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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

31
Out19

Tudo ao molho e fé em Deus - Shark Tanque


Pedro Azevedo

Um grupo de empreendedores leões liderado por Silas deslocou-se para um "pitch" na Capital do Móvel. O objectivo era promover as possibilidades do Sporting no jogo. Poucos tubarões estiveram presentes, nem sequer uns cações que a terra é sim de capões e estes não cantam de galo. Ainda assim houve Shark Tanque, embora este tenha tentado empatar o mais possível a apresentação leonina enquanto lhe descobria as vulnerabilidades. 

 

Nos primeiros 30 minutos os apresentadores mostraram-se muito confiantes. Não se estranhou portanto que rapidamente tenham atingido o seu primeiro objectivo: captar a atenção dos seus interlocutores. Consoante Felipe usava da palavra, Bruno preparava-lhe o terreno. A audiência não ficou indiferente. No entanto, com o passar do tempo começaram a escassear fôlego e ideias. A possibilidade de rejeição aumentou significativamente na segunda parte quando o tubarão Douglas sentenciou brutalmente o guardião e restantes defensores da nossa proposta.

 

A atmosfera ficou pesada, a tensão pairou sobre a arena. Tudo parecia perdido. Eis senão quando reparo num pequeno pormenor: todos os membros do júri usavam meias rosa, a cor nossa talismã (4 vitórias em outros tantos "pitches"). E assim, num último rasgo, aproveitando uma mãozinha de um elemento do painel, lá selámos o nosso grande objectivo com um aperto de mão.

 

Se bem que tenha funcionado desta vez, o conceito, o produto e, mais importante, o modelo de negócio não pareceram totalmente satisfatórios. Teme-se, portanto, que à medida que vão surgindo concorrentes mais apetrechados não consigamos ter sucesso. Mas isso teremos de ver num futuro mais longínquo, para já há que lidar com o curto-prazo. E este, passo a Paços, lá se vai construindo. Esta noite até aconteceram duas coisas curiosas com a nossa delegação: incorporou-se um colaborador macedónio que trouxe mais argumentos à discussão e um par de funcionários médios finalmente abriu a boca. Ainda não é muito, mas pelo menos já é um princípio de alguma coisa.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno Fernandes. De destacar também o mérito de Mathieu e Acuña, a reintegração de Ristovski e a melhoria da dupla Doumbia/Eduardo. Uma última nota: fiél à noite de bruxas, Silas não desperdiçou a oportunidade de assombrar os adeptos da causa do leão com as entradas em cena de Borja e Ilori. Só foi pena não irem de volta com a vassoura... Feliz Halloween para todos!   

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31
Out19

Quiz 44 - Eterna saudade


Pedro Azevedo

Nascido em Lisboa mas com raízes galegas, jogou nos juniores e reservas do Sporting no auge da hegemonia dos leões no futebol nacional. Como dirigente começou nas camadas jovens, mais tarde avançando para o futebol profissional. Foi campeão logo no 1º ano em que assumiu a pasta de Director do Futebol, posteriormente afastando-se do cargo. Regresso triunfante viria a ter 20 anos depois, novamente coroado com o título de campeão nacional. Sempre na companhia do seu fiél amigo José Manuel Torcato, outro homem de grande dedicação ao nosso clube. Quem é?

 

Resposta: Manolo Vidal. Antigo futebolista (extremo esquerdo) das camadas jovens e reservas do Sporting, foi como dirigente, primeiro no futebol de Formação e depois no futebol profissional, que Manolo Vidal mais se destacou. Formando dupla com José Manuel Torcato, este homem de raízes familiares que o uniam à Galiza foi providencial na conquista do título de 80. Regressaria mais tarde ao clube, a convite de Luis Duque, e novamente sob bons auspícios, integrando o elenco campeão nacional em 2000 que interrompeu uma "seca" de 18 anos. Faleceu em 22 de Maio de 2012, aos 82 anos. 

 

Vencedor do Quiz: Luis Ferreira. Também acertaram os Leitores LA Ferro, LeãoSempre, João Santos e Alberto Miguel. Parabéns, e o meu agradecimento a todos! 

31
Out19

Juventude inquieta


Pedro Azevedo

Oitavos-de-final da Taça da Liga inglesa. Palco: Anfield Road. De um lado o Liverpool, do outro o Arsenal, dois gigantes do futebol inglês. Resultado final: 5-5 (o Liverpool venceu nos penáltis). Dez golos, dez jovens até 20 anos espalhados pelas duas equipas, um hino ao futebol, uma grande noite para a afirmação de um ponto e desconstrução de certos mitos. Nos "reds" tivemos Kelleher (20 anos), Neco Williams (18), Sepp van den Berg (17), Harvey Elliott (16), Rhian Brewster (19) e Curtis Jones (18). Nos "gunners" jogaram Joe Willock (20), Bukayo Saka (18), Gabriel Martinelli (18 anos, 2 golos) e Mattéo Guendouzi (20). Incrível ver o rendimento destes meninos no meio de consagrados como Milner, Oxlade-Chamberlain, Origi, Ozil, Mustafi ou Bellerin. Se fosse para os lados de Alvalade estaríamos a falar que não se devem "queimar" etapas, em integração progressiva (código futebolês para 2 ou 3 minutos de jogo), etc. Impossível não pensar no paradoxo disto tudo: a liga mais competitiva e mais intensa do mundo põe estes miúdos a jogar a este nível sem nenhum problema, desenvolvendo-os e preparando-os para os desafios; em Portugal onde o tempo útil de jogo é dos mais baixos de toda a Europa os miúdos não estão prontos. E nunca estarão, se não jogarem...

 

P.S. Por favor, vejam esta conferência de imprensa de Jurgen Klopp, um dos meus heróis no futebol, que sabe gerir um plantel e não hesita para tal em dar oportunidades aos jovens. Enquanto se lhes referia, não pude deixar de me lembrar de Malcolm Allison, o nosso Big Mal. 

30
Out19

B ou A linha?


Pedro Azevedo

O ressurgimento da equipa B em teoria é uma boa ideia, mas faz lembrar aquela família que em casa todos os dias põe a mesa com o melhor talher de prata da Christofle e depois vai comer com pauzinhos (ou "fast food") ao Mercado da Ribeira. Nesse sentido, é uma daquelas medidas que, quando anunciadas, provocam cócegas no cérebro de sócios e adeptos e induzem uma sensação de bem-estar até à chegada de nova janela de transferências. Assim, mais do que equipa B, dever-se-ia chamar A' (A linha). Alinha quem quiser, bem entendido. Eu fico à espera de ver os nossos jovens na equipa principal... 

