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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

30
Jan22

Tudo ao molho e fé em Deus

Ninguém espera a inquisição espanhola


Pedro Azevedo

Dá-me imenso gozo ouvir e ler aquelas pessoas que analisam um jogo de futebol pelo seu resultado. São pessoas pragmáticas, tanto que se pudessem resumir a vida de alguém provavelmente remeteriam logo para a notícia da sua morte. Exceptuando o facto de não se recomendarem para elogios fúnebres, não aquecem nem arrefecem, não trazem grande mal ao mundo. O problema surge quando algumas dessas análises necessitam de ser feitas em tempo real, isto é, à medida que um jogo decorre. É o caso dos comentários televisivos em directo. Então ocorrem cenas hilariantes como a patética tentativa de explicar por que razão determinado clube ganhou vantagem no marcador apesar de nada de relevante ter feito para tal. Entramos então no reino da metafísica e, porque não dizê-lo, da banha da cobra e do charlatanismo quando essa necessidade de explicar o acaso ou sorte acaba por desvendar mirabolantes teorias que são impingidas ao pobre do telespectador. Ocorre então que em casa o telespectador é convocado para ver no ancião Vertonghen um potencial ganhador do prémio Best da FIFA ou no Morato o novo Beckenbauer. Sem esquecer o João Mário, patinho feio no Sporting e renascido (e principescamente pago) cisne no rival. Quer dizer, uma pessoa consciente apercebe-se da falácia em que está a incorrer, mas a necessidade de explicar as coisas pelo seu resultado pode levar muitos a entrar num torpor que os conduza a compartilhar estas heresias. Para grandes males, grandes remédios, e nada nem ninguém combate tão bem heresias como a inquisição espanhola. Ninguém a espera (como diriam os Monty Python), em particular os tais analistas, mas pode ser extremamente letal quando no relvado junta os inquisidores Pedro Porro e Pablo Sarabia (e Antonio Adán). Em consequência, os analistas a esta hora dedicam-se a acrobáticos números de contorcionismo televisivo. E o telespectador vê tudo mais nítido, como se lhe tivessem retirado as cataratas (analíticas). Cristalino, cristalino. (Só deu Sporting.) 

 

... Vingada uma espinha antiga atravessada na garganta de todos os Sportinguistas, é justo que doravante a Taça Lucílio Baptista se passe a designar por Taça Ruben Amorim. É de magia que falamos, ou não tivesse o homem completado um "hat-trick". Numa competição curiosamente patrocinada pela Allianz, ele é o nosso verdadeiro seguro de vida. 

 

Tenor "Tudo ao molho": Matheus Nunes, Pedro Porro e Pablo Sarabia (ex-aequo)

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28
Jan22

Bring on the dancing horses


Pedro Azevedo

Estava a ouvir o Disorder dos Joy Division e ocorreu-me pensar na entropia que vem bloqueando o jogo do Sporting que outrora parecia música tocado de ouvido, com as suas rotinas de pressão alta, recuperação de bola e imediata procura da profundidade (o espaço nas costas dos defesas opositores). Não sei se isso terá a ver com a inclusão de Paulinho no onze, o que é certo é que as suas descidas sucessivas no terreno tornaram o nosso jogo mais posicional, mais redondo, bonito até, mas porventura menos eficaz. Uma consequência directa disso foi Pedro Gonçalves ter reduzido o seu horário de trabalho de tempo integral para uma prestação de serviços num regime de "part-time" em zonas próximas da grande área dos adversários, deixando de procurar os espaços mais recuados por onde iniciava combinações rápidas e incisivas com os atacantes que invariavelmente terminavam com ele próprio, vindo de trás e assim iludindo as marcações, a finalizar no aproveitamento de tabelinhas ou segundas bolas. Também as intermitentes chamadas de Daniel Bragança à equipa parecem demonstrar as dúvidas de Mister Amorim sobre o melhor modelo de jogo. Este parece assim em transição, algures entre o "heavy metal" tão do garbo de um Klopp e a balada entorpecedora (do adversário) de um Guardiola. Só que esse meio-caminho precisa urgentemente de ser resolvido no sentido de ter um destino, até para que não fiquemos a meio-caminho de coisa nenhuma (numa encruzilhada). De preferência já na final da Taça da Liga. Cá para mim a coisa resolvia-se assim: Bring on the dancing horses (Matheus Nunes e Pedro Porro) para quebrarmos uma e outra vez as linhas do Benfica. Quem sabe no Sábado, dia de aniversário de quem articula estas linhas, o Amorim faz Echo (ou não) disto e me/nos oferece um belo presente... (Se tiver de arriscar um Homem do Jogo vou para o regressado Porro.)

