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Castigo Máximo

De forma colocada, de paradinha, ou até mesmo à Panenka ou Cruijff, marcaremos aqui a actualidade leonina. Analiticamente ou com recurso ao humor, dentro ou fora da caixa, seremos SPORTING sempre.

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Castigo Máximo

29
Nov22

Tudo ao molho e fé em Deus

The hair of God


Pedro Azevedo

Em 86, no México, Argentina e Inglaterra defrontavam-se nos quartos de final do Mundial. O palco era o Estádio Azteca e cerca de 115 000 almas dispunham-se nas bancadas sob um sol inclemente. Para apimentar ainda mais o ambiente, o jogo tinha um carácter extra-desportivo motivado pelas cicatrizes ainda abertas da Guerra das Malvinas, que havia oposto os 2 países uns anos antes. No fim, no campo, ganhou a Argentina, naquilo que poderia ser considerado a "revancha del Tango". Para isso muito contribuiu Diego Armando Maradona, o génio da lâmpada, que marcou um golo épico e outro ignóbil, cada um inesquecível à sua maneira, ambos porém produto da improvisação, expressividade, ginga, truque e carga dramática que caracterizam o tango. No fim, quando questionado pela imprensa inglesa sobre a legalidade do seu primeiro golo, El Pibe apelidou-o de "The hand of God", a mão de Deus. Quanto ao segundo, o "Golo do Século", Lineker afirmou ter sido a única vez na vida em que se sentiu compelido a aplaudir num relvado um golo do adversário.  

 

Pensei na "mão de Deus" ontem enquanto aplaudia o primeiro golo de Portugal contra o Uruguai. Não que tivesse havido algo de ignóbil no lance, aliás perfeitamente limpo, mas porque envolveu um outro deus do futebol mundial, o nosso Cristiano Ronaldo, que foi absolutamente decisivo no êxito da iniciativa conduzida por Bruno Fernandes. Logo se levantou a questão de Ronaldo ter ou não tocado na bola e as imagens televisivas pareceram concluir que não. Mas tendo o salto de Ronaldo sido fundamental para a inacção do guarda-redes uruguaio, que ficou na dúvida entre seguir a trajectória da bola ou precaver-se face a um hipotético desvio do avançado português, bem que o golo poderia ficar na história como "The hair of God", como se um fio de cabelo divino tivesse acrescido à cabeleira de Ronaldo e assim impelido a bola para as redes. ("Se no è vero, è ben trovato".)

 

O jogo para nós foi de uma forma geral sofrido, ou não fosse Portugal a equipa e Fernando Santos o seu treinador. Algumas debilidades em termos de intensidade defensiva do nosso meio-campo ficaram expressas num arranque de Bentancur no primeiro tempo ou na reacção uruguaia ao golo inaugural luso. Também ficou evidente que o nosso seleccionador atrasou demasiadamente as últimas substituições, especialmente as entradas de Palhinha e de Matheus Nunes (que classe!), submetendo a equipa desnecessariamente a uma forte pressão dos sul-americanos que o poste, a malha lateral e Diogo Costa impediram que se materializasse em golos. Antes assim, mas que não havia necessidade de sofrer tanto, lá isso também é verdade. Até porque um dia, nada se alterando, a história poderá acabar mal, que os deuses do futebol não estarão sempre connosco, como aliás já se provou em competições que sucederam à vitória no Euro-2016. (A maior vítima do caos organizado que caracteriza o nosso jogo desposicional, bem como da macieza dos médios, é o Bernardo Silva, que é obrigado a transpirar tanto que depois lhe falta oxigénio para inspirar... a equipa.) 

 

Com apenas 2 jogos disputados, Portugal já está nos oitavos de final do Mundial. E com grande possibilidade de terminar em primeiro lugar no seu grupo, evitando assim o Brasil, que com igual probabilidade deve finalizar no topo da sua poule. Para quem tem na Texas Instruments ou na Casio uns parceiros de uma vida, não deixa de ser reconfortante...

 

Viva Portugal!!! (A revolta do Fado.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Bruno Fernandes. Menção honrosa para Diogo Costa. Ronaldo esteve no golo e deu apoios no ataque, Pepe regressou a bom nível, Nuno Mendes foi o único a acelerar o jogo no primeiro tempo, Cancelo preocupou-se essencialmente em defender bem e teve um corte providencial e Bernardo lutou em todo o campo pela equipa.

 

PS: O Ruben Neves passou o jogo todo com mialgias a nível do rabo de cavalo...

 

PS2: A minha equipa para a Coreia: Diogo Costa (Rui Patrício); Dalot, Pepe, Rúben Dias e Cancelo; Palhinha, Matheus Nunes e Vitinha; João Mário, Ronaldo (André Silva) e Rafael Leão. Descansam o Bruno, o Bernardo e o Guerreiro (não temos outro). Os outros que jogaram com o Uruguai também, mas não são os melhores. 

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28
Nov22

Breve antevisão


Pedro Azevedo

Muito cuidado com a velocidade de Fede Valverde e Darwin Nuñez. E fé inabalável em Ronaldo, claro. Quanto ao Onze, o meu seria: Diogo Costa; Dalot. Pepe, Ruben Dias e Nuno Mendes (se estiver em condições); Palhinha, Matheus Nunes e Bruno Fernandes; Bernardo Silva. Ronaldo e Rafael Leão. O Onze de Fernando Santos ainda não foi divulgado, mas seja ele qual for o que interessa é a vitória. Vamos, Portugal!!!

28
Nov22

O bi-bota


Pedro Azevedo

Falar de Fernando Gomes é invocar alguém que foi um campeão no futebol e na vida. Nos relvados fez parte da equipa do FC Porto que inverteu um ciclo negativo de 19 anos e finalmente venceu o campeonato nacional. Tomou-lhe o gosto e no ano seguinte voltou a ganhar o máximo título português. Era ainda o tempo de Américo de Sá como presidente. Pinto da Costa, no banco, era o director para o futebol. José Maria Pedroto, o sagaz Zé do Boné, a sua grande referência, o treinador. Com Pinto da Costa e Pedroto protagonizou a grande cisão, treinando à parte durante um verão quente que viria a culminar na vitória de Américo de Sá e no retorno dos jogadores ao clube (Oliveira foi para Penafiel, o capitão Rodolfo havia ficado desde o primeiro momento nas Antas). Mas o reencontro estava para breve. No entretanto,  Pedroto foi treinar para Guimarães, Pinto da Costa iniciou uma breve travessia no deserto e Gomes foi vendido ao Sporting de Gijón. Das Astúrias regressaria como trunfo eleitoral de Pinto da Costa (como Pedroto) quando este disputou e ganhou a presidência a Américo de Sá. Já capitão da equipa, iniciou aí um novo ciclo, com mais 3 campeonatos nacionais, duas Taças de Portugal e três Supertaças. Em Portugal, porque na Europa conquistou uma supertaça europeia e os títulos de campeão da Europa e do Mundo, individualmente ganhando ainda 6 Bolas de Prata e duas Botas de Ouro que consagraram o melhor marcador europeu. Por fim, após um desaguisado que envolveu Octávio, Gomes viu o seu contrato com o Porto terminar. Veio então para o Sporting, onde acabou a sua carreira de futebolista ainda num bom plano.   

 

Se no campo sempre se destacou pela inteligência com que antecipava os lances, na vida evidenciou-se pelo seu forte carácter. Tal foi, aliás, notório na sua passagem pelo Sporting, clube que honrou e respeitou com elevado profissionalismo, sempre elogiando e agradecendo o carinho dos seus adeptos, nunca deixando porém de salientar que o seu coração morava nas Antas, amor incondicional a um clube aí já caído em desuso para a maioria dos seus colegas de profissão. Terminada a sua carreira de futebolista, acreditou-se que um dia regressaria ao seu FC Porto como dirigente. Todavia, vitima do calculismo e da pequena política, esse retorno foi sendo sucessivamente adiado. Até que Pinto da Costa finalmente o chamou e Gomes pôde marcar o seu último golo, vendo uma equipa da formação do seu clube do coração sagrar-se campeã europeia. 

 

Homem com H grande, a sua voz de barítono cativava quando se fazia ouvir. Porem, seria através da gestão dos silêncios, na forma como soube sofrer em recato as injustiças da vida (incluindo as desportivas), que mais viria a tocar este adepto do Sporting. Foi um senhor. E como senhor que foi, aqui lhe deixo a minha mais sincera homenagem. Ganhou o céu um anjo, e como anjo certamente goleará por toda a eternidade. (Com a vantagem de se dizer que os anjos não têm costas, assim não podendo ser apunhalados por trás.)

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25
Nov22

Tudo ao molho e fé em Deus

Doha a quem doer


Pedro Azevedo

A FPF delegou numa empresa privada, a Femacosa, a gestão da sua principal equipa de futebol. O gerente dessa empresa é o simpático Engenheiro Santos (santinho!), que em dia de treino ou de jogo adquire a personalidade do seu maléfico altar-ego, o senhor Femacosa, à boa maneira de uma novela gótica com elementos de ficção científica e de terror. (Sendo a Selecção Nacional a "Equipa de todos nós", na expressão feliz de Ricardo Ornellas, doravante tratemos carinhosamente a empresa que a gere por "Femacosa Nostra".)

