Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

12
Ago19

A Keizer o que é de Keizer, a Varandas o que é de Varandas


Pedro Azevedo

Quem definiu a política de contratações? Quem já gastou cerca de 36 milhões de euros (sem contar com as comissões do Mercado de Verão) desde Janeiro? Onze contratações depois, por que é que a categoria dos jogadores não melhorou? Quem decretou que a Formação não tinha qualidade? Quem emprestou ou vendeu quase todos os jovens promissores entre os 18 e os 24 anos? Quem escolheu Keizer? Quem viu no treinador holandês um fiél seguidor dos princípios da escola do Ajax? O que se passa com Battaglia? O que se passa com Dost? O Sporting não é a Christie`s ou a Sotheby`s, então qual a razão porque parecemos uns leiloeiros no mercado internacional? O que quis Keizer dizer com "perguntem ao Director" (sobre Matheus Pereira)? Quem foi responsável pela vinda do "sonho" de uma noite de Verão (Vietto), tragicomédia de inspiração shakespeariana que o treinador já deu a entender não encaixar no seu sistema? 

 

Posto isto, é certo que Keizer aposta pouco nos jovens, é muito rígido nas substituições, tem uma comunicação básica e fraca, um plano de jogo que consiste em meter a bola em Bruno Fernandes, et caetera e tal. Mas a verdade é que o seu início foi auspicioso. Isso até ter começado a aculturizar-se à realidade portuguesa e, quiçá, à tão famosa Estrutura leonina. 

 

Olhando para as mais recentes declarações de Keizer, a que se podem adicionar diversos "soundbites" do presidente Varandas, eu só posso esperar que estes dois protagonistas reflictam no caminho a seguir e ponham as razões do Sporting acima das suas próprias razões. O tempo, inexorável, não pára. É preciso reagir, compreender que o que se nos afigura fácil muitas vezes encerra segredos e mistérios dificilmente decifráveis que exigem especial sensibilidade, e dar a volta por cima. É isto possível? (Ou vamos continuar a brincar "às casinhas"?)

12
Ago19

O amor é... por Joana Marques(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais (ao ganharem vida deixam de estar datadas), incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting. 

 

Hoje convido uma senhora, ou melhor (para que não fiquem dúvidas sobre a sua idade e jovialidade), uma menina, mulher, menina mulher, casada, mãe de 2 filhas e com outra a caminho, a Joana Marques. Há alguns meses atrás, mão amiga trouxe ao meu conhecimento a Joana. No seu blogue escrevera algo sobre o Sporting que eu deveria lêr, dizia o meu amigo. Li. E aquilo tocou-me. Tocou-me pelo estilo de escrita de cunho muito próprio e intimista, pela forma como os seus textos ganhavam vida com a sintaxe por via de uma invulgar e ousada disposição das frases (a indicar uma personalidade muito vincada), mas também (principalmente) pela forma como conseguira traduzir a sua paixão pelo nosso clube. Foi a primeira vez que li o "Feita de Sporting", que mais tarde vi traduzido pelo nosso marketing em "Feito de Sporting", que adicionava as conquistas aos sentimentos. Reli o texto e não esqueci. Não conhecendo a Joana, guardei em ficheiro na minha cabeça para memória futura. E a oportunidade de contacto surgiu com esta série "O amor é...".  Assim, sem mais delongas, esperando ter-lhe feito justiça (há sempre algum pudor e dá sempre um bocadinho de medo apresentar quem acabamos de "conhecer"), aqui fica o texto que a Joana nos escreveu por amor ao Sporting:

 

"Tenho 3 filhas.

Quando penso naquilo que quero para elas peço: saúde, felicidade..

…e que sejam do Sporting.

É por isso que nas noites de mais inspiração, em vez de lhes ler “a Branca de Neve e os 7 anões” lhes conto episódios vividos por mim. Com o Sporting.

Com a Alice e a Mariana ao meu colo e a Luísa dentro da minha barriga, começo devagarinho….

 

Era uma vez….

…há muito, muito tempo.

  1. No Alentejo.

Tinha 6 anos e passava as férias grandes em casa dos meus avós.

Eu, o meu irmão e uma carrada de primos rapazes.

Era levada da breca e tirava a paciência a tudo e a todos.

Era a mais nova.

Hiperactiva. Mimada.

Precisava de atenção e entretenimento constante.

Passávamos os dias a correr atrás do sol e regressávamos a casa ao anoitecer. Lanchávamos a fruta das árvores, bebíamos a água dos fontanários públicos e fazíamos amigos improváveis.

Não havia telemóveis. Toda a gente confiava em nós. Brincávamos como queríamos e onde queríamos.

Os meus pais e os meus tios visitavam-nos ao fim-de-semana. Ao sábado à noite passava um bom par de horas dentro da banheira. No dia seguinte a minha mãe levava-me à missa e não podia ir com aquelas pernas todas encardidas.

 

Os meus pais e os meus tios iam-se embora ao Domingo depois de almoço.

 

 

Um desses domingos. Saíram mais cedo.

Para grande alívio do meu avô.

O campeonato ia começar. O Sporting ia jogar.

Quando o Sporting jogava o mundo parava.

O meu avô, exigia silêncio e atenção.

Sentava-se no sofá da sala com a minha avó ao lado.

Nós sentávamo-nos “à chinês” ao redor do sofá.

Calados que nem ratos. À espera de novidades.

Mas…

….a minha fama era qualquer coisa!

O meu avô confiava no silêncio de todos excepto no meu. Vá se lá saber porquê… ;)

Enquanto sintonizava o rádio chamava-me!

- Joana!

Ficava direitinha e caladinha! Em sentido…

Também eu queria participar do momento.

O meu irmão dizia-me baixinho ao ouvido:

- Se te sentires aborrecida vai por aí tocar às campainhas!

Não fui!

O jogo começou.

Fiquei ali a alimentar o meu Sportinguismo.

O meu avô tinha o rádio ao ouvido.

Nervoso.

Pediu à minha avó ajuda divina.

A minha avó levantou-se e tirou a tampa de uma terrina que tinha em cima da mesa.

Tirou um terço e começou a rezar.

O meu irmão disse-me baixinho ao ouvido...

- A avó está a rezar a Deus para o Sporting ganhar!

 

O Sporting ganhou o jogo!

 O meu avô levantou-se.

Nós fomos atrás dele.

Entrou na adega. 

Saiu de lá com 4 foguetes. 

Lançou-os.

Para que toda a gente soubesse que o Sporting tinha ganho.

 

No fim de semana seguinte  os meus pais voltaram para nos ver e eu tinha uma coisa muito importante para lhes contar.

Mal saíram do carro! Gritei...

- Deus é do Sporting! Deus é do Sporting!

A minha mãe quase enfartou.

O meu pai riu desalmadamente.

Eu, acrescentei:

- O Sporting jogou, a avó rezou a Deus e o Sporting ganhou!!

Feliz da vida, acreditei que o Sporting ia ganhar para sempre.

Deus era do Sporting! Deus era do Sporting!

 

 

O Sporting foi desde o meu primeiro dia de vida o prolongamento da minha família, Alvalade o prolongamento da minha casa.

Actualmente, não sou crente mas tenho uma fé inabalável no meu Sporting.

Tudo pode falhar...

...menos o meu Sportinguismo!

Continuo a acreditar que o Sporting vai ganhar os jogos todos!

Nos ombros, tenho a responsabilidade de transmitir toda esta fé e esta memória às minhas filhas, para que daqui a 20 anos, sejam elas as convidadas a escrever um texto sobre o grande amor das nossas vidas!

 

Obrigada, Pedro!

Tão bom estar por aqui. 💚"

 

(*) Joana Marques, autora de "Kiosk da Joana"

11
Ago19

Tudo ao molho e fé em Deus - Planos D e E


Pedro Azevedo

Na pré-época, Frederico Varandas havia anunciado ter um Plano A, B ou C, consoante Bruno Fernandes ficasse ou não. Por contágio, Keizer e os jogadores também começaram a percorrer o abecedário. Assim, desde que a bola começou a rolar, a equipa já mostrou ter um Plano D, de derrota, e um Plano E, de empate. O Plano V, de vitória, é que nem vê-lo, esperando-se que não demore tanto a concretizar-se quanto a distância no alfabeto entre as letras "E" e "V".   

 

Neste defeso, o Sporting foi ao mercado adquirir cinco jogadores. Hoje só um alinhou de início (Eduardo) e apenas porque Doumbia estava impedido por castigo, visto que Matheus Nunes ou Daniel Bragança não contam para Keizer. (A propósito: para quem já se esqueceu ou tem saudades, o Gudelj estava lá naquele jogo em que o Benfica marcou 4 em Alvalade.) O sonho de uma noite de Verão do presidente Varandas (Vietto), contratação que se teme fazer parte de uma comédia shakespeariana, também foi a jogo, ainda que só na parte final. 

