por incrível que pareça, o Sporting não transportou nenhum material de merchandising consigo nestas viagens onde foi visível a presença de vários emigrantes com camisolas desactualizadas. Dado que a equipa actuou em diversas cidades suíças, porque é que o Sporting não fez deslocar um camião itinerante da Loja Verde? O mesmo se aplica aos nossos jogos fora de casa, em Portugal, que também não costumam ter a presença de qualquer merchandising do clube, algo que acaba por ser um sonho para a contrafacção. Gostaria de abrir mais lojas do clube em diversas zonas geográficas do país. Não podemos pensar no universo de sócios apenas nos momentos eleitorais, temos de pensar primeiro nos 3-3,5 milhões de adeptos espalhados pelo país e dotá-los de oferta do clube.

 

(Vou continuar a publicar aqui as minhas ideias para o clube. Gosto de transparência e penso que as pessoas devem ser informadas sobre as intenções de quem apresenta ideias para o clube, de forma a não serem instrumentalizadas. Com toda a franqueza, até há 2 anos atrás nunca tinha estado no meu pensamento qualquer ambição no meu clube que não fosse o apoio incondicional às equipas das suas várias modalidades, mas a boa receptividade e o incentivo por parte de vários Leitores do que fui escrevinhando acabou por me fazer reflectir maduramente sobre o assunto e tomar uma posição. Por isso, sem tacticismos nem receios, não escondo o meu interesse num futuro acto eleitoral, mas para mim o mais importante será sempre o clube poder aproveitar as ideias dos sócios (se quem dirige nelas vir algum valor) e as colocar em prática para o bem de todos os que partilham este amor pelo Sporting. Por isso continuarei a disponibilizá-las aqui, à semelhança do que fiz em Julho de 2018. As PED Talks voltarão com a "Sustentabilidade do Futebol Português".)

 

PED Talks - Princípios, Estratégia, Desporto

simbolosporting.png

08
Jul20

Mais uma oportunidade perdida


Pedro Azevedo

Para quem tanto apregoa a união, o grupo de trabalho criado para a introdução do voto electrónico é uma oportunidade perdida. Em vez de procurar uma Comissão independente que envolvesse diversas sensibilidades do universo leonino, trouxesse o melhor da sociedade civil (gente reconhecida pela sua idoneidade e competência) e promovesse consensos, a iniciativa de Rogério Alves cinge-se apenas os seus colegas da Assembleia Geral e membros do Conselho Directivo. Atendendo a questões de segurança e de integridade do voto que se colocarão, vidé polémica levantada em casos recentes envolvendo associações profissionais - não há sistemas infalíveis e a organização do Sporting e/ou de quem supervisione o acto eleitoral não se pode comparar à de uma Comissão Nacional de Eleições - , seria do mais elementar bom senso que a bem da transparência se eliminassem potenciais focos de conflito de interesses. Para além de que existem hoje em dia no clube questões bem mais importantes a priorizar. Mais uma vez, quem dirige o clube a fechar-se sobre si mesmo como uma ostra, ignorando um mar leonino depois tão frequentemente visto como encrespado. Por falar em ostra, suspeita-se da existência de uma pérola da gestão. É o André Bernardo e está em todas, do Conselho Estratégico até à Revisão Estatutária. Um Super-Director. Afinal, não é só dentro das quatro linhas que do banco de suplentes saem armas secretas. 

07
Jul20

Tudo ao molho e fé em Deus

O Restaurador Olex e a dura lex, sed lex


Pedro Azevedo

Jogo na segunda-feira às 9 da noite, em Moreira as bancadas estão vazias mas há uma varanda desconfinada sobranceira ao estádio onde o distanciamento social é uma ilusão. Sem praia, também o Portugal rural a mandar às couves as recomendações da Drª Graça Freitas. No relvado a coisa parece um concerto dos Stomp em que tudo serve para martelar. Não há canelas, tornozelos, tendões de aquiles ou dedos dos pés que resistam. Dois canhotos, Abdu Conté e Borja, são os líderes metaleiros. Só os guarda-redes parecem a salvo. Mas eis que o treinador do Moreirense entra na festa:

- Pasinato, ó Pasinato! - , grita para o relvado o Ricardo Soares.

- Sim, mister?

- Atira-te para o chão! Para o chão!

- E dói-me o quê?

- O gémeo. (Ricardo Soares caricatamente contorce-se e simula um boneco desarticulado por uma pretensa força que incide sobre a barriga da sua perna.)

- Ah, ok!

Paragem interminável do jogo de forma a que Steven Vitória possa aquecer à vontade e o treinador engendrar um novo sistema táctico que resista à inferioridade numérica. Tudo à vista de toda a gente, sem vergonha, na segurança da sua impunidade. Bem podia ser uma Farsa de Aristófanes, mas não, é o futebol português em todo o seu "esplendor" (caro Fernando Gomes, esta a ver porque o produto não é exportável?). O mesmo futebolzinho onde depois do martelo vem a foice e o Jovane é cortado rente como a seara dentro da área moreirense perante o olhar indiferente de Tiago Martins e o silêncio conivente de Jorge Sousa, o VAR de plantão. Tudo paradigmas da ideologia "comunista" que ontem grassou em Moreira, acérrimamente defensora da igualdade e da co-propriedade (dos pontos).

 

O jogo? Em terra de cónegos é possível que o "Diácono Remédios", habitual zelador dos costumes das tácticas neste blogue, se venha politicamente manifestar, mas o estimado senhor que tenha paciência pois a verdade é que ontem foi de novo visível que, com 2 médios jogando muito perto um do outro, o fosso para os 2 interiores que jogam por detrás do ponta de lança é enorme, o que leva sistematicamente a circularmos a bola em "U", procurando assim através da Ala dos Namorados flanquear o opositor. A alternativa é o recúo dos interiores, ficando então Sporar numa ilha, longe de tudo e de todos. É curto, embora pontualmente a inspiração de um jogador possa resolver. Ultimamente esse jogador vinha sendo o Jovane, isto é, o Jovane que não é loiro nem branco de carapinha e é natural (a marcar golos) como o Restaurador Olex. Mas esse não esteve ontem em Moreira de Cónegos. O Max também poderia não ter estado, visto que não foi chamado a realizar uma defesa. Pelo menos a remates de jogadores do Moreirense...

 

Desta vez jogaram menos miúdos. Com isso vieram à superfície algumas limitações no plantel. Atente-se no Neto. O Neto é bom rapaz, respeitador do clube e da sua história, mas precisa compreender que não tem de ler toda a enciclopédia luso-brasileira antes de fazer um passe. Outro mestre na arte de engonhar na hora da saída de bola é o Borja. O colombiano, naquele seu jeito vai-que-não-vai com passes laterais dentro da área à mistura, provoca calafrios constantes ao bom do adepto. Ontem safou-se de boa após entrada imprudente e pouco católica sobre um cónego. Depois há o Ristovski, sempre a cruzar contra o primeiro boneco que lhe apareça pela frente. A coisa só melhorou quando o Acuña foi improvisado como central pela esquerda, o Nuno Mendes alargou na ala e estendeu-se ao comprido de forma literal e não idiomática e o Wendel entrou e começou a transportar jogo para a frente. 

 

Com os descontos, o Sporting esteve cerca de 45 minutos em superioridade numérica no relvado. Sensivelmente meia-parte em que a bola circulou lenta, lentamente como quem clama por praia em jogos com trinta graus à sombra. O Sporting não tinha sido melhor que o Moreirense na primeira parte e não soube traduzir o domínio no segundo tempo em oportunidades de golo. Talvez se o Geraldes não se tivesse lesionado as coisas pudessem ter sido diferentes, na medida em que houve vários momentos do jogo em que um passe de ruptura e uma superior visão de jogo teriam feito a diferença. De outro modo ficámos com pouco de que nos queixar. Ou ficaríamos, pois tempo ainda houve para o momento de dramatismo em que o Tiago Martins foi ver umas imagens e concluiu que o agarrão ao Coates fazia parte das leis do jogo ("dura lex, sed lex"). Mas quem nada propôs e nenhuma medida se lhe conhece até hoje para alterar este paradigma do futebol português também pouca moral tem para reclamar. Afinal, de que serve esgrimir argumentos contra os moinhos como D. Quixote de segunda-feira enquanto os outros enchem a pança? (A UEFA e a FIFA é que parecem não ter dúvidas sobre a sua qualidade, pelo menos a atestar pela ausência nos relvados dos árbitros portugueses nas ultimas competições internacionais de seleções organizadas por esses dois organismos que superintendem o futebol.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Wendel. Menções honrosas para Coates e Nuno Mendes. 