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29
Out19

O Seis


Pedro Azevedo

De todas as posições do futebol actual, a provavelmente mais exigente é a "6". As grandes equipas do futebol mundial tiveram sempre jogadores muito influentes nessa zona do terreno. Consoante a sua filosofia de jogo, estas equipas tinham trincos intensos e repressivos que permitiam fazer brilhar os solistas do meio campo, ou refinados tecnicistas que davam início à construção do jogo e sabiam posicionar-se defensivamente. Por exemplo, no Real Madrid dos anos 90 existia um jogador da minha particular admiração. Tecnicista, canhoto, cabeça levantada e bola sempre colada ao pé, toque de artista, Fernando Redondo tinha um perfume de futebol cujo odor se espalhava por um perímetro significativo do rectângulo de jogo. Era ele que ligava na perfeição os sectores, como se tivesse um elástico que unia toda a equipa, alargando ou encurtando os espaços consoante a conveniência do momento. Jogador de características totalmente opostas, Makelele foi igualmente um jogador decisivo dos merengues ("Dream Team") no início do milénio. O seu pulmão inesgotável fazia dele um "all-in-one" no meio campo defensivo, recuperando a bola e libertando o génio de Figo, Zidane ou Beckham para tarefas exclusivamente ofensivas. Como se pode constatar, dois jogadores diferentes, duas filosofias de encarar o jogo distintas por parte dos treinadores, a mesma eficácia. 

 

No Sporting, o mais perto que tivemos de ter um Redondo foi quando Sousa Cintra foi buscar Paulo Sousa ao Benfica. Este, tal como o argentino dos merengues, sabia posicionar-se defensivamente e através do passe de primeira dava geometria a todo o jogo da equipa, simultaneamente tendo a capacidade de avançar com a bola e queimar linhas do adversário. Mais na linha do francês do Real Madrid houve Oceano, jogador de uma generosidade tremenda em campo que mais para o ocaso da carreira até brilhou em tarefas mais ofensivas. Actualmente, falta ao Sporting um destes dois biotipos de jogador. Battaglia será o que mais se assemelhará ao género Makelele na intensidade posta em cada lance, pese embora a sua tendência de arrancar com a bola em detrimento de logo a passar a um solista denunciar estarmos mais na presença de um "8" do que de um "6". Mas, se a filosofia de jogo fosse outra e a posição "6" concebida a partir de uma ideia de construção de jogo, Daniel Bragança poderia ser o nosso Redondo. Actualmente em grande plano no Estoril de Tiago Fernandes, Daniel tanto é capaz de produzir aquele futebol rendilhado, entrelinhas, que une a equipa como de esticar o jogo através de uma consciência muito apurada do timing ideal do passe de ruptura. Nesta última vertente ele seria um "6" a pensar como um "10", uma espécie de Pirlo, o "calciatore regista" do futebol italiano, ou Frenkie De Jong, o herdeiro da escola de jogo posicional que Michels e Kovacs impuseram no Ajax nos primeiros anos da década de 70. 

29
Out19

A estratégia de Silas


Pedro Azevedo

Se o que o Sporting faz com bola ainda não é particularmente entusiasmante, o jogo com o Vitória de Guimarães mostrou uma adaptação mais pronunciada do plano de jogo ao adversário por parte dos pupilos de Silas, algo pouco comum nos últimos treinadores do clube. Tal desde logo foi visível na escolha do homem mais avançado dos leões. Seguro de que Ivo Vieira iria procurar assumir o jogo, Silas escolheu Jesé em detrimento de Luíz Phellype porque as características do espanhol favoreciam mais a exploração do espaço concedido nas costas dos minhotos aquando das transições ofensivas leoninas. Pese embora a travagem fatal do defensor vimaranense que facilitou o trabalho de Jesé, o primeiro golo dos leões expôs à evidência o mérito da estratégia desenhada por Silas. Já o segundo golo foi mais consequência de um erro de palmatória da defesa do Vitória, aliás muito semelhante a um outro cometido pelos vizinhos famalicences em Alvalade (golo de Vietto na primeira parte). Em ambos os casos, um defesa colocado sobre o lado esquerdo procurou bascular a bola para o flanco oposto do seu meio campo, acabando por desequilibrar toda a equipa na medida em que o receptor de bola ficou sem apoios próximos e assim susceptível ao erro. 

 

Se em termos de transições ofensivas as coisas correram de feição, a transição defensiva dos leões continua a deixar muito a desejar. É certo que no lado esquerdo Acuña consegue disfarçar, mas o corredor direito tem-se mostrado uma passadeira para as equipas adversárias. A responsabilidade não será apenas de Rosier, pois nem o médio defensivo mais próximo tem basculado para proteger o flanco nem o ala tem recuado para ajudar nas tarefas defensivas. Para agravar a situação, o francês comprado esta época ao Dijon tem revelado má leitura das situações de jogo, bastas vezes posicionando-se deficientemente. Tal é notório quando frequentemente aparece à queima, sinónimo de que a sua posição inicial não era a correcta. Aspecto a corrigir com urgência, na medida em que nem sempre aparecerá a toda a hora um pronto-socorro do tipo daquele em que Mathieu se investiu no último Domingo. 

 

O jogo da próxima quinta-feira obrigatoriamente colocará novos desafios a Silas. Nesse sentido, não será crível que volte a abdicar do Felipe das Consoantes, pois o Paços dever-se-á apresentar num bloco baixo ou médio-baixo. Assim sendo, dependerá da boa e rápida circulação da bola o sucesso do Sporting. O futebol é tempo e espaço. Executar rápido e bem desequilibra o adversário e cria espaço. No início da construção, onde não é imaginável que o espaço seja criado através da finta, torna-se essencial haver quem tenha recepção e passe imaculados. Se a isso se puder juntar velocidade na condução de bola, então óptimo. É por isso que creio que a visita à Capital do Móvel será o cenário ideal para o lançamento do jovem carioca Matheus Nunes, pese embora o gostasse mais de ver com o intenso Battaglia nas suas costas. Tem a palavra Jorge Silas. 

28
Out19

Tudo ao molho e fé em Deus - Dolores contra Murphy


Pedro Azevedo

Sob o signo do rosa, o Sporting voltou a ganhar. Desta vez com a égide de Dª Dolores, a feliz porta-estandarte deste excepcional talismã contra a Lei de Murphy que já tinha igualmente dado sorte nos jogos com Linz e Rosenborg. Bem sei, é comum dizer-se que a sorte dá muito trabalho. E eu concordo, a sorte deu muito trabalho... a Mathieu. Observem a primeira parte: enquanto o Sporting tirou partido de duas transições ofensivas para marcar dois golos, o gaulês aproveitou os múltiplos ataques do Vitória para cortar cerce as aspirações dos minhotos. Foram tantas, tantas vezes que lhes perdi a conta, mérito do óptimo posicionamento do experiente central francês, o homem sem idade que bem pode ser um viajante do tempo de glória do futebol do Sporting para os nossos dias. 

