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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

27
Fev22

Tudo ao molho e fé em Deus

Derrapagens


Pedro Azevedo

Caro Leitor, o Sporting começou a derrapar nos Açores. Uma derrapagem numa ilha pequena tem a vantagem de não poder ser muito longa e a desvantagem de a máquina poder facilmente acabar a meter água. Quis o destino que esta última hipótese prevalecesse, pelo menos por aquilo que se pode observar pela leitura da generalidade dos blogues leoninos, sempre transfigurados nestas ocasiões em sofás de psicanálise. E o que nos dizem esses consultórios que medem o pulso à sanidade mental dos pacientes Sportinguistas? Que o Pote este ano não marca os golos suficientes para disfarçar o deserto concretizador do goleador que custou o triplo do dinheiro. E que o Matheus Nunes se deixou endeusar pelas palavras do Pep Guardiola e só quer a bola para ele. Ora, como da nova derrapagem numa ilha desta feita o Pote escapou ileso, as atenções centraram-se no Menino do Rio. O que é curioso porque uma simples leitura das estatísticas da Liga mostra à evidência que o Matheus é o jogador dos 3 grandes que mais faltas sofre durante um jogo. E por larga margem. Faltas essas que lhe limitam a explosão, por serem cometidas precisamente no momento em que sai da zona de pressão (e não quando segura a bola à procura de uma linha de passe) e se prepara para embalar e assim potenciar a sua melhor característica (progressão com bola). Por muito menos o Benfica em tempos lançou a campanha "Deixam jogar o Mantorras", mas nós, que somos finos e gostamos de nos virar contra os nossos (os bons), beneficiamos o infractor, o fautor da falta útil, o culpado que quase sempre escapa à condenação. No fundo isso nem é Sportinguista, é português, está bem presente na cultura lusa de secreta admiração pelo truquezinho e pelos bons malandros, a vingança do povo contra os poderosos e privilegiados à nascença. Só que devem haver limites. É que não só o Matheus não é um saco de boxe como também não é ele que escolhe jogar a partir da esquerda (recebe a bola de frente para o jogo, mas perde aquele momento em que tira adversários do caminho quando recebe de costas na zona central e se vira com maestria). Ainda assim é sempre o primeiro a dar uma linha de passe ao portador de bola, a ligar o jogo. E, sinceramente, até gostaria que fosse mais egoísta, que assumisse mais o jogo, rematasse mais, fizesse prevalecer o seu nóvel estatuto. É que se o Matheus peca por algo não é pelo vedetismo mas sim por ainda alguma timidez que se nota em determinados momentos de um jogo. Assim sendo, podemos enfiar a cabeça na areia como a avestruz ou enfrentar a realidade. E a realidade diz-nos que só arranhámos o Marítimo a partir do momento em que o Edwards entrou. Ora, o inglês esteve cerca de 76 minutos fora das operações. Dividido entre o banco e o aquecimento. O aquecimento global dos Sportinguistas, entenda-se, desesperados que estivemos por uma solução que despertasse da letargia que se viu em campo, unicamente interrompida quando Porro imitou o Theriaga numa carambola às 3 tabelas que envolveu trave, poste e linha de golo. Porque até aí cumprimos brilhantemente com o manual do futebol sem balizas. O Paulinho baixou como sempre (a sua cotação, que não o preço) no terreno e interagiu muito bem com o resto da equipa. E o Nuno Santos fez centros rasos e certeiros para os pés dos jogadores insulares. Neste estado de coisas só o Coates nos poderia ter salvo. Mas a estrelinha parece ter abandonado o uruguaio e uns centímetros a mais para cima e para a direita não deixaram que fosse o habitual salvador. Enfim, do mal o menos, o Slimani fez um golo. Parecendo que não, antigamente tal era visto como positivo, lendo-se o antigamente como uma época da nossa história em que a um ponta de lança eram pedidos golos, como por exemplo em 1952, a última vez que fomos bicampeões. Rezam os livros que gostámos tanto que estendemos o momento até ao tetracampeonato. [Ora bem, esta teve profundidade(!), exactamente o que falta ao nosso futebol. Pensem nisso! (Ou não, que hoje até é dia de descanso...)]