 

Ontem, a Femacosa Nostra foi a jogo. Os jogos da Femacosa Nostra são como os melões: tanto dá para empatar ou perder com as Ilhas Salomão como dá para empatar ou ganhar à França. Tudo na verdade obedece a uma aleatoriedade capaz de desafiar a epistemologia das coisas. Com a Femacosa Nostra ganha-se como se perde ou se empata: não desse o árbitro um penálti ou não escorregasse o Williams na hora de surpreender o Diogo Costa e estaríamos agora a lamentar um empate ou uma derrota num jogo em que tivemos tudo para golear. Mas não goleámos. Primeiro, porque demos uma parte do jogo de avanço, renunciando a provocar desequilíbrios que na mente do gerente da Femacosa Nostra nos desequilibrassem a nós. (A Louis Vuitton deveria deixar-se de Ronaldos e Messis e convidar o Engenheiro Santos para defrontar o senhor Femacosa no tabuleiro do xadrez.) Segundo, porque finalmente por cima do jogo, o senhor Femacosa decidiu aliviar a pressão no meio campo e fazer entrar um passeante, o William de Carvalho, permitindo-lhe assim fazer a digestão do almoço no relvado de Doha. Terceiro, porque ter Bernardo Silva e obrigá-lo a vir buscar a bola junto dos centrais desafia qualquer lógica de Jogo Posicional e desgasta desnecessariamente uma unidade que deveria ser resguardada para fazer a diferença na frente (e não atrás). Quarto, porque aos evidentes erros de casting do plantel, para uma competição com estas condicionantes de temperatura e humidade, seguiu-se as já habituais inações e atrasos nas decisões que viram Matheus não sair do banco ou Rafael Leão entrar já tarde no jogo, dois jogadores com aquilo que qualquer Selecção presente neste Mundial necessita para ter sucesso: explosão com bola. No entretanto, o Otávio e o Ruben Neves nunca pegaram no jogo, os laterais não arriscaram no 1x1 e os extremos fugiram das alas e assim afunilaram o nosso jogo. Defensivamente, os erros somaram-se, como é bom exemplo o primeiro golo ganês: a bola passou, primeiro, pela frente de Ruben Dias sem que este a interceptasse e, depois, por entre as pernas de Danilo. 

Foi já com Leão aberto na esquerda e Félix na direita que Bruno Fernandes encontrou espaço para si próprio no miolo do campo para endereçar dois passes açucarados para golo, com os africanos centrados na marcação a Ronaldo. Ronaldo que ganhou um penálti, viu um golo aparentemente limpo ser anulado pela precipitação do árbitro e ainda teve duas oportunidades negadas pela excelente acção do guarda-redes do Gana. Numa delas, sprintou em 30 metros, deixando um defesa colado aos blocos. Pelo meio, elevou-se e falou aos pássaros como só ele sabe. Nada mau para um ancião (dizem eles)... Ronaldo que deu sempre a sensação de ser o inimigo público número 1 para os géneses. Uma vez mais emocionou-se e emocionou o seu povo, pelo menos aquele povo que valoriza o mérito e não se revê na inveja e na perfídia. "Once Ronaldo, always Ronaldo" - os seus críticos ainda vão ter de "levar com ele" mais algum tempo. Entretanto, lá bateu mais um recorde, com golos em 5 fases finais de mundiais de futebol. Despedido por um clube à venda e injustiçado por uma narrativa de não haver quem o compre, Ronaldo simbolicamente ergueu-se sobre um Messi que o olhou embevecido. Não surpreendeu, porque os grandes sabem reconhecer-se entre eles. Força Femacosa, força Federação, uma entidade de utilidade pública. (Se fosse púbica, contratava-se o John Holmes e o problema estaria resolvido sem hesitações.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": Ronaldo 

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24
Nov22

A ver o Mundial (II)

Kaput!!


Pedro Azevedo

A revolta da bola quadrada prossegue em bom estilo no Mundial do Qatar e ontem a vítima foi a Alemanha. Mais do que derrotados, os germânicos foram derretidos pelas constantes acelerações nipónicas. Muito mérito para Moriyasu, o treinador japonês, que, primeiro, fez entrar mais um central de forma a adiantar os laterais e, depois, lançou o irrequieto Asano (olho para este jogador e vejo a falta que potencialmente Vitinha, o do Braga, pode vir a fazer à nossa Selecção) para dinamitar os panzers alemães. A reviravolta foi concluída em lance onde foi evidente que o cansaço físico dos teutónicos teve consequência a nivel da rapidez de raciocínio, produzindo-se assim um erro básico que custaria a derrota aos alemães.

 

Surpreendente, ou talvez não (fez uma óptima campanha de qualificação), foi a prestação do Canadá face à Bélgica. Com um impressionante primeiro tempo, período em que os belgas raramente conseguiram passar o seu meio campo, os canadianos tiveram inúmeras oportunidades de sentenciar o jogo. Todavia, em termos de finalização foi um Canada Dry, o que associado a uma única desatenção defensiva (por parte do nosso bem conhecido Steven Vitória, que em tudo o mais foi irrepreensível) lhes viria a ser fatal. Registe-se, porém, a estatística de 21 tentativas de golo contra apenas 9 dos belgas, números que em condições normais teriam sido mais do que suficientes para garantir a vitória canadiana. Além do mais, os norte-americanos não tiveram sorte com o árbitro, zambiano por sinal, ficando duas grandes penalidades por marcar a seu favor. Para lá dos já bem conhecidos Alphonse Davis (Bayern, falhou em penalty), Jonathan David (Lille) e Eustáquio, nos canadianos igualmente destacou-se o ala Buchanan, uma dor de cabeça constante para os belgas. Estes acabaram salvos pelo desacerto na decisão por parte do Canadá e por mais uma grande exibição de Courtois, um polvo na baliza. 

 

Marrocos esteve também em bom plano, merecendo amplamente o empate contra a vice-campeã mundial Croácia. A falta de um ponta de lança um pouco melhor do que El Nesyri terá custado a vitória aos magrebinos, apesar das boas intenções de Ziyech de assistir para golo. Com dois laterais muito rápidos e empreendedores (Hakimi e Mazraoui), um médio de inesgotável energia e elevado sentido posicional (Amrabat) e outro de enorme qualidade técnica (a revelação Amallah), os marroquinos deixaram água na boca. Nos croatas, Modric destacou-se como quase sempre.

 

O Espanha-Costa Rica não teve história. Os centro-americanos são provavelmente a equipa mais fraca da competição, pelo que não surpreendeu que a Espanha não tivesse encontrado oposição. Todavia, tenho a expectativa de os ver contra o Japão, uma equipa capaz de produzir as acelerações que poderão desorganizar o jogo cerebral dos "nuestros hermanos". 

 

Revelação: Marrocos, Japão, Canadá

 

Confirmação: Espanha

 

Desilusão: Alemanha, Bélgica

 

A rever: Croácia

 

Mais fraco: Costa Rica

 

Desequilibradores: Asano (Japão), Buchanan (Canadá)

 

Homens-golo: Ferran Torres, Batshuayi 

 

Revelação jogador: Amellah (Marrocos)

 

Jogo a seguir hoje: Portugal-Gana

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23
Nov22

A ver o Mundial (primeiras impressões)

O triunfo da bola quadrada


Pedro Azevedo

Os primeiros dias do Qatar 2022 confirmaram o que eu havia antecipado aqui. Uma bola que passe a 1 cm do pé é uma bola perdida, e de um modo geral notam-se grandes dificuldades individuais na marcação e em receber no espaço. Adicionalmente, do ponto de vista colectivo, não se vê uma pressão efectiva no campo todo, pelo menos nada que minimamente se compare com o que estamos habituados nos principais campeonatos europeus. A equipa mais agressiva até agora foi a americana, mas rebentou no segundo tempo. A nível de jogadores, comprova-se que este Mundial favorece quem tem explosão com bola, pelo que Saka, Sterling, Rashford, Dembélé e Mbappé deram fortemente nas vistas. Nesse sentido, preocupa-me que Portugal, do meio campo para a frente, tenha apenas Matheus Nunes e Rafael Leão como jogadores capazes de quebrar linhas em velocidade de progressão. Sendo certo que a lesão de Jota foi uma infelicidade que se abateu sobre a nossa Selecção, já pouco compreensível foi não levar Gonçalo Guedes (substituto natural do auto-excluído Rafa) e Renato Sanches. A meu ver temos um lote indiscutível de grandes jogadores, porém muitos funcionam a diesel. Só que estamos no golfo, as condições de temperatura e de humidade são muitos especiais e, por isso, temo que este seja o Mundial dos motores de combustão, a gasolina. Assim sendo, não estou muito confiante na nossa prestação, mas oxalá esteja redondamente enganado. 