 

P.S. Uma coisa é termos a consciência da grandeza histórica do clube, daquilo que somos, o que é Ser Sporting. Outra coisa, bem diferente, é os adeptos embandeirarem em arco e, perante o silêncio conivente de uma Direcção que vê nessa ilusão uma forma de sobrevivência, começarem a acalentar o sonho do título em 2020/21. Isso só trará desilusão e consequente instabilidade social ao clube, pelo que é importante haver desde já um discurso de verdade por parte de quem é competente para o efeito. É preciso perceber que há que ter paciência com os miúdos e dar-lhes margem para errarem e crescerem. Simultaneamente, não havendo dinheiro para satisfazer todas as posições em défice, há que definir prioridades de mercado e procurar apenas qualidade. Ao mesmo tempo, urge libertar a folha de pagamentos de imensas redundâncias que nada acrescentam em campo e tantos constrangimentos criam à nossa tesouraria e conta de exploração. É impossível resolver o problema de falta de jogadores de referência em apenas 1 ano, mas se resistirmos a ir ao mercado em quantidade como no passado recente e procurarmos apenas qualidade de uma forma efectivamente cirúrgica (2-3 jogadores por ano), fazendo também regressar alguns dos emprestados (Bragança, Dala), então será possível lutarmos pelo título até ao fim em 2021/22. Portanto, duas coisas serão essenciais no futuro próximo: manutenção de expectativas baixas associadas ao crescimento dos miúdos e escolha criteriosa da qualidade que queremos importar para o plantel. Se estas premissas não forem cumpridas e o populismo se sobrepuser à razão, então teremos definitivamente comprometido o nosso futuro. Mas se tudo for cumprido, então estarei disposto a apoiar esse caminho. 

tiagomartins2.jpg

06
Jul20

"Buona fortuna", Demiral!


Pedro Azevedo

Merih Demiral, o nosso antigo jogador que completou a formação em Alcochete, está prestes a voltar à competição. Após ter saído do Sporting, a boa prestação nos turcos do Alanyaspor valeu-lhe uma transferência para Itália. O Sassuolo recebeu-o de braços abertos e por ele pagou 8 milhões de euros. O excelente desempenho na equipa da Emilia-Romagna motivou a cobiça da Juventus, que dispendeu 18 milhões de euros para poder contar com os seus serviços. A tarefa não era percepcionada antecipadamente como fácil à luz da recém-contratação do holandês Matthijs de Ligt por 70 milhões de euros, mas o turco não desistiu e quando teve uma oportunidade não a desperdiçou. Conseguiu então uma sequência de 4 jogos consecutivos a titular na Serie A (a que se deve adicionar 1 jogo da Champions), infelizmente interrompida por uma rotura nos ligamentos cruzados do joelho. Uma fatalidade ocorrida num jogo, em Roma (12 de Janeiro deste ano), onde estava a realizar um desempenho brilhante, já com um golo marcado. 

 

Actualmente avaliado em 27 milhões de euros pelo Transfermarket, Demiral retornou aos treinos em 13 de Maio e segundo a imprensa transalpina poderá voltar a jogar no dia 20 deste mês, quando a Juventus receber a Lazio naquela que poderá ser a partida que definitivamente encaminhará a Vecchia Signora para a 9ª vitória consecutiva no campeonato italiano (2ª de Cristiano Ronaldo). Tudo de bom para Demiral e que os azares não mais interrompam uma promissora carreira. Buona fortuna! 

demiral juventus.jpg

06
Jul20

The Good, the Bad and the Ugly


Pedro Azevedo

clubes_sporting_benfica_porto.jpg

Morreu um dos meus heróis: Ennio Morricone faleceu hoje, aos 91 anos. Autor imortal da banda sonora dos westerns "The Good, the Bad and the Ugly" e "Once upon a time in the West", a sua parceria com Sergio Leone estendeu-se mais tarde a outra master-piece, "Once upon a time in America", precisamente a última obra do popular realizador italiano. Igualmente marcantes foram as suas composições de "A Missão", de Roland Joffé, e Cinema Paraíso, de Giuseppe Tornatore. Porém, acabaria por ser Quentin Tarantino a proporcionar-lhe o Óscar de Melhor Banda Sonora de um filme (2016), com "The Hateful Eight", que acrescentou a um Óscar de carreira recebido em 2007. Em Portugal ficou igualmente célebre pela música de "La Piovra" (O Polvo), tele-série que fez imenso furor por cá. Adicionalmente, uma composição sua, "O Amor em Portugal", interpretada por Dulce Pontes, propositadamente criada para o evento, viria a marcar a inauguração do novo Estádio José Alvalade, como muito bem destaca o AntónioF no És a nossa Fé. 

 

A vida de Ennio Morricone terminou hoje, mas o legado do compositor ficará para sempre entre nós. Tocante, comovente e enternecedora a maioria das vezes, ansiosa, inquietante e expectante noutras, a genialidade da música de Morricone ganhou a imortalidade.  

05
Jul20

Feddal como o destino?


Pedro Azevedo

Contratações cirúrgicas... E ainda há quem pense que contratar apenas 2/3 jogadores de qualidade por época seja um desinvestimento. Bom, bom são 14 contratações num ano. O resultado? Fatal como o destino. 

 

P.S. Sejamos francos, o Sporting não tem qualquer possibilidade de lutar pelo título em 2020/21, depois de ter perdido Mathieu, Bruno Fernandes, Bas Dost ou Nani no último ano e meio. Mas existe hoje um grupo de futuros grandes jogadores da nossa Formação que precisa de tempo, enquadramento com jogadores de qualidade superior e de uma Direcção que não crie irrealistas expectativas nos adeptos e diga a verdade. Podemos ter um futuro brilhante a 2-3 anos se mantivermos os nossos jovens e soubermos ir ao mercado com critério, contratando 2-3 jogadores bons por ano (não há dinheiro para mais). Mas se a tentação de ir ao mercado como na última temporada se sobrepuser, trocando qualidade por banalidade, e a nossa folha de pagamentos continuar a contemplar um rol de jogadores redundantes, então o tempo de espera pela felicidade será maior. Muito maior. 

03
Jul20

Tudo ao molho e fé em Deus

Jogo do Galo


Pedro Azevedo

Geralmente fico muito nervoso antes de um jogo, porém na antecâmara da recepção ao Gil Vicente senti-me bastante confiante. Bem sei, havia condicionantes de peso. Por exemplo, um impressionante surto de bife chorizo afectara o Acuña, o Jovane estava fora devido a um traumatismo (nos resultados dos nossos adversários) e o Geraldes por um triz não conseguira acabar um dos primeiros capítulos do Levantado do Chão, mas nada abalava a minha certeza de que o resultado nos seria favorável. E porquê? Bom, toda a gente sabe que cada partida da equipa de Barcelos é um Jogo do Galo. Ora, como a táctica do Ruben Amorim privilegia os três em linha (centrais), a coisa estava no papo. 

 

Este futebol pós-desconfinamento é muito sui generis, com os adeptos que habitualmente marcam presença nos estádios a verem-se obrigados a assistir pela televisão, em casa ou nos cafés. Procurando transpor por meio virtual as emoções usualmente vividas no José Alvalade, o meu grupo de bancada decidiu reunir-se à hora do jogo no Zoom. A ideia em si tinha tudo para bater certo, com 8 marmanjos de cachecol e fundos virtuais representando o nosso estádio a procurarem dentro do possível replicar as condições do futebol ao vivo. O problema é que a velocidade da fibra varia de lar para lar, pelo que passa a ser possível festejar golos do Sporting em ataques do Gil Vicente e contestar penáltis em lances disputados a meio-campo. Mais arreliador, o enfado com cada nova intervenção do Camacho pode distar 10 a 15 segundos entre cada lar, o que contraria o habitual uníssono. Nada portanto como um espectador desconfiado para lidar (rimar) com um futebol desconfinado.  