 

Uma equipa grande tem de ter laterais ofensivos. Hoje, o Sporting não os teve: Thierry ainda arrancou um ou outro centro bem medido, Borja nem isso, sempre a fugir da grande área adversária como o diabo da cruz. Por vezes, mesmo com o caminho todo desbravado, hesita e regressa à base, um movimento tão incompreensível quanto teria sido o de Bartolomeu Dias se após passar o Cabo das Tormentas tivesse voltado para trás, negando assim a Boa Esperança.

 

Uma equipa com os pergaminhos do Sporting também tem de ter uma boa defesa. Na Madeira, Thierry esteve ao nível de um Ilori, o que não o recomenda propriamente, pese a boa vontade deste autor. Mas também quando se tem um treinador que o intranquiliza a 24 horas de um jogo ao dizer que o maior problema com o Benfica foi o lado direito... Coates não apareceu na fotografia do golo insular e ligou o complicómetro no quarto de hora final. Em postura atacante, obteve um golo que valeu um ponto. Mathieu, apesar da infinita classe, deu uma fífia que podia ter sido fatal e Borja, bem Borja, foi como se nem estivesse lá, permitindo todo o tipo de cruzamentos na sua área de jurisdição. 

 

Quem quer ganhar campeonatos também tem de ter pontas-de-lança que entendam o jogo da equipa, saibam ligar jogo e sejam letais na área. Nada disso parece caracterizar o Felipe das Consoantes, um avançado que se deixou antecipar na área umas quatro vezes em lances que podiam ter mudado a história do jogo. Quanto a Bas Dost, mostrou viver o mesmo sem-vontade com que recentemente recusou sair de Alvalade a caminho da China ou de outro desses paraísos de reforma do futebol mundial. O holandês dá todos os sinais de não se estar a sentir confortável. O que se estará a passar com Dost? 

 

Perante todos os factos elencados, a que se pode acrescentar um Raphinha novamente a decidir pessimamente, a equipa acaba por estar muito dependente de Bruno Fernandes (sempre ele), Wendel e Acuña, o que simplesmente se vem revelando insuficiente. O mais dramático disto tudo é que já se percebeu com um grau de certeza razoável que a abordagem ao mercado não resultou bem, continuando a escassear jogadores que façam a diferença. E quando se vê que a solução de desespero é Diaby, então é caso para dizer que o desespero está instalado. 

 

Keizer, tal como Abraracourcix, parece estar sempre à espera que Bruno Fernandes impeça que o céu lhe caia em cima da cabeça, o grande receio da sua existência enquanto chefe do plantel dos leões (onde está aquele treinador ousado que pôs a equipa a jogar de pé para pé e que privilegiava as suas ideias e não adaptações a adversários e ao futebol português?). "Por Toutatis", o médio é actualmente uma mistura entre Atlas - um titã condenado a sustentar o céu nos seus ombros - e Asterix, um cruzamento entre a mitologia grega e a aventura epopeica de Uderzo que homenageia o lendário Vercingetórix. Ele é o celebérrimo "plano de jogo" de Keizer, a sua poção mágica. O problema é que isso acaba por o desgastar em demasia, física e emocionalmente, havendo jogos em que, mesmo sem estar mal, fica aquém do seu potencial. E quando não temos o melhor Bruno Fernandes...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Wendel

maritimo sporting 1-1.jpg

11
Ago19

Os jogos da minha vida (V)


Pedro Azevedo

14.12.1986  Sporting - Benfica 7-1

 

A nossa equipa: Vítor Damas; Gabriel, Venâncio, Virgílio e Fernando Mendes (Duílio, aos 79 min.); Oceano, Litos (Silvinho, aos 79 min.), Zinho e Mário Jorge; Raph Meade e Manuel Fernandes.  

 

O Sporting vs Benfica de 86 é o único jogo desta série que não presenciei ao vivo, facto do qual jamais me perdoarei. Por sortilégio, o que perdi "in loco" em emoção ganhei em explicação racional do que se passou em campo. É verdade, enquanto estudava para uma Frequência de Economia calendarizada para o dia seguinte, o jogo proporcionar-me-ia a aplicação prática das teorias do liberalismo, simbolizadas na expressão "laissez faire, laissez passer" com que a defesa encarnada pretendeu ilustrar os conhecimentos teóricos que eu ia adquirindo nos livros e cadernos de apoio.  

 

À cautela, deixara a aparelhagem sintonizada numa estação radiofónica que cobria o derby. Eu, no meu quarto, à secretária, a aparelhagem na Sala de Estar com o som baixinho. Cerca de 20 metros nos separavam, distância fulminantemente superada logo ao quarto de hora quando Mário Jorge inaugurou o marcador. Seguiu-se uma hora relativamente tranquila, sem grande volatilidade nos decibéis que vinham de outra divisão da casa, que me permitiu concentrar na matéria em atraso. Chegou então a catarse de uma meia hora final feita de constantes piscinas naquele corredor que separava a zona dos quartos das áreas comuns. Desse transe e até à rendição final distaram poucos minutos. A emoção acabaria por vencer a razão, o Sporting nocautearia de uma só penada Adam Smith, Locke, Burke, Bentham, Malthus e Marx. O som da aparelhagem já não estava baixinho e o vizinho de baixo, benfiquista convicto, fazia questão de o notar a toque de cabo de vassoura, anunciando sarilhos. Sarilhos, origem do nosso Manél, imparável nessa tarde. O jogo acabara e era hora de celebrar. Sózinho em casa, olhei para o meu Dual, gira-discos com uma base em madeira onde afinfara três pancadinhas de sorte antes do jogo começar. Em cima do tampo em vidro da geringonça havia um LP e um Single. Por uma vez o recém-importado "Love will tear us apart" dos Joy Division de Ian Curtis ficaria para trás, vergado pelo peso de Mr James Brown, o "Padrinho do soul". I feel good!... 

10
Ago19

Venham mais cinco!


Pedro Azevedo

Keizer afirmou hoje em conferência de imprensa que (contra o Benfica) a equipa sentiu especialmente dificuldades no lado direito, rematando que esse foi o principal problema. Poder-se-ia pensar que a estreia (em competições nacionais) de Thierry Correia, único jogador da nossa Formação presente nesse jogo e um dos melhores em campo para a maioria dos analistas, pudesse ter merecido uma palavra pública de incentivo do holandês. Ao invés, este optou por expôr o nosso jovem perante a opinião pública, envolvendo-o (e a Raphinha) directamente na debacle, mais uma vez dando força a uma narrativa que parece invadir toda a Estrutura e que descredibiliza os produtos provenientes de Alcochete. 

 

Na mesma entrevista, o treinador leonino disse coisas estranhas e incompreensíveis, tais como "a pressão de decidir(?) durante o jogo não foi suficiente", ou "é difícil dizer se somos candidatos ao título porque viemos de um jogo difícil, com um resultado difícil". Já sabíamos que o verbo não era propriamente a melhor qualidade do técnico holandês, que ainda não fala português e "arranha" um dialecto vagamente semelhante ao anglo-saxónico, o que vale é que o senhor, ao melhor estilo da escola do Ajax, não hesita em apostar nos miúdos. Ou não? 

 

Mas tudo está bem quando acaba bem: perante a actual conjuntura económico/financeira do clube, o importante é termos um treinador absolutamente alinhado com a sua Direcção. Venham mais 5 ("reforços"), como diria o Zeca Afonso.  

10
Ago19

113 anos de história, 13 glórias - o meu voto


Pedro Azevedo

O Sporting está a eleger, no seu sítio oficial (https://www.sporting.pt/gloriassporting), durante o mês de Agosto, 9 figuras do seu ecletismo que irão ser imortalizadas em espaço próprio no Pavilhão João Rocha. Os eleitos juntar-se-ão a outras 4 glórias - António Stromp, Mário Moniz Pereira, Reis Pinto e Salazar Carreira - previamente escolhidas pelo Conselho Directivo, perfazendo assim o número de 13 personalidades homenageadas. Os sócios que quiserem votar terão de escolher 5 atletas entre os 20 nomeados na categoria de desportos colectivos e outros 4 atletas entre os 20 nomeados na categoria de desportos individuais.

Eis o meu voto, entretanto já registado (por ordem de disposição no "site"): António Livramento, Bessone Basto, Carlos Silva, Chana, Manuel Brito, Alfredo Trindade, Carlos Lopes, Fernando Mamede e Joaquim Agostinho. 

Todos os momentos de exortação da Cultura Sporting e sua identidade merecem o meu aplauso, pelo que peço a todos os Leitores de Castigo Máximo que sejam sócios do Sporting Clube de Portugal para aderirem a esta iniciativa, votando. Participem! 