 

A noite foi de tal sortilégio que até o avançado centro marcou. E com uma bela chicuelina! Agora só faltam 29. Aviso já o estimado Leitor que da mesma forma que ninguém se importa que Tarantino seja excêntrico desde que realize filmes como Pulp Fiction, também não vou eu ser eu a preocupar-me com aventuras de raggaeton se o Jesé marcar tanto como o Dost. Quem também facturou foi o diletante Acuña, algo fora do alcance do bem comportado Borja. É que o argentino teve o desplante de entrar na área adversária para o fazer e isso para o colombiano ainda é um desafio tão complexo como dobrar o Cabo das Tormentas. 

 

O segundo tempo foi todo do Vitória. Mas podia não ter sido assim. Bastaria Artur Soares Dias ter visto um penalty do tamanho do Castelo de Guimarães, só que o árbitro do Porto deve ser fã daquela frase da Clarice Lispector - "se eu errar que seja por muito" - e deixou seguir, não aceitando a sugestão do VAR (e de mais 11 milhões de potenciais VARs que esta noite não consumiram cogumelos alucinógenios). Tantas vezes o cântaro foi à fonte que os pupilos de Ivo Vieira lá marcaram. Valeu então ao Sporting a conjugação de um sortilégio com a ocorrência de um factor paranormal. É que se o primeiro justifica o facto de Davidson se ter esmerado durante todo o jogo na enigmática arte de falhar por pouco, só o segundo explica que Coates tenha marcado um golo na baliza certa, facto antecedido por um apesar de tudo mais prosaico frango de Miguel Silva, um guarda-redes que costuma brilhar contra as nossas cores (recordam-se de 2015/16?).  

 

Para a noite acabar em beleza, nada como dar a alegria aos presentes de ver um jovem da nossa Formação a ser lançado pela primeira vez. Graças a Silas, a honra coube a Rodrigo Fernandes. E consta que Matheus Nunes, um brasileiro bom de bola, será o próximo. Está-se mesmo a ver que um homem que comete esta ignomínia de dar oportunidades aos jovens da nossa Academia não tem nível para o futebol português. Mais concretamente, o quarto nível. O que já tem é o quarto triunfo...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Jeremy Mathieu (O Viajante no Tempo). Menções honrosas para Vietto (duas assistências) e Acuña. Destaques ainda pela positiva para o golo de Jesé e para o sinal que Silas deu do compromisso que é exigido com o grupo (exclusão de Wendel). 

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26
Out19

A insustentável leveza do ser


Pedro Azevedo

Quando já se julgava ter visto tudo, eis que o Sporting decide tomar uma decisão com o impacto político de protestar um jogo que perdeu justamente no campo contra uma equipa do Campeonato de Portugal (terceira divisão nacional), não cuidando de perceber que imediatamente se lhe colaria a ideia de querer ganhar na secretaria, devido a uma "necessidade de clarificação" (em caso de dúvida em relação a situações futuras não bastaria um pedido de esclarecimento por escrito endereçado aos serviços federativos?). Como resposta, o Conselho de Disciplina da FPF julgou a nossa acção improcedente. Do mal o menos, podemos ter perdido primeiro o jogo e depois a razão de ser da nossa tão apregoada nobreza de valores, mas pelo menos a Estrutura que lidera o nosso futebol ficou clarificada. Eu também!

 

P.S. O espírito do Regulamento da FPF é absolutamente claro: um jogador punido no decurso de uma competição deve cumprir a suspensão nessa mesma competição. O que houve foi uma tentativa de aproveitamento do Sporting devido a essencialmente dois factos: o facto de o Conselho de Disciplina, que aplica os castigos, nem sempre reunir com a periodicidade desejada; o facto de o Regulamento mencionar a possibilidade de, em alternativa a suspensão por números de jogos, haver um período de inactividade expresso em dias. Ora, como bem sabemos, um jogador que é expulso por acumulação de amarelos nunca sofre um castigo em dias, a jurisprudência diz-nos que esses castigos são essencialmente aplicados a treinadores ou, quando a jogadores, em casos de doping, agressão grave com período de inactividade por lesão de adversário, ou processos relacionados com "match fixing", entre outras situações não-correntes, razão mais do que suficiente, no meu entendimento, para a moral (ou ética) não ter estado do nosso lado.  

25
Out19

Da transição para a indefinição


Pedro Azevedo

Olho para a equipa do Sporting e vejo apenas 1 princípio: ter a posse da bola. Ou seja, para nós, ter a posse da bola é o contrário de não a ter, o que dará alguma ilusão de controlo do jogo. A partir daí, o que fazer com ela, como a circular, para e por onde queremos levar o adversário ao engano, ligação entre sectores, etc, são tudo abstracções ou um conjunto vazio aos olhos de um adepto. Ora, ao fim de 1 mês de trabalho isto começa a incomodar um bocadinho. Principalmente, porque o Keizer original, aquele senhor conterrâneo do Rinus Michels que se perdeu conjuntamente com as suas ideias algures nas cercanias do Castelo de Guimarães, teve um impacto imediato na nossa equipa de futebol. Com alguns princípios simples, visíveis para qualquer adepto, de saída de bola pelos centrais, não recúo do jogador da posição "6" para auxiliar a construção (mantendo-se na sua linha), circulação da bola a 1 ou 2 toques, movimentos dissuasores dos alas para disfarçar a real intenção de conduzir o jogo pelo centro, movimentos de aproximação à bola em carrossel e não de procura de profundidade e recuperação da bola em 5 segundos. Bem sei que, a partir do momento em que passou a ser treinada por um clone medroso do "Mona Lisa" e, mais tarde, por dois sósias no gosto capilar, a equipa já oscilou em tantos sistemas tácticos - do 4-3-3 com 3 médios de perfil para apenas 3 defesas, da Táctica do Quadrado para o losango no meio, de uma reminiscência do célebre WM de Herbert Chapman aquando da recepção ao Linz para um duplo-pivot - que a maioria dos jogadores estará tão baralhada e tanto à beira de um ataque de nervos que isso inevitavelmente prejudicará o seu desempenho, mas tal só tem vindo a agravar a perda de qualidade evidente face ao plantel da época transacta. Não se podendo mudar os jogadores (chega de investidas desastradas ao mercado), a única solução possível para a época não vir a ser um total descalabro será o jogo colectivo sobrepor-se às individualidades. Acresce que não há que ter medo de ir lançando jovens como Matheus Nunes, Rodrigo Fernandes, Eduardo Quaresma, Nuno Mendes ou Pedro Mendes, na medida em que não só não são inferiores a alguns dos jogadores contratados nas duas últimas janelas de transferências como estarão certamente muito motivados e a sua incorporação inevitavelmente acabará por estimular alguns actuais titulares que adoptaram o modo sono como postura preferencial. (A propósito, talvez convenha estancar o discurso que os nossos jovens estão a ser preparados e que a progressão deve ser gradual quando um anafadito artista do raggaeton entra logo de caras na equipa.)