 

A grande surpresa até agora da competição foi a derrota da Argentina (estava há 36 jogos invicta) aos pés da Arábia Saudita, uma grande contrariedade para Messi no seu último Mundial e uma alegria esfusiante para uns sauditas que logo decretaram feriado nacional. O triunfo da bola quadrada, como diria o saudoso Carlos Pinhão. De destacar o grande golo de Al Dawsari, o melhor do certame até agora. Corajosos, os pupilos do aventureiro Renard, uma espécie de Corto Maltese do futebol mundial, mantiveram sempre as linhas muito juntas, reduzindo assim os espaços aos sul-americanos, ainda que para tal tivessem tido que correr o risco de dispor o bloco defensivo praticamente em cima do traço divisório do meio campo. Em bom plano esteve igualmente a Tunísia, que impôs um empate a uma das selecções que mais entusiasmara até aqui (qualificação para o Mundial e último Europeu), a Dinamarca, mostrando uma bela organização de jogo, frescura física e jogadores capazes de fazer a diferença, como Msakni (*), Jebali e Sliti, este último uma descoberta do português Rui Almeida quando treinou o parisiense Red Star. Na linha aliás do que já havia mostrado o Senegal, a quem apenas terá faltado Mané para dar sequência ao bom caudal de jogo dos africanos. 

 

Hoje ficou também a saber-se que Cristiano Ronaldo e o Manchester United terminaram a sua ligação. Ainda a propósito de CR7, e já que a competição se desenrola em terra onde o petróleo é rei, pode ser que aquele que alguns (não eu) já dão como fóssil venha a fazer uma gracinha. A sua explosão, ainda que já somente em espaços curtos, está lá, pelo que resta-nos aguardar. A ver vamos. (Continuo a pensar que este será o Mundial dos jogadores, aquele em que as acções individuais decisivas terão uma preponderância maior do que aquilo a que estamos habituados.)

 

Revelação: Arábia Saudita, Tunísia 

 

Confirmação: Inglaterra, França

 

Desilusão: Argentina 

 

Interessante: EUA, Dinamarca, México 

 

A rever: Equador, Senegal, Países Baixos, Polónia, Gales

 

Mais fracos: Qatar, Irão, Austrália 

 

Desequilibradores: Mbappé, Saka

 

Homens-golo: Taremi, Giroud

 

Jogo do dia: Marrocos-Croácia

 

(*) Como curiosidade, Msakni partilha o segundo lugar na lista de goleadores do campeonato do Qatar com o ex-portista Brahimi (5 golos). O melhor marcador é... Gelson Dala (8 golos em 7 jogos). 

 

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20
Nov22

A insustentável leveza do Ser português


Pedro Azevedo

A histeria colectiva sobre os direitos humanos a propósito da realização do Mundial de Futebol no Qatar é reveladora da hipocrisia da sociedade portuguesa, tão solícita a acompanhar a última moda mundial de Outono-Inverno da moral e dos princípios e tão pródiga no esquecimento das condições existentes no seu próprio país. Sim, focamo-nos no que se passa no médio oriente e olvidamos o que ocorre aqui ao pé de nós, no ultra ocidente (europeu), onde à boa maneira de Groucho Marx se traficam os princípios: "Estes são os meus princípios, se não gostarem deles eu tenho outros", que é como quem diz, "Ah, e tal, os estádios e assim... mas agora concentremo-nos no Campeonato do Mundo". E por que deveria ser diferente? Afinal, nós somos o país onde existem dezenas de inquéritos abertos por suspeitas de crimes relacionados com a exploração de imigrantes, tráfico de pessoas, em que cidadãos estrangeiros são espancados até à morte num aeroporto e mais de cinco centenas de agentes da autoridade disseminam o ódio e expressam simpatia por ideais de extrema direita na redes sociais. E somos também os mesmos que deixam isolados e desesperançados todos aqueles que não alinham na moscambilha, no conflito de interesses e tráfico de influências, na pequena corrupção. A quem vemos com maus olhos e a quem tomamos como tolos, quanto mais não seja porque assim expõem e mostram à saciedade a insustentável leveza do nosso Ser e a nossa ancestral hipocrasia disfarçada com umas alegadas moral e bons costumes que nunca passam do adro da igreja, ou não fossemos também o país onde um inquérito conduzido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, curiosamente apenas reproduzido pela TSF, mostra que a meritocracia pouco ou nada pesa na ascensão de um profissional nas empresas. E o que resta a quem não se revê no sistema? O abandono, à mercê do populismo primário de um Chega ou da inconsistência ideológica de uma IL, que ninguém quer saber até porque o problema é o Qatar. Sabem o que vos digo? Vão-se catar!

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14
Nov22

Tudo ao molho e fé em Deus

Mixórdia de temáticas


Pedro Azevedo

Caro Leitor, a semana começou com o sorteio da Liga Europa e eu conheci o nome do nosso oponente antes da cerimónia em si. Não, não foi em sonhos nem teve a ver com o "sortilégio" ou manha das bolas quentes e frias, embora o clube dinamarquês que nos calhou em sorte fosse o mais desejado. Acontece que há uns dias atrás eu havia tido uma consulta no meu oftalmologista. E o senhor doutor pôs-me a olhar para uma parede iluminada onde se projectava um amontoado de letras soltas. Às tantas, pediu-me para eu as soletrar, uma a uma: M I D T J Y L L A N D. Foi então que tive a epifania. Entretanto, se o meu diagnóstico foi 20/20, o nosso só pode ser a passagem aos oitavos. Mas como é conhecida a nossa miopia de cada vez que nos é pedido para ver mais longe, o melhor mesmo é continuarmos a olhar de perto, jogo a jogo, assim Deus nos livre da hipermetropia que nos acomete de cada vez que o Braga e o Porto estão mesmo ali ao dobrar da esquina.  

 

Ainda durante a semana foram anunciados quase todos os convocados do Sporting para as selecções que vão disputar o Mundial do Qatar. Assim, teremos o Coates e o Ugarte pelo Uruguai e presumivelmente o Fatawu pelo Gana, ambos do grupo de Portugal. E o Morita alinhará pelo Japão. Por Portugal é que nada, nem um dos nossos. O meu medo é que os futuros jogadores lusos do Sporting comecem logo a pensar naturalizar-se por outro país no acto da assinatura de contrato. Por exemplo, arranjando uma canária para poderem jogar por Espanha. Ou, crescendo para umas suiças, de forma a alinharem pelo país da banca e do chocolate. Como não se chamam Otávio ou Pepe, não correriam o risco de virem a ser chamados pelo Engenheiro. Sim, porque o Coates teria que nascer 100 vezes para tirar o lugar ao António Silva - "Ó Evaristo, tens cá disto?". (O Fernando Santos como cómico - apesar daqueles trejeitos de pescoço e da fantástica rábula do IRS - também teria de nascer 100 vezes para tirar o lugar ao António Silva.)

 

Ontem terminámos o nosso aquecimento para o campeonato nacional em Famalicão. Para não variar o Amorim fintou toda a gente e lá inventou uma equipa capaz de dar cabo do Placard ao apostador mais ousado. O Edwards e o Arthur, que haviam sido os melhores contra o Casa Pia, foram para o banco. E o St Juste fez os 90 minutos. O caso do neerlandês então é paradigmático: o homem andava a jogar a espaços, porque havia perdido a pré-época por lesão e alegadamente precisava da paragem para o campeonato do mundo para recuperar a melhor condição física. E o que aconteceu? Agora que a paragem está à porta, abrindo-lhe essa janela a possibilidade de poder ser totalmente recuperado sem risco de recidivas em competição, pela primeira vez jogou o tempo todo. (Ao Gabinete de Performance o que é do Gabinete de Performance, ou ainda alguém se lembra de convocar para aqui os laboratórios Azevedos.) Felizmente nada de mais aconteceu para além de um golo do Famalicão. Podia ter sido um tiro no pé, assim foi só um auto-golo. (Azares à parte, a defesa foi de longe o nosso melhor sector, com Inácio a salvar um golo certo, Coates imperial sobre a terra e sobre o ar e o Jeremias igualmente bem.)

 

O Morita ganhou uma bola que o Paulinho endereçou para a baliza deserta. Só que o Trincão intrometeu-se e sobre a linha sacou o golo ao nosso necessitado ponta de lança. Conclusão: eles até podem ter sido colegas em Braga, mas cá para mim o Trincão é um amigo de Peniche. Para o Paulinho, que não para o Pote que aproveitou um penalty saído dos pés do ex-culé. Depois, o Morita viria a marcar um golo. A coisa na televisão pareceu limpinho, limpinho. Até o Freitas Lobo, meio resignado, o confirmou. O Euclides, o Euler e o Gauss também. Mas depois veio o VAR. E comeu-o. E lá foram o Pai Natal e o palhaço no combóio ao circo. Enfim, (terão sido só) fantasias de Natal...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Seba Coates

 

PS: Outra fantasia de Natal é haver árbitros portugueses no Qatar. O Lineker é que não conhece bem isto, se não saberia que em Portugal o futebol são onze contra onze e no fim ganha o amarelo (também onze, ontem em Famalicão). 