09
Ago19

O embargo


Pedro Azevedo

O embargo é uma prática comum no comércio internacional que pode ser ditado por querelas políticas entre países, ou simplesmente por questões de proteccionismo económico. Sempre fértil em absorver os elevadíssimos padrões morais e éticos da sociedade moderna, o futebol parece tê-lo adoptado recentemente.

 

Sejamos francos, parece haver uma estratégia de controlo dominante do poder por parte de um clube nacional. Essa estratégia implicará o condicionamento dos rivais. Aparentemente, e pelo que se vai percebendo no que às transferências diz respeito (recomendo a leitura de um tal Pippo Russo), determinadas ligações entre agentes e presidentes/directores desportivos internacionais, alegadas mas nunca provadas participações económicas de empresários em clubes e falta de regulação geral do sistema ajudam tal propósito. Só nesse cenário pode ser compreensível que um Félix saia por 120 milhões de euros e que por um Bruno, melhor jogador da nossa Liga em 2 anos consecutivos, não se pague nem €70 milhões. 

 

Perante este cenário, mandaria o bom senso que o Sporting desenvolvesse o seu produto sem estar dependente do mercado. E que o promovesse com garantia de qualidade, apoiado para tal em inúmeros exemplos da sua gloriosa história. Acontece porém que o senhor presidente do clube de Alvalade, seguro dos seus dotes de anatomista, produziu o diagnóstico de que o "paciente" não se encontra bem, não sendo possível determinar de momento, dada a profusão de notícias de baixas na Formação, se investido de médico-legista não terá já mesmo decretado o óbito. Fiél àquele ensinamento da Clarice Lispector, de que "não se deve preocupar em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento" (pelo menos até à hora da morte), foi mesmo alimentar o tal mercado que nega valor aos nossos activos, tendo numa voltinha de Verão comprado um T5 na Reboleira equipado com uma Sala de Enfermaria com duas camas (para Rosier e Camacho), empreendimento para o qual se receia que nem haja colchões suficientes. 

 

Ao mesmo tempo que se vão empilhando stocks de compras no mercado (que mais tarde doaremos a alguma instituição), a Formação continua em filas-de-espera. Um modelo genial de Investigação Operacional, em que não há limite às importações, mas, em oposição, o sinal de trânsito de Alcochete para Alvalade encontra-se quase sempre (ai Thierry, até quando...) vermelho, coisa que aliás já vem de trás. Ora, vermelho é a côr do rival, pelo que esta "Gertrudes" que promove o controlo "inteligente" do nosso tráfego já me está a incomodar. Proponho então que se mude o nome para "Dolores", em homenagem à mãe do nosso Cristiano Ronaldo, rapaz que aparentemente não se deu mal com a luz verde que recebeu para Alvalade, de onde saiu para uma carreira digna de estórias de encantar. Como esta, ficcionada pois com certeza, aliás é. Não para nós, bem entendido.

09
Ago19

O amor é... por José da Xã(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais (ao ganharem vida deixam de estar datadas), incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting. 

 

Hoje convido o José da Xã. Conheci o José no meu primeiro jantar do blogue “És a nossa FÉ” e logo me impressionou pela sua autenticidade, camaradagem e profunda devoção ao Sporting. Para além disso, o José é um homem bom, genuíno, de princípios,  intuitivo, sábio até, que cultiva a amizade e tem um coração enorme. Os seus Posts são o produto disso mesmo, cheios de puros sentimentos leoninos que nos contagiam, reconciliam com o nosso amor ao clube e, bem absorvidos, nos fazem querer ser melhores Homens. Assim como ele é. Aqui fica o texto que o José nos deixou por amor ao Sporting:

 

"Nasci no seio de uma família de sportinguistas, a começar pelo meu pai, que foi sócio durante algum tempo e pelo meu tio, irmão da minha mãe, que ainda hoje é sócio (creio mesmo que fará parte dos “Cinquentenários”), mas que devido à provecta idade deixou de ir a Alvalade.

Entretanto há umas breves semanas veio-me à memória uma recordação da minha infância que reza assim: certo dia estava eu na aldeia, provavelmente de férias, quando um primo, que se preparava para partir para África ao abrigo do SMO, chamou-me para me mostrar as suas recordações!

Era uma daquelas malas de viagem tão em voga nos anos 60, meia de papelão grosso, meia de madeira, com quadrados de estampagem. Ao abrir a tampa vi que naquele pequeníssimo mundo estava uma história fantástica. O meu primo guardara muitos recortes de jornais que falavam do Sporting, cromos de atletas leoninos muito usados e outras referências sportinguistas.

Foi aquele ínfimo espaço que me fez despertar para uma outra realidade, para algo que hoje reconheço ser mais profundo. Foi nesse momento histórico da minha vida que me tornei verdadeiramente sportinguista.

Após esta minha breve viagem a um passado longínquo mas saudoso, regresso à crua actualidade para afirmar sem rodeios que o Sporting é hoje uma profundíssima paixão.

Recordo agora um outro exemplo de fervor clubístico. Certa tarde após um dia de trabalho e à volta de uma mesa numa tasca na Rua do Cruxifixo e por detrás de umas imperiais alguém perguntou a um sportinguista:

- Entre a tua mulher e o Sporting quem escolherias primeiro?

Resposta rápida:

- O Sporting…

- Porquê?

- Porque conheci primeiro…

Não chegando a este exagero diria que o meu amor pelo Sporting é… totalmente incondicional! E irrevogável!

De outra forma há muito que teria deixado de ser sócio, que não compraria o meu lugar em Alvalade ou que não entraria no Pavilhão João Rocha.

Mas este amor não tem explicação lógica. De todo.

Não se percebe, não se entende, não se controla… só se sente. São as unhas roídas nos minutos finais de um jogo, o frio glaciar naquela grande penalidade, a alma repleta de alegria na vitória, o murro no estômago na derrota.

Nisto a razão não manda, não se impõe.

É o coração leonino que se sobrepõe, é o orgulho, a honra, a alegria de se ser do Sporting Clube de Portugal.

Sentimentos únicos que repito ninguém saberá explicar. Nem eu próprio.

É assim o meu amor ao Sporting!" 

 

(*) José da Xã, autor de "LadosAB", co-autor de "És a nossa FÉ"

 

P.S. "O amor é..." voltará na segunda-feira.

08
Ago19

Política desportiva


Pedro Azevedo

As recentes dispensas de Gelson Dala e de Matheus Pereira, associadas aos rumores que apontam para a necessidade de recrutamento no mercado de um ala e de um ponta de lança, criam perplexidade. Desde logo, porque cedo se tornou evidente que o Sporting precisava de um ala com características mais desequilibradores e de um avançado com outra mobilidade, técnica e ligação de jogo. Que poderiam muito bem ser os agora libertos Matheus e Dala. Não o sendo para quem dirige, não se compreende que a nossa prioridade no mercado tenha sido a contratação de um lesionado Rosier por 8 milhões de euros (€5 milhões + Mama Baldé, temendo-se o que teria sido o valor pago por este lateral direito caso o jogador estivesse logo apto para competir). Também não é entendível que em duas janelas de transferências se tenham contratado Plata e Camacho e nos continuemos a queixar de falta de qualidade nas alas (dinheiro mal gasto em tempo de recursos escassos?). Já para não falar do risco inerente à contratação de Vietto (os 50% mais caros da história do clube), um jogador com salário elevadíssimo para a nossa conjuntura, ou do sentido que possa fazer deixar sair o ainda jovem Domingos Duarte e ir buscar o veterano Neto. 

 

O tempo por vezes tudo faz esquecer e há quem possa ver vontade apenas de criticar. Nesse sentido, recupero aqui o Post que fiz neste blogue, com o título "Ensaio sobre o Plantel de 2019/20", no dia 29 de Maio deste ano, numa altura em que só as contratações de Neto e Vietto eram uma inevitabilidade. Descubra o Leitor as diferenças (nota: a cotação de alguns dos jogadores sugeridos foi recentemente actualizada em alta pelo Transfermarket; dado que Keizer parece não ver as qualidades que eu observo em Matheus Nunes, então Daniel Bragança seria a opção lógica para o substituir no plantel proposto):

 

"Ficando a aguardar as sugestões dos nossos Leitores, aqui fica o meu esboço de plantel para a temporada de 2019/20:

 

Guarda-redes - Renan é, provavelmente, um dos jogadores mais subvalorizados do campeonato português. Muito tempo tapado no São Paulo pelo ídolo Rogério Ceni, naturalmente o seu estatuto quando chegou à Europa não era impressionante. Vi-o, na época anterior, no famoso "jogo do vento", em que o Estoril bateu o Sporting, e gostei dos seus reflexos. Contratado por Sousa Cintra a título de empréstimo, mereceu amplamente a confiança nele depositada, tendo sido providencial na conquista das duas taças. Muito elástico entre os postes, viu sobre ele pairar o anátema de que geralmente tocava na bola antes desta entrar. Sempre vi nisso uma qualidade e não um defeito, na medida em que nunca dava uma bola perdida, inclusivé aquelas em que ficaria melhor na fotografia se não se mexesse. Deu vários pontos ao Sporting este ano com defesas incríveis em momentos decisivos do jogo. Assim de repente, recordo-me do jogo em casa contra o Portimonense, o de Chaves, entre outros. Deverá melhorar o seu jogo de pés e a antecipação de certos lances, nomeadamente cobrindo melhor o espaço deixado nas costas por uma defesa subida. Para mim, é um valor seguro. 

