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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

Castigo Máximo

29
Nov21

Tudo ao molho e fé em Deus

À margem do Lampionato Nacional


Pedro Azevedo

O Sporting fez mais um jogo para o seu campeonato. Por seu campeonato entenda-se um conjunto de jogos que se amontoam num determinado calendário a duas voltas onde todos os adversários se apresentam com 11 jogadores em campo. Bem sei, uma competição assim poderá ser considerada um pouco exótica para a maioria dos cidadãos deste país que torce por outro clube, mas é o que temos. Já o Benfica concorre numa prova à parte, o Lampionato Nacional. Diga-se de passagem que a coisa é bastante desigual, em forte prejuízo dos encarnados. Senão vejamos: se os doutores da bola afirmam convictamente que jogar contra 10 é mais difícil do que jogar contra 11, imaginem o que será jogar contra 9... E, depois, um a um, para aumentar ainda mais o grau de dificuldade, vão-se retirando jogadores de campo da equipa adversária até que fiquem reduzidos a 6 unidades, o que, como se sabe, torna impossível ao Benfica marcar mais golos e mostrar a sua superioridade. Tal é bastante injusto para os actuais pupilos de Jorge Jesus, mas ao mesmo tempo evoca na nossa memória colectiva as origens do futebol: haverá maior pureza do que uma competição que nos remete para as peladinhas da escola, onde havia guarda-redes avançado e tudo? Pois é, o Benfica pode estar 10 anos à frente da concorrência, mas o Lampionato é o seu contributo para o revivalismo do período da Idade da Pedra do futebol. Esbatendo diferenças e promovendo o equilíbrio, nem que para isso tenha de carregar o terrível "handicap" de começar os jogos com homens a mais em campo. Em nome da verdade desportiva, "what else"?

 

Ainda que participando numa competição diferente, o Sporting recebeu ao final de tarde de ontem o Tondela. Estranhamente, a Liga de Clubes não pugnou pelo adiamento do jogo em virtude dos tondelenses se apresentarem completos pelo que a partida realizou-se mesmo, o que com certeza não deixará de merecer parangonas pouco elogiosas nos principais periódicos internacionais. Até parece que já estou a ver um dos títulos: "Doze indomáveis patifes", estrelando os 11 beirões mais o presidente da Liga, com o Proença a fazer o personagem do Lee Marvin, mas com brilhantina e Restaurador Olex quanto baste (o futebol português, os seus "Restauradores" e os Amigos de Olex). Uma vergonha!

 

Esta coisa de ter 11 em campo complica a vida a qualquer equipa. É que há sempre homens a mais em campo, uns dispostos a tocar na bola de forma inadvertida, outros a não saber sair de cena na altura certa. Por isso vimos um tondelense isolar o Sarabia para o nosso primeiro golo e um outro a pôr em jogo o mesmo espanhol aquando do nosso segundo golo, no momento do passe de ruptura do Matheus Nunes (quão mais jogadores, maior a probabilidade de o adversário não estar em fora de jogo). O resto do jogo até foi entretido, com o antigo cérebro (Ayestaran) por detrás do Quique Flores a mostrar que sabe montar uma equipa de futebol. Mas ontem o Neto parecia ter asas e até o Murillo foi apanhar em excesso de velocidade, pelo que a coisa não passou da ameaça. Para piorar a vida aos beirões, o Paulinho marcou um golo - já não bastava aos tondelenses terem de jogar com onze, ainda levaram com um ponta de lança leonino a cumprir com o seu papel. Enfim, um "nonsense" completo... 

 

Na próxima jornada iremos à Luz. À hora que Vos escrevo ainda não sei se o jogo contará para o Campeonato, Lampionato Nacional, ou até se se disputará. É que tanto poderá cair lã dos céus a dar um toque de Natal como a convocatória da omicron alterar os planos a muita gente. Em todo o caso, a Liga deverá dizer qualquer coisa o quanto antes. Ou não, e continuar em isolamento profilático. É que há precauções higiénicas que devem tomar-se para evitar o contágio no futebol. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Luis Neto

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29
Nov21

O treinador mais impactante do milénio (resultado)


Pedro Azevedo

Terminada a votação dos Leitores de Castigo Máximo para apuramento de "O treinador mais impactante do milénio", os resultados foram:

 

1º José Mourinho (155 pontos)

 

2º Rúben Amorim (126 pontos)

 

3º Jorge Jesus (58 pontos)

 

4º André Villas-Boas (52 pontos)

 

5º Jaime Pacheco (48 pontos)

 

6º Bruno Lage (40 pontos)

 

José Mourinho é assim o vencedor deste inquérito, com Rúben Amorim a conseguir um auspicioso segundo lugar, ele que está ainda na primavera da sua carreira como treinador. De realçar que ambos terminaram a votação destacadíssimos dos restantes.

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28
Nov21

O dia em que o futebol morreu


Pedro Azevedo

O jogo que opôs ontem essa criatura malparida a quem se deu o nome de B SAD e o Benfica remeteu-nos para os bancos de escola e a figura patusca do guarda-redes avançado. Sem uniformidade de número de jogadores em campo, um nove contra onze que acabaria por redundar no seis contra onze que concluiria o tormento (para não dizer farsa) observado no relvado. Ontem, o futebol português morreu. E o palco escolhido para o féretro também não podia ter sido mais apropriado: o Estádio Nacional, ele também já, por outros motivos, tantas vezes apodado de Pântano do Jamor. Seguir-se-á o habitual sacudir de água do capote, desporto nacional de eleição de quem não tem um pingo de sentido de responsabilidade, vergonha e as mínimas condições de organização e liderança. Lá fora, as reações oscilam entre a estupefacção e o escárnio, algo que não deve deixar de indignar quem luta por um país melhor e quer ter orgulho da sua pátria, das suas gentes, e honrar a nossa história. Num país a sério não ficaria pedra sobre pedra no edifício a quem cabe organizar as competições profissionais de clubes e a acção da DGS seria minuciosamente escrutinada. Por cá, ficaremos à espera. Eventualmente serão criadas algumas Comissões, forma ideal de empurrar o assunto para as calendas gregas e o esquecimento. Porém, quem tem vergonha na cara e ama o futebol não poderá nunca esquecer o que ocorreu ontem, o dia em que o futebol português morreu. Mas ressuscitará, porventura, num outro dia, porque a bola, mesmo quando enlameada, não se suja. A bola. 