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27
Jan22

Tudo ao molho e fé em Deus

Flying Circus


Pedro Azevedo

Sem Coates, voltou a ser um central sul-americano a fazer o papel de Paulinho. Chama-se Villanueva, um venezuelano provavelmente mais habilitado a defender a sua baliza a sete Chavez, e até agora ainda não tinha mostrado dotes goleadores especialmente relevantes. Mas desta feita fez um golo com um disparo indefensável efectuado a 1 metro da baliza, marca de onde Paulinho mais tarde miraculosamente despachou para canto um golo cantado. Tudo está bem quando acaba bem, mesmo que o guião do jogo se tenha assemelhado ao de um filme dos Monty Python. (Pensando bem, nem o John Cleese se lembraria de uma coisa assim.)

Paulinhosantaclara.jpg

24
Jan22

Chuta Matheus, chuta


Pedro Azevedo

Matheus Nunes tem tido uma progressão assombrosa desde que chegou a Alvalade. Hoje já não é só aquele Mustang que se mostra indomável quando existe espaço livre por onde cavalgar, tem outras armas para contornar os autocarros que se dispõem à sua frente. Uma dessas armas é o passe de ruptura, característica que apenas se tornou notória esta temporada, demonstrando a evolução do seu jogo. Fica porém a faltar algo que poderá vir a fazer toda a diferença. É que Matheus continua a revelar timidez na hora do remate e mesmo quando em boa posição, à entrada da área, continua a privilegiar endereçar a bola a um companheiro. Terá, por isso, que assumir um pouco mais para si as decisões, o que poderá catapultar o seu jogo para um patamar superior. Como sempre aqui disse, atendendo ao que cresceu tacticamente com Amorim e às suas inatas qualidades técnicas e físicas, o seu único limite será o mental. Possa ele expandi-lo e teremos um jogador singular no panorama mundial. 

23
Jan22

Tudo ao molho e fé em Deus

O Pinheiro do Paulo Sérgio


Pedro Azevedo

Nos jogos do Sporting há regras específicas para a marcação de grandes penalidades. Pegando no adágio popular que diz que um é pouco, dois é bom e três é demais, se um jogador der duas cambalhotas após um ligeiro encosto então os senhores do apito marcarão o castigo máximo. Foi o que aconteceu ontem com Galeno. Todavia, se um futebolista ousar triplicar o número de reboladelas no chão, como aliás o Paulinho amiúde faz, então o árbitro será tentado a deixar seguir. Quer dizer, a vontade de dissimular é igual, em ambos os casos os jogadores teatralizando a morte iminente na esperança de que o padre de serviço avance com a extrema unção, mas o resultado final marcará toda a diferença. Nem que para tal tudo tenha de ser ungido com a benção e alto magistério do VAR de plantão, claro, ou não tivesse já há muitos anos o Paulo Sérgio diagnosticado correctamente o nosso problema: falta-nos um Pinheiro, é o que é, ontem como hoje. Especialmente um daqueles que não seja manso, como tal originário de um certo velho mundo, de casca grossa e raízes profundas e tentaculares. Tudo o resto, não sendo de todo negligenciável, é uma treta. Como a questão dos erros individuais ou a do... ponta de lança. (Pensando bem, ganhar assim seria, isso sim, uma grandíssima treta.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Matheus Nunes 