Salin não comprometeu quando chamado, com destaque para o jogo na Luz, e parece fazer um bom balneário. Deve melhorar a sua acção nos cruzamentos por alto. Max também é bastante elástico e deverá começar a ter minutos nas taças, alternando com Salin. A primeira regra da economia é a de que os recursos são escassos, pelo que para mudar teria de ser para fazer a diferença. Como tal, aplicaria o dinheiro no reforço de outras posições.

A minha opção: Renan, Salin, Max (promovido dos sub23)

 

Lateral Direito - Bruno Gaspar é curto para as ambições do Sporting e deve ser colocado no mercado (venda ou empréstimo com os ordenados pagos) e Ristovski é um touro a quem não se pode pedir números de primeira bailarina. Ainda assim, o macedónio é um daqueles carregadores de piano que misturados na dose certa com jogadores virtuosos e jovens da Formação podem produzir um bom cocktail, vidé a época de Allison, onde Barão, Marinho e Nogueira tiveram um papel determinante no sucesso. Assim sendo, promoveria definitivamente Thierry Correia e investiria noutras posições, a não ser que surgisse uma proposta muito boa pelo macedónio. Num sistema de 3 centrais, Mama Baldé (ou Raphinha) poderia até fazer toda a ala na maioria dos jogos em Alvalade.

A minha opção: Ristovski e Thierry Correia (promovido dos sub23)

 

Centrais - Mathieu é imprescindível. Coates tem dias, mas é jogador acima da média. Neto já foi confirmado. Faria regressar Domingos Duarte, que foi eleito para a melhor dupla de centrais da La Liga2, e manteria Borja, de forma a ter um canhoto como alternativa a Mathieu, se tivesse a certeza de que Keizer não apostaria nele como lateral esquerdo. Cinco centrais parece-me adequado para o sistema de 3 centrais que creio irmos ver mais vezes na próxima temporada. Ivanildo, central pela esquerda, ainda não me convenceu totalmente. Faz-me lembrar Ilori (vendê-lo-ia), com as suas frequentes distrações fatais, embora seja mais novo e ainda vá a tempo de corrigir esse aspecto.

A minha opção: Domingos Duarte (regresso de empréstimo), Coates, Neto, Mathieu, Borja

 

Lateral Esquerdo - Se a ideia de Keizer é Borja poder jogar como lateral, a minha recomendação seria que o vendessem já, aproveitando a valorização inerente às suas convocatórias para a selecção da Colômbia. Borja é um jogador hesitante, que estranhamente vai recolhendo comentários favoráveis de adeptos leoninos convencidos de que existe elevado potencial num jogador de 26 anos que ainda tem dificuldade em perceber os terrenos que pisa. A mim, faz lembrar um indíviduo que vai à caça e, a meio do caminho, se lembra de que deixou a arma em casa e volta para trás. Acuña é um dos três melhores jogadores do actual Sporting, conjuntamente com Bruno e Mathieu. A sua influência melhora bastante num sistema de 3 centrais, onde encontra maior liberdade para aplicar aqueles seus centros com curva que tão bons resultados vêm produzindo. Creio que a sua posição ideal é mesmo essa, pois assim vê o jogo de frente. Por não ser muito inventivo a nível de finta, como ala não é determinante, obrigando-o muitas vezes a jogar de costas para o adversário e a rodar para causar perigo. Nessa posição revela, no entanto, uma qualidade interessante: a sua leitura do jogo interior. Para o acompanhar, procuraria um lateral com outras características, mais rápido, com maior explosão e que jogasse mais por fora. Como não temos fornada imediata nas camadas jovens, procuraria um jogador jovem para desenvolver. Caso Acuña saia (não quero de todo), contrataria Angeliño (PSV Eindhoven).

A minha opção: Marcos Acuña e Gian-Luca Itter (alemão, Wolfsburgo, 20 anos, 2M€ Transfermarket) 

 

Médio Defensivo - Gudelj e Petrovic têm ordenados incomportáveis. Para além disso, não caminham para novos, pelo que entendo que não se justifica o custo, pese embora a excelente atitude demonstrada por Petrovic na Taça da Liga, ou o esforço de Gudelj. Comprámos em Janeiro dois jogadores que precisamos de desenvolver (Doumbia e Matheus Nunes) e Battaglia está de regresso. 

A minha opção: Doumbia, Matheus Nunes (promovido dos sub23), Battaglia

 

Médio "box-to-box" - Wendel cresceu muito na última temporada, Miguel Luís deu boas indicações até sair da equipa e Battaglia ou Matheus Nunes (até mesmo Doumbia) podem fazer a posição. Daria uma última oportunidade a Ryan Gauld, porque vejo nele um jogador capaz de dar geometria e dinâmica (fazendo a bola correr) ao jogo.

A minha opção: Wendel, Miguel Luís, Ryan Gauld

 

Médio de ataque - Fica Bruno é o sentimento na cabeça da esmagadora maioria dos adeptos. Alguns, poucos, vêm numa potencial venda uma oportunidade de sanear as finanças. Bruno tem 3 valências (pelo menos) a considerar: é o criativo da equipa, pode facilmente jogar a "8" e é o capitão por todos respeitado, conseguindo congregar à sua volta todo o plantel. A sua inteligência não é apenas demonstrada no campo, também fora dele dá cartas, parecendo sempre saber o que dizer e quando fazê-lo, não se coibindo de distribuir os louros por todos os colegas. Não o venderia e compraria Vlap, um jogador que transformaria facilmente o 4-3-3 num 4-4-2. Se Bruno sair, ficaria com Geraldes (por mim, ficaria sempre, mas Keizer não o utiliza, pelo que...). O ucraniano Malinovskyi, de quem se tem falado, é um jogador diferente do holandês aqui referido. Enquanto um procura mais as combinações para finalizar vindo de trás (Vlap), o outro é mais um organizador de jogo e tem no remate de meia distância (bola parada incluída) a sua principal virtude. Mas Ruslan Malivovskyi, actualmente no Genk, que marcou 16 golos e fez 16 assistências no campeão belga, já tem 26 anos, o que para um médio já reduz um pouco o seu valor de mercado numa futura venda (guarda-redes, centrais e pontas de lança mantêm mais o valor).

A minha opção: Bruno Fernandes (Francisco Geraldes) e Michel Vlap (holandês, Heerenveen, 21 anos, 17G e 6A em 18/19, 4M€ Transfermarket) 

 

Ala Direita - Raphinha ficou um pouco aquém das expectativas iniciais, nomeadamente mostrando dificuldades no 1x1. Mas é um jogador muito rápido, que cruza bem, tem golo e se mostra comprometido com a equipa. Mudá-lo-ia de flanco e daria uma oportunidade a Mama Baldé (pé direito). Faria regressar Matheus Pereira (pé esquerdo) para completar o leque de alas e manteria Jovane.

A minha opção: Mama Baldé (regresso de empréstimo), Matheus Pereira (regresso de empréstimo), Jovane   

 

Ala Esquerda - Raphinha continuaria, Diaby seria vendido. Contrataria mais alguém que adicionasse inequivocamente qualidade à equipa. A minha escolha seria Younes, um ala que joga preferencialmente com o pé direito, mas que se posiciona sobre a esquerda partindo em diagonais. Nas movimentações faz lembrar Nolito, mas possui mais recursos técnicos.

A minha opção: Raphinha e Amin Younes (alemão, 25 anos, ex-Ajax, Nápoles, 5M€ Transfermarket)

 

Ponta de Lança - O Sporting precisa de fazer algum dinheiro e admitiria vender Bas Dost caso surgisse alguma proposta à volta de 20M€. Manteria Luíz Phellype, teria Vietto e Gelson Dala como opções contrastantes (mais móveis, velozes e técnicos) e contrataria um outro ponta de lança que combinasse ambas as características.

A minha opção: Luíz Phellype, Gelson Dala, Vietto, Mbwana Samatta (tanzaniano, Genk, 26 anos, 9M€ Transfermarket) 

 

Vendas: Ilori, Misic, Diaby, Bas Dost, Bruno Gaspar, Jefferson, André Pinto, Mattheus Oliveira, Jonathan, Lumor, Iuri Medeiros, Borja (se surgir uma boa oferta), entre outros, com a expectativa de fazer um mínimo de 40M€ (+poupança de 8M€ em ordenados anuais) 

Dispensas: Petrovic e Gudelj (poupança conjunta de 5M€/ano)

Empréstimos: Ivanildo (fica, se Borja sair), Palhinha (tem +1 ano de contrato com o Braga), Alan Ruiz (ninguém nos vai dar nem perto do que pagámos por ele), Daniel Bragança.