 

Tenor "Tudo ao molho...": Matheus Reis

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21
Fev22

Tudo ao molho e fé em Deus

A 18ª regra


Pedro Azevedo

Segundo o International Board, um jogo de futebol tem só dezassete regras. Soa a pouco. Assim sobra muito espaço para as recomendações. Como a da Lei da Vantagem, que o Malheiro tanto desprezou em Alvalade. Não sendo tal ainda suficiente, há então margem para a criatividade. Pululam assim coisas que não são regras mas se praticam em estádios por todo o país. Como a Lei do Mais Forte, que o Luís Godinho mostrou venerar em Moreira de Cónegos ao preferir ver o que não foi nítido e assim poder deixar de vêr o penálti e expulsão (segundo amarelo) a Uribe que se impunham, expulsão essa que mesmo assumindo o penálti já iria aliás perdoar. Essa lei não consta em nenhum manual oficial. Mas acaba por implicitamente se constituir como a 18ª regra do manual de regras do futebol português, o "Pinto da Costa (A)Board" sobre um jogo de futebol. "All aboard? The night train"... (E tudo começou na noite daquele acidental choque do Godinho contra o combóio em movimento que se chamava Danilo.)

 

Na antecâmara do jogo, o Rúben Amorim abraçou efusivamente o Bruno Pinheiro do Estoril. Por momentos, temi que o venerasse tanto quanto ao Guardiola. Mas não, e o Sporting embalou para uma exibição competente e personalizada. Com boas movimentações e trocas de bolas, o Sporting foi-se envolvendo na área onde o Estoril tinha o autocarro estacionado. E o golo finalmente surgiu, com o Pote a aproveitar o facto de o referido autocarro estar mal travado. E depois houve ainda o alegórico Momento Zidane, de passagem de testemunho no casino que também é o futebol, em que o ex-estorilista Matheus Nunes deu à roleta à frente de um croupier Geraldes que muito prometeu dar cartas no passado mas agora precisa que o levantem do chão como no título do livro do Saramago. 

 

O segundo tempo trouxe-nos a expulsão de Raúl Silva e a confirmação de Slimani. Bem sei que esta coisa de um jogador primeiro tocar na bola e depois isso servir de álibi para poder pôr o seu próximo a fazer tijolo no Cemitério dos Prazeres deve ser um caso muito interessante do ponto de vista de um advogado de defesa, mas o bom senso diz-me que, tal como no caso do Bragança, o jogador foi bem expulso. Quanto ao Slimani, para quem dizia que o homem estava velho, corcunda e já nem corria, aquele sprint de costa a costa, com a bola colada ao pé, deve ter emudecido muito boa gente. Além disso, combinou bem com o resto da equipa, participando na elaboração dos segundo e terceiro golos. Só lhe faltou o golo, mas isso ficará certamente para uma próxima oportunidade. Com um homem a mais, o Sporting dominou ainda mais o jogo. E marcou belos golos, o segundo depois de um toque de magia de Paulinho que isolou Matheus Reis, o terceiro num momento de inspiração de Pablo Sarabia.  