 

Foi assim com este enquadramento no meu computador que comecei a assistir ao jogo no televisor. E devo dizer que fiquei boquiaberto. Tanto que até liguei para a MEO. Então não é que a minha fibra é tão, tão lenta que até jurei ver em campo o Damas, o Jesus Correia, o Peyroteo e o Balakov? Um glorioso regresso ao passado em tempo de Regresso ao Futuro? Deixa ver, talvez com o botão do "fast forward"...

 

A primeira parte foi um bocado o que a bola deu e a bola deu para o Plata a levar aos soluços até à linha de fundo e mandá-la para trás. O Sporar dividiu-a com um gilista e o Wendel prensou-a num adversário a caminho da baliza. Estávamos na frente do marcador. Celebravam-se 114 anos de vida do nosso enorme clube e o Plata, isolado, voltou a regressar ao passado. Desta vez até antes da nossa fundação, mais concretamente ao dia 11 de Janeiro de 1906, véspera da data em que o International Board introduziu uma alteração às regras que passou a permitir o passe para a frente. O Gil é que não se deixou enganar e tentou resolver no presente, mas o Damas a.k.a. Max não estava pelos ajustes e por duas vezes negou-lhes o golo que não o galo.  

 

Gostei muito mais da nossa equipa no segundo tempo. Logo a abrir, o Plata, muito activo, isolou o Wendel. Este lá foi para a baliza, fiél ao princípio que o caminho se faz caminhando. Caminhar até caminhou, mas marcar não. Talvez porque o golinho se faz goleando e não caminhando. Uma questão de eficácia. O Sporting pressionava alto (fazendo campo pequeno) e entre campos um gilista assustado procurou livrar-se da bola para trás de qualquer maneira. O Plata agradeceu o presente de aniversário e tocou para o dois-a-zero. Porem, a noite não acabaria sem três momentos singulares. Tudo começou (78 minutos) quando o Matheus Nunes recuperou uma bola e foi progredindo, ora fintando dois para a esquerda, ora driblando os mesmos dois para a direita, até passar a bola ao Wendel. Este tocou para o Borja que de pronto lhe devolveu a bola. O brasileiro tocou para o Sporar, este para o Doumbia, o marfinense para o Ristovski e este para o Plata. A bola ainda chegou ao Wendel até ser perdida. No total foram 30 segundos de "tricô-traça" com as linhas com que se cose o actual futebol do Sporting. A deixar água na boca quanto ao desenvolvimento desta equipa. Por falar em líquidos, o Tiago Tomás e o Joelson deram razão às preocupações da Direcção Geral de Saúde com os ajuntamentos de jovens à noite. Lá se safaram da multa, porque não conseguiram o golo (ou gole). Mesmo no fim, sem ter justa causa para isso, o Ruben Ribeiro marcou-nos um golo. Porém, tal como já nos habituou, o resultado da sua acção foi inconsequente para nós, com o Sporting a conseguir a sua quarta vitória consecutiva em dia de aniversário. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gonzalo Plata. Menções honrosas para Matheus Nunes (qualidade com e sem bola), Wendel (1 golo), Coates (patrão), Nuno Mendes (revelação) e Max (segurança).

plata.jpg

01
Jul20

... E o Sporting é o nosso grande amor


Pedro Azevedo

O Sporting perfaz hoje 114 anos de existência. Cento e catorze anos é muito tempo, tanto que só 8 pessoas actualmente entre nós, por sinal senhoras, já eram nascidas quando o Sporting foi fundado. São elas as nipónicas Kane Tanaka, Shigeyo Nakachi e Mina Kitagawa, as gaulesas Lucile Randon e Jeanne Bot, as americanas Hester Ford e Iris Westman e a polaca Tekla Juniewicz.

 

Também não há muitos países cuja criação/independência sejam anteriores ao Sporting. Por exemplo, em África, só o Egipto, a Etiópia, a Libéria e Marrocos têm mais anos que o nosso clube. Na Oceania, apenas a Austrália precede o Sporting e por apenas 5 anos.

 

Perante estes contextos é fácil perceber o quão importante é preservar algo com tanta riqueza histórica e tão precioso e invulgar como o Sporting Clube de Portugal.

 

O Sporting está muito bem acompanhado no que respeita ao dia da fundação, pois a 1 de Julho nasceram também a diva Amália Rodrigues (1920) e o Capitão de Abril Salgueiro Maia (1944). Lá fora, o multi-campeão olímpico Carl Lewis (1961). E faz sentido, independentemente dos seus amores clubísticos! É que, se por um lado somos a voz de revolta de um certo (en)fado português, por outro a nossa visão do desporto sempre procurou promover a liberdade de decisão de todos os clubes e apelar à nobreza de carácter dos seus dirigentes. E temos para apresentar a grandiosidade de um ecletismo que também marca a nossa riquíssima história.  

 

Em 1906, o índice Dow Jones superou pela primeira vez os 100 pontos (25 812 actualmente), as regras do futebol passaram a contemplar o passe para a frente, Ascetic's Silver venceu o mítico Grand National com uma probabilidade de 20/1, o rei D. Carlos I nomeou João Franco como primeiro-ministro, os irmãos Wright conseguiram patentear a sua "máquina voadora", Santos-Dumont voou pela primeira vez, César e Cleópatra (George Bernard Shaw) estreou em NY, a China proibiu o comércio de ópio, o 1º cinema (Omnia Pathe) no mundo abriu em Paris, Reginald Fessenden tornou-se o primeiro radialista a transmitir música e o Irão passou a ser uma monarquia constitucional.  

 

E foi neste contexto muito marcado pelo pioneirismo um pouco por todo o mundo que José Alvalade fundou o Sporting Clube de Portugal em 1 de Julho de 1906, dando-lhe logo o objectivo de ser tão grande como os maiores clubes da Europa. 

 

Muitos parabéns Sporting! Obrigado pela companhia de todos os dias, por toda a glória e pelo privilégio de me poder associar a algo tão grandioso. Por isso, a dívida que tenho para contigo será algo que jamais poderei pagar em vida. Na alegria ou na tristeza, ser do Sporting sempre foi, é e será especial para mim. Muito mais do que um clube, ser do Sporting é idealmente uma forma única de estar na vida e por consequência também no desporto. No respeito pelos nossos concorrentes, na inovação e contributo para um desporto melhor, no saber ganhar e perder (dando sempre tudo para vencer), os alicerces do Sportinguismo. Mas, para nos abrigarmos dos dias tempestuosos, sempre precisámos de um tecto. E o que nos dá cobertura é a esperança inquebrantável que tanto intriga os nossos adversários e a resiliência indelével que nos une. Havemos de voltar a ser muito felizes juntos! Um bom dia para todos os Sportinguistas espalhados pelos 5 continentes. (E venham mais 114, a caminho da eternidade.)

simbolosporting.png

29
Jun20

Possibilidade de desenvolvimento do nosso jogo


Pedro Azevedo

Uma equipa que pratique um futebol atacante como a do Sporting está na maior parte do tempo instalada no meio campo adversário. Ora, atendendo a que habitualmente um campo tem as dimensões de 110 m/70m - considerando que a linha defensiva estará posicionada um pouco atrás do grande círculo, o ponta de lança andará nas imediações da grande área contrária e os laterais/alas abrirão em largura - , então na maior parte do tempo a equipa ocupará um espaço de 45 metros de comprimento e 70 metros de largura.  