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11
Nov22

Os nossos convocados


Pedro Azevedo

Ao ver a convocatória do Engenheiro Fernando Santos para o Mundial alguma apreensão me assalta. Em primeiro lugar verifico não haver nenhum central esquerdino. Gonçalo Inácio poderia ter sido opção para essa posição, sendo a sua comprovada polivalência uma mais-valia numa prova tão curta. Relembro que durante a sua formação, e mesmo na equipa B, o Gonçalo foi utilizado muitas vezes como lateral esquerdo. Ora, atendendo ao histórico de lesões de Raphael Guerreiro e aos frequentes problemas musculares de Nuno Mendes, seria prudente ter um jogador que numa emergência pudesse fazer a posição. Mas o Gonçalo nem na época de ouro do Sporting (20/21), em que assumiu a indiscutível titularidade na defesa leonina, foi opção para o Engenheiro, o que nos deveria fazer pensar no que queremos para o cargo de seleccionador, que isto da mulher de César não lhe basta ser e o que parece é que lá para Carnide uma bem medida dúzia de jogos basta para ascender qualquer alma à equipa de todos os nós (não confundir com a Equipa de Todos Nós, brilhante epíteto que em boa fé o jornalista Ricardo Ornellas um dia criou para designar a nossa Selecção). 

 

Depois, no meio campo escasseiam jogadores que consigam imprimir uma mudança de velocidade, um pormenor que pode fazer toda a diferença numa competição que vai ser disputada em condições climatéricas muito exigentes e onde se antevê um grande desgaste dos jogadores. A maioria dos convocados são jogadores a diesel, com João Mário e William como expoentes máximos dessa realidade. De combustão apenas o Matheus Nunes, sem esquecer a intensidade sobre a bola do Palhinha e a rotatividade de Otávio, de Vitinha e de Bruno Fernandes. Parece-me que um jogador com as características de Renato Sanches daria um outro tipo de soluções, na medida em que abanaria com o jogo dada a sua explosão. Na frente, o Bernardo Silva deve ser deslocado para a ala direita, presumivelmente sendo alocado o lado esquerdo ao Rafael Leão, o único jogador equipado com uma caixa de ritmos, ficando Ronaldo como ponta de lança. Nesse sentido, estou em crer que a perda de Jota reflectir-se-á numa menor espontaneidade na hora de atacar a baliza adversária, o que não deixará de se lamentar. Pedro Gonçalves é uma ausência notada, ele que mesmo quando em super forma durante todo o ano só à última da hora foi chamado à Selecção para depois ser olimpicamente abandonado no banco de suplentes durante o último Europeu. Aliás, eu penso que o seu menor momento de forma tem muito a ver com a condicionante psicológica, sendo que o constante ignorar das suas boas prestações por parte do seleccionador nacional não terá contribuído em nada para lhe elevar o moral. De qualquer forma, não há muitos jogadores com a inteligência de Pote, a sua leitura do que é necessário fazer no espaço entre-linhas e a facilidade em acertar na caixa de baliza, pormenores que evidentemente foram marginalizados na escolha de Fernando Santos. Também penso que nos falta um outro tipo de ponta de lança para quando a opção for colocar Ronaldo a partir da ala. Surpreendentemente, o Seleccionador nunca deu uma oportunidade a Beto, actual quarto melhor marcador de uma campeonato do Big 5 (Serie A) a par de craques como "Kvaradona" (Nápoles), Immobile (Lazio) ou Vlahovic (Juventus). O que Beto tem, e outros não têm, é velocidade na condução de bola em transição e óptimo jogo de cabeça, características díspares que se adaptariam a diferentes contextos dos jogos. Vitinha, do Braga, é outro jogador que nem testado foi, o que não se compreende. A sua energia inesgotável poderia vir a ser muito útil no Qatar, ele que é assim como um panzer, um jogador à alemã e que erode as defesas. Tivemos em tempos um médio com características muito próprias dos teutónicos (Maniche) e não parece que esse contraste nos tenha feito nada mal. É incrível como este Seleccionador foi capaz de chamar quase uma equipa inteira do Wolverhampton e nunca deu uma oportunidade a Beto ou Vitinha no espaço da Selecção. Curiosamente, riscou agora o Gonçalo Guedes, recentemente adquirido pelos Wolves, que seria o jogador mais semelhante ao indisponível Rafa e um daqueles capazes de pôr velocidade no jogo. Opções, certamente, de quem tem muito tempo para pensar, quando a sua atenção não está focada em elisão fiscal (chamemos-lhe assim), claro, o que não é assim muito católico atendendo ao nosso modelo e condicionantes sociais.

 

PS: Entretanto, Coates e Ugarte foram confirmados nos 26 do Uruguai e Morita foi seleccionado pelo Japão. Adicionalmente, Fatawu é forte possibilidade no Ghana. Não descurando ainda a remota probabilidade de Porro vir a ser chamado por Espanha, eles são os nossos convocados para o Mundial do Qatar. 

10
Nov22

Vem aí o Mundial


Pedro Azevedo

Vem aí o tão controverso quanto incontornável Mundial do Qatar. Independentemente de todos os aspectos negativos que rodeiam esta competição desde que ficou conhecido que a FIFA atribuiu a sua organização a este país do médio-oriente, um mundial de futebol é sempre o nirvana dos adeptos do desporto-rei. Por isso, é com expectativa que estes aguardam o início da prova. Haverá novidades importantes do ponto de vista táctico? Que países surpreenderão? Terá chegado o tempo das seleções africanas? À partida, atendendo às condições climatéricas, este mundial poderá ser um hino aos craques da bola. Pelo menos levando em linha de conta o que ocorreu em Espanha (82) e especialmente no México (86), competições onde os jogos foram disputados sob um calor tórrido, condicionante atmosférica que impediu marcações tão cerradas como seriam aquelas que se poderiam encontrar noutras latitudes. Privilegiando assim a emergência do génio de um Diego Armando Maradona, mas também o futebol sambado de Zico e de Sócrates ou o perfume que Platini deixava quando deslizava suavemente pelo terreno. Se aconteceu antes, bem pode ocorrer de novo. Pelo que não deixo de fora a possibilidade de este ainda vir a ser o Mundial de Messi, Neymar ou, até mesmo, Cristiano Ronaldo, os velhos guerreiros que querem deixar uma última impressão antes do render da guarda. Mas também poderá ser o Mundial dos jovens lobos, que potencialmente imortalizará Mbappé, Havertz, Foden, Mount ou Pedri, entre outros. De Portugal aguardo com entusiasmo a forma como o futebol de Bruno Fernandes e de Bernardo Silva se adaptará às condições existentes. E penso que haver quem queime linhas como Matheus (mais) ou Sanches (menos) pode vir a ser um factor determinante. Por isso, pese embora duvide muito que o Engenheiro Santos alguma vez venha a optar por esse caminho, eu não abdicaria nunca do duo Palhinha/Matheus no centro do campo, deixando depois espaço para que os criativos em zonas mais avançadas do terreno façam o resto. De entre estes, a grande incógnita para mim é o Rafael Leão. Irá ele ao encontro do patamar que o seu enorme talento há muito augura ou passará sem glória por uma competição cujas condições parecem ter sido criadas para favorecer jogadores como ele? Dentro de algumas semanas teremos a resposta. (Assim tenha ele cabeça, que é coisa que no passado recente lhe falhou flagrantemente.)

03
Nov22

O exemplo que vem dos maratonistas


Pedro Azevedo

Quando o conjunto de objectivos por onde globalmente se mede o sucesso ou insucesso de uma temporada desportiva vai mostrando um progressivo grau de incumprimento, o normal é dizer-se que a época está perdida, que já não resta nada para ganhar. Na minha opinião, tal não é correcto. Vou passar a explicar o meu ponto-de-vista: mesmo que eventualmente nada mais haja a ganhar, há ainda muito a perder. Desde logo perda de prestígio, prejuízo e degradação da imagem da instituição, redução de valor dos futuros contratos de patrocínio ou publicidade, menores assistências aos jogos e desagregação de sócios e adeptos, caso a inexistência de objectivos crie o vazio. É, por isso, necessário que se promova um reaggiornamento, que se preencha esse vazio e se evite o limbo. Para tal, é necessário que o balneário dê sinais de reacção à adversidade, de que é possível dar a volta à situação e terminar a época de uma forma auspiciosa. Mas como motivar uma equipa que vem apresentando resultados tão deprimentes? Bom, aqui socorro-me do exemplo dos maratonistas: por volta dos 30-35 km estes são usualmente acometidos de "dor de burro", um efeito provocado pela deficiente oxigenação (mas há também quem a sinta logo no início da corrida, geralmente devido a um mau aquecimento, como será metaforicamente o caso presente). Ora, nesses momentos o maratonista deixa de se fixar na meta (objectivo) e começa a estabelecer metinhas intercalares (objectivos intermédios), do tipo Km a Km, que são como pequenas vitórias, superações, que lhe vão dando o moral para chegar ao destino final. Eu penso que é isso que Rúben e os jogadores deverão fazer, desligando todo o pensamento na classificação final do campeonato e das provas a eliminar que ainda subsistem e focar toda a atenção e dirigir todos os esforços para o próximo jogo. E depois, o seguinte. Reeditando assim o slogan do "jogo-a-jogo", jogando cada partida como se fosse uma final e assim prestigiando o símbolo do leão rampante que cada um transporta na camisola. Se isto for bem feito, o efeito carambola de motivação pode até vir a trazer-nos uma agradável surpresa no final da época. E, se ainda assim não chegar, pelo menos não se perderá mais nada do que aquilo que já ficou pelo caminho. 