 

Temo que este campeonato se vá definir nos detalhes. O detalhe do penálti marcado a Matheus Reis contra o Braga, o detalhe do penálti e expulsão (a Uribe) perdoados ontem em Moreira (e ainda houve uma mão suspeita de Mbemba), já para não falar no detalhe do golo anulado ao Estoril contra o Porto que nem visionamento do detalhista VAR teve (por ter sido imediatamente anulado pelo árbitro). São já muitos detalhes (pouco ou nada nítidos, daqueles que não caberia ao VAR julgar) a depender dos mesmos, pelo que se calhar os mesmos poder-se-iam entregar a actividades que requeressem esse tipo de rigor, como ourivesaria ou mesmo rendas de bilros. Uma coisa é certa, o futebol ficaria mais rico. (E sempre seriam boas alternativas à consultoria informática, que a vida não é só ciberinsegurança ou empresas alegadamente "cibermulas" do dinheiro.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Matheus Reis

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16
Fev22

Tudo ao molho e fé em Deus

Pep Rápido e o caloiro


Pedro Azevedo

Por Toutatis, mais do que o céu lhe cair um dia em cima da cabeça, o que o nosso chefe Amorinix mais teme é a alteração das rotinas. Nesse sentido, um jogo da Champions no nosso estádio vem sempre a calhar, na medida em que não há competição que ofereça tanto a possibilidade de manter tudo igual, desde o intemporal hino do Handel que precede a abertura das hostilidades até à "manita" que com uma infalibilidade igual à da DHL sistematicamente nos entregam em casa no fim do jogo. Ainda assim, subsiste o sucesso de já termos umas rotinas. Sistematizadas. Agora só precisamos de saber quando as utilizar... (Nem os irredutíveis gauleses alguma vez venceriam os romanos sem uma poção mágica.)

 

O problema emerge quando os adversários na Champions partilham do mesmo gosto de Amorinix pelas rotinas. E então é vê-los a asfixiar os nossos jogadores, não lhes dando o tempo e o espaço que sobejam no campeonato português. O que nos traz a lição de que as nossas rotinas dependem sempre das rotinas dos outros. Porque não jogamos sozinhos, por muito que no principal torneio tuga haja jogos em que parece que defrontamos uns bidões. Nada tenho contra bidões, diga-se, até porque eles geralmente comportam-se na justa medida, só que tendem a ser pouco comunicativos, empáticos e não se mexem sem ser por influência de uma mão (livra, outra vez!) externa. Ora, da influência de mãos (apre!) externas estão os Sportinguistas precavidos há muitos anos, bastando consultar a literatura e áudio que pululam por aí, pelo que se torna ainda mais importante o cabal desempenho dentro do campo. Nesse sentido eu entendo o Amorinix: se é para viver uma vida inteira de joelhos, então mais vale "morrer" logo de pé, procurando agilizar os processos contra os melhores do mundo. Perdendo, sim, mas tentando jogar como gente grande, sem complexos nem cadeados ou fechaduras das Chaves do Areeiro. Crescendo a cada jogo. A questão é que quando durante 90 minutos não se faz um remate enquadrado à baliza fica-se com a sensação que a única coisa que cresceu foi o campo, demasiado comprido para o poder dos nossos. E isso significa perder sem glória, o que não pode ser considerado uma boa rotina. 

 

No fim do jogo o Guardiola, que há quem diga que percebe alguma coisa de bola, transmitiu aos repórteres presentes que o Matheus Nunes era um dos melhores jogadores do mundo da actualidade. Pois eu ainda sou do tempo em que o Keizer, o Tiago e o Leonel o ignoravam e o Silas nos dizia que o Menino do Rio estava a bater à porta da equipa principal. Ao que consta a coisa durou ainda alguns meses (15, ao todo) e a porta nunca se abriu. Até que chegou o chefe Amorinix e escancarou-lhe as portas. Tal como a outros jovens. Ora, isso para mim é que foi uma bela rotina inaugurada aí. E nunca me esqueço disso nos dias cinzentos. Disso e do resto, dos troféus conquistados. Por isso, errando ou não, a rotina que eu mais quero ver implementada é a do Rúben Amorim se deslocar diariamente a Alcochete. Para o treino, o jogo a jogo. Ano após ano. Forever! (Ou até ele querer mudar as suas rotinas... rodoviárias.)

 

P.S. Aqueles observadores credenciados das Forças de Paz da ONU, que trocaram o capacete pelo colete azul, já apresentaram às autoridades um relatório pormenorizado sobre as ocorrências de sexta-feira no Dragão? É para hoje ou vai colado a cuspo?