 

Com bola, o Sporting de Ruben Amorim ocupa 4 linhas, guarda-redes excluído. Existe uma primeira linha defensiva de 3 centrais, uma segunda que compreende dois médios centrais e dois laterais/alas, dois avançados interiores como enganche e um ponta de lança. Ora, fazendo as contas, supondo que a distância entre todas as linhas é uniforme, teremos uma distância entre linhas igual a 15 metros, o que é superior àquilo que seria unanimemente recomendável para praticar um futebol posicional (à volta de 10m). Acresce que é possível ver à vista desarmada que médios centro e centrais estão demasiado próximos, o que faz com que o espaço compreendido entre os médios centro e os dois enganches ascenda por vezes a 20/25 metros, o que, ou inibe o passe e engasga o nosso jogo (lateralizações), ou acaba por estar na origem da perda de tantos passes, ambas as situações contribuindo para piorar a qualidade do nosso jogo. Se a isso adicionarmos a falta de conhecimento por parte de Plata daquilo que é requerido a um interior e as características individuais de dois enganches que pensam muito mais como avançados do que como médios (acelerando e não temporizando), fica explicada a razão pela qual tantas vezes a solução de recurso para os médios é colocar a bola directa em Sporar. Tal permite também perceber porque habitualmente a circulação de bola do Sporting é em "U", procurando parcerias entre os laterais/alas e os interiores por detrás do ponta de lança que essencialmente têm características de extremos e acabam por procurar muitas vezes a bola junto às linhas laterais. 

 

Uma solução para este problema, que se poderá vir a manifestar de forma nefasta nos resultados contra equipas mais evoluídas, poderia passar pelo recurso a mais uma linha no meio campo. Existem duas possibilidades de colocação dessa nova linha no terreno, mas só um jogador ideal para a ocupar: Francisco Geraldes. A meu ver, ambas as possibilidades trazem vantagens, todavia uma delas poderá incluir inconvenientes. A primeira possibilidade passaria por Chico substituir Plata, recuando um pouco face a Jovane, assumindo-se mais como um médio atacante do que como um enganche de Sporar, dando uma componente mais cerebral ao nosso futebol. O senão desta alternativa é a equipa poder perder alguma capacidade de explosão na frente. A segunda possibilidade, aquela em que mais acredito, envolveria a saída de um dos médios centro actuais e a criação de uma linha à frente onde actuaria Geraldes. A ideia seria haver uma clara definição entre as posições "6" e a "8", o que ajudaria o nosso jogo interior a desenvolver-se mais. Acresce que, com 3 centrais atrás, me parece excessiva a utilização de dois médios a par na linha imediatamente à frente, situação que leva muitas vezes a um engarrafamento na saída de bola e cria até indefinição sobre quem atacar a bola no processo defensivo (vidé o segundo golo, de carambola, do Vitória de Guimarães). Com 5 linhas, o espaçamento entre sectores seria mais próximo do ideal (11,25m) e a equipa poderia ligar muito melhor e variar mais o seu jogo ofensivo, incluindo aí as entradas frontais do "8" que hoje em dia não temos. Por outro lado, aquando da perda de bola a equipa estaria muito mais inteligentemente disposta no terreno para a recuperar rapidamente, não dando espaço entrelinhas nem permitindo transições. (A grande vantagem para mim deste 3-4-3, ou 3-4-2-1, ou 5-4-1 quando sem bola, é a possível inclusão de Geraldes como "8", algo que não seria tão credível num 4-3-3 onde ao "8" é pedido muito mais trabalho defensivo.)

 

Não sei o que Ruben Amorim pensará disto, porque no actual contexto da comunicação nos clubes portugueses poucas vezes há a possibilidade de questionar um treinador sobre o futebol jogado. Mas que gostaria de lhe perguntar como vê esta possibilidade de desenvolvimento do nosso jogo, lá isso gostaria. 

ruben amorim.jpg

27
Jun20

Tudo ao molho e fé em Deus

The Karate Kid e o Koffi ora gigante, ora anão


Pedro Azevedo

Na vida é sempre importante sabermos as linhas com que nos cosemos. O Ruben Amorim tem isso presente e, vai daí, aplica-o literalmente ao futebol. O problema é que muita intersecção de linhas gera obviamente demasiados passes laterais e essa tem sido a óbvia consequência de um sistema táctico do promissor técnico leonino que privilegia o engarrafamento na zona central, com dois médios a par e três defesas por detrás ("O Pentágono"). Assim, muitas vezes o Matheus cose e coze o Wendel e este responde assando (as pernas de) o Matheus com passes miudinhos que no rugby se denominam de "para o hospital", auto-anulando-se os dois no que diz respeito ao processo ofensivo e criando indefinição quando toca a defender. Evidentemente, havendo linhas sobrepostas atrás, faltarão sempre linhas à frente, algo que tentamos contornar com a solução do chutão à procura do Sporar, o 112 dos inermes. Quando o esloveno consegue segurar a bola, então aí aparece Jovane, um cabo-verdiano que se descreve melhor recorrendo ao poeta Régio: "a minha vida é um vendaval que se soltou, uma onda que se alevantou, um átomo a mais que se animou". É tudo isto que o Sporting ganha quando Jovane está em campo, os tais últimos 30 metros que comprometeriam irremediavelmente a eficiência da geringonça de passe/repasse outrora montada por Silas ("A Posse")...

 

Andávamos nós neste empastelamento quando os de Belém meteram também as mãos na massa e, pumba, espetaram-nos um pastel: defesa completamente desposicionada e larga no relvado, transição rápida e golo. Mas eis que o Coates foi gigante e o Koffi anão. Qual alto signatário das Nações Unidas, o burquinês estendeu a passadeira a bem da paz e cooperação entre os povos. O uruguaio dedica o golo ao seu antigo camarada de armas, Monsieur Mathieu. Um-dó-Li-cá, e eis que o Codecity volta a marcar. Anulado, por fora de jogo. Por essa altura andava o Plata numa das suas inconsequências quando avista o Ristovski. O macedónio põe a bola com olhinhos na área, o Sporar arrasta marcações e o Jovane mostra que um leão também pode ser um dragão como o Bruce Lee. Depois, o Matheus consegue sair da cabine telefónica onde o meteram com o Wendel e faz um passe longo para o Nuno Mendes. Este dá ao Jovane e o menino inicia intermináveis tabelinhas com o Sporar que acabam com o esloveno caído na área. Penálti, diz Molero, perdão, Malheiro. O Jovane chuta, mas o Koffi dá 2 passos à frente e defende miraculosamente. Tempo então para nos interrogarmos sobre a identidade Sportinguista e os caminhos possíveis para a sua coabitação com uma pluralidade de formas artísticas no futebol português. Molero, perdão, Malheiro também reflecte sobre o tema e eis que perante a incredulidade de todos os leões confinados nos seus lares vemos um árbitro a cumprir com as regras num jogo do Sporting. O Ristovski, desta vez sem galo, sorri. Novamente chamado a tentar converter a penalidade, Jovane desfere uma bazuca de fazer inveja ao António Costa. 

 

Para a etapa complementar o Jovane ficou no banco. Aparentemente, devido a um traumatismo (que provocou no resultado). Entrou o Geraldes e o cão de Pavlov que existe no subconsciente de cada leão Sportinguista começou a salivar. E a verdade é que o Chico até fez um bom jogo, desmarcando-se sucessivamente e assim dando linhas ao portador da bola. Iniciou então um duelo em 3 actos com o Koffi, agora gigante, com o burquinês sempre a levar a melhor. Do Ensaio sobre a Cegueira para o Levantado do Chão é o mesmo Caminho (NA: editora), um caminho que se faz lendo nas entrelinhas do que são os posicionamentos do Chico, uma alternativa aos atalhos à procura do Sporar. Até ao fim pouco mais houve a declarar e o jogo ainda deu para ver entrar o Ilori e o Doumbia e para que o Borja fizesse os 90 minutos sem que o excesso de desconfinamento contagiasse toda a equipa do vírus da tragicomédia. 

 

P.S. Dois livres directos, igual número de penáltis, um canto - eis o balanço de golos de bola parada pós-desconfinamento (4 jogos). Ristovski substituiu Camacho e com um aproveitamento superior, prenúncio de que Amorim está atento à meritocracia. Muitos jovens lançados na equipa principal, sinal muito positivo. Jovane, com 4 golos, duas assistências e participação nos dois desequilíbrios de onde resultaram os penáltis, está em grande. Coisa para logo se agitarem muitos milhões que não mendilhões. Que continue por cá a afagar-nos os corações!