 

Nº de jogadores da Formação: 8

Nº de jogadores até aos 23 anos: 14 (metade do plantel)

 

Conclusão: total de vendas de 40M€ e poupança anual em salários de 13M€, a que há que adicionar o global do negócio Gelson (15M€, admitindo que não há comissões), teriam um impacto positivo nos Resultados de 68M€, 53M€ dos quais já no exercício de 2019/20. As compras aqui sugeridas, no valor de 20M€, mais os ordenados desses jogadores (vamos admitir que seriam de 6M€), teriam um impacto negativo no mesmo período de cerca de 10M€ (as compras entram como amortização anual do valor e, para o efeito, admite-se contratos de 5 anos), o que daria um resultado Liquido nestas operações de 43M€.

 

P.S. Dos jogadores do actual plantel, em termos significativos há apenas que considerar a subida de ordenado de Bruno Fernandes (admitindo que fica). O meu pressuposto principal é que há 3 jogadores insubstituíveis, pelo seu patamar de qualidade: Bruno, Mathieu e Acuña. Se Younes chegasse, então teríamos um quarto jogador garantido a esse nível, havendo ainda a esperança que Raphinha, Wendel ou Matheus Pereira (jogadores ainda bastante jovens) venham a elevar as suas exibições para um nível de excelência. O plantel teria 28 jogadores.

 

Tem a palavra o Leitor...

 

Disclaimer: não tenho, obviamente, qualquer interesse económico nos jogadores referenciados, com quem aliás nunca falei e não conheço pessoalmente."

08
Ago19

O amor é... por Rui Monteiro(*)


Pedro Azevedo

Há um Sporting que reside dentro de cada um. O último bastião do sportinguismo são as nossas memórias individuais. Elas são intemporais, incorruptíveis, inalienáveis. É a elas que recorro frequentemente perante conjunturas adversas, nomeadamente ao tempo em que era menino e como menino que era não tinha filtros nem preconceitos e absorvia como uma esponja tudo o que dissesse respeito ao Sporting que para mim era relevante: aquele que entrava em campo aos Domingos, não o dos gabinetes. Foi a pensar nessas memórias (e não na conjuntura) que pedi a autores consagrados da blogosfera que escrevessem sobre o seu Sporting.

 

Hoje apresento o Rui Monteiro. Bom, na verdade o Rui dispensa apresentações, o seu estilo irónico é inconfundível. Ler os seus textos é um renovado prazer. Neles coabitam erudição, inteligência, independência, humor e um sentido de responsabilidade ilustrativo da integridade do autor. Sem mais delongas, aqui fica o texto que o Rui escreveu por amor ao nosso clube:

 

"[O Pedro Azevedo fez a maldade de me pedir um pequeno texto a propósito do Sporting e de uma iniciativa em torno do tema genérico "o amor é...". Os homens não choram, foi assim que o meu pai me ensinou, como tantos outros pais na minha geração. Cada um constrói a carapaça que pode e faz das tripas coração para assim viver a sua vida. Pratico com gosto a ironia, a roçar o cinismo. Não consigo encontrar boa razão para escrever este texto, mas se o Pedro Azevedo mo pede é porque a encontrará seguramente. Tentemos por essa razão.]  

Decorei uma parte da lírica camoniana. Ficou-me de infância e da adolescência e nunca me saiu da cabeça. É como a letra numa qualquer língua estrangeira de uma música que nos parece fazer sentido sem que percebamos exatamente porquê. Ouvimos e vão-se (re)construindo imagens e memórias. “O amor é”, pois é! Que é, é, mas não sabemos o quê. É fogo que arde sem se ver ou uma outra forma de dizer que se define pela sua simples existência. Também é presente do indicativo. Reconhecemo-lo e, quando o reconhecemos, logo passou. O amor é e basta.

Não sei porque sou do Sporting. Admito que por influência do Zé, um miúdo pouco mais velho que morava em minha casa, pois os pais trabalhavam na Guiné. É possível também que seja por oposição ao meu pai, que era portista, ou por assim conseguir lugar nos dérbis que todos os dias jogávamos na escola, em Viseu. As minhas primeiras memórias sportinguistas remontam a 1974, ao jogo da segunda mão da meia-final da Taça das Taças, contra o Magdeburgo, que perdemos por dois a um e assim não passámos à final, e ao da final da Taça de Portugal, contra o Benfica, que ganhámos por dois a um. São memórias que vão de 24 de abril a 9 de junho. O país mudou entretanto e passou-se do antes ao depois do adeus, enquanto fazia dez anos e era aprovado na prova oral do exame da quarta classe, realizando-a um dia antes do previsto e sem vestir os calções que a minha mãe se tinha esmerado a confecionar para esse cerimonial de papagueado conhecimento.

Lisboa era longe, muito longe. O Estádio de Alvalade e o Sporting eram duas entidades distantes. O sportinguismo era uma paixão ficcionada. Alimentava-se de resultados, relatos, cromos e cadernetas e, uma ou outra vez, de jogos na televisão. Fui a Lisboa pela primeira vez para me inscrever no Instituto Superior de Agronomia, onde estudei. Nos primeiros anos, morei em Algés, em Belém e na Ajuda; nos últimos, na Estrada do Desvio, no Lumiar. Apanhava o 36 da Carris para o Campo Pequeno, onde o 56 me levava à Praça do Calvário, percorrendo o resto do caminho a pé até à Tapada da Ajuda. Passava todos os dias pelo Estádio de Alvalade. Vi o pavilhão e passei a ver metade, quando foi parcialmente demolido no início das obras de prolongamento do Metro de Lisboa para o Campo Grande. Via também o pelado, onde muito raramente a equipa principal treinava. Um dia, por impulso, saí do 36 para ver os jogadores treinar. Lembro-me do Duílio como se estivesse há minha frente. Quem vê um bigode como o dele nunca mais o esquece. Ou porque morava longe ou porque não tinha dinheiro, vi jogar o Sporting intermitentemente. Estive à porta do Estádio de Alvalade para comprar bilhete para o jogo contra o Benfica que ganhámos por sete a um. Hesitei e acabei por não comprar: tinha dinheiro ou para viver na semana seguinte ou para ver o jogo. Arrependo-me, hoje mais do que nesse domingo!

[Ainda não cheguei a meio da minha vida e o texto está razoavelmente chato e comprido. Abreviemos pois.] Em 2017, a minha filha, Ana, foi estudar no segundo semestre para a Universidade de San Andrés, em Buenos Aires. Viajou com antecedência para passar uma temporada no Rio de Janeiro. Quando acabou os exames, continuou as viagens que tinha iniciado durante o semestre na América do Sul e, depois do Chile e do Uruguai, andou também pela Colômbia e pelo Perú. Regressou a meio de Agosto e foi para o Festival de Paredes de Coura, enquanto iniciávamos um período de férias, em Troia. Havia meses que não chalaçávamos como deve ser (expressão a que damos um sentido muito próprio, muito nosso). Combinámos ir buscá-la e ao meu sobrinho João, um fanático portista, a Lisboa para passarem o resto das férias connosco, aproveitando a oportunidade para ir ao Estádio de Alvalade ver o Sporting contra o Estoril, o primeiro jogo da época em casa. A Ana não aprecia futebol e é do Sporting porque tem de ser de alguma coisa, mas era uma excelente oportunidade para revivermos a final da Supertaça de 2002, jogada no Estádio do Bonfim, quando ela e o João eram muito pequenos. 

Ao princípio, era uma festa: “O Mundo Sabe Que”; o Acuña a cruzar para o Gelson Martins empurrar a bola ao segundo poste para o primeiro golo; o Bruno Fernandes a fazer a bola sobrevoar a barreira e a marcar o segundo golo. Depois, bem, depois o jogo encanzinou-se, como era o costume do embaralhado tático que o Jorge Jesus nos servia, e pouco a pouco o difícil tornou-se impossível e o fácil em difícil. O Estoril começou a parecer o Real Madrid e, a meio da segunda parte, reduziu para dois a um. Dentro de campo e no estádio houve mosquitos por cordas. No último minuto, na última jogada, o Estoril marcou o segundo golo. O João petrificou e o olhar da Ana revelava uma profunda tristeza; não por ela, não pelo Sporting, mas por mim. A triste ternura daquele olhar encerrava a razão de ser, o sentido, de uma vida, da minha vida. 