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23
Jan22

Diagnóstico e soluções


Pedro Azevedo

Uma época não se define apenas por um ou outro pormenor, há um conjunto vasto de situações que pode levar ao sucesso ou ao fracasso. Por exemplo, desta época para a anterior resulta que houve um acréscimo de jogos. Bem sei, o plantel foi estrategicamente definido como curto para que os jovens pudessem aparecer (embora me pareça que não há qualidade semelhante à de Matheus, Inácio ou Nuno Mendes pronta para entrar, o que acaba por enfraquecer as opções da equipa principal), todavia foi precisamente num momento de densidade competitiva menor - a Champions só retornará em Fevereiro - que o Sporting começou a baquear. Será isso atribuível ao cansaço? Ou, tal não poderá estar relacionado com uma menor concentração da parte de alguns jogadores? A parecer justificar esta tese, os erros individuais de Esgaio e Inácio estiveram na origem das duas derrotas registadas já neste ano civil. Quem diz falta de concentração pode dizer nervosismo - é que o muito tempo passado em co-liderança com o Porto, sem nunca conseguirmos ficar isolados, também pode ter provocado alguma erosão psicológica. Outra questão que saltará à vista é a do ponta de lança. O Paulinho é, sem dúvida, um jogador que trabalha muito e ajuda a ligar o jogo da equipa, mas marca poucos golos. E a verdade é que, em jeito de balanço após 19 jornadas, o Sporting leva menos 4 golos marcados do que na época anterior. Ainda assim, dada a segurança defensiva, a equipa foi-se aguentando na frente, mas 7 golos consentidos nos últimos 4 jogos do campeonato acabaram por produzir os efeitos nefastos que estamos a observar. Como alternativas, Pedro Marques foi emprestado e não joga no Famalicão (que contratou um jogador cotado na Ligue 1, o Banza) e TT não parece contar para Amorim como ponta de lança, pelo menos a observar por não ter saído do banco nas duas derrotas observadas neste mês de Janeiro. Em vez disso, o treinador preferiu sempre deslocar o defesa Coates para o centro do ataque, partindo propositadamente os jogos em busca do golo milagreiro. Só que a estrelinha parece arredia nesta época e, havendo relação directa ou não, no final dois empates transformaram-se em duas derrotas. Depois, há também a situação de Porro, um jogador com uma garra incrível e que catapulta a equipa para a frente. Acontece que o espanhol tem estado de fora com uma prolongada lesão muscular, e a equipa sente muito a sua falta. É que uma coisa é o Esgaio tapar um ocasional buraco, outra é pedir-se-lhe que substitua com a mesma eficácia o Porro durante tantos jogos. Acresce que Coates está nitidamente limitado do ponto de vista físico, a contas com recorrentes problemas num joelho, e longe da melhor forma já exuberantemente mostrada em vários momentos nesta época. E Palhinha não regressou tão bem como no momento anterior à sua lesão, questionando-se a eventual titularidade que poderia ser atribuída ao competente Manuel Ugarte. Enfim, mais do que ninguém, Ruben Amorim estará consciente de tudo o que aqui elenquei. E, obviamente, continuará a merecer todo o crédito dos Sportinguistas (isso não se põe em causa), que muito lhe devem. Mas tenho a sensação de que o título nacional será muito difícil de obter esta temporada. É que não só há problemas de difícil resolução como as decisões dos árbitros (deixei para o fim porque me quis concentrar nos motivos internos) desfavorecem-nos relativamente aos nossos principais adversários. Deveremos por isso ser mais competentes em tudo o que dependa de nós. E, por isso e para isso, necessitamos de diagnosticar muito bem as razões que nos trouxeram aqui, o que procurei também eu fazer, ponto essencial de partida para que possamos ter soluções que devolvam as vitórias ao nosso grande clube.  