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02
Nov22

Tudo ao molho e fé em Deus

O Trio de Performance e a compensação pelo Matheus


Pedro Azevedo

Caro Leitor, ontem foi o dia em que se ficou a conhecer que o contrato de venda do Matheus Nunes aos Wolves afinal tinha uns pozinhos extra não divulgados à Comissão de Valores. Bem sei, geralmente os contratos têm adendas às cláusulas que prevêm que se um jogador fizer um determinado número de jogos ou atingir um certo objectivo no novo clube, então o clube de origem terá direito a uma compensação adicional. O invulgar aqui é que esse "contrato", a que só o Castigo Máximo teve acesso, indica que se o Matheus Nunes não fizer um determinado número de jogos pelo Sporting esta temporada, então o clube verá substraídos no mínimo cerca de 10 M€ (não passagem aos "oitavos"), valor que ascenderá até aos 49 M€ (estimativa face ao Proveito da Champions em 21/22) na próxima época caso não acedamos à Champions, razão pela qual, feitas aqui umas contas à pressa, a venda de Matheus Nunes (45 M€ brutos) terá rendido ao Sporting qualquer coisa como -14 M€, ou seja, ainda termos de pagar 14 M€ pela sua saída (acrescido de comissões de intermediação ao agente Mendes). Um grande negócio(€)!

 

Foi também um dia para se perceber que uma unidade de Performance é pouco. Talvez duas ainda sejam insuficientes, pelo que o melhor será não olharmos a custos e por via das dúvidas estabelecermos três, um trio. Como os trios aliás são do nosso agrado e estão na moda, seja na defesa, no ataque e na própria estrutura (Varandas, Viana, Amorim), cria-se já aqui o Trio de Performance, alinhando assim espiritualmente a mente (placebo), o corpo e a alma (que os Sportinguistas desde cedo ouviram dizer ser o segredo do negócio). Assim talvez possamos resolver o problema do inusitado número de lesões até ver nesta época, a saber: Guarda-redes: Adán; Defesas: St Juste, Coates e Neto; Laterais/Alas: Porro e Nuno Santos; Médios: Ugarte, Bragança e Morita; Interiores: Jovane: Ponta de Lança: Paulinho. Uma equipa inteira, um 3-5-2 que poderia ser adaptado ao 3-4-3 com a passagem do Daniel para interno (do hospital/enfermaria). Um Onze de Lesionados, muitos deles de uma forma crónica (cómica?). É obra! [Mas duvido que passe proximamente na Sporting TV ou em acções de propaganda (médica).]

 

Continuando nos trios, há alguns famosos que nos poderiam servir de inspiração, como por exemplo "Os 3 Mosqueteiros" de Dumas ou o Luke Skywalker, a Princesa Leia e o Han Solo da saga da Guerra das Estrelas. Temo, porém, que ainda acabemos a cantar o "Anel de Noivado" - A igreja estava toda iluminada... - d'O Trio Odemira e a lamentarmos que o nosso outrora amado (Amorim) venha a casar com outro. É que, se virmos bem, substituição por substituição nunca produziu bem algum. Principalmente após lideranças estrategicamente pensadas e instituídas (e não de transição, como as originadas pelas trocas de Rodrigues Dias por Fernando Mendes ou de Materazzi por Inácio), como aliás a actual, do Rúben (embora cinco treinadores numa época se pudessem considerar uma transição rápida, acredita-se que a coisa se circunscreve melhor no domínio da Twilight Zone, que já se sabe tinha muito suspense, fantasia e uma moral no fim), personificadas à época por Mário Lino, Malcolm Allison e Lazlo Boloni. E se após Lino "só" ficámos 6 anos sem ver o Caneco, depois do inglês e do romeno houve uma seca de 18 e 19 anos, respectivamente. Assim, mal por mal, é melhor deixar ficar como está, até porque sabemos que o "como está" já "esteve muito bem" e se calhar só precisa de descanso, momento que está a chegar com a pausa para o campeonato do mundo. 

 

O que já ninguém me tira é o stress causado pela troca do "jogo-a-jogo" pelo "já estamos a preparar a próxima época". (Seria bom que o descanso e o afastamento necessários trouxessem algo de novamente esperançoso na rentrée.) É que se os 3 meses do defeso passado originaram prematuramente a burrada que se conhece, imagine-se o parto que uma gestação de 9 meses não pode vir a produzir... E como serão utilizados esses 9 meses? Para nos reafirmarem não ser necessário um ponta de lança? Para continuarmos a procurar Minimeus ou Leprechauns no mercado? Não sei, mas eu desconfio que estes Leprechauns nos esconderam o Pote de Ouro. E, sem Pote de Ouro, não há golo, kaput! (Eintracht/Champions.)

 

Tenor "Tudo ao molho...": o Rei Arthur

 

P.S. Perdemos este jogo com um penalty ridículo e um golo sofrido de forma demasiadamente fácil. O resto foram 90 minutos de luta, com o mínimo dos mínimos de discernimento.

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01
Nov22

Sem saco para a conversa do dinheiro e com a noção do porquê do Sporting


Pedro Azevedo

Hoje não é o dia para relembrarmos o início de época menos conseguido, muito menos para antecipadamente prepararmos uma desculpa para um eventual insucesso com base no nosso histórico na Champions, hoje é, sim, o dia para nos levantarmos uma e outra vez até que os cordeiros voltem a ser leões e se cumpra o desígnio, o lema enunciado por José Alvalade: "Tão grandes como os maiores da Europa". Porque, como um certo dia afirmou um senhor que percebia alguma coisa de futebol (Cruijff), eu nunca vi um saco de dinheiro a ganhar um jogo. Então, tenhamos consciência e orgulho do nosso passado, confiança no presente e a ousadia para não falharmos o encontro com o nosso profetizado futuro. Assim, logo à noite, exibamos a nossa força, ou, como diria o imortal António Silva (the one and only, o nosso): "Aí, Leões!!!". Spoooooorting!!!

 

PS: Nós somos o clube de Peyroteo, o melhor goleador da história do futebol mundial, dos 5 Violinos, de Figo e de Ronaldo, do Livramento e do Chana, de Agostinho e do campeoníssimo Carlos Lopes. É, por conseguinte, mais do que o tempo de abandonarmos o discurso sistematicamente miserabilísta e exortarmos e procurarmos emular o melhor de quem nos serviu ao longo da nossa história gloriosa. Sim, porque o Sporting não nasceu com Varandas ou Bruno, nem  mesmo com João Rocha ou Ribeiro Ferreira (o presidente que venceu mais campeonatos de futebol), e o nosso ADN sempre foi ganhar (a Formação é uma via, um meio para a sustentabilidade, nunca o ADN do clube como tantas vezes vejo escrito erradamente por aí). E a nossa alma não é o "segredo do negócio", mas sim o segredo da perseverança dos nossos adeptos, da sua resiliência, do seu amor ao clube. Amor esse que, como qualquer amor que se preze, não é negociável, não se vende, não se hipoteca a outros valores(€). Haja noção!!!