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26
Nov21

O treinador mais impactante do milénio


Pedro Azevedo

Hoje pergunto aos Leitores de Castigo Máximo o seguinte: quem foi, na Vossa opinião, o treinador mais impactante em Portugal neste milénio? A resposta deve levar em linha de conta as circunstâncias em que cada treinador pegou na sua respectiva equipa e as próprias idiossincrasias de cada clube, para lá da dimensão do êxito em si, obviamente. (Pedindo desde já para cada Leitor cadastrar o seu voto nos 6 treinadores por ordem decrescente, a pontuação será de 10 para o primeiro classificado, 6 para o segundo, 4 para o terceiro, 3 para o quarto, 2 para o quinto e 1 para o sexto - Segunda Feira será anunciado o vencedor.)

 

Os 6 treinadores sujeitos a votação são estes (por ordem cronológica dos seus êxitos):

 

1) Jaime Pacheco (único campeonato nacional da história do Boavista)

 

2) José Mourinho (campeão europeu e vencedor da Liga Europa pelo FC Porto)

 

3) Jorge Jesus (3 campeonatos pelo Benfica)

 

4) André Villas-Boas (vencedor da Liga Europa no FC Porto)

 

5) Bruno Lage (venceu um campeonato dado como perdido apenas cedendo 1 empate)

 

6) Rúben Amorim (herdou uma situação económico/financeira e desportiva trágica e em pouco mais de ano e meio de trabalho levou o Sporting ao tão ansiado título de campeão nacional e à qualificação para a fase a eliminar da Champions)

 

Aguardo a Vossa participação massiva!

25
Nov21

Tudo ao molho e fé em Deus

A alegria do povo


Pedro Azevedo

De Mané Garrincha se dizia ser a "Alegria do Povo". Com o estádio cheio e contra adversários difíceis, Garrincha jogava como se estivesse numa peladinha entre amigos. Nunca acusava a pressão, nem tão pouco temia o circunstancial opositor de um determinado dia. Todos para ele eram "Joões", fossem eles do Flamengo, Fluminense, Vasco, ou da Checoslováquia ou Suécia. Movia-se por puro instinto, e só isso. Todos conheciam a sua finta, mas ninguém o conseguia deter.

 

Penso em Garrincha quando olho para Pedro Gonçalves. Troco apenas o instinto e a arte da revienga de um pela inteligência e assertividade no remate do outro. Quanto ao semi-alheamento comum a ambos, o do Mané tinha mais a ver com a falta de noção enquanto o do Pedro parece propositado e visar melhor enganar o adversário. Partilham porém o facto de ambos serem "cool as a cucumber", imperturbáveis de uma forma quase arrogante, absolutamente confiantes e seguros do seu papel desequilibrador no campo. 

 

Durante meia-hora não se viu o nosso Pote de Ouro no relvado. Mas da primeira vez que se deu por ele foi golo. De uma forma prática, sem adornos desnecessários, a um só toque, sabendo encontrar o espaço ideal para melhor ferir o adversário. Como se de um duende, um leprechaun se tratasse, escondendo-se entre a vegetação (relva) para aparecer de repente, traquino e astuto. Com esse golo, Pedro Gonçalves incendiou um José Alvalade até aí inquieto, possuído pelas dúvidas. É que a forte pressão alemã a meio-campo conseguiu durante muito tempo ofuscar a entrada pressionante dos leões e chegou a temer-se o pior. Mas Coates e Inácio estiveram imperiais na defesa, Matheus e Palhinha correram muito para esbater a inferioridade numérica a meio-campo e o Sporting conseguiu aguentar-se no jogo. Até que apareceu o Pote, uma e outra vez. Da segunda vez a concluir uma brilhante jogada colectiva: Matheus Nunes avançou pela direita, Paulinho amorteceu e deixou para Matheus Reis, este visou a zona de penálti onde Matheus Nunes segurou de costas como um ponta de lança, Sarabia tocou suavemente para a entrada da área e Pote rematou colocado e com uma violência dir-se-ia impossível para um golpe desferido com a parte de dentro do seu pé direito. O Sporting ia para o intervalo com a vantagem ideal que lhe permitia a qualificação imediata para a fase seguinte da Champions. Faltavam, porém, 45 minutos para carimbar essa passagem.

 

Entrámos bem no segundo tempo e uma combinação entre Pote e Sarabia poderia ter dado o terceiro golo não fora o cansaço já evidente do espanhol. Mas acabariam por ser os alemães a cometer o hara-kiri quando Emre Can se fez expulsar por agressão a Porro. Em noite de Pedros, a importância de Porro não se ficaria por aqui, surgindo a recarregar com êxito um penálti desperdiçado por Pote e ganho por Paulinho.  Com o 3-0 e mais um homem no terreno veio uma descompressão que se poderia ter revelado fatal. O jovem Nazinho foi lançado às feras em jogo internacional, os alemães reduziram, a inexperiência nestas andanças veio ao de cima e durante alguns minutos os leões deixaram de trocar a bola com critério, pelo que a ansiedade tomou conta de todos, espectadores incluídos, até ao silvo final do árbitro. Seguiu-se a festa, bem merecida.

 

O Sporting cometeu o feito de se apurar para os oitavos-de-final da Champions, algo que não acontecia desde 2008/09 com Paulo Bento, e o grande arquitecto de tudo isto é o Rúben Amorim. Depois de um início titubeante, quem diria que à quinta jornada já estaríamos apurados? Na vida estanos sempre a aprender, e o Amorim aprende muito depressa. Sagaz, inteligente e de comunicação assertiva, corajoso no lançamento de jovens e providencial na preparação do futuro, Rúben Amorim está na sua cadeira de sonho. Ou melhor, na nossa, porque enquanto ele por cá andar estaremos sempre bem sentados. Sonhando, e dormindo descansados.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pote

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19
Nov21

Tudo ao molho e fé em Deus

Pote 2 na Taça


Pedro Azevedo

O Sporting sentiu muitas dificuldades em contrariar a excelente exibição dos fungos (e, bate na madeira, térmitas) ontem em Alvalade, ao ponto de Jovane ter mesmo literalmente visto o chão a fugir-lhe debaixo dos pés. Dada esta condicionante, e não desvalorizando o Rúben Amorim como extraordinário treinador que é, para vencer em nossa casa talvez fosse mais aconselhável ter no banco a Nancy Botwin (Mary-Louise Parker) do Weeds, uma renomada especialista em erva. Fica a ideia, até porque sempre se poderia aproveitar a coisa para fins medicinais que não envolvessem propriamente entorses e cirurgias aos ligamentos dos joelhos...