21
Jan22

Notavelmente notório


Pedro Azevedo

Numa peça assinada no jornal Record, o antigo Director de Comunicação do Sporting, Nuno Saraiva, diz que se "sobressaltou" ao ler que um documento laudatório em relação ao trabalho da actual Direcção assinado por mais de 200 Sportinguistas foi atribuído a um grupo de "notáveis". E acrescenta não ser ele próprio um "notável", pese embora vá adiantando que até foi convidado a assinar o referido documento - algo alegadamente apenas não concretizado por o "documento já estar impresso" -, não fosse provavelmente alguém menos atento esquecer-se da sua relevância no clube. Eu não me esqueço. E, a propósito do contentamento do próprio com o fim (que eu efusivamente, ontem como hoje ou amanhã, sempre aplaudirei) da excessiva adjectivação e linguagem deplorável na instituição, não me esqueço do afã com que Nuno Saraiva semanalmente doutrinava, na Sporting TV, em intermináveis e inesgotáveis homilias destinadas a lavar o cérebro aos Sportinguistas, que muito contribuíram para um inapropriado aumento de crispação interna no clube. Usando, por exemplo, expressões como "sportingados" que agora condena sem acto de contrição, camuflando assim o rasto das suas próprias acções. Pois é, Nuno Saraiva não é de facto notável, mas é notório. Como notório igualmente é que o zircónio também brilha mas nunca será um diamante, e que uma peça não se diz de joalheria por ser executada de joelhos. Notoriamente (que não notavelmente). 

18
Jan22

A Velha Aliança e a dor de cotovelo


Pedro Azevedo

A julgar pela opinião originalmente publicada nos jornais ingleses e reproduzida em Portugal, a culpa do insucesso do Manchester United deve-se aos jogadores portugueses, nomeadamente a Bruno Fernandes e Cristiano Ronaldo. Nessa narrativa, para a qual vêm contribuindo alguns ex-jogadores do Man U e outros comentadores em periódicos e televisão, olvida-se que os Red Devils não vencem a Premier League desde 2012/13, coincidindo esse último triunfo com a derradeira temporada em que Alex Ferguson esteve ao leme da equipa. Sir Alex reformou-se após 27 épocas consecutivas como treinador principal do United e depois disso a máquina foi devorando treinadores: David Moyes, Ryan Giggs, Louis van Gaal, José Mourinho, Ole Gunnar Solskjaer, Michael Carrick, todos acabaram afastados da liderança do clube mais titulado de Inglaterra (20, contra 19 do Liverpool e 13 do Arsenal). A verdade é que a herança de Ferguson tem sido demasiado pesada para cada novo treinador e a sua sucessão continua por realizar, algo relativamente comum a lideranças carismáticas e de grande longevidade noutros clubes e em outros sectores de actividade económica. Acresce que com a aposentadoria de Sir Alex, outras personalidades que não só os treinadores ganharam preponderância nas contratações do clube. A política desportiva perdeu coerência e os treinadores influência. Assim, o número de "flops" cresceu exponencialmente, com a agravante de estes serem cada vez mais dispendiosos. Exemplos? Pogba e Maguire, jogadores que juntos custaram quase 200M€ e têm estado bastante aquém de um rendimento minimamente exigível. Ou de Lindelof, Bally ou Bissaka, que simplesmente não parecem ter qualidade suficiente para o United. Aliás, toda a defesa do Man U merecia ser revista. A equipa defende mal como um todo e é globalmente pouco solidária e trabalhadora no campo, mas os erros individuais que podem ser assacados directamente aos defesas são muitos. Acrescente-se a falta evidente de rotinas, o que torna o jogo do United monocórdico, previsível e absolutamente dependente da inspiração individual de um ou outro jogador. Sendo que Bruno Fernandes e Cristiano Ronaldo até têm decidido vários jogos, razão pela qual as críticas de que têm sido alvo me parecem superficiais e apenas visarem encontrar bodes expiatórios para um problema muitíssimo mais amplo. 