 

Tenor "Tudo ao molho": Jovane Cabral (póquer de menções e de golos desde o desconfinamento)

jovanecabralshow.jpg

26
Jun20

Resiliência


Pedro Azevedo

Sou adepto de causas difíceis. Não, não pensem que o Sporting é a única. Vou dar alguns exemplos. Em Espanha ganhei afecto pela Real Sociedad, equipa do País Basco cujo último campeonato conquistado data de 82. Ainda recordo a bigodaça do Zamora, o cérebro contra o fúria espanhola daquele tempo, e a arte da revienga do Lopez Ufarte, mais tarde colega do Paulo Futre no Atlético de Madrid de "El Flaco" Menotti. Em França, o meu coração bate pelo Saint-Étienne, outrora o clube de Platini, Rocheteau e Jean-Michel Larqué, este último mais tarde jornalista da revista ONZE que eu devorava na minha adolescência. Ao longo dos anos, muito "Allez les Verts!", mas "Les Verts ne marche pas"... O último título de campeão data de 81! Em Itália torço por uma Roma que só me deu 2 Scudettos desde que vim ao mundo. Nos recreios tentava replicar as fintas do Conti, o meu jogador preferido da história do clube da cidade eterna. Falcão e, mais tarde, Giannini também me marcaram com a sua imensa classe. E Totti, pois claro, cuja história se confunde com a do clube romano. Já em Inglaterra nasci campeão. O problema é que depois tive de esperar 26 anos para que a geração de Giggs, Beckham e Cantona substituísse a de Best, Law e Charlton. Desconfiado, na Alemanha fui com duplas. Mas nem assim: o Borussia Dortmund não vence desde 2012, o Werder Bremen está quase condenado à descida de divisão. Os de North-Rhine Westphalia ainda levantaram a "Orelhuda". Eram os tempos gloriosos de Sammer, Chapuisat, Riedle ou Paulo Sousa, o português que com Redondo e Makélélé completa o trio de melhores "6" que vi jogar. Já os de Bremen estão cada vez mais distantes dos tempos gloriosos dos "Bomber" Rudi Voller (alemão), Wynton Rufer (neo-zelandês) ou Claudio Pizarro (peruano) e do Super Mário Basler. Pelo que alegrias só fora dos Big5, nomeadamente através de um campeonato periférico como o holandês onde o Ajax nunca me deixa ficar mal, não só pelos campeonatos que vence mas também pela convicção com que defende o seu modelo estratégico (e nunca conjuntural) de aposta na Formação. De onde saíram Cruijff, Keizer (o tio do outro), Krol, Rep, Van Basten, Bergkamp, Davids, Seedorf, Kluivert, entre tantos outros. Mas, não Vos escondo, aquele último segundo da meia final da Champions contra o Tottenham deixou-me com uma azia das antigas...

 

Se estes, perdendo mais do que ganhando, hão-de ser sempre os meus clubes, porque razão o meu coração não haveria de bater sempre com intensidade pelo Sporting? Os clubes têm ciclos, tal como a paixão. Mas o amor é incondicional. Com altos e baixos, por certo, mas para quem não desespere a recompensa estará sempre no fim do arco-irís que se formará após os primeiros raios de sol desanuviarem os dias cinzentos. Vejam o caso do Liverpool. Eles nunca caminham sozinhos, no dizer sempre apaixonado dos seus adeptos. E puderam enfim festejar, numa catarse colectiva onde se pôde ver um alemão (Klopp) a dar azo às suas emoções como um latino e a chorar perante o olhar embevecido do monumental Kenny Dalglish. Quem é que não teria gostado ontem de ser do clube da cidade dos Beatles e do rio Mersey? E vieram para ficar, não duvidem um só momento desta afirmação. Até cansa só de os ver jogar...

25
Jun20

Liverpool é campeão de Inglaterra!


Pedro Azevedo

Trinta anos depois, o Liverpool sagrou-se finalmente campeão de Inglaterra. Foi também o primeiro título dos "Reds" na era da Premier League (desde 92/93). Com esta vitória o Liverpool obtém o seu 19º título inglês, ficando assim a apenas 1 vitória de igualar o Manchester United (13 vitórias na Premiership) como o clube com mais vitórias na prova.  

 

Sou adepto incondicional do Man U desde pequenino, mas não posso deixar de ficar satisfeito por este título tão ansiado pelo clube de Mersey. A vitória do futebol espectáculo. Verdadeiro rolo compressor, o Liverpool de Klopp lidera o campeonato inglês com 23 pontos de avanço sobre o Manchester City (actual segundo classificado), 31 sobre o Leicester e 32 sobre o Chelsea, quando ainda faltam 7 jornadas para terminar a competição. (Manchester United, a 37 pontos, Tottenham, a 41, e Arsenal, a 43 e com metade dos pontos dos "Reds", ainda distam mais na tabela.) 

 

Impressiona vêr jogar este Liverpool tal a dinâmica empregue pelos seus jogadores. Com bola, desmarcações constantes e grande qualidade de passe. Sem bola, imediato campo pequeno e pressão asfixiante sobre o portador de bola. Transições ofensivas e defensivas vertiginosas (Mané deveria ser multado por excesso de velocidade). Fortíssimos nas bolas paradas, seja livres (Salah, Arnold) ou cantos à procura de Van Dijk. Como cereja em cima do bola, um trio atacante de puros-sangue verdadeiramente indomável que quando complementado pelo belga Origi se transforma numa quadriga Ma-Fi-O-Sa.  

 

Parabéns Liverpool, parabéns Klopp! E viva o futebol como ele deve ser!

klopp1.jpg

25
Jun20

PED Talks

Modelo para o futebol/Política desportiva


Pedro Azevedo

O futebol cumpre uma importante função social, ele é o circo romano dos tempos modernos. Por paixão pelo jogo, amor ao clube, desejo de vencer, necessidade de pertença e/ou de partilha ou, simplesmente, como escape para frustrações diversas do quotidiano, os adeptos vão aos estádios. Se for possível contribuir para que de lá saiam mais felizes do que entraram e não totalmente entediados, quando não enervados, então penso que o clube cumprirá uma função importantíssima do ponto-de-vista social. Defendo, por isso, que o Sporting tem de oferecer um bom produto aos seus adeptos sob a forma de um futebol positivo, onde o rigor táctico possa ser compatibilizado com os desequilíbrios provocados pelos "gladiadores" que fazem o bilhete valer a pena. Nesse sentido, entendo que o treinador principal do clube deve ser escolhido por conseguir conciliar a aposta nos jovens com uma boa ideia de jogo que permita algum deleite ao espectador e não transforme um campo de futebol numa repartição pública. Um perfil semelhante ao que em tempos tivemos com Malcolm Allison, ainda que não necessariamente tão "bigger than life" como o inglês. 

 

Há demasiados erros conceptuais no projecto de futebol do Sporting. Creio, por isso, que o elemento mais importante deverá ser o Director Técnico. O Sporting precisa de alguém que seja um pensador de todo o futebol do clube e que possa actuar com total autonomia, numa abordagem "top-down", definindo o tipo de jogo que se pretende praticar a nível sénior - se a Direcção, como entendo que o deve fazer até em função de poder chamar mais gente aos estádios, definir como prioridade uma ideia de "futebol positivo", então o Director Técnico deve procurar modelizar princípios de jogo compatíveis com tal - , sugerindo à Direcção treinadores que se possam adequar a esse desiderato, coordenando o futebol juvenil, de forma a que as rotinas implementadas - a partir dos escalões competitivos, porque no início não se deve estereotipar as crianças mas sim dar-lhes liberdade para que desenvolvam as suas qualidades técnicas - se assemelhem tanto quanto o possível à realidade dos seniores, trabalhando com os treinadores da Formação no sentido de serem desenvolvidas determinadas características em futebolistas jovens que mais tarde possam constituir uma mais-valia no plantel principal. A meu ver, esse Director Técnico deveria também ser responsável pelo complemento da formação de jovens treinadores a trabalhar na Academia, facilitando assim o seu crescimento na Estrutura até, alguns deles, poderem assumir-se futuramente como timoneiros da equipa principal do clube, ganhando assim o projecto por haver técnicos bem identificados com o processo. Com isto conseguiríamos ter um Futebol de Autor como oposição ao futebol de cada treinador que tem sido a nossa realidade, o que evitaria estarmos sempre a recomeçar a obra de construção do nosso futebol (Castigo de Sísifo) de cada vez que vamos buscar um novo treinador, perdendo-se inúmeros jogadores promissores no processo. 