 

Tenor "Tudo ao molho...": Matheus Nunes

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Oh para ele a passar pelo De Bruyne...

16
Fev22

Reflexão sobre o jogo de ontem


Pedro Azevedo

O Sporting tem inegavelmente bons executantes técnicos. Nesse sentido, jogadores como Porro, Gonçalo Inácio, Matheus Reis, Matheus Nunes, Pote, Paulinho e Sarabia não envergonham ninguém. O problema é quando essa qualidade técnica é testada numa outra dimensão galáctica onde o tempo e o espaço são bem menores. Aí, francamente, só Porro e Matheus Nunes conseguem conjugar a capacidade técnica com a protecção de bola e a velocidade de execução que é requerida. Isso ficou bem patente na recepção desta noite ao Manchester City, uma equipa de pirilampos que se acendem e se apagam (mas continuam lá, ainda que perigosamente não os vejam) de tal forma que convidam o adversário a uma espécie de caça aos gambuzinos. Adicionalmente, contra uma equipa como a treinada por Pep Guardiola, que se reagrupa e te cerca rapidamente, talvez faça pouco sentido apostar as fichas num ponta de lança que baixa demasiadamente no terreno para organizar jogo. Mais importante seria procurar explorar o espaço existente nas costas de uma defesa sempre muito subida, solução que aconselharia a lançar Islam Slimani. Tal incomodaria mais o City, que teria que se esticar mais como um harmónio e deixaria um espaço entre-linhas que de outro modo raramente se viu num jogo em que os do norte de Inglaterra pareceram sempre demasiado confortáveis no relvado. Também Bragança poderia ter ido a jogo como falso interior esquerdo, dando uma mãozinha a Palhinha e Matheus Nunes na contenção necessária a meio-campo e ajudando a controlar mais a posse de bola, adaptando este Sporting a uma realidade europeia onde as equipas têm o miolo central mais composto. A solução de Esgaio como ala esquerdo foi muito limitativa do ponto de vista ofensivo e provavelmente destinar-se-ia à utilização de um pé direito que desse um melhor acompanhamento aos movimentos interiores de um Cancelo que jogou... no flanco oposto. Por outro lado, à semelhança do já anteriormente visto contra o Ajax, a nossa pressão alta revelou-se ineficaz e expôs demasiadamente os dois jogadores centrais do meio-campo, deixando imenso espaço entre-linhas para o City explorar e os nossos médios preencher. E depois houve a questão dos erros individuais: no golo inaugural, Matheus Reis primeiro, Gonçalo Inácio depois põem em jogo o jogador do City com bola; no segundo golo, Matheus Reis desequilibra-se e dá espaço a Bernardo Silva; no terceiro, três jogadores na linha da bola (Esgaio, Matheus Reis e Coates) deixam-na passar num número semi-cómico que envolveu uma "cueca", uma escorregadela (será que um defesa como Matheus Reis joga com pitons de borracha?) e um ressalto infeliz; no quarto, Sterling foge no limite do fora de jogo, mas recebe um passe de Cancelo executado sem qualquer pressão de jogadores leoninos sobre a bola (erro colectivo); mesmo o excelente quinto golo nasce de um mau passe inicial de Adán. Assim, foi fácil para o City contruir uma goleada. Demasiado fácil. 