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17
Jan22

Tudo ao molho e fé em Deus

Chapéus há muitos (mas da cartola de Pote saiu a diferença)


Pedro Azevedo

A história do futebol português está repleta de treinadores icónicos. Uns pelo que ganharam, como Mourinho, Artur Jorge e Béla Guttmann, outros pelo seu desassombro, onde por exemplo perfilam Joaquim Meirim, António Medeiros e Quinito. E depois há ainda aqueles cujo carisma pessoal se viu reforçado por um detalhe de indumentária que virou imagem de marca. Desses, o mais célebre é o José Maria Pedroto, um técnico com obra feita no Vitória (de Setúbal), Boavista e Porto. Porém, se o Pedroto passou à história como o Zé do Boné, no distrito de Braga mora actualmente uma sua versão moderna, o Senhor da Boina. Falamos de Álvaro Pacheco, que me faz lembrar um simpático Pai Natal que trocou o domicílio na gélida Lapónia pelo parisiense Quartier Latin antes de pegar nas renas para tomar o gosto por entregar presentes (duas subidas de divisão) ao povo de Vizela. De Meirim, que tinha um espírito flamejante, se conta que um dia, num treino, motivando um dos seus guarda-redes lhe disse ser o melhor da Europa. Intrigado, o "keeper" interrogou-o então sobre a razão pela qual não jogava, mas Meirim logo sentenciou: "porque o Benje é o melhor do mundo". Eram os tempos da Póvoa de Varzim, onde Meirim deixou a marca de uma obra de arte, o seu maior sucesso. Já Medeiros, o Tó de Leça, tinha um jeito peculiar de lidar com as frustrações alheias. De tal forma que um dia, por entre apupos e pedidos de explicação dos adeptos, os mandou falar com o cavalo de Gary Cooper, actor famoso de "westerns" americanos justamente evocado, ou não fosse a realidade do futebol português da época(?) um faroeste. E houve (e felizmente ainda há, embora retirado) Quinito, que se tivesse dinheiro suficiente teria comprado Pedro Barbosa para o pôr a jogar no seu quintal, o homem que compareceu no Jamor de casaca branca e "papillon" (laço) porque de uma gala se tratava essa final da Taça de Portugal em que o Braga defrontou o Sporting de Big Mal (Malcolm Allison), o saudoso inglês que nunca prescindia do seu chapéu Fedora (e do charuto). Álvaro é bem mais comedido no estilo do que estes antigos treinadores, mas partilha com eles uma visão romântica do futebol. Vai daí, tira a(s) barba(s) de molho e põe a sua equipa a jogar à "grande", o que para um "pequeno" é um grande feito. Ontem, mesmo defrontando o campeão Sporting, o Vizela não fugiu à regra e durante os primeiros 10/15 minutos assumiu de peito feito o jogo, contribuindo assim para a qualidade do espectáculo a que se assistiu. E se Adán não tem realizado uma parada brilhante não sei como seria...

 

Em cima falámos de arte. Ora, foi pela arte que o Sporting começou a desbloquear a partida em Vizela. O protagonista (who else?) foi Pote, "Art Deco" em movimento. A mesma elegância do antigo craque do Porto, o toque fino na bola para a levantar ligeiramente antes de a colocar, como se de um passe à baliza se tratasse, de uma forma que guarda-redes vizelense nem com asas lhe chegaria. Lembram-se da final de Gelsenkirchen? Na hora de rematar à baliza, é deste nível Champions que falamos quando invocamos o (con)sagrado - sim, o futebol, com a tribo que arrasta em sua devoção, configura uma religião pagã - nome de Pote. Pouco depois, Nuno Santos fez de pivô atacante e Bragança colocou no ângulo superior com a ajuda de uma pequena deflecção minhota pelo meio. Com a vantagem de dois golos ao intervalo, o Sporting entrou para o segundo tempo a procurar manter a bola na sua posse. Assistiu-se então a uma perspectiva heliocêntrica de futebol onde Bragança é o sol, o Plano B de Amorim, um "tiki taka" luso que personifica Guardiola em contraponto com o habitual "heavy metal" que vai beber ao Gegenpressing de Klopp (quando Matheus Nunes está em campo). Todavia, com o aparente controlo das operações veio a descontração (a "posse estéril"), e com ela a desconcentração. Valeu então Matheus Reis, o lateral que Amorim transformou num centralão de primeira apanha. Ao ponto de ontem ter sido de longe o melhor central leonino. Com Inácio a voltar de uma infecção por Covid e Coates, a contas com limitações do seu joelho, fora da sua melhor condição física, foi Matheus quem pôs ordem na casa na altura de maior aflição. Evitando males maiores. 