 

Da forma como entendo o modelo, de cada vez que o treinador principal necessitar de um jogador com determinadas características, o Director Técnico deve primeiro procurar se elas existem na Academia, ou se é possível desenvolvê-las em tempo útil. Caso tal não seja possível, então, sim, dever-se-á recorrer ao mercado. (Se tivermos um miúdo nos escalões jovens que precisa de mais 1 ano para amadurecer, mais vale ir buscar um veterano tipo Mathieu que me faça uma temporada do que investir bastante dinheiro na compra de um jovem promissor que depois vai tapar o lugar ao produto da nossa Academia.) Como profundo conhecedor que será das necessidades da equipa principal, o Director Técnico deverá sempre ter a última palavra, ficando a liderar Scouting e Gestão de Activos, de forma a que sejam limitados ao máximo os erros de "casting". 

 

Um edifício futebolistico constrói-se pelos seus alicerces. No nosso caso, a nossa fundação é a Formação. Investimos dinheiro no projecto da formação com o objectivo de virmos a colher benefícios disso, tanto a nível desportivo como económico. Ora, é extremamente importante saber balancear estas duas vertentes e, através delas, assegurar a sustentabilidade do projecto. Por isso, defendo que tem de haver outra ligação entre o que é feito no terreno e a gestão do clube. Desde logo, através de um planeamento decorrente de um diagnóstico, tão precoce quanto possível, do valor intrínseco de cada jogador da nossa Academia. Nesse sentido, constituiria um Gabinete Técnico, conectado com a área de gestão de activos, que catalogaria os nossos jovens em 4 categorias:

  • jogador de classe extra(4), tipo Futre, Figo ou Ronaldo
  • jogador muito bom(3), tipo Adrien, William, Rui Patrício ou João Mário 
  • jogador bom(2)
  • jogador de classe média(1)

 

Quando o jogador chega aos juniores, haverá um ano para completar o seu diagnóstico. Com estas conclusões na mão, a gestão de activos e o treinador principal deverão seguir este plano: o jogador da classe 4 deve ser considerado um "eleito" e deveremos tentar mantê-lo o tempo possível para que nos ajude a ter êxito desportivo, sem prejudicar a sua valorização enquanto "activo". Nesse sentido, idealmente só o libertaremos por volta dos 23 anos, permitindo-nos 4/5 épocas na equipa principal e concomitante rendimento desportivo. Este tipo de jogadores nunca deverá ser vendido por valor inferior a 50 milhões (para quem ache pouco relembro que Futre saiu a custo zero, Figo por 2/3 milhões e Ronaldo por 15 milhões); os jogadores da classe 3 não despertarão tanta cobiça imediata por parte dos tubarões europeus. Aparecerá certamente uma segunda linha de clubes de topo interessada neles, mas os valores não serão assim tão sedutores. Preconizo que se tente fixar uma bitola entre os 25/35 milhões para venda destes "activos" e que se tente mantê-los até uma idade próxima dos 27 anos. Se, como no caso de João Mário, o valor oferecido pelo mercado for superior ao preço por nós definido, então aceitaremos libertar o jogador mais cedo; ligo muito a classe 2 à nossa sustentabilidade financeira, até porque tenho a firme convicção de que aqui há um trabalho importante de racionalização e optimização dos recursos a fazer. Se não trabalharmos bem esta classe ficaremos com os tais plantéis de 70/80 jogadores que, todos juntos, acabam por pesar bastante na conta de exploração da SAD.  Na minha opinião, é com as vendas destes jogadores - a esmagadora maioria dos quais condenados a empréstimos e pré-épocas na equipa principal fracassadas - que pagaremos por longo tempo os custos incorridos com a nossa Formação. Imagine-se que definimos um preço entre os 10 e os 15 milhões para venda de um determinado jogador. Em vez de "aquecer" o banco ou andar de empréstimo em empréstimo até ao final do seu contrato, um jogador destes, só por si, pagaria 3 anos da nossa Academia. Não podemos querer ter os "cromos" todos e se percepcionamos que o treinador principal não o vê a entrar de caras na equipa nos seus 3 primeiros anos de sénior, então o melhor é tirar algum proveito económico/financeiro do investimento que fizemos na formação do atleta; finalmente, o jogador da classe 1 deve ser alienado no final do seu primeiro ano de juniores ou na passagem para sénior, de preferência a clubes com que tenhamos boa relação e protocolo e com quem se possa estabelecer um acordo de opção de recompra (valor que não deverá superar 0,5/1 milhão de euros), precavendo o caso de o jogador vir a desenvolver-se de uma forma surpreendente que suplante o pré-diagnóstico feito.

É de superior importância que se reconheça e aprove o processo e que este não possa estar dependente de um eventual diagnóstico falhado. No futebol, infalíveis são apenas os ferros das balizas e a bola que rola (quando não fura), até a relva nem sempre cumpre como bem sabemos (e todo o mérito, independentemente de outras considerações, a quem finalmente resolveu esse problema), pelo que não será o erro que nos deverá desmobilizar de tentar introduzir alguma ciência na gestão dos activos. Os desvios devem ser corrigidos, substituindo ou reforçando pessoas no tal Gabinete Técnico se for caso disso, mas não deveremos nos afastar do processo nem duvidar das suas vantagens. (nota: os valores apontados para venda não dispensam que o valor das cláusulas de rescisão dos jogadores permaneça elevado, na ordem dos 60 ou 100 milhões, até de forma ao clube poder ter maior liberdade negocial)

 

De seguida, passarei a abordar ideias sobre o futebol profissional e a sua articulação com a Formação. O modelo de aposta na Formação deve ser imposto pelo clube, sem trangiversações e como parte integrante da sua política desportiva. É que, independentemente dos resultados desportivos que o treinador consiga obter, a factura é paga pelo clube/sociedade anónima desportiva e cabe a ela garantir a sustentabilidade económico/financeira do projecto.

 