 

Para além dos fungos, as fobias também dominaram o jogo. Por exemplo, a fobia de Paulinho em acudir ao primeiro poste, preferindo esconder-se ao segundo na esperança de que um "alien" amigo subitamente fizesse desaparecer toda a equipa da Póvoa da face da Terra e a bola sobrasse para ele. Só que o alienígena tem andado ocupado no outro lado da Segunda Circular a fazer desaparecer membros dos orgãos sociais do Vieira e faltou à chamada, e o Paulinho voltou a ficar a zeros. Aliás, nem se viu, o que me leva a intuir que, como muitos dizem, defendeu muito bem... o relvado. 


Mas nem só de fungos e de fobias foi feito o jogo, houve também tempo para destruir alguns mitos. O de Bragança como médio defensivo, ou o de Esgaio como potencial central pela direita, neste sistema de Amorim, por exemplo. Não admira assim que Palhinha e Inácio tenham sido ausentes omnipresentes, assim como o grande capitão Coates e o fio de prumo com que orienta a linha de fora de jogo. Também o Nuno Santos agitou muito durante todo o jogo, mas para não variar a classe do Sarabia é que fez a diferença em pouco tempo. 

No fim, valeu o Pedro Gonçalves, o que não é propriamente uma novidade, que marcou dois golos em apenas trinta e dois minutos. Pondo-nos assim no sorteio dos oitavos-de-final. Ainda que lá chegando no Pote 2 (o Pote 1 não foi suficiente). 

Tenor "Tudo ao molho...": Pote 

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17
Nov21

O futuro


Pedro Azevedo

O maior problema que vejo na Selecção portuguesa é a coexistência de vários jogadores que querem a bola no pé e a precariedade de futebolistas que procurem o espaço. É dos cânones do futebol, sem desmarcação não há passe. Aquilo que se oferece como básico não assiste à equipa de Portugal, não se estranhando assim que o nosso jogo se afigure como incaracterístico. Na verdade, Portugal está numa encruzilhada: não assume um jogo de transições nem opta claramente pelo ataque organizado. Se a opção fosse por estrategicamente entregar a bola ao adversário e procurar o contra-ataque, então uma equipa pressionante e com jogadores papa-léguas deveria ter Palhinha por detrás de uma dupla de médios constituída por Renato Sanches e Matheus Nunes. Podendo Bernardo Silva, ou Bruno Fernandes, ser o quarto homem do meio-campo, estabelecendo-se assim um losango. Na frente, Jota jogaria no limite da linha de fora de jogo, e Ronaldo seria o homem solto que apareceria no momento certo; mas se a ideia prevalecente fosse o ataque organizado, então o jogo posicional de Portugal exigiria quem se desse ao passe, se desmarcasse e garantisse também profundidade, um campo grande na hora de ter posse. Para isso teríamos de jogar com alas, colocando Jota na esquerda e Rafa na direita. Nessa ideia de jogo haveria 3 médios: Palhinha na contenção. Matheus ou Renato na transição, Bruno ou Bernardo na organização. Em qualquer ideia que vise o sucesso Palhinha tem de ser considerado, porque só ele actualmente garante que a nossa Selecção possa jogar 10 metros mais à frente, algo que Danilo não oferece (por defesa própria encosta-se aos centrais) e William, nesta altura da sua carreira, não faz com a intensidade necessária; alternativamente a esta última ideia, o 3-4-3 (e não o 3-5-2, por este expôr mais os laterais) poderia ser equacionado. Com Pepe, Rúben Dias e Inácio (Duarte ou Fonte) como centrais, Cancelo e Nuno Mendes (Guerreiro) dariam a profundidade nas alas. O meio campo contaria com Palhinha e Sanches ou Matheus, e a acompanhar Ronaldo poderiam aparecer dois mestres no jogo entre-linhas (Pote e Bruno Fernandes).

Parece-me portanto óbvio que Portugal neste momento ficou a meio caminho. Um meio caminho de coisa nenhuma, pai de todos os equívocos. E é sobre isso que cumpre reflectir. Quem? Esse trabalho só poderá caber ao selecionador nacional. Até porque os jogadores estarão concentrados e focados nos seus clubes e só a 21 de Março regressarão aos trabalhos d'A Equipa de Todos Nós. E uma firme ideia de jogo será um bom passo no sentido do sucesso futuro. Não se pode é pedir mais tempo para depois desperdiçá-lo ingloriamente. Isso não. Algo, por conseguinte, terá de mudar. 

PS: Sobre a análise do Portugal-Sérvia, excelente o título "A fé não calça botas", de Hugo Tavares da Silva no Tribuna Expresso (mas "A fé não calça chuteiras" seria melhor ainda). Aqui fica o meu humilde tributo ao autor. 

15
Nov21

Tudo ao molho e fé em Deus

“Primavera Marcelista” ou Revolução?


Pedro Azevedo

Portugal venceu o Euro 2016, ganhando somente um jogo nos 90 minutos. Quem viu o copo meio cheio atribuiu o título europeu à resiliência e crença de jogadores e equipa técnica, os outros creditaram-no ao animal sagrado da Índia (possível reminiscência imperialista por Goa, Damão ou Diu terem sido nossas). O que é certo é que essa conquista instaurou a ditadura dos resultados. Portugal ganhava, e pouco interessava que o seu jogo colectivo rivalizasse com o "poderoso"  Liechtenstein, sentimento que se acentuou com novo triunfo europeu, agora na Liga das Nações. E assim fomos andando, ao ponto de o endurecimento da ditadura (dos resultados) implicar que goleadas por 0-0 fossem bem aceites pela maioria. Até que chegaram os sérvios, tão criticados por históricamente não conseguirem formar uma equipa minimamente condizente com a valia individual dos seus jogadores, e mostraram que o "rei" ia nu. Seguir-se-á a "Primavera Marcelista" (em Março), na esperança de que o desanuviamento (das exibições) se alie aos resultados e o povo se alegre. Se não resultar, Abril será mês de revolução (aonde é que eu já vi isto?). 

P.S.1. É impressão minha ou, após tanto debate à volta da melhor forma de encaixar as condições climatéricas do local onde vai ser jogado o próximo campeonato do mundo no calendário, o Qatar ficou subitamente muito mais frio?  

P.S.2. Algo terá de estar substancialmente errado quando um lateral com o balanço ofensivo e a categoria de João Cancelo passa um jogo inteiro sem ultrapassar a linha do meio campo. 