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30
Out22

Tudo ao molho e fé em Deus

O Professor Pardal e o Lampadinha


Pedro Azevedo

Para algumas pessoas que seguem o futebol tudo se circunscreve a sorte ou a azar (ou ao árbitro). Por exemplo, jogamos com um ponta de lança que por acaso (claro!) é um extremo e por azar (obviamente!!) só tem 1,69m e não se chama Romário e queixamo-nos da falta de sorte na finalização, quando, se calhar, deveríamos pensar que se tivéssemos um ponta de lança que não fosse um extremo, não se chamasse Paulinho e tivesse 1,85m como o Rodrigo Ribeiro estaríamos mais perto de ter mais sorte nas finalizações. Mas isso sou eu que digo, que não sou treinador nem tive de passar por aqueles cursos complicadíssimos que fazem com que o senhor José Pereira dê prova da sua existência. (A ASAE deveria investigar o conteúdo desses cursos porque parece-me que o Amorim se estragou e está muito menos fresco desde que ficou com nível.) Porque esta coisa de correlacionar um ponta de lança com o golo deve estar errada desde o início. Porém, eu, que ainda sou do tempo do anúncio do Restaurador Olex - "Um preto de cabeleira loira ou um branco de carapinha não é natural" - , não me conformo e sou capaz de achar um bocadinho de invencionice as peças estarem fora do seu sítio natural, como se num Banco o Compliance andasse a fazer investimentos por conta dos clientes e a Gestão de Activos tratasse da contabilidade, ou num hospital o nefrologista operasse o coração e o estomatolista fosse para o refeitório descascar dentes de alho (olho por olho, dente por dente, se o Coates por ser alto é recomendável para ponta de lança...). Todavia, na vida encontramos sempre pessoas com um espírito revolucionário e ego suficiente para baralhar e dar de novo. Quando acertam, elevam-se a génios, se falham redondamente há sempre uma qualquer desculpa que justifique o insucesso. Simplesmente, não há desculpa que esconda a má percepção da realidade por parte de quem lidera. E a dificuldade consequente de aceitar a derrota e arrepiar caminho só cria atalhos para a invenção, com apostas cada vez mais altas e improváveis de obterem sucesso. Pensei maduramente nisso ao ver o nosso jogo em Arouca. E caro Leitor, há que dizê-lo com frontalidade: Rúben Amorim é o nosso Professor Pardal e o Rochinha ontem foi o seu Lampadinha, o protótipo de uma ideia de ponta de lança que traduz a negação da realidade.  

 

É também, realmente, um Azar dos Távoras ter no plantel um jogador irregular mas com uma obsessiva vocação para marcar golos decisivos como o Jovane. E ainda mais azar é dar-lhe uma grandíssima oportunidade e ele, em dois ou três minutos, não conseguir resolver a eliminatória da Taça com o Varzim. Lá está, o Rúben tinha razão, o cabo-verdiano é muito ansioso. Eu também, de cada vez que repetidamente o Trincão desperdiça os 90 minutos que regularmente o Rúben lhe concede. Vai daí, o Jovane continua a ver os jogos à flor da relva (banco de suplentes) e o Trincão continua a ver a relva através dos jogos (ainda se tirasse os olhos do chão...). 

 

Finalmente, no Sporting é comum que quando um treinador começa a sentir-se apertado aposte na Formação. Contudo, convém haver um critério. Por exemplo, eu até admito que o Mateus Fernandes se tenha cansado demasido devido aos 29 minutos que jogou em Londres e que o Essugo fosse mais indicado para um jogo que se antevia mais físico, mas já não entendo que na ausência de um placebo que nos dá a sensação de "wishful thinking" e custou uns módicos 16 M€ (por 70% do passe) não se convoque o tal ponta de lança proveniente da Formação que tinha servido à narrativa de que não era necessário ir ao mercado contratar alguém para marcar golos. Por isso, mais do que ansiar pela pausa do Campeonato do Mundo a fim de podermos recuperar alguns lesionados, eu suspiro por essa interrupção para que possamos recuperar o ... Rúben Amorim.

 

E agora é esperar que na terça-feira esta montanha russa de emoções continue e levemos de vencida o Frankfurt... (Caso contrário, depois da salsichada que foi este início de época, iremos ter de nos conformar com uns enlatados até ao fim.)

 

PS: Saudades de ver Palhinha a destruir tudo o que lhe aparecia pela frente e Matheus Nunes a quebrar sucessivamente as linhas do adversário. Se falharmos a Champions, não se esqueçam de debitar esse "custo" (quebra de Proveitos) aos valores dessas duas transferências.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pedro Porro 

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27
Out22

Tudo ao molho e fé em Deus

Nem sei o que vos Conte: Do tabuleiro de Xadrez para o ringue de Boxe


Pedro Azevedo

A propósito da apresentação do orçamento que levou à demissão da conservadora(?) Liz Truss, o The Economist congeminou uma capa onde sob o título "Welcome to Britaly" caricaturou a anterior primeira-ministra britânica, representando-a como a mítica Britânia, sim, porém com uma pizza com as cores da bandeira italiana a recriar o escudo e um garfo com esparguete a acompanhá-lo (em vez do tridente). Assim, satiricamente, ainda que recorrendo a estereótipos, a prestigiada publicação pretendeu demostrar que o orçamento despesista de Truss significava uma aculturação da Grã-Bretanha a Itália. Pensei nisto ontem à noite enquanto assistia à primeira parte do Tottenham-Sporting, ao ver Antonio Conte, ao leme de uma equipa inglesa, a especular com o jogo à maneira da melhor tradição italiana. Por isso a alvorada do encontro (antipasti) assemelhou-se a um jogo de xadrez, com as peças a serem movidas a um ritmo lento e muito pensado, como se ambas as equipas quisessem sobrepor a exploração do erro do adversário à vontade de mostrar cabalmente a sua superioridade, estratégia cuja responsabilidade maior recaiu, obviamente, sobre a equipa teoricamente mais forte, o Tottenham. Só que do lado do leão ainda sobrava um inglês não aculturado e capaz de trocar a elaborada pasta pelo pragmatismo do "fish&chips". Vai daí, fintou um e foi andando por ali abaixo sem que vivalma se lhe atravessasse pelo caminho até que se decidiu por disparar uma batata que Lloris não conseguiu deter. Tal deve ter custado muito a engolir a Conte, mas a peixeirada só viria mais tarde...

 

Até ao golo de Edwards a letargia da partida só havia sido abanada pela fúria espanhola de Porro, que ganhou a linha de fundo e centrou para o Paulinho aliviar para pontapé de baliza. (Dá sempre jeito a uma equipa ter um central que não faz cantos.) No entretanto, o Trincão abstinha-se de trincar a área, fugindo dela a sete pés de cada vez que a bola aí o conduzia. [Apesar de raramente tirar os olhos do chão, o Trincão vem equipado com o kit da última tecnologia de linha de grande área ("Penalty-Box Technology") que o adverte da sua iminente proximidade.] Só que Morita e Ugarte sobravam para as intenções inglesas e o intervalo chegou com o Sporting em vantagem, a qual poderia até ter sido mais dilatada não fora a infelicidade de o árbitro ter visto um Ronny perpetrado pelo Coates. (Foi você que pediu um Porto, perdão, João Ferreira? O melhor é só seguirmos os nossos próprios Paços, perdão, passos.)

Se durante o primeiro tempo Conte quis pôr o Tottenham a jogar à italiana, para a segunda parte conformou-se e devolveu a alma britânica à equipa. O efeito foi imediato. Assim, se primeiro houve xadrez, agora tínhamos boxe, com o Sporting remetido às cordas. A dado momento a coisa assemelhou-se ao Rumble in the Jungle, em alusão ao célebre combate disputado no antigo Zaire, em 30 de Outubro de 1974, onde Ali defrontou Foreman e passou quase todo o combate a levar pancada. Para o emular, não faltaram até as "patadas" de um argentino (Romero) que quase arrancava Paulinho pela raiz. Acontece que Ali só precisou de um soco para nocautear Foreman no oitavo assalto depois de o cansar ao fazê-lo correr permanentemente em sua direcção. O Ali ou aqui, foi o que quase ocorreu quando Nazinho teve não uma mas duas oportunidades de fazer KO aos ingleses, depois de magistrais jogadas de Arthur, um brasileiro com nome de cavaleiro britânico e a mesma utopia de uma távola redonda onde todos têm a mesma relevância e se sentam à mesma mesa. Só que a história nem sempre se repete, e na verdade tal nem seria justo porque após a saída de Nuno Santos o nosso lado esquerdo tornou-se um passe-vite por onde os ingleses foram triturando a nossa defesa. De forma que a conjugação dos provérbios "tantas vezes o cântaro vai à fonte até que parte" e "no melhor pano cai a nódoa" uniu-se e Adán negligentemente permitiu o golo do empate dos Spurs. (Já vimos isto tantas vezes na história do nosso clube que também já sabíamos de cor o que estava para vir.)

 

O golo inglês trouxe os habituais comentários entre Sportinguistas em que a Lei de Murphy é frequentemente invocada como razão das nossas maleitas. (Como podem os nossos jogadores sentirem-se confiantes no campo se os adeptos que os apoiam tremem como varas verdes ao primeiro contratempo? Não podem, na verdade, e essa é a nossa triste realidade.) E, para não variar, ao cair do pano o Citizen Kane marcou um golo e todos pensámos que já tínhamos ido de trenó para fora da Champions (ou, alternativamente, de Casio 850P na mão a calcular produtos de matrizes de modelos de regressão linear e outras cenas matemáticas que nos dariam uma ténue hipótese). Euforia em Londres, mas eis que as linhas com que se cose (coze?) o VAR detectaram uns pelos a mais no peito do avançado inglês e anularam o golo. O Conte voltou a ser italiano e foi expulso. O jogo terminou. 

 

Na última jornada tudo pode acontecer no nosso grupo, sendo que podemos ficar em primeiro ou segundo (qualificação para os oitavos da Liga dos Campeões), em terceiro (dezasseis-avos da Liga Europa) ou quarto lugar (faca na Liga), no fundo um final que é uma sinopse perfeita sobre a aleatoriedade de um clube, o nosso, do 8 e do 80, onde há anos uma linha (de VAR?) muito ténue separa o sorriso mais rasgado da lágrima mais pungente.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Edwards. Menções honrosas para Ugarte e Coates.