 

Rúben falou, e bem, da sua fé na evolução futura da equipa, mas a margem de progressão está limitada por um nível de competitividade do futebol português muito baixo. A intensidade dos jogos é pequena e o ritmo de jogo está constantemente a ser prejudicado por diversas paragens onde jogadores de diversas equipas (Sporting incluído) aproveitam para recriar a intensidade dramática das peças de Shakespeare, tudo isto concorrendo para que a nossa Liga seja apenas a 25ª europeia em tempo útil de jogo. Assim não temos hipóteses na Europa. O formato das nossas competições internas deveria ser urgentemente revisto e adaptado à nossa realidade e necessidades. Volto por isso a insistir num campeonato a 12, com play-off (6 primeiros) e play-out (6 últimos), jogado em "poule", que teria 32 jogos (apenas menos 2 que no formato actual) certamente bem mais interessantes e geradores de receitas. Mas nisso Amorim não tem qualquer culpa. Milagres já ele fez, como a conquista do campeonato na época transacta e os outros 3 troféus ganhos bem o demonstram. O que não quer dizer que esteja isento de erros, apenas indica, isso sim, que muito provavelmente cometerá menos erros que os seus colegas de ofício em Portugal. Nada porém que nos deva incomodar em demasia, desde logo porque sem erro não há crescimento, e Rúben, como homem inteligente que é, saberá evoluir para um outro patamar. Assim o Sporting continue a ter este tipo de experiências europeias, de preferência esbatendo cada vez mais a desproporção de forças dentro do terreno de jogo. (Já agora, sendo a competitividade do nosso campeonato baixa, talvez não fosse má ideia impôr que os nossos jogadores não relaxassem após uma vantagem de por exemplo dois golos e fossem à procura de mais, mentalidade bem patente em equipas como o Manchester City, Bayern, Liverpool ou Ajax, esta última pertencente a um campeonato que não se pode dizer que tenha jogos intensos ou tacticamente muito elaborados, mas onde a procura do golo por parte de qualquer equipa é incessante.)

13
Fev22

Tudo ao molho e fé em Deus

No Reino dos Visigodos


Pedro Azevedo

Os grandes jogos de futebol lusos são também importantes lições de história, um pretexto para melhor se ficar a conhecer a evolução das comunidades humanas no território que hoje se denomina Portugal. Assim, enquanto a influência romana em Portugal pode ser observada pelo latim que se gasta após os jogos, o legado das invasões bárbaras é continuamente renovado a cada clássico no Dragão. Nesse particular, o líder visigodo, Pinto da Costa (e o engenheiro "visigordo" que é seu lugar-tenente), mostra o quão teme os "mouros", especialmente os que vêm de Lisboa, recorrendo por isso frequentemente a ancestrais tácticas de guerrilha que tanto podem envolver a utilização de reagentes anti-sépticos como de agentes da (des)ordem. Tudo em vão, porque, se a história nos ensina algo, ainda vai acabar a andar à nora... (Já a influência castelhana neste território ficou registada com os olés com que cada Sportinguista em casa mentalmente acompanhou a genial jogada do nosso segundo golo.)

 

Continuando a percorrer a história de Portugal, estes jogos trazem sempre à liça as memórias intemporais dos bárbaros Fernando Couto, Paulinho Santos, Jorge Costa ou Secretário, todos eles anos a fio a gozarem (com a alegada excepção do Secretário) connosco. Era um tempo em que os homens voavam sob a influência dos pitons dos visigodos portistas. Voavam, e por voar acabavam expulsos como o beato Ouattara ou o santo Juskowiak, ambos mártires da Areosa. Mas estava tudo bem, com mais ou menos quinhentinhos, fruta ou chocolate, que de apitos ainda não se conhecia o dourado. A coisa julgava-se já ultrapassada, mas eis senão quando regressou em força na última sexta-feira. Porém, se é verdade que a história frequentemente se repete, não deixa também de ser verídico que sempre adquire cambiantes diferentes. Assim, tanto foi possível observarem-se reminiscências de um outro tempo, do tipo do Matheus Nunes voar após cada nova entrada insuficientemente admoestada pelas costas, como nuances modernaças em que quem voa é o prevaricador - no caso um (A)ladino iraniano que para o efeito deve ter um daqueles tapetes persas das mil e uma noites - e "quem se lixa é o mexilhão" (o importado e importante Coates). Tudo sob o olhar inegavelmente assustado de um Pinheiro, mansinho para os portistas e bravo para os Sportinguistas, provavelmente desejoso de sair dali sem que lhe dessem na pinha. (Ainda assim, a vantagem de ser Pinheiro é que se cria raizes, outros como o Pratas até corriam na hora em que os visigodos levantavam o sobrolho na sua direcção.)