P.S.3. Clubite à parte, a opção inicial por Danilo em detrimento de Palhinha (para jogar em 4-3-3 e não em 5-3-2, que mesmo mais tarde o 3-5-2 nunca apareceu em campo) parece-me muito pouco defensável. 

14
Nov21

À procura do Qatar


Pedro Azevedo

A viagem à Irlanda para pouco mais serviu do que cumprir calendário, um sem-propósito que consistiu em contrariar a lenda e visitar os leprecons sem buscar o Pote de Ouro. Até porque, sabia-se antecipadamente, o Pote já era nosso, ficara em Alcochete, e em Alcochete permanecerá à hora em que defrontarmos a Sérvia, que podendo golear-se por 0-0 não vale a pena desperdiçar trunfos com quem faz do golo uma arte ao alcance de muito poucos. Agora os papéis invertem-se, mas com uma nuance: os sérvios vêm a Portugal, sim, mas deliberadamente à procura do pote de ouro. Pelo menos a julgar pelas declarações do presidente desta república balcânica, o senhor Alexandar Vucic, que prometeu dividir 1 milhão de euros pelos seus jogadores caso estes consigam a qualificação directa para o Qatar 2022. Ainda assim, para Portugal não será o tudo ou nada, até porque o empate garantirá o passaporte rumo ao próximo campeonato do mundo. Habituados que estamos a fazer contas até ao fim, isso poderá constituir uma vantagem para nós. É que podemos não ganhar muitos certames internacionais de selecções - ainda assim, os troféus do Campeonato da Europa de 2016 e da Liga das Nações de 2019, nossas únicas conquistas no escalão sénior, terão obrigatoriamente de ser creditados a Fernando Santos - , mas nas "olímpiadas da matemática" ninguém nos segura. Que Portugal siga em frente! (Em Ronaldo "we trust", e na desinspiração do Tadic, também.)

 

P.S. Alexandre Herculano já não é sede da Federação, mas com a Selecção há sempre espaço para lendas e narrativas. Do Pote de Ouro às goleadas por 0-0, a história vai-se fazendo. Ainda assim, longe vai o tempo das vitórias morais. Eu prefiro este tempo das vitórias amorais, no relvado.

12
Nov21

Tudo ao molho e fé em Deus

Nacionalismo-santinho


Pedro Azevedo

Caro Leitor, se os adeptos do Sporting viveram com Silas um período que denominei como de marxismo-leoninismo, ontem os fãs da nossa Selecção depararam-se com o nacionalismo-santinho (saúde!), um movimento entre a democracia cristã - patente na autonomia conferida a cada jogador (ao ponto de às tantas aquilo parecer que é cada um por si) e na solidariedade (no caso) para com os concidadãos de etnia celta que se nos depararam - e uma extrema-direita onde até quem está à sua esquerda (Dalot) é um conservador empedernido (e destro). Com uma equipa sub-virada à direita, não tardou que a nau portuguesa adernasse e se expusesse às vagas de ataque irlandesas. Matheus Nunes ainda procurou fazer contra-peso à esquerda, mas o seu esforço foi totalmente em vão por falta de quem o acompanhasse: por essa altura, Ronaldo, Bruno e André Silva mantinham-se no centro e Guedes e Sem Medo a estibordo da embarcação. A esquerda, dizimada pela Geringonça, desapareceu sem deixar rasto (e lastro).

 

Com 6 jogadores à bica, Fernando Santos esteve quase a tomar um Irish Coffee (ou "coffin", que a coisa esteve mesmo para correr muito mal) com doses de cafeína e whiskey suficientes para que os seus tiques de pescoço se manifestassem da forma hilariante que se conhece. Mas nem precisou, tal a enebriante declaração final que bem poderia ter sido produzida à saída do Temple Bar. Ficámos então todos a saber que para o engenheiro ter goleado por 5-0 ou por 0-0 era igual. O que vale é que só falta mais um jogo até ao Qatar. Depois, "vão-se catar", que a prioridade por uma vez serão os clubes, afinal quem paga isto tudo (mas em terras de Leprecons e sem Pote de Ouro até não parece).

08
Nov21

Tudo ao molho e fé em Deus

Existência vs essência


Pedro Azevedo

Os jogos do Sporting são férteis em confrontos ontológicos entre leões. De um lado temos os adeptos de Sartre, que afirmam a existência preceder a essência do indivíduo. De outro, emergem os defensores de Platão, convencidos do seu contrário. Tudo acaba por resvalar para o campo da metafísica: o que é afinal a realidade? Bom, eu posso conceber que o Paulinho exista sem que a sua essência goleadora esteja definida. Ou, simplesmente, posso determinar que, sendo um ponta de lança, sem uma essência goleadora ele não exista. Aqui estou mais com Sartre, ele existe e ponto, aliás 3 pontos. E assim o Sporting ganha. Quanto à essência do Paulinho... Bom, ela ainda está por definir e pode vir a ser mutante. O não ser goleador no presente não determina em Absolut (NA: a manutenção desta dúvida obriga a uma razoável predisposição etílica disfarçada sob a forma de um pretenso neologismo inteligente) que não venha a sê-lo no futuro, e o reconhecimento dessa competência específica variará consoante a sua produtividade. Recorra-se então à epistemologia e ao método da dialética hegeliana como forma de compreensão do mundo leonino, fragmentando-a em 3 momentos: tese, antítese e síntese. No nosso exemplo, consideremos como tese a contratação de Rúben Amorim. A antítese foi o terror subsequente - técnico sem suficientes provas dadas, muito oneroso para os nossos já debilitados cofres, etc... -  , contudo a síntese disto tudo consistiu em 3 troféus ganhos (campeonato nacional incluído) e numa aposta na Formação que dá garantias em termos de sustentabilidade do projecto desportivo, ou seja, de existência. Porque existindo podemos sempre alterar a nossa essência. Ou descobrir que, afinal, a nossa essência até é relevante para um todo.  Como a do Paulinho...