 

Mais 3 pontos, aumento da vantagem sobre o terceiro classificado para seis pontos, a jornada não se pode dizer que não tenha sido produtiva. Mas já todos vimos que o Porto este ano está fortíssimo. Como tal, não há como facilitar até ao fim. E a verdade é que este Sporting quebrou um pouco nos últimos jogos, não está tão sólido como noutros momentos desta época. Dir-se-á que e normal, todas as equipas oscilam de forma durante uma época e o Porto também terá a sua quebra, mas é fundamental não perder pontos até ao tão aguardado confronto no Dragão. Que ocorrerá só em Fevereiro, eventualmente até já sem Diaz, esse diabrete à solta que tanto fez a diferença em Alvalade. No nosso caminho segue-se agora o Braga. Já que falámos aqui de chapéus, um "hat-trick" do Paulinho (trabalhou muito ontem) vinha mesmo a calhar no reencontro com a sua antiga equipa. Haveria melhor imagem de marca para ilustrar a sua contratação do que ver o João Paulo de cartola? Haja ilusão. E magia. (O futebol também é feito disso.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Matheus Reis

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13
Jan22

Tudo ao molho e fé em Deus

L’ Eça de Queiroz


Pedro Azevedo

Esta deslocação leonina à Capital do Móvel fez-me pensar em divãs e, mais especificamente, no divã de um psicanalista, tanta é a autofagia que ocorre no nosso clube após uma derrota. Sim, de uma derrota, uma única entenda-se, se tratou, pelo menos no que concerne às competições domésticas. Ainda assim, logo os fantasmas do passado vieram ao de cima e não faltaram profetas da desgraça a ensombrar o já de si difícil caminho que temos pela frente. Ora, na minha opinião, tal não faz sentido. Desde logo porque temos o Rúben Amorim entre nós, uma espécie de anjo da guarda que nos protege nas horas mais complicadas. E como o faz? Diagnosticando correctamente os problemas, propondo soluções ao grupo de trabalho e comunicando claramente com os adeptos. Isso dá-me confiança de que as coisas voltarão a entrar nos eixos. Não fará por exemplo do Esgaio um Beckenbauer, mas torná-lo-á mais competente, focado, solidário e consciente das suas melhores qualidades e limitações. Também enviará pistas ao Matheus Nunes sobre aquilo que lhe falta desenvolver para se tornar um jogador ímpar a nível europeu, nomeadamente uma maior desenvoltura no momento do remate à baliza que acompanhe o progresso já registado em termos do timing dos passes de ruptura. Adicionalmente, fará com que todos os jogadores sejam mais intensos nos momentos sem bola e assim contribuam para esbater o habitual défice de 2 contra 3 com que nos deparamos no miolo do terreno. 

 

Matutei sobre isto antes do jogo com o Leça, mas a análise posterior à partida reforçou a minha convicção sobre o impacto do Rúben Amorim no Mundo Sporting. Com ele podemos regular a hipertensão e dormir descansados, descartando os Xanaxs e os Lexotans de outros tempos. O que nos leva a substituir os proverbiais cinismo e apreensão antes de um jogo pela confiança total na equipa. Terá sido por isso, devido à enorme confiança, que a derrota nos Açores foi para todos surpreendente. Mais até do que a derrota, diria a atitude de deixar correr o marfim que acabou por a todos deixar de trombas. Porém, tratou-se de um mal menor, mau mesmo era quando uma derrota era vista como uma fatalidade, e a desesperança minava-nos a visão sobre o futuro. 