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23
Out22

Tudo ao molho e fé em Deus

O triunfo do indeterminismo ontológico sobre a Lei de Murphy


Pedro Azevedo

Há momentos na vida em que parece que perdemos o controlo da situação por muito que trabalhemos para inverter o rumo das coisas. É como se houvesse uma transferência total daquilo que depende de nós para o domínio do divino e Deus nos estivesse a tentar ensinar uma qualquer lição que provavelmente só um dia na eventualidade de chegarmos à Sua presença haveremos de compreender na sua plenitude. Como não temos o telefone de Deus e não podemos esperar por respostas que só os anos nos trarão, precisamos de viver o presente pelo que resta-nos continuar a lutar. (Porquê, desconhece-se o propósito, desconfiando-se no entanto que o seu contrário não seja uma alternativa.) E porventura adicionar algo de novo, porque trabalhar muito nem sempre significa trabalhar bem e, ainda assim, "água mole em pedra dura tanto bate até que fura" (um adágio popular preenche satisfatoriamente o vazio gerado quando o indeterminismo ontológico começa a patinar e até já duvidamos da existência do livre-arbítrio). 

 

Pensei em tudo isto enquanto revia na TV a visita do Casa Pia ao nosso Estádio José Alvalade, porque confesso que as incidências do jogo em tempo real haviam-me apanhado em dois momentos distintos: entre umas migas de espargos com carne de alguidar e um copo de tinto para acamar, o primeiro tempo, e docemente desfrutando da cereja em cima do bolo (mais concretamente, da ameixa a derreter no topo da sericaia), a segunda parte. (Há muito tempo que não via um jogo do Sporting em diferido, mas o bom do Alentejo é que o tempo lá tem o seu próprio tempo de uma forma que, tal como o seu céu mais estrelado, nos permite ver melhor as coisas, mesmo aquelas que não são dos astros mas mexem com o nosso astral.) 

 

Pois é, caro Leitor, segundo incialmente ouvi e posteriormente vi com uma avidez mais própria de um São Tomé, o Sporting dominou superiormente o jogo do princípio ao fim. Mas iam sucedendo-se coisas incríveis, como o Edwards não acertar a baliza quando a um palmo do poste ou o ex-leão Ricardo Baptista emular um Sepp Maier de ébano uma mão cheia de vezes, pelo que que não surpreendeu que Alvalade voltasse a ser terreno fértil para a aplicação da Lei de Murphy: foram só duas as vezes que o Casa Pia se abeirou da nossa baliza, e se na primeira ameaçou na segunda marcou - Um a Zero para os gansos ao intervalo.

 

Para o segundo tempo o Amorim decidiu mudar alguma coisa. Não é que o Sporting estivesse a jogar mal, pelo contrário a equipa havia feito provavelmente a melhor primeira parte deste campeonato, mas, lá está, por vezes é preciso mudar alguma coisa só porque sim ou apenas porque a justiça divina caprichosamente assim o exigirá no seguimento dos apelos dos adeptos Sportinguistas terem chegado ao céu (esta premissa não se aplica obviamente a quem manda no futebol português, a quem dá jeito mudar alguma coisa para que tudo fique precisamente igual). E então entrou alguém da Formação, no caso o Chico Lamba, que até nem é titular das nossas equipas jovens. (Mas o que interessa isso quando o nosso único propósito é agradar a Deus, mudar a nossa sorte e fazê-lo mostrando um livre-arbítrio que não vá totalmente em desencontro com os misteriosos desígnios do Senhor? Nada, na verdade.) E depois avançou o Paulinho, que é o que temos de mais próximo de um ponta de lança quando o Coates está indisponível e logo empatou o jogo. (Enquanto o Rúben se deleita com os móveis, os 3 avançados móveis, os adeptos recorrem ao divã de um psicanalista, assistem aos jogos no sofá ou atracam-se terapeuticamente à escrivaninha a escrever textos do Castigo Máximo, o que também são 3 móveis) 

 

E depois? Bom, depois veio o Nuno "Coração de Leão" Santos e adiantou-nos no marcador com um remate geometricamente irrepreensível, após serviço de Porro. Não tardou até que uma das investidas com que secretamente o Messi se disfarça de Edwards redundasse em falta na área e do penalty consequente o Pedro Gonçalves encontrasse o Pote de Ouro. A noite era agora de festa, tal como o futebol sempre deveria ser, ganhando ou perdendo, e alguns "jovens" cabecilhas leoninos com os velhos pensamentos de sempre - eles estão sempre lá e isso eu respeito, mas é a tal história de trabalhar muito ou trabalhar bem, além de que continuar-se-ão a chamar a si próprios de jovens mesmo no dia em que visitem o estádio em andarilho - insistem em confundir com desordem e desrespeito pelo clube e pelas normas instituídas. [Eu sei, a rebeldia é própria dos jovens, mas é autofágica quando aplicada contra a nossa ca(u)sa.]

 

(Assim terminou um jogo em que o indeterminismo ontológico prevaleceu sobre a Lei de Murphy, com o Rúben a cumprir com a sua parte.)

 

P.S. Pensando bem, o problema do Trincão é capaz de ser o excesso de livre-arbítrio...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pedro Porro. Menções honrosas para Morita, que deixou o duplo-pivô e foi um "8" puro, Edwards e Nuno Santos. 

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19
Out22

As causas das coisas


Pedro Azevedo

Quando se fala do actual momento da equipa de futebol do Sporting é possível fazer uma súmula das principais críticas efectuadas por sócios e adeptos. Estas são: 1) A protecção que alegadamente Amorim dá a certos jogadores do plantel; 2) A ausência de um ponta de lança matador; 3) A falta de aposta na Formação; 4) A venda não devidamente compensada (desportivamente) de Matheus Nunes; 5) A menor qualidade dos reforços; 6) A imutabilidade do sistema táctico. 

 

A meu ver as críticas fazem sentido nos 4 primeiros pontos, são apenas em parte justificadas no ponto 5 e duvido que tenham nexo de causalidade no 6º ponto. Adicionalmente, creio haver um 7º ponto, que correlaciona com o 4º, não tão falado e que eventualmente estará a ter mais peso nos resultados e exibições que quaisquer dos outros comumente apontados por sócios e adeptos. 

 