  • Princípios de jogo/Sistema de jogo: (Ponto prévio: a visão da ideia de futebol positivo é da competência da Direcção, a forma de lá chegar é definida pelo Director Técnico e adoptada pelo treinador que comunga dessas ideias e está integrado no projecto.) Mais do que o 4-3-3 ou o 3-4-3, o mais importante no futebol são os princípios de jogo. Por exemplo, se eu quiser adoptar os princípios da escola holandesa de Michels e Cruijff, então eu vou jogar um futebol posicional, em que desenho triângulos constantes à frente do portador da bola de forma a que este tenha sempre linhas de passe. No fundo, quem se desmarca é que define para onde vai o passe, não quem tem a bola. A ideia é tentar ver o jogo o mais possível de frente, começando a construção na posição "6" ou, até ainda mais atrás, através de um central com boa saída de bola, razão porque Cruijff no Barcelona fez recuar Koeman ou Guardiola para essa posição. O futebol um pouco como o rugby, partindo de trás, sem chutões para a frente e tentando levar o máximo de jogadores em futebol apoiado até à baliza adversária. Sem bola, pressão inteligente. Por exemplo: se vou fechar o lateral direito adversário, devo tapar-lhe o lado do seu melhor pé, dando-lhe apenas a opção de bater com o pé esquerdo. Logo, imediatamente, faço subir um médio para tentar fechar a saída de bola pelo centro. E se subo esse médio, e dou espaço ao médio contrário, tal deve ser compensado por um defesa imediatamente. Tudo isto deve ser treinado e rotinado desde cedo, nos escalões de formação competitivos. O que para mim não faz qualquer sentido é andarmos anos a formar Daniel Bragança como "6", o que sugere uma ideia de futebol posicional em que a construção começa a partir dessa posição, para depois nos seniores querermos um "6" essencialmente repressivo, exemplo acabado de uma articulação inexistente entre formação e futebol profissional.
  • Treinador Principal do futebol profissional: a meu ver, o treinador tem de ser alguém com especial vocação de artífice, no sentido em que está na última estação de produção de talento da linha de montagem que é a nossa Formação. Ao seu nível, tratará dos “acabamentos”, a dimensão táctica do jogador. Se este chegar aqui com deficiências técnicas, a nível do passe e recepção orientada, dificilmente terá um crescimento tão exponencial quanto aquele que se poderá esperar no plano táctico (olho para Ristovski, por exemplo, um jogador rápido e todo-o-terreno, mas nota-se a falha na sua formação a nível de recepção orientada). Já a finta ou o remate poderão mais facilmente ser trabalhados, burilados pelo treinador. Ao mesmo tempo, o treinador tem de estar habituado à pressão de ganhar, mesmo quando com orçamentos inferiores aos seus rivais. 
  • Adjuntos: um dos adjuntos da equipa profissional deve ser uma velha glória do Sporting, campeão pelo clube e com capacidade para passar a cultura Sporting ao plantel. Deve também ser um homem leal e que ajude na integração do treinador principal e restante equipa técnica, especialmente se forem estrangeiros.
  • Gabinete Técnico do futebol profissional: formada por Director Técnico para o futebol profissional (superintende Scouting e Gestão de Activos), treinador principal do futebol profissional, Coordenador do futebol de Formação, treinador dos sub-23 (e/ou treinador da equipa B) e treinador dos juniores. Reunindo semanalmente, espaço onde se pode ir avaliando a evolução dos jogadores jovens com potencial para subirem à 1ª equipa do clube, bem como estabelecerem-se pré-diagnósticos (com base em informação constante do Gabinete Técnico da Formação, onde estarão os treinadores das várias camadas da nossa Formação, que produzirá relatórios anuais sobre o desenvolvimento dos jogadores) dos mesmos em articulação com a área de gestão de activos. Decisões como “queimar etapas” na Formação, posições em que é necessário intensificar o treino do jovem, com mais conteúdos tácticos, para mais rapidamente suprir uma lacuna da equipa principal, empréstimos para rodar ou dispensas devem ser aqui definidas, de forma a que o Director Técnico possa saber com a máxima antecedência possível com o que pode contar na equipa principal e as posições em que terá de ir ao mercado.
  • Política de quotas da Formação até que a aposta se consolide: não sou muito fã das quotas, mas a verdade é que se tem de começar por algum lado. Por exemplo, em tempos não muito distantes, foi a única forma de as mulheres poderem subir na sua carreira profissional. Uma discriminação positiva e que, no início poderá mais privilegiar a quantidade do que a qualidade, mas creio ser a única forma de impedir desvios ao que deveria ser o nosso ADN. Julgo, por isso, que deveria haver um número mínimo de jogadores provenientes dos nossos escalões de Formação na equipa principal e nem me chocaria que isso fosse integrado nos Estatutos do clube.
  • Tecto máximo de jogadores: o plantel principal deve ter um número máximo de jogadores. Na minha opinião deveria ser de 24: dois por cada posição, 3 pontas-de-lança e 3 guarda-redes. Havendo lesões, subiriam jogadores dos sub-23 (ou B) à equipa principal para as posições em défice. Seria uma maneira inteligente de optimizar recursos, com consequências positivas em termos de custos com pessoal e resultados líquidos da sociedade anónima desportiva.
  • Política de empréstimos: do meu ponto-de-vista, cumprindo-se os pressupostos dos dois pontos anteriores não seria necessário emprestar muitos jogadores (existe a equipa sub-23 e a B). Em todo o caso, estes, a acontecerem, por motivos de maior competitividade, deveriam privilegiar clubes que tenham treinadores com histórico de aposta em jogadores jovens e da nossa Formação (Couceiro, por exemplo, que nos melhorou João Mário, Ruben Semedo ou Ryan Gauld) ou com ligações históricas ao nosso clube (filiais). A meu ver, nessa política o treinador é mais importante do que o clube. Pode-se ter óptimas relações com o clube, mas o treinador não apostar em jovens. A não ser que se queira influenciar a escolha do treinador por parte do clube, mas isso já seria passar aquela linha que a mim me começaria a causar alguma urticária, pois a possibilidade de a coisa entrar no domínio do conflito de interesses seria considerável.e tenho como certo que o Sporting é um clube que não pode estar ligado a essas situações.
  • Contratação de novos jogadores: só deveriam ser contratados jogadores cirurgicamente e para as posições em falta. No máximo 3 jogadores por época e de muita qualidade, que efectivamente produzam a diferença, em detrimento de "contratações cirúrgicas" em classe média/baixa do futebol mundial. Qualidade e não quantidade. Posições como as de ponta-de-lança, que a nossa Formação geralmente não produz, por exemplo, e outros que conjunturalmente seja necessário colmatar. De qualquer forma, a qualidade das “fornadas” da Academia não é uniforme de ano para ano pelo que que haverá anos em que será necessário actuar mais no mercado. Evidentemente, uma boa oportunidade de mercado não deve ser desperdiçada, obedecendo ao tecto contemplado em cima. Vi o Sporting a contratar um jogador de qualidade média como Marcelo (defesa), com 28 anos, e fez-me uma certa confusão. O mesmo se passou com Ruben Ribeiro. Sobre Jesé, Bolasie e Fernando, que chegaram por empréstimo, é melhor nem falar. Outros não falo porque ainda são nossos jogadores. Eu proporia que só se contratassem jogadores com idade máxima de 23/24 anos (numa óptica de rendibilização de investimento) e alguns jogadores mais velhos apenas quando pudessem efectivamente fazer a diferença (Mathieu, por exemplo) e trouxessem a experiência que faltasse à equipa. Se eu tiver fundadas esperanças num craque da Formação e achar que precisa de 1/2 anos de estágio para que possa vir ao de cima todo o seu potencial, então será melhor contratar um jogador mais veterano (prematuro envelhecimento em cascos de carvalho) de créditos firmados - que vem cumprir esse período e que anteriormente já foi informado que se pretende que contribua para o crescimento desse jovem - do que estar a ir buscar ao mercado um jogador igualmente jovem e que depois, devido ao seu preço, vou ter a pressão de o pôr a jogar, prejudicando assim a ascenção do jogador formado na nossa Academia. Quantos casos destes ou semelhantes já não tivemos? Nunca contrataria nenhum jogador por empréstimo, excepto se tiver uma cláusula de opção com um valor acessível para as nossas finanças. Eu tenho a certeza de que se deve falar a verdade aos sócios e adeptos. Não temos dinheiro para de uma vez só actuarmos eficazmente no mercado, pelo que precisaremos de ir compondo a equipa em 2-3 anos, a fim de então podermos discutir o título.
  • Introdução do treino por sectores na Formação: vemos as melhores práticas dos desportos profissionais americanos e fica sempre a sensação que a Europa está muito atrás em diferentes matérias. Desde logo na interligação com os adeptos, mas aqui vou falar do treino por sectores, algo que é particularmente visível no futebol americano. O futebol ganhará muito com os ensinamentos de outros desportos. Por exemplo, a basculação (mudança de flanco) é uma coisa que se vê com frequência num jogo de andebol. Como é possível termos um homem como Manuel Fernandes nos nossos quadros e continuarmos sem produzir um ponta-de-lança com qualidade? Manuel Fernandes daria um bom treinador de avançados e pontas-de-lança em particular, transversal aos diferentes escalões de Formação, ensinando os miúdos em questões de posicionamento no campo, colocação do pé na bola, cabeceamento (vemos muitos que chegam ao plantel principal com défices nesse aspecto – Gelson, Matheus, etc). Não seria o Manél mais útil para nós aqui que no Scouting?
  • Scouting: conseguir cadastrar a base-de-dados com o maior número possível de jogadores, nacionais e internacionais, ainda em idade juvenil e ter a capacidade de os ir acompanhando até que as regras FIFA (jogadores estrangeiros) não impeçam a sua contratação. Isto traria menores custos na sua aquisição. Quando se chega a um jogador “já feito”, os custos são necessariamente superiores. Procurar mercados emergentes (Argentina, Uruguai, Chile, os brasileiros já estão muito inflacionados), mas também afluentes. No tempo de Sousa Cintra (outro tempo) chegaram ao Sporting, pela mão do empresário Lucídio Ribeiro, uma série de jogadores muito interessantes, provenientes do centro da Europa e do Magrebe. Balakov, Iordanov (bulgaros), Cherbakov (Ucrânia), Valckx (holandês) ou Naybet e Hadgi (marroquinos) foram jogadores que chegaram ao Sporting por valores acessíveis e que tiveram excelente performance desportiva, além de, alguns deles, proveitos extraordinários para o clube após venda. Abandonaram-se esses mercados e não se percebe bem porquê.
  • Propriedade Intelectual vs Academia: julgo que a maioria dos adeptos e até alguns dirigentes confunde muito a nossa Formação com a Academia de Alcochete. A Academia é um espaço físico, com excelentes condições é certo, mas o que faz toda a diferença é a propriedade intelectual, o enorme talento de homens como Aurélio Pereira ou João Couto, por exemplo, ou dos falecidos César Nascimento e Osvaldo Silva que fizeram escola. Se alienarmos isto, podemos ter a melhor Academia do mundo que os resultados não aparecerão. E depois há outras coisas: aquele campo pelado, ali ao lado do antigo pavilhão, viu nascer jogadores como Futre, Figo e Ronaldo (apanhou a Academia já no final da sua formação). Esses campos irregulares estimulavam a técnica e a habilidade dos jogadores, obrigados a dominar a bola após ressaltos inesperados ou a fintar entre umas covas ou lombas no terreno de jogo. Hoje em dia, os campos são perfeitos mas os talentos escasseiam. Dá que pensar, mas talvez não fosse má ideia ter um campo pelado em Alcochete, que pudesse recriar um pouco as condições do futebol de rua, onde craques como os já citados, para além dos ultramarinos Peyroteo, Hilário, Eusébio, Coluna ou Matateu, aprenderam o ofício. E continuem a recrutar formadores de excelência para enquadrar os nossos jovens.do ponto-de-vista desportivo e educacional. Houve quem brincasse quando eu falei a primeira vez dos campos pelados, mas eis que o Ajax decidiu ultimamente seguir esse caminho, construindo 3 campos baldios na sua academia. E porquê? Porque os jovens precisam de ser desafiados com novas dificuldades e as irregularidades de certos campos, que se assemelham às condições do futebol de rua, melhoram o tempo de reacção do jogador e aprimoram-lhe a técnica.
  • Independência total face a agentes de jogadores: no Sporting não podem nunca ocorrer situações de conflito de interesses que envolvam profissionais com vínculo com o clube e agentes de jogadores. O clube precisa de ter rigorosos procedimentos em matéria de prevenção desse tipo de situações, seja a nível do plantel profissional ou da sua Formação. Precisamos de ter a certeza que o único interesse instalado no Sporting é a defesa intransigente do clube.