 

Outra coisa que me dá confiança é sentir que o destino joga por nós. Quer dizer, eu já na época passada havia sentido o mesmo. Dúvidas? Ora bem, o Porro estava para alinhar de início, mas quis a Divina Providência que este jogo servisse à redenção do Esgaio. E lá vieram duas assistências, uma mais que a outra que isto de pôr a bola nos pés de um tipo e reclamar os louros de uma assistência é como alguém cortar o cordão umbilical a um bebé e reivindicar o mérito de essa pessoa ao longo da sua vida adulta se ter mostrado independente. Outro exemplo foi o do Matheus Nunes. Tanto aqui reclamara para ele chutar que ao primeiro remate meteu a bola lá dentro! E ainda houve o Tabata, ele também a mostrar ser mais útil como interior do que como ala de pé trocado (o que em nada condisse com o adiantamento do "pinheiro" Coates para ponta de lança, o qual ficou à espera de Godot, que é como quem diz a aguardar sem esperança por cruzamentos que favorecessem mais quem atacava do que quem defendia). Já para não falar do Ugarte, o uruguaio que eu, sem saber se o jogador acabado de regressar de uma infecção por Covid estava em perfeitas condições, imaginei poder ter sido útil entrar contra o Santa Clara. Pois, o Ugarte é um miúdo que me enche as medidas, intenso e tecnicista, patrão e operário em partes iguais, que não perde uma oportunidade de morder os calcanhares ao Palhinha, situação da qual o Sporting só pode vir a beneficiar no futuro, desportiva e financeiramente. 

 

Contra o Leça, equipa que já havia aviado o Arouca e o Gil, o Sporting carimbou a passagem às meias-finais. Não fizemos mais do que a nossa obrigação, é evidente, jogando contra uma equipa do 4º escalão nacional, mas a atitude dos nossos jogadores prevaleceu sobre o resultado final e merece uma referência. Mostrando que a lição foi aprendida e apreendida entre todos. E tornando o futuro novamente mais previsível. Quer dizer, previsível de uma forma positiva que envolve unicórnios e estrelinhas e trevos de quatro folhas e corações verdes, et caetera e tal, e não como antigamente, um tempo de fado e de desventura que não augurava nada de bom. Mesmo que não se tenha tudo aquilo de que se gosta (também não há dinheiro para tal). Até porque, como dizia o Eça, quando não se tem aquilo de que se gosta é necessário gostar do que se tem. Viva o Esgaio!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno Tabata

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12
Jan22

Ecletismo!


Pedro Azevedo

Nesta época de 2021/22 o Sporting continua a mostrar o seu ecletismo. E na Europa, onde o Visconde de Alvalade sempre sonhou ver o clube bater-se com os melhores! Aqui fica um resumo sobre a prestação de várias modalidades: apurados para os oitavos de final na Champions de futebol, os leões irão defrontar o Manchester City; em ténis de mesa, o Sporting logrou igualmente passar a fase de grupos da Champions, indo agora jogar contra os russos do Orenburg nos quartos de final; já no andebol, o Sporting está neste momento entre os 16 clubes que se a fase de grupos terminasse agora (faltam 4 jornadas) estariam qualificados para os oitavos de final. A competição é a segunda por ordem de importância da EHF e denomina-se Liga Europeia: no basquetebol, o Sporting joga na quarta competição europeia por ordem de importância (há uma Euroliga que organiza as duas competições de maior prestígio, onde Barcelona, Real Madrid e Bayern de Munique estão. e à FIBA cabe organizar a Champions e a Europe Cup, prova onde compete o Sporting). A manter-se o actual segundo lugar no seu grupo (faltam 4 jogos), os leões classificar-se-ão para os quartos de final: no voleibol, os leões estão nos oitavos de final da Taça Challenge, a terceira em ordem de importância. De referir que no hóquei em patins, o Sporting, à semelhança de Benfica, Barcelos, Porto, Oliveirense, Barcelona e seis outros, enquanto integrante da Associação Europeia de Clubes, recusou participar nesta edição da Liga Europeia por não concordar com os moldes em que se disputa.