O amor autodefine-se, autorreferencia-se. Não é branco nem preto, não é carne nem peixe, não é homem nem mulher. Não é substantivo. Necessita de objeto mas para a sua simples projeção em nós. É e logo se esvanece, persistindo as suas memórias. O Sporting não é o nosso amor, é as nossas memórias (partilhadas) e, para além de nós, mais ninguém é dono delas, seja este ou aquele dirigente, jogador, treinador ou grupo de adeptos e sócios. Nós somos as nossas memórias e, por isso, o Sporting somos nós, todos e cada um.  

[A história tem um final feliz. O vídeo-árbitro assinalou fora-de-jogo e anulou o golo do Estoril. Fomos jantar ao Mercado do Cais do Sodré. Em seguida, demos uma volta por aqui e por ali até nos depararmos com o Jamaica e o Tokyo, meus lugares de culto e de iniciação. Falei-lhes pela enésima vez dos clássicos, como The Doors, The Rolling Stones ou Lou Reed e Velvet Underground, e dos contemporâneos que se transformaram em clássicos para as gerações seguintes, como Dexys Midnight Runners, U2, REM ou The Smiths. Regressámos, tarde, a Troia. O João e a Ana adormeceram, tranquilos. Coloquei o CD Dark Was The Night para ouvir So Far Around The Bend, dos The Nationals, e a voz melancólica de Matt Berninger cantando: “Nobody knows where you are living/Nobody knows where you are/You're so far around the bend/You're so far around the bend/There is no leaving New York/There is no leaving New York”. Não sei o sentido que esta letra tem para quem a escreveu. Para mim, lembra-me inúmeras viagens com a Ana e uma mensagem dela: “Pai, estou num bar a ouvir So Far Around The Bend!”]" 

 

(*) Rui Monteiro, autor de "A insustentável leveza de Liedson"

07
Ago19

Comprar tempo


Pedro Azevedo

Um gestor compra essencialmente tempo. Num momento inicial, surge o esboço de uma ideia. Uma espécie de esquisso que se vai desenvolvendo até se transformar no corpo de uma estratégia. De seguida, há que tratar da sua implementação. Este período que medeia entre a criação do conceito e sua passagem a produção exige ao gestor persuasão. Ele deve ser capaz de transmitir aos que o rodeiam o que vai fazer e como. Mais importante ainda, ele deve saber explicar a razão pela qual um determinado caminho deve ser seguido. Como já disse anteriormente, o porquê das coisas é o que gera um elo emocional com as pessoas. 

 

Frederico Varandas não herdeu uma situação fácil. Mas está a torná-la bem mais difícil ao não ser capaz de esclarecer a sócios e adeptos a razão por que estamos a seguir numa determinada direcção. É que não basta dizer que a Formação não é boa: um caminho de cabras às vezes é a única forma de se chegar a um determinado destino, e saber-se que o caminho é acidentado não me garante imediatamente uma alternativa melhor. Assim, para além da dificuldade em transmitir as suas razões, produto de uma Comunicação absolutamente desastrada, o actual presidente enfrenta também legítimas dúvidas sobre aquilo que se vai perspectivando nas entrelinhas ser a sua estratégia. 

 

A precisar de comprar tempo, a necessitar de ganhar paz, dir-se-ia que o presidente leonino, líder de uma enorme instituição em recobro de um recente traumatismo, não investiu (como deveria) o suficiente na esgrima dos seus argumentos, situação que cria perplexidade pois tende a sugerir que pretende receber um cheque em branco. É isso aliás que se infere quando pede às pessoas que não fiquem preocupadas, na medida em que ele também não o está, como se isso fosse garantia de alguma coisa. (Mais do que as palavras, os actos é que podem tranquilizar as pessoas.) 

 

Quem olha para as contas do Sporting com olhos de ver, interpreta a estratégia desportiva que está a ser perseguida e entende as assimetrias que estão a ser criadas no futebol português tem toda a razão para estar preocupado. De facto, só um lunático não o estaria e eu não creio que Frederico Varandas viva no mundo da lua. Será por isso necessário Varandas começar a descer à Terra (terra?) e entender que as convicções só fazem sentido até à realidade chocar com elas de frente. Nesses momentos, há que controlar os danos, engolir o orgulho e mudar de vida, que é como quem diz mudar de rumo. 

 

 

06
Ago19

Dala dala dala dala dala dala dou, papagaio voa


Pedro Azevedo

"Preso por um fio que se desenrola
velho papagaio de papel e cola
Quando lança ao ar parece que tem mola
sempre a pedir para subir

Voa papagaio esquece a minha idade
puxa pelo fio da minha vontade
Faz por encontrar os rumos da verdade
que eu farei por te seguir

 

Dala dala dala dala dala dala dou, papagaio voa

Dala dala dala dala dala dala dou, papagaio voa

Dala dala dala dala dala dala dou, papagaio voa" - adaptação livre de Da li dou, dos Gemini

 

 

Gelson Dala foi emprestado ao Antuérpia, de Lazlo Boloni, por uma temporada. Segundo a imprensa, existe no contrato com os belgas uma cláusula de opção de compra de montante não revelado. 

 

Não entendo este tipo de decisões. A forma como se menospreza um jogador proveniente da áfrica portuguesa e se dá todas as oportunidades a um Diaby (que Keizer em entrevista anteviu poder substituir Bruno Fernandes) originário do áfrica francesa demonstra um certo provincianismo. A idade, salário, capacidade técnica, ligação de jogo e relação com o golo são tudo aspectos que favoreceriam a permanência de Gelson Dala em detrimento da do maliano. Acontece ter sido o angolano cedido (e entretanto chegou o "sonho" Vietto). Mais uma decisão, à semelhança do ocorrido com Demiral, que se pode tornar irreversível. Para além disso, os dados disponíveis da transferência uma vez mais apontam para falta de transparência, na medida em que teremos de esperar por um Report do Mercado de Verão (haverá?) ou pelo Relatório e Contas (continuará a ser trimestral ou adoptaremos o requisito semestral definido pela CMVM?) para saber mais. (No pior dos cenários só lá para Fevereiro de 2020 teremos informação detalhada sobre esta operação.)

 

O meu maior receio é que estejamos a tornar inviável o futuro. A alienação de vários jogadores provenientes da nossa Formação (Dala completou-a connosco), associada à compra recorrente de atletas (11 desde Janeiro deste ano), impedirá o regresso da rúbrica "amortizações" a um valor sustentável e dificultará os necessários cortes no Custo com Pessoal. (A massa salarial que pesa reside em jogadores que não estamos a conseguir colocar.) O défice operacional (e de tesouraria) continuará a produzir erosão, como tal seremos forçados a ir vendendo, um a um, os nossos principais jogadores. Não havendo sempre disponível um Bruno Fernandes para cobrir o "gap", com elevada probabilidade mais receitas futuras da NOS serão antecipadas. Um dia, o mandato desta Direcção chegará ao fim. Nesse momento haverá eleições. Qual será a herança que então se receberá? Que opções terá uma futura Direcção para além de uma indesejada (por mim) venda da SAD? Matéria para reflexão...

dalaecompanhia.jpg

05
Ago19

Tudo ao molho e fé em Deus - Crónica de uma derrota anunciada


Pedro Azevedo

Acabado de chegar do Estádio do Algarve, sinto que esta crónica deverá ser uma não crónica. Pelo menos, do tipo a que habituei os Leitores. Perguntar-me-ão o porquê. E eu respondo: no meu entendimento, o sentido de uma crítica deve ser ajudar a evitar algo de negativo que se antevê, de forma a que, mudando o que não está bem, os receios do seu emissor não se venham a concretizar de facto. Por isso, temendo o pior, nunca me coíbi de fundamentar aquilo que não me parecia bem, na esperança de poder despertar consciências em quem tem responsabilidades no clube. Depois de uma debacle como a sofrida esta noite, a crítica já não me parece ter um objectivo, na medida em que não poderá alterar nada e apenas servirá para expôr um determinado estado de alma, ou satisfazer uma vaidade individual. Ora, eu já disse aqui inúmeras vezes que preferirei sempre não ter razão e ela assistir ao meu clube, pelo que não será por isso que usarei este espaço usualmente satírico para achincalhar o clube da minha paixão.

 

Sejamos francos, o Sporting não perdeu esta noite devido ao sistema de 3 centrais que eu tinha antecipado aqui no "Castigo Máximo" poder ser a surpresa de Keizer. Pelo contrário, tal até baralhou o Benfica durante bastante tempo na primeira parte. O Sporting perdeu, porque o Benfica tem melhores jogadores, atletas com a qualidade-extra do meio campo para a frente que a nós nos falta (com a honrosa excepção de Bruno Fernandes). Por isso aqui tanto batalhei para que não se comprasse em quantidade e se apostasse na qualidade, nomeadamente procurando no mercado um ponta-de-lança com mobilidade, técnica para ligar o jogo da equipa e poder de concretização na área. É de jogadores com a capacidade de fazer a diferença que estamos necessitados, e por eles toda uma outra estratégia deveria ter sido implementada, apostando em jovens da nossa Academia como as tais segundas linhas para compôr o plantel em detrimento dos reforços(?) que fomos buscar ao mercado, de forma a conseguirmos manter os nossos melhores jogadores e poder acrescentar-lhes mais um elo vindo de fora que ajudasse a engrenagem a funcionar de forma mais oleada. Infelizmente, não foi isso que aconteceu. 