No final do dia, não deixa de ser curioso que há sensivelmente 1 ano atrás, goleada após goleada inflingida aos nossos adversários numa série de 7 jogos de enfiada, se discutia a debilidade da nossa transição defensiva, preocupação que de tão ecoada por experts e prontamente comida de cebolada por muitos Sportinguistas, Estrutura e equipa técnica incluídas, nos conduziu aqui. Hoje, simplesmente, discute-se a transição dos adeptos para o desespero (e não me estou a referir às claques e suas motivações)... 

24
Out19

Tudo ao molho e fé em Deus - Hell's Kitchen


Pedro Azevedo

Vendo os programas despotivos nas TVs, há sempre inúmeras razões que justificam o não lançamento de jovens do Sporting. Assim, quando a equipa está mal, a sentença é que pode queimar-se o jovem, quando a equipa está bem não deve mexer-se em time que ganha e quando a equipa está assim-assim não se pode prejudicar as rotinas, pelo que, no fim do dia, não podendo ser cozido ou mexido, o jovem nunca pode estrelar. Deste modo, resta-lhe "ficar a assar", quando não a estufar, ou melhor, a estofar o banco de suplentes. Há ainda a forte possibilidade, a mais comum, de a sua ascensão à primeira equipa ir sendo cozinhada em lume brando num qualquer tacho em Alvalade. Por isso, bem pode chocar a nossa galinha dos ovos de ouro que haverá sempre argumentos para ir, certamente através de um intermediário, comprar ovos a um qualquer aviário. "Shocking, but true"! 

 

Esta noite, num jogo que estava bloqueado, Pedro Mendes entrou para o lugar de um apático Luíz Phellype. Um pouco nervoso, a verdade é que esteve no lance do golo da vitória, fixando e estorvando o defesa norueguês e permitindo o aparecimento desde trás de Bolasie. Aliás, o atacante da nossa Formação mexeu-se mais em 30 minutos do que o Felipe das Consoantes no dobro do tempo. Vitória do Sporting e feliz associação à causa rosa para estirpar o cancro de resultados. Já tinha acontecido com o Lask, agora também com o Rosenborg, o rosa dá-nos sorte. 

 

Pouco mais para contar num jogo em que Rosier foi capaz de levar as bancadas ao desespero durante o primeiro tempo, caindo sozinho, tropeçando na bola ou deixando livre o seu corredor para a penetração do único jogador tecnicista da equipa norueguesa, o nigeriano Adegbenro. Doumbia também pareceu jogar sobre brasas, sinónimo da falta de confiança que se abateu sobre a equipa. Já Wendel poderia estar dentro de um incêndio que ainda assim provavelmente não despertaria da sua sonolência. Os melhores foram os faquires Acuña e Mathieu - parecem imunes à temperatura - , Bruno Fernandes, embora abaixo do que já lhe vimos, e Bolasie, o homem cujo golo iluminou a noite leonina. Em plano aceitável, Renan e Vietto.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Yannick Bolasie

 

P.S. Bonita a homenagem a Jordão. Eterna saudade.

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24
Out19

Entre o Céu e o Inferno


Pedro Azevedo

O Sporting sempre teve muito talento nas suas camadas jovens. Evidentemente, não se forma o tipo de jogadores que foram/são Paulo Futre, Luís Figo ou Cristiano Ronaldo todos os anos, mas também não me lembro de termos contratado Deco, Gullit ou Messi, ou seja, alguém que tivessemos ido buscar ao mercado e um dia viesse a ser um Bola de Ouro, ou mesmo um Bola de Prata, pelo que entre apostar na nossa Formação ou no Scouting prefiro naturalmente a primeira. 

 

Infelizmente, sobram sempre argumentos para desvalorizar o que é nosso. Um dos mais correntes é que não se ganham campeonatos só com a Formação, argumento correcto mas que, à boa maneira do 8 e do 80 que tanto nos caracteriza enquanto portugueses, coloca as coisas de uma forma extremista. A aposta na Formação não significa que joguemos só com formandos, apenas implica que não se necessite de ir buscar números pornográficos de jogadores ao mercado que ajudem a delapidar os nossos cofres. Desmontando o argumento, também é claro que não se ganha só com o Scouting. Aliás, analisando esta época, poucos ou nenhuns jogadores da nossa Formação (ou mesmo portugueses) têm jogado, estando até esse número nos níveis mais baixos das últimas décadas, mas nem por isso os resultados têm aparecido, encontrando-se o Sporting a fazer provavelmente o pior início de temporada da sua existência. Portanto, extremismo por extremismo, a expressão "não se ganham campeonatos só com o Scouting" deveria ser muitíssimo mais apregoada do que "não se ganham campeonatos só com a Formação". Já a expressão "só se assegura a sustentabilidade financeira com a Formação integrada no plantel principal" (isso é que é a "aposta na Formação") deveria ser um axioma. Para reflexão...

 

A questão não é não surgir um Futre, um Figo ou um Ronaldo, jogadores "top-class", a questão é podermos aproveitar jogadores de nível muito bom, ou mesmo apenas bom, produzidos em Alcochete. E isto nem sempre é possível porque parece dar mais garantias ir buscar um jogador ao mercado do que apostar no que é nosso. Assim se perdeu recentemente um Demiral para a Juventus, um Domingos Duarte para o Granada ou um Matheus Pereira para o West Bromwich. Para os lugares dos quais vieram um Marcelo (onde anda?), um Ilori ou um Jesé (este, como é "avançado centro", tem mais valências...). Auguste Comte dizia que "na vida tudo é relativo, e esse é o único valor absoluto", pelo que, fazendo fé nestas palavras do pai do Humanismo, não basta dizer que a Formação não tem qualidade - argumento que não colhe - , é preciso mostrar que quem vem de fora, e custa dinheiro, é melhor do que os que cá estão. Ora, a história das últimas décadas do Sporting é feita deste tipo de equívocos. Com consequências desportivas e financeiras. E mesmo assim, ainda há quem defenda e privilegie a aposta no Scouting em detrimento da Formação...