 

É evidente que um clube como o Sporting não pode apostar só na Formação. Mas, temos é de saber estrair dela todo o seu potencial e não prejudicar o nosso investimento com redundâncias vindas de fora. Todo o jogador de categoria e que seja empenhado no trabalho é bem-vindo ao Sporting e o clube não pode estar de costas voltadas para o mercado, mas não faz qualquer sentido gastar dinheiro com suplentes ou suplentes de suplentes e colocá-los em cima dos jovens por nós formados, criando uma pirâmide que retira qualquer possibilidade de afirmação a estes. E com custos que se reflectirão no aumento do nosso Passivo e na Demonstração de Resultados. Do mesmo modo, a sintonia entre a Direcção/Administração e o treinador deve ser total (algo facilitado pelo facto do Director Técnico ter equiparação a COO no meu modelo de governação) e este último deve comungar das directrizes traçadas acima. Como tudo na vida, não basta ter (boas) ideias, igualmente importante é saber implementá-las e ter a força para, acreditando no projecto, não nos desviarmos nunca do mesmo, independentemente de acertos cirúrgicos que se venham a fazer, sem prejuízo da integridade do processo pensado e criado. Na verdade, isso tem falhado e há décadas. Melhorou nos primeiros anos de Bruno de Carvalho, mas regrediu pós aposta em JJ, ficando sempre a ideia de que o processo era demasiado empírico e muito assente na maior ou menor sensibilidade do treinador principal.

 

Uma equipa de futebol não pode ser a soma das competências de cada um. Para isso, existe um treinador, o qual cabe a atribuição de criar um todo que seja superior à soma de cada um. O envolvimento de toda a Estrutura no processo é importante, assim como a relação com os adeptos e a forma como os jogadores sentem o projecto e o clube. 

 

Para finalizar, gostaria de abordar as diferentes academias que temos espalhadas por Portugal e pelo mundo, constatando que existem actualmente diferentes modelos de negócio. Em algumas, o Sporting tem uma participação; noutras receberá um “fee” (100% franchising). Seria interessante que estes modelos e respectivos Business Plan fossem apresentados aos associados e que se percebesse, através de planos plurianuais, quais os custos em que o clube incorre e os proveitos que se podem esperar destas apostas. Igualmente, no plano desportivo, perceber-se quais são os objetivos. Há algumas informações dispersas que indicam que já há alguns jovens a treinar nas equipas de Formação do Sporting (Lucas Dias, muito bom jogador dos nossos juvenis, creio que veio de Toronto) e que são provenientes deste tipo de academias, mas não são claros quais são objectivos (quantificáveis). É importante uma clarificação aos sócios dos objectivos económicos e desportivos da aposta nas academias, a nível nacional e internacional, e perceber-se qual a política de expansão e como se conjuga com o merchandising e a promoção da marca, áreas onde haverá muito trabalho a desenvolver.

 

PED Talks - Princípios, Estratégia, Desporto

simbolosporting.png

24
Jun20

A notícia que eu não queria ler


Pedro Azevedo

Segundo o jornal A Bola, Jeremy Mathieu lesionou-se com gravidade num joelho e não jogará mais esta época. Será porventura também o seu fim de linha connosco, uma vez que o seu contrato expira no final desta época. Uma notícia muito triste por variados motivos: primeiro, porque gosto de futebolistas de fina técnica e superior visão de jogo, coisa que não abunda por cá, e ainda tinha a secreta esperança que o gaulês ficasse mais uma época no Sporting; segundo, na medida em que, com a sua experiência, poderia em campo, com os seus conselhos, ajudar no posicionamento dos jovens que têm vindo a ser lançados; finalmente, visto que o plantel ainda fica mais pobre, restando Acuña (Porthos) ao grupo de Mosqueteiros (Bruno/D' Artagnan, Dost/Aramis e Mathieu/Athos) que com grande brio contribuiu decisivamente para a conquista de duas taças na época passada (Renan também foi muito influente, mas entendo que se tenha dado uma oportunidade a Max). Sabendo-se que finalmente seguimos a opção correcta de apostar nos jovens em detrimento da classe/média baixa onde durante anos delapidámos as nossas finanças, que enquadramento de superior qualidade estamos a criar para melhor os potenciar? 

mathieu2.jpg

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mensagens

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Siga-nos no Facebook

Castigo Máximo

Comentários recentes

  • Anónimo

    Os números nunca enganam...eles é que são os engan...

  • Anónimo

    Boa noite Pedro:Mais um post assertivo, como usual...

  • Pedro Azevedo

    Anime-se. Há vida para além do défice. Há é que lu...

  • Pedro Azevedo

    Não tem de agradecer. Tenho opinião formada sobre ...

  • Pedro Azevedo

    Não. Para já saiu uma notícia pequena pescada nas ...