 

Onde eu questiono Keizer é no valor relativo que vê em jogadores como Diaby em detrimento de um Matheus Pereira ou de um Jovane (esta noite indisponível por lesão), exemplo de um exponencial de situações em que a nossa Formação é deixada para trás em função da integração de elementos que ninguém percebe muito bem como despertaram o interesse do nosso Scouting. O caso do maliano é disso sintomático, na medida em que se torna insuportável para a vista observar alguém vestido de verde e branco e com o leão rampante ao peito a abusar assim tanto da canela, facto que nem para a Fábrica dos Pastéis de Belém o aconselharia. Também me interrogo como é possível não se vêr evolução em Raphinha, um promissor jogador que continua a definir muito mal as jogadas. Estas coisas não são trabalhadas? O brasileiro esteve umas vinte vezes em situação 1x1 contra defesas do Benfica e em todas decidiu com pouco critério. Ora, quando do outro lado temos um Rafa, ou um Pizzi, com uma taxa de aproveitamento desse tipo de lances muito boa, o nosso destino está lançado.

 

Uma última menção a algo que eu havia aqui dito no Sábado: a Direcção do Sporting deveria ter reagido publicamente na sequência das notícias que davam conta do pedido alegadamente formulado por Bruno Fernandes para sair. Se o tivesse feito, Bruno e o grupo teriam sido defendidos e o foco no jogo mantido. Mais, não me parece bem que na ante-véspera de um jogo de capital importância, um momento que deveria ser de total concentração, a Direcção do clube aceite encontrar-se com emissários do Tottenham, o empresário do jogador e o próprio Bruno Fernandes que é bom não esquecer ainda é o capitão da equipa. Esse assunto deveria ter sido adiado para data posterior à Supertaça, evitando-se assim um foco de tensão para o jogador, balneário, sócios e adeptos, os quais deveriam sim estar todos agregados à volta da necessidade de vencer o Benfica. 

 

Nada mais tenho a dizer numa ocasião em que a frustração é muito grande e o sentimento de impotência ainda maior. Resta-me a confiança inabalável na melhor massa associativa do mundo, a única em Portugal capaz de permanecer resiliente perante seja qual for a adversidade, e a certeza que o Sporting se irá reerguer como o enorme clube que é. Aliás, derrotas destas não me fazem ser menos sportinguista, bem pelo contrário. É nestes momentos que gosto de tirar a camisola verde e branca do armário e mostrá-la sem vergonha, com todo o orgulho numa história feita de glória. Sim, porque nunca fui pessoa de esconder a cabeça na areia como a avestruz. Em todos os momentos. Tal como o Sporting. O Sporting, não o A, o B ou o C, a razão disto tudo. Amanhã será outro dia.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Idrissa Doumbia e Thierry Correia, os únicos a merecerem nota positiva. Renan evitou números mais pesados, Wendel perdeu o gás todo contra o vento, Mathieu (grande jogador) cometeu um erro de amador, Acuña provou ainda não estar em condições físicas, Bruno esteve nervoso e decidiu anormalmente mal, dos outros é melhor nem falar.

 

P.S. Ah, e quanto à super aposta na Formação em que alguns acreditam, cumpre dizer o seguinte: no início eram 15. Depois, Iuri não foi para estágio. E lá foram caindo, um após outro, de modo que nos 18 escalados para a Supertaça estavam dois, apenas dois (Thierry e Max). Alguns desaparecidos em combate, como Abdu Conté, após ter sido encarregado da missão suicida de ter de enfrentar sistematicamente dois adversários perante a complacência do recém-recruta Vietto, outros como Matheus Pereira desterrados para zonas densamente minadas. Ou é impressão minha, ou este enredo da Formação está cada vez mais parecido com ‘Os doze indomáveis patifes’. 

04
Ago19

Os jogos da minha vida (IV)


Pedro Azevedo

01.06.1980  Sporting - UD Leiria 3-0

 

A nossa equipa: Fidalgo (Vaz, aos 80 min.); José Eduardo, Eurico, Bastos e Barão; Meneses, Ademar e Fraguito; Manoel, Manuel Fernandes e Jordão. 

 

As imagens que retenho são as de um estádio cheio como nunca (ainda com o antigo peão), um ror de gente na recém-inaugurada pista de tartan (substituiu a de cinza) circundante ao relvado, um cordão policial a impedir que os adeptos ultrapassassem as linhas laterais, o golo de Manuel Fernandes que inaugurou o marcador e o mar verde-e-branco que engoliu Jordão após o terceiro golo. Lembro-me também que o Leiria tinha dois Dinis, o mais velho dos quais o "brinca-na-area", nossa antiga glória já em final de carreira. Recordo-me também da festa, a primeira que vivi "in-loco", da invasão de campo por adeptos eufóricos após o apito final, do ar de satisfação de meu pai e do alívio que senti pela concretização de algo que já se perspectivava no regresso daquela minha viagem no Comboio Verde a Guimarães.

 

Como demorara a passar essa semana. No fim de semana anterior, tinha ido com o meu pai à Cidade Berço. Estava atrás da baliza onde o Manaca fez o auto-golo, acto perfeitamente involuntário e cobardemente aproveitado pelo nosso adversário de ocasião. Na verdade, o nosso antigo jogador saltara entre dois leões e para sua desventura vira a bola tocar-lhe (creio que) na nuca e surpreendentemente anichar-se nas redes vimaranenses. Mas esse não foi o únco facto insólito desse jogo: a poucos minutos do fim, Fidalgo fez uma defesa "impossível", estirando-se para a sua esquerda e assim defendendo um remate com selo de golo do ex-leão Vítor Manuel, perdendo posteriormente os sentidos ao embater no poste e acabando o jogo com a cabeça toda entrapada. Ainda hoje estou convencido que esse momento de bravura do nosso guarda-redes garantiu-nos o campeonato. No comboio, de regresso a casa, recordo ainda o susto em Campanhã, com as carruagens a serem atacadas com pedras de calçada vindas da gare onde se encontravam adeptos portistas, uma forma singular de ver o desporto por parte de adeptos fanáticos que ainda hoje infelizmente pululam um pouco por todos os clubes.

 

Uma semana depois, éramos campeões! Um título que nunca esquecerei, porque teve um sabor especial. Comigo já neste mundo, o Sporting havia ganho o campeonato de 1970, façanha de que não guardo qualquer memória. Já do de 74 eu tenho uma recordação, mas para mim foi um campeonato radiofónico. Assim, o de 80 foi o "meu" campeonato, aquele que acompanhei nos estádios, em que vivi a gesta daquela dupla jornada final e pude sentir de perto as esperanças e ansiedades dos nossos adeptos até à consagração final.

 

Em 1980, o Sporting não tinha o melhor conjunto de jogadores. É certo que Manuel Fernandes e Jordão eram excelentes, Eurico um patrão na defesa e Fraguito um mago do passe, mas globalmente a qualidade do plantel era inferior à dos nosso rivais. Só que no final ganhámos nós, mérito certamente também dos treinadores Fernando Mendes e Rodrigues Dias (entretanto substituído) e do preparador físico Radisic. Não sei se isto poderá servir como motivação ou exemplo para um grupo - eu gostaria que sim - , mas se há ocasiões em que o todo é muito superior à soma das partes, então a gloriosa campanha de 80 é uma delas, provando que com esforço, dedicação e devoção não há impossíveis. Que hoje, no Algarve, a nossa equipa ponha os olhos nisto!

03
Ago19

A Comunicação à volta de Bruno


Pedro Azevedo

Os jornais publicam hoje notícias dando conta que na Sexta-Feira, numa reunião em que alegadamente esteve presente conjuntamente com o seu empresário e a Estrutura leonina, Bruno Fernandes terá pedido para "não lhe cortarem as pernas". Não sei quem plantou tal notícia, se o empresário a fim de forçar a saída do seu representado, se o clube como forma de justificar aos seus sócios e adeptos a saída do seu melhor jogador, o que me parece claro é que mais uma vez o Sporting é que fica a perder, essencialmente por duas razões: primeiro, os putativos compradores saberão jogar com a pressão alegadamente exercida por Bruno, não oferecendo o valor justo pelo atleta; segundo, a 24 horas de um jogo importante para a Supertaça, este tipo de notícia assume um carácter desagregador e retira foco. Eu não sei o que a Comunicação do Sporting planeia fazer acerca disto, o que me parece óbvio é que devia dizer algo, por um lado para que o clube não dê parte de fraco perante o mercado, por outro a fim de salvaguardar Bruno Fernandes, o capitão da equipa, perante os colegas do balneário, sócios e adeptos, ele que até hoje tem sido digno de grande estima e consideração pela sua postura profissional irrepreensível.  