 

Frederico Varandas comprou 14 jogadores desde Janeiro. Deste lote sempre vi em Matheus Nunes um jogador diferenciado (Vietto é bom de bola, mas é uma sobreposição inferior a Bruno Fernandes e sem golo), os outros não me parecem jogadores para um Sporting campeão. Todos juntos impactaram 40 milhões de euros de investimento, um valor significativo para um Sporting que se dizia passar por um má situação financeira. Eu pergunto: destes jogadores contratados, quais serão aqueles que o Sporting venderá com lucro? Luíz Phellype, muito provavelmente, o Matheus se o puserem a jogar, talvez o Doumbia se evoluir porque como está não dá. Entretanto, Varandas tem vivido da venda de jogadores que já eram do Sporting, tais como Raphinha, Bas Dost, Thierry Correia, entre vários jovens da nossa Formação, alguns que nunca chegaram (ou mal chegaram) a pisar o relvado de Alvalade. Ufanando-se de que fez 60 milhões em vendas. O problema é que no futuro próximo, para além de Bruno Fernandes, Acuña e Wendel (outros que já cá estavam) ficou muito dependente do que comprou para realizar algum dinheiro. E se vender Bruno e o dúo sul-americano irá enfraquecer ainda mais o plantel, até porque esses 3 (com Wendel em forma), mais Mathieu, são provavelmente os únicos jogadores que qualquer adepto colocaria de caras no Onze do Sporting. 

 

Não sou fã de quotas, mas quando aquilo que é vital à nossa sustentabilidade, dir-se-ia à nossa sobrevivência, tarda em ser realizado, então algo tem de ser feito de forma a que a gestão adquira alguma racionalidade. Nesse sentido, proponho que exista um tecto máximo de 23 jogadores no plantel principal - obrigatoriedade de se ter de recorrer à equipa de Sub-23 em caso de necessidade - , bem como que seja atribuído um número mínimo de jogadores oriundos da Formação na nossa equipa A. Adicionalmente, gostaria que ficasse limitado a 3 ou 4 o número de contratações por época, privilegiando-se assim qualidade em detrimento de quantidade. Pode ser limitativo, não ser o sistema ideal, mas só assim se realizará aquilo que muitos vêm clamando há muito tempo. E que isso venha a constar de uma alteração estatutária, caso tal seja necessário. Assim é que não podemos continuar. No papel (programas eleitorais), no Excel (Dr Zenha e as suas considerações sobre o mercado) tudo é de sonho, o pesadelo é quando a bola começa a rolar, é Faro/Loulé, é a dupla derrota caseira com o Rio Ave, é o recém-promovido Famalicão, é o... Alverca. Ou nos libertamos desta forma de estar e mudamos de vida, ou o clube vai continuar neste inferno (o purgatório só existe para quem se arrependa em vida dos pecados cometidos) que vem marcando as últimas décadas da nossa existência e que o torna a Divina Comédia do futebol português. Pensando bem, é melhor não ir por aí e terminar já, não vá alguém do Scouting vasculhar o "Calcio" à procura de um tal de Dante Alighieri...  

23
Out19

Matheus Nunes, Pedro Mendes e Rodrigo Fernandes


Pedro Azevedo

O treinador Jorge Silas confirmou ontem que os jovens Matheus Nunes (21 anos), Pedro Mendes (20 anos) e Rodrigo Fernandes (18 anos) passarão a integrar regularmente os treinos da equipa principal, podendo numa ou outra ocasião jogar pelos Sub-23 se não forem convocados para a primeira equipa do Sporting. É, sem dúvida, uma boa notícia, que espero venha a ter continuidade em jogadores como Nuno Mendes, Eduardo Quaresma ou Dimitar Mitrovski, entre outros. Aliás, quem me segue no Castigo Máximo sabe que tenho muita fé no jovem brasileiro Matheus, um jogador com uma técnica de passe e recepção diferenciada e muita velocidade com bola. Igualmente, vejo no Pedro um avançado possante, daqueles que não dão descanso aos defesas durante os 90 minutos, assim como me surpreendeu a personalidade com que Rodrigo, jogador de posição "6", entrou de pedra e cal na equipa do escalão afluente. Adicionalmente, muito gostaria que o desnorte que marcou a nossa investida no Mercado de Verão pudesse ser corrigido em Janeiro, recorrendo-se para tal aos Sub-23 e a alguns jogadores que estão emprestados. Tenho, no entanto, uma dúvida, uma certeza e uma necessidade de esclarecimento: a certeza é que Pedro Mendes só será elegível de jogar na Liga Europa até Janeiro, não podendo até essa data competir no Campeonato nem na Taça da Liga; a dúvida prende-se com o facto do Sporting só ter 50% do passe de Matheus Nunes - no Report do Mercado de Inverno, o Sporting indicou à CMVM ter comprado 50% dos direitos económicos do brasileiro por 500 mil euros, tendo até Junho de 2020 para comprar a restante percentagem - não se sabendo se o valor de compra do remanescente ficou logo definido à partida, se poderá ficar agravado pelo facto de o jogador se valorizar na equipa principal, ou se o negócio até já foi feito e não comunicado; finalmente, o pedido de esclarecimento deve-se aos rumores que circulam nas redes sociais e que dão conta que Rodrigo Fernandes termina contrato no final desta época desportiva. Ora, perante isso, seria certamente uma imprudência promovê-lo (recordam-se certamente do que aconteceu com o defesa Pedro Mendes no tempo de Godinho Lopes), pelo que aguardo que alguém mais bem informado (não consta do R&C) me possa esclarecer. 

21
Out19

O rugby como exemplo dos valores no desporto


Pedro Azevedo

Há quem diga que o clima pesado que se vive no futebol português deve-se ao desporto-rei ter deixado de ser um espectáculo para passar a ser um negócio. Tal à primeira vista parece fazer sentido, mas este fim de semana deu-me algumas pistas em sentido contrário. 

 

Sábado e Domingo a SportTV trouxe até nossas casas a transmissão dos jogos dos quartos de final do Campeonato do Mundo de Rugby que se tem estado a disputar no Japão. O desporto da bola oval há muito deixou de ser amador, tempo em que os profissionais jogavam a variante de Rugby League (13 jogadores e sem "mêlées") enquanto o rugby do "Cinco Nações" que passava na RTP, narrado pelo saudoso "Cordeiro do Vale" (Serafim Marques) se denominava (e continua a denominar) de Rugby Union. Hoje em dia, o rugby de 15 profissionalizou-se e já há muito dinheiro envolvido, na Europa com campeonatos nacionais, como o francês (Top 14) ou o inglês (Premiership), muito competitivos e uma Heineken Cup (a Champions do rugby) que reune a elite das melhores equipas europeias, proveniente de Inglaterra, França, Gales, Irlanda, Escócia ou Itália (sem representante na última edição). Por outro lado, no hemisfério sul, existe o Super 15, competição que envolve equipas provenientes de 4 continentes diferentes (Argentina/América, África do Sul/África, Japão/Ásia e Austrália e Nova Zelândia/Oceania). Adicionalmente, existem torneios anuais de selecções que atraem também importantíssimos patrocinadores e que são verdadeiros campeonatos, como são os casos do Torneio das 6 Nações (o antigo "5 Nações" mais a Itália) ou o Rugby Championship (o antigo "Tri Nations", com as habituais selecções da Nova Zelândia, Austrália e África do Sul, desde 2012 reforçado com a Argentina).