 

Das essências goleadoras de Coates e Pote é que ninguém duvida. E se o uruguaio desta vez não marcou (mas assistiu para o primeiro golo), o interior facturou como sempre, com um passe à baliza, premissa de um silogismo aristotélico inspirado nas fontes de  Vidago, em que cada vez que o cântaro lá vai é golo (ou gole), logo cada passe à baliza acaba no fundo das redes. Por conseguinte, golos que deviam também contar como assistências, como passes. O que nos leva ao seguinte debate filosófico: o Pote marca como assiste, ou assiste como marca? O que precede o quê? Por falar em preceder, Porto e Sporting precedem o Benfica na classificação geral, cumprido que está um terço do campeonato. Mesmo sabendo que a classificação final são contas de outro rosário (que aliás é composto por três terços), para já a nossa existência (em primeiro) sobrepõe-se à essência (de JJ). Por muito que a goleada ao Braga tenha eventualmente contribuído para uma relação platónica deste com os benfiquistas. Bom, mas agora vêm aí as selecções, um tempo para pôr de lado a filosofia e ir buscar o terço. Acreditando que Deus dita a nossa essência, claro. O Sartre que me desculpe, é a fé. E o Fernando Santos convoca-a. Ai se convoca...(À fé, não ao Pote.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Matheus Reis

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04
Nov21

Tudo ao molho e fé em Deus

Teatro de Todos os Sonhos


Pedro Azevedo

"Chamem a Polícia" - cantavam os Trabalhadores do Comércio, uma banda onde chegaram a coexistir dois maduros com pinta de diletantes e um puto de 7 anos (não se sabe se com contrato de formação ou mera exploração infantil), uma mescla altamente improvável mas que produziu bons resultados (se ignorarmos que os requintados versos de "Ou estas quietinho, ou levas no focinho" parecem ter sido escritos pela criança enquanto fazia os trabalhos de casa de Estudo do Meio sob a tutoria dos dois marmanjos). Lembrei-me dessa música porque ontem o Sporting requisitou os serviços da PSP (Pote, Sarabia e Paulinho) e deu-se muito bem com isso. Adicionalmente, apresentou alguns jovens jogadores oriundos da sua Formação (Inácio, Palhinha, Matheus Nunes, Jovane, Rúben Vinagre, Esgaio e Daniel Bragança), que mesclados com alguns trintões (Adán, Coates e Feddal) igualmente produziram muito bons resultados. 

 

Old Trafford recebeu um dia de Bobby Charlton o feliz apodo de "Teatro dos Sonhos". Charlton, que está imortalizado conjuntamente com Best e Law (holy trinity/santíssima trindade) numa estátua colocada à entrada do mítico estádio do Manchester United, não terá boas recordações do Estádio José de Alvalade pois aí teve de vergar-se (5-0!) aos pés de Osvaldo Silva & Cia na caminhada triunfante dos leões rumo à final de Antuérpia e consequente conquista da Taça dos Vencedores das Taças. Cito Charlton porque ontem Alvalade foi o Teatro dos Sonhos, diria até de Todos os Sonhos, na medida em que não só a nossa exibição fez sonhar os adeptos como a derrota do Dortmund em casa com o Ajax abriu as portas a todas as ilusões de passagem do Sporting à fase a eliminar da Champions. Nada mau para um clube que há apenas 2 anos tinha uma imensidão de trabalhadores, perdão, inválidos do comércio ao seu serviço...

 

Com Rúben Amorim como encenador e Sarabia como assistente para todo o serviço, Pote voltou a ser o protagonista do Teatro dos Sonhos e Paulinho destacou-se mais uma vez nas acções longe da boca de cena. Matheus Nunes continua a crescer como actor - a sua viragem súbita já mereceu direitos de autor - e o outro Matheus, o Reis, tem-se revelado uma boa surpresa. Coates desta vez levou com um guião que o obrigou a uma inusitada contenção. No fim, o público aplaudiu esfusiantemente. Tempo então de chegar a casa, "Time to sleep, per chance to dream" (Shakespeare). Ou, como diria o Torres, "Deixem-me sonhar". Deu-se bem...

Tony award (já que falamos de teatro...) "Tudo ao molho...": Pedro Gonçalves

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03
Nov21

Oktoberfest em Novembro


Pedro Azevedo

- O Maite era bom para jogar na Austrália: "Hi Meite (mate), Bye Meite" (à medida que os adversários o iam ultrapassando). 
- O Grimaldo ficou em estado de coma(n). 
- Jesus, "factualmente", preferiu sacrificar os cordeiros, e assumiu-o.
- O Pizzi deve ser o mais requisitado após os jantares do plantel do Benfica: nunca será apanhado em excesso de velocidade. 

01
Nov21

Máquina de sonhos e de alguns pesadelos


Pedro Azevedo

Fernando Mamede perfaz hoje 70 anos. Atleta com condições físicas ímpares, pecou sempre pela impreparação psicológica nas grandes competições internacionais. Ainda assim, ninguém esquece aquele dia em Estocolmo. Na cidade sueca onde um dia morreu a "razão" (Descartes), renasceu a emoção de ser português. Graças e ele, Mamede, Fernando Mamede, recordista do mundo dos 10000 metros. Uma máquina(!), e um dos melhores atletas que um dia vestiram a camisola do nosso Sporting. Imaginem o que poderia ter sido se a mente tem sempre acompanhado o corpo...

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31
Out21

Tudo ao molho e fé em Deus

Jogos repetidos com informação incompleta


Pedro Azevedo

Na teoria dos jogos é ensinado que as pessoas que interagem no presente fizeram-no no passado e têm a expectativa de o voltar a fazer no futuro. Para que essa interacção aconteça, a informação é primordial. Informações vitais podem ser reveladas pela acção de um jogador, da mesma forma que um jogador pode inibir-se de praticar determinadas acções a fim de evitar essas revelações. Por exemplo, a colocação de Seba Coates a central é tudo menos inocente. Os jogadores adversários ficam convencidos que ele é um central e tarde demais compreendem que ele é efectivamente o ponta de lança da equipa. Por outro lado, o verdadeiro defensor é o jogador Paulinho, que é apresentado publicamente como um matador. Quer dizer, na verdade ele é literalmente um matador, no sentido em que nos mata do coração a cada novo falhanço, mas a sua função de central mais avançado no campo é muitas vezes ignorada por adversários e até incompreendida pelo público que acompanha os jogos, contribuindo assim para o sucesso da equipa. Outra história de engodo é a que se relaciona com o Matheus Nunes e visa unicamente desvalorizá-lo aos olhos dos adversários. Nesse sentido, a narrativa que foi montada para inglês ver dá-o como tendo sido formado numa padaria da Ericeira, o que contrasta com o prestígio da Academia de Alcochete. É de génio, porque toda a gente sabe que é difícil falar na Ericeira sem se fazerem ondas, ajudando assim a que o embuste pegue mais jogadores desprevenidos. Os adversários olham para o rapaz, ficam condescendentes, julgam até que podem fazer farinha (o que faz sentido com um padeiro) e, quando dão por eles, já estão a correr atrás do prejuízo. Com o Adán é igual. Circulou que ele andou pelos grandes madrilenos a coleccionar autógrafos de galácticos nos treinos, mas isso obedeceu a uma estratégia de longo prazo que visava surpreender tudo e todos quando chegasse a Alvalade. Não fosse isso e o Casillas e o Oblak a única carreira que teriam seria a dos autocarros que os levariam respectivamente a Chamartin ou ao Wanda. Assim, bem podem agradecer ao Adán. 