02
Ago19

A diferença entre valor e preço


Pedro Azevedo

Anda por aí muito boa gente que diz que o valor de um atleta é o preço que alguém paga por ele. Nada mais errado, pois se assim fosse, e meramente à laia de exemplo, os mercados financeiros não oscilariam diariamente na ausência de novas notícias ou indicadores de desempenho, porque estariam sempre certos. Se forem falar com lendários investidores como Warren Buffet ou Bill Miller (Legg Mason), este último mais desconhecido para o grande público mas sobejamente identificado nos mercados financeiros como alguém que bateu o desempenho do S&P500 (índice de acções americano) durante 15 anos consecutivos, eles dir-vos-ão isso. Por exemplo, o preço de uma garrafa de água é algo conhecido em média e varia com um desvio-padrão relativamente curto. Mas qual será o valor de uma garrafa de água no deserto durante um dia de tórrido calor? O valor tem a ver com o rendimento que aquele activo tem para nós (dividendo, se estivermos a falar em acções; desempenho desportivo, no futebol; sobrevivência, no caso da garrafa de água), o seu potencial de crescimento, a qualidade intrínseca ao seu desempenho e o custo de oportunidade da sua substituição.  

 

Por isso, os investidores em "valor" compram activos quando a sua avaliação dos mesmos é superior ao preço de mercado e vendem-nos quando ocorre o contrário, porque têm a consciência que os mercados tão depressa reagem exageradamente como também subestimam determinados activos, essencialmente devido a decisões emotivas e altamente especulativas. Não esquecer também que, no caso do futebol, o activo jogador está relacionado com o activo clube, no sentido do desempenho deste último, da sua visibilidade nos grandes palcos, da sua performance económico/financeiro, sua relação com empresários e política a este respeito, entre outros parâmetros de análise. Chegados aqui, o que importa à Administração da SAD do Sporting reter é se o valor do atleta Bruno Fernandes para eles é superior ou não ao preço que o mercado está disposto a pagar por ele. E, se o for, tomar a decisão de naturalmente não o vender. Havendo a consciência que a diferença de preço entre, por exemplo, João Felix e Bruno Fernandes, poderá pouco ter a ver com o valor intrínseco de cada um e dentro de algum tempo poderá inverter-se. Se dúvidas houver, atente-se na transferência de Renato Sanches para o Bayern, a qual com objectivos ascendia a cerca de 60 milhões de euros. Qual será hoje o preço do "bulo"? O mesmo é válido para João Mário.

02
Ago19

Nani e o Sporting


Pedro Azevedo

Nani, que aqui no passado defendi com unhas (garras de leão?) e dentes, deu uma entrevista que foi hoje à estampa no jornal "A Bola". Tendo aproveitado a oportunidade para mais uma vez fazer vincar o seu sportinguismo ("só há um clube onde me sinto em casa"), facto que não é de mais realçar e que terá agradado a todos os adeptos, pecou no entanto quando afirmou que "uma das falhas dos últimos anos é que, internamente, muitas pessoas que trabalham no Sporting são o problema do Sporting". E fê-lo, na minha opinião, por duas razões essenciais: a primeira, tendo ele estado dentro e agora estando fora, o não ter concretizado a quem se referia, dando apenas uma pista mínima e praticamente indecifrável, à Octávio Machado (disse os "últimos anos" e não simplesmente "o último ano", período em que mais recentemente trabalhou no Sporting); a segunda, o timing da referida entrevista, a poucos dias da final da Supertaça, dando a entender a sócios e adeptos que nem todos correm para o mesmo lado dentro do Sporting (de notar que não mencionou nunca quem está de fora).  

02
Ago19

Os jogos da minha vida (III)


Pedro Azevedo

07.09.1988  Sporting - Ajax 4-2

 

A nossa equipa: Rodolfo Rodriguez; João Luiz, Venâncio, Morato e Fernando Mendes; Oceano, Carlos Manuel e Litos; Silas, Paulinho Cascavel (Rui Maside, aos 58 min.) e Forbs (Carlos Xavier, aos 82 min.).

 

A Holanda acabara de se sagrar campeã europeia. Nessa equipa, o Ajax tinha 4 elementos: o dúo Arnold Muhren/ Jan Wouters, títulares no miolo da Laranja Mecânica no Euro-88, o médio Aron Winter e o ala John Van`t Schip. Para além destes, os lanceiros tinham como destaque o guarda-redes Stanley Menzo - precursor no futebol mundial da ideia do guardião como líbero - , o defesa Frank Verlaat, os irmãos Witschge (Rob e Richard), o ponta de lança sueco Stefan Pettersson (eleito melhor jogador sueco em 87) e o craque que despontava, o genial Dennis Bergkamp.

 

Em contraposição, no Sporting vivia-se o período das "unhas". Jorge Gonçalves ascendera à presidência e com ele trouxera o guarda-redes uruguaio Rodolfo Rodriguez, os brasileiros Douglas, Silas e Ricardo Rocha, o sueco Eskilsson e o português Carlos Manuel, o "herói de Estugarda". O treinador era o também uruguaio Pedro Rocha, um dos melhores jogadores de sempre da selecção celeste. o único que disputou 4 fases finais de campeonatos do mundo.

 

Vivia-se um tempo novo em Alvalade. Após uma presidência marcante de João Rocha, o seu vice, e sucessor, Amado de Freitas pouco tempo estivera no cargo. Seguiu-se-lhe Jorge Gonçalves, o "bigodes", e com ele uma onda de euforia que viria rapidamente a desfazer-se por entre um mar de problemas financeiros. Mas, à data deste jogo, o ambiente ainda era de esperança e entusiasmo...

 

Sporting e Ajax defrontavam-se pela primeira vez na sua história, em jogo a contar para a 1ª mão da primeira eliminatória da Taça UEFA. Para mim, uma ocasião especial, pois iria ver ao vivo uma equipa cujas camisolas míticas e escola de futebol total me impressionavam desde a década anterior, quando Krol, Haan, Neeskens, Piet Keizer (tio do nosso actual treinador), Rep e Cruijff brilhavam a grande altura. Logo de início, uma tabelinha entre Oceano e Silas permitiria ao primeiro inaugurar o marcador. Pouco tempo depois, Pettersson igualava, de cabeça. Novo ataque do Sporting e Forbs é derrubado na área. Na conversão da penalidade, Paulinho Cascavel volta a dar vantagem ao Sporting, no clássico guarda-redes para um lado, bola para o outro. Ainda antes da meia-hora, insistência de Silas pela direita, passe para João Luiz, e do cruzamento deste, deflectido pelas pernas de Verlaat, resultaria novo golo dos leões. Em cima do intervalo, José Manuel Forbs, completamente isolado na área, perde a oportunidade de dilatar o activo. No reatamento, Oceano desperdiça nova chance de golo. Até que Silas, isolado por Carlos Manuel, cava um penalty no frente-a-frente com Menzo. Na sequência, Litos amplia o resultado. Perto do fim, o sueco Pettersson bisaria na partida, devolvendo a esperança aos holandeses de virarem a eliminatória, algo que não se viria a confirmar, pois os leões, com mais uma exibição portentosa de Silas, ganhariam de novo em Amesterdão (2-1). 

 

O Sporting derrotava assim o vencedor da Taça das Taças de 1987, uma equipa que perdera Frank Rijkaard e Marco Van Basten mas onde a sua fábrica de talentos já produzira novos craques como Rob Witschge (mais tarde no Barcelona) e Bergkamp (Arsenal), que agora apareciam nos grandes palcos. Para além disso, contava com inúmeros internacionais holandeses, muitos deles presentes no Verão anterior na Alemanha, onde a Holanda conseguiu a única (até hoje) importante conquista do seu futebol a nível de selecções. Por tudo isto, a vitória do Sporting neste jogo (e na eliminatória) revestiu-se de um carácter histórico, algo que tive a felicidade de presenciar "in-loco" e aqui deixo em testemunho.  

Pág. 2/2

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mensagens

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Siga-nos no Facebook

Castigo Máximo

Comentários recentes

  • Anónimo

    Grato pela sua resposta, JG. Irei ver!SL,Sebastião

  • JG

    Caro Sebastião, passou no "Futebol a Sério" - Temp...

  • Pedro Azevedo

    Foi para mim muito enriquecedor este contacto e te...

  • Pedro Azevedo

    Caro Miguel Ângelo Costa, tive muito gosto em que ...

  • Anónimo

    Caro JG,poderia informar-me sff (se souber, claro)...