 

Olhando para os jogos deste fim de semana, o que pude eu constatar? Desde logo, a preocupação com a verdade desportiva que levou o rugby a ser uma das primeiras modalidades com TMO (o VAR do rugby). Depois, sendo um desporto iminentemente viril, o fair-play existente entre os jogadores das diversas equipas. Digno de registo também é a actuação do árbitro, sobre a qual nunca incide qualquer suspeição, sempre disponível para ajudar os jogadores de uma forma preventiva e pedagógica e sem se querer tornar em protagonista do jogo por atitudes estridentes e repressivas. Finalmente, a festa que o publico faz nas bancadas, vivendo o espectáculo de uma forma sã e harmoniosa perdendo ou ganhando.

 

É também sobre isto que as entidades que supervisionam o futebol e a organização das competições em Portugal deveriam assentar o seu pensamento. Comecemos pelos árbitros: enquanto um árbitro de rugby é um facilitador do espectáculo, o seu homónimo do futebol é um punidor por natureza, trocando a prevenção pela repressão e até desrespeitando os atletas de forma insultuosa como em tempos não muito idos foi amplamente captado por microfones e câmaras de TV num jogo do Sporting B. Para além disso, no futebol português existe uma suspeição generalizada sobre os árbitros. De seguida, analisemos os melhoramentos em termos de verdade desportiva: os árbitros de rugby tiveram muito mais testes com o TMO (Television Match Official) antes das grandes competições e as comunicações entre árbitro e TMO durante um jogo podem ser ouvidas em todo o estádio e ecrãs de televisão, o que aumenta a transparência das decisões. Quanto aos jogadores, eles disputam todos os lances com vigor mas também com lealdade e, quando punidos, raramente sequer abrem a boca para argumentar seja o que for. Impera o respeito pelo árbitro e pelas suas decisões, bem como também entre os jogadores. Não há paragens por simulação de lesão (o árbitro pode parar o cronómetro) nem tentativas de enganar o árbitro, o que torna o jogo muito mais fluído. Para finalizar, como é triste a predisposição do adepto de futebol português face a um adepto de rugby. Antes de mais, nota-se uma grande ausência de cultura desportiva na mentalidade do adepto de futebol em Portugal. Essencialmente, as pessoas gostam do seu clube e nisso ficam barricadas, muitas vezes desprezando o próprio futebol, o jogo em si. Isso aliás é bem notório na disposição dos adeptos das 2 equipas nos estádios, com necessidade de separação entre eles. Assim, todo o ambiente prepara mais para uma guerra do que para uma festa, exactamente o contrário do que se observa no rugby.

 

No fim do dia, a melhor coisa do futebol ainda é a bola, bem redondinha e bem mais maneirinha do que o "melão" do rugby, porque tudo o resto não rola conforme o desejado. Reflictamos sobre isto, sejamos à mesma exigentes e peçamos profissionalismo e máximo empenho aos artistas e a quem os dirige ou enquadra, mas não deixemos que os valores do desporto-rei se percam ou que se confunda o amor ao jogo e a celebração da vida com ódio e conflitos bélicos.

21
Out19

As claques


Pedro Azevedo

Ponto prévio: a natureza da existência de uma claque é servir o propósito de apoiar as várias equipas, ou atletas, do Sporting Clube de Portugal, não ser um poder ou contra-poder dentro do clube. Aliás, terá sido de forma a consumarem esse objecto que recolheram até recentemente um conjunto de privilégios junto de sucessivas Direcções do clube. Evidentemente, em cada cidadão há um Homem-político, pelo que os membros de uma claque também o serão e legitimamente terão uma opinião sobre a liderança do clube. Não podem é, enquanto claque, manifestarem esse lado político no decorrer dos eventos desportivos, devendo cada um fazê-lo individualmente em espaço próprio como o de uma Assembleia Geral (ordinária ou extraordinária), tal como quaisquer outros sócios, observadas as regras comuns para todos de civilidade e respeito cívico pela Instituição Sporting e seus regulamentos. Isto parece-me básico! 

 

Existe um problema na sociedade portuguesa que consiste em bastas vezes olharmos para a árvore esquecendo a floresta. Falo nisto porque há situações que decorrem de transformações sociologicas verificadas nas últimas décadas no nosso país e que estão a montante do Sporting, tais como familias desestruturadas, desemprego, falência da escola como complemento educacional, a necessidade de muitos jovens de se sentirem parte de algo ou o papel das redes sociais e das ligações virtuais e como se estabelecem na formação de opinião. Concorrentemente a isso, as gerações mais jovens viveram muito menos glórias no futebol do que as gerações mais antigas e por isso, e pela irreverência própria da idade, são naturalmente mais impacientes. Tudo isso necessitaria de ser compreendido e antecipado dentro do Sporting, na medida em que influencia o dia-a-dia do clube. E influencia porquê? Essencialmente, porque a Cultura Sporting, a nossa identidade, encontra-se enfraquecida, pelo que os nossos dirigentes não conseguem filtrar nada do que vem de fora e que acaba por contaminar o que está cá dentro, ao contrário daquela ideia que antigamente existia de que o Sporting era um clube diferente para melhor e, como tal, onde se absorviam valores comportamentais importantes. Ora, aquando do último acto eleitoral escrevi aqui que o tema da Cultura, bem como o dos Princípios (ética), deveria ser tão urgente de ser endereçado como o da Sustentabilidade. Simplesmente, eu não tenho visto o nosso presidente dar o devido relevo a essa matéria de uma forma transversal ao clube, bastas vezes não se compreendendo as causas que o Sporting defende. Também não existe no actual elenco directivo uma pasta da juventude onde alguns dos problemas existentes pudessem ser estudados e analisados de uma forma séria e traçado um plano de acção, nem tão pouco uma Provedoria Geral onde se pudesse estabelecer uma comunicação que permitisse melhor compreender os ensejos dos sócios em geral e aproveitar o seu contributo. Se é claramente inadmissível que as pessoas não saibam manifestar as suas divergências (repito, legítimas) para com a Direcção ou Orgãos Sociais do clube com urbanidade, o que legitima esta tomada de posição da Direcção, também não me parece bem que o presidente se refira publicamente a sócios de forma insultuosa, classificando-os como irresponsáveis, esqueletos, cientistas, cães que ladram ou malucos, sejam eles criticos construtivos ou oportunistas, naquilo que me pareceu servir mais uma táctica de defesa do que o interesse do clube. É que o exemplo deve sempre vir de cima, essa linguagem é desadequada e o momento que o Sporting vive exige particular sensibilidade com esta matéria, pois, se da consequência dos esforços presidenciais não resultar união, pelo menos não deverá emergir ainda mais fragmentação. 