 

Os exemplos do Coates, Paulinho, Matheus e Adán não surgem aqui por acaso. É que eles esconderam o jogo e forneceram informações incompletas ou erróneas ao nosso adversário de ontem e assim muito ajudaram à nossa vitória. Senão vejamos: uma vez mais, a terceira consecutiva, o Coates voltou a ser decisivo e marcou.   O Paulinho esteve sempre muito preocupado com os contra-ataques adversários, defendendo o que podia e cabeceando para fora um excelente cruzamento do Nuno Santos a fim de não permitir uma eventual parada do guarda-redes do Vitória (ou bola no poste) que desse início a uma transição rápida que pudesse fazer perigar a nossa baliza. (São estes pequenos pormenores que o grande público não entende, e é por isso que o Paulinho é um jogador único e irrepetível e justifica cada cêntimo da sua transferência.) O Matheus arrancou sorrisos amarelos aos vimaranenses a cada nova arrancada, à medida que ia dinamitando as suas linhas com aquele ar de ser apenas mais um dia no escritório. E o Adán mostrou ser como o nadador salva-vidas que a maior parte do tempo está a trabalhar para o bronze mas faz-se ao mar com critério sempre que necessário.  

 

Besiktas, Moreirense, Vitória, os jogos repetem-se. Como dizia o Sérgio Conceição, antes de cada nova contrariedade, é fácil desmontar o Sporting. Pois claro, até La Palisse poderia dizer que é muito mais fácil desmontar um puzzle do que montá-lo (da forma que Amorim o faz). Mas difícil, difícil é parar o Sporting. Dada a informação aqui disponibilizada, talvez a solução passe pelos adversários subirem os seus defesas ao encontro do Coates e recuarem os seus pontas de lança para vencerem o confronto com o Paulinho. A ideia pode parecer estapafúrdia, mas merece ser tentada a partir do momento em que todas as anteriores falharam. Porque com Rúben Amorim a lógica é uma batata. E quem a mete (a batata) lá dentro é o Coates...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Matheus Nunes

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28
Out21

Good Bye Lenin (ou Maria Ivone)!


Pedro Azevedo

Estes jogos da fase de grupos da Taça da Liga fazem-nos recuparar a memória do que era o futebol sem o VAR. Nesse sentido, assemelham-se àqueles documentários que hoje se fazem sobre a, outrora louvada pelos comunistas, antiga RDA, que exploram as incongruências do modelo de sociedade "socialista" de inspiração soviética. É claro como a água que haverá sempre saudosistas do antigo regime, orgulhosos adeptos dos irmãos Calheiros como dos automóveis Trabant, da escassez de títulos do Sporting ou da ausência de alimentos nas prateleiras dos supermercados de Berlim Leste. E há até quem procure reescrever a história e ignorar o controlo totalitário de outros tempos. Encontrando razões no tempo que se perde e falta de espontaneidade como no desemprego ou habitação precária actuais. Mas o muro finalmente caiu e nada voltará a ser como antes, ainda que alguns  "Ostalgies" (nostálgicos) que pululam por aí em programas de televisão pareçam falar para as massas como aquele filho que esconde da mãe, recentemente desperta de um coma pós-enfarte, a inabalável alteração entretanto produzida no status-quo. Tal como no filme de Wolfgang Becker, intitulado "Good Bye Lenin!". Só que os Sportinguistas viveram conscientes esse período negro, os "Ostalgies" é que estao a leste...

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27
Out21

Tudo ao molho e fé em Deus

Faca na Liga e postas de pescada


Pedro Azevedo

Como quase tudo o que se relaciona com o nosso futebol, a Liga Portugal é bipolar. Por um lado, anuncia defender o rigor, a integridade e a defesa do produto Futebol, por outro mantém em aberto uma "competição" que é objectivamente uma "faca na Liga". Senão vejamos: o que dizer de uma Taça onde se joga até ser madrugada, o árbitro se apresenta equipado com uns "flaps" aerodinâmicos sob a forma de uns autocolantes esvoaçantes - em modo "segurem-me, senão eu descolo daqui para fora" (como eu o compreendo...) - , o intervalo(?) induz-nos para as calendas gregas e os discursos do Fidel, não há guita para a vídeo-arbitragem e o emparelhamento das equipas em grupos e respectivo sorteio apenas visam uma "final four" onde os "3 grandes" estejam presentes? Acrescente-se um juíz que, apesar de talhante, não vê um "boi" à frente dos olhos e perdoa um penálti do tamanho de um Miúra ou de um Vitorino ao Famalicão, um campo de pasto mais apropriado à criação do gado Domecq e podem imaginar o pesadelo de que estamos a falar. Depois admiram-se dos adeptos voltarem as costas a este tipo de eventos. Já dizia o Schopenhauer que a soma do ruído que uma pessoa pode suportar está na proporção inversa da sua capacidade mental, e os adeptos são suficientemente inteligentes para não embarcarem em engodos onde sacristãos em Lisboa conseguem vêr uma formiga no cocuruto do Cristo-Rei enquanto o Cardinal, no Pragal (Almada), diz ao Lucílio que nada observou de anormal (rima e tudo).