 

No final roubaram-nos: subjectivamente, dois pontos; objectivamente, uma carteira e um telemóvel. Não sei como há quem defenda isto (para além obviamente do Baía, que tem de fazer pela vida e afinal até era guarda-redes), mas há tradições que são difíceis de erradicar. Todavia, que me desculpe o PAN: tourada por tourada, eu prefiro a de Barrancos, que é nossa e não produto da cultura latino-americana. (E quem lidera toma o touro pelos cornos.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Matheus Nunes

 

P.S. Ah, e os dois golos que ainda assim conseguimos marcar no Dragão foram tirados a papel químico: variação súbita do centro de jogo (da direita para a esquerda e o seu contrário), bola para o meio e golo. À semelhança de tentos obtidos de igual forma na época passada. Isto também é laboratório.

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10
Fev22

He-Man ou Sli-Man(i)?


Pedro Azevedo

O jornal A Bola diz que Fábio Vieira tem "hímen nos seus pés", algo que assumido literalmente constituirá um inesquecível fenómeno de género que certamente irá ser aprofundado tendo em vista uma melhor ilustração das nóveis aulas de Cidadania. Mas poderá ser também uma notável figura de estilo, que nos revela o quão a bola deve ser tratada com carinho, afagada mesmo, desde o impacto da sua recepção até ao momento em que sai (na ponta) do... pé. Neste sentido, outras metáforas homófonas poderiam ter sido esboçadas à volta do pé do Fábio, por exemplo envolvendo o íman (ou ímã) ou mesmo o He-Man. Esta última seria certamente a mais prazerosa para os portistas, que decerto não enjeitariam ver o alter-ego do Príncipe Adam (Adán, em espanhol) subjugado nos pés ou, mais propriamente, aos pés de Fábio Vieira. Mas, atenção(!), de Alvalade para além do He-Man vem também o guerreiro Sli-Man(i). É que seis golos em oito jogos com os portistas devem ser um suficiente cartão de visita para augurar ir dar água pela barba (o do hímen fica automaticamente livre disso) aos comandados de Sérgio Conceição. Ou não?