 

Finalizo, dizendo que estou efectivamente muito preocupado com esta realidade actual. Incomoda-me viver este ambiente que anteriormente nunca vi no clube, com tantos consócios, ou simplesmente adeptos, desavindos. Mais do que um clube de Sportinguistas, diz-se que o Sporting está dividido por supostos interesses diversos e perspectivas messiânicas, mais parecendo que a devoção devida ao clube se transferiu para "lobbies" e proseletismos de carne e osso. Não sei se será tanto assim, mas a verdade é que o último acto eleitoral teve uma disseminação de candidatos anormal neste tipo de plebiscitos do clube. Numa situação como a actual, dir-se-ia de emergência, exponenciada também pelo péssimo momento da equipa de futebol, expôe-se mais a necessidade de um estratégia de união e de uma liderança forte e efectiva, que deveria assentar numa visão prospectiva de futuro, estruturada e estruturante, que antecipasse os problemas em detrimento de ter de recorrer a soluções radicais, e nunca sujeita à ziguezagueante conjuntura. Simplesmente, e quem dirige o clube que me perdoe, não sinto nem acredito que Frederico Varandas seja o homem certo para esboçar e/ou pôr em prática algo de estratégico nessa matéria, porque o momento peculiar do clube exigiria, desde o início do seu mandato e especialmente agora, alguém com dotes de comunicação, sensibilidade, experiência e que soubesse apontar a um caminho e visão comuns que o presidente não mostrou até hoje ter na medida em que sempre se mostrou, nesta como noutras matérias, essencialmente reactivo, pelo meio permitindo o vazio. Deste modo, não vencendo o amor ao clube sobre o ódio e o ressentimento/ressabiamento, o Sporting permanecerá adiado, desenfocado e muito previsivelmente entretido com o fosso que inevitavelmente se irá cavar mais entre sócios comuns e claques. 

20
Out19

Medo...


Pedro Azevedo

"Vamos estar atentos ao Mercado de Janeiro", diz Hugo Viana. Entre outras considerações, como "a época foi planeada com Keizer como treinador" (interessante fraseado) e a não inscrição de Pedro Mendes, que o Director para o Futebol recorda ter sido uma "decisão de Marcel Keizer". A coisa lembra-me vagamente um filmo americano, o "Blame it on the bellboy", temendo-se uma reprise de "O carteiro toca sempre duas vezes" após o Natal e Dia de Ano Novo.

18
Out19

R.I.P. Rui Jordão


Pedro Azevedo

As minhas recordações do Rui Jordão são quase tantas quantos os golos que marcou de leão ao peito.

 

"Float like a butterfly, sting like a bee" - frase de Muhammad Ali que se aplica na perfeição ao jogo de cabeça de Jordão. Mas ele era muito mais do que isso. O Leonardo Ralha, no "És a nossa FÉ", classifica-o como um bailarino do Bolshoi, feliz definição que vai ao encontro dos movimentos graciosos que descrevia no relvado. Mas não nos equivoquemos, essa graciosidade escondia o felino que havia em si, veloz e com o instinto predador de um puma quando dentro da grande área. 

 

É impossível esquecer-me do seu primeiro título pelo Sporting e do jogo que tornou isso possível. Na última jornada desse campeonato, o Sporting recebia a União de Leiria do "brinca na areia" (Dinis) no José Alvalade e precisava de ganhar para se sagrar campeão. Nessa tarde de glória, Jordão marcou dois golos. Desapareceu, envolto num magote de gente posicionada atrás de uma baliza, após o terceiro golo, segundo da sua autoria. Reapareceria quase como veio ao mundo passado algum tempo, tendo de se reequipar para voltar ao campo. Recordo também os vários golos que marcou ao Rio Ave, em jogo da penúltima jornada do campeonato de 82, o seu último título de campeão por uns leões à data treinados por Malcolm Allison, o inglês que ele considerou ter sido o mais marcante da sua carreira dada a liderança que imprimia ao grupo. Haveria ainda de fazer a dobradinha na final do Jamor, num jogo em que o famoso trio de ataque leonino esteve particularmente afinado. 

 

Ao serviço da selecção, impossível esquecer a campanha do Euro 84 (estava atrás da baliza onde o Jordão marcou de penálti ao Dasaev o golo que nos qualificou para a fase final) e particularmente os dois golos que nos deram esperança na meia final contra a França. Bisou frente a Bats e quase contrariou os planos de vitória gauleses, salvos apenas pelo deus Platini. 

 

Também houve momentos infelizes, como aquele ano de 1978 em que lhe fracturaram a perna por duas vezes: primeiro em Fevereiro num choque com Alberto (Benfica), no célebre jogo do brinco de Vitor Baptista; depois, em Setembro, num despique com José Eduardo (Famalicão). 

 

Os dérbies decisivos contra o Benfica, as recepções europeias a Celtic e Feyenoord, o golo de calcanhar ao Porto, aquela tarde dos 8 a 1 ao Braga - indiscritível alarde de classe do trio que formou com Manuel Fernandes e Oliveira - são tudo memórias inesquecíveis para mim.

 

 Jordão deixou-nos hoje. Ao contrário daquele jogo contra o Leiria, para não voltar. Mas a memória dos seus feitos não se perderá no tempo. Que Deus o guarde em descanso!

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18
Out19

Tudo ao molho e fé em Deus - Perder tempo


Pedro Azevedo

Um dia, passeando por Natal, descobri uma loja de T-shirts com frases estampadas. De entre as multiplas camisolas com dizeres humorísticos, uma delas veio-me à memória ontem e narrava qualquer coisa como isto: "Comecei uma dieta e em duas semanas perdi quinze... dias". Enquanto tentava compreender a humilhação em Alverca, esta frase associou-se no meu pensamento para descrever aquilo que sinto que tem sido o constante desaproveitamento de tempo no Sporting.