 

É certo que em tempos esta "competição" serviu-nos para fazer umas cócegas ao ego, mas agora que até já somos campeões nacionais a coisa sabe-nos a pouco. Pelo que a única vantagem de aderir a isto é permitir rodar jogadores, o que aconteceu abundantemente ontem. Foi bom, na medida em que todos tivemos a confirmação da valia de Ugarte, um patrão que deixa o colarinho branco em casa e vai para o trabalho vestido como um operário. Muita categoria reunida num menino que tanto põe a bola a 30 metros como se envolve na luta por a conquistar, nunca deixando de procurar ser feliz nas aproximações em terrenos mais avançados. E de uma dessas aproximações resultou o nosso primeiro golo. A coisa pareceu pré-destinada quando o pé direito do uruguaio encaminhou a bola para junto do poste esquerdo da baliza do Famalicão, mas um minhoto interpôs-se e o esférico seguiu o rumo oposto e anichou-se no canto direito das redes. Voltando a Schopenhauer: "O destino baralha as cartas, e nós jogamos". E, escrevendo direito por linhas tortas, o Sporting adiantou-se no marcador. Depois houve o tal episódio da mão que o Mota não viu, que o comentador da SportTV justificou com o "ângulo fechado", o que pareceu um reparo paradoxalmente obtuso. Estabelece-se assim a seguinte proporção: quão mais agudo o ângulo (menos de 90º), mais obtuso o comentário; da mesma forma, quão mais obtuso (mais de 90º) o ângulo, mais agudo o comentário (como mais tarde se perceberia através da, perfeitamente audível, estridente emoção que se apoderou do comentador quando com o ângulo perfeitamente aberto não conseguiu perspectivar um claríssimo fora de jogo de um famalicense e julgou estar restabelecido o empate na contenda). 

 

Se durante a primeira parte o Sporting escondeu a bola do Famalicão, na etapa complementar os leões preferiram controlar o jogo e reduzir os espaços. Ainda assim, couberam aos pupilos de Rúben Amorim as melhores oportunidades. Até que o Matheus Nunes libertou-se do espartilho e foi espalhar o caos na área dos minhotos. Por entre cruzamentos, remates e ressaltos, o Nuno Santos emergiu e com classe dilatou o marcador. Pouco depois entrou o Paulinho, e com ele nova esperança numa oportunidade de golo não desperdiçada. E desta vez o Paulinho não desperdiçou. Mas também não marcou, podendo talvez dizer-se que enjeitou, não rematando no timing correcto. Logo um senhor da SportTV aproveitou para umas postas de pescada. Segundo ele, o problema do Paulinho é o apoio incondicional do público. É o que se chama um ângulo obtuso sobre o tema do momento. Ora, andava eu pelos blogues a ler que a culpa da greve de fome do nosso avançado se devia aos "não-verdadeiros" Sportinguistas que criticavam a sua fraca produção em frente das balizas e afinal fiquei a saber que é do excesso de apoio que emana a maleita que o afecta. Não querendo fazer tábua rasa sobre o assunto, decidi desligar o televisor a fim de não pressionar o Paulinho com o meu incentivo. Estou agora ansioso por ler as crónicas dos jornais, ciente de que a coisa deve ter acabado numa cabazada de golos do homem de Barcelos. Tinha até planos para ir ver o Guimarães, mas se calhar fico em casa. É que com o estádio às moscas o Paulinho vai facturar. E o seu valor subir. Pelo que no dia em que já não houver um adepto nosso no estádio, vende-se o Paulinho para realizar algum capital, quem sabe transferindo-se então o nosso incondicional apoio para um sempre tão escrutinado qualquer produto da nossa Formação. Genial, o senhor da SportTV. (Queira o meu caro senhor desculpar-me, caso este meu incondicional incentivo ao seu desempenho perturbar futuras tiradas de génio da sua autoria.) 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Manuel Ugarte

 

P.S. Ah, e estamos agora mais próximos da "Final Four", ao contrário do Porto que já está fora. "O que passou-se?", dirão na sede da liga. Houston, we have a problem!? Se calhar, futuramente, é melhor a Taça da Liga avançar directamente para a Final Four pretendida, poupando-se os patrocinadores a estas contrariedades. À atenção do Dr Proença e do "rigor, integridade e defesa do produto Futebol".

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25
Out21

Tudo ao molho e fé em Deus

A importância de ganhar


Pedro Azevedo

Os jogos com as equipas pequenas e médias são os que tradicionalmente decidem campeonatos. Como tal, é decisivo ganhá-los. E, para ganhá-los, há que marcar golos ou, pelo menos, mais um golo que o adversário, cabendo geralmente ao ponta de lança a dose de leão da contabilidade dessa arte de abanar as redes. É certo que o adepto pode exasperar se aquele que é designado por ponta de lança não fizer jus a esse epíteto, mas no passado já tivemos pontas de lança goleadores como Liedson ou Dost e não deixámos de escorregar e de perder pontos em jogos que antecipadamente dávamos como favas contadas. Por isso, ganhar é sempre o mais importante, marque o Coates, o Paulinho roupeiro ou o Ambrósio do Ferrero Rocher. (Neste último caso, tipo disco pedido do "Quando o telefone toca..." com senha e tudo a condizer, o adepto partilharia o seu desejo com o Ambrosio da seguinte forma: - Ambrósio, apetece-me algo... - Sim, senhor, que tal um golo açucarado? O adepto assentiria, o Ambrósio far-lhe-ia a vontade e ambos, no fim, partilhariam um doce e cúmplice sorriso.)

 

Para além destes jogos tomados como fáceis muitas vezes darem razão à alegoria do David e do Golias, a recepção ao Moreirense em particular sucedia a uma partida desgastante do ponto de vista físico e emocional, de alta intensidade e concentração máxima, disputada na longínqua Istambul. Havia, como tal, razões ponderosas de gestão de plantel a considerar, bem como uma presumível preocupação acrescida da equipa técnica com o foco dos jogadores, algo sempre difícil quando se vem da Cerimónia dos Óscares para a festa de anos do Óscar.  

Assim, há que dizer que a prova foi superada. Não com distinção, até porque do outro lado não estavam exactamente 11 bidões e sim uma equipa que ainda num passado recente veio ganhar com alguma facilidade ao Estádio da Luz, mas de uma forma relativamente tranquila e com poucos sobressaltos, que no fim serviu para garantir os tão desejados 3 pontos. 

O Paulinho não marcou? Não. E teve 5 boas oportunidades para isso. Não sei se será possível estabelecer com o Paulinho uma linha de diálogo do tipo Ferrero Rocher e porventura (o mais certo) ele até poderá ser diabético em matéria de golo e ter um metabolismo que não aguenta níveis elevados de produtividade em frente das balizas, mas enquanto houver uma equipa em vez de 11 jogadores será sempre possível esconder as fragilidades de cada um e sublimar a força do todo. Todo esse onde nós, adeptos, também nos inserimos, levando ao colo o Paulinho aquando da sua saída do terreno de jogo. Para um dia, quem sabe, levar-nos ele ao colo, se bem que "colinho, colinho" é mais fácil presumir do outro lado da Segunda Circular. 