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07
Fev22

Tudo ao molho e fé em Deus

A metafísica do penálti


Pedro Azevedo

A história dizia-nos não ser fácil para o Sporting jogar contra o Famalição. Disse bem, F-a-m-a-l-i-ç-ã-o, ou Fama Lição, que para os jogadores minhotos cada jogo com um grande é uma montra para a fama, para o mercado (uma equipa de um mercador é naturalmente um amontoado de jogadores com os olhos postos no mercado), momento ideal escolhido para vestirem o melhor fato de gala e exibirem dentro do campo tudo o que aprenderam e não mostraram sempre que o palco foi menor ou despertou menos curiosidade mediática. Sabendo-se de antemão que nunca havíamos vencido o Famalicão para o campeonato (em cinco jogos) desde que este regressou das profundezas das divisões inferiores, os Sportinguistas já estavam precavidos para as lições futebolísticas que mais uma vez poderiam advir desta partida. Ninguém porém poderia esperar que desta vez a lição se fosse centrar sobre a metafísica do penálti e englobasse como protagonistas os numerosos comentadeiros de serviço das diversas televisões, todos eles procurando descrever os fundamentos, as leis, as recomendações, as causas ou princípios e o sentido e finalidade de realidade inerentes à marcação de uma grande penalidade. Surpreendentemente, a coisa acabou por ser um jogo dentro do próprio jogo, estendendo-se até para além do jogo, isto é, o jogo já há muito havia terminado quando a metafísica (ou meta fisica, para alguns) do penálti tomou conta do cenário central de abordagem ao próprio jogo. Deve dizer-se que a discussão teve a sua graça e permitiu-me dar algumas bem audíveis gargalhadas. Uma delas soltei quando um senhor da SportTV garantiu que o Porro havia caído em cima da perna de um jogador famalicense, razão substantiva, na sua opinião, para a marcação de um castigo máximo. Ora, eu não vi nada disso. O que eu vi foi o Porro imitar o Cavaleiro Negro do "Em Busca do Cálice Sagrado" (Monty Python), e já sem braços e pernas tentar, primeiro com a cabeça, depois só com as orelhinhas, incomodar o jogador minhoto como se do Artur de Camelot este se tratasse. E não preciso da metafísica, bastam-me os conhecimentos básicos sobre a física e em particular sobre a dinâmica do movimento, para entender que se alguém me cair sobre uma perna eu fico logo ali, com operação garantida à tíbia e perónio e fisioterapia durante meses, não dou nem mais um passo com o pé firme no chão (se a meia do jogador famalicense fosse branca ainda se poderia alegar no sentido da penalidade o "pé de gesso", mas sendo azul...). Outro momento hilariante foi o do penálti do Paulinho. Quer dizer, um jogador famalicense atrasa mal a bola e ao ver que Paulinho se vai aproveitar desse deslize procura emendar o erro através de um carrinho. A sua perna esquerda é consequente nesse acto e chega primeiro à bola enquanto o Paulinho esboça um movimento teatral ao ir de encontro às pernas do adversário. Até aí nada indiciara a existência de uma falta. Só que a perna direita do defensor desliza na relva e acaba por acertar no calcanhar do avançado do Sporting. Penálti nítido, sem sombra de dúvida, independentemente do La Féria ter no Paulinho um elemento em conta para incluir a trupe do Politeama. Penálti cá, penálti lá, a inquisição espanhola voltou a fazer toda a diferença: Sarabia castigou lá, Adán defendeu o castigo cá. E o Sporting foi para o intervalo na frente do marcador.

 

No segundo tempo os minhotos continuaram a mostrar um bom futebol, nomeadamente através de variações constantes do centro de jogo que muito atrapalharam as marcações do meio-campo leonino. Isso, somado à boa técnica de vários dos seus jogadores, foi criando inúmeros problemas aos leões, que muito devem agradecer o resultado à má definição do último passe/remate por parte dos famalicenses e ao monumental golo (o seu primeiro de verde-e-branco) de Matheus Reis que acalmou um pouco as nossas hostes. Enquanto isso, o Sporting procurava ter bola, única forma de esconder uma menor intensidade resultante do facto de 5 dos 11 jogadores em campo estarem à bica de falhar o jogo com o Porto. A fava acabaria por tocar a Porro, confirmado como o Cavaleiro Negro da noite de Alvalade, que assim estará ausente do Jogo do Título. Uma baixa muito importante para nós num jogo que vai pedir muita garra, disponibilidade física e vontade de vencer a cada um dos nossos jogadores. Bom, mas isso é só para a semana que vem. Para já "matámos" o borrego, seguir-se-á o Dragão. Jogo a jogo. E com Slimani como nóvel cavaleiro candidato a São Jorge (e Edwards como opção a ter em conta). 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Antonio Adán

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(Imagem: A Bola)

01
Fev22

A ginga na cabine telefónica e o regresso do filho pródigo


Pedro Azevedo

Ao Sporting chegou ontem Marcus Edwards, futebolista inglês que actuava no Vitória Sport Clube. Com esta aquisição o Sporting ganha um jogador que desequilibra no 1x1, uma lacuna existente no plantel desde que Raphinha foi vendido aos franceses do Rennes. Bem sei, alguns poderão argumentar que Jovane, de quem eu muito gosto, agora cedido com cláusula de opção aos romanos da Lazio, era esse jogador, mas o cabo-verdiano reunia outras características, mais talvez próprias de um segundo ponta de lança (o Samuel Lino, do Gil Vicente, será o jogador que mais se lhe assemelha), sendo igualmente veloz e com golo mas não possuindo uma finta tão curta e desconcertante quanto a do ex-vimaranense (apesar de sempre ter tido o mérito de ousar ir para cima do seu defensor directo). Além disso, teve sucessivas lesões musculares, o que o impediu de ganhar o ritmo certo que lhe permitisse atingir o patamar que, na minha opinião, as suas qualidades pressagiavam.