 

Por paradoxo, o tempo não tem sido bom conselheiro da Estrutura de futebol do nosso clube. No arranque da temporada, Frederico Varandas garantiu aos sócios que o Sporting iria fazer melhor que na época anterior. O pressuposto fundamental para esse optimismo era o facto de a temporada há muito estar a ser preparada por uma Estrutura altamente profissional, assim associando-se o tempo à previsão de sucesso. Acontece que, sendo a libertação de  tempo algo importantíssimo na gestão, a sua constante má utilização pode mais facilmente conduzir ao desastre. O tempo só está do nosso lado se houver competência, caso contrário pode legitimar e exponenciar muita asneira. Ora, após 14 contratações desde Janeiro e vendas de Nani, Bas Dost e Raphinha, é fácil perceber que a equipa de futebol do Sporting não ganhou qualidade, pelo contrário perdeu-a. Ontem, em Alverca, na equipa inicial estavam 9 jogadores recrutados pelo Team Varandas, complementados por 2 elementos da nossa Formação. O resultado dessas apostas viu-se. Perante o quadro actual de jogadores, não haveria Jurgen Klopp, ou mesmo David Copperfield, que conseguisse com um passe de magia alterar instantaneamente o rumo das coisas.

 

Pese embora as condicionantes, a incoerência no discurso de Silas não pode passar em claro. Ontem começou por dizer que não teve tempo para treinar com os internacionais o novo modelo de jogo, mas a verdade é que os colocou em campo. Ora, durante duas semanas, Silas treinou o tal modelo, apoiando-se para o facto em diversos miúdos da equipa de sub-23 conforme foi amplamente noticiado. Se na altura da convocatória deixou todos de fora foi porque colocou os nomes à frente daquilo que faria sentido. Não adianta pois vir falar em "heróis" como algo prejudicial ao grupo, como se já não lhe chegassem os problemas que existem no plantel e ainda quisesse ver um problema na nossa praticamente única solução, o Bruno Fernandes. A verdade é que perante a desvantagem no marcador logo recorreu ao "herói". Como também se socorreu de Acuña, só faltando Mathieu para completar a entrada em campo dos jogadores que efectivamente fazem alguma diferença neste Sporting. De quem Silas não prescindiu foi de Jesé, estranhando-se a titularidade do espanhol que teve uma atitude incorrecta perante o tal grupo que Silas quer legitimamente ver a resolver os problemas. Conclui-se assim que também Silas desperdiçou o tempo que teve disponível desde o último compromisso da equipa de futebol, laborando exactamente na mesma teia de equívocos dos seus predecessores. 

 

Aquilo a que se assistiu ontem deveria obrigar a uma profunda reflexão. E, já agora, a um plano de emergência. A uma política de contratações que privilegiou a quantidade em detrimento da qualidade somou-se o empréstimo de vários jogadores provenientes da Formação (alguns com cláusula de opção de compra do clube que os acolheu) e a venda ao desbarato de alguns dos melhores jogadores do plantel (Dost e Nani). Para além disso, a Estrutura nunca conseguiu dar estabilidade à liderança da equipa de futebol, definindo fins de ciclo ao fim de meses, quando não de dias, e indo já no seu 5º técnico num ano. Os efeitos nefastos da preparação desta época desportiva demorarão anos a dissipar-se. É preciso ter coragem de agir e inverter este rumo, antes que novas opções de mercado tornem o Sporting inviável. O que se viu ontem de Rosier, jogador que custou 5,3 milhões de euros mais o passe de um jogador (Mama Baldé) que havia marcado 10 golos na temporada transacta? Como explicar as dificuldades encontradas pela nossa dupla de centrais perante uma equipa da terceira divisão? A dado momento apeteceu-me perguntar a Doumbia se precisava de uma cadeirinha, tal a displicência do marfinense no lance do primeiro golo do Alverca, jogada em que Alex Apolinário teve tempo para rodar, ajeitar a bola e chutar sem ser incomodado por ninguém. Depois, Jesé foi a nulidade do costume, Borja tem melhorado com Silas mas não há milagres, Eduardo não se viu, Miguel Luís é menos talentoso que diversos jogadores dos sub-23 que não são aposta e Luíz Phellype não conseguiu uma única vez incomodar o seu sósia da baliza ribatejana. Salvaram-se Max, com uma defesa aparatosa, e Vietto, jogador com pormenores técnicos interessantes mas sem golo.

 

Humilhado na Supertaça, fora da Taça de Portugal, com a Taça da Liga muito comprometida e o campeonato irremediavelmente perdido em Outubro, para onde vai este Sporting? O que sobrou em tempo para o desconchavo, escasseia agora para que se reponha algum sentido nas coisas antes que o desastre seja total. Agora, ou isto é feito de uma forma ordenada, ou temo que o radicalismo tome conta do clube e que este se desfaça numa luta fratricida. Urge agir! 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Vietto

alvercasPORTING.jpg

17
Out19

A "Maçã" e a Laranja Mecânica


Pedro Azevedo

Rinus Michels revolucionou todo o conceito do futebol a partir da década de 60 do Século passado. Antigo professor de ginástica para crianças surdas, Michels chegou ao Ajax em 1965, impondo um estilo de jogo sem posições fixas – Futebol Total – onde a polivalência e a versatilidade sublimavam o talento colectivo, traduzindo-se tudo isto em tremenda eficácia.

 

Embora visionário e genial, Michels necessitava que os jogadores fossem inteligentes e soubessem interpretar em campo as suas ideias. Foi então que se deu um golpe de sorte: Johann Cruyff, praticamente nascido no Ajax – o seu pai vendia fruta ao clube – despontou em simultâneo com o mestre. Cruyff aportou velocidade, intuição, objectividade e inteligência ao belo jogo dos “lanceiros”. Esta última foi a arma derradeira que permitiu tornar-se no maestro que viria a conduzir a “orquestra” do clube e da selecção holandesa (“A Laranja Mecânica”) durante uma década.

Este exemplo inspirador do “mundo da bola” deve ajudar-nos a reflectir a realidade do mundo empresarial. As empresas de sucesso são aquelas que têm uma visão e depois artistas que são os artífices da implementação dessas ideias. Tal, requer energia e um plano, uma estratégia por parte de quem dirige, mas também inteligência, capacidade de trabalho, sacrifício e superação por parte de quem implementa.

 

Vejam o exemplo da APPLE: Steve Jobs foi o pensador, o “mastermind”, o homem inspirador capaz de uma visão “out-of-the-box” (como Michels). Os bons técnicos gostam de trabalhar com quem tem ideias (uma competência) e a capacidade de as pôr em prática (outra competência). Por isso, a Apple foi capaz de atrair talento criativo para si, distanciando-se da concorrência.

Um líder necessita de um conjunto de pessoas versáteis, polivalentes, com competências diversificadas, os quais devem constituir o seu “staff” próximo. A missão do primeiro deve ser “espremer todo o sumo” que os segundos podem dar. Estes últimos deverão saber interpretar as ideias e passá-las aos “solistas”, que se quer perfeccionistas de forma a executá-las da melhor maneira.

 

Analisando os casos de sucesso vemos denominadores comuns entre líderes. No entanto, alguns segredos residem na personalidade e carisma de cada um. Já dizia Crujff, “se eu quisesse que entendessem, explicar-vos-ia melhor”.

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