Tenor "Tudo ao molho...": Matheus Reis (melhor exibição de leão). Coates foi, uma vez mais, decisivo (quem é que precisa de um ponta de lança quando tem um Coates escondido lá atrás?). Sarabia já podia ser o rei das assistências deste campeonato, assim concretizassem os seus inúmeros passes com conta, peso e medida para golo. Bragança distinguiu-se pelos bons pormenores com bola, ainda que defensivamente tenha sido leve na abordagem de alguns lances. Ugarte entrou com ganas e mostrou merecer mais minutos e Matheus Nunes ainda teve tempo para uma arrancada típica das suas. 

20
Out21

Tudo ao molho e fé em Deus

Coates alargou o outrora Estreito


Pedro Azevedo

O Bósforo é um estreito que divide os continentes europeu e asiático. Segundo reza a mitologia grega, o seu nome significa "passagem da vaca", em alusão a Io, sacerdotisa de Hera, que o atravessou a nado depois de Zeus, que por si se enamorou, a ter transformado numa novilha a fim de esconder a sua forma humana de Hera. Talvez o primeiro golo do Sporting possa ser atribuído à "vaca", dado ter contrariado a forte corrente até aí dominante, mas creio que nesta coisa de mitologias para a história prevalecerá a Sportinguista, que sempre associará esta passagem pelo Bósforo ao capitão Coates, o deus cujos super-poderes alargaram o Estreito e permitiram à comitiva leonina concluir com sucesso a sua expedição por terras turcas. (Doravante, chamar Estreito de Coates ao Bósforo seria uma bonita homenagem Sportinguista a este seu feito heróico, se estreito não constituísse uma contradição nos termos face ao a todos os títulos gigante uruguaio.)

 

Sendo certo que na alvorada do jogo o Paulinho até poderia ter adiantado o Sporting no marcador, a verdade é que os leões passaram um mau bocado nos primeiros 15 minutos. Durante algum tempo foi otomanos contra "oito manos", dado que os dois Matheus e Palhinha estiveram nesse período completamente fora do jogo. Depois, o golo de Coates acalmou um pouco a equipa, e mesmo o tento irregular dos turcos não a disturbou o suficiente porque El Patrón logo se encarregou de bisar como se de uma fotocópia se tratasse. E seria uma vez mais o uruguaio a cavar diferenças quando, novamente de bola parada, assinou uma sentença de morte para o keeper turco, pena temporariamente comutada pela mão de quem quis dar Vida aos otomanos. Desta vez sem remelas nos olhos, o tribunal videoarbitral presente em Istambul decidiu pelo castigo máximo. Em sequência, Sarabia executou a decisão de forma competente. Até ao intervalo haveria um novo susto, mas o fio da vida com que o deus Coates exemplarmente conduziu durante todo o jogo a linha de fora de jogo fez com que a brilhante execução do brasileiro Alex Teixeira de nada valesse ao Besiktas. Íamos assim para o intervalo com a sorte do jogo, que é como quem diz com a importância de ter Coates. 

 

O segundo tempo foi completamente diferente. Não fora as dificuldades de comunicação entre os 3 homens da frente e as más decisões no momento da finalização dir-se-ia até que o marcador final poderia ter assumido proporções bíblicas para uns turcos certamente nada interessados em ficar ligados a algo de cariz religioso que não tivesse a ver com o Corão. O nosso domínio assentou então na entrada em jogo de Palhinha e de Matheus Nunes, que acertaram as marcações e conseguiram finalmente minorar os efeitos da inferioridade numérica no meio campo, uma realidade já anteriormente vista nesta Champions e que ontem só não produziu resultados mais nocivos por o adversário ter a dinâmica mas não ter a qualidade de um Ajax. E quando o treinador turco tirou o médio Alex Teixeira e substituiu-o por mais um avançado (Karaman), então o mar negro ficou definitivamente para trás e os leões puderam enfim chegar a bom porto. Ainda houve tempo para o Paulinho fazer uma gracinha, ele que ameaça especializar-se em marcar os golos mais difíceis e em falhar os mais fáceis. Sobre esse tema, estou convencido que o que está errado na avaliação deste jogador é vê-lo como um goleador. Quem assim pensa vai cumprir várias etapas de frustração, lance após lance vendo o transporte da bola até Paulinho condenado a um provável trabalho de Sísifo. Porém, se olharmos para o que labora dentro do campo e a forma inteligente como liga o jogo da equipa, então o nosso sentimento de afeição crescerá bastante em relação a ele. Pensem nisso! (Alternativamente, podem pedir ao Vosso médico de família para Vos receitar o Prozac, que a discussão entre prosaicos e "prozaques" não ficará por aqui.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Coates (who else?). Adán esteve excelente na mancha e Palhinha enorme na recuperação de bola no segundo tempo. Porro mostrou a garra de leão do costume. 

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18
Out21

No Bósforo para acender o fósforo (luz ao fundo do túnel)


Pedro Azevedo

Amanhã jogaremos em Istambul, outrora Bizâncio, Nova Roma ou Constantinopla, as duas últimas denominações coincidentes com o período em que foi capital do Império Romano do Oriente. Conquistada aos romanos pelo Império Otomano no final do Século XV, Istambul receberia apenas no início do século XX  o nome pela qual no fundo sempre foi conhecida entre nativos: o equivalente, em português, a "ir para a cidade". A Istambul de hoje desenvolve-se ao longo dos dois lados do Bósforo, tendo-se estendido para o lado asiático através da anexação da Calcedónia, cidade da outrora Anatólia que os bizantinos em tempos conquistaram aos mégaros. É nesta bonita cidade que aproxima a Europa da Ásia que amanhã o Sporting jogará. A receber-nos estará o Besiktas, um clube do município com o mesmo nome, localizado na margem europeia do Bósforo e parte integrante da área metropolitana de Istambul. Os Águias Negras ("Kara Kartallar") são o terceiro clube turco em palmarés, apenas suplantados por Galatasaray e Fenerbahce, com 16 títulos de campeão nacional no seu palmarés. Todavia, nas competições europeias a sua prestação tem sido modesta, destacando-se apenas os quartos de final atingidos na Champions em 87 e o igual patamar alcançado em duas ocasiões na Liga Europa. Será também o reencontro com o ex-leão Valentin Rosier, titular absoluto numa equipa que tem no bósnio Pjanic (ex-Juventus) e no belga Batshuayi as suas maiores estrelas. Nada porém que deva desmoralizar os nossos leões, ou do outro lado não estivessem umas águias que motivam a exortação da memória de épicos confrontos históricos. Boa sorte, leões!!!

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