08
Jan22

Tudo ao molho e fé em Deus

Maldição insular


Pedro Azevedo

Já se sabia que os termos nazareno e catolicismo andavam de mãos dadas, mas ontem tivemos a sua confirmação ao vivo e a cores num jogo de futebol quando o Esgaio incorporou de tal modo o espírito de Santa Clara que acabou a notabilizar-se por uma exibição de uma pobreza franciscana. Paradoxalmente, houve logo quem visse nisso um pecado, imagine-se, mas o Esgaio é um santo homem. Pelo menos, nos Açores. E em Assis, claro. Continuando na senda da dádiva, alguém deveria dizer ao Matheus Nunes que tem de rematar à baliza. São já incontáveis as jogadas que se perdem ingloriamente por optar por um último passe em detrimento do chuto. É uma pena, até porque toda a construção que antecede esse(s) momento(s) tem sido brilhante, mas o excesso de altruísmo do Menino do Rio à entrada da área está a prejudicar o seu desempenho e o da equipa. A ausência no banco de Ruben Amorim foi também uma benesse concedida aos açorianos. O seu adjunto, Carlos Fernandes, ouviu mais pelo auricular do que aquilo que viu com os seus próprios olhos no relvado. O que não viu, e nós também não, foi aquele tocar a reunir que nos caracteriza nos momentos difíceis, deixando que a equipa frequentemente partisse o jogo e deixasse avenidas para circulação pouco comuns em ilhas de pequena dimensão. Com Pote e Paulinho perdulários e a classe de Sarabia a ser sistematicamente mal-aproveitada através de passes em profundidade a solicitar uma velocidade que não tem, o Sporting acabou por deixar 3 pontos nos Açores neste início do ano. A fazer lembrar a eliminação (Taça dê Portugal) aos pés do Marítimo em igual momento do ano transacto, o que configura uma maldição insular de ano novo. Ele há coisas... Como dizem os espanhóis: "yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay". Terá sido por efeito da Madalena Aroso?

07
Jan22

O fim do oásis


Pedro Azevedo

A inflação homóloga nos EUA aproximou-se dos 7% no mês de Novembro e os juros das obrigações americanas a 10 anos estão apenas nos 1,75%, o que se traduz numa taxa de juro real de cerca de -5,25% para quem invista na dívida pública do "Tio Sam". Com a Reserva Federal americana (FED) a anunciar que restringirá a compra de obrigações, não tardarão a ser explícitos ou visíveis os efeitos colaterais à política keynesiana levada a cabo desde 2009. Os juros terão inevitavelmente de subir, e incrementarão mais acentuadamente se os bancos centrais demorarem a tirar o incentivo monetário. As hipotecas e os empréstimos bancários em geral passarão a ser muito mais onerosos para famílias e empresas, indexados que estão em geral à taxa variável. E as "bolhas" espalhadas pelo mercado accionista detonarão pela subida dos juros, o mesmo se podendo passar com o imobiliário. Perante isto, como deverá um clube de futebol reagir? Desde logo, procurando reduzir a dívida. É que os custos com o serviço da dívida irão subir, e eles já têm um peso significativo (entre 10% e 15% nos últimos anos, no caso do Sporting) no total dos custos de exploração. Serão também de evitar todo o tipo de défices de exploração, que gerarão inevitavelmente o recurso a endividamento, pelo que a aposta na Formação preconizada pelo Sporting terá de ser seguida por todos. E, claro, dado o baixo nível de receitas dos clubes portugueses (mesmo nos anos em que a colheita da Champions é favorável), o recurso anual à venda de pelo menos um activo, leia-se jogador de futebol,  será inevitável. Chegou assim o tempo de apertar o cinto e de enfrentar a realidade, período em que efectivamente se verá quem melhores omeletes fará com os poucos ovos disponíveis. Nisso, o Sporting parte à frente. É que o Chef Amorim já mostrou saber combinar na perfeição os ingredientes postos à sua disposição para que o produto final agrade ao consumidor, o que lhe tem merecido a justa aclamação.  

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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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  • Pedro Azevedo

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