 

Edwards tem indiscutivelmente pormenores de craque, aliás bem patentes na forma como progride em velocidade com a bola "colada" ao pé. Adicionalmente, demonstra critério no timing de passe e sabe explorar e solicitar os espaços entre-linhas, seja neles penetrando através do drible ou de tabelinhas curtas com quem já lá esteja. Aliás, a sua ginga permite-lhe tirar com facilidade 1 ou 2 adversários da frente no espaço de uma cabine telefónica, o que se fortemente recomenda contra equipas que estacionem o autocarro. Estas características contrastam com a qualidade de passe (Sarabia), de entendimento do jogo (Paulinho) ou de remate (Pote) dos outros avançados do Sporting, sendo por isso de uma complementariedade indiscutível para o plantel. Deve, porém, melhorar o seu envolvimento defensivo, não sendo crível que Amorim venha a apostar muito nele se não o fizer, pelo que, não suprindo essa lacuna, estar-lhe-ão reservados os momentos finais de jogos já antecipadamente resolvidos a nosso favor ou que necessitem de que "toda a carne seja posta no assador". O bom é que terá tempo para se adaptar, havendo Pote, Sarabia, Nuno Santos e Tabata como opções para o combate ao título de 2021/22. Porém, caso suba os seus níveis de competitividade, quem sabe se o Sporting não terá aqui o joker para o ataque ao título...

 

Regresso festejado é o de Islam Slimani, que um dia se despediu em lágrimas do público de Alvalade após ter contribuído decisivamente para uma vitória num Clássico e agora volta ao nosso convívio para presumivelmente trazer-nos mais sorrisos nos lábios. Para já o Sporting ganha uma solução alternativa a Paulinho através de um jogador diferente, bastante melhor na grande área e igualmente com algum associativismo (como agora se diz em futebolês). Tecnicamente não é tão bom quanto Paulinho, porém também desce no terreno e dá apoios verticais. Todavia, dele não será provavelmente de esperar que arredonde tanto o jogo como Paulinho faz, mas sim que procure a profundidade. Enquanto Paulinho se destaca pela inteligente leitura de jogo e algumas características mais próprias de um armador, Slimani é um avançado móvel que desgasta os defesas com as suas correrias em toda a frente de ataque e depois consegue ainda estar na área no momento da finalização. Nesse detalhe é bem mais frio do que Paulinho, tem o tal "killer instinct" que lhe permite escolher o posicionamento perfeito e não treme na hora de rematar, destacando-se aqui o seu superior jogo de cabeça. Para terminar esta breve análise, estando Slimani em jogo, provavelmente Amorim pedirá a Pote para recuar e daí organizar o jogo, missão actualmente conferida a Paulinho, este último uma espécie de Firmino do Klopp no sistema de Rúben (ao Slimani estará reservado o papel de "moto").

 

Sejam bem-vindos ambos e que nos reiterem as alegrias vividas na época passada e também já nesta temporada (conquistas da Supertaça e da Taça da Liga)!

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    Adan regressou prematuramente , um mês antes , dum...

  • Pedro Azevedo

    Caro Manuel Joaquim, seja bem-vindo!Se comunicamos...

  • Manuel Joaquim

    Compreendo o raciocínio mas discordo. Acho que nos...

  • Pedro Azevedo

    Tenho do Adán a imagem de um bom e íntegro profiss...