Vou passar a explicar: é certo que a insistência em Esgaio e Paulinho parece carecer de meritocracia. O lateral/ala tem cometido arros sucessivos (Braga, Boavista, Santa Clara, Marselha cá e lá...) que na sua esmagadora maioria custaram pontos e o ponta de lança ainda só marcou 1 golo (ainda que importante, contra o Tottenham) desde o início da época. Se no caso de Esgaio tal mais realça o enigma do empréstimo do jovem Gonçalo Esteves ao Estoril (ainda mais sabendo-se do histórico de lesões musculares de Porro), no que concerne a Paulinho questiona-se a razão pela qual a ida ao mercado para buscar uma alternativa não foi equacionada. Poderia ter sido para dar oportunidades a Rodrigo Ribeiro, mas não, pelo que num e noutro caso emerge a falta de aposta na Formação: não só o jovem e promissor lateral/ala deixou o plantel como a única alternativa a Paulinho (Rodrigo Ribeiro) não tem tido possibilidade de jogar. Rúben alega que o momento não é o melhor para lançar jovens, mas sendo o momento de uma equipa uma situação imprevisível no mundo do futebol pergunta-se porque então foi entendido ser Rodrigo a única alternativa a Paulinho. É-se alternativa para nunca jogar? Claro, pode sempre invocar-se a opção pelo ataque móvel como justificação, mas no ponto 7 procurarei explicar que essa opção trouxe mais inconvenientes que vantagens à equipa do Sporting. Ainda no que respeita aos jovens, só à luz de pura propaganda se entende a aposta não continuada em Dario Essugo ocorrido na época passada. Já no que se refere a Mateus Fernandes é difícil de perceber o motivo de ainda não ter sido opção, dado o actual elenco de médios. (Uma nota: Rúben diz que o momento não é o melhor para lançar jovens, mas curiosamente a única oportunidade que concedeu a Rodrigo Ribeiro ocorreu quando o Sporting já perdia por 2 a 0, em casa, contra o Chaves.) Esta tergiversão no que respeita à Formação, bem como a insistência no mesmo ponta de lança e a protecção a jogadores "preferidos", tem tido impacto nos resultados desportivos. Mas, mais até do que nos resultados, tem tido repercussão no estado de espírito de sócios e adeptos, o que faz com que o que ontem seria impensável (haver já quem veja o treinador mais como um problema do que como uma solução) hoje esteja a ser equacionado. Do meu ponto-de-vista precipitadamente, até porque não trocaria um treinador que ainda recentemente nos deu um campeonato e mostrou consistência numa segunda época completa por outro (Abel Ferreira) que pode ter ganho duas Libertadores e vir a ser campeão brasileiro esta época mas não me dá a garantia de triunfos similares no Sporting. Além disso, se li bem o que se tem passado, o que está mais a constrangir a equipa nem é da responsabilidade directa de Rúben. Passo a explicar: para mim, a saída de Matheus Nunes, pelo que individualmente valia e pela compatibilidade com o jogo da equipa/características dos colegas, não foi devidamente colmatada e está na origem directa de um jogo ofensivamente arrastado e sem acelerações e de uma maior exposição dos nossos defesas. Não é que Morita não tenha imensa qualidade (e aqui entramos no tema dos reforços), mas embora partilhe com o luso-brasileiro a técnica apurada não tem o motor nem a presença física deste. Já o jovem grego (Alexandropoulos) tem apenas o transporte de bola em comum com Matheus, pois fica bastante aquém na capacidade técnica (passe, recepção, remate, drible), explosão no arrranque (Matheus era especialmente imprevisível quando recebia de costas para a baliza adversária, rodando com igual facilidade para a esquerda ou direita) e decisão (timing de largar a bola). St Juste é um central com técnica e velocidade, qualidades que lhe permitiriam facilmente ocupar a posição de lateral. Infelizmente, cada vez mais se assemelha a um homem de cristal (lembram-se do Jeffren?) e a gestão do seu estado físico aparenta ser pouco coerente. (Apressa-se o seu regresso para depois numa perspectiva conservadora jogar o mínimo de tempo possível e ser substituído, mas muitas vezes nem a perspectiva conservadora o salva e sai novamente lesionado.) Depois há o Edwards, que é claramente o malabarista desta equipa, um jogador com grandes recursos ofensivos mas com carências que explorarei no tal 7º ponto. O inglês destaca-se de Trincão por jogar de cabeça levantada, ter um drible mais imprevisível e uma melhor decisão. Com Edwards e Trincão na equipa, Fatawu parece redundante. E ainda chegou Arthur, que impressionou no pouco tempo que esteve em campo com o Tottenham e só voltou a jogar com o Santa Clara, desaparecendo depois. Quantos aos outros, o Marsá pode vir a fazer a diferença, o Israel nem tanto. Em resumo, não creio que globalmente os reforços sejam maus. Por exemplo, o Morita é um excelente jogador de futebol e o Edwards é um extraordinário jogador de bola (futebol de rua), a precisar de mais compromisso com a equipa e o jogo. O St Juste sem lesões será muito útil e o Marsá tem uma saída de bola que impressiona. Outros há que parecem não aquecer nem arrefecer, sendo de questionar se não haveria na Formação igual ou melhor. Já Trincão não tem justificado até agora o racional da sua contratação, seja em termos absolutos ou por via da comparação com Sarabia.   

 

A alegada imutabilidade do sistema táctico muitas críticas tem valido a Rúben Amorim. Mas aqui estou com ele. Os sócios e adeptos dizem não haver um Plano B, mas a verdade é que já vi o Sporting terminar a jogar em 3-2-5, o célebre WM (exemplo: Gil Vicente, em casa, no ano do título). Além disso, várias nuances têm vindo a ser adicionadas ao nosso tradicional 3-4-3: Paulinho chegou a jogar a partir da esquerda com Slimani no meio, a lembrar o que Mourinho fez com Derlei e McCarthy  no Porto campeão europeu; Matheus passou para a meia-esquerda e Pote ficou a jogar de perfil com Palhinha; a dado momento da época passada houve uma clara intenção de dar mais dinâmica atacante à equipa, com Amorim a preterir Palhinha em detrimento de Ugarte. Em todas essas alterações notou-se a preocupação de Amorim em melhorar a equipa e/ou torná-la menos previsível, porém nem sempre resultaram. (Ainda hoje não sei se não teríamos ganho o campeonato, se o Matheus tem continuado a jogar a partir do centro e não derivado mais para a esquerda.) De notar que com o plantel actual o 4-3-3, o 3-5-2 ou mesmo o 4-4-2 seriam sistemas ainda mais desadequados a um único ponta de lança e com as características de Paulinho. Por fim, cumpre lembrar a todos os  que gostam de mudanças de sistema operadas durante os jogos que o nosso antigo treinador, Silas, mudava de sistema como quem substitui um jogador. Com os resultados conhecidos... (E é difícil alterar um sistema à terceira jornada de um campeonato e quando se trabalhou na pré-época a contar que Matheus ficasse e ajudasse a mitigar os possíveis desequilíbrios defensivos que jogadores entretanto adquiridos com menor propensão para pressionar na frente poderiam previsivelmente causar.)

 

Analisados os principais pomos de discórdia, entro agora no tal enigmático ponto 7 que imediatamente desvendarei: defensivamente a equipa comporta-se muito pior do que em 20/21 ou 21/22 por motivos muito concretos. Senão vejamos: o Sporting de 20/21 tinha Sporar como ponta de lança. Ofensivamente falhava golos incríveis, mas defensivamente trabalhava que nem um mouro. O Sporting pressionava muito à frente, no que também Tiago Tomás era bastante útil (e o raçudo Nuno Santos, que nessa era jogava lá na frente, como interior). Depois havia Palhinha, que era um polvo e disfarçava a menor intensidade de João Mário. Este acabava quase sempre substituído por Matheus Nunes, que trazia a força que começava a faltar ao meio-campo e ainda como "plus" marcava golos decisivos como contra o Benfica, em Alvalade (onde foi titular), ou ao Braga (cá e lá). Com a substituição de Sporar por Paulinho e o gradual apagamento de TT, o Sporting começou a ser mais permável defensivamente. Tal pode ser atestado pelo maior número de golos sofridos nessa segunda volta, mas também pelo desempenho na época seguinte. Ainda assim, os números eram perfeitamente razoáveis e dignos de um sério candidato ao título. Todavia, este ano tudo mudou. Para pior. E a meu ver há uma razão para isso. Com o ataque móvel passámos a ter dois dianteiros (Edwards e Tricão) que não defendem, a que acresce um Pote menos lutador que em anos anteriores. Isso poderia ter sido mitigado havendo Palhinha e Matheus Nunes. Ambos porém foram vendidos, o que justifica o mal-estar que Amorim não se coibiu de exibir publicamente. Aliás, em defesa do treinador é preciso dizer que estava bem consciente do desequilíbrio que a saída de Matheus poderia provocar, nomeadamente quando antes da sua saída afirmou preferir manter todos os jogadores a ir ao mercado. Ora, não estando em causa a valia de Ugarte ou de Morita, nenhum deles consegue impôr tanto o corpo, esticar o jogo, desgastar os adversários e regressar á posição inicial (como se estivesse ligado à equipa por um elástico) tantas vezes num jogo como o Matheus Nunes. E se o adversário tem fôlego e encontra menos oposição, então tem a sua vida facilitada, o que é inversamente proporcional à vida da nossa defesa. Acresce que o nosso jogo ofensivo também se tornou mais pastoso após a saída de Matheus, facto aliás reconhecido pelo olho certeiro de vários Leitores deste blogue. É que o Menino do Rio tirava rapidamente a bola da zona de pressão e em duas/três passadas já ameaçava a área contrária. Morita é um belíssimo jogador, mas é mais de passe e menos de transporte, o que significa que tem dificuldade em produzir jogo atacante se não tiver referências de passe, mas Matheus estava num patamar superior. Havia melhorado muito o passe frontal e o remate à baliza (aspectos da "decisão") e conciliava agilidade com técnica irrepreensível e velocidade de condução de bola. Sem ele, hoje em dia há uma inglória sobreutilização dos flancos e dos cruzamentos para um ponta de lança com características mais eufemisticamente ditas de associativas e menos de finalização nata, o qual fica a parecer pior do que é precisamente devido ao menor fluxo de jogo interior (a lentidão no transporte de bola leva ao reposicionamento do adversário e congestão da zona central, restando as alas para tentar criar o desequilíbrio). Por isso digo que a saída de Matheus desestabilizou treinador e equipa e dou mérito ao treinador por imediatamente ter percebido a falta que o Menino do Rio viria a fazer, não esquecendo que se não fosse Rúben o Matheus provavelmente ainda andaria a bater à porta da equipa A (ideia peregrina anunciada por Silas aquando da sua passagem pelo Sporting). 

 

Olhando para todos os aspectos aqui considerados e pensando eu que a serenidade voltará à acção e ao discurso de Rúben, não tenho dúvidas de que apesar da sua quota de responsabilidade na nossa actual crise ainda é o treinador que nos dá mais garantias no presente. E para o futuro, caso retorne a interrompida aposta na Formação. Creio é que os sócios e adeptos estão fartos de assistir a este jogo de espelhos, de fontes luminosas, novas ou pereira de melo citadas por jornais, por onde Direcção e treinador vêm vendendo as suas razões. Entendam-se! (É que os jogadores também assistem a estas coisas e a autoridade de quem os lidera não se pode perder.) 

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